O cientista Oswaldo Cruz (1872 – 1917), prefeito de Petrópolis

 

 

*Cristiane d’Avila com a colaboração de Ana Luce Girão

 

 

Em 2017, por ocasião do centenário de morte de Oswaldo Cruz (1872 – 1917), a Fiocruz instituiu o Ano Oswaldo Cruz, com o objetivo de divulgar para a sociedade a história do cientista e daquele que pode ser considerado seu maior legado: firmar uma instituição científica em um país recém-saído da escravidão, economicamente dependente e com profundas desigualdades sociais e regionais[1]. Para lembrar a data, contamos alguns detalhes sobre os últimos dias de vida de Oswaldo Cruz, que, mesmo gravemente doente, aceitou o desafio de realizar um projeto ambicioso: um extenso plano de urbanização e organização do serviço sanitário na cidade de Petrópolis, considerada refúgio de boa parte da elite do Rio de Janeiro, capital da República, no início do século XX.

Não era qualquer cidade. Quando o presidente do Estado do Rio de Janeiro, Nilo Peçanha (1867 – 1924), convidou Oswaldo Cruz para assumir a recém-criada prefeitura de Petrópolis, em 1916, dava a ele um cargo à altura do cientista. Residência de todo o corpo diplomático durante o ano e da elite política, financeira e intelectual da capital na estação calmosa, o verão – quando o presidente da República se deslocava do Rio para o pomposo Palácio Rio Negro –, Petrópolis vivia um momento político conturbado.

Na imprensa carioca e petropolitana os articulistas não se cansavam de denunciar a “politicagem”, atrelada ao maquinismo político-eleitoral, que impedia o progresso da “princesa do Piabanha”, entre as inúmeras alcunhas atribuídas à bela cidade serrana. Acusado de nada fazer pela população além de cobrar-lhe impostos, o grupo majoritário, organizado na Câmara Municipal, não via com bons olhos a decisão unilateral do governo fluminense, que impusera a criação da prefeitura e oferecera o cargo ao ilustre higienista.

Em contrapartida, Oswaldo Cruz, consagrado nacional e internacionalmente pela campanha empreendida contra a febre amarela, varíola e peste bubônica, iria somar à urbe, célebre pela beleza e salubridade, mais que o reconhecimento como destino privilegiado para o lazer da elite carioca. Escolhera-a como alvo de um novo e ambicioso projeto de trabalho, que incluía ações de saneamento, urbanização e educação pública.

Bastante debilitado pela nefrite que o acometera ainda jovem, o cientista decidiu acatar a recomendação do médico Salles Guerra e, mesmo contrariado, se afasta da dura rotina no Instituto Soroterápico Federal, nessa época já denominado Instituto Oswaldo Cruz. Nilo Peçanha o havia indicado para assumir a prefeitura de Petrópolis e o filho Bento (1895 – 1941) reforçava o coro, insistindo para que o pai se mudasse para a residência de veraneio da família na cidade, na rua Montecaseros, em busca do tão necessário repouso. Para não arrefecer os ânimos do cientista, ofereciam a ele não apenas o cargo político, mas uma nova frente de trabalho, um novo desafio, tão ao gosto de seu temperamento.

Imbuído da missão, Oswaldo, com o filho Bento e Salles Guerra, toma um barco a vapor no cais Pharoux, atual Praça XV, e em pouco mais de uma hora chega ao porto localizado no fundo da Baía de Guanabara. De lá embarca nos vagões da Estrada de Ferro Mauá, que conduziam os passageiros até a Raiz da Serra. Daquele ponto em diante, o trem subia a serra pelo moderno sistema de cremalheira até o lugar denominado Alto da Serra, onde atualmente fica a Rua Teresa.

O percurso completo, que no passado recente levava quatro horas, naquele ano já era percorrido em cerca de duas. Sem perder tempo, no dia 17 de agosto Cruz toma posse e, no dia 18, apresenta seu plano de ação para a prefeitura. Em carta ao colega Cândido Martins, chefe interino do executivo municipal que o convidara para o cargo, pede discrição e nenhuma pompa na ocasião da posse:

‘Meu ilustrado colega Dr. Candido Martins,

Aqui me acho à sua disposição pronto assumir o cargo de Prefeito. Se me fosse permitido esperar de sua gentileza um obsequio eu rogaria a meu simpático e generoso colega o favor especialíssimo de me dar posse da mais absoluta intimidade e sem a menor solenidade. Se for possível, hoje e nesse caso rogo o obsequio de comunicar ao portador deste – meu filho e nosso colega Bento Cruz – a hora em que deverei comparecer a Prefeitura para receber suas ordens. Estou certo que não me negará o solicitado aqui e aguardando ancioso (sic) sua resposta afirmativa peço aceitar os protestos da mais viva simpatia e distinta consideração do colega muito grato.

Ass. Gonçalves Cruz’

O articulista do jornal petropolitano Diário da Manhã, em edição de 6 de agosto de 1916, assim definiu a indicação de Cruz ao posto: “… para restituir a ordem e a moralidade administrativa, que de Petrópolis foram desgraçadamente expulsas… e arrancar a gestão dos negócios da municipalidade à faminta voracidade e à ingenuidade inepta de seus gestores”. Nomeado, Oswaldo Cruz apresenta seu amplo projeto, contendo 26 objetivos, com propostas de intervenção em inúmeras frentes, do embelezamento da cidade ao saneamento financeiro das contas públicas, da urbanização à gestão da saúde e da educação infantil.

As medidas propostas, no entanto, causaram imenso reboliço em parte da Câmara Municipal, que passou a organizar manifestações em frente à casa do prefeito, cujo estado de saúde se agravava progressivamente. Em janeiro, Oswaldo Cruz afasta-se por tempo indeterminado do trabalho, mas sua licença médica não atenua as manifestações. “Latas de querosene e gritos da ralé, que num ofertório de gentilezas de hienas excitadas vinha trazer ao ex-prefeito o testemunho do seu regozijo pela provável restituição do governo municipal à camarilha que o explorava”, relata o médico e contemporâneo de Cruz, Ezequiel Dias.

