A criação de uma vacina para a peste da manqueira, um marco na história da veterinária brasileira e mundial

Cristiane d’Avila, jornalista do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz, uma das parceiras da Brasiliana Fotográfica, conta a história da criação da vacina para a peste da manqueira. Foi por iniciativa de Oswaldo Cruz que as pesquisas sobre o assunto começaram a ser feitas no Brasil, no início do século XX, quando ele acumulava a função de diretor do Serviço de Profilaxia da Febre Amarela da Diretoria Geral de Saúde Pública e também do Instituto Soroterápico Federal, que viria a ser denominado Instituto Oswaldo Cruz, em 1908, e, posteriormente, Fundação Oswaldo Cruz. Ele convocou seus colegas Ezequiel Dias e Henrique Rocha Lima para investigarem a moléstia, mas, após 1905, o cientista Alcides Godoy tornou-se o responsável pelo projeto. A partir de 1908, o Instituto Oswaldo Cruz passou a produzir e fabricar em escala comercial a primeira vacina veterinária brasileira de combate a doenças infectocontagiosas. Um marco na história da veterinária brasileira e mundial.

Cristiane d’Avila *

“Peste da manqueira”, “mal do ano”, “mal do quarto inchado”, “blackleg” (nos países de língua inglesa). Os nomes populares atribuídos a doenças dizem muito sobre os danos à saúde humana e animal ou mesmo sobre os prejuízos financeiros que podem provocar. Em tais situações, somam-se esforços para que se encontrem respostas, antídotos e tratamentos que debelem as causas e minimizem os efeitos provocados por elas. No caso do carbúnculo sintomático, não foi diferente.

Era início do século XX. Pecuaristas mineiros, atônitos com a moléstia que acometia os bezerros e bovinos jovens, causando imensa mortandade e prejuízos galopantes, buscavam soluções para a situação. A doença, letal, iniciava-se com febre e inchaço da musculatura, especialmente das regiões chamadas “quartos” dos bovinos, atrofiando-as e provocando o andar manco. Não à toa, recebeu denominações que a classificaram popularmente como “peste” e “mal”.

Durante muito tempo confundido com o antraz, o carbúnculo sintomático não abatia apenas os rebanhos brasileiros. Tratava-se de uma doença de impacto mundial, porém mais ativa em países tropicais, que apresentava como vetor o microrganismo anaeróbico Clostridium chauvei. O germe havia sido cultivado e analisado pela primeira vez, em 1887, pelo bacteriologista francês Émile Roux, do Instituto Pasteur de Paris. Antes disso, foi estudado por Arloing, Cornevin e Thomas, que de 1887 a 1894 investigaram exaustivamente a etiologia, a epizootiologia, a manifestação clínica ea  patologia da doença. Em 1887, o trio publicou o livro Le Charbon symptomatique d uboeuf, porém não obteve sucesso na produção de um imunizante para o mal.

Em 1903, Oswaldo Cruz, já interessado em pesquisas sobre o carbúnculo sintomático, convidou o então estudante de medicina Alcides Godoy (1880 – 1950) para ingressar, como auxiliar acadêmico, no Serviço de Profilaxia da Febre Amarela da Diretoria Geral de Saúde Pública, a fim de trabalhar na produção de soros e vacinas. Nesse período, Cruz acumulava a função de diretor deste serviço e também do Instituto Soroterápico Federal (que viria a ser denominado Instituto Oswaldo Cruz, em 1908, e, posteriormente, Fundação Oswaldo Cruz).

 

 

Atento às pesquisas em curso no exterior, Oswaldo Cruz já havia adquirido e consultado a obra de Arloing, Cornevin e Thomas. Incansável na busca por respostas, colocou os colegas do Instituto Ezequiel Dias e Rocha Lima para investigarem a moléstia, mas após 1905 Godoy tornou-se o responsável pelo projeto. Enquanto isso, Henrique da Rocha Lima, pesquisador e “braço direito” de Oswaldo Cruz, usando técnica aprendida durante uma estadia na Alemanha, obteve colônias anaeróbicas do germe, cedendo-as a Godoy para investigação científica.

 

Voltado totalmente à pesquisa, Godoy (na foto ao lado) foi original: empregou um meio de cultura especial para bactérias anaeróbicas, com uso de glicose, a fim de obter uma “raça” diferenciada de bactérias de virulência atenuada, criando uma vacina com o clostridiumchauvoei vivo. Logo que foram confirmadas, em laboratório, as propriedades vacinantes de suas culturas, Godoy viajou, em 1906, para Juiz de Fora, Minas Gerais, em companhia dos pesquisadores do Instituto Rocha Lima e de Carlos Chagas, para executar os testes finais. A primeira demonstração pública da vacina, entretanto, não obteve o resultado esperado e alguns animais faleceram.

De volta a Manguinhos, Godoy descobriu a causa do insucesso: uma maior virulência do lote da vacina preparada para o teste. Corrigida a falha, novas inoculações foram feitas, desta feita com absoluto sucesso. A descoberta fez o então Instituto Oswaldo Cruz produzir e fabricar em escala comercial, a partir de 1908, a primeira vacina veterinária brasileira de combate a doenças infectocontagiosas. Um marco na história da veterinária brasileira e mundial.

 

 

Acima, a foto emblemática do fotógrafo J. Pinto (1884 – 1951) registra o trabalho de embalagem dos frascos e acondicionamento das vacinas em caixas, no IOC. Para o fotógrafo Roberto Jesus Oscar, do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz, onde a foto original de J. Pinto está depositada, essa imagem, gerada a partir de negativo de vidro, esbanja composição, enquadramento e equilíbrio de contrastes, enchendo a imagem de luz, volume e textura. Aos olhos de hoje a imagem pode causar estranheza, mas trata-se de uma ótima representação da história de Manguinhos, um ícone do acervo da Instituição.

É importante ressaltar que após a obtenção do registro da patente da vacina, Godoy efetuou uma escritura de cessão que transferia sua descoberta para o IOC, com o propósito de incentivar as atividades de exploração industrial do imunizante. A verba obtida com a venda da vacina auxiliou a instituição a cobrir gastos com o ensino, a pesquisa e a produção, sem submeter-se à burocracia governamental vigente, ao mesmo tempo em que representou um estímulo aos pesquisadores para o desenvolvimento de produtos biológicos a serem patenteados e vendidos (CHAMAS, 2006). Até 1917, ano da morte de Oswaldo Cruz, Godoy recebeu 5% da renda obtida com a venda das vacinas. A partir dessa data, esse percentual passou para 8% do total das vendas da vacina.

De acordo com um quadro elaborado por Oscar Meira, e apresentando por Benchimol, no período de 1906 a 1918 o Instituto produziu 7.111.698 doses da vacina contra a peste da manqueira. No mesmo período, a vacina foi o produto biológico mais produzido, perdendo apenas, em 1918, para a maleína, uma substância empregada no teste (prova de maleína) para diagnóstico do mormo, uma doença infectocontagiosa que acomete cavalos. (MORAES, 2008)

 

 

A princípio, a distribuição da vacina ficava a cargo do Ministério da Agricultura e de alguns órgãos públicos da esfera estadual e municipal. Cioso da importância da tarefa e obcecado com a eficiência deste processo, em 1913, Oswaldo Cruz (de chapéu branco, ao centro) cria a Seção de Propaganda da Vacina contra a Peste da Manqueira, assumindo totalmente a distribuição. Godoy está de pé, na ponta direita da foto.

A pesquisadora Alice Ferry de Moraes destaca o depoimento de Delfim Moreira, deputado estadual por Minas Gerais de 1894 a 1902, Secretário do Interior de Minas Gerais de 1914 a 1918 e, mais tarde, presidente do Brasil no período de 1918 a 1919, sobre o impacto da vacina (MORAES, 2008):

Se nós somos um país exportador de carne devêmo-lo (sic) a Manguinhos. Desse infalível produto, tirou Oswaldo Cruz, na época da pobreza daquele grande Instituto, o necessário para sua biblioteca, para as pesquisas, para o contrato de funcionários técnicos, enfim, todos os meios de progredir e realizar. (MAGALHÃES apud MORAES, 2008)

As vacinas foram produzidas pelo IOC até 1939. Em razão da promulgação de uma lei que proibia os cientistas lotados em instituições públicas de receberem dinheiro por suas patentes, Godoy fundou a Produtos Veterinários Manguinhos Ltda., juntamente com o pesquisador Astrogildo Machado, com quem criou outra vacina também importante – a vacina contra o Carbúnculo Hemático ou Verdadeiro, conhecido como Antraz, patenteada sob o n.º 9.981, em 1918 (CHAMAS, 2006).

 

Abaixo o texto de Oswaldo Godoy, filho de Alcides Godoy, publicado na Agência Fiocruz de Notícias em 15 de agosto de 2008, ano do centenário da primeira patente registrada pelo IOC:

 

‘A vacina contra a manqueira começou a ser distribuída e vendida já em 1906. Ela imunizava o gado com uma só aplicação. Na exposição de demografia e higiene realizada de Berlim, em junho de 1907, na qual o Instituto obteve a medalha de ouro, a vacina da manqueira foi um dos destaques selecionados, dentre os produtos fabricados para representar as atividades do IOC.

A premiação em Berlim foi determinante para que o Ministério da Justiça e Negócios Interiores aprovasse um novo regulamento, proposto por Oswaldo Cruz, visando expandir de modo expressivo as atribuições do Instituto, que passaria a gozar de considerável autonomia administrativa e financeira, sendo esta última garantida, principalmente, pela renda advinda da venda da vacina na manqueira. Tais recursos, que permitiam ao Instituto não depender apenas do orçamento governamental, foram fundamentais para contratar novos pesquisadores e, assim, ampliar o quadro de pessoal da instituição.

O próprio Oswaldo Cruz, em função da repercussão e da originalidade do processo desenvolvido por Godoy, aconselhou-o a patentear em seu nome a invenção. A carta patente nº 5.566 foi obtida em 24 de novembro de 1908. A publicação no Diário Oficial se deu em 6 de dezembro daquele ano. Ainda em 1908, cedeu, por escritura pública, ao Instituto Oswaldo Cruz, representado por seu diretor Oswaldo Cruz, os direitos de exploração comercial do seu privilégio de invenção (a vacina contra a manqueira).

No mesmo ano de 1908, Godoy publicou, com a colaboração de Gomes de Faria (que havia sido recentemente contratado pelo IOC), um trabalho analisando as variáveis no meio de cultura que poderiam ter causado a maior virulência da vacina responsável pelos problemas em Juiz de Fora, confirmando-se que a concentração da glicose havia sido a responsável pela redução da virulência da vacina (aspecto que havia sido identificado e solucionado por Godoy naquela ocasião, em 1906).

Além de dedicar-se ao tema da manqueira, como sua atividade principal, Godoy desenvolvia outras atividades – como era de praxe entre todos os pesquisadores de Manguinhos –, como a produção dos soros antidiftérico e antitetânico, e na dosagem do soro antipestoso. Com Astrogildo Machado, desenvolveu, em 1918, outra importante vacina produzida e comercializada pelo IOC, contra o carbúnculo hemático.

Outra frente importante de trabalho de Godoy em Manguinhos foi a criação de diversos dispositivos e aparelhos para facilitar e aperfeiçoar os procedimentos de produção, como o “frasco Dr. Godoy”, desenvolvido por ele para facilitar a coleta de mosquitos pelos “mata-mosquitos” que atuavam nas campanhas sanitárias.

Numa época em que as atividades de produção, ensino e pesquisa eram realizadas de modo bastante conjugado pelos pesquisadores, Godoy foi também professor do curso de aplicação do Instituto, criado em 1908 para oferecer treinamento experimental nas áreas de microbiologia e zoologia médica.

Godoy fez três viagens de estudo à Europa. Em 1912, foi enviado aos Laboratórios de Leipzig, na Alemanha, a fim de acompanhar pesquisas concernentes a questões de físico-química aplicada à ciência médica. Em 1919, permaneceu quatro meses na Europa; foi designado para esta viagem a partir da solicitação, feita a Manguinhos pela representação diplomática inglesa, para que algum médico embarcasse num navio inglês aportado no Rio cujo médico de bordo havia adoecido. Esta foi, conforme relatou certa ocasião, a única vez que exerceu a clínica médica. Finalmente, em 1925, esteve na Itália acompanhando Carlos Chagas no 1º Congresso de Malariologia, realizado em Roma, e para estudar os modernos processos de profilaxia da malária empregados naquele país.

Integrante do chamado “jardim da infância da ciência”, como Oswaldo Cruz carinhosamente chamava o grupo inicial de pesquisadores de Manguinhos, Godoy sempre gozou da confiança e apreço tanto de Cruz quanto de seu sucessor, Carlos Chagas, substituindo-os, várias vezes, em suas ausências, na direção do instituto.

Em 1923, Carlos Chagas solicitou ao Ministério da Justiça a renovação da patente da vacina da manqueira por mais 15 anos. Foi o segundo produto que obteve no Brasil a renovação da Patente, fato só obtido anteriormente pela Fornicída Matarazzo. Em 1937, como conseqüência da reforma implementada por Gustavo Capanema no Ministério da Educação e Saúde (criado em 1930, no âmbito da Revolução de 1930), foi vedada ao IOC a fabricação e comercialização desse e outros produtos veterinários.

Em 26 de junho de 1938, Godoy e Machado pediram o registro da marca genérica para produtos veterinários Manguinhos. Suas famílias fundaram em 25 de janeiro de 1939, uma firma que se chamou Produtos Veterinários Manguinhos Ltda, para fabricar e comercializar a vacina da manqueira, do carbúnculo hemático, e posteriomente a vacina contra a pneumoenterite dos porcos. O primeiro lugar em que estabeleceram o laboratório foi em prédio nos fundos do Hospital Gaffrée Guinle, na Rua Silva Ramos 20. Tiveram por muitos anos escritório na Rua Uruguaiana 33. Na década de 40 construíram um laboratório na Rua Licinio Cardoso 91 (hoje Rua Francisco Manuel), em Benfica.

Godoy casou-se com Dulce Leite de Castro em 5 setembro de 1923 e tiveram dois filhos: Oswaldo Tarcisio, que veio a se formar em Química Industrial e Engenharia Química e Margarida Maria, que estudou música, tocava piano e estudou na Europa. Faleceu em 30 de janeiro de 1950, aos 70 anos. Na década de 60 a família Godoy saiu da sociedade, que ficou com a família de Machado. A firma, que continua a fabricar a vacina da manqueira, foi vendida recentemente pelos seus descendentes e pertence hoje à empresa Bravet’.

 

* Cristiane d’Avila é jornalista do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz

 

Fontes:

BENCHIMOL, Jaime L. Manguinhos do sonho à vida: a ciência na belle époque. Rio de Janeiro: Casa de Oswaldo Cruz; Fiocruz, 1990.

CHAMAS, Claudia Inês. A Propriedade Intelectual e a Vacina contra a Peste da ManqueiraRevista Brasileira de Inovação, [S.l.], v. 5, n. 1 jan/jun, p. 203-218, junho 2006. ISSN 2178-2822.

GODOY, Alcides. Primeira vacina veterinária desenvolvida e fabricada no Brasil completa 100 anos. Agência Fiocruz de Notícias.

MAGALHÃES, Octávio de. Alcides Godoy. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, t. 49, mar. 1951. p. 1-6.

MORAES, Alice Ferry de. A inovação e a vacina da peste da manqueira. Inf. &Soc.:Est., João Pessoa, v.18, n.3, p. 97-103, set./dez. 2008. ISSN 1809-4783

 

 

Manguinhos e a cidade do Rio de Janeiro

 

 

A região de Manguinhos vem acompanhando, há mais de cem anos, as transformações de uma cidade que não para de crescer. Área de difícil acesso e pouco habitada, no início do século XX, ela se tornava ideal para se trabalhar com soros e vacinas. Neste local, se instalaria o Instituto Oswaldo Cruz. Manguinhos era acessada apenas pela estrada de ferro ou por meio de barcos. Ao longo do século XX, passaria por uma série de intervenções, justificadas pela necessidade de sanear e urbanizar os subúrbios cariocas. As fotos apresentadas, de autoria de Joaquim Pinto da Silva (c.1884- 1951), imortalizado como J. Pinto, procuram revelar um pouco do passado da instituição, na sua relação com a cidade do Rio de Janeiro.

Acessando o link para as fotografias relativas a Manguinhos e a cidade do Rio de Janeiro disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

A construção da Madeira-Mamoré, a “Ferrovia da Morte”, pelas lentes de Dana B. Merrill (c. 1887 – 19?)

O norte-americano Dana B. Merrill (c. 1887 – 19?) foi o autor da documentação da construção da ferrovia Madeira-Mamoré, na região da floresta Amazônica, no norte do Brasil, entre 1909, quando chegou ao país, até 1910, quando, acredita-se, que partiu. Especula-se que ele tenha produzido aproximadamente 2 mil negativos. Merrill foi contratado pelo engenheiro e empresário norte-americano Percival Farquhar (1864 – 1953) – que comandou a construção da ferrovia, entre Porto Velho e Guajará-Mirim, em Rondônia – para registrar o desenvolvimento da obra. Porém, Merrill foi além disso e, com suas lentes, registrou a vida dos trabalhadores da ferrovia, dos índios e de paisagens da região. Esse legado fotográfico é importante para a compreensão do desenvolvimento industrial e das relações de trabalho no país e do processo de ocupação da região Norte. Seus registros fazem parte do álbum View of reviews or scenes as seen by Engineers, Tropical tourist, Global Trotters, Knights of fortune and Tramps: Madeira-Mamoré Ry. Brazil, South America, que pertence ao acervo da Biblioteca Nacional, uma das fundadoras da Brasiliana Fotográfica.

 

 

Acessando o link para as fotografias de autoria de Dana B. Merrill disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Milhares de trabalhadores morreram vitimados pela disenteria, pela malária e por outras doenças tropicais durante as obras da ferrovia, que tiveram início em agosto de 1907 (The Aldon Express, inverno de 2013). Devido a essas mortes, a Madeira-Mamoré ganhou o título de Ferrovia da Morte. Foi inaugurada em 1º de agosto de 1912 e desativada em  julho de 1972 (Alto Madeira, 11 de julho de 1981). Com 366 quilômetros de extensão, foi seguidamente sucateada até o início da década de 1980, quando, a partir de ações conjuntas do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) com a comunidade local, ressurgiu como ícone da força de Rondônia. Apesar de seu fracasso econômico e financeiro, a ferrovia foi fundamental na colonização deste estado. Em 2008, a Madeira-Mamoré foi tombada pelo Iphan.

 

 

Pequeno perfil de Dana B. Merrill  (c. 1887 – 19?) 

 

 

A documentação de obras de engenharia foi uma prática comum desde o início da história da fotografia. As ferrovias, um dos símbolos do progresso, foram bastante fotografadas. Portanto, a contratação de um fotógrafo pelos construtores da Madeira-Mamoré não foi uma novidade. Porém, nem sempre essas imagens constituíram um conjunto tão expressivo como o produzido por Merrill. Segundo o historiador e fotógrafo Pedro Ribeiro, isso deveu-se ao gênio do fotográfo.

 

 

Pouco se sabe até hoje sobre a vida de Dana B. Merril. Acredita-se que ele havia trabalhado, antes de vir para o Brasil, para a prefeitura de Nova York e que para lá teria voltado após fotografar a Madeira-Mamoré. Teria nascido em New Hampshire, servido, em torno de 1900, nas forças navais nas Filipinas e, em 1930, residia em Scarsdale, Westchester, no estado de Nova York com sua esposa, Laura, e um funcionário, Elli Peter. Na década de 30, trabalhou para a revista House & Garden. Fotografias produzidas por ele são vendidas pela Conde Nast Collection. Em torno de 1940, fotografou uma aula de figurino no Pratt Institute, em Nova York. Na Divisão de Arte, Impressos e Fotografias Miriam e Ira  D. Wallach: Coleção de Fotografias, da Biblioteca Pública de Nova York, encontra-se a Coleção Vistas da Estrada de Ferro Madeira e Mamoré – Amazonas & Mato Grosso, Brasil, S.A., com fotografias de autoria de Dana Merril.  Segundo a descrição feita da coleção, as fotografias evocam calor, perigo e trabalho pesado embora numa paisagem de mistério e grande beleza.

Segundo Pedro Ribeiro, Dana B. Merrill foi identificado como autor das fotografias da Madeira-Mamoré devido ao livro The Jungle Route, de Frank Kravigny, o escriturário sobrevivente da construção da ferrovia. Ainda de acordo com Ribeiro:

O equipamento fotográfico usado por Dana Merrill era praticamente o mesmo usado pela maioria dos profissionais de então. O formato 13 x 18 cm, considerado pequeno e leve para sua época, era o que mais se adequava às necessidades de deslocamentos freqüentes, por terrenos de difícil locomoção. Para os negativos, além de placas de vidro, mais comuns, Merrill adotou também o uso dos chassis do tipo film pack, que era uma novidade. Estes eram compostos por placas emulsionadas em bases flexíveis, bem mais leves que o vidro, acondicionadas em pacotes, geralmente de doze unidades. Esta opção permitia ao fotógrafo uma considerável economia de peso no equipamento e mais agilidade na troca das chapas. Contudo, a câmara usada continuava sendo aquela convencional, mais apropriada para a execução das documentações tradicionais, tomadas a média distância, rigorosamente enquadradas e privilegiando a pose, que de certa forma era induzida pelo uso compulsório do tripé‘.

 

 

Como já citado, as imagens produzidas por Dana B. Merrill presentes no acervo da Brasiliana Fotográfica estão no álbum View of reviews or scenes as seen by Engineers, Tropical tourist, Global Trotters, Knights of fortune and Tramps: Madeira-Mamoré Ry. Brazil, South America , disponível na Fundação Biblioteca Nacional (FBN), uma das fundadoras do portal. Além disso, a Coleção Percival Farquhar é custodiada na Divisões de Manuscrito da FBN e é composta por cerca de 2700 documentos manuscritos, fotografias, plantas e mapas, que cobrem as atividades empresariais e a vida pessoal de Farquhar na primeira metade do século XX.

Além da Madeira-Mamoré (The Brazilian Review, 18 de julho de 1911), o empresário Percival Farquhar foi responsável pelo arrendamento da ferrovia Sorocabana (Correio Paulistano, 17 de agosto de 1907, quarta coluna), pela criação da Sorocabana Railway Company (The Brazilian Review, 30 de julho de 1907) e pela construção do porto de Belém (Relatório do Ministério da Agricultura, 1907 The Brazilian Review, 27 de outubro de 1908), e pelo controle da Companhia de Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande (O Século, 28 de fevereiro de 1907, penúltima coluna), entre outros empreendimentos. Foi presidente da Rio de Janeiro Trampway Light Power Company (Almanaque Garnier, 1908) e fez parte da diretoria da Brazil Railways Company (The Brazilian Review, 15 de fevereiro de 1910). Segundo o New York Times, 22 de setembro de 1912, no artigo Two New Yorkers Try to ‘Harrimanize’ South America, o sonho de Farquhar era dominar todo o transporte ferroviário da América Latina. Ele nasceu em York, na Pensilvânia, em 1864, e faleceu em Nova York, em 4 de agosto de 1953.

