O café sob a lente de vários fotógrafos

Com uma seleção de imagens a Brasiliana Fotográfica lembra o Dia Nacional do Café, data incorporada em 2005 ao Calendário Brasileiro de Eventos. O produto chegou ao Brasil no século XVIII e desde então é um importante gerador de riquezas, muito significativo na história da economia e da cultura do país. Por sua relevância, vários aspectos de seu cultivo, colheita e comercialização foram registrados por importantes fotógrafos, dentre eles Georges Leuzinger (1813 – 1892), Guilherme Gaensly (1843 – 1928) e Marc Ferrez (1843 – 1923). O café foi também tema de fotógrafos ainda desconhecidos, do Instituto de Expansão Comercial e da Centennial Photographic Co.

 

 

Acessando o link para as fotografias relacionadas ao café disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

O café chegou ao Brasil, por Belém no Pará, em 1727, trazido pelo sargento-mor Francisco de Melo Palheta (1670 -1750) que, sob as ordens do governador do Maranhão e Grão Pará, o português João da Maia Gama, foi à Guiana Francesa para resolver problemas de fronteira. Lá conseguiu sementes de café que, na época, já tinham grande valor comercial. Seu cultivo espalhou-se da região Norte para outros estados e em meados do século XIX estabeleceu-se fortemente no Vale do Rio Paraíba, nos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro, gerando um novo ciclo econômico no país. Tornou-se o principal produto das exportações nacionais. Foi também muito cultivado em Minas Gerais e no Espírito Santo.

 

 

Sua produção e comercialização fomentaram o desenvolvimento e a criação de cidades, a construção de ferrovias para seu escoamento e São Paulo tornou-se a metrópole do café enquanto o Porto de Santos tornava-se seu principal ponto de saída. Após a abolição da escravatura, em 1888, aconteceu uma grande onda de imigração, principalmente de italianos, que vinham para o Brasil e se empregavam nos cafezais de São Paulo. A riqueza produzida nas lavouras de café gerou o crescimento do comércio, da oferta de serviços e da indústria nacional. O Brasil ainda é o maior exportador da bebida e o segundo maior país consumidor, atrás apenas dos Estados Unidos.

 

 

“As plantações de café no Brasil, entre meados do Século XIX até o final do século XX, além das divisas econômicas, gerou também um rico patrimônio cultural, envolvendo as edificações, os costumes regionais e a paisagem marcante, especialmente nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Para resgatar, preservar e valorizar toda essa riqueza, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) criou o Grupo Interinstitucional sobre o Patrimônio Cultural do Café da região sudeste do Brasil que, entre outras iniciativas, deverá estreitar a parceria entre órgãos de proteção do patrimônio cultural, universidades, sociedade civil organizada e iniciativa privada, buscando desenvolver a melhor estratégia para a preservação e a valorização do patrimônio cultural referente ao café no Brasil” (Iphan, 2011).

 

Fontes:

Embrapa

Iphan

Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento

Observatório Eco -Direito Ambiental

Revista Cafeicultura

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Nudez na Galeria Ducasble causa polêmica no Recife do século XIX

 

A exposição de uma cópia do quadro Sono de antíope (ao lado), do pintor italiano renascentista Correggio (c. 1439 – 1534), na Galeria Ducasble, causou polêmica no Recife, em 1885. Por ser considerado por parte do público um registro imoral, muitos deixaram de frequentar o estabelecimento. O advogado e ex-presidente das províncias do Piauí, do Ceará e de Pernambuco, Diogo Cavalcanti de Albuquerque (1829 – 1889), publicou, no Diário de Pernambuco de 27 de junho de 1885, uma crítica a esse comportamento, segundo ele, inspirado por uma nudofobia. No mesmo artigo, criticou o pouco incentivo do governo às artes e elogiou a galeria do fotógrafo e antiquário francês Alfred Ducasble (18-? – 19?). Diogo Cavalcanti de Albuquerque foi o Comissário Geral do Império à Exposição Universal de Paris, em 1889, na qual Ducasble participou como delegado oficial da província de Pernambuco e também como autor de fotografias e expositor de quadros, móveis, jóias e antiguidades.

O ateliê de fotografia e galeria de belas artes de Ducasble situava-se à Rua Barão da Vitória, 65 e era conhecido como A. Ducasble & C., Galeria Ducasble e Fotografia Parisiense. Pintores como Aurélio de Figueiredo (1856 – 1916) e José Jerônimo Telles Júnior (1851 – 1914)  expuseram seus trabalhos na galeria.

‘A uma habilidade não comum, que ele tem vantajosamente empregado no aperfeiçoamento dos processos fotográficos junta, como entusiasta e verdadeiro cultor das belas artes, ardente vocação, apurado gosto e inexcedível dedicação a esse gênero de cultura humana; ainda mais: vota particular interesse, liga a maior importância às produções e progresso da arte nacional’ (Diogo Cavalcanti de Albuquerque sobre Ducasble, em 1885).

Por ter fotografado grande parte da sociedade pernambucana, Ducasble ficou mais conhecido como retratista embora tenha sido também considerado um excelente paisagista. Foi casado com a alagoana e modista Urraca (1837 – 1893), com quem teve filhos: Maria Vitória (1864 – 1902), nascida em Alagoas, e o futuro caixeiro-viajante Alfredo Ducasble Filho (18? – 19?), nascido em Pernambuco.

 

 

 

Acessando o link para as fotografias de Alfredo Duscable disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Pouco se sabe sobre a vinda de Ducasble para o Brasil: teria chegado a Pernambuco em 1873 e atuou na cidade nas décadas de 1870 a 1890. Além de fotógrafo, era colecionador e antiquário. Foi professor de desenho e caligrafia no Liceu de Artes e Ofícios e na Escola Propagadora do Recife e é de sua autoria o livro Curso Prático de Caligrafia. Na década de 1880, participou de exposições no Brasil e no exterior, tendo obtido medalha de prata na Exposição Internacional de Antuérpia, em 1885. Foi possivelmente a primeira pessoa a divulgar internacionalmente o mobiliário colonial brasileiro ao enviar, além de pinturas e jóias, móveis e outras antiguidades de seu acervo para a Exposição Universal de Paris em 1889, da qual foi delegado oficial da província de Pernambuco. Na ocasião, recebeu a medalha de prata por seu panorama de Pernambuco e por retratos expostos. Algumas vistas do Recife de sua autoria foram incluídas no Album de vues du Brésil, que organizado pelo Barão do Rio Branco (1945 – 1912) e lançado em Paris na ocasião da Exposição Universal, fazia parte da segunda edição de Le Brésil, extrato da Grande Enciclopédia, trabalho dirigido pelo geógrafo Émile Levasseur  (1828-1911), para o qual o barão havia colaborado. Nesse mesmo ano, 1889, Ducasble teria ido viver em Paris.

 

 

Desenhos publicados no Album de vues du Brésil baseados em fotografias de Ducasble

(Páginas 53 a 56 do PDF)

 

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Em 1900, foi anunciada a existência de uma sucursal da Galeria Ducasble, na Avenue de la Grande Armée, em Paris. Em 1893, ano do falecimento de sua mulher, a Galeria Ducasble do Recife foi vendida para o fotógrafo Ludgero Jardim da Costa (18? – 19?).

 

Cronologia de Alfredo Ducasble (18? – 19?)

 

1873 – J. A. Ducasble teria chegado em Pernambuco vindo da Europa no vapor Rio Grande (Diário de Pernambuco, 11 de março de 1873, terceira coluna).

1874 – No Recife, A. Ducasble, sua mulher e três filhos embarcaram rumo ao sul do país, no vapor inglês Illimani (A Província – Órgão do Partido Liberal, 27 de janeiro de 1874, primeira coluna).

No Rio de Janeiro, João Alfredo Ducasble, sua senhora e um filho embarcaram no vapor Pará rumo a Pernambuco (Jornal do Commercio, 20 de junho de 1874).

Foi anunciado que Ducasble era consertador de máquinas de costura e que a modista Madame Ducasble havia chegado da corte e convidava as senhoras que desejassem vestir-se elegantemente para a visitarem na rua da Imperatriz, nº 8, mesmo local onde Ducasble atendia (Jornal de Recife, 9 de julho e 13 de julho de 1874).

 

 

 

Foi publicado um anúncio de Ducasble oferecendo aulas de caligrafia e de francês no primeiro andar da rua da Imperatriz, nº 1, onde sua esposa tinha um estabelecimento de moda (Jornal de Recife, 6 de agosto e 11 de agosto de 1874).

 

 

1875 – João Alfredo Ducasble trabalhava como desenhista na Repartição das Obras de Conservação dos Portos da Província (Almanak Administrativo, Mercantil, Industrial e Agrícola (PE), 1875).

Sua esposa, a modista Urraca Ducasble (18? – 1893), participava a mudança de seu estabelecimento de moda para a rua Barão da Vitória, 52, no 1º andar, a partir do dia 12 de julho de 1875 (A Província – Órgão do Partido Liberal, 11 de julho de 1875). Dois anos depois, mudou-se para o número 65 da mesma rua.

1876 - Vindo no navio Rio Grande, o francês Alfred Ducasble, chegou ao Rio de Janeiro (Diário do Rio de Janeiro, 13 de fevereiro de 1876, quinta coluna).

1877 - Foi publicado um anúncio onde Ducasble oferecia-se para fazer qualquer levantamento em plantas de engenho, nivelamentos, projetos de casas de campo, chalés e qualquer desenho de arquitetura, mecânico e topográfico (Jornal de Recife, 18 de abril de 1877, quinta coluna). Continuava lecionando caligrafia e desenho em colégios, em casas particulares e em sua casa (Jornal de Recife, 23 de abril de 1877, terceira coluna). Mudou-se para a Rua Barão da Vitória (ex- rua Nova), nº 65, 1º andar (Jornal de Recife, 16 de outubro de 1877, quarta coluna).

Ducasble participou de uma celebração na Escola Filotécnica (Jornal de Recife, 16 de novembro de 1877, quarta coluna).

Imprimiu o Curso Prático de Caligrafia, de sua autoria, aprovado pelo Conselho Superior de Instrução Pública de Pernambuco (Jornal de Recife, 28 de novembro de 1877, última coluna).

1878 - Durante uma reunião do Conselho de Instrução Pública da província da Bahia, foi lido um ofício mandando informar o requerimento de Alfred Ducasble, que se propõe a ensinar em 30 lições a caligrafia nas escolas, nos dois externatos e aos professores públicos, e oferece à venda por 1$500 réis cada exemplar da coleção de seus traslados. A venda não foi realizada (O Monitor, 28 de abril de 1878, terceira coluna e O Monitor, 18 de junho de 1878, sexta coluna).

Em Salvador, Alfredo Ducasble embarcou no vapor francês Niger rumo ao Recife (O Monitor, 20 de junho de 1878, quarta coluna e A Província – Órgão do Partido Liberal, de 1878, 20 de junho de 1878, segunda coluna).

Anunciou seus serviços como professor de caligrafia e de desenho, estabelecendo curtos prazos para ensinar as matérias (Jornal de Recife, 5 de julho de 1878, quinta coluna).

 

No fim dessa década, provavelmente, o alemão Rodolpho Frederico Francisco Lindemann (1852 – 19?)  trabalhava como fotógrafo junto a Alfredo Ducasble.

1880 – Anunciou a realização de Retratos Inalteráveis na Photographia Parisiense pelo processo de cromotipia, na rua Barão da Vitória, 65.

 

 

Em 1º de março, anunciou-se que na Photographia Parisiense, de Alfredo Ducasble & C., fazia-se retratos de pessoas falecidas, de grupos, retratos em domicílio e de paisagens e por todos os sistemas mais modernos. A dúzia de retratos custava 5 $ (Jornal de Recife, 1º de março de 1880).

1881 - Teria pretendido estender sua atuação para a Paraíba onde seria seu representante ou sócio Manoel Bezerra de Mello.

No Liceu de Artes e Ofícios do Recife, Ducasble era professor de caligrafia e de desenho linear. Doou para a biblioteca da instituição 10 exemplares de seu livro Curso de Caligrafia (Diário de Pernambuco, 18 de fevereiro de 1881, segunda coluna e Diário de Pernambuco, 22 de março de 1881, segunda coluna).

Exposição, no estabelecimento fotográfico de M. Alfred Ducasble , que de dia em dia vem caminhando num progresso rápido a ponto de já ser o primeiro da província, de dois quadros do pintor paraibano Aurélio de Figueiredo (1856 – 1916), Saudade e Melancolia (Diário de Pernambuco, 19 de abril de 1881, primeira coluna). Meses depois, por motivos de saúde, o pintor foi para a Paraíba e deixou como contato no Recife a Galeria Ducasble (Diário de Pernambuco, 8 de setembro de 1881, quarta coluna).

Participou da Exposição da Indústria Nacional e da Exposição Provincial de Pernambuco provavelmente com fotografias. Na última conquistou a medalha de mérito.

1882 – Participou da Primeira Exposição Artístico-Industrial promovida pela Imperial Sociedade dos Artistas Mecânicos e Liberais de Pernambuco e conquistou uma medalha de mérito pelos retratos de seu estabelecimento fotográfico. Alberto Henschel (1827 – 1882) também recebeu uma medalha de mérito pelas vistas fotográficas que expôs (Diário de Pernambuco, 17 de janeiro de 1882, segunda colunaJornal de Recife, 22 de janeiro de 1882, última coluna).

Uma menina de cor preta com aproximadamente 10 anos chamada Josefa foi abandonada na casa do casal Ducasble (Diário de Pernambuco, 14 de março de 1882, quinta coluna).

Ducasble foi laureado com o primeiro prêmio na Exposição Artístico-Industrial do Rio de Janeiro (Jornal de Recife, 14 de maio de 1884, última coluna).

Ducasble doou livros para a Biblioteca do Liceu de Artes e Ofícios de Pernambuco, inaugurada em 11 de dezembro de 1881 e aberta em 10 de abril de 1882 (Jornal de Recife, 4 de maio de 1882, penúltima coluna).

Fazia parte da comissão do Club Abolicionista encarregada de angariar donativos no bairro de Santo Antônio, no Recife (Jornal do Recife, 13 de junho de 1882, penúltima coluna).

Integrava o comitê nomeado pelo Consulado da França para organizar a Festa Nacional de 14 de julho (Jornal de Recife, 28 de junho de 1882, quinta coluna). Foi elogiado pelo trabalho verdadeiramente artístico - uma miniatura que foi ofertada aos participantes da festa (Jornal de Recife, de 16 de julho de 1882, penúltima coluna).

Na comemoração dos 41 anos da Imperial Sociedade dos Artistas Mecânicos e Liberais de Pernambuco, foi realizada uma exposição com quatro salas. A primeira sala, que era a principal, denominada Galeria Ducasble apresentava um quadro de fotografias produzidas por Ducasble, quadros a óleo do paraibano Aurélio de Figueiredo (1856 – 1916), do francês radicado em Pernambuco  Eugène Lassailly (18? – 19?) e do pernambucano José Jerônimo Telles Júnior (1851 – 1914), além de trabalhos a crayon de Benevenuto Cabral e estudos, também a crayon, de Maria Tasso (Jornal do Recife, 19 de dezembro de 1882, quinta coluna).

1883 – Fotografias porcelana produzidas por Ducasble eram um dos prêmios oferecidos em um sorteio da Livraria e Papelaria de G. Laporte & C. (Jornal de Recife, 4 de fevereiro de 1883, quinta coluna).

Ducasble partiu para a Europa a bordo do vapor inglês La Plata (Diário de Pernambuco, 16 de fevereiro de 1883, segunda coluna).

Na Galeria Ducasble, exposição de um quadro pintado por Leopoldino de Faria (1836 – 1911), retratando o diretor do Arsenal de Marinha (Jornal de Recife, 8 de junho de 1882, penúltima coluna).

Ducasble chegou da Europa a bordo do vapor francês Gironde (Jornal de Recife, 5 de agosto de 1883, última coluna). Publicou que retomava a direção de seu estabelecimento e que estava recuperado de seus incômodos. Informava que havia visitado os melhores estabelecimentos das principais cidades europeias, onde havia praticado com grandes mestres de fotografia e pintura. Anunciou ter trazido modernos equipamentos e que havia se dedicado ao estudo dos processos instantâneos podendo tirar facilmente o retrato de toda e qualquer criança com expressão e semelhança (Jornal de Recife, 10 de agosto de 1883, quinta coluna).

 

 

O pintor francês Lassaily havia chegado da França e anunciava que quem precisasse de seus serviços poderia procurá-lo na Photographia Parisienne (Jornal de Recife, 13 de novembro de 1883, última coluna).

Ducasble anunciou que o quadro dos bachareis do 5º ano encontrava-se em sua galeria e que até o fim do mês receberia o pagamento da segunda prestação (Jornal de Recife, 17 de novembro de 1883, terceira coluna).

1884 - Anúncio da Galeria Ducasble informava que a partir de qualquer fotografia produzia retratos a óleo, crayon e nanquim (Jornal de Recife, 9 de maio de 1884).

Ele, Menna da Costa e Hermina Costa formavam a comissão da Imperial Sociedade dos Artistas Mecânicos e Liberais para arrecadação dos impostos devidos por fotógrafos e retratistas (Jornal de Recife, 11 de julho de 1884, última coluna).

Ducasble fez a importação de espelhos, que chegaram no vapor francês Ville de Pernambuco (Jornal de Recife, 11 de julho de 1884, segunda coluna). Ao longo do ano foram noticiadas outras importações.

