Ressaca no Rio de Janeiro invade o porão da casa do fotógrafo Marc Ferrez, em 1913

Há muito tempo as águas de março castigam o Rio de Janeiro. Nas primeiras décadas do século XX, ocorreram várias ressacas na cidade e a Brasiliana Fotográfica destaca duas fotografias produzidas por Augusto Malta (1864 – 1957) e Carlos Bippus (18? – 19?), em 1913, quando, em março, aconteceu uma delas. Um dos bairros mais afetados foi o Flamengo e o porão da casa onde a família de Marc Ferrez (1843 – 1921) morava, na rua Dois de Dezembro – antiga rua Christovão Colombo -, foi inundado destruindo boa parte da tiragem do Álbum da Avenida Central*, um dos mais ambiciosos projetos da carreira do fotógrafo, monumental como a obra de engenharia que representava (O Paiz, 9 de março de 1913; Correio da Manhã, 9 de março de 1913). Cerca de um mês depois da enchente, Ferrez e sua mulher, a francesa Marie Lefebvre (c. 1849 – 1914), embarcaram para a Europa no paquete holandês Zeelandia (O Paiz, 17 de abril de 1913, na quarta coluna) e, no primeiro semestre de 1914, quando retornaram ao Rio de Janeiro, alugaram uma casa na rua Voluntários da Pátria 50, em Botafogo. Terá sido para fugir de possíveis novas ressacas?

 

 

Acessando o link para as fotografias de ressacas ocorridas no Rio de Janeiro no início do século XX disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

 

 *O Álbum da Avenida Central

 

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Ferrez iniciou pouco antes da inauguração da avenida Central, em 15 de novembro de 1905 (Jornal do Brasil, 16 de novembro de 1905, última coluna), a produção do Álbum da Avenida Central importante registro da reforma da principal via da então capital federal, onde ele contrapôs reproduções das plantas às fotografias das fachadas de cada edifício documentado. Esse tipo de fotografia foi fundamental para a construção e para a difusão de uma nova imagem do Rio de Janeiro, uma imagem associada aos ideais de civilização e progressoEle havia sido contratado pela Comissão Construtora da Avenida Central, que era coordenada por Paulo de Frontin (1860 – 1933), presidente do Clube de Engenharia. O álbum original foi lançado em 1907. As fotos foram realizadas em negativos de grande formato. As dos projetos arquitetônicos foram impressas em zincografia e, as das fachadas de todos os edifícios, em colotipia.

Na época de sua inauguração, a avenida Central tinha 1.800 metros de extensão e 33 metros de largura. Cerca de 300 casas coloniais foram demolidas para a construção dos novos edifícios, cujas fachadas foram escolhidas por concurso. Alguns dos jurados foram o prefeito Pereira Passos (1836 – 1913), responsável pela significativa reforma urbana carioca – o “bota-abaixo” -, que contribuiu para o surgimento do Rio de Janeiro da Belle Époque; o engenheiro Paulo de Frontin (1860 – 1933), Lauro Muller (1863 – 1926), ministro da Viação e Obras Públicas; e Oswaldo Cruz (1872 – 1917), diretor-geral da Saúde Pública. Além de edifícios do governo, ergueram-se, na avenida, jornais, clubes, hotéis e sedes de empresas. O calçamento, em mosaico português, foi feito por artesãos vindos de Portugal. Passear pela avenida Central era passear pela espinha dorsal do mundo das compras e do lazer dos elegantes, dos negócios e da cultura. Alguns remanescentes da primeira geração de prédios da avenida são o Teatro Municipal, o Clube Naval, a Biblioteca Nacional, o Museu Nacional de Belas Artes e o Centro Cultural da Justiça Federal.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

BARROS, Mariana Gonçalves Monteiro de. Marc Ferrez e o Rio de Janeiro do seu tempo. Tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós-graduação em História Social da Cultura do Departamento de História da PUC-Rio, Rio de Janeiro, setembro de 2006.

CERON, Ileana Pradilla Ceron. Marc Ferrez – uma cronologia da vida e da obra. São Paulo : Instituto Moreira Salles, 2018.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

ERMAKOFF, George. Rio de Janeiro 1840 – 1900 Uma crônica fotográfica. Rio de Janeiro: G. Ermakoff Casa Editorial, 2006.

FERREZ, Gilberto. O Rio Antigo do fotógrafo Marc Ferrez: paisagens e tipos humanos do Rio de Janeiro, 1865-1918. Rio de Janeiro: João Fortes Engenharia/Editora Ex-Libris, 1984.

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002. 408 p., il. p&b.