 

 

 Um pouco da história da ferrovia Madeira-Mamoré

 

Devido ao alto preço da borracha no mercado mundial, a ocupação do Vale do Guaporé pelos portugueses levou a região do alto Madeira a Mamoré a intensificar a produção da colheita do látex. A ligação que ia do Mato Grosso ao Atlântico, através dos rios Guaporé, Mamoré, Madeira e Amazonas, era o percurso realizado no escoamento da produção comercial do Brasil e da Bolívia. A ideia de construir uma ferrovia surgiu em 1861, mas somente em 1877 é assinada Madeira – Mamoré Railway Co., um empreendimento incorporado pelos irmãos americanos Philips e Thomas Collins. Da Filadélfia, no ano de 1878, partiram engenheiros e demais trabalhadores junto com toneladas de máquinas, ferramentas e carvão mineral. Dada a insalubridade do local aliada à falta de alimentação, o único saldo positivo foi a construção de sete quilômetros de trilhos assentados. Vencidos pelas doenças e pela fome, foram poucos os trabalhadores que sobreviveram. A partir de janeiro de 1879, com a falência da empresa Collins decretada, não havia mais o que fazer. Com a assinatura do Tratado de Petrópolis em 17 de novembro de 1903 entre a Bolívia e o Brasil, o Estado do Acre, que à época se fazia uma região pertencente à Bolívia, formalizou-se incorporado ao território brasileiro. Com esse acordo, o Brasil pagou à Bolívia dois milhões de libras esterlinas, cedeu algumas terras do Amazonas e se comprometeu com a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, com o seu trajeto desde o porto de Santo Antônio, no rio Madeira, até Guajará-Mirim, no Mamoré, com um ramal chegando à Vila Bela, Bolívia, o que permitiria o uso de ambos os países com direito às mesmas franquias e tarifas. O Brasil ficava obrigado a construir a estrada de ferro no prazo máximo de quatro anos. Com a concorrência vendida ao americano Percival Farquhar, foi adotado o mesmo nome usado pelos irmãos Collins: Madeira Mamoré Railway Co.. Saíram de Nova York em 1907. A partir do ano de 1909, quando a ferrovia já contava com 74 km construídos, Dana Merrill, fotógrafo nova-iorquino oficial contratado pela Brazil Railway Company, desembarcou em Porto Velho onde começou os seus primeiros registros dos avanços e percalços no campo das obras ferroviárias. Especula-se a produção de 2 mil chapas em sua estada na Amazônia. Em meio a exemplares da fauna e flora, membros de populações indígenas são registrados em contato com os personagens da obra dominante. Seus registros como cronista do caminho do ferro seguem até o ano de 1910, quando se supõe que Merrill retorna para os Estados Unidos. Sem mais informações sobre a sua vida, Merrill foi revisto no reencontro dos sobreviventes da Exposição Mundial de Nova York, em 1939. A Estrada de Ferro Madeira – Mamoré estava inaugurada em 1912. No entanto a Bolívia, nesse ano, já chegava ao Pacífico por duas ferrovias e estava sendo concluída a sua ligação com o Atlântico, pela Argentina. O canal do Panamá estaria concluído dentro de três anos e, com isso, a Madeira – Mamoré só daria lucro nos dois primeiros anos de atividades, pois a produção ordenada dos seringais do Oriente fariam cair o preço da borracha no comércio internacional. Com a falência de Percival Farquar, os investidores ingleses e canadenses foram obrigados a assumir a administração da ferrovias, o que fizeram até o ano de 1931. Em 1937, Aluízio Pinheiro Ferreira, a mando de Getúlio Vargas, assume a direção da ferrovia, que permaneceu em atividade até 1966. Depois de 54 anos de atividade, acumulando prejuízos durante esse tempo, Humberto de Alencar Castelo Branco determina a erradicação da Estrada de Ferro Madeira – Mamoré que seria substituída por uma rodovia. Atualmente, o que restou da ferrovia é um trecho recuperado que atinge a vila de Teotônio. Por falta de recursos para manutenção, o trem trafega apenas no primeiro trecho, mesmo assim, precariamente‘ (Site da Fundação Biblioteca Nacional).

 

 

Curiosidades

Uma curiosidade: na tentativa de conter o avanço das epidemias de malária entre os operários da Madeira-Mamoré, foram contratados, em 1910, pela Madeira Mamoré Railway Company, responsável pela construção da ferrovia, os médicos sanitaristas Belisário Penna (1868 – 1939), que trabalhava na Diretoria Geral de Saúde Pública e Oswaldo Cruz (1872-1917), do então Instituto Soroterápico Federal. Este último dá nome à Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz, uma das instituições parceiras do portal Brasiliana Fotográfica (Jornal do Commercio, 16 de julho de 1910, última coluna, e Agência Fiocruz de Notícias, 26 de janeiro de 2007).

 

 

Outra curiosidade: negativos de vidro e acetato de autoria de Merrill sobre a construção da ferrovia foram entregues ao jornalista Manoel Rodrigues Ferreira, em 1956, pelo repórter fotográfico Ari André, que os havia recebido do filho do engenheiro alemão Rodolfo Kesselring, que havia trabalhado na Madeira-Mamoré. Manoel Rodrigues Ferreira publicou 17 reportagens sobre o assunto no jornal A Gazeta. Após consultar os arquivos da Madeira-Mamoré, que seriam incinerados quando a ferrovia foi desativada, lançou, em 1959, pela editora Melhoramentos o livro A Ferrovia da Morte. A identificação da autoria dos negativos só foi possível, em 1962, quando Manoel conheceu o livro escrito por Frank Kravigny, The Jungle Route, de 1940.

Uma última curiosidade: após uma série de manifestações de entidades culturais contra o abandono da Madeira-Mamoré, o governo decidiu, em 1979, preservar um trecho de 25 quilômetros da ferrovia para uso turístico. O extinto Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Sphan –  atual Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Iphan – solicitou a Manoel Rodrigues Ferreira o empréstimo dos negativos de autoria de Merrill para reproduzi-los. Os negativos foram, então, duplicados pelo fotógrafo alemão Hans Gunther Flieg (1923 -) que os entregou ao fotógrafo do Sphan, José Romeu Caccione. Esses 189 negativos pertencem ao acervo do Museu Paulista da USP.  A obra de Flieg, composta por cerca de 35 mil negativos em preto e branco, foi adquirida do próprio fotógrafo pelo IMS em julho de 2006.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Agência Fiocruz de Notícias

Catálogo da exposição Ferrovia Madeira-Mamoré: Trilhos e Sonhos – Fotografias. O fotógrafo Dana Merrill, de Pedro Ribeiro. BNDES e Museu Paulista da USP, 2002. Cortesia Carlos E. Campanhã.

Catálogo da exposição Ferrovia Madeira-Mamoré: Trilhos e Sonhos – Fotografias. A Coleção Dana Merrill: Momentos decisivos para sua recuperaçãode Silvia Maria do Espírito Santo. BNDES e Museu Paulista da USP, 2002. Cortesia Carlos E. Campanhã.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

FERREIRA, Manoel Rodrigues. A ferrovia do diabo: história de uma estrada de ferro na Amazônia. 3ª ed. São Paulo: Melhoramentos, 1982.

GERODETTI, João Emilio; CORNEJO, Carlos. Railways of Brazil in Postcards and Souvenir Albums. São Paulo: Solaris Edições Culturais, 2015.

KRAVIGNY, Frank. The Jungle Route. Nova York: O. Tremaine Company, 1940.

NEELEMAN, Gary; NEELEMAN, Rose; DAVIS, Wade. Tracks in the Amazon. The Day-to-Day Life of the Workers on the Madeira-Mamoré Railroad. Utah: University of Utah Press, 2013.

Site Bowlers and High Collars

Site da BBC

Site da Enciclopédia Itaú Cultural

Site da Fundação Biblioteca Nacional

Site do CPDOC

Site do Iphan

O pintor Rodolfo Amoedo (1857 – 1941) no Álbum de artistas, doado à Biblioteca Nacional por M. Nogueira da Silva

Thumbnail

Anônimo. Rodolpho Amoedo, pint. : (Auto-retrato) : [pintura], 190?. Acervo FBN

A Brasiliana Fotográfica destaca uma imagem do pintor Rodolfo Amoedo (1857 – 1941), nascido há exatos 160 anos, publicada no Álbum de artistas, do acervo da Fundação Biblioteca Nacional, uma das criadoras do portal. O álbum foi doado à Seção de Estampas da instituição, em 22 de abril de 1932, pelo escritor, jornalista, cronista literário e crítico de arte maranhense M. Nogueira da Silva (1880 – 1943), um dos retratados na obra (Gazeta de Notícias, 16 de novembro de 1943, terceira coluna). Nogueira da Silva foi o autor do livro Pequenos Estudos Sobre Arte, Pintura, Escultura (1926) e era considerado um dos melhores comentadores da obra do escritor Gonçalves Dias (Gazeta de Notícias, 28 de janeiro de 1940, terceira coluna). Ocupou a cadeira 23 da Academia Carioca de Letras e trabalhou nos jornais Gazeta de Notícias e A Notícia.

Estão disponíveis no acervo da Brasiliana Fotográfica imagens de Angelina Agostini (1888 – 1973)Antônio Parreiras (1860 -1937)Pedro Weingartner (1853 – 1929) e Menotti del Picchia (1892 – 1988), dentre outros registros do Álbum de artistas.

 

Na fotografia destacada abaixo, o doador do Álbum de artistas, M. Nogueira da Silva, encontra-se entre os artistas Dakir (1894 – 1967) e Antônio Parreiras (1860 – 1937).

 

 

 

Acessando o link para as fotografias do Álbum de Artistas disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Pequeno perfil de Rodolfo Amoedo

Rodolfo Amoedo, o poeta da tela (Diário de Notícias, 5 de dezembro de 1888, quinta coluna), nasceu em 11 de dezembro de 1857, na rua do Fogo, atual rua dos Andradas, no Rio de Janeiro, e viveu parte de sua infância na Bahia. Sua obra foi, desde o início, marcada por sua excelência técnica e, segundo o professor Flexa Ribeiro, por seu caráter poético (Illustração Brasileira, maio de 1935). Foi também professor e alguns de seus alunos na Escola Nacional de Belas Artes foram João Baptista da Costa (1865 – 1926), Eliseu Visconti (1866 – 1944) e Cândido Portinari (1903 – 1962). Amoedo criou painéis  para a Biblioteca Nacional, para o Conselho Municipal do Rio de Janeiro, para o Teatro Municipal e para o Supremo Tribunal Federal. Realizou trabalhos de decoração no Palácio Itamaraty e no Supremo Tribunal Militar, no Rio de Janeiro; no Museu do Ipiranga – atual Museu Paulista da Universidade de São Paulo, em São Paulo; e no Teatro José de Alencar, em Fortaleza. Faleceu, pobremente, em 31 de maio de 1941, no Rio de Janeiro (Jornal do Commercio, 1º de junho de 1941, primeira coluna).

O início

Viveu dos seis aos 11 anos na Bahia, onde estudou no Colégio Sebrão. Veio para o Rio de Janeiro, em 1868, onde frequentou os colégios Vitório e Pedro II. Estudou, em 1873, no Liceu de Artes e Ofícios, no Rio de Janeiro, onde foi aluno de  Victor Meirelles (1832 – 1903). No ano seguinte, foi para a Academia Imperial de Belas Artes (Aiba). Com o quadro O sacrifício de Abel, Rodolfo, identificado como o filho dos conhecidos artistas Luiz Carlos de Amoedo e D. Leolinda – eram atores -, venceu, em 1878, um concurso da Aiba (Gazeta de Notícias, 1º de novembro de 1878, quinta coluna, e O Monitor Campista, 6 de novembro de 1878, na última coluna). Seus concorrentes foram Henrique Bernardelli (1857 – 1936) e Antônio Firmino Monteiro (1855 -1888). Após o empate com Bernardelli, Amoedo venceu pelo voto de qualidade do diretor da Aiba, Antonio Nicolau Tolentino (1810 – 1888). O relatório da Repartição dos Negócios do Império de 1878 confirmou o prêmio e Amoedo viveu na Europa como pensionista da Aiba, entre 1879 e 1887. Também no relatório foi lamentado o fato do artista Bernardelli não ter também recebido como prêmio a viagem. Por sua vitória, Rodolfo foi capa e recebeu uma crítica muito favorável no periódico O Mequetrefe, de 5 de novembro de 1878.

 

 

Depois de uma passagem por Roma, Amoedo chegou em Paris em maio de 1879. Frequentou o ateliê de Gustave Boulanger (1824 – 1888) e de Charles-Edouard Lefébvre (1843 – 1917). Matriculou-se, em 1880, na Academia de Belas Artes de Paris, onde foi aluno dos pintores Alexandre Cabanel (1823 – 1889) e Pierre Puvis de Chavannes (1824 – 1898) (Gazeta de Notícias, 3 de agosto de 1879, sexta coluna e Gazeta de Notícias, 28 de dezembro de 1879, sexta coluna). Enquanto estava em Paris, foi publicado na revista A Illustração: Revista Universal, de 5 de agosto de 1884, o desenho Mercado das Flores, de autoria de Amoedo. Na mesma revista, em 5 de dezembro de 1884, foi publicada uma reprodução do quadro Indígenas do Amazonas.

Participação de Rodolfo Amoedo nos Salões de Belas Artes de Paris nos anos que passou na França

1882 – Exposição na Academia de Belas Artes, no Rio de Janeiro, do quadro Marabá, de Amoedo, que havia participado com sucesso no último Salão Anual de Belas Artes de Paris. A pintura foi inspirada pelos versos do poeta Gonçalves Dias (1823-1864) (Gazeta de Notícias, 28 de outubro de 1882, quarta coluna).

1883 – Amoedo e Vitor Meirelles participaram do Salão Anual de Belas Artes de Paris com os quadros O último dos tamoios e A Batalha Naval do Riachuelo, respectivamente. A crítica saudou Amoedo como um artista de futuro (Gazeta de Notícias, 8 de junho de 1883, na última coluna).

1884 – Exposição na Academia de Belas Artes de dois quadros de Amoedo, A Partida de Jacob, que havia participado do Salão Anual de Belas Artes de Paris, e o Estudo de mulher Recebeu uma crítica favorável de Lulu Sênior, pseudônimo de José Ferreira de Araújo (1848 – 1900), um dos fundadores e proprietários da Gazeta de Notícias (Gazeta de Notícias, 29 de agosto de 1884, na quinta coluna e Gazeta de Notícias, 4 de setembro de 1884, quarta coluna).

1887 - Amoedo participou do Salão Anual de Belas Artes de Paris com o quadro Narração de Filetas (Gazeta de Notícias, 27 de maio de 1887, terceira coluna).

De volta ao Brasil

Amoedo recebeu ajuda financeira do império brasileiro para suas despesas de regresso ao país (Gazeta de Notícias, 2 de junho de 1887, quarta coluna). Chegou ao Rio de Janeiro, vindo da Bahia, no paquete Ville de Pernambuco, em 23 de dezembro de 1887 (Jornal do Commercio, 24 de dezembro de 1887, quinta coluna). Em 27 de janeiro 1888, inaugurou sua primeira exposição individual no Rio de Janeiro, na Academia de Belas Artes, com a presença da princesa Isabel. Expôs Jesus em CafarnaumNarração de Filetas, dentre outras pinturas (Diário de Notícias, 29 de janeiro de 1888, primeira colunaGazeta de Notícias, 29 de janeiro de 1888, primeira coluna e Gazeta de Notícias, 3 de fevereiro de 1888, penúltima coluna). Houve uma polêmica em torno do tema do quadro Jesus em Cafarnaum (Jornal do Commercio, 5 de fevereiro de 1888, quinta coluna). A mostra foi um sucesso de público e crítica, e terminou em 10 de fevereiro de 1888.

Ainda em 1888, Amoedo foi agraciado como oficial da Ordem da Rosa (A Época, 9 de fevereiro de 1888, terceira coluna) e tornou-se professor honorário de pintura histórica na Aiba (Cidade do Rio, 1º de março de 1888, terceira coluna,Diário de Notícias, 2 de março de 1888, quarta coluna). Expôs o retrato que pintou do escritor e crítico de arte Luiz Gonzaga Duque Estrada (1863 – 1911), na casa Moncada (Diário de Notícias, 2 de agosto de 1888, última coluna). Uma curiosidade: nesse mesmo ano, inscreveu-se no Club de Esgrima e Tiro (Diário de Notícias, 23 de abril de 1888, segunda coluna).

Em 1889, pintou o estandarte da sociedade carnavalesca Tenentes do Diabo (Gazeta de Notícias, 24 de fevereiro de 1889, quinta coluna). Faria parte da comissão da Academia de Belas Artes que foi prestar solidariedade ao imperador Pedro II (1825 – 1891), contra o qual havia sido praticado um atentado, no dia 15 de julho de 1889, no saguão do Teatro Sant´Anna (Diário de Notícias, 18 de julho de 1889, quarta coluna). Amoedo foi nomeado interinamente professor de trabalhos gráficos do curso de ciências físicas e naturais da Escola Politécnica, no lugar de João Maximiano Mafra (1823 – 1908) (Cidade do Rio, 31 de dezembro de 1889, terceira coluna).

Pediu demissão da Academia, em 1890 (Diário de Notícias, 30 de maio de 1890, quinta coluna e Diário de Notícias, 4 de maio de 1890, segunda coluna). Ele, Rodolfo Bernardelli (1852 – 1931) e Décio Villares (1851 – 1931), dentre vários outros artistas, reuniram-se no Derby Club e assinaram uma petição pelo progresso das belas artes no Brasil que seria entregue ao ministro da Instrução Pública, Benjamin Constant (1836 – 1891) (Diário de Notícias, 22 de junho de 1890, segunda coluna, e Diário de Notícias, 26 de junho de 1890, sexta coluna). Com sua mãe, foi para a Europa, em 1890. Lá, casou-se no consulado brasileiro de Lisboa com a filha do cônsul de Luanda em Portugal. Em 1891, quando ainda estava na Europa, foi nomeado professor de pintura da Escola de Belas Artes – Enba (Diário de Notícias, 28 de setembro de 1890, última coluna, e Diário de Notícias, 22 de janeiro de 1891, sexta coluna). Foi o responsável, com Rodolfo Bernardelli (1852 – 1931) e Ernesto Gomes Moreira Maia (1889-1915), do projeto de reforma do ensino da Escola Nacional de Belas Artes. Elaborou o regimento das exposições gerais da instituição, iniciadas em 1893 (Revista Americana, agosto e setembro de 1917). Participou de inúmeras exposições gerais da Enba entre 1893 e 1930.

Em 1893, foi nomeado vice-presidente da Escola Nacional de Belas Artes (Diário de Notícias, 12 de fevereiro de 1893, terceira coluna). Participou e foi premiado na Exposição Internacional Colombiana de Chicago, que aconteceu entre 1º de maio e 30 de outubro de 1893 para celebrar os 400 anos da chegada do navegador genovês Cristóvão Colombo (1451 – 1506) ao Novo Mundo, em 1492. Outros artistas brasileiros laureados foram Almeida Junior (1850 – 1899), Eliseu Visconti (1866 – 1944), Henrique Bernardelli,  M. Broesse, Pedro Weingartner e Rodolfo Bernardelli, (A Republica: organ do Partido Republicano, 14 de outubro de 1893, quarta coluna).

Participou da Segunda Exposição Geral de Belas Artes, em 1895, com o quadro Más Notícias (Cidade do Rio, 2 de setembro de 1895, terceira coluna). Integrava a Comissão da Exposição Retrospectiva Brasileira das comemorações pelos 400 anos do descobrimento do Brasil (Cidade do Rio, 16 de agosto de 1898, segunda coluna).

O livro Flora de Maio, de Osório Duque Estrada (1870 – 1927), foi ilustrado com uma aquarela de Amoedo (Cidade do Rio, 30 de agosto de 1901, segunda coluna). Também ilustrou o Livro de Emma, de Alberto de Oliveira (1857 – 1937) (Cidade do Rio, 18 de setembro de 1901, terceira coluna).

Em 1903, em uma reunião de artistas, promovida por Amoedo, na Escola de Belas Artes, foi fundada a Associação de Aquarelistas e o fotógrafo e pintor português Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912) foi eleito para presidi-la. A primeira exposição da associação foi inaugurada em 1º de julho e Insley participou com oito marinhas (A Notícia, 24 e 25 de abril de 1903, na terceira coluna e Jornal do Brasil, 2 de julho de 1903, na oitava coluna).

A revista Kosmos de janeiro de 1905, publicou uma reportagem, assinada pelo escritor e crítico de arte Luiz Gonzaga Duque Estrada (1863 – 1911), sobre Rodolfo Amoedo com diversas ilustrações de sua obra e uma do próprio pintor.

 

 

Recebeu a medalha de ouro na Exposição Nacional de 1908, realizada entre agosto e novembro de 1908, no Rio de Janeiro, em comemoração ao primeiro centenário da Abertura dos Portos do Brasil. Seu ateliê ficava no segundo andar de um enorme prédio da avenida Sete de Setembro, separado da Catedral apenas por uma travessa, que é a rua do Carmo (Gazeta de Notícias, 5 de janeiro de 1908, primeira coluna)Ganhou a Medalha de Honra no salão da Escola Nacional de Belas Artes de 1917 pelo quadro Eros e a noite (imagem do centro, à direita) (Revista da Semana, 18 de agosto de 1917 e Revista Americana, agosto e setembro de 1917). Em 1918, afastado da Escola desde 1906, foi contratado pela instituição para ocupar a cadeira de pintura por 5 anos. Na ocasião, relatou o processo de criação de sua última pintura, Jesus descendo o monte das oliveiras (Gazeta de Notícias, 29 de janeiro de 1918, sexta coluna e Gazeta de Notícias, 30 de janeiro, primeira coluna). Foi, posteriormente, recontratado e tornado interino. Em 1928, foi nomeado professor temporário (O Paiz, 30 de setembro de 1928, sexta coluna, e O Paiz, 29 e 30 de outubro, última coluna) e, um ano depois, passou a ser professor catedrático honoris causa da Escola de Belas Artes. Fez parte do juri que elegeu Olga Bergamini de Sá, representante do Rio de Janeiro, a Miss Brasil de 1929. Os outros membros do juri eram o escritor Coelho Netto (1864 – 1934), o então professor de anatomia Raul Leitão da Cunha (1881 – 1947), o pintor Carlos Chambelland (1884 – 1950), o escultor Cunha e Mello (1879 – 1949) e o jornalista Manuel Paulo Filho (1890 – 1969), presidente da Associação Brasileira de Imprensa (Correio da Manhã, 14 de abril de 1929, oitava coluna, e Correio da Manhã, 17 de abril de 1929).

