Para uma história social da reprodução fotomecânica

A. Ribeiro. Urca e Pão d’Assucar. c. 1905. Rio de Janeiro / Acervo FBN

No início do século 19, antes mesmo do anúncio das primeiras variantes do processo fotográfico – que empregaram a camera obscura para a obtenção das imagens – diversos de seus pioneiros estiveram envolvidos em esforços para multiplicar ‘fotograficamente’ as estampas (ou gravuras) que ofereciam, até então, a melhor possibilidade de disseminação/circulação de imagens, reproduzidas a partir de matrizes cuja confecção demandava muito trabalho, habilidades específicas e uma série de cuidados.

Mas apenas ao final do século 19, quando aperfeiçoou-se a ‘reprodução fotomecânica’, é que foram viabilizados os primeiros processos de impressão gráfica que possibilitaram a reprodução em massa, com fidelidade e qualidade — através das páginas das revistas, dos livros e depois dos cartões postais — das imagens originalmente obtidas através de processos fotográficos. A fotografia deixa de ser um objeto, um artefato, para tornar-se apenas uma superfície, uma imagem impressa. Foi esta a grande revolução que tornou a imagem fotográfica onipresente — o que foi ainda mais intensificado em tempos recentes, através da revolução digital.

No Brasil, até aqui, avançamos pouco no estudo deste universo específico, tão crucial para que a fotografia viesse a cumprir integralmente o seu papel, em nossa sociedade. Quase nada sabemos sobre os desafios enfrentados pelos empresários e gráficos de então, ao optar por tais processos, seja em seus aspectos tecnológicos, econômicos e de recursos humanos. E tampouco acerca da recepção dos mesmos que, em boa parte, acabaram esquecidos.

Aqui, pretendemos lançar luz sobre um processo que se fez presente no Brasil, com relevo, na virada do século 19 para o 20: a ‘colotipia’ ou ‘fototipia’, um processo de impressão fotomecânica planográfica – na verdade, uma variante da fotolitografia – também baseado na descoberta feita por Poitevin, em 1855, da propriedade que a gelatina bicromatada tem, quando úmida, de absorver mais ou menos tinta de impressão, segundo os graus diversos de endurecimento que adquire, proporcionalmente à quantidade de luz recebida através de um negativo fotográfico. Foi experimentada na pedra, no cobre e consolidou-se quando a matriz de impressão passou a ser produzida sobre uma espessa chapa de vidro.

A colotipia ou fototitpia também foi denominada colografia, gelatinografia ou heliotipia. Ocorrem, ainda, variantes deste processo denominadas por albertipia ou albertotipia, artotipia, aquatone, helioplastia, entre outras.

Importantes empresários e fotógrafos do período (como Henrique Lombaerts, Marc Ferrez e A. Ribeiro) editaram publicações ilustradas, imagens publicitárias e séries de cartões postais fotográficos em colotipia. Este processo proporciona uma impressão de qualidade, com bom contraste, boa gradação tonal e que aparenta tratar-se mesmo de uma imagem fotográfica de tom contínuo, cujo padrão de retícula só pode ser visualizado sob o exame de uma lupa.

Segundo Frederico Porta, em seu indispensável Dicionário de Artes Gráficas, “apesar da perfeição das cópias fototípicas, o processo ficou circunscrito a uns poucos trabalhos especializados, como a impressão de postais, por dois poderosos motivos: tiragem demorada, não ultrapassando da média de umas cinqüenta provas à hora, e precariedade da matriz, que dificilmente suporta mais de mil impressões.”