Rio / Marc Ferrez – São Paulo : IMS; Göttingen: Steidl, 2015

TURAZZI, Maria Inez. Cronologia. In O Brasil de Marc Ferrez – São Paulo : Instituto Moreira Salles, 2005.

 

Publicações da Brasiliana Fotográfica em torno da obra do fotógrafo Marc Ferrez 

 

O Rio de Janeiro de Marc Ferrez, publicada em 30 de junho de 2015

Obras para o abastecimento no Rio de Janeiro por Marc Ferrez , publicada em 25 de janeiro de 2016

O brilhante cronista visual Marc Ferrez (7/12/1843 – 12/01/1923), publicada em 7 de dezembro de 2016

Do natural ao construído: O Rio de Janeiro na fotografia de Marc Ferrez, de Sérgio Burgi, publicada em 19 de dezembro de 2016

No primeiro dia da primavera, as cores de Marc Ferrez (1843 – 1923), publicada em 22 de setembro de 2017

Marc Ferrez , a Comissão Geológica do Império (1875 – 1878) e a Exposição Antropológica Brasileira no Museu Nacional (1882), publicada em 29 de junho de 2018

O quiosque Chopp Berrante no Passeio Público, Ferrez, Malta e Charles Dunlop, publicada em 20 de julho de 2018

Uma homenagem aos 175 anos de Marc Ferrez (7 de dezembro de 1843 – 12 de janeiro de 1923), publicada em 7 de dezembro de 2018 

Pereira Passos e Marc Ferrez: engenharia e fotografia para o desenvolvimento das ferrovias, publicado em 5 de abril de 2019

Fotografia e ciência: eclipse solar, Marc Ferrez e Albert Einstein, publicado em 

Uma homenagem da Casa Granado ao imperial sob as lentes de Marc Ferrez, publicada em 7 de fevereiro de 2020

Petrópolis, a Cidade Imperial, pelos fotógrafos Marc Ferrez e Revert Henrique Klumb, publicado em 16 de março de 2020

Bambus, por Marc Ferrez, publicado em 5 de junho de 2020

Notícia da viagem do fotógrafo Albert Frisch (31/05/1840 – 30/05/1918) à Amazônia

 

Christoph Albert Frisch (1840 – 1918) foi o fotógrafo responsável pela impressionante e pioneira série de 98 fotografias realizadas em 1867 na Amazônia: foram os primeiros registros que chegaram até nós de índios brasileiros da região, além de aspectos de fauna e flora e de barqueiros de origem boliviana que atuavam como comerciantes itinerantes nos rios amazônicos. Ele foi o fotógrafo que acompanhou a expedição pela Amazônia liderada pelo engenheiro alemão Joseph Keller e pelo fotógrafo, desenhista e pintor Franz Keller (1835 – 1890). Este último era genro de Georges Leuzinger ( 1813 – 1892), considerado um dos mais importantes fotógrafos e difusores para o mundo da fotografia sobre o Brasil no século XIX, além de pioneiro das artes gráficas no país. Há uma notícia sobre a  viagem de Frisch e Keller ao Pará, a bordo do paquete Paraná no Diário do Povo, de 14 de novembro de 1867 (na primeira coluna).  Frisch levou um escravizado, e a esposa de Franz e a filha de Joseph também estavam no navio. Seu retorno ao sul do Brasil, a bordo do vapor Cruzeiro do Sul, está registrado no Jornal Pedro II, de 24 de novembro de 1868, quarta coluna.

 

Acessando o link para as fotografias de Christoph Albert Frisch disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

A expedição transitou pela região dos rios Madeira e Mamoré, onde o governo imperial pretendia construir uma estrada de ferro. Segundo informações de um catálogo publicado pela Casa Leuzinger em 1869, Resultat d’une expédition phographique sur le Solimões ou Alto Amazonas et Rio Negro , descoberto recentemente nos arquivos da Biblioteca Nacional, Frisch percorreu 400 léguas pelo rio Amazonas e seus afluentes durante 5 meses, em um barco acompanhado por dois remadores, desde Tabatinga até Manaus.

As imagens produzidas por Frisch durante a expedição, copiadas em papel albuminado, foram comercializadas com sucesso pela Casa Leuzinger, em suporte cartão. Foi Frisch o autor das primeiras fotografias dos tipos indígenas brasileiros em seu próprio habitat conhecidas até hoje e, em sua produção fotográfica, reforçava a ideia de uma Amazônia selvagem e exótica. Ele anexava às imagens informações tais como relações de parentesco e status social dos líderes indígenas fotografados. Na época, esses registros eram muito valorizados por estudiosos de etnografia europeus e por viajantes estrangeiros em geral.