Na Galeria Ducasble, exposição de um belo retrato a óleo feito na Europa de Laurentino José de Miranda, que iria ornar a sala de sessões da Companhia de Ferrovia de Olinda (Diário de Pernambuco, 16 de maio de 1884). Exposição também de um bonito retrato a óleo do conselheiro Theodoro Machado Freire Pereira da Silva, que seria levado para o salão de honra da Câmara Municipal do Recife (Jornal de Recife, 14 de setembro de 1884, quarta coluna).

 

 

1885 – Estavam expostos na Galeria Ducasble os retratos a óleo dos advogados José Mariano Carneiro da Cunha (1850 – 1912) e Félix de Valois Correia (18? – 19?), encomendados pela Imperial Sociedade de Artistas Mecânicos e Liberais em homenagem aos serviços prestados por eles. Seriam colocados no salão de honra da referida instituição no dia do aniversário da mesma, em 18 de janeiro (Jornal de Recife, 14 de janeiro de 1885, quarta coluna).

Publicou um anúncio intitulado Antiguidades, onde anunciava interesse na compra de objetos antigos como sejam: pratos, cadeiras de sofá, vasos e candelabros de bronze, pinturas antigas e modernas e qualquer objeto artístico (Jornal de Recife, 25 de fevereiro de 1885, sexta coluna e Diário de Pernambuco, 6 de março de 1885). Esse anúncio foi publicado várias vezes ao longo do ano.

 

 

Participou da Exposição Internacional de Antuérpia, realizada entre 2 de maio e 2 de novembro de 1885, e ganhou o diploma de medalha de prata na Classe 7 – Fotografias e seus aparelhos (Diário de Pernambuco, 29 de outubro de 1885, terceira colunaJornal de Recife, 7 de abril de 1887, quinta coluna).

A carta geral do Brasil assim como outra da província de São Paulo não deixam nada a desejar como gravura topográfica. Saíram das oficinas dos senhores Paul Robin & O, do Rio de Janeiro que obtiveram por seus trabalhos uma medalha de prata; a mesma recompensa foi atribuída aos senhores Marc Ferrez e Ducasbles por suas belas fotografias’ (Anvers à l´Exposition Universelle, 1886).

A exposição de uma reprodução do quadro Sono de antíope, do pintor renascentista Correggio (c. 1439 – 1534), na Galeria Ducasble, causou polêmica por ser considerado imoral por parte do público e por essa causa deixou de frequentar o estabelecimento. O advogado e ex-presidente das províncias do Piauí, do Ceará e de Pernambuco Diogo Cavalcanti de Albuquerque (1829 – 1889) publicou uma crítica a esse comportamento, segundo ele, inspirado por uma nudofobia. No mesmo artigo critica o pouco incentivo do governo às artes e elogia o estabelecimento de Ducasble (Diário de Pernambuco, 27 de junho de 1885).

 

 

 

 

Continuava trabalhando como professor do Liceu de Artes e Ofícios (Diário de Pernambuco, 14 de outubro de 1885 e Diário de Pernambuco, 3 de julho de 1886).

Executou o retrato do sr. Epaminondas Gouvêia, que seria colocado na Igreja do Carmo. Foi encomendado pela Irmandade de Nossa Senhora da Luz (Jornal de Recife, 25 de outubro de 1885, quinta coluna).

Participou, na Seção de Fotografia, da 5ª Exposição Artístico-Industrial, promovida pela Imperial Sociedade dos Artistas Mecânicos e Liberais, quando obteve o diploma de Progresso (Jornal de Recife, 31 de dezembro de 1885, quinta coluna).

O larápio José Braz da Silva célebre autor do roubo que sofreu a atriz Helena Balsemão foi retratado por Ducasble (Diário de Pernambuco, 3 de julho de 1885, quarta coluna).

Ducasble vendeu à Irmandade de Nossa Senhora da Conceição cadeiras de carvalho revestidas de acentuados desenhos de talha (Jornal de Recife, 9 de dezembro de 1926, primeira coluna).

1886 – Na exposição fotográfica no Palácio de Cristal, na cidade do Porto, em Portugal, Ducasble foi contemplado com uma menção honrosa (Gazeta de Notícias, 27 de junho de 1886, terceira coluna).

Produziu um retrato da atriz portuguesa Lucinda Furtado Coelho (1850 – 1928) que constava de um jornal dedicado a ela (Jornal de Recife, 1º de julho de 1886, penúltima coluna).

Na Galeria Ducasble, exposição de um retrato a óleo de Diogo Cavalcanti de Albuquerque executado em Paris por um brasileiro. Também na galeria, exposição de trabalhos do pintor cearense Irineu de Souza (1850 – 1924) e de uma fotografia do Teatro Santa Isabel na ocasião da sessão fúnebre promovida União Federal Abolicionista em honra a José Bonifácio (Diário de Pernambuco, 9 de abril de 1886, primeira colunaJornal de Recife, 18 de setembro, quinta coluna e Jornal de Recife, 3 de dezembro de 1886, segunda coluna).

Participou da Exposição Sul-Americana de Berlim e conquistou o primeiro prêmio e a medalha de ouro (Diário de Pernambuco, 21 de agosto de 1886, penúltima colunaJornal do Commercio, 31 de março de 1887, última coluna e Jornal de Recife, 16 de março de 1888)

1887 – Publicação de artigos de Ducasble na quarta, na sexta e na oitava edição da Revista do Norte

Publicação de uma carta do pintor Telles Júnior ao mestre Alfredo Ducasble sobre o artigo escrito sobre os quadros de Barreto Sampaio na Revista do Norte, 10 de fevereiro de 1887. Telles Junior sentiu-se ofendido pela crítica de Ducasble (Jornal de Recife, 14 de março, quinta coluna).

Na Galeria Ducasble, exposição de retratos pintado a óleo por Bannel de Paris (Jornal de Recife, 13 de abril de 1887, quinta coluna).

Ducasble ofertou ao Instituto Arqueológico Geográfico de Pernambuco uma fotografia da inscrição da Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, no Monte Guararapes (Jornal de Recife, 20 de abril de 1887, primeira coluna).

Chegada no vapor Ville de Bahia de uma encomenda de quadros feita por Ducasble (Jornal de Recife, 7 de junho de 1887, quarta coluna).

Em uma carta publicada por Feliciano de Azevedo Gomes para a família de Emílio Soares, alfaiate e genro de Ducasble, casado com sua filha Maria Victória, foi revelado que Ducasble sofria dos nervos. Feliciano acusou Ducasble de calúnia no episódio envolvendo um surto de loucura de Soares e o desafiou para um duelo. Ducasble declarou jamais ter caluniado Feliciano, a quem continuava a considerar um cavalheiro muito distinto e honrado (Jornal de Recife, 14 de junho, última coluna;  15 de junho, penúltima coluna; e 18 de junho, terceira coluna).

O escritor português Ramalho Ortigão (1936 – 1915) em sua vista ao Recife foi à Galeria Ducasble onde foi fotografado. Estava com Joaquim Nabuco (Jornal de Recife, 20 de novembro de 1887, segunda coluna).

Na Galeria Ducasble, exposição de um retrato de Adolfo Manta, encomendado por seus ex-escravos, recém libertos por ele (Diário de Pernambuco, 7 de dezembro de 1887, última coluna).

1888 – Publicação de uma propaganda da Galeira Ducasble com lista de prêmios (Jornal de Recife, 16 de março de 1888). Foi publicada diversas vezes ao longo do ano no Jornal de Recife e no Diário de Pernambuco.

 

 

Na Galerie Artistique de Ducasble, exposição de dois bustos a óleo dos abolicionistas pernambucanos Joaquim Nabuco (1849 – 1910) e de José Mariano Carneiro da Cunha (1850 – 1912), realizados por Ducasble (Jornal de Recife, 30 de maio de 1888, quinta coluna).

 

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Joaquim Nabuco e José Mariano Carneiro da Cunha fotografados por Ducasble / Acervo Fundação Joaquim Nabuco

 

 

O artista, pintor e decorador francês Eugène Lassailly  publicou uma propaganda de seus serviços e um dos lugares onde poderia ser contactado era a Galeria Ducasble (Jornal de Recife, 19 de junho de 1888, quarta coluna).

Ducasble foi um dos contribuintes da subscrição agenciada no Recife por Luiz Cintra a fim de serem ofertadas aos médicos que cuidaram da saúde de dom Pedro II (Diário de Pernambuco, 28 de agosto de 1888, quinta coluna).

Participou da Comissão Pernambucana para a representação da província na Exposição Universal de Paris (Diário de Pernambuco, 23 de setembro de 1888, última coluna e Jornal de Recife, 11 de janeiro de 1889, primeira coluna).

Ducasble  lecionava caligrafia na Escola Normal da Sociedade Propagadora de Instrução Pública (Diário de Pernambuco, 23 de novembro de 1888, última coluna).

Em anúncio, Ducasble atestava ter feito com sucesso uso do Elixir Cabeça de Negro sedativo contra o reumatismo, fórmula do dr. Santa Rosa (Jornal do Commercio, 12 de dezembro de 1888).

1889 – Abertura da exposição prévia dos produtos que deveriam ir para a Exposição Universal de Paris, dentre eles objetos artísticos de Ducasble, que recebeu o diploma de 1ª classe (Jornal do Povo, 14 de janeiro de 1889, terceira coluna, Diário de Pernambuco, 15 de janeiro de 1889, quarta coluna; e Diário de Pernambuco, 5 de fevereiro de 1889, segunda coluna).

Foi eleito conselheiro da diretoria da Imperial Sociedade de Artistas Mecânicos e Liberais (Jornal de Recife, 26 de janeiro de 1889, terceira coluna).

Foi de sua autoria a fotografia do projeto do monumento em homenagem à abolição da escravidão que seria erigido em Olinda (Jornal de Recife, 10 de fevereiro de 1889, primeira coluna).

Ducasble foi escolhido delegado da Comissão Pernambucana para a representação da província na Exposição Universal de Paris (Diário de Pernambuco, 3 de maio de 1889, penúltima coluna).

Ducasble produziu uma fotografia do pessoal da Companhia de Bombeiros (Jornal do Povo, 17 de maio de 1889, segunda coluna).

Na Exposição Universal de Paris, realizada entre 6 de maio e 31 de outubro de 1889, ganhou medalha de prata por seu panorama de Pernambuco e por retratos expostos e também por lenços bordados e rendas. Além disso, expôs 5 quadros, móveis, jóias e antiguidades (Diário de Pernambuco, 23 de outubro, quarta coluna, e Jornal de Recife, 24 de outubro de 1889, penúltima coluna). Segunda a Revista do Patrimônio Artístico e Histórico Nacional de 1946, Ducasble talvez tenha sido o primeiro a enviar peças antigas brasileiras ou luso-brasileiras para serem mostradas fora do país. Nessa mesma exposição, o fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923) participou com vistas do Rio de Janeiro, vistas marinhas e paisagens e, de acordo com Maria Inez Turazzi, recebeu a medalha de bronze. Segundo o Auxiliador da Indústria Nacional, ele teria recebido a medalha de prata (O Auxiliador da Indústria Nacional, 1889). O fotógrafo Felipe Augusto Fidanza (c. 1847 – 1903) recebeu uma medalha de bronze. Outros fotógrafos que participaram foram Albert Richard Dietze (1838 – 1906), Rodolpho Lindemann (c. 1852 – 19?), Nicholson & Ferreira, Joaquim Insley Pacheco  (c. 1830 – 1912) e José Ferreira Guimarães (1841 – 1924). Foi também nessa exposição que a Torre Eiffel, na época a mais alta estrutura do mundo, foi inaugurada.

Ducasble estava presente no banquete realizado em 3 de outubro, no restaurante Voisin para a despedida de Visconde de Cavalcanti (1829 – 1899), presidente do Comissariado Geral do Brasil junto à Exposição Universal de Paris, que retornaria ao Rio de Janeiro (Jornal do Commercio, 24 de outubro de 1889, sexta coluna).

Foi um dos fotógrafos incluídos no livro Album de vues du Brésilbarão do Rio Branco (1845-1912) foi o responsável pelo livro, considerado a última peça para a promoção do Brasil imperial, representando um resumo iconográfico do país e de suas riquezas. Foi um dos livros que inaugurou a ilustração fotográfica do Brasil e é considerado por muitos uma espécie de balanço final do período imperial. Nas palavras do barão, o álbum pretendia “mostrar a fisionomia atual das principais cidades do Brasil e seus arredores. Sob esse aspecto, a presente coleção é a mais completa publicada até hoje”. Trazia também fotografias produzidas por Augusto Riedel (1836 -?)Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912)Marc Ferrez (1843 – 1923) e Rodolpho Lindemann (c. 1852 – 19?), dentre outros. Foi lançado em Paris na ocasião da Exposição Universal de 1889, e fazia parte da segunda edição de Le Brésil, extrato da Grande Enciclopédia, trabalho dirigido pelo geógrafo Émile Levasseur  (1828-1911), para o qual o barão havia colaborado. O Album de vues du Brésil foi o primeiro do gênero publicado depois do Brasil Pitoresco (1861), primeiro livro de fotografia realizado na América Latina, com imagens de Jean Victor Frond (1821 – 1881) e texto do jornalista e político francês Charles Ribeyrolles (1812-1860), reeditado em 1941.

Sua proposta para a confecção do quadro de retratos da turma do 5º ano da Faculdade de Direito foi vencida pela a de Constantino Barza, sucessor do fotógrafo berlinense Alberto Henschel (1827 – 1882) (Jornal de Recife, 19 de julho de 1889, quinta coluna). Em anúncio, Ducasble convidada os quintanistas que quisessem fazer parte do grupo da Torre Eiffel para irem a sua galeria (Jornal de Recife, 20 de agosto de 1889, terceira coluna).

Na Galeria Ducasble, exposição de estudos cenográficos de um ex-aluno da Imperial Academia de Belas Artes do Rio de Janeiro (Diário de Pernambuco, 16 de julho de 1889, última coluna).

Ducasble compareceu em Paris à missa celebrada pelo abade , na Igreja de Saint Augustin, em 25 de julho, a mando do Barão de Penedo, em desagravo ao atentado sofrido por d. Pedro II (Gazeta do Norte, 8 de setembro de 1889, terceira coluna).

Escreveu uma carta informando sobre o sucesso dos produtos pernambucanos exibidos na Exposição Universal de Paris (Diário de Pernambuco, 8 de setembro de 1889, quarta coluna).

Estava à venda na Galeria Ducasble fotografias da armação funerária da Igreja da Penha para as exéquias pela morte de dom Luiz I de Portugal (1838 – 1889) celebradas pela colônia portuguesa do Recife (Diário de Pernambuco, 20 de dezembro de 1889, segunda coluna).

Duscable foi viver em Paris e abriu a farmácia Ducasbline, onde vendia remédios que produziu a partir de seus estudos sobre a flora brasileira e conseguindo a custa a custa de pacientes investigações e meticulosas experiências o conhecimento perfeito das propriedades medicinais de muitas plantas, submeteu-as a processos científicos manipulando assim os medicamentos vendidos em seu estabelecimento parisiense. Segundo carta enviada por Ducasble à redação do jornal A Província – Órgão do Partido Liberal, em dezembro de 1900, seus medicamentos eram aconselhados pelo Instituto Médico de Paris e e estavam obtendo resultado maravilhosos em casos de anemia, bronquite e outras doenças (A Província – Órgão do Partido Liberal, 20 de dezembro de 1900, terceira coluna).

1890 – Foi publicada uma cobrança de impostos relativa ao imóvel que seu estabelecimento fotográfico ocupava na Rua Barão da Vitória, 65 (A Província – Órgão do Partido Liberal, 9 de abril de 1890, sexta coluna).

Na Galeria, Ducasble, exposição de pinturas de paisagens de Frederico Desidério de Barros, cenógrafo da Companhia Heller (Jornal de Recife, 6 de julho de 1890, última coluna). Cerca de 2 meses depois, exposição de pinturas de paisagens do hábil amador e acadêmico José de Castro Paes Barreto (Jornal de Recife, 16 de setembro de 1890, quarta coluna).

Madame Ducasble anunciou sua volta ao Brasil após uma temporada em Paris e a reabertura de seu ateliê de moda no Recife. Havia condescendência nos preços (Diário de Pernambuco, 21 de outubro de 1890, segunda coluna).

No ateliê da Photografia Ducasble, exposição de retratos a óleo dos barões de Itapessuna e de Caiará, realizados por Frederico Ramos a partir de pequenas fotografias (A Província – Órgão do Partido Liberal, 14 de novembro de 1890, segunda coluna).

Foi anunciada a existência de uma sucursal da Galeria Ducasble na avenida de La Grande Armée, em Paris, na França. Também anunciava a venda de antiguidades e de objetos que por afluência de artigos tinham deixado de ir para a Exposição Universal de Paris, no ano anterior (Jornal de Recife, 16 de novembro de 1890, terceira coluna).

1891 – Para exportação 30 litros de licor foram embarcados por Madame Ducasble no vapor francês Equateur, que iria para Paris (Diário de Pernambuco, 5 de maio de 1891, terceira coluna).

Publicação de uma denúncia de Ducasble, que estava em Paris, sobre problemas de pagamento com a Comissão de Pernambuco na Exposição Universal em Paris em 1889, do qual havia sido representante diante da Comissão Central de Paris (Jornal de Recife, 7 de maio de 1891, terceira coluna). Dois dias depois, a comissão publicou sua versão dos fatos (Jornal de Recife, 9 de maio de 1891, primeira coluna).