Após intenso processo de sofrimento causado pela moléstia, Oswaldo Cruz entra em coma, vindo a falecer no mesmo dia, em 11 de fevereiro de 1917, aos 44 anos, em sua casa de Petrópolis. Suas “Ideias e Projetos”, como definiu o plano para a gestão da cidade, não chegaram a sair do papel, ao menos exatamente como programou. São eles:

Ideias e Projetos

Petrópolis – 18 de agosto de 1916

- Encampação do Banco Construtor

- Encampação da Fazenda Imperial e resgate dos foros pelos proprietários

- Imposto (2$000 por metro) sobre terrenos devolutos

- Desenhista de jardins

- Preparo de gás pobre com lixo e produção de energia elétrica para os britadores e oficinas

- Aquisição e manutenção de condução para o Prefeito e Inspetor de Obras

- Rede de esgotos

- Substituição na prefeitura das carroças de tração animal por automóveis

 – Regulamentação e fiscalização da venda do leite

- Organização do serviço sanitário

- Barragem dos rios e revestimento do alvéo com seção ovoide – formação de quedas d´água em degraus

- Formação dum lago à feição do Bois em Serpentina

- Construção de um edifício de Diversões

- Bondes – linha circular Castelânea Alto da Serra

- Rosário

- Plantio de flores nas margens dos rios

- Organização do ensino primário

- Fiscalização do ensino de Português nas escolas estrangeiras

- Museu histórico do Império e Jardim Botânico no Palácio Imperial

- Parque para ginástica das escolas e educação física obrigatória para todos colégios

- Calçamento de macadame asfaltado e interlinha dos bondes a paralelepípedos

- Estatística da população e índice de analfabetismo

- Revisão do imposto predial

- Repressão da mendicância e criação de asilos para mendigos

- Matadouro e laboratório

 

Reprodução da carta enviada por Oswaldo Cruz ao sr. Cândido Martins, em 17 de agosto de 1916:

fiocruz

 

Saiba mais sobre Oswaldo Cruz acessando a Biblioteca Virtual Oswaldo Cruz.

 

* Cristiane  d’Avila é jornalista e Ana Luce Girão é historiadora do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz)

 

Fontes:

 

Casa de Oswaldo Cruz. Carta de Oswaldo Cruz para Cândido Martins. Dossiê BR RJCOC OC-PET-01, Fundo Oswaldo Cruz, 1916.

___________________. Diário da Manhã, Petrópolis, 6 de agosto de 1916. Dossiê BR RJCOC OC-PET-01, Fundo Oswaldo Cruz, 1916.

___________________. Ideias e projetos. Dossiê BR RJCOC OC-PET-01, Fundo Oswaldo Cruz, 1916.

D’AVILA. Cristiane. Fantasia na serra: representações de Petrópolis na mídia impressa. 2005. 120 f. Dissertação (Mestrado em Comunicação Social) – Departamento de Comunicação, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, PUC-RIO. Rio de Janeiro.

GUERRA, E. Salles. Oswaldo Cruz. Rio de Janeiro: Casa Editora Vecchi Limitada, 1940.

 

[1] Texto extraído do cartaz digital de divulgação da palestra “Ciência, saúde e projeto nacional: o legado de Oswaldo Cruz”, promovida e realizada em 9 de novembro de 2017 pela Fundação Casa de Rui Barbosa, pelo centenário de morte de Oswaldo Cruz.

 

Pequena cronologia de Oswaldo Cruz desde sua nomeação à prefeitura de Petrópolis até sua morte

1916

julho 

Oswaldo Cruz foi nomeado prefeito de Petrópolis por Nilo Peçanha. Foi pelo jornal O Paiz  como um homem de ciência em que a cultura brasileira se orgulha, saneador benemérito do Rio de Janeiro, criador de Manguinhos, membro da Academia Brasileira e uma das mais altas, complexas e belas figuras nacionais (O Paiz, 31 de julho de 1916, quinta coluna). No mesmo dia e no mesmo jornal, sua nomeação à prefeitura de Petrópolis foi o tema da coluna “Pall-Mall-Rio”, escrita por José Antônio José, o João do Rio (1881 – 1921) (O Paiz, 31 de julho de 1916, última coluna).

agosto

A nomeação de Oswaldo Cruz para a prefeitura de Petrópolis é elogiada e saudada em coluna semanal da revista O Malho como um ato que o povo recebe com um sorriso de satisfação, só por ver a cara com que ficam os inventores de negociatas e os politiqueiros contumazes (O Malho, 5 de agosto de 1916, segunda coluna).

Oswaldo Cruz esteve no gabinete do ministro da Justiça, Carlos Maximiliano Pereira dos Santos (1873 – 1960) (O Paiz, 2 de agosto, quinta coluna).

Oswaldo Cruz e o governador do Rio de Janeiro, Nilo Peçanha, estiveram em Petrópolis (O Paiz, 2 de agosto de 1916, última coluna).

Oswaldo Cruz telegrafou ao senador José Leopoldo de Bulhões Jardim (1856 – 1928) informando que não poderia tomar posse na prefeitura de Petrópolis em 8 de agosto por estar enfermo (O Paiz, 7 de agosto de 1916, última coluna). Foi o senador Bulhões que sucedeu Oswaldo Cruz na prefeitura de Petrópolis, em fevereiro do ano seguinte.

Devido ao impedimento de Oswaldo Cruz, o sr. Cândido José Ferreira Martins, na época vice-presidente da Câmara Municipal de Petrópolis, assumiu a prefeitura da cidade (O Paiz, 10 de agosto de 1916, terceira coluna).

Em nome de Venceslau Brás (1868 – 1966), presidente da República, Helio Lobo, secretário da presidência, fez uma visita a Oswaldo Cruz, que continuava doente (O Paiz, 11 de agosto de 1916, segunda coluna). No dia seguinte, Oswaldo Cruz recebeu a visita de Arthur Obino em nome do ministro da Justiça (O Paiz, 12 de agosto de 1916, segunda coluna). Quatro dias depois, Cruz visitou o ministro da Justiça em agradecimento à visita de Obino (O Paiz, 17 de agosto de 1916, primeira coluna).

Oswaldo Cruz foi eleito vice-presidente da recém criada Academia Brasileira de Ciências, presidida por Henrique Morize (1860 – 1930) (O Paiz, 17 de agosto de 1916, última coluna). O francês naturalizado brasileiro Henri Charles Morize ou Henrique Morize era engenheiro e astrônomo. Além de ter sido o primeiro presidente da Academia Brasileira de Ciências, de 1916 a 1926, , foi também diretor do Observatório Nacional entre 1908 e 1929. Em torno de 1897, realizou experiências cinematográficas com o fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923) e com Tasso Fragoso (1869 – 1945), na época aluno da Escola Militar e posteriormente general.

Foi publicada a notícia de que Oswaldo Cruz já estava completamente restabelecido da enfermidade que o acometera (O Paiz, 18 de agosto de 1916, quarta coluna).

