Marco no fotojornalimo brasileiro: a seca no Ceará é documentada com fotografias

J.A. Correia. Secca de 1877-78, 1877-1878. Ceará / Acervo FBN

J.A. Correia. Secca de 1877-78, 1877-1878. Ceará / Acervo FBN

Segundo o trabalho “Imagens da Seca de 1877-78 – Uma contribuição para o conhecimento do fotojornalismo na imprensa brasileira”, dos pesquisadores Joaquim Marçal Ferreira de Andrade e Rosângela Logatto, a publicação de fotos de vítimas da maior seca nordestina do século XIX foi uma das iniciativas pioneiras da imprensa brasileira na utilização de fotografias como documentos comprobatórios de um fato (Anais da Biblioteca Nacional, vol 114, de 1994, p.71-83).

Para denunciar a tragédia, o chargista português Rafael Bordalo Pinheiro publicou, em 20 de julho de 1878, em uma ilustração da revista O Besouro, duas fotos que fazem parte de um conjunto de 14 registros fotográficos de vítimas da seca ocorrida entre 1877 e 1878. Porém, não foi dado crédito para o autor das fotos, Joaquim Antonio Corrêa, cujo ateliê ficava em Fortaleza, no Ceará.

Link para O Besouro de 20 de julho de 1878, ano I, n.16

Esse conjunto de fotografias pertence, atualmente, ao acervo da Biblioteca Nacional.  São imagens chocantes, em formato de cartes de visite, e retratam crianças, homens e mulheres desnutridos e maltrapilhos, de aparência doentia, e, muitas vezes, as fotos, feitas em estúdio, trazem textos rimados que se referem à miséria.

A publicação da ilustração litográfica das duas fotos sendo seguradas por um esqueleto vestindo paletó, sob o título “Páginas tristes – Scenas e aspectos do Ceará (para S. Majestade, o Sr. Governo e os Senhores Fornecedores verem)”, tinha o objetivo de reforçar denúncias feitas pelo escritor e jornalista José do Patrocinio em artigos publicados no periódico de texto Gazeta de Notícias. Patrocinio fazia, na época, a cobertura jornalística da seca com o principal objetivo de acompanhar a aplicação dos recursos governamentais em seu combate. Partiu em 10 de maio de 1878 e retornou ao Rio de Janeiro, em 12 de agosto do mesmo ano. As matérias foram publicadas, na coluna Folhetim, na primeira página da Gazeta de Notícias, sob o título “Viagem ao Norte” (1).

Mas só o texto não era suficiente. Então, Patrocinio enviou as fotos para a redação da revista O Besouro, para a qual já havia mandado, antes da viagem, o artigo “Sermão de Lágrimas” (O Besouro, edição de 4 de maio de 1878 ), em que tratava, com preocupação, a seca e a situação dos retirantes.

A publicação da ilustração com as fotos de Joaquim Antonio Corrêa, na revista O Besouro, foi um verdadeiro “anticartão de visita, veemente panfleto que denuncia uma realidade que muitos membros da corte se negavam a enxergar”(“Imagens da Seca de 1877-78 – Uma contribuição para o conhecimento do fotojornalismo na imprensa brasileira”).

Abaixo, está reproduzido o texto publicado no O Besouro, na página seguinte à ilustração com as fotografias:

“O Ceará

O nosso amigo José do Patrocinio, em viagem por aquela provincia, enviou-nos as duas photographias por que foram feitos os desenhos da nossa primeira página.

São dois verdadeiros quadros de fome e miséria. E´ n´aquelle estado que os retirantes chegam á capital, aonde quasi sempre morrem, apezar dos apregoados soccorros, que segundo informações exactas são distribuídos de maneira improficua.

A nossa estampa da primeira pagina é uma prova cabal áquelles que accusavam de exageração, a pintura que se fazia do estado da infeliz província.

Repare o governo e repare o povo, na nossa estampa, que é a cópia fiel da desgraça da população cearense.

Continuaremos a reproduzir o que o nosso distincto collega nos enviar a tal respeito.”