 

 

1892 – Ducasble presenteou o Diário de Pernambuco com uma fotografia do cadafalso ereto na matriz de Boa Vista por ocasião das exéquias em memória de dom Pedro de Alcântara (Diário de Pernambuco, 5 de fevereiro de 1892, primeira coluna).

Foi no ateliê de Ducasble, que o fotógrafo português naturalizado brasileiro Francisco du Bocage (1860 – 1919), recém chegado no Recife a bordo do vapor nacional Olinda, vindo do sul do Brasil (Diário de Pernambuco, 17 de fevereiro de 1892, na segunda coluna) expôs chapéus e capotas (Diário de Pernambuco, 24 de fevereiro de 1892, quarta coluna e Jornal do Recife, 24 de fevereiro de 1892, terceira coluna).

 

 

Publicação de uma propaganda da Galeria Ducasble onde foram destacados os prêmios conferidos a ela e o fato de ter sempre à escolha de seus numerosíssimo fregueses fotografias artísticas onde o belo resplandece ante os efeitos de luz bem combinada e verdadeiros modelos que a crítica mais exigente jamais poderá ferir (Jornal de Recife, 30 de agosto de 1892, quarta coluna).

A Photographia Ducasble registrou no Teatro Santa Isabel, o pano de anúncios pintado por Libânio do Amaral (? – 1920) para o referido teatro (Jornal de Recife, 28 de outubro de 1892, segunda coluna).

1893 – Falecimento de Urraca, esposa de Ducasble, de meningite. Foi enterrada no Cemitério Público de Santo Amaro e a missa de sétimo dia foi celebrada na matriz da Graça, no Recife (Diário de Pernambuco, 20 de junho de 1893, primeira colunaJornal de Recife, 21 de junho de 1893, sexta coluna; e Diário de Pernambuco, 22 de junho de 1893, penúltima coluna).

A antiga Photographia Ducasble passou a ser dirigida por um fotógrafo de grande prática dispondo para a execução de seus trabalhos de um pessoal técnico competentemente habilitado (Diário de Pernambuco, 3 de outubro de 1893, quinta colunaJornal de Recife, 4 de outubro de 1893). O fotógrafo em questão era Ludgero Jardim da Costa (18? – 19?) (Jornal de Recife, 8 de agosto de 1894, sexta coluna).

 

 

 

 

1894 – Representada pelos parentes presentes e ausentes, foi celebrada uma missa pelo primeiro ano da morte de Urraca Ducasble (Diário de Pernambuco, 17 de junho de 1894, terceira coluna).

1895 – Casamento civil de Alfredo Ducasble Filho com Maria Hermelinda Magalhães (Jornal de Recife, 18 de setembro de 1895, última coluna).

1898 –  Alfredo Ducasble foi aprovado como benfeitor da Sociedade Propagadora Instrução Pública (Diário de Pernambuco, 25 de janeiro de 1898, segunda coluna).

1900 - Alfredo Ducasble Filho era representante da fábrica O Moinho de Ouro, produtora de chocolates, no Rio de Janeiro (A Província – Órgão do Partido Liberal, 20 de abril de 1900, terceira coluna). Posteriomente, passou a ser representante de um laboratório farmacêutico francês e viajante geral do Almanack Laemmert (A Província – Órgão do Partido Liberal, 5 de março de 1901, penúltima coluna; e A Província – Órgão do Partido Liberal, 25 de agosto de 1910, penúltima coluna).

Realização de um leilão na antiga Photographia Ducasble (A Província – Órgão do Partido Liberal, 12 de dezembro de 1900, primeira coluna).

 

Alfredo Ducasble Filho era o representante no Brasil do grupo Pollaion-Ducasble, de produtos farmacêuticos, sediado em Paris (A Província – Órgão do Partido Liberal, 14 de março de 1901, penúltima coluna).

1902 – A leitura do livro de Ducasble, Curso de caligrafia prática, foi indicado aos alunos pela Instrução Pública de Pernambuco (Diário de Pernambuco, 17 de maio de 1902, quinta coluna). Em 1904 e em 1906 foi adotado pelas escolas municipais do Recife.

Faleceu de nefrite a alagoana Maria Victoria Soares, filha de Ducasble e viúva de Emilio Soares. No anúncio de morte, foi mencionado que seu pai residia em Paris (A Província – Órgão do Partido Liberal, 2 de setembro de 1902, primeira coluna e Diário de Pernambuco, 12 de setembro de 1902, sexta coluna).

1904 - No Rio de Janeiro, com pouco menos de 5 anos, falecimento de Adalgisa Ducasble, filha de Ducasble Filho e neta de Alfredo Ducasble (Jornal do Commercio, 9 de abril de 1904, última coluna).

Alfredo Ducasble Filho e sua família viviam no bairro do Encantado, no Rio de Janeiro. Acolheram uma criança que havia sido maltratada por sua mãe adotiva, mas apesar dos cuidados, ela faleceu (Gazeta de Notícias, 18 de maio de 1905, primeira coluna).

1910 – Na primeira página do jornal A Província – Órgão do Partido Liberal, foi publicada uma fotografia de melhoramentos no Porto de Recife com crédito para Ducasble Filho (A Província – Órgão do Partido Liberal, 30 de agosto de 1910)

1917 – Na Sociedade da Cruz Vermelha, no Rio de Janeiro, Maria Magalhães Ducasble, filha de Ducasble Filho, recebeu o diploma de enfermeira (A Época, 4 de maio de 1917).

1923 – Foi doado ao Instituto Arqueológico de Pernambuco uma coleção de cédulas e moedas que o governo do estado havia comprado de Alfredo Ducasble (Diário de Pernambuco, 6 de abril de 1923, segunda coluna).

1928 – Desquite de Ducasble Filho e Maria (O Paiz, 17 de novembro de 1928, segunda coluna).

1931 – Foi ofertada ao Instituto Arqueológico de Pernambuco uma fotografia produzida por Ducasble, em 1888, de Joaquim Nabuco.  A foto havia pertencido a Antônio Machado Gomes da Silva e seu neto, Adolfo da Silva Neto, a doou para a instituição(Diário de Pernambuco, 17 de dezembro de 1931, primeira coluna).

1933 – Em um artigo sobre o pintor alagoano Rosalvo Ribeiro (1865 – 1915), Ducasble foi citado como seu admirador, que teria batizado uma das obras de Rosalvo de L´innocence (O Dia (PR), 8 de outubro de 1933, terceira coluna).

1946 – Em uma matéria sobre a vida do pintor pernambucano José Jerônimo Telles Júnior (1851 – 1914), a Galeria Ducasble foi citada como um dos lugares mais frequentados por ele  (Diário de Pernambuco, 26 de maio de 1946, gunda coluna).

1951 – Nas memórias de Telles Júnior, na ocasião do centenário de seu nascimento, Ducasble foi citado (Diário de Pernambuco, 2 de agosto de 1951, penúltima coluna)

1956 – Fotografias produzidas por Ducasble foram publicadas no livro, Álbum de Pernambuco e seus arrabaldes, organizado por Gilberto Ferrez (Jornal do Brasil, 4 de novembro de 1956).

1977 – Em Washington, capital dos Estados Unidos, fotografias de Ducasble, Insley Pacheco e Alberto Henschel encontradas na coleção Oliveira Lima foram expostas no Instituto Cultural Brasileiro Americano. Essas fotografias foram redescobertas por acaso pelo diretor da citada instituição, José Neinstein, quando ele foi pesquisar um livro raro sobre o Brasil na Biblioteca da Universidade Católica de Washington, em fins de abril de 1977. (Jornal do Brasil, 29 de junho de 1977, última coluna).

1978 – Publicação, no Diário de Pernambuco, de uma fotografia de Joaquim Nabuco, produzida por Ducasble, em 1887 (Diário de Pernambuco, 17 de setembro de 1978).

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

BECHARA FILHO, Gabriel. Primórdios da fotografia na Paraíba. Correio das Artes – suplemento literário do jornal A União, João Pessoa, 27 de novembro de 1983.

CORNELI, René; MUSSELY, Pierre. Anvers à l´Exposition Universelle. Bruxelles: Typographie et Lithographie Ad Mertens, 1886, pág. 346.

Enciclopédia Itaú Cultural

Guia Geográfico Salvador Antiga

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

KOSSOY, Boris. Realidades e ficções na trama fotográfica. Cotia(SP) : Ateliê Editorial, 1999.

Revista do IPHAN, nº 26 – 1997

Site do Arquivo Nacional

TURAZZI, Maria Inez. Poses e trejeitos: a fotografia e as exposições na era do espetáculo: 1839/1889. Prefácio Pedro Karp Vasquez. Rio de Janeiro: Funarte. Rocco, 1995. 309 p., il. p&b. (Coleção Luz & Reflexão, 4). ISBN 85-85781-08-4.

VASQUEZ, Pedro Karp. A fotografia no Império. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002.

Dia Nacional do Imigrante Italiano

Para celebrar o Dia Nacional do Imigrante Italiano, a Brasiliana Fotográfica homenageia essa comunidade e seus descendentes destacando a obra de dois talentosos fotógrafos de origem italiana que atuaram no Brasil no século XIX e nas primeiras décadas do século XX: Camillo Vedani (18? – c. 1888) e Vincenzo Pastore (1865 – 1918) – eles já foram temas de publicações do portal. Pela importância que a comunidade italiana tem na história do Brasil, a lei nº 11.687, de 2 de junho de 2008 instituiu oficialmente o Dia Nacional do Imigrante Italiano no calendário de todo o território nacional. O dia 21 de fevereiro foi escolhido devido à expedição que Pietro Tabacchi fez ao Espírito Santo, em 1874, marco do início do processo da migração em massa dos italianos para o Brasil. Estima-se que atualmente aproximadamente 30 milhões de descendentes de italianos vivam em terras brasileiras.

Camillo Vedani foi o desenhista da comissão encarregada do estudo do traçado da ferrovia Madeira-Mamoré, em 1883. Identificava-se como “Photographo Paizagista” e era também professor de desenho e da língua italiana, tendo se estabelecido no Rio de Janeiro em torno de 1853. Produziu excelentes registros da cidade e também da Bahia, onde residiu entre 1860 e 1865. Na ocasião, trabalhou para a Bahia and São Francisco Railway.  Voltou para o Rio de Janeiro e morou durante um período em Campos.

 

 

Acessando o link para as fotografias de Camillo Vedani disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

A obra do bem sucedido imigrante italiano, o fotógrafo italiano Vincenzo Pastore, importante cronista visual de São Paulo da segunda metade do século XIX e do início do século XX, ficou, durante décadas, em uma caixa de charutos, sem negativos. O segredo de família chegou ao fim quando as fotografias foram herdadas por seu neto, o pianista e professor Flávio Varani, que as doou – 137 imagens – para o Instituto Moreira Salles, em 1997. Com sua câmara, Pastore capturava tipos e costumes de um cotidiano ainda pacato de São Paulo e com seu olhar sensível flagrava trabalhadores de rua. Ao retratar pessoas simples do povo, Pastore realizou, na época, um trabalho inédito na história da fotografia paulistana.

 

 

Acessando o link para as fotografias de Vincenzo Pastore disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

Para mais informações sobre Camillo Vedani e Vincenzo Pastore acessar as publicações:

O fotógrafo paisagista Camillo Vedani (18?, Itália – c. 1888, Brasil)

Vincenzo Pastore (Casamassima, Itália 5 de agosto de 1865 – São Paulo, Brasil 15 de janeiro de 1918)

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

 

A Galeria dos condenados por Lilia Schwarcz

Com um artigo da historiadora e antropóloga Lilia Moritz Schwarcz, a Brasiliana Fotográfica destaca A Galeria dos condenados, que pertence à Coleção Dona Theresa Christina e está guardada na Divisão de Manuscritos da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, uma das fundadoras do portal. A partir da década de 1870, por iniciativa de Luiz Vianna de Almeida Valle (1827 – 1877), médico e diretor da Casa de Correção da Corte, primeira penitenciária construída no Brasil, os presos da referida instituição passaram a ser fotografados. A partir dessa iniciativa começou a ser formada a Galeria dos condenados,  composta por dois álbuns. Existem dois volumes de cada álbum, um com capa sem decoração e outro com capa decorada com o brasão do Império no centro e com arabescos dourados nas bordas. Cada página traz uma fotografia acompanhada de informações sobre o condenado retratado: seu nome, seu número na Casa de Correção, os delitos dos quais foi acusado, penas e multas, além da data de entrada.  A fotografia era então uma técnica primordial e estratégica para a criminologia e em especial para a antropologia criminal italiana, que pretendia entender o crime a partir de “elementos externos”; os famosos estigmas raciais. 

 

A Galeria dos condenados

 Lilia Moritz Schwarcz*

 

Faz parte do acervo da coleção Dona Theresa Cristina, que hoje se encontra alocada na Divisão de Manuscritos da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, um documento de título no mínimo inusitado: Galeria dos condenados. Medindo cerca de 27 x 20 centímetros, ele inclui dois álbuns, cada qual com dois volumes, ligeiramente diversos: um com uma capa menos vistosa e o outro ricamente adornado por arabescos dourados nas suas bordas e um imponente brasão do Império bem ao centro, o qual confere ao material um ar de oficialidade.

Há também outras especificidades que denotam o cuidado com que a fonte foi produzida. Nos dois volumes mais simples, estão as fotos tiradas em “plano americano” (com os modelos retratados do quadril ou da cintura para cima), bem como imagens que não foram aprovadas por conta de “problemas técnicos”, como o aspecto tremido do modelo, a falta de luz, ou manchas que comprometem o produto final. Essas fotos devem ter passado por algum tipo de censura prévia, uma vez que foram eliminadas daqueles volumes com capas mais caprichadas.

Mas a grande originalidade dessa fonte se encontra no interior da obra. São 320 fotos de presos (sendo 318 homens para apenas duas mulheres) da Casa de Correção da Corte, que foram matriculados na instituição entre os anos de 1859 e 1875. A Galeria é composta por 324 fotos, mas 5 delas aparecem repetidas, uma vez que o condenado retornou duas vezes à Casa de Correção, mas foi utilizado o mesmo registro visual. Todas as fotos encontram-se recortadas em molduras ovais, devidamente coladas nas páginas e adornadas por arabescos feitos à mão. As várias páginas que compõem o álbum, também apresentam arabescos desenhados nas laterais, trazem uma única foto e um texto manuscrito com informações breves, como a data de entrada na instituição, o nome do condenado, seu número registro dentro da Casa, o crime cometido, bem como as penas e multas que lhes foram imputadas. Em alguns casos aparecem, igualmente, comutações de penas, indultos, a data de soltura ou até mesmo referências à morte do condenado.

Por mais que possamos descrever o conteúdo presente neste documento, toda a história que o circunda resta ainda bastante desconhecida. É sabido que d. Pedro II, quando de sua partida para o exílio, em 1889, dividiu toda a sua coleção entre instituições como o Museu Imperial , o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, e, justamente, a Biblioteca Nacional. Mas o motivo e o critério que fizeram com que o monarca entregasse esses álbuns para essa última instituição continua em aberto.

Acessando o link para as fotografias da Galeria de Condenados disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas. 

Vale lembrar que a Casa de Correção da Corte foi a primeira prisão brasileira idealizada com esse fim, e, ao que tudo indica, também a primeira a adquirir uma máquina e construir um laboratório para a produção de fotografias de identificação dos presos. O modelo vinha das penitenciárias europeias, que já usavam a técnica desde os tempos do daguerreótipo, como forma de obter registros mais precisos e objetivos, ademais quando comparadas àqueles obtidos pelos retratos-falados.

A fotografia já tinha se tornado, nesse contexto, uma técnica primordial e estratégica para a criminologia, e em especial para a antropologia criminal italiana, que pretendia entender o crime a partir de “elementos externos”; os famosos estigmas raciais. Até então só se anotavam “signaes” mais superficiais do apenado, o que levava, com grande frequência, a problemas de reconhecimento, tanto em casos de fuga, na prisão de “suspeitos” ou na recondução de convictos.

E talvez d. Pedro II se orgulhasse da nova técnica da fotografia que cada vez mais simbolizava a modernidade. Afinal, ele mesmo era um fotógrafo amador e um adepto da nova técnica. Sendo assim, um álbum como esse poderia representar uma prova cabal da “civilização do Império” e do alto grau de cientificidade que seu soberano imprimia ao “comportamento desviante” em sua jovem nação.

Mas existem outros mistérios em torno da Galeria dos condenados: durante muito tempo não se tinha ideia de quem seria o profissional da Casa responsável por esses serviços. Foi só a partir da descoberta de um relatório do diretor da instituição, datado de maio de 1872, que ficou claro como o técnico era, ele mesmo, um prisioneiro na divisão criminal. Portanto, não apenas um preso foi indicado para fotografar os demais, como seu próprio retrato deve também constar da Galeria. E é preciso concordar que não foi pequeno o empenho que ele teve para se familiarizar não só com uma grande quantidade de substâncias químicas sensíveis, como dominar uma técnica complexa. Excesso ou falta de luz podiam atrapalhar o resultado; o tempo de arranjo da pose, da luz e para a fixação ainda demoravam alguns minutos; sem esquecer a desconfiança que uma máquina como essa deveria causar, ainda mais se os “colegas” tivessem que se submeter a um aparelho, bastante utilizado naquela época, que atava o modelo a uma cadeira e imobilizava o seu pescoço para assim garantir o bom resultado do retrato.