Segundo Pedro Karp Vasquez (1954 – ), Frisch tinha uma grande habilidade técnica, que usou para contornar problemas impossíveis de serem solucionados com o equipamento de que dispunha na época: obter exposição e focos simultaneamente perfeitos tanto do retratado no primeiro plano quanto da paisagem ribeirinha ao fundo. Segundo Karp, empregando “… um astucioso estratagema para realizar os retratos de índios na região do Alto Solimões…”,  Frisch fotografava seus modelos diante de um fundo neutro e produzia separadamente algumas vistas para compor o segundo plano. Para produzir as cópias fotográficas, combinava os dois negativos, alcançando assim o resultado desejado.

 

 

Como mencionado anteriormente, até hoje as fotografias dos índios da região norte do Brasil produzidas por Frisch são consideradas as primeiras que se conhece, apesar de antes dele, em 1843,  o fotógrafo norte-americano Charles DeForest Fredricks (1823 – 1894) ter viajado pelos rios Orenoco e Amazonas. Nessa expedição, alguns daguerreótipos teriam sido produzidos, porém perdidos. Segundo Joaquim Marçal Ferreira de Andrade, um dos curadores da Brasiliana Fotográfica, “… houve ainda o trabalho de fotografia antropométrica, em sua maioria de mestiços da região amazônica, realizado em 1865 – 1866 por Walter Hunnewell em Manaus, a pedido de Louis Agassiz, da Expedição Thayer, hoje arquivados num museu da Universidade de Harvard. O casal Agassiz publicou sua obra A Journey in Brazil em 1868 e dela constam reproduções xilográficas de algumas fotografias de Leuzinger, duas fotos de índios feitas pelo ‘Dr. Gustavo, of Manaos’, mas nenhuma de Frisch”.

Até o final do século XX, o alemão Albert Frisch era um personagem misterioso na história da fotografia. Segundo o site do Instituto Moreira Salles, “…o estudo dos documentos reunidos pela família Leuzinger, doados ao IMS em 2000, e a posterior localização de Klaus Frisch, neto do fotógrafo, pelo pesquisador Frank Stephan Kohl, permitiram reconstituir a trajetória de Frisch”.

 

Cronologia de Christoph Albert Frisch (1840 – 1918)

 

1840 – Christoph Albert Frisch nasceu em Augsburgo, na Baviera, em 31 de maio. Foi criado em um orfanato devido à morte precoce de sua mãe.

Final da década de 1850 – Frisch partiu para Munique, capital da Bavária, onde começou a trabalhar no comércio de arte. Com o apoio de seu empregador, trabalhou como aprendiz em uma litografia em Paris.

Início da década de 1860 – Partiu para Buenos Aires, capital da Argentina, onde tentou, sem sucesso, se estabelecer como comerciante de estampas de imagens religiosas. Trabalhou, então, na região dos Pampas, como professor particular e gerente de um criador de gado.

1863 – Frisch retornou a Buenos Aires onde, aos 23 anos, começou sua carreira de fotógrafo, quando um alemão, que ele havia conhecido em uma taverna, o recomendou para seu empregador, o norte-americano Arthur Terry, dono de um estúdio fotográfico. Poucos meses depois, Frisch foi para o Paraguai abrir um estúdio fotográfico, a pedido do próprio presidente do país, Solano Lopez (1827- 1870).

1864 – Devido à Guerra do Paraguai, Frisch foi para o Rio de Janeiro.

1865 - Começou a trabalhar no recém-inaugurado setor de fotografia da Casa Leuzinger, no Rio de Janeiro.

1867 – Viajou ao Pará como fotógrafo de uma expedição liderada pelo engenheiro alemão Joseph Keller e pelo fotógrafo, desenhista e pintor Franz Keller (1835 – 1890)(Diário do Povo, de 14 de novembro de 1867, na primeira coluna).  Este último era genro de Georges Leuzinger ( 1813 – 1892), considerado um dos mais importantes fotógrafos e difusores para o mundo da fotografia sobre o Brasil no século XIX, além de pioneiro das artes gráficas no país. Transitaram pela região dos rios Madeira e Mamoré, onde o governo imperial pretendia construir uma estrada de ferro. Albert Frisch … percorreu 400 léguas pelo rio Amazonas e seus afluentes durante 5 meses…, num barco acompanhado por dois remadores, desde Tabatinga até Manaus. Produziu na ocasião uma pioneira série de 98 fotografias com os primeiros registros que chegaram até nós de índios brasileiros da região, além de aspectos de fauna e flora e de barqueiros de origem boliviana que atuavam como comerciantes itinerantes nos rios amazônicos.