Os últimos anos

Aposentou-se em 1935 e foi tema de um artigo do professor catedrático da Escola Nacional de Belas Artes, Flexa Ribeiro, intitulado A Bíblia e a mitologia na pintura de Rodolfo Amoedo, publicado na Illustração Brasileira, maio de 1935:

‘…Com a aposentação que agora lhe foi conferida, não que ele a requeresse, mas atingido pela compulsória, priva-se a Escola Nacional de Belas Artes de um mestre que largamente honrou e dignificou a educação brasileira, e que é decerto o mais completo que aquele instituto já teve: pela paixão viva de sua arte, pela erudição na sua especialidade, pela férrea intransigência na atividade crítica e pelo exercício infatigável na nobre e generosa missão de dar aos outros tudo quanto sabe.’

Foi o entrevistado da reportagem Como vivem nossos artistas, da Revista da Semana, de 6 de julho de 1940. Na ocasião, vivia nas cercanias do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Poucos meses depois, foi inaugurado, por iniciativa da Sociedade Brasileira de Belas Artes, um busto em sua homenagem, na Praia do Russel (Illustração Brasileira, dezembro de 1940 e A Noite, 17 de novembro de 1940, quinta coluna).

No Correio da Manhã, de 6 de fevereiro de 1941, foi publicada uma matéria sobre a obra e a vida de Amoedo, intitulada O Crepúsculo de um Gênio. Rodolfo Amoedo faleceu, pobremente, em 31 de maio de 1941, na Fundação Gaffrée Guinle, no Rio de Janeiro (Correio da Manhã, 1º de junho de 1941, primeira coluna ). Poucos dias antes, o presidente da República, para amparar o velho artista, resolveu que o governo compraria seus quadros.  Após sua morte, parte de sua obra foi doada ao Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro.

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Leia também:

Cartas na pintura (13) – por Priscila Sacchetin, publicado no Correio IMS – ensaio sobre a pintura Más notícias, de Rodolfo Amoedo.

 

Más notícias, 1895, por Rodolfo Amoedo. Óleo sobre tela, 100 x 74 cm. Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro

Más notícias (1895), óleo sobre tela de Rodolfo Amoedo / Acervo do Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro

 

Fontes:

COSTA, Richard Santiago. Marabá e O Ultimo Tamoio na exposição geral de belas artes de 1884: crí- tica e recepção da obra de Rodolfo Amoedo. VIII EHA – Encontro de História da Arte, 2012.

GOMES, Adryana Diniz. Rodolfo Amoedo e a Exposição de 1888. 19&20, Rio de Janeiro, v. VIII, n. 2, jul/dez. 2013.

CAVALCANTI, Ana Maria Tavares. O Último Tamoyo e o ultimo romântico. Rio de Janeiro: Revista de História, 07/11/2007.

Enciclopédia Itaú Cultural

GOMES, Adryana Diniz. Rodolfo Amoedo e a Exposição de 1888. 19&20, Rio de Janeiro, v. VIII, n. 2, jul/dez. 2013.

GONZAGA, Duque. A Arte Brasileira / Luiz Gonzaga Duque Estrada; introdução e notas de Tadeu Chiarelli. Campinas: Mercado das Letras, 1995.

JORGE, Marcelo Gonczarowska. As Pinturas Indianistas de Rodolfo Amoedo. 19&20, Rio de Janeiro, v. V, n° 2, abril 2008.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

LEVY, Carlos Roberto Maciel. Exposições Gerais da Academia Imperial e da Escola Nacional de Belas Artes. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1990.

MIGLIACCIO, Luciano. Rodolfo Amoedo. O mestre deveríamos acrescentar. In: 30 Mestres da pintura no Brasil: 30 anos Credicard. São Paulo: MASP, 2001.

PONTUAL, Roberto. Dicionário das artes plásticas no Brasil. Texto Mário Barata, Lourival Gomes Machado, Carlos Cavalcanti et al. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969.

RUBENS, Carlos. Pequena história das artes plásticas no Brasil. São Paulo: Editora Nacional, 1941

O fotógrafo português José Ferreira Guimarães (1841 – 30/01/1924)

 

No Arquivo Nacional, o estúdio de José Ferreira Guimarães

Claudia Beatriz Heynemann e Maria do Carmo Rainho*

 

Uma pequena e significativa série de retratos originados no prestigiado estúdio do fotógrafo José Ferreira Guimarães, instalado na rua dos Ourives ou no endereço da rua Gonçalves Dias, integra a coleção Fotografias Avulsas e o fundo Afonso Pena no Arquivo Nacional. O conjunto, resultado acidental da trajetória do ateliê até a incorporação em um arquivo público, é de todo modo significativo em face de outras séries de fotógrafos oitocentistas com número inferior de exemplares no acervo. Significativa também é a galeria de retratados em que figuram juristas, políticos do Império, alguns identificados na década de 1880, outros que passam aos quadros republicanos, e uma representante feminina, ligada ao declínio monárquico e ao exílio da família imperial. Nesse conjunto de imagens, não figuram crianças, tampouco casais. Os retratos etnográficos, como aqueles produzidos por Marc Ferrez, Alberto Henschel e Cristiano Junior, não eram foco de atenção de Guimarães.

 

Acessando o link para as fotografias de autoria de José Ferreira Guimarães que pertencem ao acervo do Arquivo Nacional e estão disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Em formato carte de visite, carte cabinet, as imagens deslizam entre os planos da vida pública e da esfera privada, transferidas de sua singularidade no estúdio do Guimarães até sua organização nos arquivos. Entre as funções cumpridas por esses artefatos, a representação social e os laços pessoais confundem-se em dedicatórias e cartas. Assim o retrato de Maria Amanda de Paranaguá Dória, a baronesa de Loreto, é um indexador do lugar da fotografia no âmbito da vida familiar, tal como descrito no estudo de caso desenvolvido pelos historiadores Ana Maria Mauad e Itan Cruz, no qual as cartas e os retratos trocados entre a dama de companhia da princesa Isabel e a imperatriz Tereza Cristina nos permitem identificar a presença da fotografia nas relações sentimentais do século XIX, sobretudo com o crescimento da produção da modalidade carte de visite, a partir dos anos de 1870, na corte do Rio de Janeiro. No período em que as cartas foram trocadas, fotógrafos estabelecidos nas principais capitais do país eram responsáveis por uma produção significativa de retratos em estúdio voltados para a frequência da aristocracia imperial. [1]

 

 

O retrato de Maria Amanda, que se encontra no artigo citado, pertence à coleção da Fundação Joaquim Nabuco e foi realizado no estúdio de José Ferreira Guimarães no Rio de Janeiro, muito provavelmente na mesma sessão em que o exemplar ora apresentado; diferem pelo ângulo, aqui com a cabeça voltada para o lado, no outro, com o olhar dirigido às lentes, ambos nas características molduras em formato oval e com a mesma roupa e penteado.[2] Formava-se de modo mais ou menos evidente uma trama que passava por esse álbum de família estendido, caso de Domingos Farani, outro retratado por Guimarães, que chegou ao Brasil acompanhando a mudança da futura imperatriz, a napolitana d. Teresa Cristina. Joalheiro da Casa Imperial, ele estava entre os amigos mais próximos dos Ribeiro Avelar, viscondessa e visconde de Ubá, na corte, como evidencia a troca de cartas e retratos que eram parte constitutiva dos vínculos mantidos entre esses atores. Como observa a historiadora Mariana Muaze somente [fotos das] crianças pertencentes ao grupo familiar ou filhos de amigos muitíssimos próximos como Domingos Farani, por exemplo, foram colecionadas pela viscondessa.[3] Farani, como era comum no meio, se fez retratar também no endereço de Guimarães à rua Gonçalves Dias em um busto oval que excluía o cenário do estúdio, concentrando-se na fisionomia e expressão dos indivíduos e de insígnias, como a ostentada na lapela, provavelmente relacionada ao título de comendador, e mesmo o alfinete, que ostentava o ofício de origem.

 

 

No ateliê de Guimarães entraram obrigatoriamente bacharéis e políticos do Império e da República, personagens paradigmáticos da passagem do século XIX ao XX, como Saldanha Marinho, pernambucano formado na Faculdade de Direito de Olinda em 1836 e que, entre muitos cargos, foi deputado federal pelo Rio de Janeiro, presidente de província de Minas Gerais e de São Paulo, um dos fundadores do Clube Republicano no Rio de Janeiro, signatário do Manifesto Republicano, redator de A República, firmando-se como um dos protagonistas dos momentos iniciais do novo regime.[4] Saldanha Marinho, fotografado com barba exuberante, não aparada, seguia a tendência dos homens da segunda metade do oitocentos quando o rosto barbeado era visto com suspeição, denotando pouca seriedade. Conforme Gilda de Mello e Souza, o fim do século XVII e o século XVIII talvez por causa das perucas, foram tempos de cara raspada, mas, no princípio do século XIX os bigodes e suíças se espalham pelos exércitos de Napoleão, e já em 1810 Tkackeray nos apresenta aos sensacionais moustachios de Jos Sedley. A moda, durante algum tempo privilégio dos militares e símbolo de ferocidade, difunde-se rapidamente, e em breve o homem se entrega a uma desenfreada decoração capilar.[5]

 

 

Roupas escuras, barba e bigode também compuseram o retrato de Carlos Augusto de Carvalho: formado na faculdade de Direito de São Paulo em 1873, responsável, como presidente de província no Paraná, pela eclosão da Revolta do Vintém, Carvalho iria se destacar como ministro das Relações Exteriores nos anos 1890 reivindicando a ilha de Trindade aos ingleses, contando então com o apoio de Raul Pompeia e de Joaquim Portela, que, na época, eram diretores da Biblioteca Nacional e do Arquivo Público, provendo-o de informações. Em 1904 volta à cena, arbitrando o conflito entre o Brasil e a Bolívia.[6] Nesse retrato, Carlos de Carvalho não se circunscreve ao oval delimitado: está cercado pela névoa indefinida que é também uma das marcas do período, a volta de um tom crepuscular ao qual se referiu Walter Benjamin, em um artifício utilizado para reviver a aura dos primeiros tempos da fotografia, partilhado nos ateliês fotográficos das grandes capitais, superando distâncias de diferentes ordens.

 

 

Pelo estúdio fotográfico de Guimarães também passaram militares como Henrique Pedro Carlos de Beaurepaire Rohan, o visconde de Beaurepaire, entre outros não identificados, todos com suas fardas e condecorações. Em fotos de busto ou corpo inteiro, nas poses rígidas, como se espera desses retratados, evidencia-se o desejo de registrar para a posteridade o lugar social e, sobretudo, demarcar hierarquias. A fotografia de Beaurepaire, gentil-homem da Imperial Câmara, grã-cruz da Imperial Ordem de Avis, dignitário da Imperial Ordem da Rosa e comendador da Imperial Ordem de Cristo, uniformizado, portando algumas dessas condecorações, como a Imperial Ordem da Rosa e a Ordem de Cristo, nos anos 1890, é exemplar também de alguém que, sob o regime republicano, deixava clara a sua vinculação com o governo imperial.

 

 

 

Ana Mauad, observa que o sucesso do retrato carte-de-visite deve-se justamente à capacidade de adaptar o cliente a moldes preestabelecidos e de possível escolha através de um catálogo de objetos e situações; o estúdio do fotógrafo passa a ser um depósito de complementos escolhidos para caracterizar diferentes papéis sociais que se quer fabricar. […] O próprio cliente se converteu, ele mesmo, num acessório de estúdio, suas poses obedeciam a padrões estabelecidos e já institucionalizados de acordo com a sua posição social.[7] Nas imagens de busto, como a de Beaurapaire ou no “retrato de homem fardado, dos anos 1880, o fotografado posiciona-se mais próximo da câmera; as expressões faciais ganham destaque, o tronco elevado revela mais claramente elementos como insígnias e condecorações. Já nos retratos de corpo inteiro, como a intitulada “fotografia homem fardado”, além das dragonas e das condecorações, da exibição do conjunto do uniforme, da pose altiva, alguns elementos chamam a atenção como a barretina com penacho apoiada em uma banqueta e a espada e seu fiador em uma das mãos. Os elementos cenográficos, comuns aos retratos de meio corpo ou corpo inteiro são acessórios; não roubam a centralidade do retratado.

Outro registro interessante produzido por Guimarães é a de Lúcio de Mendonça, em 1896. Advogado, jornalista, magistrado, escritor, idealizador da Academia Brasileira de Letras, seu retrato, a começar pelas roupas e pose, denota despojamento e uma despreocupação em perenizar a imagem de homem sofisticado. A ausência de elementos decorativos, adornos, a simplicidade mesma do paletó escuro e camisa branca estão sob medida para um republicano, um burguês que, diferente da aristocracia num passado recente, não necessitava fazer da moda um elemento de distinção. E a dedicatória à Ferreira do Araújo, fundador da Gazeta de Notícias, e por quem Lúcio possuía grande admiração, evidencia a inscrição do fotografado no círculo dos intelectuais da segunda metade do século XIX.

 

 

Além das dedicatórias, algumas das imagens aqui apresentadas, trazem, no verso, dados referentes ao estúdio de Guimarães, sua participação em exposições, seus títulos – Fotógrafo da Casa Imperial, Cavaleiro da Ordem da Rosa – seus prêmios. Como era comum a fotógrafos da sua envergadura, essas informações, ao mesmo tempo em que o distinguia dos concorrentes, o aproximava da sua clientela, homens e mulheres da boa sociedade que aumentavam seu capital simbólico justamente por se darem a ver através das suas lentes.

 

[1] MAUAD, Ana Maria, RAMOS, Itan Cruz. Fotografias de família e os itinerários da intimidade na História. Acervo, Rio de Janeiro, v. 30, n. 1, p. 155-178, jan./jun. 2017, p. 159.

[2] Outro retrato da baronesa de Loreto produzido por Insley Pacheco e igualmente parte da coleção do Arquivo Nacional, pode ser visto neste portal. Disponível em http://brasilianafotografica.bn.br/brasiliana/handle/bras/5027

[3] MUAZE, Mariana de Aguiar F. O império do retrato: família, riqueza e representação social no Brasil oitocentista (1840-1889). Tese de doutorado. Programa de Pós graduação em História da Universidade Federal Fluminensse, 2006, p. 296.

[4] Cf. Alzira Alves de ABREU et al (coords.). Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro – Pós-1930. Rio de Janeiro: CPDOC, 2010. In: http://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/MARINHO,%20Saldanha.pdf Acesso em: 20/11/2017.

[5] Ver SOUZA, Gilda de Mello e. O espírito das roupas: a moda no século XIX, São Paulo: Cia. das Letras, 1087, p. 75.

[6] Cf. Alzira Alves de ABREU et al (coords.). Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro – Pós-1930. Rio de Janeiro: CPDOC, 2010. In: http://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/CARVALHO,%20Carlos%20Augusto%20de.pdf Acesso em: 20/11/2017

[7] MAUAD, Ana. Poses e flagrantes: ensaios sobre história e fotografias. Rio de Janeiro: EDUFF, 2008, p. 129-130.

 

*Claudia Beatriz Heynemann – Doutora em História | Pesquisadora do Arquivo Nacional

*Maria do Carmo Rainho – Doutora em História | Pesquisadora do Arquivo Nacional

 

 

Pequeno perfil do fotógrafo português José Ferreira Guimarães (1841 – 30/01/1924)

 

 

Um dos fotógrafos preferidos da corte brasileira, amigo do imperador d. Pedro II (1825 – 1891), o português José Ferreira Guimarães (1841 – 1924), nascido em Guimarães, chegou ao Brasil com 11 anos, a bordo de um veleiro carregado de repolhos. Foi lavador de pratos, servente em tascas na beira do porto e vendedor de armarinhos. Começou sua carreira de fotógrafo associando-se a Eduardo Isidoro Van Nyvel, no Rio de Janeiro, em 1862. Quatro anos depois, passou a anunciar-se sozinho no mesmo ateliê na Rua dos Ourives, 40. Em 13 de setembro de 1866, recebeu o título de Fotógrafo da Casa Imperial. Fez, assim como o fotógrafo Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912), fortuna com seus retratos em foto-pintura – retrato ampliado pintado a óleo ou guache ou pastel por um pintor. Guimarães ia frequentemente à Europa e aos Estados Unidos para comprar equipamentos e se atualizar com o que havia de mais moderno no campo da fotografia. Além disso, inventou o Relâmpago Guimarães.

José Ferreira Guimarães foi comendador da Ordem de Cristo e da Ordem da Rosa. Foi premiado com a medalha de prata na Exposição Geral de Belas Artes da Academia Imperial de 1865, 1866 e 1867; e na Exposição Nacional de 1866 e de 1873.  Após uma passagem pela rua do Ourives, 38, inaugurou, em 1886, um novo ateliê que, segundo Gilberto Ferrez, era um verdadeiro palácio da fotografia. Foi a maior casa fotográfica brasileira do século XIX e ficava na rua Gonçalves Dias, nº 2, esquina com a rua da Assembleia.

Passava temporadas na Europa mas, foi durante a década de 1910, que, provavelmente, transferiu-se definitivamente para a França, onde morou em um palacete nos arredores de Paris, na rue de La Paix, 21, em Bois Colombe. A casa enorme, apelidada pela esposa de Guimarães, Virginia Prata Guimarães, de Little Castle, foi construída em um estilo acastelado, que tornou-se moda entre os paulistas endinheirados pela cafeicultura, nas primeiras décadas do século XX.

Acessando o link para as fotografias de autoria de José Ferreira Guimarães disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Nas palavras do fotógrafo Benedito Junqueira Duarte (1910 – 1995), seu discípulo e sobrinho neto de sua esposa, José Ferreira Guimarães era um tipo humano raro e versátil, além de ter uma invejável agilidade mental e ser de uma honestidade a toda prova. Era muito bem relacionado e foi amigo íntimo do fotógrafo francês Félix Nadal (1820 – 1910) e também do peruano Léopold-Émile Reutlinger (1863 – 1937). Segundo Junqueira Duarte, Guimarães era vaidoso e tinha longas barbas branquíssimas, sempre impecavelmente aparadas, era ereto e elegante, apesar da idade, e tinha um riso de tolerância e compreensão a esconder-se por detrás de fartos bigodes.

Sobre a obra de Guimarães e a invenção do Relâmpago Guimarães, Junqueira Duarte escreveu:

…Pela qualidade e refinamento de seu trabalho e rigor profissional que manipulava sua obra, do retoque a bico de lápis à apresentação formal de seus retratos, da viragem a ouro à técnica do esmalte a fogo dos medalhões que produzia – pareciam pequenos camafeus colorido a mão – desfrutou de grande prestígio na aristocracia brasileira e fez uma vultosa fortuna…Com José Ferreira Guimarães, desaparecia um homem de inteligência privilegiada, de espírito criador incomum, a quem deve a fotografia de todos os povos uma de suas grandes invenções – o engenho produtor de luz artificial em ambiente fechado, a partir da combustão instantânea do magnésio, própria para impressionar, em fração mínima de segundo, uma chapa fotográfica. A esse aparelho que encenava em si a luz do sol, deu ele o nome sugestivo e profético de Relâmpago Guimarães, apresentado com grande êxito na famosa Exposição Universal de Paris, em 1900. Muitos anos mais tarde, meio que por volta de 1935 ou 36, aperfeiçoado, miniaturizado e industrializado pelos norte-americanos, o engenho de José Ferreira Guimarães, surgiram no comércio fotográfico as lâmpadas (ou bulbos) em todo o mundo e em breve conhecidas sob o nome de Flash, ou seja, Relâmpago.

Não creio que algum historiador da fotografia, da arte e de sua técnica, tenha mencionado em seus livros, como legítimo inventor do processo flash o nome de José Ferreira Guimarães, o pequeno emigrante português que tronou grande sua arte, criador original da enorme gaiola de vidro, munido de grosso tubo exaustor para a saída da fumaça de magnésio e de um ventilador aspirante, destinado a apressar a evacuação dos pesados rolos de fumo produzidos pela incandescência da mistura química geradora de fortíssimo lampejo azulado…

…Que de benefícios trouxe a engenhosa invenção de José Ferreira Guimarães para a Humanidade, no estudo minucioso da Dinâmica dos corpos, na ilustração de variadas pesquisas científicas realizadas com a fotografia feita em curtíssima exposição, como a documentação endoscópica, ou a do fundo do olho, para apenas citar esses dois exemplos, colhidos por entre a incessante atividade dos documentaristas na Medicina e a Cirurgia!…

 

Cronologia de José Ferreira Guimarães

 

1841 – Nascimento de José Ferreira Guimarães, em Guimarães, na região do Minho, em Portugal.

c. 1852 – Aos 11 anos, emigrou sozinho para o Brasil, a bordo de um veleiro carregado de repolhos.

1860 – Radicou-se no Rio de Janeiro.

1862 – Provavelmente, nesse ano iniciou sua trajetória como fotógrafo, associando-se a Eduardo Isidoro Van Nyvel, na rua do Ouvidor, nº 75. Anunciaram que em seu estabelecimento fotográfico, aberto há poucos dias, executava-se retratos pelos sistemas do ambrótipo e cartões de visita (Jornal do Commercio, 9 de setembro de 1862).

1863 – Publicação de uma propaganda do estabelecimento fotográfico de Van Nyvel e Guimarães no qual anunciaram ter recebido de Alexandre Ken, o primeiro fotógrafo do globo, o processo de cartões de visita, além de uma máquina…para fazer oito retratos em um só vidro e outra que com um único tubo tira quatro posições diferentes em um vidro (Jornal do Commercio, 10 de junho de 1863).

 

 

1864 - Van Nyvel e Guimarães mudaram-se para a rua do Ourives, nº 40 (Jornal do Commercio, 22 de março de 1864, primeira coluna).

1865 – Guimarães ganhou a medalha de prata na Exposição Geral de Belas Artes da Academia Imperial.

1866 – Passou a anunciar-se sozinho no mesmo endereço, rua do Ourives, nº 40. Em outubro de 1866, Van Nyvel abriu um novo estabelecimento na Rua dos Ouvires, 65 (Jornal do Commercio, 2 de outubro de 1866, terceira coluna).

Foi agraciado por d. Pedro II com o título de fotógrafo da Casa Imperial, em 13 de setembro.

Ganhou a medalha de prata na Exposição Geral de Belas Artes da Academia Imperial.

Ganhou a medalha de prata na 2ª Exposição Nacional. Sobre ele, o pintor Victor Meirelles, representando o júri do quarto grupo, onde se incluía a fotografia, escreveu no relatório do evento:

‘1ª Medalha de Prata – José Ferreira Guimarães (1841 – 1924):

Cabe a honra de ser classificado em primeiro lugar, obtendo a medalha de prata, o sr. J. F. Guimarães, estabelecido na rua dos Ourives, nº 40, por seus retratos de cartões de visita, e chapas de diferentes dimensões. Os trabalhos do Sr. Guimarães sobressaem-se pela fineza, nitidez e perfeição dos objetos representados e também pelo vigor dos tons que são bem calculados e de uma cor agradável, posições escolhidas com gosto e naturalidade.’