Finalmente, em 18 de agosto, Oswaldo Cruz assumiu a prefeitura de Petrópolis. Cândido José Ferreira Martins expôs a ele a situação financeira do município e os trabalhos que havia executado. Foi então feito um balanço no cofre da tesouraria e um termo foi assinado por Oswaldo Cruz, Cândido Martins, Arthur Barbosa e por mais três funcionários. A posse de Oswaldo Cruz não se revestiu de solenidade como era desejo da maioria dos vereadores por ter o mesmo solicitado a mais absoluta intimidade em carta dirigida ao prefeito interino, Cândido Martins. Acompanhado por ele e por Arthur Barbosa, Cruz visitou todas as seções da administração municipal e depois telegrafou a Nilo Peçanha, informando ter assumido a prefeitura de Petrópolis. Foi apresentado a todo o funcionalismo da cidade pelo coronel José Land. Também recebeu vários telegramas, cartas e visitas pessoais (O Paiz, 20 de agosto de 1916, segunda coluna e Gazeta de Notícias, 20 de agosto de 1916, última coluna).

Oswaldo Cruz convocou o conselho de vereadores de Petrópolis para uma reunião extraordinária em 1º de setembro. Entre as medidas da convocação, encontram-se a criação do imposto de testada, autorização para contrair um empréstimo e para fazer operações de crédito(O Paiz, 26 de agosto de 1916, última coluna).

setembro

Oswaldo Cruz foi visitado pelos vereadores Cândido Martins e Arthur Barbosa ficando combinada a instalação do Conselho na próxima semana (O Paiz, 3 de setembro de 1916, segunda coluna).

Foi convocado para comparecer à primeira reunião do diretório central da Liga da Defesa Nacional. Ele era um dos 50 membros do diretório (O Paiz, 7 de setembro de 1916, quarta coluna). A Liga da Defesa Nacional foi fundada em 7 de setembro de 1916 por um grupo de intelectuais, dentre eles Rui Barbosa (1849 – 1923), Pedro Lessa (1859 – 1921) e Olavo Bilac I(1865 – 1918), que sintetizava a ação da associação como um apostolado de civismo e patriotismo.

Foi instalada a Câmara Municipal de Petrópolis convocada por Oswaldo Cruz. O sr. Roldão Barbosa, como secretário da sessão, leu a mensagem do prefeito, datada de 4 de setembro de 1916, abordando a contração de empréstimos, a criação de impostos e a execução de operações de crédito. O vereador Joaquim Moreira ocupou a tribuna e declarou que o Partido Municipal, que presidia, aceitou o ato do governo em criar a prefeitura de Petrópolis porque foi nomeado um homem superior para ocupá-la, Oswaldo Cruz. O vereador Sá Earp declarou-se contrário à criação da prefeitura de Petrópolis, cuja justificativa teria sido a restauração da estrada União e Indústria (O Paiz, 12 de setembro de 1916, primeira coluna).

Na coluna “Sorrisos e frivolidades”, da Revista da Semana, um veranista de Petrópolis mostrou-se entusiasmado com as propostas de mudanças feitas por Oswaldo Cruz para a cidade (Revista da Semana, 30 de setembro de 2016, primeira coluna).

outubro

Oswaldo Cruz foi receber os médicos Carlos Chagas (1879 – 1934) e Figueiredo Rodrigues, delegados do Brasil no Congresso Médico e na Conferência de Microbiologia e Parasitologia realizadas em Buenos Aires, que chegaram ao Rio de Janeiro a bordo do paquete “Voltaire” (O Paiz, 11 de outubro de 1916, segunda coluna).

Ocupando um lugar de honra, Oswaldo Cruz participou do banquete oferecido pela classe médica a Carlos Chagas  (1879 – 1934), no Salão Assyrius do Teatro Municipal do Rio de Janeiro (O Paiz, 22 de outubro de 1916, primeira coluna).

novembro

Foi noticiado que Oswaldo Cruz iria à festa em benefício da Associação da Mulher Brasileira, realizada no Teatro Municipal (O Paiz, 2 de novembro de 1916, segunda coluna).

Na Câmara Municipal de Petrópolis, Oswaldo Cruz leu uma mensagem sobre a proposta de orçamento para o ano de 1917 acompanhada de ligeira exposição sobre o estado de diversos serviços (Jornal do Commercio, 17 de novembro de 1916, sexta coluna).

Presidiu o banquete oferecido ao cientista Arthur Neiva (1880 – 1943), no Salão Assyrius do Teatro Municipal do Rio de Janeiro (Gazeta de Notícias, 19 de novembro de 1916, sexta coluna). A revista Fon-Fon, de 2 de dezembro de 1916, publicou uma fotografia do evento.

Por falta de quórum não houve sessão na Câmara Municipal de Petrópolis, mas as comissões de Fazenda e Justiça se reuniram e discutiram os assuntos abordados na mensagem do prefeito Oswaldo Cruz. Participaram dos debates Sá Earp, Arthur Barbosa, Modesto Guimarães e Domingos Nogueira. Pediram mais informações ao prefeito. Dentre algumas decisões, resolveram negar a criação do imposto de testada (O Paiz, 19 de novembro de 1916, segunda coluna).

 

 

Por proposta do professor Miguel Couto (1865 – 1934), presidente da Academia Nacional de Medicina, foi criada uma comissão para estudar medidas profiláticas no combate de algumas doenças e Oswaldo Cruz foi um dos nomeados para integrar o grupo, Os outros integrantes seriam Afrânio Peixoto (1876 – 1947), Carlos Chagas (1879 – 1934), Carlos Seidl (1867 – 1929) e Miguel Pereira (1871 – 1918) (Jornal do Commercio, 1º de dezembro de 1916, quinta coluna).

Oswaldo Cruz sancionou e promulgou a Deliberação nº 6 sobre averbação de prédios e transferências de comerciais e industriais em Petrópolis (Jornal do Commercio, 12 de dezembro de 1916, penúltima coluna).

 

 

De acordo com o prefeito Oswaldo Cruz, seria levantado um monumento em homenagem ao fundador da cidade de Petrópolis, Julio Frederico Koeler (1804 – 1847), na Praça da Liberdade. Informou, também, que brevemente seria lançada a pedra fundamental do monumento (Gazeta de Notícias, 19 de dezembro de 1916, última coluna).

 

1917 

janeiro

Oswaldo Cruz agradeceu ao governo do estado do Rio de Janeiro o material e o serviço do Corpo de Bombeiro com que a administração fluminense acaba de dotar Petrópolis (A Época, 6 de janeiro de 1917, terceira coluna).

Foi noticiado um boato sobre o estado de saúde e a iminente saída de Oswaldo Cruz da prefeitura de Petrópolis (A Época, 25 de janeiro de 1917, terceira coluna).