No álbum não aparecem ilustrações acerca do cotidiano da Casa, muito menos das suas instalações. Já “os condenados” estão retratados a partir de alguns ângulos: por vezes surgem contrastados diante de um fundo escuro, por vezes o rosto é tomado de frente, por vezes o modelo vira o rosto para a esquerda, por vezes para a direita. Mas chama atenção a existência de um grande número de negros nesses álbuns, o que é de se esperar num país nesse contexto ainda dominado por uma maioria de escravizados que, não raro, se revoltava contra o sistema. Interessante pensar, pois, como, a despeito do plano americano impor uma espécie de padrão, não raro os modelos apresentam pequenas reações que correspondem a grandes agências diante das lentes. Há aqueles que viram de perfil para destacar suas escarificações e marcas de nação; há aqueles que se enrolam em panos da costa, com seus desenhos geométricos e geralmente bem coloridos, deixando escapar, pelos detalhes, a sua identidade. Alguns retratados também desafiam a “norma” e o aspecto policial que o documento carrega, como no caso de Benedicto Crioulo, condenado à pena de galé, que simplesmente cruza os braços e encara o fotógrafo.

A técnica com certeza seria nova para a maioria deles, senão para todos, mas o profissional devia despertar um sentimento de familiaridade. De toda maneira, tudo colabora para que essas fotos resultem paradoxais. Se o registro pedia seriedade, não é difícil vislumbrar aqueles que cuidam da aparência, e se não sorriem, acabam se impondo pela altivez que apresentam. Esse é o caso de Isabel Jacintha, uma das duas mulheres fotografadas, que lá está para cumprir “pena perpétua”. O que terá feito Jacintha? Matado seu senhor, a exemplo de centenas de escravizadas que com sua rebeldia diziam “não” a um regime de sevícias e humilhações na alcova escravista? Teria envenenado o feitor, como fizeram outras mulheres que conheciam os segredos das ervas e sabiam “amansar” seus capatazes? Não há como responder essas questões, e a frustração do historiador reside no fato do documento se calar e não dizer mais. Entretanto, é possível anotar seu porte elegante, o olhar digno e desafiador, a expressão altiva. Aí estão pequenos sinais, grandes detalhes, daqueles que viveram em regimes de privação e desafiaram o próprio sistema penitenciário feito para que ficassem invisíveis e perdidos no seu silêncio.

A Galeria dos condenados traz em seu nome o arbítrio e o mal-estar que carrega. Mal-estar diante da escravidão, esse sistema que supõe a posse de uma pessoa por outra, e cuja liberdade por vezes, e por mais estranho que pareça, se consegue a partir de um ato, um pequeno movimento ou um gesto no intervalo imprevisto entre a pose exigida e o clique da fotografia.

PS: O historiador Manolo Florentino generosamente disponibilizou um CD com as fotos constantes do álbum. Sandra Sofia Machado Koutsoukos realizou uma pesquisa alentada sobre o material. Destaco seu livro Negros no estúdio do fotógrafo. Campinas, Unicamp, 2010.

 

*Lilia Moritz Schwarcz é antropóloga e historiadora. É autora, entre outros livros, de O espetáculo das raças (1993), As barbas do imperador (1998), O sol do Brasil (2008), Brasil: Uma biografia (com Heloisa Murgel Starling, 2015 ), Lima Barreto: Triste visionário (2017) e organizadora de Dicionário da Escravidão e Liberdade (com Flavio dos Santos Gomes, 2018).

 

 

O médico Luiz Vianna de Almeida Valle (1827 – 1877), diretor da Casa de Correção da Corte de 1868 a 1877 e introdutor da prática de fotografar os presos 

Andrea C.T. Wanderley**

 

Consta nos Relatórios Ministeriais, de março de 1871 (Biblioteca Nacional), referentes ao ano de 1870, que Luiz Vianna de Almeida Valle enviou ao Ministro da Justiça um relatório no qual valorizava sua iniciativa de compra da máquina fotográfica:

” Photographia. Estabeleci na Casa uma machina de photographar, que acha-se já funcionando. V. Ex. compreende perfeitamente as vantagens desta instituição n’uma Penitenciaria qualquer, e que devem ser maiores na da Côrte, onde não existem unicamente condemnados á prisão cellular, mas também a galés e prisão simples”.

 

Notas sobre Luiz Vianna de Almeida Valle na imprensa

Luiz Vianna de Almeida Valle foi acusado de, como subdelegado de polícia, coagir votantes (Diário do Rio de Janeiro, 20 de dezembro de 1860, última coluna).

Pediu como remuneração de seus serviços durante a epidemia de cólera a comenda da Ordem de Cristo ou o oficialato da Ordem da Rosa (Ministério do Império, julho de 1861).

Almeida Valle e o advogado Antônio Ferreira Vianna ofereceram seus serviços aos pobres da Freguesia de Sant´Anna (Arquivo Municipal, 11 de julho de 1861).

Em 1862, era o subdelegado de polícia do 1º distrito da freguesia de Sant´Anna (A Formiga, 19 de julho de 1862, terceira coluna), cargo do qual foi exonerado no ano seguinte (A Actualidade, 22 de junho de 1863, primeira coluna).

Foi nomeado tenente cirurgião do primeiro batalhão de reserva da Guarda Nacional do município da corte (O Constitucional, 26 de março de 1864, terceira coluna).

Tornou-se o diretor da Casa de Correção da Corte substituindo o major Daniel José Thompson (Correio Paulistano, 18 de junho de 1868, segunda coluna). A Casa de Correção do Rio de Janeiro, também chamada Casa de Correção da Corte, teve seu primeiro regulamento aprovado em 6 de julho de 1850 pelo decreto n. 678. Tinha o objetivo de ser uma prisão modelo do Império, onde se executaria a pena de prisão com trabalho, sendo considerada uma das “obras mais úteis e necessárias ao País pela influência do sistema penitenciário sobre os hábitos e a moral dos presos”.

Almeida Valle  foi recebido por d. Pedro II (Correio Mercantil, 13 de julho de 1868, quarta coluna).

Era o secretário de uma comissão presidida pelo Conde da Estrella que tinha a finalidade de celebrar o fim da Guerra do Paraguai e a chegada do Conde d´Eu (1842 – 1922) à corte (Diário do Rio de Janeiro, 7 de abril de 1870).

Era um dos conselheiros da Sociedade Propagadora das Belas-Artes (Diário do Rio de Janeiro, 3 de fevereiro de 1871, quinta coluna).

Em 28 de janeiro de 1871, Almeida Valle foi promovido a oficial da Ordem da Rosa (Diário de São Paulo, 8 de fevereiro de 1871, primeira coluna).

Era um dos fundadores da Associação de Socorros à Invalidez (Diário do Rio de Janeiro, 1º de fevereiro de 1875, última coluna).

Almeida Valle escreveu uma carta ao Diário do Rio de Janeiro explicando as razões da fuga de dois presidiários e elogiando a atuação dos ministros (Diário do Rio de Janeiro, 17 de janeiro de 1876, segunda coluna).

Em 1876, Almeida Valle integrava com José Vieira Couto de Magalhães (1837 -1898) e o brigadeiro Francisco Antônio Raposo (1817 – 1880) uma comissão para a organização de penitenciárias agrícolas, presídios militares e núcleos coloniais (Diário de São Paulo, 28 de setembro de 1876, última coluna).

Foi condecorado com a comenda da Ordem de Nossa Senhora da Conceição (Diário do Rio de Janeiro, 11 de dezembro de 1876, quinta coluna).

No relatório da Comissão das Prisões, Almeida Valle foi elogiado pelo tratamento que dava aos infelizes confiados à sua direção (Diário do Rio de Janeiro, 27 de janeiro de 1877, segunda coluna).

Por estar doente foi afastado da direção do presídio e Bellarmino Braziliense o substituiu. Almeida Valle faleceu em março de 1877 (Diário do Rio de Janeiro, 1º de fevereiro de 1877, sexta coluna e Jornal do Commercio, 16 de abril de 1877, última coluna).

 

**Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

BELARMINO, Gonçalo. A Galeria dos condenados e a institucionalização da memória na Casa de Correção da Corte (1859-1876) – Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Memória Social como requisito Parcial para Obtenção do grau de Mestre em Memória Social do Centro de Ciências Humanas da UNIRIO.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOUTSOUKOS, Sandra. No estúdio do fotógrafo.’Representação e auto-representação de negros livres, forros e escravos no Brasil da segunda metade do século XIX. Volume I  – Tese de Doutorado apresentada na pós-graduação em Multimeios, do Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas, para a obtenção do título de Doutor em Multimeios

Site da Câmara dos Deputados

Site do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro

Site do Arquivo Nacional

Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas: centenário da construção da pesquisa clínica em Manguinhos

A Brasiliana Fotográfica publica o terceiro e último artigo da trilogia em comemoração ao centenário do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, com um texto de autoria de Dilene Raimundo do Nascimento, pesquisadora do Departamento de Pesquisa da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, instituição parceira do portal. Da construção de um centro de ciência na Fazenda de Manguinhos – o Castelo Mourisco – surgiu a ideia de um hospital dedicado aos experimentos, resultantes das expedições científicas realizadas pelos cientistas do Instituto Soroterápico Federal, denominado de Instituto Oswaldo Cruz, em 1908. O novo hospital estaria de acordo com os princípios da moderna higiene, com inspiração no Hospital Pasteur de Paris e a assistência ambulatorial, as internações e os cuidados médicos estariam atrelados a finalidades científicas. O projeto inicial foi assinado pelo arquiteto Luiz de Moraes Júnior, também responsável pela construção do Pavilhão Mourisco. O processo de construção foi registrado pelo fotógrafo J. Pinto. Ao longo de sua história, o Hospital de Manguinhos foi denominado Hospital de Doenças Tropicais, Hospital Oswaldo Cruz, Hospital Evandro Chagas, Centro de Pesquisa Clínica Hospital Evandro Chagas, Instituto de Pesquisa Clínica Evandro Chagas (IPEC) e, desde 2010, Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas.

Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas: centenário da construção da pesquisa clínica em Manguinhos

Dilene Raimundo do Nascimento*

 

A ideologia do progresso e da civilização, vigente no início do século XX, no Brasil (Benchimol,1990), fez de Oswaldo Cruz, como diretor geral da Saúde Pública, nomeado em 1903, o responsável por erradicar as epidemias que ocorriam na cidade do Rio de Janeiro – febre amarela, varíola e peste – sobre as quais Rodrigues Alves, eleito presidente da República em 1902, disse no Manifesto à Nação: “Aos interesses da imigração, dos quais depende em máxima parte o nosso desenvolvimento econômico, prende-se a necessidade do saneamento desta capital (…)” (1) .

A campanha de saneamento da capital do país empreendida por Oswaldo Cruz foi exitosa e ele pode capitalizar seu prestígio para o Instituto Soroterápico Federal, do qual era também diretor. Da construção de um centro de ciência na Fazenda de Manguinhos – o Castelo Mourisco – surgiu a ideia de um hospital dedicado aos experimentos, resultantes das expedições científicas realizadas pelos cientistas do Instituto Soroterápico Federal, denominado de Instituto Oswaldo Cruz, em 1908.

Acessando o link para as fotografias relativas ao centenário da construção da pesquisa clínica em Manguinhos disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Essas expedições adentravam o país para colaborar com empreendimentos ferroviários e hidrelétricos, além de obras de infraestrutura, que compunham o cenário de progresso e civilização, realizados tanto por empresas privadas quanto públicas, no sentido de debelar as doenças que acometiam os trabalhadores desses empreendimentos (Benchimol, 1990).

Os cientistas de Manguinhos se deparavam com uma diversidade de doenças, algumas já identificadas e outras totalmente desconhecidas. Foi em uma dessas expedições, realizada em Minas Gerais com o objetivo de combater a malária para facilitar a construção da Estrada de Ferro Central do Brasil até Pirapora/MG, que Carlos Chagas (1878 – 1934) descobriu, em Lassance, a nova tripanossomíase, que ficou conhecida como doença de Chagas.

 

 

 

Os anseios de Oswaldo Cruz de ter um hospital moderno e equipado para estudos clínicos e epidemiológicos dos doentes tomou mais corpo com o desenrolar das pesquisas da doença de Chagas. Sua repercussão possibilitou a obtenção de recursos, em 1912, para equipar um pequeno hospital em Lassance, para continuidade das pesquisas in loco, e para construir um hospital em Manguinhos (Decreto 9.346, de 24 de janeiro de 1912).

 

 

O plano de prover a cidade de um novo hospital de acordo com os princípios da moderna higiene, com inspiração no Hospital Pasteur de Paris, possibilitaria o isolamento individual dos doentes. A assistência ambulatorial, as internações e os cuidados médicos estariam atrelados a finalidades científicas, diferindo, dessa maneira, do modelo de hospitais voltados para a assistência em geral às populações urbanas. Ambicioso, o projeto inicial foi assinado pelo arquiteto Luiz de Moraes Júnior, também responsável pela construção do Pavilhão Mourisco, e previa a construção de seis pavilhões, dos quais só um se concretizou 3 (Cotrim, 2004). As obras foram iniciadas tão logo a verba foi liberada e concluídas em 1918, ano de sua inauguração. Oswaldo Cruz, falecido em 1917, não chegou a ver o hospital concluído. O processo de construção foi registrado pelo fotógrafo J. Pinto, desde a organização do canteiro de obras até a montagem da estrutura primária do edifício, de ferro forjado e em forma de gaiola.

 

 

 

 

Carlos Chagas, que se tornou diretor do Instituto Oswaldo Cruz, com a morte deste, tinha total envolvimento com o Hospital de Manguinhos, porque ali ele acompanhava os seus casos de Doença de Chagas, doentes trazidos do interior.

 

 

Ainda estudante, seu filho Evandro Chagas foi trabalhar no hospital, juntamente com outros pesquisadores como Eurico Vilela, primeiro diretor do hospital de Manguinhos, Lobato Paraense, Nery Guimarães, Emanuel Dias, dentre outros. Evandro Chagas desempenhou toda a sua prática profissional no Hospital de Manguinhos, desenvolvendo a partir dele suas incursões ao interior do Brasil para pesquisar, principalmente, casos de leishmaniose visceral americana. Nessas expedições, deparou-se com as várias endemias existentes no país, que o motivaram a criar o Serviço de
Estudos de Grandes Endemias (SEGE), no âmbito do Instituto Oswaldo Cruz, em 1937.

Sua ideia de expandir institucionalmente os estudos realizados no Hospital de Manguinhos já o havia levado a negociar com o governador do estado do Pará a criar no ano anterior o Instituto de Patologia Experimental do Norte (IPEN). O governador criou o instituto com a condição de ele se dedicar não somente ao calazar, mas também a outras doenças tropicais importantes daquela região, como a malária, a leishmaniose tegumentar, a amebíase, as parasitoses intestinais etc. Mas era natural que o calazar tivesse sido a primeira doença estudada pelo instituto. E foi com o calazar que o Evandro Chagas começou a trabalhar com a sua equipe, da qual faziam parte os irmãos Deane. A primeira viagem foi feita em dezembro de 1936. Leônidas Deane relata, em entrevista concedida à revista História, Ciência e Saúde – Manguinhos:

 “foi nosso primeiro contato com a selva (…), nós que nunca tínhamos saído de Belém, sempre citadinos. E tivemos uma experiência bem especial, porque todos os ruídos — ruídos dos sapos, dos grilos etc. — para nós eram como se fossem feras (…).”
“[Evandro] era um sujeito muito corajoso. Realmente ele dava o exemplo para tudo, porque era um homem muito arrojado, audacioso, inclusive. Fazia questão de mostrar que não tinha medo de coisa nenhuma. Como eu disse, ele ia para essas viagens de bermudas, botas e o chapéu colonial. E naturalmente os outros apetrechos, como a máquina fotográfica e o microscópio de campo, que ele usava a tiracolo também”(2).

Foi em Piratuba que encontraram os primeiros casos de calazar, vivos, da região amazônica. Examinavam as pessoas, pesquisando baço grande; se encontrasse faziam punção para procurar leishmânia. Evandro Chagas voltou a essa cidade várias vezes para dar continuidade à sua pesquisa de leishmânia e discutir e orientar a sua equipe do Pará.

 

 

A morte precoce e repentina de Evandro Chagas, em um acidente aéreo na Baía de Guanabara, aos trinta e cinco anos de idade, em 08 de novembro de 1940, interrompeu suas pesquisas em andamento e deixou sua equipe impactada. Para interromper um clima de instabilidade que se estabeleceu após a morte de Evandro Chagas, o então ministro da Educação e Saúde, Gustavo Capanema, nomeou Carlos Chagas Filho diretor do hospital e chefe do Serviço de Estudos de Grandes Endemias, que aí permaneceu por três anos. Apesar das dificuldades decorrentes da morte repentina de Evandro Chagas, o hospital permaneceu pelas mãos e esforços de seus pesquisadores, médicos e funcionários empenhados em realizar pesquisas clínicas a respeito de doenças infecciosas e parasitárias, em que se destacam a doença de Chagas, a leishmaniose, a malária, a toxoplasmose e a esquistossomose. Em 1942, em homenagem póstuma, o hospital foi nomeado Evandro Chagas, nome que carrega até hoje.

 

 

Ao longo de sua história, o Hospital de Manguinhos foi denominado Hospital de Doenças Tropicais, Hospital Oswaldo Cruz, Hospital Evandro Chagas, Centro de Pesquisa Clínica Hospital Evandro Chagas, Instituto de Pesquisa Clínica Evandro Chagas (IPEC) e, desde 2010, Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas.

