O fotógrafo amador Guilherme Santos e sua coleção de estereoscopias eróticas

A historiadora Maria Isabela Mendonça dos Santos escreveu para o portal o artigo O erotismo na fotografia e a coleção de estereoscopias eróticas de Guilherme Santos, onde conta um pouco da história desse tipo de imagem, focando na série de fotografias estereoscópicas de nus femininos produzidas pela Richard/Verascope encontrada na coleção Guilherme Santos do acervo fotográfico do Instituto Moreira Salles. Faz parte de um conjunto de cerca de 3000 imagens relacionadas ao fotógrafo adquiridas pelo Instituto Moreira Salles, em 2013.

 

 

Acessando o link para as fotografias de Guilherme Santos disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

 

Guilherme Antônio dos Santos (1871 – 1966) era um entusiasta da fotografia estereoscópica, tendo sido um dos pioneiros dessa técnica no Brasil, ao adquirir, em 1905, na França, o Verascope, um sistema de integração entre câmera e visor, que permitia ver imagens em 3D, produzidas a partir de duas fotos quase iguais, porém tiradas de ângulos um pouco diferentes. Eram impressas em uma placa de vidro e reproduziam a sensação de profundidade de maneira bem próxima da visão real. Antes dele, entre os anos de 1855 e 1862, o “Photographo da Casa Imperial”, Revert Henrique Klumb (1826 – c. 1886), favorito da imperatriz Teresa Christina e professor de fotografia da princesa Isabel, havia produzido vários registros utilizando a técnica da estereoscopia. A Casa Leuzinger também produziu fotografias estereoscópicas. Guilherme Santos se interessou pela técnica, em 1905, quando viajou em férias para Paris e adquiriu um Verascope, após visitar uma exposição de fotografias estereoscópicas e constatar que havia pouquíssimos registros do Brasil. A fotografia passou a ser seu hobby. A maior parte da obra de Santos, que inclui 17.812 mil negativos e 9.310 mil positivos (em vidro), além de 1.302 ampliações em papel feitas a partir dos negativos, está guardada no MIS-RJ.

 

 

O erotismo na fotografia e a coleção de estereoscopias eróticas de Guilherme Santos

 

Maria Isabela Mendonça dos Santos*

 

 

O sucesso mercadológico das estereoscopias eróticas entre as décadas finais do século XIX e as primeiras décadas do século XX é amplamente conhecido e consta em toda bibliografia que trata de fotografia estereoscópica. “Como meio de representação, o estereoscópio era inerentemente obsceno (…) Ele destruía a relação cênica entre espectador e objeto (…) Não é coincidência que, cada vez mais, o estereoscópio tenha se tornado sinônimo de imaginário erótico e pornográfico ao longo do século XIX.”[i]

A Maison Richard, fábrica responsável pela produção das câmeras e vistas estereoscópicas Verascope, foi uma das grandes incentivadoras da estereoscopia erótica, graças aos interesses pessoais do proprietário da marca. Jules Richard foi um amante do erotismo tendo produzido, ele próprio, uma infinidade de fotografias de mulheres nuas e, até mesmo se casando com uma de suas modelos.

 

Acessando o link para as fotografias eróticas da Coleção Guilherme Santos, sob a guarda do Instituto Moreira Salles, disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

Segundo Jorge Leite Jr. a fotografia “pornográfica” nasceu junto aos primeiros daguerreótipos, provavelmente na década de 1840, em Paris. A primeira foto erótica de que se tem registro data de 1850 e foi tirada por Féliz-Jacques-Antoine Moulin, que chegou a ser condenado a um mês de prisão pela produção de imagens do tipo. Reinhard Seufert em seu estudo sobre porno-fotografia, no entanto, afirma que o primeiro nu frontal feminino é de 1860. Até então as mulheres apareciam sempre de costas, com as nádegas expostas. Ainda segundo Leite Jr, no início, as fotografias pornográficas tinham prostitutas como modelos, que as usavam como cartão de visitas para clientes. Outro uso frequente das fotos eróticas era como cartão postal.