Oswaldo Cruz está doente. Tasso Fragoso (1869 – 1945), chefe da Casa Militar da Presidência foi visitá-lo a mando do presidente da República, Venceslau Brás (O Paiz, 27 de janeiro de 1917, quinta coluna). E João Pedroso de Albuquerque, secretário do Dr. Cruz foi visitar o presidente, no Palácio do Rio Negro, em Petrópolis (A Época, 27 de janeiro de 1917, terceira coluna).

Em 31 de janeiro, devido a seu estado de saúde, Oswaldo Cruz solicitou uma licença da prefeitura de Petrópolis  ao governo do Rio de Janeiro. Foi deferida. Segundo consta, o Dr, Oswaldo Cruz fará uma viagem, a fim de iniciar um rigoroso tratamento de sua saúde profundamente abalada (O Paiz, 1º de fevereiro de 1917, quarta coluna).

fevereiro

O senador Leopoldo de Bulhões (1856 – 1928) assumiu a prefeitura de Petrópolis (O Paiz, 2 de fevereiro de 1917, quarta coluna).

Foi noticiada uma piora no estado de saúde de Oswaldo Cruz (O Paiz, 7 de fevereiro de 1917, sexta coluna). Outras notícias sobre a doença de Oswaldo Cruz foram publicadas (A Época, 7 de fevereiro de 1917, quinta coluna da primeira página e segunda coluna da página 4).

Aos 44 anos, Oswaldo Cruz faleceu de nefrite, em Petrópolis. O Brasil não pode aquilatar devidamente o infortúnio que é para a Nação, para a América e para a humanidade inteira a morte do grande sábio Oswaldo Cruz (O Paiz, 12 de fevereiro de 1917). Na edição de A Época, também do dia 12 de fevereiro, ele foi saudado como um facho de farol, que rasga a escuridão da noite. E fulgiu. Iluminou logo.

 

 

Segundo a Revista da Semana, tanto a guerra, que priva o corpo diplomático de associar-se às festas, como a morte recente do Dr. Oswaldo Cruz, prefeito de Petrópolis, contribuem para que decline a animação do carnaval (Revista da Semana, 17 de fevereiro de 1917).

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

O Hotel Glória – antes e depois

A Brasiliana Fotográfica destaca dois registros dos bairros da Glória e do Flamengo, no Rio de Janeiro, produzidas pelo fotógrafo Jorge Kfuri (1893 – 1965). As imagens são de 1917 e 1922 e mostram a mesma região: na primeira, vemos o terreno em que seria construído o Hotel Glória e, na segunda, já vemos o edifício concluído. O efeito antes e depois é um dos aspectos mais atraentes, interessantes e poderosos da fotografia, capaz de registrar desde as pequenas às grandes transformações da humanidade – por exemplo, suas paisagens, construções e população.

 

 

 

 

O Hotel Glória, aberto em 15 de agosto de 1922, com uma bênção realizada pelo arcebispo D. Sebastião Leme (O Paiz, 16 de agosto de 1922), foi o primeiro cinco estrelas do Brasil e também o primeiro prédio em concreto armado da América do Sul. Sua construção, motivada pelas festas do primeiro centenário da Independência do Brasil, foi uma iniciativa da firma Rocha Miranda & Filhos.

Em estilo clássico, o Hotel Glória abrigava um cassino, um teatro, diversos salões de festas, além de 150 quartos. Seu arquiteto foi o francês Joseph Gire ( 1872 – 1933), responsável por outros importantes prédios cariocas como o do Hotel Copacabana Palace, do Edifício Joseph Gire, mais conhecido como A Noite, e do Palácio das Laranjeiras, em parceria com Armando Silva Telles, dentre outros. Gire, formado pela École Nationale Supérieure des Beaux-Arts de Paris, desembarcou no Rio de Janeiro a convite de Octávio Guinle, em sua época, um dos homens mais ricos do Brasil.

Em março de 2008, o Glória foi comprado pelo empresário Eike Batista, que anunciou uma grande reforma que o tornaria um seis estrelas, um marco na história da hotelaria do Rio. Seria reaberto como Gloria Palace para a Copa do Mundo de 2014. Porém, com a crise no Grupo EBX, de Eike, a reforma foi paralisada, em 2013. No início de 2016, o hotel passou às mãos do fundo árabe Mubadala, de Abu Dhabi.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

O Cruzador Almirante Tamandaré

A Brasiliana Fotográfica selecionou registros do Cruzador Almirante Tamandaré que pertencem ao acervo da Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, um dos integrantes do portal. As fotografias foram produzidas por Marc Ferrez (1843-1923), agraciado por d.Pedro II como Fotógrafo da Marinha Imperial. Com um artigo do pesquisador da DPHDM, o Capitão de Corveta (T) Carlos André Lopes da Silva, os leitores poderão conhecer a história do navio e admirar suas imagens no dia de seu lançamento, em 20 de março de 1890 (O Paiz, 21 de março de 1890, primeira coluna).

 

O Cruzador Almirante Tamandaré

 Carlos André Lopes da Silva*
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Marc Ferrez. Lançamento do cruzador Almirante Tamandaré. O Cruzador na carreira antes do lançamento ao mar, 20 de março de 1890. Rio de Janeiro, RJ / Acervo DPHDM

 

Em 20 de março de 1890, foi lançado ao mar da carreira nº 1 do Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro o Cruzador Almirante Tamandaré. Era o segundo navio da Marinha do Brasil que levava o nome do Almirante Joaquim Marques Lisboa, o Marquês de Tamandaré. O primeiro tinha sido um couraçado que lutou por toda a Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870), navio também construído no Arsenal, o estabelecimento mantido pela Marinha para a construção e reparo dos seus navios de guerra. Mesmo durante o Império, não era comum que navios da Marinha fossem batizados em deferência a personalidades vivas, ainda mais quando não pertenciam à Família Real. Já no início da República, o Almirante Tamandaré, no alto dos seus 82 anos e poucos meses, depois de deixar o serviço ativo da Marinha, era pela segunda vez homenageado do modo mais significativo para um marinheiro, tendo seu nome na popa de um navio de guerra.