Nesta galeria, selecionamos alguns exemplos de imagens impressas por este processo, desde o mais antigo exemplo conhecido na imprensa periódica, no Brasil: um fac-símile de manuscrito do escritor Machado de Assis, aparecido em publicação editada por Lombaerts. De Manaus, destaque para o arrojado panorama de George Huebner. De São Paulo, há imagens de Otto Quaas e de Guilherme Gaensly — estas, fazem parte de uma série estupenda, realizada pelo talentoso fotógrafo. Mas a maioria das imagens escolhidas refere-se, mesmo, à cidade do Rio de Janeiro – porque desejamos homenageá-la, nesta passagem dos seus 450 anos. A exuberante arquitetura da loja A Torre Eiffel, cartões postais das séries editadas por A. Ribeiro e alguns dos colótipos produzidos por Marc Ferrez – tudo para nos deixar saudosos de um Rio que passou.

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Curadoria de Joaquim Marçal Ferreira de Andrade/FBN

 

14 pensamentos sobre “Para uma história social da reprodução fotomecânica

  • 17 de abril de 2015 em 19:34
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    Muito boas as fotos, elas nos remetem a um tempo glorioso de nosso país, onde a vida passava devagar, havia o repeito mútuo com o próximo, nosso dinheiro tinha valor, nota-se em muitas das fotos o povo se sentia mais feliz, apesar das dificuldades existentes, infelizmente tudo se perdeu ao londo dos anos, perdemos a nossa identidade, nossa cultura na realidade o amor por nosso país.

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    • 20 de maio de 2015 em 23:59
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      Concordo com você tenho apenas 13 anos mais já posso entender que se perdeu muito no tempo , desde a simplicidade a felicidade .

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  • 17 de abril de 2015 em 20:47
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    Parabéns pela iniciativa!!

    Muito Show!
    Tunel do tempo! Tempo esquecido pela maioria!!
    Fui remetido ao passado, numa epoca em que eramos mais “humanos”!
    Como disse o amigo em seu feliz comentário: As expressões faciais, mostram a alegria, que hoje foi substituida por varios outros tipos menos ela!

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  • 18 de abril de 2015 em 15:57
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    Sensacional é um resgate maravilhoso desta misteriosa e esquecida profissão de artista gráfico. Comecei minha profissão aos 13 anos em uma Litografia de Porto Alegre, gravava chapas de zinco cobertas por bicromato, estas chapas eram matrizes de impressão offset, as primeiras máquinas que existiram.

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  • 18 de abril de 2015 em 19:58
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    Muito rico os detalhes das fachadas.

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  • 21 de abril de 2015 em 19:50
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    Deveriam colocar o local completo das fotos. Exemplo: Igreja Bonfim – Salvador/BA.

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  • 21 de abril de 2015 em 20:05
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    Parabéns pelo belíssimo trabalho!!! Sem dúvida uma forma de democratização e preservação de ricas fontes de pesquisa!!!

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  • 5 de maio de 2015 em 17:21
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    Quero aqui parabenizar pelas lindas fotos.

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  • 20 de maio de 2015 em 17:36
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    Tive conhecimento desse material ontem, através do JN.
    Hoje estou passeando por esse acervo. Viajando no passado.Excelente.

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  • 20 de maio de 2015 em 19:26
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    Amo ver fotos antigas, é como se pudesse viver o passado. Ver a história do Brasil por meio de fotos é muito prazeroso. Parabéns a todos os profissionais que construiram esse acervo e nos deram a oportunidade de ter memorias tão ricas de um passado que não volta mais…

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  • 21 de maio de 2015 em 00:03
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    Como as pessoas sabiam valorizar a vida , sendo felizes mesmo com pouco .

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  • 21 de maio de 2015 em 14:34
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    Um trabalho espetacular, fiquei emocionada ao ver essas fotografias. Elas me deram a exata visão do que ouvia de meus parentes mais velhos.
    Parabéns a esse projeto tão significativo para a historia e costumes desse povo.

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  • 25 de maio de 2015 em 21:14
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    A qualidade das fotos são de admirar. Bons tempos dos negativos de grandes dimensões que possibilitam uma resolução invejável. Obrigado pela iniciativa.
    Vou acompanhar com atenção novas fotos!

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