O surgimento da cultura de massa na segunda metade do século XIX, contribui significativamente para a publicação de revistas eróticas. Na França, a revista La Vie Parisienne, fundada em 1863, vai se tornar muito popular quando em 1905, seu novo proprietário decide transformá-la em uma publicação erótica. Em termos estéticos, a revista refletiu a estilização da ilustração Art Nouveau e Art Déco, com belos desenhos animados em cores de vários artistas da época. A estética Art Nouveau das ilustrações de La Vie Parisienne vai influenciar, sem dúvidas, as fotografias eróticas do período. A fotografia “pornoerótica” vai acompanhar, desse modo, as tradições dos nus artísticos da pintura, mostrando as mulheres nuas nas posições iguais as dos quadros clássicos.

 

 

Leite Jr. destaca o lesbianismo encontrado nas produções da virada do século, como um exemplo da visão masculina, presente em imagens e textos desde o século XIX. “As mulheres que entregam-se a esse prazer, mostram-se nesses trabalhos sempre disponíveis também para o homem. A prática homossexual entre elas é mostrada mais como um passatempo que uma paixão, pois o prazer verdadeiro é sempre alcançado graças à virilidade masculina.”[ii]

De fato, a série de fotografias estereoscópicas de nus femininos encontradas na coleção Guilherme Santos do acervo fotográfico do Instituto Moreira Salles, comprovam as afirmações de Leite Jr.. Produzidas pela Richard/Verascope, as vistas apresentam mulheres de maneira muito semelhante aos postais de mesmo gênero do período. Muitas são as imagens de mulheres em dupla, ou em grupo, insinuando um lesbianismo descompromissado. Em quartos de decoração romântica, ou em jardins floridos, os estilos Art Nouveau e o Art Déco dominam os cenários em que as fotos eram tiradas. Geralmente as mulheres eram retratadas com acessórios como colares, tiaras ou até mesmo tecidos que cobriam parte do corpo.

 

 

As imagens eróticas da Richard são geralmente reconhecíveis pela localização. Jules Richard costumava produzir seus nus femininos em três locais distintos: numa propriedade que possuía no interior da França, num cabaré frequentado pela classe média francesa, o Tabarin, e num estúdio construído em frente à sua residência parisiense com o propósito de receber e fotografar mulheres jovens, conhecido como L’Atrium.[iii] A arquitetura do local tinha inspiração na Grécia Antiga o que, de acordo com Tomas Weynants, foi uma estratégia utilizada para dar às imagens pornográficas um ar de aceitabilidade artística, uma vez que o nudismo total não era tolerado à época.[iv]

Dificilmente os órgãos genitais aparecem nas imagens, e em nenhuma delas encontramos insinuações do ato sexual propriamente dito. Por conta disso, podemos dizer que as estereovistas da série enquadravam-se mais no estilo  “erótico” do que “pornográfico”, apesar de os limites entre os dois termos ser fluido e, na maioria das vezes, de alta complexidade de definição.[v] Além disso, estamos nos referindo apenas às vistas da Richard. Ou seja, fotografias estereoscópicas de teor mais explícito tiveram uma circulação significativa no período em questão, porém ficaram restritas a um mercado clandestino especial, sujeito a prisões e confisco de coleções.[vi]

 

 

Se o lugar por excelência da fotografia estereoscópica é a sala da família burguesa, a volumosa produção de estereoscopias pornográficas vai assombrar essa mesma família. “Banido da sala de visitas e da mirada familiar, a imagem estereoscópica pornográfica encontra caminho de entrada no domínio masculino exclusivo do drawing room.”[vii] Este “quarto de vestir” constitui aquilo que  identifica como o “lugar de tolerância” das sociedades burguesas da virada do século.[viii] No quarto de vestir, longe das vistas da esposa e dos filhos, o homem burguês podia desfrutar de momentos de prazer, ainda que virtualmente, através da observação de vistas estereoscópicas de temática erótica.

