Ipanema, que completa 122 anos, pelas lentes de José Baptista Barreira Vianna (1860 – 1925)

A Brasiliana Fotográfica homenageia Ipanema, um dos mais emblemáticos bairros do Rio de Janeiro, com uma seleção de registros de autoria do fotógrafo amador, o comerciante português José Baptista Barreira Vianna (1860-1925), que chegou ao Rio de Janeiro, em 1875. Deixou como legado dois álbuns com 98 fotografias em cada um, que atualmente pertencem ao acervo do Instituto Moreira Salles. Um dos álbuns traz imagens de paisagens, prioritariamente, da Tijuca e de Ipanema, produzidas entre 1897 e 1905; o outro, cenas de família, retratos e vistas de interiores, no período entre 1897 e 1907. Essas fotografias são importantes documentos da virada do século no Rio de Janeiro.

José Baptista Barreira Vianna. Residência da família Barreira Vianna, em Ipanema na esquina da avenida Vieira Souto e rua Francisco Otaviano. Ilhas Cagarras ao fundo, 1903. Rio de Janeiro, RJ / Acervo IMS

Barreira Vianna trabalhou no comércio e abriu uma loja de produtos importados da Europa no largo da Carioca. Com a esposa, Laura Moreira, e seis filhos, vivia no tradicional bairro da Tijuca. Possuía um espírito progressista e tinha como hobbies a marcenaria e a fotografia. Com um amigo fotógrafo, Sr. Mendes, produzia imagens com sua máquina, uma Eastman Kodak. No final da década de 1890, comprou um terreno do loteamento de José Antônio Moreira Filho (1830-1899), o barão e conde de Ipanema, exatamente na esquina das atuais avenida Vieira Souto e rua Francisco Otaviano, ao lado de onde seria construído, mais tarde, o Colégio São Paulo. A residência da família Barreira Vianna, cujo projeto e construção ficou a cargo do arquiteto Rafael Rebecchi, foi a primeira na praia e uma das primeiras de Ipanema.  Em sua oficina, que ficava ao lado da casa, Barreira Vianna construiu uma miniatura de bondinho elétrico, que corria em trilhos que ficavam no jardim e atravessava uma ponte sobre um lago. Anos depois, devido a problemas financeiros, ele vendeu a casa para o conde Modesto Leal.

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José Baptista Barreira Vianna. Bonde nas proximidades da pedra do Arpoador, c. 1900. Rio de Janeiro, RJ / Acervo IMS

 

Acessando o link para as fotografias de José Baptista Barreira Vianna disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Pequena cronobiografia de José Baptista Barreira Vianna

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José Baptista Barreira Vianna. Autorretrato, c. 1900. Rio de Janeiro, RJ / Acervo do IMS

 

1860 – Nascimento de José Baptista Barreiros, em Vianna do Castelo, em Portugal.

1875 – Chega ao Brasil com seu irmão, José Lourenço. Ele se fixa no Rio de Janeiro, onde se emprega no comércio. Seu irmão estabelece-se em São Paulo. Por ter nascido em Vianna do Castelo, José Baptista Barreiros é chamado por seus amigos da colônia portuguesa de Vianna. Adota o apelido como sobrenome e também muda seu sobrenome de Barreiros por Barreira, passando a chamar-se José Baptista Barreira Vianna.

1884 – Casa-se com Laura Carlota Moreira (O Apóstolo, de 9 de março de 1884, na última coluna). Tiveram seis filhos: Maria Alice, João Jorge, Henriqueta, Rita, José e Lívia.

1887 – Solicita à empresa New York Life Insurance Company, um seguro de vida (Jornal do Commercio, de 10 de julho de 1887, na terceira coluna).

Década de 1890 – durante essa década,  a família Barreira Vianna residia na rua Santa Carolina, na Tijuca. José tinha como hobbies a marcenaria e a fotografia. Com um amigo fotógrafo, Sr. Mendes, produzia imagens com sua máquina, uma Eastman Kodak. Adquiriu um terreno do loteamento do Barão de Ipanema, na esquina das atuais Francisco Otaviano e Vieira Souto.