1867 - Produziu um retrato em tamanho natural no formato de 2 x 1,35 m, a maior fotografia realizada no Brasil até então.

Ganhou a medalha de prata na Exposição Geral de Belas Artes da Academia Imperial.

Informava ter partido para a Europa (Jornal do Commercio, 25 de julho de 1867, sexta coluna).

De volta de Paris, anunciou uma exposição de retratos sobre placas de porcelana na casa do Sr. Bernasconi & Moncada (Jornal do Commercio, 15 de novembro de 1867).

 

 

1869 – Anunciou ter regressado da Europa, aonde havia ido pela terceira vez, e também a abertura de seu novo estabelecimento na rua do Ourives, nº 38, segundo andar (Jornal do Commercio, 10 de outubro de 1869, página 3, Segunda Folha).  

1872 – Fotografou a pintura Combate Naval do Riachuelo, de Victor Meirelles (1832 – 1903), empregando seu sistema de ampliação para fazer reproduções de obras de arte de grande formato. Produziu a fotografia em placa de porcelana pelo processo inalterável…Para execução dessa fotografia serviu-se o habilísssimo fotógrafo José Ferreira Guimarães de placa denominada pelos fotógrafos “negativo”…Foram tirados e distribuídos alguns “positivos” sobre papel albuminado…(Relatório da Repartição dos Negócios do Império, 1882).

1873 – Ganhou a medalha de prata na 3ª Exposição Nacional.

Teria voltado, nesse ano, a sua cidade natal, Guimarães.

1875 - Retratou Marie Caroline Lefebvre (c. 1849 – 1914), mulher do fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923).

Década de 1880 - Durante esta década, o fotógrafo Valério Vieira (1862 – 1941) trabalhou como assistente no estúdio do fotógrafo José Ferreira Guimarães.

1882 - No Almanack Laemmert, foi veiculado um anúncio de Guimarães: Retratos vitrificados fixados a fogo, como as porcelanas de Sèvres. Perpétua duração, constituindo por isso uma verdadeira e imorredoura relíquia de família (Almanaque Laemmert, 1882).

Segundo relatório do diretor da Academia das Belas Artes, a instituição comprou a fotografia produzida por Guimarães da primeira versão da pintura Combate Naval do Riachuelo, de Victor Meirelles, perdida durante a Exposição Internacional da Filadéfia, em 1876 (Relatório da Repartição dos Negócios do Império, 1882).

Segundo consta em um de seus cartões, foi premiado com a medalha de ouro na Exposição Continental de Buenos Aires, inaugurada em 15 de março de 1882 – a seção brasileira foi inaugurada no dia 1º de abril, ocupando uma área de 600 m2 (Diário de Pernambuco, 10 de julho de 1882, terceira coluna).

1884 – Recebeu o título de Comendador da Ordem da Rosa.

Guimarães anunciou que Waldemar Lange executava fotografias de grupos de família pelo sistema americano de John Carbutt, da Filadélfia (Jornal do Commercio, 17 de julho de 1884, na página 8). Segundo Boris Kossoy, Lange havia sido associado na Bahia ao fotógrafo Guilherme Gaensly (1843 – 1928). Na época, seu ateliê ficava na rua dos Ourives, nº 38.

 

 

Participou da Exposição da Academia de Belas Artes com esmaltes, platinotipos e algumas fotografias instantâneas, obtidas pelo processo denominado gelatino bromureto de prata  (Jornal do Commercio, 26 de setembro de 1884, segunda coluna).

A fotografia produzida por Guimarães da turma do sexto ano dos doutorandos de medicina foi exposta na casa de Narciso & Arthur Napoleão. É um trabalho, como todos os deste artista, muito notável (Diario Portuguez, 20 de dezembro de 1884, segunda coluna).

1885 – Foi encomendado à casa Guimarães um retrato a óleo de Francisco de Assis Mascarenhas. Foi realizado por Victor Meirelles e exposto na galeria Moncada. Os dois artistas foram referidos, na nota do jornal, como comendadores (Jornal do Commercio, 2 de agosto de 1885, sexta coluna).

 

 

1886 – A Casa Guimarães, na rua do Ourives, nº 38, foi substituída pela Photographia Americana, passando a pertencer a Roltgen, antigo retocador da Casa Guimarães, e do sr. Silva, antigo sócio-gerente da fotografia Carneiro & Tavares (O Paiz, 31 de julho de 1886, primeira coluna).

 

 

Guimarães inaugurou um verdadeiro palácio da fotografia, a maior casa fotográfica brasileira do século XIX, na rua Gonçalves Dias, nº 2, esquina com a rua da Assembleia. A casa, de 4 andares, foi durante algum tempo o mais alto prédio do Rio de Janeiro e foi construída expressamente para sediar o estabelecimento fotográfico de Guimarães. Os três primeiros pavimentos abrigavam as diversas seções de fotografia e o último servia de moradia do fotógrafo (Revista do Iphan, 1946, p. 199 e O Rio de Janeiro, 8 de agosto de 1886, quarta coluna).

 

 

Uma menina se acidentou quando passou em frente à casa fotográfica de Guimarães e uma tábua que servia de andaime caiu sobre sua cabeça. O fotógrafo prestou assistência à acidentada e responsabilizou-se pelo ocorrido (O Paiz, 18 de agosto de 1886, na última coluna).

1877 – Guimarães participou com fotografias das obras mais importantes da estrada de D. Pedro II da Exposição Internacional de Caminhos de Ferro no Bois de Vincennes, em Paris, em comemoração ao cinquentenário das ferrovias na França. Essas fotografias e também outras, de autoria de Marc Ferrez (1843 – 1923), foram expostas no Liceu de Artes e Ofícios (O Paiz, 18 de julho de 1887, terceira coluna).

Na casa Chameaux, exposição de uma pintura a óleo, de autoria do artista francês Battu, realizado com muita suavidade a partir de uma fotografia produzida pelo distinto fotógrafo Guimarães de uma menina vestida à moda das camponesas do norte de Portugal (Jornal do Commercio, 26 de julho de 1887, sétima coluna).

1888 – No salão do jornal O Paiz, exposição de um retrato do apregoado atirador Bento Moraes, produzido por Guimarães. Moraes era a primeira figura de uma companhia de variedades que se apresentaria no Polytheama (O Paiz, 13 de março de 1888, sétima coluna).

A Casa Guimarães, na rua de Gonçalves Dias, canto da da Assembleia foi enfeitada para participar dos festejos da cidade pelo retorno do imperador Pedro II (1825 – 1891) e da imperatriz Teresa Cristina (1822 – 1889), que ficaram ausentes do Brasil por quase um ano, na terceira viagem do soberano à Europa. Haviam partido em 30 de junho de 1887 (Diário de Notícias, 23 de agosto de 1888, terceira coluna).

 

 

1890 – Antes de cometer suicídio, o português e guarda-livros José Custódio de Oliveira enviou uma carta a Guimarães (Diário de Notícias, 22 de jumho de 1890, segunda coluna).

1891 - A partir de janeiro, José Ferreira Guimarães estaria até o fim da estação, às segundas e terças-feiras, em seu ateliê de Petrópolis (Jornal do Commercio, 11 de janeiro de 1891).

1894 – A Photographia Guimarães funcionava em Petrópolis, aos domingos, segundas e terças-feiras, em um chalé ao lado do Hotel Orleans (Gazeta de Petrópolis, 7 de março de 1894, terceira coluna).

Estava exposto na casa Palais Royal um quadro com os retratos dos doutorandos de 1894, produzido pela Photographia Guimarães (Gazeta de Notícias, 7 de novembro de 1894, na penúltima coluna).

Alguns membros da comissão da República Oriental do Uruguai, em visita ao Brasil, iriam ser fotografados na Photographia Guimarães (A Notícia, 8 e 9 de novembro de 1894, terceira coluna).

1895 – Na primeira página do Jornal do Brasil, era noticiado que a Photographia Guimarães & C continuava a merecer o favor público pela excelência de seus trabalhos artísticos (Jornal do Brasil, 10 de março de 1895, quarta coluna).

 

 

1896 – Na edição 36 de A Bruxa, foi publicada uma fotografia de F. Guimarães, conhecido proprietário da Photographia Guimarães (Commercio de São Paulo, 13 de outubro de 1896, última coluna). A Bruxa foi uma revista dirigida pelo poeta Olavo Bilac  (1865-1918) e pelo ilustrador português Julião Machado (1863 – 1930), entre 1896 e 1897.

Foi noticiado que a Photographia Guimarães produziria fotografias das salas do Club dos Repórteres com convidados por um processo novo de notável sucesso na arte fotográfica cuja primeira experiência foi realizada ontem (A Notícia, 24 e 25 de outubro de 1896, segunda coluna).

Estava exposto na vitrine da casa Colussi, na rua do Ouvidor, uma fotografia do presidente Prudente de Morais (1841 – 1902), produzida pela Photographia Guimarães. De acordo com a notícia, poderia se dizer que a obra é uma nova descoberta da photographia pois que o retrato…é feito em esmalte photográphico vitrificado a fogo, tão inalterável como as pinturas da porcelana de Sèvres e de Limoges… (Jornal do Brasil, 8 de novembro de 1896, quinta coluna).

1897 – O fotógrafo Alfredo Musso, irmão de Luiz Musso, trabalhava na Photographia Guimarães (Jornal do Commercio, 1º de fevereiro de 1897, penúltima coluna).

Luis Musso, sócio da Photographia Guimarães, levou de presente à redação do Jornal do Brasil uma fotografia em platinotipia de um grupo de jornalistas que haviam assistido à inauguração da luz artificial para obter fotografias instantâneas (Jornal do Brasil, 12 de março de 1897, segunda coluna). Luiz Musso havia sido o primeiro operador da Companhia Photographica Brazileira, dirigida pelo fotógrafo Juan Gutierrez (c. 1860 – 1897), desde sua fundação, em 1892, até 31 de março de 1894 (Jornal do Commercio, 13 de fevereiro de 1898, na última coluna). Em 1905, os irmãos Musso estavam estabelecidos na rua Uruguayana sob a razão social L. Musso & C, que também se anunciava como Photographia Brazileira.

Foi encomendada à Photographia Guimarães um retrato do engenheiro e primeiro diretor da Estrada de Ferro Pedro II, Christiano Ottoni (1811 – 1896), que seria ofertado à Escola Naval por seu filho, o industrial Julio Ottoni (Jornal do Brasil, 17 de setembro, sétima coluna).

1898 – Herrero Vargas, empregado da Photographia Guimarães, retratou um grupo da Estudantina do Cassino Espanhol em excursão a Santa Teresa (Gazeta de Notícias, 28 de fevereiro de 1898, primeira coluna).

O presidente da República, Prudente de Morais (1841 – 1902), presenteou o redator-chefe da Cidade do Rio, José do Patrocínio (1854 – 1905), fotografias de sua família produzidas pela Photographia Guimarães (Cidade do Rio, 10 de novembro de 1898, terceira coluna).

Na Casa Merino, estavam expostas três fotografias em platinotipia produzidas pela Photographia Guimarães: do presidente e do vice-presidente da República, Campos Salles (1841 – 1913) e Rosa e Silva (1857 – 1929), respectivamente, e do novo ministério do governo (Jornal do Commercio, 15 de novembro de 1898, sexta coluna).

1899 – O Sr. Musso, da Photografia Guimarães, registraria o cruzador italiano Fieramosca (A Notícia, 5 e 6 de agosto de 1899, segunda coluna).

Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912), Marc Ferrez (1843 – 1923) e José Ferreira Guimarães foram nomeados para formar a comissão de propaganda da classe de fotografia da Exposição do Quarto Centenário do Brasil, em 1900, promovida pela Sociedade Propagadora das Belas Artes (A Imprensa, 31 de outubro de 1899, quarta coluna).

1900 – Horacio Garcia Vidal trabalhava na Photographia Guimarães (Cidade do Rio, 24 de janeiro de 1900, na última coluna).

Publicada na Revista da Semana, de 22 de julho de 1900, um instantâneo do Largo da Carioca, tirado do segundo andar da afamada Photographia Guimarães.

Apresentou na Exposição Universal de Paris o Relâmpago Guimarães, uma espécie de flash que permitia tirar fotografias em ambientes obscurecidos ou no período da noite.

A luz produzida por ele é exatamente a necessária para substituir a claridade do dia, suprindo-a em todo o seu vigor, mas permitindo respeitar as nuances do modelo, por mais delicado que seja.

O acolhimento que foi feito na Europa à invenção de nosso compatriota, proprietário da afamada Photographia Guimarães, deve ser muito lisonjeiro para os fotógrafos nacionais‘ (Revista da Semana, 12 de agosto de 1900).

 

 

1901 – Guimarães era sócio de Luis Musso e Julio D. Roltgen (Almanak Laemmert, 1901).

Julio Roltgen, da Photographia Guimarães, foi o autor do registro do “batismo da Salamina”, festa realizada no club de Regatas Botafogo. A imagem foi publicada na revista quinzenal Brasil Náutico, número 4, e foi considerada a nota elegante da edição (A Notícia, 8 e 9 de maio de 1901, terceira coluna).

Um retrato do senador do Império, Cândido Mendes de Almeida (1818 – 1881), executado pela Photographia Guimarães e emoldurado pela fábrica Martins Seabra & C., foi ofertado ao Jornal do Brasil (Jornal do Brasil, 31 de maio de 1901, sétima coluna).

Foi noticiado que o Relâmpago Guimarães havia obtido a medalha de 1ª classe na Exposição Universal de Paris de 1900. A Photographia Guimarães foi referida como admirável estabelecimento da rua Gonçalves Dias, esquina do largo da Carioca e, devido ao Relâmpago Guimarães estava executando trabalhos de inigualável perfeição. Os retratos produzidos na Casa Guimarães eram verdadeiras maravilhas de arte pela naturalidade da pose e pela incomparável nitidez (Gazeta de Notícias, 4 de julho de 1901, sétima coluna).

Por encomenda do presidente da República, Campos Sales (1841 – 1913), a Photographia Guimarães produziu um quadro medindo 1 metro por 80 centímetros com as fotografias do governo provisório da República organizado em 15 de novembro de 1889. O quadro ficaria no salão de despachos do Palácio do Catete (A Notícia, 26 e 27 de novembro de 1901, segunda coluna).

1902 – Na Igreja da Candelária, foi rezada uma missa pela turma de guardas-marinha de 1879. Nove deles estiveram presentes à cerimônia e depois foram retratados na Photographia Guimarães (Gazeta de Notícias, 9 de março de 1902, sétima coluna).

Luís Musso estava na direção da Photographia Guimarães (Jornal do Brasil, 24 de julho, sexta coluna).

1903 – Em anúncio, a Photographia J.F. Guimarães & C afirmava acreditar que nada devia à praça e pedia que, caso houvesse qualquer reclamação, que fosse levada a seu proprietário até o dia 10 de dezembro de 1903 (Jornal do Brasil, 6 de dezembro de 1903, primeira coluna).

1904 – Tendo deixado de trabalhar na Photographia Guimarães, Alfredo e Luís Musso e Julio D. Beltgen anunciaram a abertura de um novo estabelecimento fotográfico, na rua Uruguaiana, nº 10 (Gazeta de Notícias, 21 de fevereiro de 1904, terceira coluna).

Recém chegado da Europa, Guimarães anunciou a reabertura de seus ateliers modelos onde o high life poderia encontrar o chic da fotografia moderna (Jornal do Brasil, 24 de fevereiro de 1904, quinta coluna e Gazeta de Notícias , 21 de fevereiro, terceira coluna).

 

 

1905 – Estava exposta na Photographia Guimarães uma fotografia de Oswaldo Cruz (1872 – 1917), diretor da Saúde Pública, com um tamanho que nunca se fez entre nós (Gazeta de Notícias, 12 de abril, sexta coluna).

A Photographia Guimarães continuava na rua Gonçalves Dias (A Notícia, 10 e 11 de junho de 1905, quarta coluna).

1906 – A Photographia Guimarães funcionava sob a direção de José Ferreira Guimarães e A. Pinto, na rua da Assembleia, 78 (A Notícia, 25 e 26 de outubro, segunda coluna). Novo anúncio, no mês seguinte, só menciona Guimarães na direção do estabelecimento fotográfico (A Notícia, 6 e 7 de novembro de 1906, quinta coluna).

1907 – A Photographia Guimarães informava não ter nem funcionários ambulantes nem filiais pelo Brasil. As encomendas deveriam ser feitas na rua da Assembleia, 78 (A Notícia, 31 de janeiro e 1º de fevereiro de 1907, segunda coluna).

A turma de formandos em Odontologia e Medicina encomendaram quadros alegóricos na Photographia Guimarães. Seriam feitos em Paris, sob a supervisão do comendador Guimarães, que mais uma vez daria provas de seu bom gosto artístico (A Notícia, 27 e 28 de julho de 1907, quarta coluna).

A Photographia Guimarães anunciou que o funcionário Augusto Cezar Osório não trabalhava mais no estabelecimento (Jornal do Brasil, 14 de setembro de 1907, sétima coluna).

Exposição, na Photographia Guimarães de uma fotografia de Oswaldo Cruz (1872 – 1917), diretor da Saúde Pública (A Notícia, 4 e 5 de novembro de 1907, terceira coluna).

1909 / 1910 / 1911 / 1912 /1913 - A Photographia Guimarães funcionava em um sobrado, na rua da Assembleia, 100 (A Notícia, 22 e 23 de maio de 1909, terceira coluna e Almanak Laemmert, 1911, terceira coluna).

1909 – Publicação na revista Careta, 21 de agosto de 1909, de duas fotografias do escritor Euclides da Cunha (1866 – 1909), produzidas na Photographia Gumarães. Pouco antes de sua morte, o escritor havia oferecido ao jornalista Ernesto Senna (1858-1913) uma fotografia sua produzida na Photographia Guimarães (Correio Paulistano, 17 de agosto de 1909, primeira coluna).

Década de 1910 – Provavelmente, durante essa década, mudou para a França, onde morou em Bois Colombe.

1911 – Publicação de um retrato do cientista Carlos Chagas (1879 – 1934), produzido na Photographia Guimarães (A Noite, 8 de agosto e 9 de agosto de 1911).

1912 – Do terceiro andar da Photographia Guimarães, o comandante Souza Aguiar dirigia o trabalho dos bombeiros para debelar um grande incêndio no coração da cidade (O Paiz, 25 de março de 1912, na última coluna).

Proprietário e empregados de estabelecimentos fotográficos requisitaram que os mesmos não mais abrissem aos domingos. Dois empregados da Photographia Guimarães participaram do abaixo-assinado endereçado aos vereadores da cidade do Rio de Janeiro (A Imprensa, 13 de abril de 1912, segunda coluna).

1913 – Foi roubada uma mercadoria – papel sensibilizado – destinada a José Ferreira Guimarães (Correio da Manhã, 23 de janeiro de 1913, segunda coluna).

Uma dúzia de retratos de Boudoir, última novidade, criação da afamada Photographia Guimarães, seria o 2º Prêmio do Grande Concurso Extraordinário D, promovido pelo semanário O Tico-Tico: Jornal das Crianças (O Tico-Tico, 4 de junho de 1913).

1914 - Pela última vez a Photographia Guimarães foi anunciada no Almanak Laemmert.

Uma dúzia de retratos da Photographia Guimarães foi o 1º prêmio do Grande Concurso Extraordinário K, promovido pelo semanário O Tico-Tico: Jornal das Crianças (O Tico-Tico, 7 de outubro de 1914).

1915 – A capa do Jornal das Moças foi ilustrada com uma imagem de Carolina Pereira dos Santos, filha de um empresário do Rio de Janeiro. O trabalho fotográfico foi da Casa Guimarães e a gravura foi realizada no ateliê de Alois Fabien (Jornal das Moças, 1º de março de 1915).

1916 – Um dos prêmios sorteados pelo semanário O Tico-Tico seriam retratos da Photographia Guimarães (O Tico-Tico, 9 de fevereiro de 1916).

Após longos anos na Europa, José Ferreira Guimarães voltou a dirigir seu estabelecimento fotográfico no
Rio de Janeiro (A Noite, 5 de agosto de 1916, quinta coluna).

 

 

 

1917 – Foi anunciado que o segundo andar da Photographia Guimarães poderia ser alugado para dentista ou negócio de luxo. O prédio, que possuia elevador, foi referido como aristocrático (Jornal do Brasil, 28 de julho de 1917, quarta coluna). Nesse mesmo ano, foi anunciado que A Photographia Huebner & Amaral havia reaberto em 11 de setembro, na rua da Assembleia, 100, antigo endereço da Photographia Guimarães (Jornal do Commercio, 9 de setembro de 1917).

1919 - Neste ano, Maria Aparecida, uma sobrinha neta de sua esposa, foi residir com eles, na França.

1921 – O sobrinho neto de sua mulher, Benedito Junqueira Duarte (1910 – 1995), viajou para Paris, tornando-se discípulo de Guimarães. Posteriormente, Benedito trabalhou na Seção de Fotografia do Departamento de Cultura de São Paulo a convite de Mário de Andrade (1893 – 1945), além de ter sido sócio-fundador do Foto Cine Clube Bandeirante.

1924 – José Ferreira Guimarães faleceu na França, em 30 de janeiro, provavelmente, de infecção pulmonar. Foi enterrado no cemitério de Bois Colombe.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

AULER, Guilherme. sob o pseudônimo de Ricardo Martim, em dois artigos publicados na Tribuna de Petrópolis. Petrópolis, 1º e 8 de abril de 1956.

ERMAKOFF , George. Rio de Janeiro 1840 – 1900 – Uma crônica fotográfica. Rio de Janeiro: G. Ermakoff Casa Editorial, 2006.

DUARTE, Benedito J. José Ferreira Guimarães, fotógrafo da Corte Imperial. O Estado de São Paulo. São Paulo, 4 dez, 1977 (Suplemento Cultural).

FERNANDES JUNIOR, Rubens. B.J. Duarte Invenção e modernidade na fotografia documental.

FERREZ, Gilberto. A fotografia no Brasil: 1840- 1900. Prefácio Pedro Karp Vasquez. 2. ed. Rio de Janeiro: Funarte, 1985. 248 p. (História da fotografia no Brasil, 1).

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

KOSSOY, Boris. Origens e expansão da fotografia no Brasil : século XIX. Prefácio Boris Kossoy. Rio de Janeiro: Funarte, 1980. 128 p.

Site da Enciclopédia Itaú Cultural

VASQUEZ, Pedro Karp. Dom Pedro II e a fotografia no Brasil. Rio de Janeiro: Fundação Roberto Marinho: Companhia Internacional de Seguros: Ed. Index, 1985. 243 p.