O fotógrafo Guilherme Santos encontrava-se inserido na lógica da família conjugal monogâmica e da pureza moral do corpo social e evidentemente cumpria as normas comportamentais que lhe eram socialmente apresentadas. Estas normas, no entanto, concediam-lhe o direito de frequentar “lugares de tolerância” e colecionar estereoscopias eróticas. Desfrutar destas concessões morais, configuravam não somente uma expressão de masculinidade e virilidade, mas sobretudo, a maneira pela qual o fotógrafo se conduzia moralmente dentro de sua fidelidade conjugal. A presença de uma coleção robusta de estereoscopias eróticas da Richard no acervo de Guilherme Santos, nos revela desde já, aspectos de sua subjetividade e de sua inserção na sociedade burguesa da virada do século. Mas este é assunto para outro artigo.[ix]

 

 

*Maria Isabela Mendonça dos Santos é  Doutora em História pela Universidade Federal Fluminense.

 

[i] CRARY, Jonathan. Técnicas do observador: Visão e modernidade no século XIX. Rio de Janeiro: Contraponto, 2012. P. 125.

[ii] LEITE JR., Jorge. Das maravilhas e prodígios sexuais: a pornografia bizarra como entretenimento. Annablume: São Paulo, 2006. P.69.

[iii] Informação extraída de: http://www.ignomini.com/photographica/stereophotovintage/richardnudes/richardnudes.html. Último acesso em 23/01/2019 às 21:00 h.

[iv] Disponível em: http://users.telenet.be/thomasweynants/jules-richard.html: Último acesso em 24/01/2019 às 14:00 h.

[v] Ver: CARDOSO, Erika Natasha. Carlos Zéfiro e os discursos morais no Brasil (1950 – 1970). Dissertação. (Mestrado em História) Universidade Federal Fluminense: Niterói, 2014.

[vi] PARENTE, José Inácio. A estereoscopia no Brasil. Rio de Janeiro: Sextante, 1999. P. 14.

[vii] ADAMS, Gavin. A mirada estereoscópica e a sua expressão no Brasil. Tese (Doutorado em Comunicação e Estética do Audiovisual) Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2004. p. 7.

[viii] FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: A vontade de saber. São Paulo: Paz e Terra, 2014.

[ix] Para mais informações sobre a vida e a obra de Guilherme Santos ver : SANTOS, Ma. Isabela M. dos. A mirada estereoscópica de Guilherme Santos: Cultura Visual na cidade do Rio de Janeiro Séculos XIX e XX. 2019. Tese (Doutorado em História) – Instituto de História da Universidade Federal Fluminense, Niterói (RJ).

 

 

 Cronologia de Guilherme Antônio dos Santos

Andrea C. T. Wanderley**

1871 – No Rio de Janeiro, em 12 de fevereiro, nasceu Guilherme Antonio dos Santos, cuja família residia na Rua do Rezende. Seu pai era o joalheiro José Antonio dos Santos (? – 1905).

1883 - No encerramento das aulas do Colégio Aquino, onde fez seus estudos, Guilherme Santos e Escragnolle Doria (1869 – 1948) receberam do imperador Pedro II medalhas por terem respondido “com prontidão e segurança a todas as suas perguntas sobre História do Brasil” (Correio da Manhã, 31 de maio de 1952).

1896 – Guilherme casou-se com Maria Mendonça dos Santos, conhecida como dona Mariquinhas. Tiveram quatro filhos: Guilherme dos Santos Júnior (? – 1980), médico que foi diretor do Souza Aguiar e do Hospital Paulino Werneck; Amália Santos Pinto da Silva (? – 1986), Manoel Antônio dos Santos , que sempre trabalhou com o pai na representação dos cofres belgas Fichet; e Francisca Mendonça dos Santos (1901 – ?) . Os filhos estudaram no Colégio São Vicente de Paulo e as filhas no Colégio Santa Isabel, em Petrópolis.

dezembro de 1898 – A joalheria e galeria de arte Luiz de Rezende & Cia, cujo um dos sócios era o pai de Guilherme Santos, José Antonio dos Santos, foi roubada. Ficava na rua do Ouvidor 88 e 89 e na rua Ourives 69 ( Gazeta de Notícias, 6 de dezembro de 1898, na última coluna e  Jornal do Brasil, 19 de dezembro de 1903, na sétima coluna, sob o título “O buraco do Rezende”). Anteriormente, a joalheria chamava-se Santos Moutinho e Cia. Na época do roubo, que teve grande repercussão, Guilherme Santos morava no último andar da loja.