 

almirante

Cartão-postal com desenho do rosto do Almirante Tamandaré, Joaquim Marques Lisboa (Rio Grande, RS, 13/12/1807 – Rio de Janeiro, 20/03/1897) / Coleção Jose Ramos Tinhorão/ Acervo IMS

 

 

Acessando o link para as fotografias do cruzador disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

O Cruzador Almirante Tamandaré, do mesmo modo que seu antecessor, foi projetado e construído por brasileiros. Seu projetista foi o Engenheiro Naval João Cândido Brasil e sua construção teve início em 1884, já como o maior navio até então construído no Brasil, com mais de 4.500 toneladas de deslocamento e 96 metros de comprimento. Mesmo hoje, continua sendo o maior navio de guerra, considerando seu deslocamento, construído no País. Equipado com dez canhões com calibre de 150 milímetros em sua bateria principal, além de peças de artilharia menores, metralhadoras e torpedos, foi concebido como um navio bastante poderoso.

Quando o Almirante Tamandaré foi lançado ao mar, em 1890, ainda era um navio misto, isto é, contava com mastros e velas para os cruzeiros transoceânicos, visando à economia de combustível, o carvão, e à preservação de suas duas máquinas a vapor inglesas de 6.500 cavalos-vapor, levando o navio a desenvolver velocidades de até 17 nós (milhas por hora). O casco de estrutura e revestimento de aço foi recoberto, para maior proteção, com placas de 175 milímetros de peroba, um arranjo de blindagem típico da época. A rápida evolução dos projetos de navios de guerra levou ao abandono da mastreação e das velas logo após o seu lançamento ao mar, sendo instalados dois mastros de combate que possibilitavam melhor pontaria das baterias principais. Seguiram-se modificações no armamento e na ventilação forçada para seus compartimentos internos.

Ainda antes de finalizada a construção, o navio foi tomado pela parcela da Marinha que se revoltou contra o Governo do Marechal Floriano Peixoto no episódio conhecido como Revolta da Armada (1893-1894). Reparados os danos sofridos no embate entre revoltosos e florianistas na Baía de Guanabara, o Almirante Tamandaré só foi incorporado à Esquadra brasileira em 1897, já numa configuração bem diferente daquela idealizada por seu projetista, o então Capitão-Tenente (EN) Brasil mais de uma década atrás.

Devido às suas grandes dimensões foi utilizado como quartel para os novos marinheiros e, posteriormente, como sede das Escolas Profissionais, a primeira experiência da Marinha do Brasil na reunião de diversos cursos de especialização para oficiais e praças num mesmo local. Em 1906, passaram a funcionar no Cruzador Almirante Tamandaré a Escola de Artilharia, direcionada para oficiais e praças; a Escola de Foguistas e a Escola de Timoneiros, que formava, além destes, sondadores, sinaleiros e telegrafistas.Brasil

Em 27 de dezembro de 1915, a Administração Naval determinou sua Mostra de Desarmamento e consequente baixa do serviço ativo.

 

*  Carlos André Lopes da Silva é pesquisador da Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha

 

Pequena cronologia do Cruzador Almirante Tamandaré

1884 – Batimento da quilha do futuro Cruzador Almirante Tamandaré.

1886 – O cruzador, em construção no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro, segundo os planos do CT (EN) João Cândido Brasil, foi batizado com o nome de Tamandaré (O Paiz, 3 de julho de 1886, sexta coluna). Foi o segundo navio batizado com esse nome na Marinha do Brasil em homenagem ao Almirante Joaquim Marques Lisboa (1807 – 1897), o Marquês de Tamandaré, Patrono da Marinha,

1890 - O Almirante Tamandaré pediu ao ministro da Marinha, Eduardo Wandenkolk (1838 – 1902), segundo o jornal O Paiz num requinte de modéstia, que o cruzador fosse batizado com o nome de Almirante Cochrane (O Paiz, 13 de março de 1890, segunda coluna).

O Cruzador Tamandaré foi lançado ao mar em 20 de março com a presença do chefe do governo provisório do Brasil, Deodoro da Fonseca (1827 – 1892), além de ministros e outras autoridades. A construção do cruzador custou 3.700:000$000 e seu primeiro comandante foi o Capitão-de-Mar-e-Guerra Frederico Guilherme Lorena (O Paiz, 21 de março de 1890, primeira coluna).

1891 – O Capitão-de-Fragata João Francisco Velho Junior foi designado para comandar provisoriamente o Cruzador Almirante Tamandaré (O Paiz, 26 de novembro de 1891, sexta coluna).

1892 – O ministro da Marinha mandou ativar as obras do cruzador Almirante Tamandaré a fim de que esse vaso de guerra possa estar nos Estados Unidos na abertura da exposição de Chicago (O Paiz, 15 de junho de 1892, sexta coluna).

1893 - Polêmica em torno da substituição nos mastros do Almirante Tamandaré (O Paiz, 10 de fevereiro de 1893, penúltima coluna, O Paiz, 13 de fevereiro, terceira coluna, O Paiz, 14 de fevereiro, segunda coluna, O Paiz, 19 de fevereiro de 1893, primeira coluna).

Ficou montada toda a artilharia grossa das baterias cobertas do cruzador Almirante Tamandaré achando-se já, de há muito, montados os seus dois canhões de caça e retirada (O Paiz, 24 de agosto de 1893, quarta coluna).

O cruzador içou suas duas chaminés, quer isso dizer que já tem máquina para se mover (O Paiz, 17 de novembro de 1893,quinta coluna).

O Cruzador Almirante Tamandaré foi usado pelos revoltosos da Revolta da Armada (O Paiz, 18 de novembro de 1893, quarta coluna, O Paiz, 23 de novembro de 1893, quinta coluna, O Paiz, 5 de dezembro de 1893, quinta coluna, O Paiz, 6 de dezembro de 1893, terceira coluna).

1894 – O Almirante Tamandaré foi ocupado pelo governo, que nomeou o Capitão-de-Mar-e- Guerra Theotônio Coelho Cerqueira Carvalho para comandá-lo (O Paiz, 14 de março de 1894, segunda coluna).

1897 – O cruzador foi reformado, tendo sua armação em Galera, substituída por dois mastros modernos de combate. A ventilação foi mudada, recebendo no castelo novo ventilador metálico. Foram também retirados os canhões em bateria. Permaneceram, porém, muitas deficiências no navio, que passou a vida fundeado no porto do Rio de Janeiro, depois de realizar duas ou três comissões.

1901 / 1902 – Serviu de quartel de Guardas-Marinha.

1906/1914 – Serviu de sede das Escolas Profissionais, dentre elas, a Escola de Timoneiros.

1913 - Entre 21 de julho e 14 de agosto, ficou atracado no Dique Guanabara da Ilha das Cobras, para a substituição de 145 folhas de latão do fundo.

Por determinação do Aviso n.º 2612 de 16 de agosto, serviu provisoriamente de quartel da Escola de Grumetes, antes instalada no Cruzador Andrada. Foram embarcados 115 novos Grumetes provenientes da EAM do Rio de Janeiro. Nessa época o Tamandaré também era chamado de Cruzador-Escola.