Em sua história constam fases de decadência, principalmente, no período da Ditadura Militar, instaurada com o golpe de 1964 e que perdurou por vinte e um anos, e fase de ascensão, com o processo de redemocratização no país.

Nessa ocasião, surgiram os primeiros casos de aids no Brasil, doença infecciosa grave e, na época, fatal, com uma tendência de crescimento. A questão central na defesa da permanência do Hospital Evandro Chagas na Fiocruz foi exatamente a sua vocação no âmbito das doenças infecciosas. O contexto epidêmico da aids contribuiu para impulsionar a reestruturação do
hospital.

Esta teve entre seus princípios a pesquisa clínica ampliada, que não se restringe aos médicos infectologistas, mas se expande a outras especialidades para alargar e aprofundar o conhecimento sobre o doente e sobre a doença, como a enfermagem, serviço social, nutrição, farmácia e psicologia. De acordo com essa concepção, era importante compreender as relações de adoecimento do paciente e o contexto que ele traz para o hospital. A empreitada foi liderada pela Dra. Keyla Marzochi, uma das principais entusiastas da pesquisa clínica ampliada, que elaborou o projeto de reestruturação apresentado e aceito pela presidência da Fiocruz.

Denominado Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI) desde o VI Congresso Interno da Fiocruz, realizado em 2010, o INI hoje se caracteriza pela excelência na pesquisa clínica, na assistência, no ensino e na gestão voltados tanto para a saúde humana como para a saúde animal, a partir dos estudos de zoonoses, além de ser referência no campo das doenças infecciosas. A pesquisa clínica desenvolvida no INI, desde sua reestruturação, como diz sua atual diretora, Valdiléa Veloso, é uma construção coletiva que congrega vários saberes dos diferentes profissionais que trabalham na unidade, com inclusão dos usuários, visando à melhoria da saúde da população.

Ao completar os seus 100 anos, no ano de 2018, a luta pela saúde pública implica para o INI a prática da pesquisa clínica ampliada, a assistência − em especial aos grupos vulneráveis −, o ensino para formar e capacitar novos profissionais na área, uma gestão participativa e parcerias com movimentos sociais e instituições nacionais e internacionais nessas áreas de atividade, e, a partir disso, dá sua inestimável contribuição para o desenvolvimento do SUS – Sistema Único de Saúde.

 

(1) Manifesto Inaugural de Francisco de Paula Rodrigues Alves, presidente eleito para o quadriênio de1902 a 1906. 15 de novembro de 1902. Rio de Janeiro, 1902, p. 11.

(2) História, Ciência e Saúde – Manguinhos. Vol.1, nº1, jul/out., 1994. Seção Depoimento.

 

*Dilene Raimundo do Nascimento é pesquisadora do Departamento de Pesquisa da Casa de Oswaldo Cruz

 

Outros textos sobre o centenário do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas publicados na Brasiliana Fotográfica:

Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas: 100 anos de pesquisa clínica, por Cristiane d´Avila, em 26/10/2018

Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas 100 anos: Carlos e Evandro Chagas em retratos de família, por Aline Lopes de Lacerda, em 27/11/2018

O fotógrafo açoriano Christiano Junior (1832 – 1902) e sua importante atuação no Brasil e na Argentina

O fotógrafo açoriano José Christiano de Freitas Henriques Júnior nasceu na Ilha das Flores, em 1832. Foi um dos maiores e mais versáteis fotógrafos dos oitocentos, além de empresário atuante em diversos ramos. Chegou ao Brasil, em 1855, com sua esposa, Maria Jacinta Fraga, e com os dois filhos do casal: os futuros fotógrafos José Virgílio e Frederico Augusto. Na década de 1860, quando a fotografia se popularizou no país e passou a ser comercializada em ateliês, Christiano dedicou-se aos retratos de estúdio e tornou-se famoso por seus registros de tipos negros, tendo realizado imagens exclusivamente de escravizados, vendidas, em geral, no formato de cartes de visite. Eram geralmente vendidas para estrangeiros que voltavam à Europa.

Christiano Junior trouxe os escravizados para dentro do estúdio e em seus registros há closes e retratos deles em uma situação de simulação de suas atividades profissionais mostrando, sobretudo, carregadores e os chamados negros de ganho, que trabalhavam como vendedores nas ruas da cidade e entregavam o lucro para seus proprietários. Os escravizados eram identificados como tipos negros e eram fotografados normalmente de frente ou de perfil e enquadrados no centro, deixando bem evidentes suas características físicas, suas vestimentas e instrumentos de trabalho. Às vêzes, Christiano os retratava diante de fundos pintados com paisagens europeias.

Também produziu no Brasil e na Argentina uma significativa produção de retratos de tipos locais. Também foi o autor de uma série de fotografias médicas.

 

 

A primeira notícia que se tem até hoje do início da atuação de Christiano Junior na fotografia no Brasil é de 1862, quando anunciou, em Maceió, Alagoas, seus retratos fotográficos sobre vidro, papel, pano e encerado. No mesmo ano, chegou ao Rio de Janeiro e em anúncio ofereceu seus serviços de fotógrafo.

Dois anos depois, era um dos proprietários da Photographia do Commercio, na rua São Pedro, 69 e seu sócio era Fernando Antônio de Miranda. Mudou-se sozinho para a rua da Quitanda, 45, em 1865. A partir do dia 1º de dezembro de 1866, seu amigo Bernardo José Pacheco tornou-se seu sócio em seu estabelecimento fotográfico, que passaria a funcionar com a razão Christiano Junior & Pacheco.

Em 1867, abriu um ateliê fotográfico, em Mercedes, no Uruguai e, no mesmo ano, em 1º de dezembro, inaugurou em Buenos Aires, um bem sucedido estúdio de fotografia, na rua Florida, nº 159. Na Argentina, celebrizou-se por fotografar tipos locais e paisagens, tendo realizado uma significativa produção de retratos. É considerado um dos mais importantes fotógrafos que atuaram na Argentina durante o século XIX. Em 1878, vendeu seu estúdio em Buenos Aires para Witcomb & Mackern, tendo deixado no arquivo do ateliê um acervo de mais de 170 vistas. Entre 1879 e 1883, viajou pelo interior da Argentina, fotografando várias províncias do país.

Em 1883, Christiano Junior desvinculou-se de seu último ateliê, em Corrientes. Abandonou temporariamente a fotografia, dedicando-se à produção e comércio de vinhos e licores, os quais vendia ao Brasil, à Argentina e ao Paraguai.

 

Faleceu em 19 de novembro, em Assunção, no Paraguai, e seu necrológio foi publicado na revista argentina Caras Y Caretas de 13 de dezembro de 1902, na página 28.

 

Em Assunção do Paraguai, onde vivia retirado há muitos anos pintando fotografias, faleceu na semana passada o velho fotógrafo don Christiano Junior, cuja arte para retratar a antiga família portenha era famosa em seu tempo. Junior foi o antecessor de Witcomb e diante de sua objetiva desfilaram as mais conhecidas damas e cavalheiros daquela época. Morreu pobre, privado quase por completo de sua visão, e deixa uma lembrança agradável em todos os que conheceram.’

Acessando o link para as fotografias de Christiano Júnior disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Grande parte da obra de Christiano Junior está sob a guarda da Biblioteca Nacional, do Museu Histórico Nacional, do Arquivo Nacional, do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e do Instituto Moreira Salles.

 

  Cronologia de Christiano Júnior 

Retrato de Christiano Junior, c. 1895

1832 – O português José Christiano de Freitas Henriques Junior nasceu na Ilha das Flores, no Arquipélago dos Açores, em 21 de julho de 1832.

1855 - Chegou ao Brasil com sua esposa, Maria Jacinta Fraga, e com os dois filhos do casal: os futuros fotógrafos José Virgílio (1851 -?) e Frederico Augusto (1853-?).

1862 – Christiano Junior anunciava, em Maceió, em Alagoas, seus retratos fotográficos sobre vidro, papel, pano e encerado.

Chegou no Rio de Janeiro e em anúncio ofereceu seus serviços de fotógrafo. Seus trabalhos estariam expostos na casa do sr. Bernasconi e chamados escritos deveriam ser enviados para o Hotel Brysson, na rua d´Ajuda, 57 B. Também aceitava pedidos de quadros e cestas de flores e frutas de cera, imitando perfeitamente o natural (Correio Mercantil, e Instrutivo, Político, Universal, 2 de dezembro de 1862, quinta coluna).

1864 - Era um dos proprietários da Photographia do Commercio, na rua São Pedro, 69. Seu sócio era Fernando Antônio de Miranda (Jornal do Commercio, 17 de julho de 1864).

 

1865 - O endereço do estabelecimento fotográfico de Christiano e Miranda mudou para rua da Quitanda, 53 (Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1865).

Christiano mudou-se sozinho para a rua da Quitanda, 45. Anunciou que em seu estabelecimento, a Photographia e Pintura, fazia cartões de visita, ambrótipos, cenótipos, fotografias coloridas a óleo, aquarela ou pastel, além de retratos para broches e medalhas. Também anunciou a venda de coleções dos costumes dos pretos nessa corte e no interior da província, em cartões para álbuns, coisa muito própria para quem se retira para a Europa  (Jornal do Commercio, 2 de abril de 1865 e Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1866).

Exposição na Casa Bernasconi de quatro molduras contendo 48 fotografias de autoria de Christiano. Delas 12 costumes de pretos de ganho, vendilhões e outras 12 representam tipos de diferentes nações da raça africana. Essas 24 imagens foram oferecidas a d. Pedro II (1825 – 1891). As outras 24 foram enviadas à eExposição Internacional do Porto e oferecidas a d. Fernando, rei de Portugal (Correio Mercantil, 22 de julho de 1865, penúltima coluna).

Participou da Exposição Internacional do Porto e suas obras, assim como as do fotógrafo Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912), foram expostas na seção de Belas-Artes (Jornal do Commercio, de 1865, terceira coluna).

Christiano Jr, identificado como fotógrafo bastante conhecido pelos excelentes trabalhos executados em sua oficina, doou 400 fotografias do falecido cônsul de Portugal, Antonio Emilio Machado Reis, para ajudar à família do diplomata. Houve uma exposição das fotos na sociedade Madrepora, instituída por Machado Reis (Correio Mercantil, 1º de novembro de 1865, terceira coluna).

1866 - Publicação de anúncio da Galeria Photographica e de Pintura na seção de “Notabilidades” do Almanaque Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro. Christiano Junior anunciava que havia reaberto seu estabelecimento fotográfico após uma reforma e oferecia timbres-postes, fotografias em diversas dimensões – até a natural -, podendo ser coloridas por várias técnicas, retratos em cenótipos, fotografias de homens célebres, além de uma variada coleção de costumes e tipos de pretos, coisa muito própria para quem se retira para a Europa.

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Estabelecido na rua da Quitanda, 45, Christiano fez uma exibição de retratos para cartas, uma nova e interessante aplicação da fotografia, realizada a partir de um instrumento que em 15 segundos dá 12 e 24 retratos, pequenos, mas nem por isso menos parecidos. Os retratos seriam usados para marcar o papel de carta, o que anteriormente era feito com a iniciais do remetente (Diário de São Paulo, 4 de fevereiro de 1866, segunda coluna).

 

No verso de uma de suas cartas de visita oferecia retratos em lenço, costumes e tipos de índios, cópias de gravuras de Morgado de Mateus reproduzidas de uma rara edição de Os Lusíadas, retratos em porcelana, e em marfim, retratos em vidro para ver por transparências, vistas para estereoscópios, retratos de homens célebres, monarcas, guerreiros, literatos, etc.

Participou da II Exposição Nacional e o que apresentou foi saudado como excelentes retratos e perfeitíssimas reproduções de uma dúzia de gravuras. Conquistou a medalha de bronze (Semana Ilustrada, 18 de novembro de 1866, segunda coluna e Diário do Rio de Janeiro, 1º de fevereiro de 1867, última coluna).

Sobre ele, o pintor Victor Meirelles (1832 – 1903), que assinou em nome do júri do quarto grupo – onde se incluía a fotografia – comentou no Relatório da II Exposição Nacional do Rio de Janeiro:

‘Os trabalhos deste senhor não são menos dignos de atenção por algumas boas qualidades que contêm. As reproduções das gravuras da obra ilustrada: Os Lusíadas, de Camões, publicada em 1817, por D. José Maria de Souza Botelho – Morgado de Mateus, etc, etc, são bem copiadas, e não podemos deixar de louvar tão feliz lembrança, bem como o serviço que presta aos artistas e amadores das belas artes pela propagação dessas belas composições artísticas devidas ao lápis dos célebre pintores Gerard e  Fragonard.      

Christiano Junior participou que, a partir do dia 1º de dezembro de 1866, seu amigo Bernardo José Pacheco passaria a ser seu sócio em seu estabelecimento fotográfico, na rua da Quitanda, 45, que passaria a funcionar com a razão Christiano Junior & Pacheco (Jornal do Commercio, 3 de dezembro de 1866, quarta coluna e Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1867).

 

 

 

Em torno desse ano, realizou uma série de fotografias médicas.

 

1867 – Christiano Junior estava em Desterro, atual Florianópolis, e abriu um ateliê fotografico na rua Augusta, 26. Anunciou sua pretensão de fazer algumas vistas da cidade e também de vistas para estereoscopos, além de informar que pretendia ficar apenas por um mês na cidade porque estaria de passagem para o rio da Prata (O Despertador, 1º de fevereiro de 1867O Mercantil, 28 de fevereiro de 1867).

 

 

 

 

Abriu um ateliê fotográfico, em Mercedes, no Uruguai.

Christiano Junior começou a tentar expandir suas atividades na Argentina. Em 1º de dezembro, em Buenos Aires, inaugurou um bem sucedido estúdio de fotografia, na rua Florida, nº 159. Iniciou uma significativa produção de retratos e, segundo os pesquisadores argentinos Abel Alexander e Luis Priano, que examinaram os álbuns relativos ao seu trabalho que estão depositados no Archivo General de la Nación, estima-se que foram produzidos por ele mais de 4 mil retratos entre 1873 e 1875.

No censo de 1869 de Buenos Aires, constavam os nomes de Christiano e de seus dois filhos. O de sua esposa não, o que indica que provavelmente estavam separados ou ele tinha enviuvado.

1870 - Em um anúncio, Christiano Junior & Pacheco avisavam que à vista dos mesquinhos preços a que alguns de nossos colegas têm reduzido a fotografia, vemo-nos também obrigados a baixar nossos preços. Informava ainda que Christiano Junior havia trazido de sua casa, em Buenos Aires, um novo sistema, a imitação porcelana, por ele introduzida lá e aqui (Jornal da Tarde, 18 de agosto de 1870).

 

 

Em francês, anúncio da venda de um produto de combate à umidade na Maison Christiano Junior & Cia. O produto teria sido descoberto por um associado de Christiano em Paris, o pintor químico M. Regnault. A propaganda foi publicada outras vezes (Ba-Ta-clan, 27 de agosto de 1870).

Christiano Junior & Pacheco anunciavam uma novidade fotográfica, a imitação da porcelana – unicamente se fazem na rua da Quitanda, 45 (Jornal do Commercio, 28 de agosto de 1870, terceira coluna).

Christiano Junior montou um estúdio fotográfico voltado ao público infantil, a Fotografia de la Infancia, na rua de Las Artes, n. 118, em Buenos Aires.

Em torno desse ano, fotografou o Conde d´Eu(1842 – 1922), marido da princesa Isabel (1846 – 1921).

 

 

1871 – Recebeu a medalha de ouro na primeira Exposição Nacional da Argentina, na cidade de Córdoba, com a série de fotos Vistas y costumbres de la Republica Argentina. 

1873 - Publicação de um anúncio da Photographia de Christiano Junior & Pacheco no Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1873 .

 

 

1874 – Christiano Junior & Pacheco eram réus em uma ação movida por Olímpio Militão Vieira na Primeira Vara Cível (Diário do Rio de Janeiro, 10 de dezembro de 1874, primeira coluna).

1875 – O estabelecimento fotográfico de Christiano Junior & Pacheco foi anunciado pela última vez no Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1875, no endereço rua da Quitanda, 39 a 41.

Seu ateliê fotográfico voltado ao público infantil, a Fotografia de La Infância, era, segundo anúncio publicado no jornal La Prensa de 04 de fevereiro de 1875, possuidor de máquinas instantâneas que permitem tirar retratos de criaturas inquietas e travessas. O ateliê foi destruído por um incêndio em março de 1875, e foi reaberto pouco depois, à rua Victoria 296, agora gerenciado por seu filho José Virgílio, que havia sido seu ajudante.

Manoel Garcia Vidal, ex-sócio de Christiano Junior & Pacheco, anunciou a abertura de um estabelecimento fotográfico na rua Sete de Setembro, 76, esquina com Gonçalves Dias (Jornal do Commercio, 17 de março de 1875, sexta coluna).

Um incêndio destruiu o prédio número 41 da rua da Quitanda, de propriedade da Santa Casa de Misericórdia. No segundo andar ficava o estabelecimento Christiano Junior & Pacheco (Jornal de Recife, 29 de março de 1875, segunda coluna). Eles passaram a atender no ateliê do renomado fotógrafo português José Ferreira Guimarães (1841 – 1924), na rua do Ourives, 38 (Jornal do Commercio, 21 de março de 1875).

A Photographia de Pacheco, Menezes e Irmão era anunciada como sucessora de Christiano Junior & Pacheco, na rua da Quitanda, 39 (Gazeta de Notícias, 10 de agosto de 1875, terceira coluna).