1901 – Guilherme Santos foi empossado no conselho da Sociedade Animadora da Corporação dos Ourives (Jornal do Brasil, 31 de julho de 1901, na última coluna). Nasceu sua filha caçula, Francisca, (Jornal do Brasil, de 16 de dezembro de 1901, na quarta coluna). Nos Almanak Laemert de 1901190219031904, 19051906 e 1907, Guilherme e seu irmão, Francisco Antonio, aparecem como dois dos sócios da joalheria Luiz de Rezende & Cia. Luiz de Rezende ( – 1927) era português e foi com o pai de Guilherme Santos, José Antônio, que ele aprendeu a ourivesaria.

1905 / 1906 – No Almanak Laemert de 1905, Guilherme Santos aparece como o 2º secretário da Sociedade Animadora da Corporação dos Ourives. Viajou para Paris com a família para, a conselho de seu pai, se tratar de um estado de nervosismo permanente ocasionado pelo roubo à joalheira em 1898. Cuidou-se com um tratamento de auto-sugestão cujo lema era “Hoje sob todos os pontos de vista vou cada vez melhor”. Interessou-se pela técnica da estereoscopia e adquiriu um equipamento Verascope, da Maison Richard, após visitar uma exposição de fotografias estereocópicas no Grand Palais. Lá constatou que havia pouquíssimos registros do Brasil, todos de mulheres negras vendendo abacaxis. Santos começou a praticar a fotografia amadora e foi em Portugal que produziu seu primeiro registro, no pinhal de Caldas da Rainha. Seu pai, José Antonio dos Santos, faleceu (Correio da Manhã, 20 de maio de 1952).

1907 – Provavelmente, foi um dos proprietários do Cinema Pavilhão Progresso, na rua Hadock Lobo, 16. O cinema foi inaugurado em 31 de outubro de 1907 (Jornal do do Brasil, 30 de outubro de 1907, na primeira coluna).

1920 – Guilherme Santos morava na rua Conde de Bonfim, 86, na Tijuca.

1922 – Santos cedeu ao então ministro do Exterior, José Manuel de Azevedo Marques (1865 – 1943), milhares de reproduções estereográficas de quadros da natureza brasileira que foram distribuídas aos estrangeiros que vieram representar seus países nas comemorações do centenário da independência do Brasil. Deixou de trabalhar na Casa Luiz de Rezende ( Correio da Manhã, 20 de maio de 1952).

1923 – Foi criado o Photo Club Brasileiro, uma associação de fotógrafos, no Rio de Janeiro, pelos associados do Photo Club do Rio de Janeiro, fundado em 1910, que se juntaram a fotógrafos de arte para debater as relações entre fotografia e arte. O Photo Club Brasileiro promovia cursos, concursos, exposições e excursões. Publicou as revistas Photo Revista do Brasil (1925 – 1926) e Photogramma (1926 – 1931). Também organizava salões anuais, o primeiro deles inaugurado em 4 de julho de 1924, no Liceu de Artes e Ofícios (artigo de Fernando Guerra Duval, na Gazeta de Notícias, 9 de julho de 1924), além de divulgar novas técnicas e estéticas, mantendo correspondência com sociedades internacionais de fotografia. Até o fim da década de 1940, foi uma instituição fundamental na difusão da ideia da fotografia como arte. Uma matéria da revista Para Todos, de 17 de setembro de 1927, sobre a quarta exposição anual do Photo Club ilustrava essa função primordial da associação. Alguns de seus membros de destaque foram Alberto Friedmann, Barroso Neto, Fernando Guerra Duval, Herminia Borges, João Nogueira Borges, Oscar de Teffé e Silvio Bevilacqua.