1914 – Continuava servindo como Quartel da Escola de Grumetes, fundeado em frente a Ilha das Enxadas, na Baía da Guanabara. Não desempenhou comissão alguma e necessitava de reparos.

1915 - Em 27 de dezembro, deu baixa do serviço pelo Aviso nº 4525.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha 

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Poder Naval

O pintor Rodolfo Amoedo (1857 – 1941) no Álbum de artistas, doado à Biblioteca Nacional por M. Nogueira da Silva

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Anônimo. Rodolpho Amoedo, pint. : (Auto-retrato) : [pintura], 190?. Acervo FBN

A Brasiliana Fotográfica destaca uma imagem do pintor Rodolfo Amoedo (1857 – 1941), nascido há exatos 160 anos, publicada no Álbum de artistas, do acervo da Fundação Biblioteca Nacional, uma das criadoras do portal. O álbum foi doado à Seção de Estampas da instituição, em 22 de abril de 1932, pelo escritor, jornalista, cronista literário e crítico de arte maranhense M. Nogueira da Silva (1880 – 1943), um dos retratados na obra (Gazeta de Notícias, 16 de novembro de 1943, terceira coluna). Nogueira da Silva foi o autor do livro Pequenos Estudos Sobre Arte, Pintura, Escultura (1926) e era considerado um dos melhores comentadores da obra do escritor Gonçalves Dias (Gazeta de Notícias, 28 de janeiro de 1940, terceira coluna). Ocupou a cadeira 23 da Academia Carioca de Letras e trabalhou nos jornais Gazeta de Notícias e A Notícia.

Estão disponíveis no acervo da Brasiliana Fotográfica imagens de Angelina Agostini (1888 – 1973)Antônio Parreiras (1860 -1937)Pedro Weingartner (1853 – 1929) e Menotti del Picchia (1892 – 1988), dentre outros registros do Álbum de artistas.

 

Na fotografia destacada abaixo, o doador do Álbum de artistas, M. Nogueira da Silva, encontra-se entre os artistas Dakir (1894 – 1967) e Antônio Parreiras (1860 – 1937).

 

 

 

Acessando o link para as fotografias do Álbum de Artistas disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Pequeno perfil de Rodolfo Amoedo

Rodolfo Amoedo, o poeta da tela (Diário de Notícias, 5 de dezembro de 1888, quinta coluna), nasceu em 11 de dezembro de 1857, na rua do Fogo, atual rua dos Andradas, no Rio de Janeiro, e viveu parte de sua infância na Bahia. Sua obra foi, desde o início, marcada por sua excelência técnica e, segundo o professor Flexa Ribeiro, por seu caráter poético (Illustração Brasileira, maio de 1935). Foi também professor e alguns de seus alunos na Escola Nacional de Belas Artes foram João Baptista da Costa (1865 – 1926), Eliseu Visconti (1866 – 1944) e Cândido Portinari (1903 – 1962). Amoedo criou painéis  para a Biblioteca Nacional, para o Conselho Municipal do Rio de Janeiro, para o Teatro Municipal e para o Supremo Tribunal Federal. Realizou trabalhos de decoração no Palácio Itamaraty e no Supremo Tribunal Militar, no Rio de Janeiro; no Museu do Ipiranga – atual Museu Paulista da Universidade de São Paulo, em São Paulo; e no Teatro José de Alencar, em Fortaleza. Faleceu, pobremente, em 31 de maio de 1941, no Rio de Janeiro (Jornal do Commercio, 1º de junho de 1941, primeira coluna).

O início

Viveu dos seis aos 11 anos na Bahia, onde estudou no Colégio Sebrão. Veio para o Rio de Janeiro, em 1868, onde frequentou os colégios Vitório e Pedro II. Estudou, em 1873, no Liceu de Artes e Ofícios, no Rio de Janeiro, onde foi aluno de  Victor Meirelles (1832 – 1903). No ano seguinte, foi para a Academia Imperial de Belas Artes (Aiba). Com o quadro O sacrifício de Abel, Rodolfo, identificado como o filho dos conhecidos artistas Luiz Carlos de Amoedo e D. Leolinda – eram atores -, venceu, em 1878, um concurso da Aiba (Gazeta de Notícias, 1º de novembro de 1878, quinta coluna, e O Monitor Campista, 6 de novembro de 1878, na última coluna). Seus concorrentes foram Henrique Bernardelli (1857 – 1936) e Antônio Firmino Monteiro (1855 -1888). Após o empate com Bernardelli, Amoedo venceu pelo voto de qualidade do diretor da Aiba, Antonio Nicolau Tolentino (1810 – 1888). O relatório da Repartição dos Negócios do Império de 1878 confirmou o prêmio e Amoedo viveu na Europa como pensionista da Aiba, entre 1879 e 1887. Também no relatório foi lamentado o fato do artista Bernardelli não ter também recebido como prêmio a viagem. Por sua vitória, Rodolfo foi capa e recebeu uma crítica muito favorável no periódico O Mequetrefe, de 5 de novembro de 1878.

 

 

Depois de uma passagem por Roma, Amoedo chegou em Paris em maio de 1879. Frequentou o ateliê de Gustave Boulanger (1824 – 1888) e de Charles-Edouard Lefébvre (1843 – 1917). Matriculou-se, em 1880, na Academia de Belas Artes de Paris, onde foi aluno dos pintores Alexandre Cabanel (1823 – 1889) e Pierre Puvis de Chavannes (1824 – 1898) (Gazeta de Notícias, 3 de agosto de 1879, sexta coluna e Gazeta de Notícias, 28 de dezembro de 1879, sexta coluna). Enquanto estava em Paris, foi publicado na revista A Illustração: Revista Universal, de 5 de agosto de 1884, o desenho Mercado das Flores, de autoria de Amoedo. Na mesma revista, em 5 de dezembro de 1884, foi publicada uma reprodução do quadro Indígenas do Amazonas.

Participação de Rodolfo Amoedo nos Salões de Belas Artes de Paris nos anos que passou na França

1882 – Exposição na Academia de Belas Artes, no Rio de Janeiro, do quadro Marabá, de Amoedo, que havia participado com sucesso no último Salão Anual de Belas Artes de Paris. A pintura foi inspirada pelos versos do poeta Gonçalves Dias (1823-1864) (Gazeta de Notícias, 28 de outubro de 1882, quarta coluna).