VASQUEZ, Pedro Karp. O Brasil na fotografia oitocentista. São Paulo: Metalivros, 2003.

O cronista visual de Diamantina: Chichico Alkmim, fotógrafo (1886 – 1978)

O ateliê é o mundo

Eucanaã Ferraz*

As fotografias de Chichico Alkmim (1886 – 1978) são, antes de tudo emocionantes. Mas já o primeiro olhar reconhece o domínio dos recursos técnicos. Aprende a fotografar ainda muito jovem e, em Diamantina, abre seu primeiro estúdio em 1912. Depois de passar por outros endereços, muda-se em 1919 para o beco João Pinto, 86, na parte alta da cidade. Ali, monta seu ateliê definitivo, cujo funcionamento se estenderá até meados de 1950. O pavimento ao nível da rua é destinado ao laboratório fotográfico. Outro cômodo, na parte superior, é adaptado para estúdio, conforme o padrão da época: ampla janela envidraçada em uma das paredes e claraboia; sobre ambas, um cortinado leve, deslizante graças a um sistema de cordas, compondo um mecanismo de controle da luz natural; na parede ao fundo, uma viga de madeira serve como suporte para os painéis pintados com paisagens viçosas e motivos arquitetônicos de gosto classicizante; algum mobiliário – cadeiras, pequenas mesas, apoios para jarros, tapetes, cortina – ajuda a compor os cenários. Vivia-se ainda há pouco na escravidão de homens e mulheres roubados à África. Nas casas de família, tocam-se pianos juvenis. Lá fora, portugueses pobres cantam violões tristíssimos. Os negros fazem festas, vão à igreja. Procissões desfilam em latim enquanto nos cafés os chapéus falam francês. Há muitos padres e carnavais. Há meninos negros de terno em pés descalços. Tudo tão antigo e tão recente esta gente de papel convida a esquecer o tempo – até que a voz de um galo nos acorde.

*Eucanaã Ferraz é poeta e consultor de literatura do Instituto Moreira Salles.

Acessando o link para as fotografias de autoria de Chichico Alkmim disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Pequeno perfil de Chichico Alkmim

O mineiro Chichico Alkmim (1886 – 1978), autodidata, pioneiro da fotografia de estúdio em Diamantina, e primeiro cronista visual da cidade, atuou na profissão, que adotou em 1907, até 1955. Seu primeiro ateliê foi inaugurado em 1912. A obra de Chichico, que compreende imagens da arquitetura diamantinense, sua religiosidade, costumes, ritos e retratos de seus habitantes, é uma das principais referências da memória visual de Minas Gerais. Foi o mestre do fotógrafo Assis Horta (1918 – 2018), mineiro de Diamantina, que se tornou conhecido por registrar a classe trabalhadora na era Vargas. Uma curiosidade: a fotografia predileta de Assis Horta foi produzida por Chichico no dia de seu casamento: Eu mesmo levei a máquina para o Chichico fazer o retrato.

Chichico retratou a burguesia e também os trabalhadores ligados ao pequeno garimpo, ao comércio e à indústria. Produziu imagens de casamentos, batizados, funerais, festas populares e religiosas, paisagens e cenas de rua. De 1955, quando parou de  fotografar, até 1978, ano de sua morte, continuou cuidando de seu acervo, que guardava no porão de sua casa.

A gestão do acervo de Chichico Alkmim, de 5.549 negativos de vidro, foi transferida para o Instituto Moreira Salles (IMS), em 2015. Além dos negativos em vidro existem no acervo alguns poucos negativos flexíveis, documentos, objetos e materiais e dezenas de fotografias de época.

Foi inaugurada em 13 de maio de 2017, na sede do IMS, no Rio de Janeiro, a exposição “Chichico Alkmim, fotógrafo”, cuja curadoria é do poeta Eucanaã Ferraz (1961-). Será encerrada em 1º de outubro de 2017. Segundo Eucanaã, “Chichico é daqueles fotógrafos que parecem ter o poder de fazer vir ao primeiro plano a vida de seus modelos. E é patente a densidade existencial que se expressa no conjunto de características físicas que chamamos fisionomia, compreendida como a realização momentânea de um destino”.

 

 Cronologia de Chichico Alkmim

 

1886 – Filho de Herculano Augusto d’Alkmim e Luiza Gomes d’Alkmim, Francisco Augusto de Alkmim, o Chichico Alkmim, nasceu em 28 de março, na fazenda do Sítio, município de Bocaiuva.

1890 – 1900 – Em 7 de abril de 1890, falecimento de sua mãe, em Bocaiuva. Chichico e sua irmã Carmina foram levados para a fazenda do Caeté Mirim, localizada próximo ao distrito de São João da Chapada, das suas tias Tereza de Jesus Gomes Ribeiro e Maria Amélia de Jesus Ribeiro. A irmã mais velha, Amanda, permaneceu em Bocaiuva. Nessa década, na fazenda, foi educado pelas tias, com quem aprendeu a ler e escrever.

1900-1910 – Nesse período, Chichico ajudou nos negócios da fazenda e nos trabalhos de mineração de diamantes empreendidos por suas tias. Realizou várias viagens, a maioria delas em companhia de seu pai, que comercializava gado. Os deslocamentos em tropa davam-se entre Caeté Mirim, São João da Chapada, Diamantina, Bocaiuva, Montes Claros, Buenópolis, Coração de Jesus, Januária, Carinhanha (Bahia) e várias outras localidades do vale do São Francisco, chegando algumas vezes até a Vila de Posse, atual cidade de Posse, em Goiás. Nessas viagens, Chichico vendia jóias e, possivelmente, foi em uma delas que, entre 1900 e 1902, conheceu a fotografia.

1907 – Adotou a profissão de fotógrafo.

1912 - No fim do ano, passou a residir em Diamantina. Sua casa e seu primeiro ateliê ocupavam parte do sobrado situado à praça Francisco Sá, 53, largo do Bonfim (atual sede da Casa da Cultura). Nos anos seguintes, mudou de endereço várias vezes, tendo permanecido por mais tempo em um sobrado localizado no alto da rua da Romana, 37.

1913 – Em 14 de junho, casou-se com Maria Josephina Netto, a Miquita.

1914 – No fim do ano, seu irmão por parte de pai, José Maria Alkmim (1901 – 1974), futuro político e vice-presidente do Brasil, entre 1964 e 1967, passou a residir em sua casa, até completar os estudos em 1921.

1916 - Em 30 de junho, nasceu sua primeira filha, Maria de Jesus Alkmim, que faleceu poucos meses depois.

1917 – Em 20 de agosto, nasceu a segunda filha, Maria Bernadette.

1919 – Em 17 de abril, nasceu a filha Déa Maria. Em 9 de outubro, Chichico mudou-se para o beco João Pinto, 86, na parte alta da cidade, onde montou seu ateliê definitivo.

1920 – Em 20 de outubro, nasceu a filha Luíza Marilac.

1923 – Em 13 de outubro, nasceu a filha Maria Ruth.

1924 – Em 12 de novembro, nasceu o filho José Antônio.

1955 – Encerrou a carreira de fotógrafo.

1978 – Faleceu em consequência de um colapso cardíaco, em 22 de agosto.

1980 – Na inauguração do Centro de Documentação e Pesquisa da Casa da Cultura de Diamantina, durante o 16º Festival de Inverno da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), realizou-se a primeira exposição de fotografias de Chichico, no Museu do Diamante/Ibram/MinC.

1998 – O acervo fotográfico de Chichico, constituído por aproximadamente 5.500 negativos, começou a ser higienizado, indexado e catalogado na Faculdade de Filosofia e Letras da Fundação Educacional do Vale do Jequitinhonha (Fevale), em projeto financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de Minas Gerais (Fapemig) e apoio da UFMG.

1999 – Chichico Alkmim foi apresentado como um artista do circuito fotográfico brasileiro na mostra Minas: minas memorial e contemporânea, realizada no MIS-SP, com curadoria do fotógrafo Bernardo Magalhães.

2002 – O acervo fotográfico de Chichico foi doado pelos seus herdeiros à Fevale.

2005 – Foi lançado o livro O olhar eterno de Chichico Alkmim, pela Editora B, organizado por Flander de Sousa e Verônica Alkmim França.

2008 – Foi realizada a exposição Chichico Alkmim, na galeria da Escola Guignard, Universidade Estadual de Minas Gerais (Uemg), em Belo Horizonte.

2010 – Com a extinção da Fevale, o acervo fotográfico retornou aos herdeiros.

2013 - Foi realizada a exposição Paisagens humanas — Paisagens urbanas, no Memorial Minas Gerais Vale, em Belo Horizonte.

2015 – O acervo de Chichico Alkmim passou a integrar em regime de comodato o acervo de fotografias do Instituto Moreira Salles.

2017 – Foi aberta a exposição Chichico Alkmim, fotógrafo, no Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro, em 13 de maio, com curadoria de Eucanaã Ferraz.

 

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Essa pesquisa contou com a colaboração de Gabriella Vieira Moyle, da equipe do IMS.

 

Publicações relacionadas a Chichico Alkmim:

Diamantina, Chichico Alkmim (1886 – 1978) e Carlos Drummond de Andrade (1902 – 1987)

Elegância brasileira, por Carolina Casarin

Família, por Silviano Santiago sobre uma fotografia de autoria de Chichico Alkmim

O anfitrião de Chichico, por Elvia Bezerra.

O retratista de Diamantina, por Manya Millen

Fontes:

Chichico Aklmim, fotógrafo. IMS, 2017.

FRANÇA, Verônica Alkmim; SOUZA, Flander de (orgs). O olhar eterno de Chichico Alkmim. Belo Horizonte: Editora B, 2005.

HARAZIM, Dorrit. O instante certo. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

Site do Instituto Moreira Salles

O inventor Alberto Santos Dumont (1873 – 1932) pelo fotógrafo Jorge Kfuri (1893 – 1965)

 

 

O fotógrafo Jorge Kfuri (1893 – 1965), autor das primeiras fotografias aéreas do Rio de Janeiro, registrou a visita que o então presidente do Brasil, Wenceslau Braz (1868 – 1966), e Alberto Santos Dumont (1873 – 1932), conhecido como o “Pai da Aviação”, fizeram, em novembro de 1918, à Escola de Aviação Naval, na Ilha das Enxadas, localizada na Baía de Guanabara. O inventor e o presidente conversaram sobre os progressos da aviação e foram recebidos pelo então ministro da Marinha, o almirante Alexandrino de Alencar (1848 – 1926), que participou da Guerra do Paraguai e da Revolta da Armada, e que também foi ministro da Marinha dos presidentes Affonso Pena (1847 – 1909), Nilo Peçanha (1867 – 1924), Hermes da Fonseca (1855 – 1923),  e Arthur Bernardes (1875 – 1955). O almirante mostrou a seus convidados o serviço de aviação naval por ele organizado: uma flotilha de cerca de 30 aparelhos modernos, oficina para reparos e construção de aviões, quatro hangares e a Escola de Aviação. Na época, o capitão de fragata Henrique Aristides Guilhem (1875 – 1949), futuro ministro da Marinha entre 1935 e 1945, comandava a flotilha dos aviões de guerra.

Acessando o link para as fotografias de autoria de Jorge Kfuri disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Durante a visita, foram feitos vários experimentos com o explosivo Brazilita, invento do químico brasileiro Álvaro Alberto da Silva desenvolvido por seu filho, o então 1º tenente Álvaro Alberto da Mota e Silva (1889 – 1976) e futuro presidente do CNPq, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, entre 1951 e 1955. (O Paiz, 13 de novembro de 1918, na última coluna e Gazeta de Notícias, 13 de novembro de 1918, na primeira coluna).

Desde 1945, a Ilha das Enxadas sedia o Centro de Instrução Almirante Wandenkolk, destinado à formação de oficiais da Marinha da área de Saúde, Engenharia, dos Quadros Técnico, Complementar e de Capelães Navais. Anteriormente, abrigou depósito de carvão, depósito de construção naval, a Escola de Aviação Naval, a Escola Naval, e a Escola de Educação Física.

Uma curiosidade: foi nas proximidades da Ilha da Enxada que, em 1960, Americo Santarelli (1925 – 1987), pioneiro do mergulho livre, campeão de caça submarina e um dos maiores “apneístas”, superou o recorde mundial de mergulho livre (Jornal do Brasil, 1º de junho de 1960).

 

Acessando o link para as fotografias de Alberto Santos Dumont disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas

 

 

Pequeno perfil de Alberto Santos Dumont

 

Alberto Santos Dumont nasceu em 20 de julho de 1873, na fazenda Cabangu, paróquia de Palmira, em Minas Gerais. Sua cidade natal tem hoje o seu nome. Em 1906, em Paris, no campo de Bagatelle, Santos Dumont conseguiu voar em um aparelho – o 14 Bis – mais pesado do que o ar, que se elevou no ar sem ajuda externa. O feito foi realizado diante de uma comissão oficial e na presença de centenas de pessoas (A Gazeta de Notícias, 26 de outubro de 1906, na segunda coluna e Gazeta de Notícias, 14 de novembro de 1906, na quarta coluna). Santos Dumont faleceu em 23 de julho de 1932, no Guarujá, estado de São Paulo (A Noite, 25 de julho de 1932). Pela lei 165, de 5 de dezembro de 1947, passou a figurar permanentemente no quadro de oficiais-aviadores da Aeronáutica militar brasileira, com o posto de tenente-brigadeiro (Correio da Manhã, 6 de dezembro de 1947, na sexta coluna). A lei 3.636, de 22 de setembro de 1959, atribuiu-lhe o posto honorífico de marechal-do-ar. Pela lei 7.243, de 4 de novembro de 1984, tornou-se patrono da Aeronáutica e da Força Aérea Brasileira. No ano do centenário do voo do 14 Bis, 2006, Santos Dumont teve seu nome inserido no Livro dos Heróis da Pátria (Correio Braziliense, 5 de maio de 2006 e 27 de julho de 2006).

 

   Pequeno perfil e cronologia do fotógrafo Jorge Kfuri (1893 – 1965)

O fotógrafo aviador Jorge Kfuri nasceu em 3 de setembro de 1893, na Síria, e naturalizou-se brasileiro, em 19 de março de 1921 (O Paiz, 5 de maio de 1921, na terceira colunaRelatório da Marinha de 1922 e Relatório do Ministério da Justiça de 1922). Foi o autor das primeiras fotografias aéreas do Rio de Janeiro, em 1916, quando voou com o piloto naval Virginius de Lamare, futuro major-brigadeiro, no C-1, uma das três aeronaves Curtiss Flying Boats. Foram encomendadas pelo então ministro da Marinha, almirante Alexandrino de Alencar (1848 – 1926), e chegaram ao Brasil em 9 de julho de 1916 (A Noite, 24 de outubro de 1953, na quarta coluna).

 

1893 – Nascimento de Jorge Kfuri, na Síria, em 3 de setembro.

1916 –  Kfuri já trabalhava como fotógrafo do jornal A Noite, quando passou mal, com sintomas de intoxicação, após tomar um chocolate em um café do Largo da Carioca. Foi noticiado que esses casos de envenenamento aconteciam porque os donos dos estabelecimentos usavam vasilhames de cobre, o que era proibido pela Saúde Pública e, para isso, contavam com a desonestidade dos fiscais (A Noite, 2 de abril de 1916, na última coluna).

Um falso advogado foi preso e no caminho para a delegacia tentou agredir Kfuri (A Razão, 12 de junho de 1917, na terceira coluna).

Kfuri foi o autor das primeiras fotografias aéreas do Rio de Janeiro, em 1916, quando voou com o piloto naval Virginius de Lamare, futuro major-brigadeiro, no C-1, uma das três aeronaves Curtiss Flying Boats. Foram encomendadas pelo então ministro da Marinha, almirante Alexandrino de Alencar (1848 – 1926), e chegaram ao Brasil em 9 de julho de 1916 (A Noite, 24 de outubro de 1953, na quarta coluna).

1918 – Kfuri presenteou a Associação Brasileira de Imprensa com uma fotografia produzida por ele do sr.presidente da República em companhia dos ministros do Estado num dos maiores momentos históricos da vida nacional – assinando a declaração de guerra do Brasil à Alemanha (O Imparcial, 8 de outubro de 1918, na última coluna). O presidente era Wenceslau Braz (1868 – 1966) e a assinatura aconteceu em 26 de outubro de 1917.

1919 –  Fez parte do time de futebol de fotógrafos que jogou na festa do Audax Club (O Paiz, 16 de janeiro de 1919, na primeira coluna) e, ainda trabalhando no jornal A Noite, foi arrolado como testemunha de irregularidades praticadas em uma casa de saúde ( Jornal, 7 de outubro de 1919, na penúltima coluna). Participou da cobertura jornalística da prisão de um criminoso envolvido no tráfico de cocaína (A Noite, 23 de outubro de 1919, na terceira coluna).

1920 – Trabalhando como fotógrafo do jornal A Noite, Kfuri sofreu queimaduras de primeiro grau no dorso da mão direita pela explosão de magnésio quando se preparava para tirar uma chapa no edifício do Senado Federal. Na época, ele residia na rua Senador Dantas, nº 14, e foi identificado como sírio com a idade de 27 anos (O Jornal, 4 de maio de 1920, na última coluna).

Kfuri foi aceito como associado na Associação Brasileira de Imprensa (Jornal do Brasil, 23 de junho de 1920, na penúltima coluna).

1921 – O sírio Kfuri naturalizou-se brasileiro, em 19 de março (O Paiz, 5 de maio de 1921, na terceira coluna e Relatórios do Ministério da Justiça de 1922).

Kfuri foi contratado como encarregado técnico do serviço de fotografia aérea da Aviação Naval (O Paiz, 21 de dezembro de 1921, na primeira coluna, e O Relatório do Ministério da Marinha de 1922).

 

Sofreu um pequeno acidente aéreo com o piloto Epaminondas Santos, no aeromarino 40 (O Paiz, 28 de dezembro de 1921, na quarta coluna).

1922 – Kfuri estava no avião Avro nº 2, pilotado pelo tenente Luiz Leal Netto dos Reis, que sobrevoou a casa de Santos Dumont (1873 – 1932), em Petrópolis, onde deixaram cair um para-quedas com uma mensagem de saudações a ele, que a recolheu (O Paiz, 16 de março de 1922, na terceira coluna).

1923 – Para servir como encarregado técnico do serviço de fotografia aérea da Aviação Naval, o Ministério da Marinha contratou o sr. Jorge Kfuri, servindo também como operador cinematográfico em qualquer dos departamentos da Marinha para que seja requisitado (Jornal do Commercio, 14 de maio de 1923, na segunda coluna).

O ministro da enviou ao presidente do Tribunal de Contas uma cópia do contrato celebrado com Jorge Kfuri para servir como fotógrafo da Marinha (Última Hora, 15 de junho de 1923, na terceira coluna e O Paiz, 16 de junho de 1923, na última coluna).

Kfuri integrou como segundo tenente honorário da Marinha a esquadrilha de quatro hidroaviões que foi para a Bahia, sob o comando do capitão de mar e guerra e futuro ministro da Marinha Protógenes Pereira Guimarães (1876 – 1938) (Gazeta de Notícias, 26 de junho de 1923, na quinta colunaA Rua, 2 de julho de 1923, na penúltima coluna). A esquadrilha voltou para o Rio de Janeiro e foi muito homenageada (O Paiz, 9 de agosto de 1923). Kfuri foi um dos convidados para o banquete oferecido no Palace Hotel pelo Aero Club Brasileiro a Protógenes e a seus comandados no raid de aviação entre Rio e Aracaju (O Imparcial, 30 de agosto de 1923, na segunda coluna).

Foi um dos tripulantes dos três hidroaviões que regressaram de Santos para o Rio de Janeiro (Jornal do Commercio, 12 de setembro de 1923, na quarta coluna).

1926 - Fez parte da tripulação de um dos aviões que recepcionou a chegada, no Rio de Janeiro, do avião Plus Ultra, que havia partido da Europa, pilotado por Ramon Franco (1896 – 1938), um dos pioneiros da aviação espanhola (A Manhã, 3 de fevereiro de 1926 e Jornal do Brasil, 10 de fevereiro de 1926, na terceira coluna).

Participou do segundo voo do avião 322 no serviço postal (O Paiz, 4 de abril de 1926, na sexta coluna).

Houve uma tentativa de assalto na casa de Kfuri na rua Taylor, nº 80 (Gazeta de Notícias, 21 de abril de 1926, na quarta coluna).

Kfuri fez parte da tripulação dos aviões que receberam o hidroavião Buenos Aires, pilotado pelos aviadores argentinos Duggan e Olivero (O Paiz, 19 e 20 de julho de 1926).

Integrava a equipe da esquadrilha da Marinha de Guerra, de três aviões, que partiu para pela primeira vez voar entre o Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Estava no avião, pilotado pelo capitão-tenente Luiz Leal Netto dos Reis, que sofreu uma pane e caiu nos arredores de Petrópolis (O Brasil, 4 de agosto de 1926, O Paiz, 4 de agosto de 1926, na sexta coluna e O Jornal, 4 de agosto de 1926).

1927 – Sua participação na documentação fotográfica das pesquisas sobre os explosivos super-rupturita foi elogiada em um ofício encaminhado pelo diretor da comissão dos estudos desse tipo de explosivo ao diretor-geral da Aeronáutica (O Brasil, 11 de novembro de 1927, na última coluna).

1928 – Jorge Kfuri foi elogiado por seu trabalho à disposição do comando da esquadra no segundo período dos exercícios gerais, em dezembro de 1927, e que satisfazendo os desejos do referido comando, conseguiu organizar para o Diretório da Aeronáutica da Armada, valioso documento cinematográfico demonstrativo das fainas e exercícios naquela ocasião (O Paiz, 10 de agosto de 1928, na quinta coluna).

Kfuri foi um dos oficiais escalados para velar o corpo do aviador italiano Carlo del Prete (1897 – 1928), na Embaixada da Itália, no Rio de Janeiro. O italiano havia sofrido um acidente na Ponta do Galeão (Jornal do Commercio, 17 de agosto de 1928, na segunda coluna).

Na Escola de Grumetes de Angra dos Reis, Kfuri foi um dos três oficiais feridos com a explosão de uma bomba que deveria ser utilizada pelos aviadores navais durante os exercícios da Armada. Dois oficiais morreram (A Noite, 27 de novembro de 1928O Estado, 28 de novembro de 1928 e Careta, 1º de dezembro de 1928).

1929 - Foi ferido em um acidente no avião MF 4, pilotado por Raul Bandeira (Diário Nacional, 12 de junho de 1929, na última colunaJornal do Brasil, 12 de junho de 1929 e O Paiz, 13 de junho de 1929, na segunda coluna).

No Almanak Laemmert de 1929 e de 1931, Jorge Kfuri foi listado como o encarregado do serviço fotográfico da Escola de Aviação Naval.

1931 – Falecimento da mãe de Kfuri, dona Amélia Kfuri, no Rio de Janeiro (Diário da Noite, 16 de março de 1931, na primeira coluna).