1868 – Retornou ao sul do Brasil, a bordo do vapor Cruzeiro do Sul (Jornal Pedro II, de 24 de novembro de 1868, na quarta coluna).

1869 – As imagens produzidas por Frisch durante a expedição pela Amazônia começaram a ser comercializadas a partir de um catálogo publicado pela Casa Leuzinger, Resultat d’une expédition phographique sur le Solimões ou Alto Amazonas et Rio Negro.

1870 – Frisch retornou à Alemanha e passou a trabalhar com o fotógrafo alemão Joseph Albert (1825 – 1886), que aperfeiçoou a técnica da colotipia, e com quem aprendeu as mais novas tecnologias de impressão fotomecânica da época.

1871 - Partiu para Nova York, onde continuou trabalhando como fotógrafo.

1872 – Voltou para a Alemanha, onde abriu seu próprio estúdio fotográfico.

1874 – Durante esse ano, Frisch trabalhou por um curto período com o fotógrafo Johannes Nöhring (1834 – 1913), de Lübeck.

Neste ano Franz Keller publicou o livro ilustrado Von Amazonas und Madeira, com gravuras baseadas em desenhos de seu irmão, o professor Ferdinand Keller, realizadas a partir dos esboços originais feitos por Franz na Amazônia.

1875 – Frisch mudou-se para Berlim e abriu o Kunstanstalt Albert Frisch, especializado na produção de reproduções fotomecânicas de alta qualidade. Depois de sua morte, seu filho, também Albert, continuou o negócio.

1918 – Faleceu em Berlim, em 30 de maio.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Link para o artigo Os Miranhas e as fotografias de Albert Frish, de Maria Luísa Lucas, publicado no site do Instituto Moreira Salles, em 17 de dezembro de 2019

 

Fontes:

ANDRADE, Joaquim Marçal Ferreira de. As primeiras fotografias da Amazônia. BN Digital, 2013.

FERREZ, Gilberto; NAEF, Weston J.. Pioneer Photographers of Brazil, 1840-1920. New York: Center for Inter-American Relations, 1976.

FRANCESCHI, Antonio Fernando de. Um jovem mestre da fotografia na Casa Leuzinger. Christoph Albert Frisch e sua expedição pela Amazônia in Cadernos de Fotografia: Georges Leuzinger: um pioneiro do século XIX(1813-1892). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2006.

GÂMBERA, José Leonardo Homem de Mello. Fotografia na Amazônia Brasileira: considerações sobre o pioneirismo de Christoph Albert Frisch (1840-1918). Revista de Programa da Pós-Graduação em Arquitetur ae Urbanismo da FAUUSP,dez de 2013

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional 

KOHL, Frank Stephan. Albert Frisch and the first images of the Amazon to go around the world  in Explorers and Entrepreneurs behind the Camera The Stories behind the pictures and photographs from the image archive of the Ibero-American Institute. Berlim: Ibero-American Instituto, 2015.

KOHL, Frank Stephan. Um jovem mestre da fotografia na Casa Leuzinger: Christoph Albert Frisch e sua expedição pela Amazônia. In: Cadernos de fotografia brasileira, 3. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2006.

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002

MARCOLIN, Neldson. Retratos na Selva, Revista Pesquisa Fapesp, setembro de 2014.

MOURA, Carlos Eugênio Marcondes de. Estou aqui. Sempre estive. Sempre estarei. Indígenas do Brasil. Suas imagens (1505/1955). São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2012

Site da Enciclopédia Itaú Cultural

Site do Instituto Moreira Salles

Site O Índio na Fotografia Brasileira

TACCA, Fernando de. O índio na fotografia brasileira: incursões sobre a imagem e o meio. História, ciências, saúde – Manguinhos – Vol. 18, nº 1, p.191-223. Rio de Janeiro., 2011

TURAZZI, Maria Inez. Poses e Trejeitos: a fotografia na era do espetáculo (1839 – 1889). Rio de Janeiro: Funarte/Rocco, 1995.