maio de 1925 –  Guilherme Santos tornou-se membro do Photo Club Brasileiro. Publicou na edição de lançamento da Photo Revista do Brasil, órgão oficial da associação, o artigo “Photographia Estereoscópica”. No expediente da revista, aparece como um de seus principais colaboradores. E, nas páginas dedicadas às notícias do Photo Club, que acabava de se instalar em uma nova sede, na rua 13 de maio, 35, aparece como um dos membros recentes da associação. O presidente e o vice-presidente do Photo Club Brasileiro eram Alberto Friedmann e Fernando Guerra Duval, respectivamente.

 

“Photographia Estereoscópica”

Por Guilherme A Santos

Confeccionar uma photographia é quasi sempre reconstruir uma recordação!

Nenhuma outra photographia trabalhada pelos processos conhecidos, pôde dar-nos tamanha satisfação, produzir-nos impressão tão viva  e tão nitida daquilo que quizermos recordar como a photographia estereoscopica! Seja o retracto de um ente querido, seja uma paysagem, ou ainda uma reunião de família, cujo objecto exprima um momento feliz da nossa existencia!

A sensação do relevo e da perspectiva que nos dá um positivo sobre vidro, copia de um cliche estereoscopico, introduzido no instrumento apropriado, é inegualavel! inconfundivel! incomparavel!

Ao olhar, apresentam-se as imagens das creaturas, da Natureza ou dos objectos, com a expressão a mais perfeita e verdadeira , mostrando-nos em destaque todos os planos que as objectivas colheram na extensão do angulo focal!

Como passa tempo, o que é possível de encontrar que seja mais agradável, mais divertido do que os positivos sobre vidro da photoestereoscopia!?

Reunidos em família e acompanhados de bons amigos sentados em redor de uma mesa, passa-se de mão em mão o apparelho estereoscópicos exibindo as differentes séries de positivos! Algumas, despertando recordações aos que, num afogar de saudades revêem os bons momentos que passaram, contemplando imagens de creaturas que talvez nunca mais encontrem no caminho da vida e que fizeram a delícia daqueles momentos, em uma estação de águas, em uma excursão, em cidades de verão, a bordo de um transatlântico, na convivência íntima de uma longa viagem, etc.

Outras séries apresentando o esplendor da Natureza em grandes quadros compostos com senso esthético, com observação artística que estasiam, que empolgam e que nunca cançaríamos de contemplar são photografias que provam como é impossível negar o extraordinário poder que tem a natureza, de impressionar e fazer vibrar a alma das creaturas com suas majestosas creações!

Nesse particular a nossa terra recebeu do CREADOR um dote precioso, o qual infelizmente em vez de ser transportado para as chapas da photographia por meio das objectivas dos differentes apparelhos, tem o homem esbanjado e destruido quasi inconscientemente sem considerar o grande mal que causa ao bem commum e sem reflectir no crime que pratica!

Disse PAULO MANTEGAZZA, capitulo IV no “O LIVRO DAS MELANCHOLIAS” de uma forma encantadora e com a alma amargurada: que se conhecesse DEUS, dir-khe-hia que na sua infinita misericordia, perdoasse todos os peccados dos homens e reservasse toda a sua ira, toda as suas vinganças, tododos seus raios, para o homem que destróe uma “FLORESTA”!!…

Faço minhas as palavras do primoroso escriptor, mas accrescento que o homem que dedicar-se á photographia, de preferenciaa estereoscopica, no contacto intimo e constante que ele tiver com a NATUREZA, quando a tiver estudado bem, irá lentamente habituando-se a apreciar devidamente a sua obra grandiosa, sentirá despertar em sua alma, sentimentos delicadosque até então desconhecia e difficilmente será capaz de derrubar uma arvore ou consentir que alguem o faça em sua presença!