A família de Kfuri mandou rezar uma missa em Ação de Graças por seu restabelecimento após o acidente de 1929 (Diáro da Noite, 11 de junho de 1931, na segunda coluna).

1932 – O ministro da Marinha, Protógenes Pereira Guimarães (1876 – 1938), elogiou a conduta de Kfuri no navio Belmonte, como auxiliar do aviador João Correia Dias Costa (Correio da Manhã, 21 de fevereiro de 1932, na terceira coluna).

Por decreto do Ministério da Marinha, Kfuri foi efetivado no lugar de encarregado técnico dos serviços fotográficos dos Centros e Escola de Aviação Naval com as honras e vantagens do posto de 1° tenente da Armada (Correio da Manhã, 14 de maio de 1932, na sétima coluna).

1933 – A reportagem Aspectos de Belém foi ilustrada com fotografias produzidas por Jorge Kfuri (A Noite Ilustrada, 19 de julho de 1933)

Kfuri foi um dos oficiais integrantes da 4ª Divisão de Esclarecimento e Bombardeio Aéreo que atuou no Alto Solimões na vigilância da neutralidade do Brasil no conflito entre a Colômbia e o Peru. A divisão foi comandada pelo capitão de corveta aviador Álvaro de Araújo (Jornal da Noite, 28 de junho de 1933, na terceira coluna, e Correio da Manhã, 21 de junho de 1933, na terceira coluna).

Entrevista com Kfuri sobre suas impressões da região do Alto Solimões nos 45 dias que passou lá (Jornal da Noite, 3 de julho de 1933).

Kfuri produziu a primeira fotografia aérea de Belo Horizonte, durante uma viagem do ministro da Marinha, Protógenes Pereira Guimarães (1876 – 1938), a Minas Gerais. Kfuri voou em um avião Fairey pilotado pelo capitão de corveta Álvaro de Araújo (Diário da Noite, 19 de julho de 1933, na quinta coluna).

Kfuri ficou ferido em um acidente aéreo perto de Petrópolis, quando voava em um avião da Marinha em exercício no território fluminense, pilotado pelo capitão de corveta Álvaro Araújo. O terceiro tripulante era o aviador civil Raphael Chrisóstomo de Oliveira. Esses dois últimos sofreram pequenas escoriações. A aeronave, Fairey 55, ficou inutilizada. Kfuri foi referido como um dos nossos aviadores navais mais arrojados…Fotógrafo, talvez, o mais hábil da nossa aviação naval… (Pequeno Jornal, 3 de outubro de 1933, na quarta coluna, Jornal da Noite, 3 de outubro de 1933, e Jornal do Brasil, 4 de outubro de 1933). Segundo a matéria do Jornal da Noite, foi a sétima vez que Kfuri estava em uma avião que caiu (Jornal da Noite, 3 de outubro de 1933, na penúltima coluna).

1934 – Foi um dos filhos de libaneses homenageados pela Missão Libanesa Maronita do Rio de Janeiro (Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1934).

Kfuri iria integrar como responsável pelo serviço aerofotográfico o grupo da Marinha que faria o levantamento aerotopográfico do litoral nortista (Jornal da Noite, 27 de abril de 1934, na sétima coluna).

1935 – O ministro da Marinha, Protógenes Pereira Guimarães (1876 – 1938), solicitou ao consultor geral da República a extensão do abono salarial a três oficiais honorários da Armada brasileira e Kfuri era um deles (Jornal do Brasil, 2 de outubro de 1935, na segunda coluna).

1936 – Terrenos da aviação naval no campo de São Bento, na Ilha do Governador, estavam ameaçados de despejo pela Companhia Indústria e Comércio. Kfuri era um dos oficiais da Armada que possuía um dos lotes (O Imparcial, 27 de junho de 1936 e 28 de junho de 1936, na última coluna).

1939 - Participou de um cruzeiro aéreo entre o Rio de Janeiro e São Paulo (Correio Paulistano, 18 de julho de 1939, na última coluna).

1941 – Kfuri estava presente na posse do coronel Dias Costa como presidente do Aeroclube do Brasil (Jornal do Brasil, 1º de agosto de 1941, na quinta coluna).

1942 – O ministro da Aeronáutica, Joaquim Pedro Salgado Filho (1888 – 1950), tornou sem efeito a transferência e nomeação de Jorge Kfuri para monitor de fotografia aérea da Escola de Especialistas da Aeronáutica (Diário de Notícias, 23 de maio de 1942, na segunda coluna, e A Manhã, 7 de julho de 1942, na quarta coluna).

1954 – Kfuri servia no gabinete do ministro da Aeronáutica (Correio da Manhã, 1º de setembro de 1954, na sétima coluna).

1956 – Em uma coluna sobre reportagens antigas do jornal A Noite,  o jornalista Bento Malafaia relatou que o fotógrafo Kfuri havia participado de uma reportagem onde ele se fez passar como secretário de um suposto faquir, na verdade, o redator Eustachio Alves. O “consultório” fez muito sucesso na cidade. Depois de revelada a verdade, foram tomadas medidas contra a exploração de faquires e cartomantes abrandando a crendice popular (A Noite, 24 de julho de 1956, na penúltima coluna).

1957 – Em cerimônia realizada na praça Salgado Filho, com a presença do presidente da República, Juscelino Kubitschek (1902 – 1976), e de Thomas White, Chefe do Estado Maior da Força Aérea dos Estados Unidos, Kfuri foi condecorado com o grau de Cavaleiro da Ordem do Mérito Aeronáutico. Foi publicada uma fotografia de Kfuri sendo condecorado (Correio da Manhã, 24 de outubro de 1957Jornal do Brasil, 24 de outubro de 1957, na primeira coluna).

1959 – O presidente da República, Juscelino Kubitschek (1902 – 1976), assinou um decreto suprimindo o cargo de chefe do Serviço Fotográfico da Aeronáutica, vago em virtude da aposentadoria de Jorge Kfuri (Jornal do Dia, 15 de setembro de 1959, na quarta coluna).

1965 – Falecimento de Jorge Kfuri, em 21 de janeiro, no Hospital Central da Aeronáutica. Sua esposa, Hilda Carelli Kfuri, publicou um anúncio do enterro, realizado no cemitério São João Batista (Correio da Manhã, 22 de janeiro de 1965, na primeira coluna).

1999 – No Espaço Cultural da Marinha, no Rio de Janeiro, foi realizada entre dezembro de 1999 e abril de 2000 a exposição Imagens da Aviação Naval com fotografias pertencentes ao acervo do Serviço de Documentação da Marinha, que fazem parte de um álbum de 555 imagens produzidas por Kfuri com registros da aviação naval desde seu início, de vistas aéreas do Rio de Janeiro e de acontecimentos importantes na cidade.

 

Colaborou para esta pesquisa a bibliotecária Marcia Prestes Taft, Encarregada da Divisão de Documentos Especiais da Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha.

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ANDRADE, Joaquim Marçal Ferreira. Milan Alram. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2015.

Arquivo Nacional

Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha

Hemeroteca da Biblioteca Nacional

Site da Biblioteca da Presidência da República

Site da Câmara dos Deputados

Site da Secretaria de Estado de Cultura do Distrito Federal

Site da Presidência da República – Casa Civil

Site do CPDOC

Site do Senado Federal

Site do Superior Tribunal Militar

Um fotógrafo inglês na Bahia: Benjamin Robert Mulock (18/06/1829 – 17/06/1863)

 

Entre 1º de novembro de 1859, quando chegou ao Brasil, e abril de 1862, quando voltou à Inglaterra, o fotógrafo e engenheiro inglês Benjamin Robert Mulock (1829 – 1863) documentou a construção da estrada de ferro Bahia a São Francisco, uma das primeiras do Brasil, cuja primeira seção foi inaugurada em 28 de junho de 1860. Vinte e sete dessas fotografias, que narram a história da construção da ferrovia, e também 32 imagens da cidade de Salvador e do interior da Bahia, atribuídas a Mulock, foram presenteadas a d. Pedro II pelo empreiteiro da obra, o engenheiro civil inglês John Watson (1816-1890), por volta de 1861.

Mulock é considerado um dos mais interessantes e expressivos paisagistas urbanos da fotografia oitocentista no Brasil, onde trabalhou, na Bahia. Um grande panorama fotográfico de Salvador, produzido por ele, a partir do Forte do Mar, entre 1859 e 1861, é uma das mais importantes fotografias da cidade no século XIX. Com muita nitidez, veem-se os principais prédios da capital baiana, cuja série de vistas de sua autoria é um importante e excelente registro de imagens de Salvador. A produção de Mulock é marcada por um caráter racional decorrente, talvez, de sua formação de engenheiro. Seus conhecimentos nessa área o habilitavam, em suas fotografias relativas à estrada de ferro, a escolher as melhores perspectivas e a reconhecer os elementos indispensáveis para uma documentação fotográfica útil para futuras construções ferroviárias.

Segundo Pedro Vasquez, seu estilo antecipou a abordagem direta que viria a ser adotada no século XX, a straight photography (a fotografia direta)(1), levada ao paroxismo da depuração e impacto pelo norte-americano Walker Evans (1903 – 1975).

Ainda sobre o estilo de Mulock, Weston J. Naef e Gilberto Ferrez comentaram no livro Pioneer photographers of Brazil: 1840-1920:

“Em suas cenas urbanas, Mulock cultivava um estilo totalmente desprovido de artifícios derivados das convenções artísticas tradicionais. Ele gostava de posicionar sua câmara bem no meio da rua, como se qualquer ponto de vista fosse bom o bastante, mas ainda assim sua composição possui uma intensa coerência visual baseada numa construção estritamente fotográfica, de tal forma que seria difícil produzir a mesma imagem a partir de qualquer outro meio de expressão”.

 

 

Acessando o link para as fotografias de autoria de Benjamin Robert Mulock disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Pouco antes da chegada de Mulock ao Brasil, o italiano de origem alsaciana Augusto Stahl (1828 – 1877) realizou uma série de registros da construção de outra estrada de ferro, a Recife-São Francisco, em 1858. O fotógrafo suíço Guilherme Gaensly (1843 – 1928) foi contemporâneo de Mulock e muitas das vistas produzidas pelos dois da capital baiana eram parecidas.

 

Pequeno perfil e cronologia de Benjamin Robert Mulock

A vida familiar de Benjamin Mulock foi bastante conturbada devido à insanidade de seu pai, o irlandês Thomas Samuel Mulock (1789 -1868), que se casou com Dinah Mellard (1794-1845), em 7 de junho de 1825. Seus irmãos foram Thomas Mellard Mulock (1827 – 1847), que estudou pintura com William Holman Hunt (1827 – 1910), fundador, em 1848, juntamente com Dante Gabriel Rossetti (1828 – 1882) e John Everett Millais (1829 – 1896), do grupo artístico Irmandade Pré-Rafaelita; e Dinah Maria Mulock Craik (20/04/1826 – 12/10/1887), que se tornaria uma famosa poeta e romancista. Durante sua vida, Benjamin trabalhou como fotógrafo e engenheiro, tendo morado em diferentes cidades da Inglaterra, na Austrália, no País de Gales, no Brasil e na Rússia. Tentou casar-se e também buscou obter uma estabilidade financeira, o que nunca conseguiu. Em 1863, foi internado por suas tendências suicidas, fugiu do hospital, foi atropelado e faleceu em 17 de junho do mesmo ano.

Benjamin Robert Mulock, em 1858 / Publicado no site Benjamin R. Mulock Photographer.

 1829 – Benjamin Robert Mulock nasceu em 18 de junho, no condado de Staffordshire, na Inglaterra, filho do pregador evangélico dublinense Thomas Samuel Mulock (1789 – 1869), um fanático religioso de origem humilde, e da inglesa Dinah Mellard (1794-1845), órfã de um próspero industrial do ramo de curtumes. Eles haviam se casado em 7 de junho de 1825. Benjamin foi o mais novo entre seus irmãos Thomas Mellard Mulock (1827 – 1847) e Dinah Maria Mulock Craik (20/04/1826 – 12/10/1887).

1830 - Seu pai, Thomas Samuel Mulock foi, pela primeira vez, internado no Stafford County Lunatic Asylum, hospital para doentes mentais, onde ficou do dia 1º ao dia 10 de maio.

1831 - Thomas Samuel Mulock perdeu sua paróquia e a família foi viver em Newcastle-under-Lyme.

1832 - Em 2 de dezembro, o pai de Benjamin, que devido a seu temperamento era conhecido como Moloch Sangrento, uma alusão a um demônio da tradição cristã e cabalística, foi internado de novo no Stafford County Lunatic Asylum, onde permaneceu sete anos

Nos últimos anos dessa década, Dinah Mellard, mãe de Benjamin, fundou, com a ajuda de sua filha, uma pequena escola em Newcastle-under-Lyme.

1839 –  Com a morte da avó materna de Benjamin, a família Mulock herdou algum dinheiro.

Em 31 de dezembro, seu pai deixou o Stafford County Lunatic Asylum.

1840 - A família foi para Londres, onde passou a ter uma vida mais confortável. Moravam em Earls Court Terrace. Benjamin começou a estudar piano e concertina. Entre esse ano e por volta de 1845, quando Dinah, a mãe, faleceu, os Mulock tiveram uma vida cultural interessante. Thomas Samuel tornou-se amigo de Charles Mathews, gerente do Covent Garden, que convidava constantemente os Mulock para ocuparem uma frisa no teatro. Conviveram com atores, comediantes, e escritores, como George e Maria Lovell, a poeta Eliza Leslie (1787 – 1858), e o editor Samuel Carter Hall (1800 – 1889).

1842 – Sua mãe começou a apresentar problemas de saúde.

1843 – Benjamin começou a se interessar por Engenharia Civil.

1844 – Sua mãe e irmã voltaram temporariamente para o condado de Staffordshire, provavelmente na esperança de que a saúde da mãe melhorasse.

 

pai

O pai de Benjamin, Thomas Samuel Mulock, c. 1823. Fotografia publicada no livro The Mellards and Their Descendants, 1915.

 

1845 – Em Londres, Benjamin, seus irmãos e mãe foram abandonados pelo pai, em 21 de março de 1845, Sexta-Feira da Paixão.

Sua mãe, Dinah Mellard Mulock, faleceu em 3 de outubro. Thomas Samuel tentou se reaproximar da filha Dinah.

1846 – Por motivos financeiros, seu irmão Thomas teve que abandonar seus estudos de pintura e passou a trabalhar como capitão de navios. Ele havia estudado pintura com William Holman Hunt (1827 – 1910), que fundou, em 1848, juntamente com Dante Gabriel Rossetti (1828 – 1882) e John Everett Millais (1829 – 1896), o grupo artístico Irmandade Pré-Rafaelita.

1847/ 1848 /1849 - Em Londres, morte de seu irmão, Thomas, em 12 de fevereiro de 1847, após uma queda do navio em que faria sua segunda viagem como capitão da Marinha mercante.

Benjamin vivia com sua irmã, Dinah, em alojamentos nas cercanias de Tottenham Court Road, e estudava no University College London latim, matemática e filosofia natural como preparação para a Engenharia. No século XIX, a filosofia natural englobava o estudo da astronomia, cosmologia, geologia, física e quimíca.

Dinah completou 21 anos e recebeu sua parte do trust de sua mãe. Ela escrevia contos e poemas que vendia para revistas, jornais e para os anuários de moda de Lady Blessington, além de percorrer editoras fazendo contatos. Em 1849, Dinah, publicou seu primeiro romance, The Ogilvies.

1850 – Benjamim completou 21 anos, recebeu sua parte do trust de sua mãe e foi para a Austrália. Desse ano até 1853, estabeleceu uma criação de ovinos e participou da corrida ao ouro no país.

1854 – Entre esse ano e 1855, Mulock retornou à Europa para tratar um problemas nos olhos, na Suíça e em Marienberg, na Alemanha.

1855 - Alistou-se na Army Works Corps e serviu como engenheiro em uma ferrovia durante a guerra da Criméia, conflito que ocorreu entre 1853 e 1856, na península da Criméia, no mar Negro, ao sul da Rússia e nos Bálcãs.

1856 – Retornou à Inglaterra, em julho, e entrou para o Liverpool Public Offices Engineers Department. Como engenheiro, trabalhou para os Correios de Liverpool. Em torno dessa época, Mulock tornou-se um fotógrafo autodidata.

Nesse ano, sua irmã publicou John Halifax. No período em que escreveu o livro, foi sustentada por Benjamin.

Seu pai voltou a ser internado no asilo de doentes mentais do condado de Stafford, onde permaneceu até 1860.

1857 - Em 31 de março, foi lançada a pedra fundamental da ferrovia da Bahia ao São Francisco, que ligava Salvador a Alagoinhas, a primeira da Bahia. Os planos da obra foram levantados pelos engenheiros civis ingleses Henrique Law e John Blount e sua execução contratada a John Watson (1816-1890), que dela encarregou o engenheiro H. Vignoles (1793 – 1875) (Diário de Pernambuco, 14 de abril de 1857, na segunda coluna sob o título “Bahia”, e Jornal do Commercio, 11 de março de 1858, na quarta coluna). Na época, o presidente da província da Bahia era o desembargador João Lins Vieira Cansansão de Sinimbú (1810 – 1906), presente na cerimônia do lançamento da pedra fundamental da obra.

1858 – Benjamim vivia em Liverpool e sua irmã, Dinah, foi morar com ele.

 

irmaos

Os irmãos Dinah e Benjamin Mulock, em 1858, no Jardim de Linacre Grange, em Bootle, cidade próxima a Liverpool. Fotografia publicada no livro The Mellards and Their Descendants, 1915.

 

1859 – Dinah e Benjamin mudaram-se para Londres e foram viver em Wildwood Cottage, perto de Hampstead, uma área rural da cidade. Entre fins de 1858 e 1859, Benjamin trabalhou como fotógrafo para John Jabez Edwin Paisley Mayall (1813 -1901), profissional famoso por sua produção de fotografias no formato cartões de visita da rainha Victoria (1819 – 1901). No período que se dedicou à fotografia, provavelmente entre 1858 e 1862, Benjamin sofreu doenças de pele decorrentes do uso de produtos químicos no processo fotográfico.

Benjamin embarcou no paquete inglês Oneida, que partiu de Southampton, e chegou ao Brasil em 1º de novembro, onde ficou até 1862. Teria sido contratado na França, onde aprimorava seus conhecimentos de fotografia, pela firma empreiteira do engenheiro civil inglês John Watson (1816-1890), para documentar a construção da estrada de ferro da Bahia ao São Francisco. Segundo o site Salvador Antiga, teria escrito sobre a Bahia: Eu nunca vi um lugar que me agradasse tanto à primeira vista. A Cidade alonga-se pela Baía, de forma crescente. A orla é alta e as casas erguem-se umas sobre as outras, misturando-se com a vegetação dominada por bananeiras e coqueiros, tudo tão verde.

 

1860 - Duas fotografias de sua autoria produzidas na Bahia foram publicadas na Illustrated London News, fundado em 1842 e primeiro jornal ilustrado semanal do mundo.

Em uma carta enviada por sua irmã, Dinah, a ele, em 4 de setembro, ficava evidenciada sua tendência à melancolia: Você trabalhar de modo silencioso e constante apesar das dificuldades, tenho orgulho disso, mas quando você se esfalfa de modo descuidado e inútil, e então fica irritado e vê as coisas de modo melancólico, bem, isto me preocupa bastante, eu admito.

c. 1861 – Em torno desse ano, vinte e sete fotografias da construção da ferrovia e também 32 imagens da cidade de Salvador e do interior da Bahia foram presenteadas a d. Pedro II pelo empreiteiro John Watson.

1862 – Em abril, deixou o Brasil e voltou para a Inglaterra, onde passou a viver com sua irmã, Dinah Craik, em Hampstead.

1863 –  Em janeiro e fevereiro, trabalhou em Swansen, cidade no País de Gales, como engenheiro. Em abril, Benjamin retornou à Inglaterra e voltou a morar com sua irmã em Hampstead, em Londres.

Benjamin começou a dar sinais de melancolia. Sua irmã, que cuidou dele, tinha medo que ele cometesse suicídio. Em 7 de junho, foi internado na clínica para doentes mentais do Dr. Harrington Tukes, em Hammersmith, Londres. Fugiu cinco dias depois e foi atropelado, tendo morrido dos ferimentos em 17 de junho (Weekly Freeman’s Journal, 27 de junho de 1863).

Segundo o artigo Mrs. Craik, da escritora escocesa Margaret Oliphant (1828 – 1887), publicado em 1887,  na Macmillan’s Magazine, seria impossível penetrar suficientemente nas linhas da reticência vitoriana para descobrir se o problema de Benjamin era com o álcool, com o ópio ou instabilidade mental; ele aparecia e desaparecia, era muito falado, ternamente recebido pela irmã, causando nela ansiedade; rejeitado pelos amigos dela, mas nunca por ela.

1869 – Morte de seu pai, Thomas Samuel Mulock.

1887 – Morte de Dinah Maria Mulock Craik, em 12 de outubro.

 

 

(1) Fotografia direta – Straight photography – O conceito foi  usado para caracterizar uma vertente da fotografia moderna surgida nos Estados Unidos nos anos 1910. O termo foi definido, no texto Um Apelo em Favor da Fotografia Direta, do poeta e crítico de arte Sadakichi Hartmann (1867 – 1944), publicado na revista American Amateur Photographer, em março de 1904. Refere-se a imagens feitas pelo contato direto da câmera com a realidade, sem intervenções no laboratório ou na cópia, enfatizando a noção de fotografia como expressão subjetiva. Alguns dos expoentes da fotografia direta foram Alfred Stieglitz (1864 – 1946), Anselm Adams (1902 – 184), Edward Weston (1886 – 1958)  e Paul Strand (1890 – 1976).

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Fontes:

ANDRADE, Joaquim Marçal (org.). A coleção do imperador: fotografia brasileira e estrangeira no século XIX. Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil, 1997. 71 p.

BOURRIER, Karen. Narrating insanity in the letter of Thomas Mulock and Dinah Mulock Craik in Victorian Literature and Culture,Vol. 39, No. 1, 2011. Cambridge University Press.

CRAIK, Dinah Mulock. John Halifax, Gentleman. Canadá: Broadviews Edition, 2005

HANNAVY, John. Encyclopedia of Nineteenth-Century Photography. Inglaterra: Taylor & Francis Group, 2008

ERMAKOFF, George. Rio de Janeiro 1840 – 1900 Uma crônica fotográfica. Rio de Janeiro: G. Ermakoff Casa Editorial, 2006.

FERREZ, Gilberto; NAEF, Weston J.. Pioneer Photographers of Brazil, 1840-1920. New York: Center for Inter-American Relations, 1976.

FERREZ, Gilberto. A fotografia no Brasil: 1840- 1900. Prefácio Pedro Karp Vasquez. 2. ed. Rio de Janeiro: Funarte, 1985. 248 p. (História da fotografia no Brasil, 1).