VASQUEZ, Pedro Karp. A. Frisch, ladrão de almas na Amazônia Imperial. Piracema – arte e cultura. Rio de Janeiro, nº1, ano 1, p.90-95, 1993

VASQUEZ, Pedro Karp. Fotógrafos alemães no Brasil do século XIX / Deutsche Fotografen des 19. Jahrhunderts in Brasilien. São Paulo: Metalivros, 2000

VASQUEZ, Pedro Karp. O Brasil na fotografia oitocentista. São Paulo: Metalivros, 2003XIX (1813-1892). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2006: 185-203

 

Para uma história social da reprodução fotomecânica

A. Ribeiro. Urca e Pão d’Assucar. c. 1905. Rio de Janeiro / Acervo FBN

No início do século 19, antes mesmo do anúncio das primeiras variantes do processo fotográfico – que empregaram a camera obscura para a obtenção das imagens – diversos de seus pioneiros estiveram envolvidos em esforços para multiplicar ‘fotograficamente’ as estampas (ou gravuras) que ofereciam, até então, a melhor possibilidade de disseminação/circulação de imagens, reproduzidas a partir de matrizes cuja confecção demandava muito trabalho, habilidades específicas e uma série de cuidados.

Mas apenas ao final do século 19, quando aperfeiçoou-se a ‘reprodução fotomecânica’, é que foram viabilizados os primeiros processos de impressão gráfica que possibilitaram a reprodução em massa, com fidelidade e qualidade — através das páginas das revistas, dos livros e depois dos cartões postais — das imagens originalmente obtidas através de processos fotográficos. A fotografia deixa de ser um objeto, um artefato, para tornar-se apenas uma superfície, uma imagem impressa. Foi esta a grande revolução que tornou a imagem fotográfica onipresente — o que foi ainda mais intensificado em tempos recentes, através da revolução digital.

No Brasil, até aqui, avançamos pouco no estudo deste universo específico, tão crucial para que a fotografia viesse a cumprir integralmente o seu papel, em nossa sociedade. Quase nada sabemos sobre os desafios enfrentados pelos empresários e gráficos de então, ao optar por tais processos, seja em seus aspectos tecnológicos, econômicos e de recursos humanos. E tampouco acerca da recepção dos mesmos que, em boa parte, acabaram esquecidos.

Aqui, pretendemos lançar luz sobre um processo que se fez presente no Brasil, com relevo, na virada do século 19 para o 20: a ‘colotipia’ ou ‘fototipia’, um processo de impressão fotomecânica planográfica – na verdade, uma variante da fotolitografia – também baseado na descoberta feita por Poitevin, em 1855, da propriedade que a gelatina bicromatada tem, quando úmida, de absorver mais ou menos tinta de impressão, segundo os graus diversos de endurecimento que adquire, proporcionalmente à quantidade de luz recebida através de um negativo fotográfico. Foi experimentada na pedra, no cobre e consolidou-se quando a matriz de impressão passou a ser produzida sobre uma espessa chapa de vidro.

A colotipia ou fototitpia também foi denominada colografia, gelatinografia ou heliotipia. Ocorrem, ainda, variantes deste processo denominadas por albertipia ou albertotipia, artotipia, aquatone, helioplastia, entre outras.

Importantes empresários e fotógrafos do período (como Henrique Lombaerts, Marc Ferrez e A. Ribeiro) editaram publicações ilustradas, imagens publicitárias e séries de cartões postais fotográficos em colotipia. Este processo proporciona uma impressão de qualidade, com bom contraste, boa gradação tonal e que aparenta tratar-se mesmo de uma imagem fotográfica de tom contínuo, cujo padrão de retícula só pode ser visualizado sob o exame de uma lupa.

Segundo Frederico Porta, em seu indispensável Dicionário de Artes Gráficas, “apesar da perfeição das cópias fototípicas, o processo ficou circunscrito a uns poucos trabalhos especializados, como a impressão de postais, por dois poderosos motivos: tiragem demorada, não ultrapassando da média de umas cinqüenta provas à hora, e precariedade da matriz, que dificilmente suporta mais de mil impressões.”

Nesta galeria, selecionamos alguns exemplos de imagens impressas por este processo, desde o mais antigo exemplo conhecido na imprensa periódica, no Brasil: um fac-símile de manuscrito do escritor Machado de Assis, aparecido em publicação editada por Lombaerts. De Manaus, destaque para o arrojado panorama de George Huebner. De São Paulo, há imagens de Otto Quaas e de Guilherme Gaensly — estas, fazem parte de uma série estupenda, realizada pelo talentoso fotógrafo. Mas a maioria das imagens escolhidas refere-se, mesmo, à cidade do Rio de Janeiro – porque desejamos homenageá-la, nesta passagem dos seus 450 anos. A exuberante arquitetura da loja A Torre Eiffel, cartões postais das séries editadas por A. Ribeiro e alguns dos colótipos produzidos por Marc Ferrez – tudo para nos deixar saudosos de um Rio que passou.

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Curadoria de Joaquim Marçal Ferreira de Andrade/FBN