Uma curiosidade: também dessa viagem ao norte do país originou-se o romance de José do Patrocinio, Os Retirantes, publicado na Gazeta de Notícias, em estilo de folhetim, entre 29 de junho e 10 de dezembro de 1879.

 

(1) – Links para os artigos escritos por José do Patrocinio sob o título “Viagem ao Norte”.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 1º de junho de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 6 de junho de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 20 de julho de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 23 de julho de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 3 de agosto de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 15 de agosto de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 22 de agosto de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 30 de agosto de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 7 de setembro de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 12 de setembro de 1878.

 

Link para as fotografias de Joaquim Antonio Corrêa disponíveis nesse portal.

 

Galeria de Joaquim Antonio Corrêa

 

5 pensamentos sobre “Marco no fotojornalimo brasileiro: a seca no Ceará é documentada com fotografias

  • 21 de julho de 2015 em 01:50
    Permalink

    1877. Ano da maior seca e da grande diáspora nordestina,onde milhares de famílias fugiam da seca e morte extrema indo em direção a escravidão nos seringais amazônicos como ovelhas para o matadouro! Meus Tataravós fizeram essa triste viagem! Caminhavam por mais de mês comendo e bebendo o que encontravam pelo caminho aos molambos como zumbis em busca de vida,ouvia-se historias de pais que matavam as filhas mais velhas para dar de comer aos mais novos.Comiam raízes de carnaúbas amargas como o fel,chegando a Belém viajavam em navios lotados e imundos.Chegando as capitais como Manaus,eram separados como gados e enviados a seringais distantes,muitos não voltavam a ver seus familiares ou morriam nos primeiros dias de chegada nesse mundão de rio e floresta com índios brabos e feras como onça,jacarés e sucuris.Quando pensavam em voltar para sua terra natal, eram assassinados a traição nas estradas pelos seringais,se adoecesse morria a míngua abandonado pelo patrão.Enquanto o preço do café desvalorizava na bolsa, os caboclos,índios e nordestinos sustentavam a economia do Brasil nas costas exportando a borracha pra Europa a base de seu sofrimento.

    Responder
  • 21 de julho de 2015 em 01:51
    Permalink

    Existe um livro chamado Beiradão do escritor Alvaro Botelho Maia,antigo governador do Amazonas,o livro narra a vida do seringueiros vindo do nordeste,caboclos e índios,bem como ha um dicionário com significados amazônicos..Livro riquíssimo de informações,porém com poucas edições.Mas,é possível encontra-lo em PDF pela internet.

    Responder
  • 21 de julho de 2015 em 02:07
    Permalink

    Observando estas fotos é percebido que se trata de indígenas mestiços e escravos que sem ter para onde ir engrossavam as fileiras de vítimas da seca.E que sofriam além da sede e fome, o peso do preconceito contra índios e negros na virada do século.Eram gritantes as injustiças sociais causada também pela falta de terra e pelas as violências dos coronéis que só repartiam a água,a comida e a terra com seus parentes e aliados.E essa gente miseravel era tangida de um lado pro outro como bicho e como bicho morriam ao abandono do estado!

    Responder
  • 21 de julho de 2015 em 02:32
    Permalink

    Minha bisavó chamada Joana Alves da Silva fez essa viagem aos 12 anos de Uruburetama-CE até os seringais da Amazônia no ano de 1877,meu avô Francelino Alves da Silva foi soldado da borracha,meu tio avô Manoel Adelino da Silva,chamavam de Manduca,desapareceu em um seringal que escravizava pessoas no alto Juruá fronteira com o Acre. Fiquei sabendo que nesse período houve uma peste que matou quase toda população da cidade de Uruburetama,não se sabe o que foi,se foi tifo ou cólera causada pela seca e pobreza,eles não tinham escolha,não podiam retornar, era seguir e viver temporariamente ou morrer de doenças ou de tanto andar com fome e sede por aí.Só a esperança não morria em seus corações.

    Responder
  • Pingback: TOK de HISTÓRIA

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>