1891 – Torna-se um dos membros do conselho fiscal do Banco Incorporador (Diário do Commercio, de 15 de fevereiro de 1891, na sétima coluna e em anúncio de 16 de fevereiro).

Integra a diretoria da Companhia Manufactora e Importadora de Calçado Brasil como tesoureiro (Gazeta de Notícias, de 21 de fevererio de 1891).

Firma um contrato comercial de uma empresa de importação situada na rua General Câmara, número 72, em sociedade com Manoel Cândido de Azambuja, Francisco dos Santos Romano e Miguel de Magalhães Fonseca (Jornal do Commercio, de 14 de março de 1891, na terceira coluna, sob o título “Contratos Commerciaes”).

1894 –  Firma um contrato de um  “comércio de armarinho” com Manoel Cândido de Azambuja, Francisco dos Santos Romano e Miguel de Magalhães Fonseca (Jornal do Commercio, de 6 de junho de 1894, na sétima coluna).

É noticiado o aniversário de sua esposa, Laura Vianna (O Paiz, de 23 de setembro de 1894, na terceira coluna).

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José Baptista Barreira Vianna. D. Laura, esposa de José Baptista Barreira Vianna, c. 1900. Rio de Janeiro, RJ / Acervo IMS

1895 – Participa de um abaixo-assinado apoiando a medida da gerência da empresa New York Life Insurance Company em relação a um projeto de lei discutido na Câmara dos Deputados sobre companhias estrangeiras de seguro atuantes no Brasil (Cidade do Rio, de 21 de agosto de 1895, sob o título “Segurados da New York”, na segunda coluna).

1896 – Vai para a Europa com sua esposa e um filho, no paquete francês Brésil (Jornal do Brasil, de 16 de março de 1896, na terceira coluna).

Volta para o Brasil, no paquete francês Chili (A Notícia, de 6 de setembro de 1896, na última coluna sob o título “Visita”).

É eleito um dos suplentes da Sociedade Portugueza de Beneficencia (Liberdade, 23 de dezembro de 1896, sob o título “Sociedade Portugueza de Beneficencia, na quarta coluna).

1897 – A diretoria da Sociedade Portugueza de Beneficencia toma posse e Barreira Vianna é um dos suplentes ( Cidade do Rio, 29 de março de 1897, na sexta coluna).

Firma um contrato com Francisco dos Santos Romano para o comércio de material de construção (O Paiz, de 25 de abril de 1897, na segunda coluna).

Integra o grupo da colônia portuguesa que se organiza para oferecer um navio de guerra à Portugal como parte das comemorações do quarto centenário do descobrimento do caminho marítimo para as Índias (Jornal do Brasil, de 15 de novembro de 1897, na terceira coluna, sob o título “Grande subscripção patriotica portugueza“).

1899 – Já está morando com a família na casa de Ipanema, cujo projeto e construção foram de Raphael Rebecchi. Foi a primeira casa da praia e uma das primeiras do bairro. Dos dois lados da casa, há duas construções onde ficavam as dependências dos empregados, a lavanderia e uma oficina. São dessa época as fotografias que produziu das áreas internas e externas da residência. Embora a eletricidade não houvesse chegado à Ipanema, a casa possuia eletricidade produzida por um gerador movido por motor à explosão alimentado por acetileno.

1900 – Firma um contrato com Viríssimo Barbosa de Souza, Luiz José Monteiro e José Antônio Teixeira Barroso para o comércio de sabão na Praia de São Cristóvão, números 5 e 7 (O Paiz, de 21 de agosto de 1900, na terceira coluna).

Em 29 de dezembro,  falecimento do pintor João Baptista Castagneto (1862 – 1900), de quem José Baptista Barreira Vianna era muito amigo. Também fazia parte de seu rol de amizades o pintor João Baptista da Costa (1865 – 1926), que era professor de pintura de seus filhos.

1900 a 1903 – Do moinho de vento, que pertencia à propriedade e puxava água do sub-solo para a lavagem externa da casa, ele produziu fotografias do Leme, de Copacabana, do Arpoador, de Ipanema, do Leblon, da Gávea e da Lagoa.