1883 – Amoedo e Vitor Meirelles participaram do Salão Anual de Belas Artes de Paris com os quadros O último dos tamoios e A Batalha Naval do Riachuelo, respectivamente. A crítica saudou Amoedo como um artista de futuro (Gazeta de Notícias, 8 de junho de 1883, na última coluna).

1884 – Exposição na Academia de Belas Artes de dois quadros de Amoedo, A Partida de Jacob, que havia participado do Salão Anual de Belas Artes de Paris, e o Estudo de mulher Recebeu uma crítica favorável de Lulu Sênior, pseudônimo de José Ferreira de Araújo (1848 – 1900), um dos fundadores e proprietários da Gazeta de Notícias (Gazeta de Notícias, 29 de agosto de 1884, na quinta coluna e Gazeta de Notícias, 4 de setembro de 1884, quarta coluna).

1887 - Amoedo participou do Salão Anual de Belas Artes de Paris com o quadro Narração de Filetas (Gazeta de Notícias, 27 de maio de 1887, terceira coluna).

De volta ao Brasil

Amoedo recebeu ajuda financeira do império brasileiro para suas despesas de regresso ao país (Gazeta de Notícias, 2 de junho de 1887, quarta coluna). Chegou ao Rio de Janeiro, vindo da Bahia, no paquete Ville de Pernambuco, em 23 de dezembro de 1887 (Jornal do Commercio, 24 de dezembro de 1887, quinta coluna). Em 27 de janeiro 1888, inaugurou sua primeira exposição individual no Rio de Janeiro, na Academia de Belas Artes, com a presença da princesa Isabel. Expôs Jesus em CafarnaumNarração de Filetas, dentre outras pinturas (Diário de Notícias, 29 de janeiro de 1888, primeira colunaGazeta de Notícias, 29 de janeiro de 1888, primeira coluna e Gazeta de Notícias, 3 de fevereiro de 1888, penúltima coluna). Houve uma polêmica em torno do tema do quadro Jesus em Cafarnaum (Jornal do Commercio, 5 de fevereiro de 1888, quinta coluna). A mostra foi um sucesso de público e crítica, e terminou em 10 de fevereiro de 1888.

Ainda em 1888, Amoedo foi agraciado como oficial da Ordem da Rosa (A Época, 9 de fevereiro de 1888, terceira coluna) e tornou-se professor honorário de pintura histórica na Aiba (Cidade do Rio, 1º de março de 1888, terceira coluna,Diário de Notícias, 2 de março de 1888, quarta coluna). Expôs o retrato que pintou do escritor e crítico de arte Luiz Gonzaga Duque Estrada (1863 – 1911), na casa Moncada (Diário de Notícias, 2 de agosto de 1888, última coluna). Uma curiosidade: nesse mesmo ano, inscreveu-se no Club de Esgrima e Tiro (Diário de Notícias, 23 de abril de 1888, segunda coluna).

Em 1889, pintou o estandarte da sociedade carnavalesca Tenentes do Diabo (Gazeta de Notícias, 24 de fevereiro de 1889, quinta coluna). Faria parte da comissão da Academia de Belas Artes que foi prestar solidariedade ao imperador Pedro II (1825 – 1891), contra o qual havia sido praticado um atentado, no dia 15 de julho de 1889, no saguão do Teatro Sant´Anna (Diário de Notícias, 18 de julho de 1889, quarta coluna). Amoedo foi nomeado interinamente professor de trabalhos gráficos do curso de ciências físicas e naturais da Escola Politécnica, no lugar de João Maximiano Mafra (1823 – 1908) (Cidade do Rio, 31 de dezembro de 1889, terceira coluna).

Pediu demissão da Academia, em 1890 (Diário de Notícias, 30 de maio de 1890, quinta coluna e Diário de Notícias, 4 de maio de 1890, segunda coluna). Ele, Rodolfo Bernardelli (1852 – 1931) e Décio Villares (1851 – 1931), dentre vários outros artistas, reuniram-se no Derby Club e assinaram uma petição pelo progresso das belas artes no Brasil que seria entregue ao ministro da Instrução Pública, Benjamin Constant (1836 – 1891) (Diário de Notícias, 22 de junho de 1890, segunda coluna, e Diário de Notícias, 26 de junho de 1890, sexta coluna). Com sua mãe, foi para a Europa, em 1890. Lá, casou-se no consulado brasileiro de Lisboa com a filha do cônsul de Luanda em Portugal. Em 1891, quando ainda estava na Europa, foi nomeado professor de pintura da Escola de Belas Artes – Enba (Diário de Notícias, 28 de setembro de 1890, última coluna, e Diário de Notícias, 22 de janeiro de 1891, sexta coluna). Foi o responsável, com Rodolfo Bernardelli (1852 – 1931) e Ernesto Gomes Moreira Maia (1889-1915), do projeto de reforma do ensino da Escola Nacional de Belas Artes. Elaborou o regimento das exposições gerais da instituição, iniciadas em 1893 (Revista Americana, agosto e setembro de 1917). Participou de inúmeras exposições gerais da Enba entre 1893 e 1930.

Em 1893, foi nomeado vice-presidente da Escola Nacional de Belas Artes (Diário de Notícias, 12 de fevereiro de 1893, terceira coluna). Participou e foi premiado na Exposição Internacional Colombiana de Chicago, que aconteceu entre 1º de maio e 30 de outubro de 1893 para celebrar os 400 anos da chegada do navegador genovês Cristóvão Colombo (1451 – 1506) ao Novo Mundo, em 1492. Outros artistas brasileiros laureados foram Almeida Junior (1850 – 1899), Eliseu Visconti (1866 – 1944), Henrique Bernardelli,  M. Broesse, Pedro Weingartner e Rodolfo Bernardelli, (A Republica: organ do Partido Republicano, 14 de outubro de 1893, quarta coluna).

Participou da Segunda Exposição Geral de Belas Artes, em 1895, com o quadro Más Notícias (Cidade do Rio, 2 de setembro de 1895, terceira coluna). Integrava a Comissão da Exposição Retrospectiva Brasileira das comemorações pelos 400 anos do descobrimento do Brasil (Cidade do Rio, 16 de agosto de 1898, segunda coluna).

O livro Flora de Maio, de Osório Duque Estrada (1870 – 1927), foi ilustrado com uma aquarela de Amoedo (Cidade do Rio, 30 de agosto de 1901, segunda coluna). Também ilustrou o Livro de Emma, de Alberto de Oliveira (1857 – 1937) (Cidade do Rio, 18 de setembro de 1901, terceira coluna).