 

 

Christiano tornou-se fotógrafo oficial da Sociedade Rural Argentina e realizou sua primeira exposição pela entidade, da qual se desligaria em 1878.

1876 – Lançou o primeiro volume da coleção intitulada Album de Vistas e Costumes de La Republica Argentina, que trazia 16 imagens de Buenos Aires acompanhadas por textos explicativos em quatro idiomas. Primeiro trabalho com essas características produzido na Argentina, o material foi, em parte, formado pelo aproveitamento de vistas anteriormente colocadas à venda em seu ateliê. Christiano Júnior nesse trabalho mesclou imagens da Argentina colonial e pastoril com as de uma nova nação, representada sobretudo pelas novas construções.

Para introduzir o álbum afirmou: ‘Meu plano é vasto e quando estiver completo a República Argentina não haverá nem pedra nem árvore histórica, do Atlântico até os Andes, que não tenha sido submetido ao foco vivificador da câmara escura.’

 

 

Ganhou a medalha de ouro na segunda exposição anual da Sociedade Científica Argentina.

Participou da Exposição Universal da Filadélfia de 1876.

1877 - Foi lançado o segundo volume de seu trabalho, contando com doze retratos de tipos populares urbanos e com vistas de construções modernas e históricas.

Produziu uma série que retratava a nova penitenciária de Buenos Aires, trabalho que foi vendido de forma avulsa e em álbum encadernado.

No catálogo da primeira exposição do Club Industrial de Buenos Aires, em 1877, na qual participou, Christiano Junior escreveu acerca de suas fotos médicas, realizadas no Brasil, que segundo o parecer dos médicos nacionais e estrangeiros, nenhum fotógrafo, até aquela data [1866] havia tirado do natural um trabalho semelhante.

1878 - Vendeu seu estúdio em Buenos Aires para Witcomb & Mackern. Deixou no arquivo do ateliê um acervo de mais de 170 vistas.

Participou da Exposição Universal de Paris de 1878.

1879 a 1883 – Viajou pelo interior da Argentina, fotografando várias províncias do país, continuando a série de álbuns de Vistas e Costumes da República Argentina. Passou pelas cidades de Rosário, Córdoba, Río Cuarto, Mendoza, San Juan, San Luis, Catamarca, Tucumán, Salta e Jujuy. Antes de chegar às cidades, anuncia nos jornais locais que ali prestará seus serviços. Monta seu estúdio associado a um fotógrafo local e, em alguns casos, acompanhado de seu  filho. Uma vez instalado na localidade, dá início ao trabalho no ateliê e, paralelamente, desenvolve seu projeto maior: os álbuns de vistas.

1882 – Participou da Exposição Continental de Buenos Aires em 1882.

1883 – Anúncio do estabelecimento fotográfico de Menezes & Irmão, sucessores de Christiano Junior & Pacheco (Gazeta da Tarde, 5 de junho de 1883, última coluna).

Christiano Junior desvinculou-se de seu último ateliê, localizado na cidade de Corrientes. Abandonou temporariamente a fotografia, dedicando-se à produção e comércio de vinhos e licores, os quais vendia ao Brasil, à Argentina e ao Paraguai.

1890 – De Buenos Aires, Christiano Junior importou 382 fardos feno, que chegaram no vapor francês Bearn (Jornal do Commercio, 28 de janeiro de 1890, penúltima coluna).

De Buenos Aires, Christiano Junior importou quatro sacos de alpiste, 10 de cevada, 10 de linhaça, seis de milho e 40 caixas de passas e nove de vinho que chegaram no vapor francês Bretagne (Jornal do Commercio, 23 de abril de 1890, quarta coluna).

1892 – Pelo decreto de 21 de dezembro de 1892, foi concedida, por 15 anos, a Christiano Junior, a patente da invenção do processo aperfeiçoado de fabricar vinho de cana (Minas Gerais, Órgão Oficial dos Poderes do Estado, 24 de dezembro de 1992, terceira colunaJornal do Brasil, 26 de dezembro de 1892, quarta coluna, e Relatório do Ministério da Agricultura de 1993).

1901/1902 – Entre esses anos, Christiano Júnior escreveu ainda oito textos autobiográficos publicados no jornal La Provincia: Sueños raros (14/12/1901); Recuerdos de mi tierra, dedicado a seu neto Augusto (1/1/1902), Tempora mutantur (Buenos Aires de 1866 a 1900), dedicado a sua neta Telma (15, 18, 21, 25/1/1902); Un carnaval en mi tierra, dedicado a Pedro Benjamín Serrano ( 8/2/1902); En los Andes, dedicado a Félix M Gómez (1/3/1902); Informalidad y mentira, dedicado a Manuel V. Figuerero (26/3/1902); Brasil de 1855 a 1870, dedicado a Guillermo Rojas ( 5/4/1902), e De Corrientes (17/5/1902) (Recordando Christiano).

1899 – Publicação do livro de sua autoria, Tratado prático de vinicultura, destilaria e licoreria, com prólogo do escritor argentino Eduardo L. Holmberg (1852 – 1937).

1902 – Christiano Junior faleceu em 19 de novembro, em Assunção, no Paraguai. Seu necrológio foi publicado, em 13 de dezembro de 1902, na revista argentina Caras Y Caretas, página 28 :

Em Assunção do Paraguai, onde vivia retirado há muitos anos pintando fotografias, faleceu na semana passada o velho fotógrafo don Christiano Junior, cuja arte para retratar a antiga família portenha era famosa em seu tempo. Junior foi o antecessor de Witcomb e diante de sua objetiva desfilaram as mais conhecidas damas e cavalheiros daquela época. Morreu pobre, privado quase por completo de sua visão, e deixa uma lembrança agradável em todos os que conheceram.’

 

anuncio12 Caras y Caretas, 13 de dezembro de 1902

 

Posteriormente, seus restos mortais foram levados para Buenos Aires e sepultados no cemitério de Olivos.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ALEXANDER, Abel & PRIAMO, Luis. Recordando a Christiano: un país en transición – fotografías de Buenos Aires, cuyo y el Noroeste. Christiano Júnior 1867 – 1883. Buenos Aires: Ediciones Fundación Antorchas, 2002.

AZEVEDO, Paulo César de & LISSOVSKY, Maurício. Escravos brasileiros do século XIX na fotografia de Christiano Jr. (1864-1866) [et ali.]. São Paulo: Ex. Libris, 1988.

BEAUGÉ, Gilbert. A fotografia argentina no século XIX. In: SAMAIN, Etienne (Org.). O fotográfico. São Paulo: HUCITEC, 1998.

ERMAKOFF , George. Rio de Janeiro 1840 – 1900 – Uma crônica fotográfica. Rio de Janeiro: G. Ermakoff Casa Editorial, 2006.

FERREZ, Gilberto. A fotografia no Brasil. Rio de Janeiro: Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, 1953.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

HIRSZMAN, Maria Lafayette Aureliano. Entre o tipo e o sujeito – Os retratos de escravos de Christiano Junior. Disseração apresentada na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, sob a orientação de Domingos Tadeu Chiarelli.

Jornal Açoriano Oriental, 20 de novembro de 2014

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

KOSSOY, Boris. Origens e expansão da fotografia no Brasil : século XIX. Prefácio Boris Kossoy. Rio de Janeiro: Funarte, 1980. 128 p.

KOUTSOUKOS, Sandra Sofia Machado. No estúdio do fotógrafo: um estudo da (auto) representação de negros livres e escravos no Brasil da segunda metade do século XIX. Campinas, Instituto de Artes da Unicamp, 2002

LEITE, Marcelo EduardoOs múltiplos olhares de Christiano Junior – Revista Studium,- Unicamp, edição 39.

Revista La Nacion, 21 de abril de 2002

Site da Enciclopédia Itaú Cultural

SOARES, Carlos Eugênio Libano. Christiano Junior e a face escrava do Brasil. Biblioteca Nacional Digital.

TELL, Veronica. Autor fotográfico y obrero del progreso: notas sobre el trabajo de Christiano Junior en la Argentina. Critica Cultural, junho 2009.

 

 

 

Vacinação no Brasil, uma história centenária

A história da virologia e da luta dos cientistas para a erradicação de moléstias no Brasil tem uma longa trajetória. No livro A virologia no Estado do Rio de Janeiro: uma visão global – relançado em 2012 e disponibilizado em junho último para download gratuito, os autores Hermann G. Schatzmayr (Fiocruz) e Mauroli C. Cabral (Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ) reuniram textos próprios e de outros cientistas. A obra descreve os primeiros fatos historicamente registrados e a luta dos virologistas contra as moléstias que até hoje nos afligem. Com fotografias produzidas entre 1904 e 1905 e trechos selecionados do livro, a jornalista Cristiane d´Avila, do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz, conta, na Brasiliana Fotográfica, um pouco dessa história, principalmente sobre o combate à febre amarela empreendido por Oswaldo Cruz, no início do século XX.

 

Vacinação no Brasil, uma história centenária

Cristiane d’Avila*

A Campanha Nacional de Vacinação, lançada em 6 de agosto último pelo Ministério da Saúde, pretende imunizar milhões de pessoas contra o sarampo e a poliomielite, entre crianças e adultos. Um dos programas mais bem-sucedidos do Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro, este ano a campanha será fomentada por um fato novo, porém preocupante: o retorno de doenças consideradas, há muito, extintas.

Especialistas e a sociedade como um todo reconhecem o sucesso do Programa Nacional de Imunização brasileiro que de tão exitoso colocou o país no rol das nações que extinguiram as doenças agora combatidas. Contraditoriamente, o êxito fez com que gerações que não vivenciaram os surtos e efeitos dessas doenças passassem a considerar a vacinação desnecessária. Somou-se a esse fator o movimento antivacinal, com adeptos não só no Brasil, e o resultado mostra-se agora alarmante, com recentes casos de febre amarela, sarampo e poliomielite.

Acessando o link para as fotografias da vacinação no Rio de Janeiro entre 1904 e 1905 disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

A história da virologia e da luta dos cientistas para a erradicação de moléstias no Brasil tem uma longa trajetória. No livro A virologia no Estado do Rio de Janeiro: uma visão global – relançado em 2012 e disponibilizado em junho último para download gratuito, os autores Hermann G. Schatzmayr (Fiocruz) e Mauroli C. Cabral (Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ) reavaliam e ampliam a primeira edição, reunindo textos próprios e de outros cientistas.

A obra apresenta uma visão global da virologia no Rio ao longo de mais de um século, descrevendo os primeiros fatos historicamente registrados e a luta dos virologistas contra as moléstias que até hoje nos afligem. Selecionamos trechos do livro e fotos do acervo do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz para contar um pouco essa história, principalmente sobre o combate à febre amarela empreendido por Oswaldo Cruz, no início do século XX.

Oswaldo Cruz, que havia acompanhado com entusiasmo as notícias então recentes da eliminação da febre amarela em Cuba no início do século XX, com base nas propostas de Juan Carlos Finley, estava seguro da transmissão da doença pelo Aedes aegypti e lançou-se ao trabalho com invulgar determinação, propondo alcançar os mesmos resultados de Cuba em três anos.

O plano para o combate à febre amarela começou em 1903 e incluía, entre outras medidas, a entrada nas casas para eliminar os focos de mosquito. Mesmo com uma decisão do Supremo Tribunal garantindo a inviolabilidade do lar, a metodologia utilizada nas residências para a eliminação de focos de mosquitos e o isolamento dos doentes sob telas de proteção para que não transmitissem a infecção atingiram plenamente os objetivos propostos. A redução do número de óbitos ao longo dos anos seguintes foi por demais convincente para superar as resistências ainda existentes.

 

 

 

 

 

 

Oswaldo Cruz assim descreveu o seu método de exterminação de mosquitos nas habitações: “A casa a expurgar é completamente fechada. A todas as frestas e orifícios são colladas tiras ou pedaços de papel (…). “As communicações com os forros são abertas depois de ser todo o telhado coberto com toldos de lona, fixados por meio de sarrafos às paredes externas do prédio. Após cubagem de todo o imóvel, é o enxofre queimado na proporção de 10 a 20 grammas por metro cúbico (…). O ar aquecido pela combustão e deslocado pelos vapores sulfurosos escapa-se através das malhas do toldo, passando-se por entre as telhas; os mosquitos, porém, não podem acompanhar a sahida do ar ainda não saturado de gaz sulfuroso, por que ficam retidos pela cobertura do telhado. A casa a expurgar permanece fechada durante duas horas no mínimo” (Oswaldo Cruz 1909).

 

 

 

No primeiro semestre de 1904 foram feitas cerca de 110 mil visitas domiciliares e interditados 626 edifícios e casas. Os pacientes de febre amarela eram internados em hospitais e isolados para impedir que fossem picados pelos artrópodos vetores. As estatísticas de casos de febre amarela, as quais registraram cerca de mil mortes em 1902, baixaram para apenas 48 já em 1904.

 

 

 

Em 1909 não foi registrada na cidade do Rio de Janeiro mais nenhuma vítima da doença, fato extraordinário e impensável alguns anos antes. Em relação à varíola, em 1904 3.566 pessoas haviam morrido vítimas da doença, caindo o número para nove casos dois anos depois, pela ação da campanha de vacinação introduzida por Oswaldo Cruz. Em 1908, uma nova epidemia elevou os óbitos para cerca de 6.550, como resultado do baixo número de vacinações alcançado.

 

 

 

 

 

 

Uma análise crítica das campanhas contra a varíola e principalmente contra a febre amarela nos mostra uma associação perfeita entre conhecimentos científicos e os trabalhos de campo neles baseados. Em 1908, como reconhecimento pelo seu trabalho, o Presidente Afonso Pena renomeou o Instituto de Manguinhos como Instituto Oswaldo Cruz. (SCHATZMAYR; CABRAL, 2012).

 

*Cristiane d’Avila é  jornalista do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz

 

Fontes:

A virologia no Estado do Rio de Janeiro: uma visão global

Publicação retrata impactos da gripe espanhola no Rio de Janeiro

 

O quiosque Chopp Berrante no Passeio Público, Ferrez, Malta e Charles Dunlop

Antigamente no passeio público a esquerda de quem entrava pelo portão da rua do Passeio, existia um bar ao ar livre, dos apelidados pelo público de “Chopp Berrante”. Nesse bar havia um teatrinho, onde aos domingos acorria a garotada e todas as noites se exibiam cançonetistas acompanhados ao piano. A consumação obrigatória pagava o espetáculo. O bar era arrendado pela prefeitura ao senhor Arnaldo Gomes de Souza’.

Assim Charles Julius Dunlop (1908–1987), escritor e entusiasta do Rio Antigo, começava seu texto intitulado O Chopp Berrante do Passeio Público, publicado na Revista G.E., em 1956. Dunlop trabalhou entre 1927 e 1976 no departamento jurídico da Light, empresa onde conheceu, em meados da década de 30, o fotógrafo Augusto Malta (1864 – 1957), que trabalhava na Prefeitura do Rio de Janeiro, e havia sido designado para cobrir a inauguração de uma usina de força da empresa. Esse encontro foi decisivo no interesse de Dunlop por fotografias e histórias cariocas. Entre 1952 e 1955, ele publicou a coluna “Rio Antigo”, no jornal Correio da Manhã, muitas vezes ilustrada por fotos de Malta (Correio de Manhã, 30 de maio de 1952).

 

 

Acessando o link para as fotografias de autoria de Augusto Malta disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Um pouco da história do quiosque Chopp Berrante e da parceria entre Arnaldo Gomes e Marc Ferrez – os primórdios do cinema no Brasil

Localizava-se no Passeio Público, concorrido ponto de encontro da população carioca nos séculos XVIII e XIX e primeiro parque ajardinado do Brasil. Já no século XX, entre 1902 e 1906, na gestão do prefeito Francisco Pereira Passos (1836 – 1913), o Passeio Público recebeu diversos melhoramentos e foi inaugurado o primeiro aquário de água salgada da América do Sul, em 18 de setembro de 1904 (Gazeta de Notícias, 19 de setembro de 1904, na última coluna sob o título “O Aquarium”). Possivelmente, o Chopp Berrante no Passeio Público foi inaugurado em 1900, quando esse tipo de estabelecimento era um dos locais do universo de entretenimento da belle époque. Acredita-se que Catulo da Paixão Cearense (1866 – 1946) tenha sido um dos muitos músicos que se apresentaram no Chopp Berrante no Passeio Público.

 

 

O dono do Chopp Berrante no Passeio Público, Arnaldo Gomes de Souza, é o senhor de calça branca retratado na imagem acima. O fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923) vendia aí seus filmes para que Arnaldo os exibisse em lençóis estendidos entre as árvores, no jardim do parque. No final de 1905, a Casa Marc Ferrez & Filhos passou a ser a fornecedora exclusiva do cinematógrafo ao ar livre Passeio Público, que existiu entre em 28 de outubro de 1905 e 2 de novembro de 1906. Apesar de ter um repertório pouco variado, o cinematógrafo do Passeio Público aumentou a concorrência do quiosque que, segundo Dunlop, passou a ser ponto obrigatório dos primeiros fãs de cinema da cidade.

Em sociedade com Arnaldo, Ferrez arrendou os prédios de número 145 e 149 da Avenida Central e inaugurou, em 18 de setembro de 1907, o Cinema Pathé, o terceiro da cidade (Gazeta de Notícias, 18 de setembro de 1907, nas sexta e sétima colunas). O primeiro, Chic, foi inaugurado em 1º de agosto de 1907; o segundo, Parisiense, foi aberto em 9 de agosto do mesmo ano.