FERREZ, Gilberto. Bahia: velhas fotografias 1858/1900. Apresentação Katia Queirós Mattoso. 2. ed. Rio de Janeiro: Kosmos, 1999. 199 p., il. p&b.

FOSTER, Shirley. Victorian Women’s Fiction: Marriage, Freedom, and the Individual. Oxon: Routledge, 2012

KASTAN, David Scott (editor). The Oxford Encyclopedia of British Literature. Oxford: Oxford University Press, 2006.
KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002. 408 p., il. p&b.

LAGO, Bia Corrêa do;LAGO, Pedro Corrêa do. Os Fotógrafos do Império. Rio de Janeiro: Capivara, 2005. 240p.:il

MARIEN, Mary Warner. Photography: A Cultura History. Grã-Bretanha: Laurence King Publishing, 2002.

MARTIN, Frances. Mrs. Craik, in Athenaeum, 22 de outubro de 1887.

MITCHEL, Sally. Dinah Mulock Craik. Londres: Twayne, 1983.

OLIPHANT, Margaret. Mrs. Craik, in Macmillan’s Magazine. 57, 1887.

READE, Aleyn Lyell. The Mellards and Their Descendants. London: 1915.

Site Benjamim R. Mulock, photographer

Site Enciclopédia Itaú Cultural

Site Family Search – Entrada de Passageiros na Bahia

Site Grace’s Guide to British Industrial History 

Site Illustrated London News

Site National Art Gallery

Site Online Archive of California

Site Salvador Antiga

Site Tapas Project

Site Taylor & Franis Online

Site The J. Paul Getty Museum

VASQUEZ, Pedro Karp. Dom Pedro II e a fotografia no Brasil. Rio de Janeiro: Fundação Roberto Marinho, 1985.

VASQUEZ, Pedro Karp. Mestres da fotografia no Brasil: Coleção Gilberto Ferrez. Tradução Bill Gallagher. Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil, 1995. 272 p.

Abram-Louis Buvelot (Suíça, 03/03/1814 – Austrália, 30/05/1888)

Suíço, nascido em Morges, o pintor e fotógrafo Abram-Louis Buvelot (1814 – 1888), chegou ao Brasil, em 1835, e foi, com seu associado, o francês Prat (? – 1852), o primeiro fotógrafo no Brasil a receber o real patrocínio de um monarca quando, em 8 de março de 1851, d. Pedro II autorizou o uso das armas imperiais na fachada do estabelecimento fotográfico Buvelot & Prat, na rua dos Latoeiros, no centro do Rio de Janeiro. Buvelot pintou, sob encomenda da imperatriz dona Teresa Cristina, uma paisagem de floresta brasileira, que foi exibida na Exposição Geral de Belas Artes de 1846. A obra agradou muito a d. Pedro II, que o agraciou com o título de Cavaleiro da Imperial Ordem do Rosa, em 1847 (Diário Novo, 22 de março de 1847, na segunda coluna). A imperatriz dava de presente a suas irmãs em Nápoles, Paris e Viena quadros de Buvelot.

Buvelot foi aluno do pintor suíço Marc Louis Arlaud (1772 – 1845), na Escola de Desenho de Lausanne, de Jean-George Volmar (1769 – 1831), em Berna, e do francês Camille Flers (1802 – 1868), em Paris. Este último havia passado uma temporada no Rio de Janeiro, onde trabalhou como cozinheiro, pintor e bailarino.

Em  Salvador, sua primeira residência no Brasil, Buvelot foi professor de pintura. Em 1840, passou a morar no Rio de Janeiro e produziu vistas, cenas de costumes urbanos da cidade que estão no álbum litográfico Rio de Janeiro Pitoresco, realizado com o pintor francês Louis Auguste Moreaux (1818 – 1877), e publicado em 1845, pela Heaton & Rensburg. Entre 1840 e 1852, participou de todas as exposições da Academia Imperial de Belas Artes, exceto nos anos de 1842, 1845 e 1851. Fundou, em torno de 1845, um estabelecimento fotográfico na rua dos Latoeiros, 36 (atual Gonçalves Dias), tornando-se um dos primeiros profissionais da daguerreotipia no Rio de Janeiro.

A oficina de Buvelot prestou diversos serviços para a Casa Imperial, dentre eles a produção de retratos de d. Pedro II, dona Teresa Cristina e de sua filha, a princesa Isabel, que integram a Coleção de Dom Pedro de Orleans e Bragança. Com seu associado, Prat, realizou, em 1851, uma série de daguerreótipos de Petrópolis – todos desaparecidos. Estiveram na cidade entre 25 de fevereiro a 1º de março e entre 9 e 15 de abril para fotografar aspectos da então colônia imperial e receberam da mordomia imperial 2:595$000. Foram pagos 92$000 ao Hotel Suíço de Francisco Gabriel Chifelli e ao colono Davi Heiderich pelo aluguel de carros que os transportou do Porto da Estrela a Petrópolis. Esses daguerreótipos estão desaparecidos. Segundo o historiador Guilherme Auler, alguns foram descritos por d. Pedro II em um dos manuscritos que estão no Arquivo da Casa Imperial. Seriam a descrição dos registros do palácio, ainda não concluído; do Hotel Suíço, da serraria, da residência do ministro da Rússia, além de aspectos da rua do Imperador e da rua Dona Francisca, dentre outros. Auler levantou a hipótese dessas fotografias terem sido ofertadas a Dona Francisca, a Princesa de Joinville que semestralmente recebia de maneira oficial, com correspondência da Mordomia da Casa Imperial ao Ministro brasileiro em Paris, caixas de doce de abacaxi, farinha de mandioca, feijão preto, barril de aguardente, caixas de goiabada e sementes de quiabo… A feijoada recordava o Brasil. E se havia o cuidado de remeter tais coisas, para o culto da saudade, certamente um daguerreótipo representava muito mais (Jornal do Brasil, 2 de junho de 1957). 

Em 1852, Buvelot retornou à Suíça, onde tentou, sem sucesso se estabelecer como fotógrafo. Em 1865, fixou-se na Austrália, onde tornou-se um dos maiores pintores paisagistas do país. Entre 1866 e 1882, contribuiu com paisagens em várias exposições nacionais e internacionais. Faleceu em 30 de maio de 1888.

Em uma carta enviada em 1877 para um de seus amigos mais próximos, o pintor francês Eugene Girardet (1853 – 1907), refletindo sobre as circunstâncias de sua vida e seu envelhecimento, Buvelot escreveu:
Apenas uma faculdade persiste em força total e esta é um sentimento pela natureza que unido a um coração sempre jovem para amar e valorizar aqueles que escolheu…me faz encontrar um charme na vida.

Cronologia de Abram-Louis Buvelot

1814 – Nascimento de Abram-Louis Buvelot, em 3 de março, em Morges, na Suíça, segundo filho de François-Simeon (? – 1848), fucionário do Correio, e de Jeanne-Louise-Marguerite Heizer (? – 1856), diretora escolar. Tinha um irmão, Eugene-Jean-Louis-Henri (c. 1820- 1852), gravador e litógrafo. A família Buvelot estabeleceu-se em Morges em 1677, onde chegou como refugiada protestante de Condé-en-Barrois, na França.

1830 – Em dezembro, Buvelot deixou sua cidade natal, provavelmente para estudar na Escola de Desenho de Lausanne, dirigida pelo pintor suíço Marc Louis Arlaud (1772 – 1845), que havia sido aluno do célebre pintor francês Louis David (1748-1825).

1834 – Provavelmente, deixou a Suíça e passou alguns meses em Paris, onde foi aluno do pintor francês Camille Flers.

1835 - Chegou em Salvador, na Bahia, onde deu aulas de pintura. Seu tio, François Buvelot (1777 – ?) possuiu uma plantação de café no estado entre 1825 e 1842. Buvelot permaneceu em Salvador até 1840 e os quadros que pintou da cidade, intitulados Vista da Bahia e Vista das Fortalezas da Entrada da Bahia, além de um retrato de Minerva Candida d’Albuquerque, o destacou entre as famílias europeias abastadas que viviam na Bahia.

1839 – Anunciou ao público ter aberto uma casa onde desenhava paisagens, retratos de todos os tamanhos e tudo quanto diz respeito a essa arte (Correio Mercantil, 9 de fevereiro de 1939, na segunda coluna).

1840 – Anunciou com o pintor francês Louis Auguste Moreau (1818 – 1877) aulas de desenho e pintura na rua Direita do Palácio, nº 65 (Correio Mercantil, 29 de janeiro, na segunda coluna, e 4 de fevereiro de 1840, na segunda coluna).

Em outubro, chegou ao Rio de Janeiro, a bordo do patacho Minerva. Três dias depois, compareceu à Polícia e no livro de legitimação de passaportes identificou-se como Luis Buvelot, suíço, solteiro, 27 anos, retratista. Como a maioria dos imigrantes, viveu um tempo no Hotel Pharoux, e depois teve várias moradias, dentre elas na ruas do Rosário, do Cano, Santa Teresa e Ourives (Jornal do Commercio, 31 de outubro de 1840, na terceira coluna e Jornal do Brasil, 2 de junho de 1957). 

Em dezembro, participou da III Exposição Geral de Belas Artes com duas paisagens representando a praia de Santa Luzia e o Saco da Gamboa com o cemitério inglês (Jornal do Commercio, 16 de dezembro de 1840 e Diário de Pernambuco, 13 de janeiro de 1841, na primeira coluna). Na ocasião, Zeferino Ferrez (1797 – 1951), pai do fotógrafo Marc Ferrez, foi condecorado.

1841 – Foi anunciada a venda de uma litografia de Heaton & Rensburg representando a coroação e a sagração de d. Pedro II, quando ele se apresentou ao povo na varanda Largo do Paço, baseada em um desenho do pintor francês Louis Auguste Moreaux (1818 – 1877) e Buvelot. Estava à venda nas lojas de Georges Leuzinger (1813 – 1892) e Laemmert, dentre outras (Jornal do Commercio, 4 de agosto de 1841, na segunda coluna).

Participou da Exposição Geral de Belas Artes com quadros representando a Lagoa Rodrigo de Freitas e Botafogo (Jornal do Commercio, 6 de janeiro de 1842, na terceira coluna).

1842 – Foi publicado o primeiro número do Rio de Janeiro Pitoresco com seis estampas de vistas e figuras desenhadas por Buvelot e pelo pintor francês Louis Auguste Moreaux (1818 – 1877). Estava à venda nas lojas de Georges Leuzinger (1813 – 1892) e Laemmert (Jornal do Commercio, 24 de março de 1842, na terceira coluna).

Embarcou no navio Bom Sucesso, rumo a Vila Viçosa e Campos (Jornal do Commercio, 17 de novembro de 1842, na última coluna).

1843 - Em novembro, Buvelot casou-se com a parisiense Marie-Félicité Lalouette (1816 – ?), filha de Nicolas-Joseph e Appaline-Rosalie Piquet, meses depois do nascimento de Jeanne-Louise-Sophie, única filha do casal, em 24 de fevereiro.

Ele e o pintor cearense José dos Reis Carvalho (1800 – 1872) ganharam medalha de ouro na Exposição Geral de Belas Artes.

1844 – A imperatriz dona Teresa Cristina, que havia chegado ao Rio de Janeiro, em 3 de setembro de 1843, comprou todos os quadros de Buvelot expostos na Exposição do Rio de Janeiro: Cemitério Inglês na Gamboa, Vista do Convento de Santo Antônio, Canto do Beco do Cairu, Vista da Cidade do Rio de Janeiro observado do Andaraí Pequeno e Vista de Nossa Senhora da Glória observada dos aquedutos. O recibo, no valor de 300$000, de 1º de fevereiro de 1844, encontra-se no Arquivo da Casa Imperial. (Jornal do Commercio, 23 de fevereiro de 1844, na primeira coluna e Jornal do Brasil, 2 de junho de 1957).

Buvelot participou da Exposição Geral de Belas Artes com quatro quadros: Vista da cidade e da Baía observada da Fábrica de Rapé, no Andaraí; Vista da passagem da Boa Vista observada do mesmo lugar; Vista do Corcovado e da Lagoa Rodrigo de Freitas observada da Boa Vista da Gávea;Vista de Botafogo observada do caminho novo da praia Vermelha (Jornal do Commercio, 21 de dezembro de 1844, na primeira coluna e Jornal do Brasil, 2 de junho de 1957).

c. 1845 – Fundou seu estabelecimento fotográfico, na rua dos Latoeiros (atual rua Gonçalves Dias), tornando-se um dos primeiros profissionais da daguerreotipia no Rio de Janeiro.

1845 – Foi publicado pela Heaton & Rensburg o álbum litográfico Rio de Janeiro Pitoresco, realizado por Buvelot e pelo pintor francês Louis Auguste Moreaux (1818 – 1877). Reunia três séries de gravuras realizadas desde 1842 (Anuário do Museu Imperial, 1960).

Consta dos livros de fevereiro da mordomia imperial um recibo no valor de 500$000 para o pagamento de uma vista da Lagoa Rodrigo de Freitas, de autoria de Buvelot (Jornal do Brasil, 2 de junho de 1957).

Francisco Buvelot, provavelmente François Buvelot, o tio de Louis Buvelot, partiu para a França, na barca francesa Emile (Jornal do Commercio, 20 de junho de 1845, na última coluna).

1846 – Era o professor de desenho do Colégio de São Pedro de Alcântara (Jornal do Commercio, 18 de outubro de 1846, na segunda coluna).

Pintou, sob encomenda da imperatriz dona Teresa Cristina, uma paisagem de floresta brasileira, Vista de mato virgem, que foi exibida na Exposição Geral de Belas Artes de 1846. Pelo quadro, foram pagos 300$000 conforme recibo de 4 de dezembro de 1846 existente no Arquivo da Casa Imperial (Jornal do Brasil, 2 de junho de 1957).

1847D. Pedro II o agraciou com o título de Cavaleiro da Imperial Ordem do Rosa  pelo mesmo decreto que tornou Grandjean de Montigny (1776 – 1850) Oficial da mesma Ordem (Diário Novo, 22 de março de 1847, na segunda coluna).

Apresentou uma aquarela na Exposição Geral de Belas Artes (Jornal do Brasil, 2 de junho de 1957).

1848 – Apresentou seis pinturas na Exposição Geral de Belas Artes: Vista de uma casa nas Laranjeiras, Vista de uma choupana, Vista do caminho dos aquedutos, Vista de uma casa em Catumbi, Vista da Gávea observada da Lagoa; e Vista das Laranjeiras (Jornal do Brasil, 2 de junho de 1957).

1848 a 1951 – Seu estabelecimento, intitulado Louis Buvelot  foi anunciado na seção de “Pintores e Retratistas” do Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro de 1848, 1849, 1950 e 1951. Em 1951, foi anunciado também na seção de “Daguerreótipos”, no mesmo endereço, mas intitulado Officina de Buvelot, 6, & Prat, r. dos Latoeiros, 36.

1849 – Em 30 de novembro, a Família Real pagou a Buvelot  544$000 pela realização de 19 retratos e pelo fornecimento de 20 estojos de daguerreótipos (Jornal do Brasil, 2 de junho de 1957).

Buvelot foi saudado como o artista que melhor sente e executa a natureza do Brasil, na Exposição da Academia de Belas Artes. Ele apresentou duas vistas (Correio Mercantil, 18 de dezembro de 1849, na terceira coluna).

1850 – Uma conta de 404$000 de retratos de d. Pedro II foi paga pela mordomia imperial, em setembro. A partir dessa informação, o historiador Guilherme Auler concluiu que o retrato do imperador que se encontra no Palácio do Grã-Pará é de autoria de Buvelot & Prat e sua data é 1850 (Jornal do Brasil, 2 de junho de 1957).

Em uma crítica às obras apresentadas na Exposição da Academia de Belas Artes, foi escrito: as paisagens do sr. Buvelot não podem ser mais naturais! Lamentamos que esse homem não seja brasileiro ou ao menos lente de paisagem da academia, que a esse respeito está muito mal servida… Ele apresentou duas aquarelas (Gazeta Mercantil, 17 de dezembro de 1850, na segunda coluna e Jornal do Brasil, 2 de junho de 1957).

1851 – Buvelot e Prat estiveram em Petrópolis entre 25 de fevereiro a 1º de março e entre 9 e 15 de abril para fotografar aspectos da então colônia imperial e receberam da mordomia imperial 2:595$000. Foram pagos 92$000 ao Hotel Suíço de Francisco Gabriel Chifelli e ao colono Davi Heiderich pelo aluguel de carros que os transportou do Porto da Estrela a Petrópolis. Esses daguerriótipos estão desaparecidos. Segundo o historiador Guilherme Auler, alguns foram descritos por d. Pedro II em um dos 114 manuscritos que estão no Arquivo da Casa Imperial. Seriam a descrição dos registros do palácio, ainda não concluído; do Hotel Suíço, da serraria, da residência do ministro da Rússia, além de aspectos da rua do Imperador e da rua Dona Francisca, dentre outros. Auler levantou a hipótese dessas fotografias terem sido ofertadas a Dona Francisca, a Princesa de Joinville que semestralmente recebia de maneira oficial, com correspondência da Mordomia da Casa Imperial ao Ministro brasileiro em Paris, caixas de doce de abacaxi, farinha de mandioca, feijão preto, barril de aguardente, caixas de goiabada e sementes de quiabo… A feijoada recordava o Brasil. E se havia o cuidado de remeter tais coisas, para o culto da saudade, certamente um daguerreótipo representava muito mais  (Jornal do Brasil, 2 de junho de 1957).

Foi o primeiro fotógrafo no Brasil, com seu associado Prat, a receber o real patrocínio de um monarca quando, em 8 de março de 1851, d. Pedro II autorizou o uso das armas imperiais na fachada do estabelecimento fotográfico Buvelot & Prat.

1852 – O estabelecimento fotográfico foi anunciado no Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro como Officina Imperial de Buvelot, 6, & Prat, r. dos Latoeiros, 36.

Buvelot retornou à Suíça por motivos de saúde, provavelmente havia contraido malária. Porém, no livro Famous Australian Artists, de Lois Hunter, publicado na Austrália, em 2003, foi mencionado que o motivo real de Buvelot ter deixado o Brasil teria sido a pressão pública devido a um escândalo desencadeado por um caso que ele teria tido com uma estudante. Algumas fontes informam que o ano foi 1851.

Viveu entre julho de 1852 e dezembro de 1853 em Vevey, Vaud, onde tentou, sem sucesso, se estabelecer como retratista.

Apresentou  um quadri na Exposição Geral de Belas Artes (Jornal do Brasil, 2 de junho de 1957).

1853 - Em dezembro, mudou-se com Marie-Felicité e sua filha Jeanne-Louise-Sophie (1844 – ?) para Lausanne. 

1854 – Foi com o artista austríaco Ferdinand Krumholtz (1810 – 1878), que ele havia conhecido no Rio de Janeiro, para Calcutá, na Índia, onde tentaram as carreiras de pintor e fotógrafo.

1855 - Buvelot teria ido para a Escócia antes de voltar à Suíça (Jornal do Brasil, 2 de junho de 1957). Começou a trabalhar como desenhista na Escola de Design em La Chaux-de-Fonds, Neuchâtel. Permaneceu na cidade com sua mulher e filha até setembro de 1864. Nesse período, contribuiu inúmeras vezes em exposições organizadas pela Sociedade dos Amigos das Artes de Neuchâtel.

1856 – Participou da Exposição de Berna com a pintura de uma paisagem.

Pela última vez a Oficinna Imperial Buvelot & Prat foi anunciada no Almanaque Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro. O último anúncio  publicado no Correio Mercantil e Instrutivo, Político, Universal foi publicado em 21 de janeiro de 1956, na terceira coluna.

1857 – A oficina foi anunciada no Auxiliador da Administração do Correio da Tarde de 1857.

1859/1860 – Buvelot participou da Exposição Geral de Belas Artes de 1859 e de 1860 (Revista Popular, janeiro a março de 1861).

1864 – Buvelot trabalhou em um comitê que estabeleceu o Museu de Belas Artes em La Chaux-de-Fonds.

Segundo informação do dicionário de Emmanuel Bénézit (1854 – 1920), Buvelot teria voltado ao Brasil durante esse ano (Jornal do Brasil, 2 de junho de 1957).

Em setembro, deixou sua família em La Chaux-de-Fonds e, dois meses depois, partiu de Liverpool para a Austrália acompanhado de Caroline-Julie Beguin (? – 1902), que havia sido sua colega como professora de francês na Escola de Design de La Chaux-de-Fonds. Viveram juntos até a morte de Buvelot, em 1888.

1865 – Chegou em 18 de fevereiro em Melbourne, em Vitória, estado da Austrália, onde comprou um estúdio fotográfico na rua Bourke, nº 92.

1866 – Mudou-se para a rua La Trobe, nº 88 e retomou sua carreira de pintor. Caroline-Julie dava aulas de francês para ajudá-lo a se estabelecer como artista em Melbourne. Tornou-se conhecido, recebeu diversos prêmios, tendo-se notabilizado por suas paisagens. Entre 1866 e 1882, contribuiu com paisagens em várias exposições nacionais e internacionais. Segundo o crítico de arte do jornal australiano Argus, James Smith, ele reproduzia integralmente as paisagens australianas nas mais diversas técnicas: aquarelas, óleos e crayons.

1868 - Inscreveu-se para ser o instrutor das aulas de arte na Galeria Nacional de Vitória, sem sucesso. Dois anos depois, o austríaco Eugen von Guerad (1811 – 1901) foi designado para o cargo.

1869 – Em torno desse ano sua reputação como o principal pintor das paisagens da colônia australiana estava firmada.

Foi professor de desenho de paisagens na Escola de Design de Artisan, em Carlton, subúrbio de Melbourne.

Os quadros Winter morning near Heidelberg and Summer afternoon, Templestowe foram adquiridos pela Biblioteca Pública, como parte dos preparativos da Coleção Australiana para a Galeria Nacional de Vitória.

1870 / 1874 – Serviu no comitê da Academia de Artes de Vitória e também participou de exibições do grupo.

1873 –  O casal Buvelot mudou-se para o cottage Ma Retrait, na rua George, em Fitzroy, um subúrbio de Melborne.

1884 - Devido a problemas na visão e nas mãos, deixou de pintar.

1888 – A Academia de Belas Artes do Brasil adquiriu uma paisagem de Buvelot (Brasil. Ministério do Império, 1888).

Buvelot faleceu, em 30 de maio, na Austrália. Foi enterrado no cemitério de Kew, onde foi construído um memorial em sua homenagem.

1890 – Seu quadro, Vista da Gamboa, participou da Exposição Geral de Belas Artes de 1890 (Catálogo da Exposição Geral de Belas Artes de 1890).

1894 – A Galeria Grosvenor da Galeria Nacional de Vitória passou a chamar-se Galeria Buvelot.