Em 1903, em uma reunião de artistas, promovida por Amoedo, na Escola de Belas Artes, foi fundada a Associação de Aquarelistas e o fotógrafo e pintor português Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912) foi eleito para presidi-la. A primeira exposição da associação foi inaugurada em 1º de julho e Insley participou com oito marinhas (A Notícia, 24 e 25 de abril de 1903, na terceira coluna e Jornal do Brasil, 2 de julho de 1903, na oitava coluna).

A revista Kosmos de janeiro de 1905, publicou uma reportagem, assinada pelo escritor e crítico de arte Luiz Gonzaga Duque Estrada (1863 – 1911), sobre Rodolfo Amoedo com diversas ilustrações de sua obra e uma do próprio pintor.

 

 

Recebeu a medalha de ouro na Exposição Nacional de 1908, realizada entre agosto e novembro de 1908, no Rio de Janeiro, em comemoração ao primeiro centenário da Abertura dos Portos do Brasil. Seu ateliê ficava no segundo andar de um enorme prédio da avenida Sete de Setembro, separado da Catedral apenas por uma travessa, que é a rua do Carmo (Gazeta de Notícias, 5 de janeiro de 1908, primeira coluna)Ganhou a Medalha de Honra no salão da Escola Nacional de Belas Artes de 1917 pelo quadro Eros e a noite (imagem do centro, à direita) (Revista da Semana, 18 de agosto de 1917 e Revista Americana, agosto e setembro de 1917). Em 1918, afastado da Escola desde 1906, foi contratado pela instituição para ocupar a cadeira de pintura por 5 anos. Na ocasião, relatou o processo de criação de sua última pintura, Jesus descendo o monte das oliveiras (Gazeta de Notícias, 29 de janeiro de 1918, sexta coluna e Gazeta de Notícias, 30 de janeiro, primeira coluna). Foi, posteriormente, recontratado e tornado interino. Em 1928, foi nomeado professor temporário (O Paiz, 30 de setembro de 1928, sexta coluna, e O Paiz, 29 e 30 de outubro, última coluna) e, um ano depois, passou a ser professor catedrático honoris causa da Escola de Belas Artes. Fez parte do juri que elegeu Olga Bergamini de Sá, representante do Rio de Janeiro, a Miss Brasil de 1929. Os outros membros do juri eram o escritor Coelho Netto (1864 – 1934), o então professor de anatomia Raul Leitão da Cunha (1881 – 1947), o pintor Carlos Chambelland (1884 – 1950), o escultor Cunha e Mello (1879 – 1949) e o jornalista Manuel Paulo Filho (1890 – 1969), presidente da Associação Brasileira de Imprensa (Correio da Manhã, 14 de abril de 1929, oitava coluna, e Correio da Manhã, 17 de abril de 1929).

Os últimos anos

Aposentou-se em 1935 e foi tema de um artigo do professor catedrático da Escola Nacional de Belas Artes, Flexa Ribeiro, intitulado A Bíblia e a mitologia na pintura de Rodolfo Amoedo, publicado na Illustração Brasileira, maio de 1935:

‘…Com a aposentação que agora lhe foi conferida, não que ele a requeresse, mas atingido pela compulsória, priva-se a Escola Nacional de Belas Artes de um mestre que largamente honrou e dignificou a educação brasileira, e que é decerto o mais completo que aquele instituto já teve: pela paixão viva de sua arte, pela erudição na sua especialidade, pela férrea intransigência na atividade crítica e pelo exercício infatigável na nobre e generosa missão de dar aos outros tudo quanto sabe.’

Foi o entrevistado da reportagem Como vivem nossos artistas, da Revista da Semana, de 6 de julho de 1940. Na ocasião, vivia nas cercanias do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Poucos meses depois, foi inaugurado, por iniciativa da Sociedade Brasileira de Belas Artes, um busto em sua homenagem, na Praia do Russel (Illustração Brasileira, dezembro de 1940 e A Noite, 17 de novembro de 1940, quinta coluna).

No Correio da Manhã, de 6 de fevereiro de 1941, foi publicada uma matéria sobre a obra e a vida de Amoedo, intitulada O Crepúsculo de um Gênio. Rodolfo Amoedo faleceu, pobremente, em 31 de maio de 1941, na Fundação Gaffrée Guinle, no Rio de Janeiro (Correio da Manhã, 1º de junho de 1941, primeira coluna ). Poucos dias antes, o presidente da República, para amparar o velho artista, resolveu que o governo compraria seus quadros.  Após sua morte, parte de sua obra foi doada ao Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro.

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Leia também:

Cartas na pintura (13) – por Priscila Sacchetin, publicado no Correio IMS – ensaio sobre a pintura Más notícias, de Rodolfo Amoedo.

 

Más notícias, 1895, por Rodolfo Amoedo. Óleo sobre tela, 100 x 74 cm. Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro

Más notícias (1895), óleo sobre tela de Rodolfo Amoedo / Acervo do Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro

 

Fontes:

COSTA, Richard Santiago. Marabá e O Ultimo Tamoio na exposição geral de belas artes de 1884: crí- tica e recepção da obra de Rodolfo Amoedo. VIII EHA – Encontro de História da Arte, 2012.

GOMES, Adryana Diniz. Rodolfo Amoedo e a Exposição de 1888. 19&20, Rio de Janeiro, v. VIII, n. 2, jul/dez. 2013.

CAVALCANTI, Ana Maria Tavares. O Último Tamoyo e o ultimo romântico. Rio de Janeiro: Revista de História, 07/11/2007.

Enciclopédia Itaú Cultural

GOMES, Adryana Diniz. Rodolfo Amoedo e a Exposição de 1888. 19&20, Rio de Janeiro, v. VIII, n. 2, jul/dez. 2013.

GONZAGA, Duque. A Arte Brasileira / Luiz Gonzaga Duque Estrada; introdução e notas de Tadeu Chiarelli. Campinas: Mercado das Letras, 1995.

JORGE, Marcelo Gonczarowska. As Pinturas Indianistas de Rodolfo Amoedo. 19&20, Rio de Janeiro, v. V, n° 2, abril 2008.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

LEVY, Carlos Roberto Maciel. Exposições Gerais da Academia Imperial e da Escola Nacional de Belas Artes. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1990.

MIGLIACCIO, Luciano. Rodolfo Amoedo. O mestre deveríamos acrescentar. In: 30 Mestres da pintura no Brasil: 30 anos Credicard. São Paulo: MASP, 2001.

PONTUAL, Roberto. Dicionário das artes plásticas no Brasil. Texto Mário Barata, Lourival Gomes Machado, Carlos Cavalcanti et al. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969.

RUBENS, Carlos. Pequena história das artes plásticas no Brasil. São Paulo: Editora Nacional, 1941