“Complemento indispensável…

 

 

 

As duas salas da  Secção de Estampas – Exposição Permanente de Iconographia  no edifício sede anterior da Biblioteca Nacional, no largo da Lapa n. 48 – hoje, rua do Passeio. Fotografia de Antonio Luiz Ferreira.

Antonio Luiz Ferreira. Secção de Estampas, Biblioteca Nacional, c. 1902. Rio de Janeiro, RJ / Acervo FBN – As duas salas da Secção de Estampas – Exposição Permanente de Iconographia no edifício sede anterior da Biblioteca Nacional, no largo da Lapa n. 48 – hoje, rua do Passeio.

 

…a toda biblioteca bem organizada”. Assim o bibliotecário João de Saldanha da Gama (desde 1822, designava-se assim a autoridade maior da Biblioteca Nacional) qualificou a antiga Seção de Estampas da instituição, em seu prefácio ao Catálogo da Exposição Permanente dos Cimélios da Biblioteca Nacional, publicado sob a sua direção em 1885.

Nesse catálogo, a parte referente às estampas ficou a cargo de José Zephyrino de Menezes Brum, chefe daquela seção desde 1876, quando foi posto em execução um plano de reforma da instituição a partir do qual “a Seção de Estampas […] começa a ter existência e história próprias […].”

Estamos no ano de 1885 e a Biblioteca Nacional já estava instalada no endereço da rua do Passeio desde 1858, quando se concluiu a mudança,“sem estrago nem perda”, desde seu primeiro endereço, no edifício do antigo Hospital do Carmo. Em 1881, abrira-se a grandiosa e inesquecível Exposição de História do Brasil, produzida sob a batuta do dirigente anterior, o barão de Ramiz Galvão e o pensamento curatorial de outro barão, Homem de Mello.

 

A chegada do acervo da Biblioteca Nacional à atual rua do Passeio, vendo-se ao fundo um trecho do largo da Lapa que manteve seu aspecto até os dias atuais.

Anônimo. Biblioteca Nacional, mudança do prédio da Rua do Passeio para a Avenida Rio Branco, 1910. Rio de Janeiro, RJ / Acervo FBN – Ao fundo, vê-se um trecho do largo da Lapa que manteve seu aspecto até os dias atuais.

 

Desenvolvia-se então, no acervo de imagens, um trabalho apaixonado, apesar de todas as dificuldades impostas pela conjuntura – atividades estas, em certa sintonia com as que ocorriam nas bibliotecas nacionais da França e da Áustria e no Museu Britânico. Menezes Brum lamentava que “as acanhadas proporções do edifício em que funciona a Biblioteca Nacional não permitiram que a Seção de Estampas fosse melhor acomodada, pois que lhe couberam em partilha apenas duas pequenas salas do 3o andar, mal mobiliadas e insuficientes para as suas necessidades e serviços.” E “as riquezas da nossa coleção iconográfica continuavam desconhecidas, tanta era a quantidade que delas havia”, ele observava.

Mas a exposição permanente das estampas, um sonho antigo de Ramiz Galvão, haveria de acontecer, sob a direção geral de Saldanha da Gama. O chefe das estampas era um obstinado: “era preciso escolher, escolher sempre, examinar, comparar, tornar a comparar, até que as jóias, por seu pequeno número, e por mais preciosas, se pudessem acomodar nas caixas que lhes estavam destinadas.”

 

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Detalhe da fotografia de Antonio Luiz Ferreira: à esquerda, vê-se a segunda sala da Exposição Permanente de Iconographia da antiga Seção de Estampas.

 

Depois de pronta a exposição permanente, o fotógrafo Antonio Luiz Ferreira, o mesmo que realizou as memoráveis fotografias das manifestações populares havidas após a assinatura da Lei Áurea – como aquela em que Machado de Assis aparece na missa celebrada no campo de São Cristóvão – foi contratado para documentar o edifício sede da Biblioteca Nacional, onde a instituição permaneceu até 1910.

O resultado está em dois álbuns; um, com as cópias em papel albuminado e outro, com as cópias produzidas em platina, que apresentam melhores atributos de estabilidade e permanência e figuram nesta galeria. As capas estão sofridas – ainda que o miolo, sua essência, resista bravamente – e refletem uma história. Muito nos revelam as suas imagens, admirável exemplo da fotografia de arquitetura praticada na época e – por que não dizê-lo – da fotografia museográfica, gênero proposto por Fox Talbot e inaugurado possivelmente no British Museum, por Roger Fenton.

O dia 29 de outubro é data a ser sempre lembrada. Hoje, quando a nossa Biblioteca Nacional comemora 205 anos de existência, essa instituição e o Instituto Moreira Salles, criadores deste portal, trabalham no sentido de acolher as primeiras das novas instituições que passarão a integrar a Brasiliana Fotográfica – cujo modelo de gestão pretende-se inclusivo, democrático e em dia com as principais questões referentes aos acervos de fotografia brasileira.

Menezes Brum concluiu assim o seu texto sobre as estampas no catálogo da célebre exposição: “Praza a Deus que curiosos e entendidos acolham este tentame da Biblioteca Nacional com benevolência e tirem dele o gozo e proveito que da sua realização possam advir.” Pois assim seguimos neste esforço coletivo para fazer da Brasiliana Fotográfica um espaço que suscite o aprendizado, a reflexão e o debate. E que seja, também, um espelho da Nação Brasileira.

Rio de Janeiro, 29 de outubro de 2015.

Joaquim Marçal Ferreira de Andrade
Curador, pela Biblioteca Nacional, do portal Brasiliana Fotográfica

rua_passeio

Anônimo. Antigo prédio da Biblioteca Nacional à Rua do Passeio, c. 1916. Rio de Janeiro, RJ / Acervo FBN – Uma cena cotidiana à entrada do edifício sede anterior da Biblioteca Nacional, no largo da Lapa n. 48 – hoje, rua do Passeio. À direita, operários trabalham em obra de reparo da via pública. Detalhe da fotografia original.

 

Galeria de fotos do Álbum de vistas da Bibliotheca Nacional de Antonio Luiz Ferreira.

Explore mais fotos da Biblioteca Nacional na Brasiliana Fotográfica

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