Foster e  Martin. Retrato de Louis Buvelot, c. 1883

Foster e Martin. Retrato de Louis Buvelot, c. 1883 / La Trobe Picture Collection, Biblioteca de Vitória, Austrália

 

1953 – Integrou a mostra A Paisagem Brasileira até 1900, organizada por Rodrigo Melo Franco de Andrade (1898 – 1969) para a II Bienal de São Paulo.

1961 – Na Biblioteca Estadual da Guanabara, foi um dos pintores expostos na mostra O Rio na Pintura Brasileira.

1962 – Foi um dos artistas da mostra Pintura Australiana: colonial, impressionista e contemporânea, realizada em Perth e em Adelaide, na Austrália.

1976 – Integrou a exposição Arte Australiana nos 1870s, em Melbourne e em Sidney, na Austrália.

1977 - Integrou a exposição Aspectos da Paisagem Brasileira: 1816-1916, no Museu Nacional de Belas Artes.

1982 – Integrou a mostra 150 Anos de Pintura de Marinha na História da Arte Brasileira, realizada no Museu Nacional de Belas Artes.

1983 - Integrou a exposição Arcádia Australiana, em Sidney, na Austrália.

1992 – Integrou a mostra Natureza: Quatro Séculos de Arte no Brasil, no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro.

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Fontes:

AULER, Guilherme. O Paisagista e Retratista Buvelot, Jornal do Brasil, 2 Junho de 1957, Rio de Janeiro.

Australian Dictionary of Biography

CAMPOFIORITO, Quirino. História da pintura brasileira no século XIX. Prefácio Carlos Roberto Maciel Levy. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1983. 292 p., il. p&b. color.

COLMAN, Anne. Buvelot, the Migrant Artist. Interpreting New Worlds in Brazil and Australia. Austrália: La Trobe Journal, 2005.

ERMAKOFF , George. Rio de Janeiro 1840 – 1900 – Uma crônica fotográfica. Rio de Janeiro: G. Ermakoff Casa Editorial, 2006.

FREIRE, Laudelino. Um século de pintura: apontamentos para a história da pintura no Brasil de 1816-1916. Rio de Janeiro: Fontana, 1983. 677 p.

FOREL, M. F. Louis Buvelot, Peintre Vaudois. Gazette de Lausanne, 31 de março de 1906.

GRAY, J. R. Louis Buvelot His Life and Work. Tese de mestrado. Universidade de Melbourne, 1968.

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

LEVY, Carlos Roberto Maciel. Exposições gerais da Academia Imperial e da Escola Nacional de Belas Artes: período monárquico, catálogo de artistas e obras entre 1840 e 1884. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1990. 317 p. / v.1

MELO JUNIOR, Donato. Buvelot no Brasil i (apontamentos 1963) e Buvelot no Brasil ii (novos apontamentos à guisa de adendo 1986). Boletim do Museu Nacional de Belas Artes. Rio de Janeiro, 5 (13–5): 9–15, jan.-dez. 1986. il.

PONTUAL, Roberto. Dicionário das artes plásticas no Brasil. Texto Mário Barata, Lourival Gomes Machado, Carlos Cavalcanti et al. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969. 559 p.

RAPPAPORT, Helen. Queen Victoria: A Biographical Companion. Santa Barbara, California:ABC – CLIO Biographical Companions, 2013.

SMITH, Bernard. Australian Painting 1788-1960. London:Oxford University Press, 1962.

STICKEL, Erico João Siriuba. Uma pequena biblioteca particular – Subsídios para o estudo da iconografia no Brasil. São Paulo:Editora da Universidade de São Paulo – Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2004.

TURAZZI, Maria Inez. Poses e trejeitos: a fotografia e as exposições na era do espetáculo: 1839/1889. Prefácio Pedro Karp Vasquez. Rio de Janeiro: Funarte. Rocco, 1995. 309 p., il. p&b. (Coleção Luz & Reflexão, 4). ISBN 85-85781-08-4.

VASQUEZ, Pedro Karp. O Brasil na fotografia oitocentista. São Paulo: Metalivros, 2003.

VASQUEZ, Pedro Karp. Dom Pedro II e a fotografia no Brasil. Rio de Janeiro: Fundação Roberto Marinho, 1985.

Site da Enciclopédia Itaú Cultural

Os índios botocudos sob as lentes de Walter Garbe, em 1909

Os registros de índios botocudos produzidos no Espírito Santo por Walter Garbe (18? – 19?), em 1909, apesar de claramente encenados, mostram os indígenas no local onde viviam realizando tarefas do cotidiano e não retratados em estúdios fotográficos como fazia a maioria dos fotógrafos da época. Por Garbe eles foram fotografados, por exemplo, caçando e fazendo fogo. Essas imagens transmitem uma certa interação entre ele e os índios.

Botocudo ou aimoré era, segundo Fernando de Tacca, uma denominação usada pelos colonizadores portugueses para se referir ao conjunto de índios que usavam botoques nos lábios e nas orelhas.

No artigo Os botocudos do Rio Doce, de autoria do alemão Herman von Ihering (1850 – 1930), diretor do Museu Paulista entre 1894 e 1915, publicado na revista da instituição, em 1911, é descrita e comentada a coleção de peças etnográficas dos índios botocudos da margem esquerda do rio Doce no estado do Espírito Santo, obtida por Walter Garbe, durante as várias excursões que fez à região entre março e maio de 1909.

Segundo o artigo de von Ihering, Walter Garbe havia produzido uma bela série de vistas fotográficas dos índios botocudos. Também havia trazido para o Museu Paulista o crânio de uma indígena de 22 anos por ele retratada e que havia se afogado no rio Doce, além de objetos indígenas relacionados a seus usos. Garbe fez um minucioso relato dos hábitos dos botocudos.

Anteriormente, em 1906, Walter, excelente auxiliar e fotógrafo artista, em companhia de seu pai, o alemão Ernst (Ernesto) Garbe (1853 – 1925), naturalista-viajante do Museu Paulista desde 26 de dezembro de 1902, explorou a região do rio Doce, desde a fronteira do estado de Minas Gerais até Linhares e na Lagoa Juparana. Obtiveram valiosas coleções zoológicas, mas, na ocasião, não se relacionaram com os índios.

 

 

Acessando o link para as fotografias de autoria de Walter Garbe disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 Cronologia de fatos da vida de Walter Garbe (18? – 19?) e de seu pai, Ernst Garbe (1853 – 1925)

1853 – Nascimento de Ernst Garbe, em 22 de novembro, em Gorlitz, na Alemanha, filho de Augusto e Henriqueta Garbe.

1882 - Ernst Garbe veio pela primeira vez ao Brasil e daqui levou grandes carregamentos de animais vivos da fauna sul-americana para Hamburgo, além de grande quantidade de couros de aves, mamíferos e peixes.

1901/1902 - Ernst Garbe explorou a região do rio Juruá, no norte do Brasil, subvencionado pelo Museu Paulista.

1902 – Ernst Garbe trouxe para o Museu Paulista os primeiros exemplares de mico-leão-preto: três espécimes, uma fêmea e dois machos, coletados em Vitoriana, município de Botucatu, em São Paulo. Foi o segundo registro histórico da espécie.

Foi contratado como naturalista-viajante do Museu Paulista em 26 de dezembro, por proposta do então diretor da instituição, o alemão Hermann von Inhering (1850 – 1930). Exerceu esse cargo até sua morte, em 1925.

1904 – Publicação de um artigo sobre a expedição feita por Ernst Garbe, entre 1901 e 1902, no rio Juruá, no norte do Brasil (Boletim do Museu Paraense, 1904).

1905 – Ernst e seu filho, Walter Garbe, partiram do Rio de Janeiro para Caravelas, na Bahia, a bordo do Guarany (Brazilian Review, 17 de outubro de 1905, primeira coluna).

1906 - Walter, excelente auxiliar e fotógrafo artista, em companhia de seu pai, o alemão Ernst (Ernesto) Garbe explorou a região do rio Doce, desde a fronteira do estado de Minas Gerais até Linhares e na Lagoa Juparanã, no Espírito Santo. Obtiveram valiosas coleções zoológicas, mas, na ocasião, não se relacionaram com os índios.

1907 – Walter Garbe chegou ao Rio de Janeiro a bordo do paquete Muqui, que vinha de Caravelas, na Bahia, tendo feito escala em Guarapari, no Espírito Santo (Correio da Manhã, 18 de abril de 1907, na terceira coluna).

Ernst Garbe partiu rumo a Manaus e escalas no paquete Maranhão (Gazeta de Notícias, 27 de outubro de 1907, na última coluna).

1908 - Ernst Garbe chegou a Vitória vindo de Caravelas, na Bahia, a bordo do Guanabara (O Estado do Espírito Santo, 20 de dezembro de 1908, na primeira coluna). No dia seguinte, chegou ao Rio de Janeiro (Jornal do Brasil, 21 de dezembro de 1908, na última coluna).

1909 – Entre março e maio, Walter Garbe fez diversas excursões à margem esquerda do rio Doce, no Espírito Santo, e obteve uma coleção de peças etnográficas dos índios botocudos.

1911 – Walter Garbe partiu para Manaus e escalas no paquete Alagoas (Gazeta de Notícias, 1º de julho de 1911, quinta coluna).

Walter Garbe chegou a Vitória, procedente do Rio de Janeiro, no paquete Bahia (Diário da Manhã, 14 de setembro de 1911, quarta coluna).

1912 – Walter Garbe embarcou no paquete Manaus, que seguiu para Manaus e escalas (O Paiz, 19 de janeiro de 1912, segunda coluna).

No Rio de Janeiro, Ernst Garbe ficou hospedado no Hotel Familiar Globo (O Paiz, 14 de maio de 1912, na quinta coluna).

1913 - Publicação na primeira página do Correio Paulistano de 23 de fevererio de 1913 da matéria Fauna e flora do Brasil – As excursões e os trabalhos de um naturalista-viajante, ilustrada com uma fotografia de Ernst Garbe.

 

jornal

Fotografia na primeira página do Correio Paulistano de 23 de fevereiro de 1913 com a legenda O sr. Ernesto Garbe preparando sua caça para o Museu Paulista.

 

Ernst Garbe naturalizou-se brasileiro (Jornal do Commercio, 25 de julho de 1913, na sexta coluna).

Walter Garbe e família chegaram ao Brasil a bordo do paquete alemão Tucuman, vindo de Hamburgo e escalas (O Imparcial, 5 de novembro de 1913, na segunda coluna).

1915 – Foi noticiado que Ernst Garbe acabara de fazer uma excursão zoológica ao longo do rio Uruguai, no Rio Grande do Sul (Correio Paulistano, 23 de julho de 1915, primeira coluna).

1917 – Ernst Garbe tornou-se sócio da União Internacional Protetora dos Animais (Correio Paulistano, 1º de maio de 1917, na segunda coluna).

1919 - A secretaria do Interior de São Paulo fez um pagamento a Ernst Garbe (Correio Paulistano, 28 de março de 1919, na quarta coluna).

Foi publicada a matéria O resultado das recentes pesquisas realizadas pelo naturalista sr. Ernesto Garbe (Correio Paulistano, 7 de setembro de 1919, na penúltima coluna).

1920 - A secretaria do Interior solicitou do presidente do Lloyd Brasileiro no Rio de Janeiro passagem daquele porto para Belém e de Belém a Manaus para Ernst Garbe, naturalista viajante do Museu Paulista (Correio da Paulistano, 13 de abril de 1920, na terceira coluna).

Ernst Garbe seguiu para o Rio de Janeiro, vindo de São Paulo, no primeiro trem noturno (O Paiz, 28 de abril de 1920, na penúltima coluna).

No mês de abril, Ernst Garbe seguiu para a Amazônia. Essa foi a última excursão que realizou.

No trem noturno, Walter Garbe seguiu do Rio para São Paulo (Correio Paulistano, 6 de agosto de 1920, sexta coluna).

1921 – A secretaria do Interior fez um pagamento a Ernst Garbe (Correio Paulistano, 20 de janeiro de 1921, na sétima coluna).

Durante o carnaval, em Santa Thereza, no Espírito Santo, O sr Walter Garbe, conhecido fotógrafo, tirou várias fotografias inclusive a do salão principal do Governo Municipal (O Povo, 13 de fevereiro de 1921, primeira coluna).

O diretor do Museu Paulista informou que Ernst Garbe estava desde abril de 1920 explorando a Amazônia, tendo coletado mais de 300 mamíferos, cem aves, ofídios, répteis, batráquios, aracnideos, crustáceos, lepdopteros, insetos e peixes. Elogiou os trabalhos feitos por ele em outras regiões do Brasil (Correio Paulistano, 21 de maio de 1921, na sétima coluna).

A secretaria da Fazenda de São Paulo fez um pagamento a Ernst Garbe (Correio Paulistano, 25 de agosto de 1921, na quinta coluna).

1922 – Walter Garbe esteve no palácio do Governo do Espírito Santo (Diário da Manhã, 7 de janeiro de 1922, na segunda coluna).

O fotógrafo Walter Garbe residia em Santa Leopoldina, no Espírito Santo (Diário da Manhã, 8 de janeiro de 1922, na quarta coluna).

O senhor Elpidio Pimentel havia recebido da secretaria de Agricultura do Espírito Santo 76 fotografias produzidas por Walter Garbe (Diário da Manhã, 3 de agosto de 1922, na quarta coluna).

A coleção exposta na sala de ornitologia do Museu de Ciências foi ampliada com a presença de aves amazônicas trazidas pelo naturalista Ernst Garbe (Correio Paulistano, 4 de setembro de 1922).

A prefeitura de Santa Leopoldina mandou, pelo hábil fotógrafo Walter Garbe, tirar diversos filmes cinematográficos da cidade, com a sua movimentada vida comercial, das nossas vias de comunicação; das nossas quedas d´água; do transporte do café da colônia para aqui e daqui para Vitória, via fluvial, e também das imponentes festas do Centenário aqui realizadas (O Jornal, 11 de novembro de 1922, na coluna).

1923 – Walter Garbe requereu da secretaria de Agricultura o pagamento por serviços fotográficos em diversos municípios do Espírito Santo (Diário da Manhã, 31 de agosto de 1923, na quarta coluna).

1924 – Walter Garbe esteve no palácio do governo do Espírito Santo (Diário da Manhã, 18 de março de 1924, na última coluna).

Ernst Garbe foi mencionado na matéria Uma visita ao Museu do Ypiranga como o responsável pelas recentes aquisições de animais da Amazônia (Gazeta de Notícias, 23 de março de 1924).

Walter Garbe foi um dos compradores da cidade de Vitória da Empresa Territorial Nova Capital Federal (Diário da Manhã, 15 de julho de 1924).

Walter Garbe foi um dos convidados ao casamento do prefeito de Vitória, Otávio Peixoto, com Elida Avidos (Diário da Manhã, 20 de novembro de 1924, na última coluna).

Ernst Garbe foi citado no artigo Porto Seguro em princípios do século XIX, de autoria de Afonso d’Escragnolle Taunay (1876 – 1958), na época diretor do Museu Paulista (América Brasileira, novembro – dezembro de 1924).

1925 – Ernst Garbe ainda ocupava o cargo de naturalista-viajante do Museu Paulista (Almanak Laemmert, 1925).

Falecimento de Ernst Garbe em 4 de julho, em São Paulo (O Dia, 5 de julho de 1925, na segunda coluna e O Paiz, 9 de julho de 1925, na quarta coluna). Publicação de um perfil de Ernst Garbe, na ocasião de sua morte, escrito pelo então diretor do Museu Paulista, Afonso d’Escragnolle Taunay (1876 – 1958). Nasceu e (Correio Paulistano, 7 de julho de 1925).

1928 – A prefeitura de São Paulo indeferiu um pagamento a Walter Garbe (Correio Paulistano, 21 de março de 1928, na segunda coluna).

1929 – A secretaria da Fazenda de São Paulo fez um pagamento a Walter Garbe (Correio Paulistano, 28 de dezembro de 1929, na segunda coluna).

1932/1933 – De outubro de 1932 a abril de 1933, Walter Garbe participou com Carlos Camargo de uma expedição comandada por Olivério Pinto. Foram coletadas aves do estado da Bahia – no vale do rio das Contas e nos arredores de Caravelas. Perto de Salvador, coletaram também na ilha da Madre de Deus.

1937 – Walter Garbe era um dos componentes da Bandeira Anhanguera que após uma temporada na região do rio das Mortes, onde teve contato com os índio xavantes, sob o comando do sertanista e escritor Hermano Ribeiro da Silva(? – 1937), retornou a São Paulo (Correio Paulistano, 5 de dezembro de 1937, na primeira coluna).

 

Pequeno perfil do naturalista Ernst Garbe (1853 – 1925), pai do fotógrafo Walter Garbe

garbepai-1

O naturalista Ernst Garbe (1853 – 1925), pai do fotógrafo Walter Garbe / Fotografia publicada no livro Quantos anos faz o Brasil?, sem autoria e sem data

O alemão Ernst Garbe nasceu em 22 de novembro de 1853, em Gorlitz, na Silesia. Durante longos anos viajou por conta do grande comerciante mundial de animais selvagens Carl Hagenbeck (1844 – 1913), de Hamburgo. Veio pela primeira vez ao Brasil, em 1882. Daqui levou grandes carregamentos de animais vivos da fauna sul-americana para Hamburgo, além de grande quantidade de couros de aves, mamíferos e peixes. Tornou-se naturalista viajante do Museu Paulista em 26 de dezembro de 1902 , por proposta do então diretor da instituição o alemão Hermann von Inhering (1850 – 1930), que esteve a frente da instituição de 1894 até 1915.  No ano anterior, 1901, Ernst Garbe já havia ido à região do rio Juruá, no norte do Brasil, subvencionado pelo museu. Em 1902, trouxe para o Museu Paulista os primeiros exemplares de mico-leão-preto, três espécimes, uma fêmea e dois machos, coletados em Vitoriana, município de Botucatu, em São Paulo. Foi o segundo registro histórico da espécie. Percorreu áreas remotas em praticamente todos os biomas brasileiros, coletando uma quantidade expressiva de material. Segundo vários pesquisadores estrangeiros que visitaram o museu, foi graças a Ernst Garbe que Ihering pode reunir a melhor coleção zoológica da América do Sul na ocasião. Naturalizou-se brasileiro, em 1913. Teve uma congestão cerebral em sua mesa de trabalho, no Museu Paulista, e faleceu em 1925. Sobre ele, Afonso d’Escragnolle Taunay (1876 – 1958), diretor do Museu Paulista de 1917 a 1945, declarou: Nasceu e viveu para levar a existência do naturalista colecionador, apaixonadamente amou a sua carreira e jamais quis saber de outro modo de vida.

Pequeno perfil de Hermann Friedrich Albrecht von Ihering (1850 – 1930), diretor do Museu Paulista de 1894 a 1915

 

O zoólogo alemão Herman Friedrich Albrecht von Ihering nasceu em 9 de outubro de 1850, em Kiel e era filho do destacado jurista Caspar Rudolf von Ihering (1818-1892). Frequentou as universidades de Giessen, de Leipzig, de Berlim e de Göttingen.  Passou uma temporada na Itália, onde lecionou zoologia na Universidade de Nápoles. Radicou-se no Brasil em 1880. Naturalizou-se brasileiro em 1885. Foi naturalista-viajante do Museu Imperial e Nacional, além de pesquisador da Comissão Geográfica e Geológica do Estado de São Paulo. Em 1894, sucedeu o norte-americano Orville Adelbert Derby (1851 – 1915) na direção do Museu Paulista, cargo que ocupou até 1915, quando foi substituído por Armando Prado. A exemplo do que se fazia nas instituições europeias afins, Ihering dedicou-se à parte expositiva e também ao trabalho científico. Para tal, contratou vários naturalistas que percorreram o Brasil em busca de exemplares naturais para o Museu. Dentre os contratados, estiveram Ernest e Walter Garbe. Durante sua gestão, o Museu Paulista teve o apoio de sociedades e instituições científicas como o Museu Britânico, o Museu de Paris, o Museu Nacional dos Estados Unidos e o Smithsonian Institute. Foi visitado por diversos pesquisadores estrangeiros como Franz Heger, do Museu Imperial de Viena, e John Hasemann, do Carnegie Museum. Também recebeu coleções de museus argentinos, uruguaios e chilenos. Pesquisadores brasileiros colaboraram com a classificação das coleções, entre eles  Adolph Hempel, do Instituto Agronômico de Campinas e Adolpho Ducke, do Museu Emílio Goeldi. Naturalistas contratados pelo museu foram Beniamino Bicego,  Helmuth Pinder, Francisco Leonardo de Lima e Hermann Lünderwaldt, dentre outros. Von Ihering escreveu com seu filho, Rodolpho Theodor Wilhelm Gaspar von Ihering, os Catálogos de Fauna Brazileira vol 1. As aves do Brazil, editado pelo Museu Paulista, em 1907. Voltou para a Europa em 1920 e faleceu, na Alemanha, em 24 de fevereiro de 1930.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ABREU, Adilson Avansi de. Quantos anos faz o Brasil?. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2000. – (Uspiana Brasil 500 Anos)

Blog do IMS. Entrevista Os índios na fotografia brasileira, feita por Luiz Fernando Vianna a Leonardo Wen, em 26 de novembro de 2013.

Boletim do Instituto Paulista de Oceanografia

Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1930) Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz

EHRENREICH, Paul. Índios Botocudos do Espírito Santo no século XIX. Tradução de Sara Baldus; organização e notas de Júlio Bentivóglio. Vitória, Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, 2014. Título original: Ueber die Botocudos der brasilianischen Provizen Espiritu Santo und Minas Geraes. 1887.

IHERING, Hermann von. Os botocudos do Rio Doce. São Paulo:Revista do Museu Paulista, 1911.

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002

LOPES, Maria Margaret Lopes;PODGORNY, Irina. Entre mares e continentes: aspectos da trajetória científica de Hermann von Ihering, 1850-1930. Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.21 no.3 Rio de Janeiro Aug./Sept. 2014

NOMURA,Hitoshi. Hermann von Ihering (1850-1930), o Naturalista. In: Cadernos de História da Ciência, vol.8 no.1 São Paulo jan./jun. 2012

OLIVEIRA, Roberto Gonçalves de. As aves-símbolos dos estados brasileiros. Porto Alegre, RS: AGE Editora, 2003.

Revista do Museu Paulista, 1911

REZENDE, Gabriela Cabral. Mico-leão-preto: A história de sucesso na conservação de uma especie ameaçada. São Paulo: Matrix Editora, 2014.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. O Museu Paulista ou Museu do Ypiranga. In: O Espetáculo das Raças: cientistas, instituições e questão nacional no Brasil – 1870-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. p. 78-83.

Site O índio na fotografia brasileira

Site do Museu de Zoologia da USP

TACCA, Fernando de. O índio na fotografia brasileira: incursões sobre a imagem e o meio. História, ciências, saúde – Manguinhos – Vol. 18, nº 1, p.191-223. Rio de Janeiro., 2011