A firma de Arnaldo e Ferrez chamava-se Arnaldo & Cia, omitindo a participação de Ferrez porque Charles Pathé (1863 – 1957), um dos proprietários da Pathé Frères, proibia que seus distribuidores e representantes possuíssem cinematógrafos. Em 1908, a sociedade de Ferrez com Arnaldo Gomes de Souza foi denunciada pelo concorrente de Ferrez, Jácomo Rosário Staffa, proprietário do cinema Parisiense. Ainda nesse ano, Ferrez e Arnaldo Gomes de Souza produziram o filme, Nhô Anastácio chegou de viagem, dirigido por Julio Ferrez. É considerada a primeira comédia cinematográfica brasileira e foi estrelada por Antônio Cataldi, José Gonçalves Leonardo e Ismênia Matteo. Em 1911, a sociedade de Marc Ferrez com Arnaldo Gomes de Souza foi desfeita.

 

 

Acessando o link para as fotografias de autoria de Mar Ferrez disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

A revista O Cruzeiro publicou ao longo de 1951 uma série de matérias intituladas Fotografias do Rio Antigo sobre a obra de Marc Ferrez na segunda metade do século XIX. As compilações e a legendas das imagens assim como os textos das matérias foram feitos pelo neto do fotógrafo, Gilberto Ferrez (1908 – 2000), o primeiro historiador da fotografia no Brasil. Muitas imagens reproduzidas nessas matérias estão no acervo da Brasiliana Fotográfica.

Seguem os links para as matérias:

O Cruzeiro, 9 de junho de 1951 

O Cruzeiro, 16 de junho de 1951 

O Cruzeiro, 30 de junho de 1951 

O Cruzeiro, 14 de julho de 1951 

O Cruzeiro, 28 de julho de 1951 

O Cruzeiro, 11 de agosto de 1951 

O Cruzeiro, 25 de agosto de 1951

O Cruzeiro, 22 de setembro de 1951 

O Cruzeiro, 13 de outubro de 1951

 

Publicações da Brasiliana Fotográfica em torno da obra do fotógrafo Marc Ferrez 

O Rio de Janeiro de Marc Ferrez, publicada em 30 de junho de 2015

Obras para o abastecimento no Rio de Janeiro por Marc Ferrez , publicada em 25 de janeiro de 2016

O brilhante cronista visual Marc Ferrez (7/12/1843 – 12/01/1923), publicada em 7 de dezembro de 2016

Do natural ao construído: O Rio de Janeiro na fotografia de Marc Ferrez, de Sérgio Burgi, publicada em 19 de dezembro de 2016

No primeiro dia da primavera, as cores de Marc Ferrez (1843 – 1923), publicada em 22 de setembro de 2017

Marc Ferrez , a Comissão Geológica do Império (1875 – 1878) e a Exposição Antropológica Brasileira no Museu Nacional (1882), publicada em 29 de junho de 2018

Uma homenagem aos 175 anos de Marc Ferrez (7 de dezembro de 1843 – 12 de janeiro de 1923), publicada em 7 de dezembro de 2018 

Pereira Passos e Marc Ferrez: engenharia e fotografia para o desenvolvimento das ferrovias, publicado em 5 de abril de 2019

Fotografia e ciência: eclipse solar, Marc Ferrez e Albert Einstein, publicada em 24 de junho de 2019

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

DUNLOP, Charles. Apontamentos históricos – O Chopp Berrante do Passeio Público in Revista G.E., outubro, novembro e dezembro de 1956

FERLIM, Uliana dias Campos. A polifonia das modinhas: diversidades e tensões musicais no Rio de Janeiro na passagem do século XIX ao XX, 2006. Campinas: Unicamp

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

SAMPAIO, Lilian Alves. Vaidade e ressentimento dos músicos populares e o universo musical do Rio de Janeiro no início do século XX, 2011. São Paulo: USP

Site da Editora Rio Antigo

 

A cientista Marie Curie (1867 – 1934) no Museu Nacional, Rio de Janeiro, 1926

As cientistas Marie Curie (1867 – 1934) e sua filha, Irène Joliot-Curie (1897 – 1956), estiveram no Brasil entre 15 de julho e 28 de agosto de 1926. A Brasiliana Fotográfica destaca uma imagem que pertence ao acervo do Arquivo Nacional, instituição parceira do portal, produzida no dia 29 de julho de 1926, quando as cientistas fizeram uma visita, organizada pela Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, ao Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Foram ciceroneadas por Hermilio Bourguy Macedo de Mendonça (18? – 1941), diretor interino do museu; pelo naturalista Edward May; pela feminista e bióloga Bertha Lutz (1894 – 1976), pelo naturalista Alipio de Miranda Ribeiro (1874 – 1939), pelo geólogo Alberto Betim Paes Leme (1883 – 1938) e pela antropóloga e futura diretora da instituição, Heloisa Alberto Torres (1895 – 1977) (O Paiz, 30 de julho, primeira coluna).

 

 

Na fotografia, Marie Curie está sentada e sua filha está, em pé, de chapéu. Heloisa Alberto Torres está à esquerda de Marie Curie e Bertha Lutz (1894 – 1976) é a figura mais à direita do registro. No grupo masculino, da esquerda para a direita, estão o naturalista Alipio de Miranda Ribeiro (1874 – 1939), Hermilio Bourguy Macedo de Mendonça, possivelmente Alberto May e o geólogo Alberto Betim Paes Leme (1883 – 1938).

 

 

Numa época em que as ciências eram amplamente dominada pelos homens, Marie Curie tornou-se a primeira mulher a ganhar um Prêmio Nobel, quando, em 1903, com os físicos franceses, Pierre Curie (1859 – 1906), seu marido desde 1895, e Antoine Henri Becquerel (1852 – 1908), recebeu o Prêmio Nobel de Física “em reconhecimento aos extraordinários serviços por eles prestados em suas pesquisas conjuntas sobre o fenômeno da radiação, descoberto pelo Professor Henri Becquerel”. Marie Curie voltou a receber um Nobel, desta vez de Química, em 1911, “em reconhecimento aos serviços que prestou para o avanço da química quando descobriu os elementos rádio e polônio, pelo isolamento do rádio e pelo estudo da natureza e composição desse notável elemento”. Marie Curie tornou-se, então, a primeira pessoa a ser laureada duas vezes com o Prêmio Nobel.

Sua filha, Irène, recebeu com o físico francês Frédéric Joliot-Curie (1900 – 1958), com quem havia se casado em 9 de outubro de 1926, o Prêmio Nobel de Química em 1935 “em reconhecimento da síntese que fizeram de novos elementos radioativos”.

 

 

A viagem das cientistas ao Brasil, em 1926

Mãe e filha ficaram hospedadas no Hotel dos Estrangeiros, na Praça José de Alencar, no Flamengo. A chegada de Marie Curie foi saudada com o belo artigo A mulher e a ciência, de Saul Navarro, publicado na Revista da Semana de 10 de julho de 1926. Na mesma edição foi referida como A embaixatriz da Ciência. A Revista O Malho, de 24 de julho de 1926, também saudou a presença de madame Curie no Brasil com o artigo O verdadeiro feminismo. As cientistas faziam parte de uma comissão de sábios franceses em visita à América do Sul, dentre eles o historiador francês Paul Hazard (1878 – 1944), professor de literatura do Colégio da França (O Paiz, 13 de maio de 1926).

O convite para a viagem partiu da Embaixada do Brasil na França e o governo francês foi o patrocinador do evento (O Paiz, 25 de junho de 1926, terceira coluna). Marie Curie, na época professora da Sorbonne, e o professor Hazard foram designados pela Universidade de Paris para ministrar os cursos do Instituto Franco Brasileiro de Alta Cultura, anexo à Universidade do Rio de Janeiro (O Paiz, 18 de junho de 1926, última coluna). As conferências de madame Curie foram realizadas na Escola Politécnica, dirigida Tobias Moscoso (? – 1928). Na época, o reitor da Universidade do Rio de Janeiro era o conde de Afonso Celso (1860 – 1938) (O Paiz, 17 de julho de 1926, sexta coluna). As conferências, que foram transmitidas pela Rádio Sociedade, aconteceram nos dias 20, 23, 27 e 30 de julho; e em 3, 6, 10, 12, 20, 24 e 27 de agosto de 1926.

A Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, que representava a intelectualidade brasileira feminina, organizou uma comissão para acompanhar Marie e Irène Curie durante a viagem ao Brasil. Dela faziam parte, dentre outras, a bióloga Bertha Lutz (1894 – 1976), a mecenas Laurinda Santos Lobo (1878 – 1946), Maria Bandeira (1902 – 1992), primeira botânica do Jardim Botânico do Rio de Janeiro; e a médica Carlota Pereira de Queiroz (1892 – 1982), que viria a ser a  única mulher eleita deputada à Assembléia Nacional Constituinte, na legenda da Chapa Única por São Paulo, em 1933.

 

 

O dia a dia das visitantes de 15 de julho a 28 de agosto de 1926

Julho

15  – Marie Curie e sua filha Irène Joliot-Curie chegaram ao Rio de Janeiro a bordo do navio Pincio (O Paiz, 16 de julho de 1926), e Marie foi anunciada como uma das mais ilustres individualidades do mundo científico internacional.

17 – Mãe e filha visitaram a Escola Politécnica, onde fariam conferências e experimentos, em companhia de seu diretor, Tobias Moscoso (? – 1928), e dos professores Dulcídio Pereira e Mario de Brito (Correio da Manhã, 18 de julho de 1926, quarta coluna).

18 –  Com o secretário da Embaixada da França, o barão de Maricourt, madame Curie foi recebida, no Palácio do Catete, por Artur Bernardes (1875 – 1955), presidente da República (O Paiz, 19 e 20 de julho, quarta coluna).

20 – Madame Curie proferiu a conferência inaugural de seu curso sobre o elemento rádio na Escola Politécnica (Correio da Manhã, 21 de julho de 1926, quinta coluna e Correio da Manhã, 22 de julho de 1926, segunda coluna).

23 – Realização da segunda conferência de madame Curie na Escola Politécnica (Correio da Manhã, 23 de julho de 1926, sexta coluna, e 24 de julho de 1926, segunda coluna).

27 – Terceira conferência do curso que madame Curie na Escola Politécnica com a participação de sua filha, Irène (Correio da Manhã, 28 de julho de 1926, última coluna).

À tarde, as Curie visitaram o Pão de Açúcar com a comissão organizada pela Federação Brasileira para o Progresso Feminino. O grupo foi recebido pelos diretores da Companhia Caminho Aéreo Pão de Açúcar, os senhores Miranda Jordão e Augusto Ramos. De lá assistiram ao por do sol e o acender das luzes da cidade (O Paiz, 28 de julho de 1926, quarta coluna).

 

 

Foi noticiado que Marie e Irène Curie já haviam visitado o Corcovado, a convite do deputado Lamartine (1874 – 1956), e a Jacarepaguá e à Tijuca, a convite de Adolpho Lutz (1855 – 1940) (Correio da Manhã, 27 de julho de 1926, quinta coluna).

29 – As Curie visitaram o Senado Federal, que ficava no Palácio Monroe, onde foram recebidas por funcionários da casa. Os trabalhos do senado foram suspensos e os senadores foram encontrá-las no Salão Nobre, onde foram saudadas pelo vice-presidente da República, Estácio Coimbra (1872 – 1937), e pelo presidente do Senado Federal, Antônio Francisco de Azeredo (1861 – 1936). Mais uma vez, as cientistas estavam acompanhadas por membros da comissão organizada pela Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (Correio da Manhã, 30 de julho de 1926, sétima coluna).

Visitaram também o Museu Nacional, quando foi produzida a imagem destacada pela Brasiliana Fotográfica. Foram ciceroneadas por Hermilio Bourguy Macedo de Mendonça, diretor interino do museu; pelo naturalista do setor de Zoologia Edward May, pela feminista e bióloga Bertha Lutz (1894 – 1976), pelo naturalista Alipio de Miranda Ribeiro (1874 – 1939), pelo geólogo Alberto Betim Paes Leme (1883 – 1938) e pela antropóloga e futura diretora da instituição, Heloisa Alberto Torres (1895 – 1977) (O Paiz, 30 de julho, primeira coluna).

Madame Curie esteve no gabinete do prefeito do Rio de Janeiro, Alaor Prata (1882 – 1964) (Correio da Manhã, 30 de julho de 1926, segunda coluna).

30 – Realização da quarta conferência de Marie Curie na Escola Politécnica (Correio da Manhã, 31 de julho de 1926, primeira coluna).

31 – O embaixador da França, Alexandre Conty, ofereceu uma recepção na embaixada para as Curie (O Paiz, 1º de agosto de 1926, segunda coluna).

Agosto

- As Curie foram ao Serviço Geológico e Mineralógico, onde foram recebidas pelo diretor da instituição, Euzébio de Oliveira que, ao final da visita, ofereceu à Marie Curie um estojo com 24 pedras preciosas, 4 exemplares de minerais radioativos e um cartão de ouro com uma dedicatória a ela (Correio da Manhã, 2 de agosto de 1926, sétima coluna e O Paiz, 5 de agosto de 1926, segunda coluna).

No período em que esteve no Rio de Janeiro, madame Curie frequentou eventos sociais como a recepção oferecida pela Baronesa de Bonfim (1862-1953) e pela líder feminista Jeronyma de Mesquita (1880 – 1972). Entre os presentes, os ministros Félix Pacheco (1879 – 1935), Miguel Calmon (1879 – 1935) e Edmundo da Veiga (1869 – 1946), o prefeito do Rio de Janeiro, Alaor Prata (1882 – 1964), além de embaixadores, diplomatas, acadêmicos, enfim personalidades importantes de diversos setores da sociedade ( O Paiz, 7 de agosto de 1926, quarta coluna) e Revista da Semana, 7 de agosto de 1927)

3 – Realização da quinta conferência de Marie Curie na Escola Politécnica, com a participação de Irène Curie (Correio da Manhã, 4 de agosto de 1926, segunda coluna).

5 – A convite da Sociedade Interamericana de Mulheres, Marie e Irène foram à Petrópolis acompanhadas por Bertha Lutz, pela embaixatriz da França e pela sra. Paul Hazard, dentre outras. Os carros foram fornecidos pelo Automóvel Clube do Brasil. Foram recebidas pelo prefeito da cidade, Francisco de Avelar Figueira de Melo (1883 – 1938), e o senador Joaquim Moreira (1853 – 1929) ofereceu um almoço ao grupo (O Paiz, 6 de agosto de 1926, quarta coluna).

6 – Realização da sexta conferência de Marie Curie na Escola Politécnica, com a participação de Irène Curie (Correio da Manhã, 7 de agosto de 1926, quarta coluna).

10 - Realização da sétima conferência de Marie Curie na Escola Politécnica, com a participação de Irène Curie (Correio da Manhã, 11 de agosto de 1926, terceira coluna).

11 - Foi noticiado que madame Curie havia feito uma interessante excursão pela Estrada de Ferro Central do Brasil, tendo visitado as cidades de Vassouras, Barra do Piraí e Rodeio. Também foi noticiado que ela havia comparecido a uma reunião das senhoras da comissão de recepção organizada pela Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, na casa da tesoureira da instituição, Stella de Carvalho Guerra Duval (1879 – 1971)(O Paiz, 11 de agosto de 1926, quarta coluna).

Madame Curie foi ao Jardim Botânico e foi recebida por Antônio Pacheco Leão (1872 – 1931), diretor da instituição, e por Maria Bandeira (1902 – 1992), da seção de briófitos (O Paiz, 12 de agosto de 1926, terceira coluna).

12 – Realização da oitava conferência de Marie Curie na Escola Politécnica (Correio da Manhã, 13 de agosto de 1926, segunda coluna).

Marie Curie foi à Câmara dos Deputados, onde foi recebida por seu presidente, Arnolfo Azevedo (1868 – 1942)(O Paiz, 13 de agosto , quarta coluna).

13  a 18 – A convite dos governos de São Paulo e Minas Gerais, feitos respectivamente pelo dr. Pedro Dias da Silva, diretor da Faculdade de Medicina de São Paulo, e pelo dr. Borges da Costa, diretor do Instituto de Rádio de Belo Horizonte, Madame Curie e sua filha visitaram os dois estados. Foram também convidadas Bertha Lutz e Carlota Pereira de Queiroz (O Paiz, 14 de agosto de 1926, última coluna, O Paiz, de 18 agosto de 1926, sexta coluna, e Correio da Manhã, 19 de agosto de 1926, terceira coluna).

19 – Na Academia Nacional de Medicina, Marie Curie recebeu as insignias de membro da instituição pelas mãos de seu presidente, o médico Miguel Couto (1865 – 1934) (O Paiz, 20 de agosto de 1926, segunda coluna).

 

20 – Realização da nona conferência de Marie Curie na Escola Politécnica, com a participação de sua filha, Irène (Correio da Manhã, 21 de agosto de 1926, última coluna).

24  – Realização da décima conferência de Marie Curie na Escola Politécnica, com a participação de sua filha, Irène (Correio da Manhã, 25 de agosto de 1926, penúltima coluna).

Foi oferecida pelo encarregado de negócios do governo da Polônia, um almoço em homenagem a madame Curie, no palacete da legação no Rio de Janeiro (O Paiz, 25 de agosto de 1926, terceira coluna).

Madame Curie foi homenageada numa sessão solene da Academia Brasileira de Ciências. Na ocasião foi aclamada membro correspondente da instituição (Correio da Manhã, 24 de agosto de 1926, sétima coluna, e O Paiz, de 29 de agosto de 1926, última coluna).