1902 – Foi um dos escolhidos pela Associação Comercial do Rio de Janeiro para compor uma comissão para discutir os problemas gerados pela multiplicidade de taxas cambiais (Jornal do Commercio Retrospecto Commercial, edição de 1902, na primeira coluna).

1906 – É um dos patronos da conferência que John R. Mott proferirá na Associação dos Empregados do Commercio. Mott iria presidir, em São Paulo, a Convenção Nacional da Associação Cristã dos Moços, aberta em 19 de julho de 1906 (Gazeta de Notícias, de 19 de julho de 1906, na sétima coluna).

1909 – Firma um contrato com Theophilo Rufino Bezerra de Menezes, Carlos Frederico Oberlaender e José Pinto de Almeida para o comércio de sal na rua da Gamboa, números 193 e 795 (O Paiz, de 7 de aogosto de 1909, na terceira coluna).

1925 – É noticiado o falecimento de Barreira Vianna, que na época morava na rua João Alfredo, número 31. Ele foi enterrado no Cemitério Francisco Xavier (O Paiz, 4 de julho de 1925, na sexta coluna). É anunciada a missa de 30º dia (Jornal do Brasil, 2 de agosto de 1925, na quinta coluna).

Um pouco da história de Ipanema

José Antônio Moreira Filho (1830-1899), o barão e conde de Ipanema, comprou, em 1878, do tabelião e empresário Francisco José Fialho (1820? -1885) um lote de terras que ia desde a atual rua Barão de Ipanema até o atual Canal do Jardim de Alah. Criou, então,um novo bairro, que batizou de “Villa Ipanema”, em homenagem a seu pai, o primeiro barão e conde de Ipanema, o paulista João Antônio Moreira (1797 – 1879). O nome Ipanema significa em tupi “água ruim” e foi inspirado por uma das propriedades do barão, em Minas Gerais.

A “Villa Ipanema” foi inaugurada em 15 de abril de 1894, pelo prefeito Henrique Valladares, amigo do barão e do Coronel José Silva, sócio do barão, que no mesmo dia estava também inaugurando a ampliação das linhas de bonde da empresa de Ferro Carril do Jardim Botânico, da Praça Malvino Reis, atual Serzedelo Correia, até a ponta da “Igrejinha”, que era a Igreja de Nossa Senhora de Copacabana, erguida no século XVIII e derrubada em 1918, próxima à rua Francisco Otaviano. 

Em 26 de abril de 1894, foi assinada a ata de fundação definitiva do bairro “Villa Ipanema”,  com a presença do então prefeito Henrique Valadares e do barão e conde de Ipanema, que lançou, em seus terrenos, um enorme loteamento, berço do que é ainda hoje um dos bairros mais valorizados da cidade do Rio de Janeiro. No princípio, foram abertas 13 ruas, uma avenida e duas praças no areal sem valor, tomado por pitangueiras, cajueiros e araçazeiros. Até hoje essas vias são as mais importantes artérias do bairro. Entre elas, a avenida Vieira Souto e as ruas Prudente de Moraes e Visconde de Pirajá, essa última batizada inicialmente de Vinte de Novembro. Ipanema conservou a denominação de “vila” até a década de 20. Apesar de alguns autores considerarem outras datas, o dia 26 de abril de 1894 é a data mais aceita como marco de referência da fundação do bairro.

Ipanema tornou-se, ao longo do século XX, reduto de artistas, intelectuais, jornalistas e boêmios, um dos símbolos do comportamento de vanguarda, exportando a moda e os costumes cariocas para o resto do país.

Acessando o link para as fotografias do bairro de Ipanema disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Destacamos uma fotografia produzida por Marc Ferrez ( 1843 – 1923), em torno de 1895.

 

Para a elaboração desse post, a Brasiliana Fotográfica baseou-se em diversos periódicos, no depoimento deixado por um dos netos de Barreira Vianna, que tinha 9 anos quando ele faleceu; e também no artigo “A cidade em direção a Copacabana e Ipanema: transição para a modernidade”, publicado no blog do Instituto Moreira Salles na ocasião da abertura da exposição “Rio, primeiras poses – Uma visão da cidade a partir da chegada da fotografia – 1840 – 1930″, realizada entre 28 de fevereiro de 2015 e 28 de fevereiro de 2016.

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