25 – No Teatro Cassino do Passeio Público a Federação Brasileira para o Progresso Feminino (FBPF) promoveu uma homenagem às Curie. Foram saudadas com um discurso proferido por uma de suas fundadoras e presidente, Bertha Lutz, que foi respondido por Marie Curie com palavras de agradecimento. Ela recebeu, então, o primeiro diploma de honra conferido pela FBPF: todo iluminado em ouro e tons de bronze, em pergaminho, pela ilustre pintora patrícia Silvie Meyer (1899 – 1955)No programa, poesia e teatro (O Paiz, 26 de agosto de 1926, quarta coluna).

 

 

26 – Marie e Irène foram ao Palácio do Catete para se despedirem do presidente da República, Artur Bernardes (O Paiz, 27 de agosto de 1926, quarta coluna).

27 – Realização da décima-primeira e última conferência de Marie Curie na Escola Politécnica. Na ocasião, o reitor da Universidade do Rio de Janeiro, o conde de Afonso Celso, cumprimentou Marie e Irène Curie pelo brilhante curso realizado (Correio da Manhã, 28 de agosto de 1926, última coluna).

28 –  Mãe e filha regressaram à França, no paquete Lutecia. Ao embarque da sra Curie, que esteve muito concorrido, compareceram as figuras mais representativas dos nossos círculos universitários, homens de ciências e de letras,  representantes da imprensa e elementos dos mais distintos de nossa alta sociedade. Do navio, Marie Curie enviou a Bertha Lutz uma mensagem de agradecimento para ser distribuída à imprensa (Jornal do Commercio, 29 de agosto de 1926, primeira coluna e O Paiz, de 29 de agosto de 1926, última coluna).

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Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Canal Ciência – IBICT

Dicionário mulheres do Brasil: de 1500 até a atualidade – Biográfico e ilustrado / organizado por Shuma Shumaher, Érico Vital Brazil – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2000.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Museu Nacional

Revista Superinteressante

Site da Unicamp

Site do Prêmio Nobel

A criação de uma vacina para a peste da manqueira, um marco na história da veterinária brasileira e mundial

Cristiane d’Avila, jornalista do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz, uma das parceiras da Brasiliana Fotográfica, conta a história da criação da vacina para a peste da manqueira. Foi por iniciativa de Oswaldo Cruz que as pesquisas sobre o assunto começaram a ser feitas no Brasil, no início do século XX, quando ele acumulava a função de diretor do Serviço de Profilaxia da Febre Amarela da Diretoria Geral de Saúde Pública e também do Instituto Soroterápico Federal, que viria a ser denominado Instituto Oswaldo Cruz, em 1908, e, posteriormente, Fundação Oswaldo Cruz. Ele convocou seus colegas Ezequiel Dias e Henrique Rocha Lima para investigarem a moléstia, mas, após 1905, o cientista Alcides Godoy tornou-se o responsável pelo projeto. A partir de 1908, o Instituto Oswaldo Cruz passou a produzir e fabricar em escala comercial a primeira vacina veterinária brasileira de combate a doenças infectocontagiosas. Um marco na história da veterinária brasileira e mundial.

Cristiane d’Avila *

“Peste da manqueira”, “mal do ano”, “mal do quarto inchado”, “blackleg” (nos países de língua inglesa). Os nomes populares atribuídos a doenças dizem muito sobre os danos à saúde humana e animal ou mesmo sobre os prejuízos financeiros que podem provocar. Em tais situações, somam-se esforços para que se encontrem respostas, antídotos e tratamentos que debelem as causas e minimizem os efeitos provocados por elas. No caso do carbúnculo sintomático, não foi diferente.

Era início do século XX. Pecuaristas mineiros, atônitos com a moléstia que acometia os bezerros e bovinos jovens, causando imensa mortandade e prejuízos galopantes, buscavam soluções para a situação. A doença, letal, iniciava-se com febre e inchaço da musculatura, especialmente das regiões chamadas “quartos” dos bovinos, atrofiando-as e provocando o andar manco. Não à toa, recebeu denominações que a classificaram popularmente como “peste” e “mal”.

Durante muito tempo confundido com o antraz, o carbúnculo sintomático não abatia apenas os rebanhos brasileiros. Tratava-se de uma doença de impacto mundial, porém mais ativa em países tropicais, que apresentava como vetor o microrganismo anaeróbico Clostridium chauvei. O germe havia sido cultivado e analisado pela primeira vez, em 1887, pelo bacteriologista francês Émile Roux, do Instituto Pasteur de Paris. Antes disso, foi estudado por Arloing, Cornevin e Thomas, que de 1887 a 1894 investigaram exaustivamente a etiologia, a epizootiologia, a manifestação clínica ea  patologia da doença. Em 1887, o trio publicou o livro Le Charbon symptomatique d uboeuf, porém não obteve sucesso na produção de um imunizante para o mal.

Em 1903, Oswaldo Cruz, já interessado em pesquisas sobre o carbúnculo sintomático, convidou o então estudante de medicina Alcides Godoy (1880 – 1950) para ingressar, como auxiliar acadêmico, no Serviço de Profilaxia da Febre Amarela da Diretoria Geral de Saúde Pública, a fim de trabalhar na produção de soros e vacinas. Nesse período, Cruz acumulava a função de diretor deste serviço e também do Instituto Soroterápico Federal (que viria a ser denominado Instituto Oswaldo Cruz, em 1908, e, posteriormente, Fundação Oswaldo Cruz).

 

 

Atento às pesquisas em curso no exterior, Oswaldo Cruz já havia adquirido e consultado a obra de Arloing, Cornevin e Thomas. Incansável na busca por respostas, colocou os colegas do Instituto Ezequiel Dias e Rocha Lima para investigarem a moléstia, mas após 1905 Godoy tornou-se o responsável pelo projeto. Enquanto isso, Henrique da Rocha Lima, pesquisador e “braço direito” de Oswaldo Cruz, usando técnica aprendida durante uma estadia na Alemanha, obteve colônias anaeróbicas do germe, cedendo-as a Godoy para investigação científica.

 

Voltado totalmente à pesquisa, Godoy (na foto ao lado) foi original: empregou um meio de cultura especial para bactérias anaeróbicas, com uso de glicose, a fim de obter uma “raça” diferenciada de bactérias de virulência atenuada, criando uma vacina com o clostridiumchauvoei vivo. Logo que foram confirmadas, em laboratório, as propriedades vacinantes de suas culturas, Godoy viajou, em 1906, para Juiz de Fora, Minas Gerais, em companhia dos pesquisadores do Instituto Rocha Lima e de Carlos Chagas, para executar os testes finais. A primeira demonstração pública da vacina, entretanto, não obteve o resultado esperado e alguns animais faleceram.

De volta a Manguinhos, Godoy descobriu a causa do insucesso: uma maior virulência do lote da vacina preparada para o teste. Corrigida a falha, novas inoculações foram feitas, desta feita com absoluto sucesso. A descoberta fez o então Instituto Oswaldo Cruz produzir e fabricar em escala comercial, a partir de 1908, a primeira vacina veterinária brasileira de combate a doenças infectocontagiosas. Um marco na história da veterinária brasileira e mundial.

 

 

Acima, a foto emblemática do fotógrafo J. Pinto (1884 – 1951) registra o trabalho de embalagem dos frascos e acondicionamento das vacinas em caixas, no IOC. Para o fotógrafo Roberto Jesus Oscar, do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz, onde a foto original de J. Pinto está depositada, essa imagem, gerada a partir de negativo de vidro, esbanja composição, enquadramento e equilíbrio de contrastes, enchendo a imagem de luz, volume e textura. Aos olhos de hoje a imagem pode causar estranheza, mas trata-se de uma ótima representação da história de Manguinhos, um ícone do acervo da Instituição.

É importante ressaltar que após a obtenção do registro da patente da vacina, Godoy efetuou uma escritura de cessão que transferia sua descoberta para o IOC, com o propósito de incentivar as atividades de exploração industrial do imunizante. A verba obtida com a venda da vacina auxiliou a instituição a cobrir gastos com o ensino, a pesquisa e a produção, sem submeter-se à burocracia governamental vigente, ao mesmo tempo em que representou um estímulo aos pesquisadores para o desenvolvimento de produtos biológicos a serem patenteados e vendidos (CHAMAS, 2006). Até 1917, ano da morte de Oswaldo Cruz, Godoy recebeu 5% da renda obtida com a venda das vacinas. A partir dessa data, esse percentual passou para 8% do total das vendas da vacina.

De acordo com um quadro elaborado por Oscar Meira, e apresentando por Benchimol, no período de 1906 a 1918 o Instituto produziu 7.111.698 doses da vacina contra a peste da manqueira. No mesmo período, a vacina foi o produto biológico mais produzido, perdendo apenas, em 1918, para a maleína, uma substância empregada no teste (prova de maleína) para diagnóstico do mormo, uma doença infectocontagiosa que acomete cavalos. (MORAES, 2008)

 

 

A princípio, a distribuição da vacina ficava a cargo do Ministério da Agricultura e de alguns órgãos públicos da esfera estadual e municipal. Cioso da importância da tarefa e obcecado com a eficiência deste processo, em 1913, Oswaldo Cruz (de chapéu branco, ao centro) cria a Seção de Propaganda da Vacina contra a Peste da Manqueira, assumindo totalmente a distribuição. Godoy está de pé, na ponta direita da foto.

A pesquisadora Alice Ferry de Moraes destaca o depoimento de Delfim Moreira, deputado estadual por Minas Gerais de 1894 a 1902, Secretário do Interior de Minas Gerais de 1914 a 1918 e, mais tarde, presidente do Brasil no período de 1918 a 1919, sobre o impacto da vacina (MORAES, 2008):

Se nós somos um país exportador de carne devêmo-lo (sic) a Manguinhos. Desse infalível produto, tirou Oswaldo Cruz, na época da pobreza daquele grande Instituto, o necessário para sua biblioteca, para as pesquisas, para o contrato de funcionários técnicos, enfim, todos os meios de progredir e realizar. (MAGALHÃES apud MORAES, 2008)

As vacinas foram produzidas pelo IOC até 1939. Em razão da promulgação de uma lei que proibia os cientistas lotados em instituições públicas de receberem dinheiro por suas patentes, Godoy fundou a Produtos Veterinários Manguinhos Ltda., juntamente com o pesquisador Astrogildo Machado, com quem criou outra vacina também importante – a vacina contra o Carbúnculo Hemático ou Verdadeiro, conhecido como Antraz, patenteada sob o n.º 9.981, em 1918 (CHAMAS, 2006).

 

Abaixo o texto de Oswaldo Godoy, filho de Alcides Godoy, publicado na Agência Fiocruz de Notícias em 15 de agosto de 2008, ano do centenário da primeira patente registrada pelo IOC:

 

‘A vacina contra a manqueira começou a ser distribuída e vendida já em 1906. Ela imunizava o gado com uma só aplicação. Na exposição de demografia e higiene realizada de Berlim, em junho de 1907, na qual o Instituto obteve a medalha de ouro, a vacina da manqueira foi um dos destaques selecionados, dentre os produtos fabricados para representar as atividades do IOC.

A premiação em Berlim foi determinante para que o Ministério da Justiça e Negócios Interiores aprovasse um novo regulamento, proposto por Oswaldo Cruz, visando expandir de modo expressivo as atribuições do Instituto, que passaria a gozar de considerável autonomia administrativa e financeira, sendo esta última garantida, principalmente, pela renda advinda da venda da vacina na manqueira. Tais recursos, que permitiam ao Instituto não depender apenas do orçamento governamental, foram fundamentais para contratar novos pesquisadores e, assim, ampliar o quadro de pessoal da instituição.

O próprio Oswaldo Cruz, em função da repercussão e da originalidade do processo desenvolvido por Godoy, aconselhou-o a patentear em seu nome a invenção. A carta patente nº 5.566 foi obtida em 24 de novembro de 1908. A publicação no Diário Oficial se deu em 6 de dezembro daquele ano. Ainda em 1908, cedeu, por escritura pública, ao Instituto Oswaldo Cruz, representado por seu diretor Oswaldo Cruz, os direitos de exploração comercial do seu privilégio de invenção (a vacina contra a manqueira).

No mesmo ano de 1908, Godoy publicou, com a colaboração de Gomes de Faria (que havia sido recentemente contratado pelo IOC), um trabalho analisando as variáveis no meio de cultura que poderiam ter causado a maior virulência da vacina responsável pelos problemas em Juiz de Fora, confirmando-se que a concentração da glicose havia sido a responsável pela redução da virulência da vacina (aspecto que havia sido identificado e solucionado por Godoy naquela ocasião, em 1906).

Além de dedicar-se ao tema da manqueira, como sua atividade principal, Godoy desenvolvia outras atividades – como era de praxe entre todos os pesquisadores de Manguinhos –, como a produção dos soros antidiftérico e antitetânico, e na dosagem do soro antipestoso. Com Astrogildo Machado, desenvolveu, em 1918, outra importante vacina produzida e comercializada pelo IOC, contra o carbúnculo hemático.

Outra frente importante de trabalho de Godoy em Manguinhos foi a criação de diversos dispositivos e aparelhos para facilitar e aperfeiçoar os procedimentos de produção, como o “frasco Dr. Godoy”, desenvolvido por ele para facilitar a coleta de mosquitos pelos “mata-mosquitos” que atuavam nas campanhas sanitárias.

Numa época em que as atividades de produção, ensino e pesquisa eram realizadas de modo bastante conjugado pelos pesquisadores, Godoy foi também professor do curso de aplicação do Instituto, criado em 1908 para oferecer treinamento experimental nas áreas de microbiologia e zoologia médica.

Godoy fez três viagens de estudo à Europa. Em 1912, foi enviado aos Laboratórios de Leipzig, na Alemanha, a fim de acompanhar pesquisas concernentes a questões de físico-química aplicada à ciência médica. Em 1919, permaneceu quatro meses na Europa; foi designado para esta viagem a partir da solicitação, feita a Manguinhos pela representação diplomática inglesa, para que algum médico embarcasse num navio inglês aportado no Rio cujo médico de bordo havia adoecido. Esta foi, conforme relatou certa ocasião, a única vez que exerceu a clínica médica. Finalmente, em 1925, esteve na Itália acompanhando Carlos Chagas no 1º Congresso de Malariologia, realizado em Roma, e para estudar os modernos processos de profilaxia da malária empregados naquele país.

Integrante do chamado “jardim da infância da ciência”, como Oswaldo Cruz carinhosamente chamava o grupo inicial de pesquisadores de Manguinhos, Godoy sempre gozou da confiança e apreço tanto de Cruz quanto de seu sucessor, Carlos Chagas, substituindo-os, várias vezes, em suas ausências, na direção do instituto.

Em 1923, Carlos Chagas solicitou ao Ministério da Justiça a renovação da patente da vacina da manqueira por mais 15 anos. Foi o segundo produto que obteve no Brasil a renovação da Patente, fato só obtido anteriormente pela Fornicída Matarazzo. Em 1937, como conseqüência da reforma implementada por Gustavo Capanema no Ministério da Educação e Saúde (criado em 1930, no âmbito da Revolução de 1930), foi vedada ao IOC a fabricação e comercialização desse e outros produtos veterinários.

Em 26 de junho de 1938, Godoy e Machado pediram o registro da marca genérica para produtos veterinários Manguinhos. Suas famílias fundaram em 25 de janeiro de 1939, uma firma que se chamou Produtos Veterinários Manguinhos Ltda, para fabricar e comercializar a vacina da manqueira, do carbúnculo hemático, e posteriomente a vacina contra a pneumoenterite dos porcos. O primeiro lugar em que estabeleceram o laboratório foi em prédio nos fundos do Hospital Gaffrée Guinle, na Rua Silva Ramos 20. Tiveram por muitos anos escritório na Rua Uruguaiana 33. Na década de 40 construíram um laboratório na Rua Licinio Cardoso 91 (hoje Rua Francisco Manuel), em Benfica.

Godoy casou-se com Dulce Leite de Castro em 5 setembro de 1923 e tiveram dois filhos: Oswaldo Tarcisio, que veio a se formar em Química Industrial e Engenharia Química e Margarida Maria, que estudou música, tocava piano e estudou na Europa. Faleceu em 30 de janeiro de 1950, aos 70 anos. Na década de 60 a família Godoy saiu da sociedade, que ficou com a família de Machado. A firma, que continua a fabricar a vacina da manqueira, foi vendida recentemente pelos seus descendentes e pertence hoje à empresa Bravet’.

 

* Cristiane d’Avila é jornalista do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz

 

Fontes:

BENCHIMOL, Jaime L. Manguinhos do sonho à vida: a ciência na belle époque. Rio de Janeiro: Casa de Oswaldo Cruz; Fiocruz, 1990.

CHAMAS, Claudia Inês. A Propriedade Intelectual e a Vacina contra a Peste da ManqueiraRevista Brasileira de Inovação, [S.l.], v. 5, n. 1 jan/jun, p. 203-218, junho 2006. ISSN 2178-2822.

GODOY, Alcides. Primeira vacina veterinária desenvolvida e fabricada no Brasil completa 100 anos. Agência Fiocruz de Notícias.

MAGALHÃES, Octávio de. Alcides Godoy. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, t. 49, mar. 1951. p. 1-6.

MORAES, Alice Ferry de. A inovação e a vacina da peste da manqueira. Inf. &Soc.:Est., João Pessoa, v.18, n.3, p. 97-103, set./dez. 2008. ISSN 1809-4783