A falta de amor e o abandono ás nossa bellezas naturaes é patente! Cito um exemplo mui recente:

Por uma destas lindas manhãs de ABRIL (era dia feriado) percorremos uma parte da estrada que liga o ALTO DA BOA VISTA ao SUMARÉ.

É uma das maravilhas da TIJUCA! A vegetação é abundante e variada e conta-se ás dezenas, arvores gigantescas cujas ramadas projectam sombras extensas sobre o caminho!

O sol imprimia uma luz de oiro sobre o verde esmeralda do arvoredo e fazia pensar que foi a NATUREZA quem inspirou os nossos antepassados sobre a escolha das cores para a nossa bandeira!

Caminhamos cerca de 6 kilometros ida e volta e gastamos cerca de 5 horas. Pois bem, nesse demorado percurso, cruzamos com 3 outros grupos de excursionistas, todos elles, compunham-se de estrangeiros!

Nem um brasileiro! nem um amador da photographia! Digo, encontramos um brasileiro, que empunhando uma vara que tinha um sacco de gaze preso a uma das extremidades, caçava as lindas borboletas azues de grandes azas que faziam o encanto daquellas paragens! aquelle rapaz de 20 annos presumives, de bella estaturaphysica, fazia-o como meio de vida! Contamos estendidas sobre um jornal, 20 daquellas borboletas, apanhadas em menos de uma hora! Pobrezinhas! a  NATUREZA limitou-lhes curtíssima existência, nem mesmo a essas deixam viver!

Creio ser o momento de ser transformada essa situação. A Photo-Revista vem preencher uma lacuna e acreditamos que uma campanha sustentada com perseverança por todos os seus collaboradores, daria bom resultado, no sentido de desenvolver o gosto dos brasileiros pela arte photographica: talvez conseguíssemos convence-los de trocar uma ou outra vez (às horas de ócio) os encantos do lar doméstico, pelos encantos naturaes, lembrando-lhes que em companhia de nossa família e em contacto com a floresta, também construímos lares provisorios sob a benção da mãe de tudo e de todos que é a NATUREZA!

(Photo Revista do Brasil, vol 1, maio de 1925, pg 14)

Além disso, a fotografia da capa era de sua autoria (O Brasil, 31 de maio de 1925, na sexta coluna, sob o título “Publicações”). E, na mesma edição da revista, foi publicada uma propaganda das fotografias estereoscópicas de Guilherme. O endereço, rua Buenos Aires, 93, é o mesmo do escritório dos cofres belgas Fichet, empresa que ele representava no Brasil. Posteriormente, o escritório foi transferido para a rua do Rosário, 146.

1937  Resumo do assalto ocorrido na Casa Luiz de Rezende, em 1898, com retratos dos sócios Luiz de Rezende e José Antonio dos Santos, pai de Guilherme (Noite Illustrada, 25 de maio de 1937).

1942 – Publicação da matéria “Rio desaparecido”, de Escragnolle Doria, sobre a importância dos arquivos fotográficos de Augusto Malta e Guilherme Santos (Revista da Semana, 30 de maio de 1942).

1945 – Publicação no Boletim de Belas Artes de outubro de um artigo sobre o desmonte do Morro do Castelo com entrevista de Guilherme Santos (Correio da Manhã, 8 de maio de 1952).

1950 – Publicação de matéria elogiando a coleção de fotografias de Guilherme Santos (Jornal do Brasil, 24 de março de 1950, na última coluna sob o título “Belas Artes). Publicação de uma reportagem de Walter Sampaio sobre o “Arquivo Guilherme dos Santos”. Na matéria, Santos revelou ter vontade de “expor em um museu o seu valioso arquivo histórico e estereoscópico nacional”. (A Noite Ilustrada, 1º de agosto de 1950).

1951  O Departamento de História e Documentação do Rio de Janeiro examinou a coleção fotográfica de Guilherme Santos (O Malho, setembro de 1951).

1952 – Faleceu sua esposa, Maria Mendonça dos Santos, em 26 de maio ( Correio da Manhã, 30 de maio de 1952, na primeira coluna). Na coluna “Pequenas Reportagens”, é lembrado um artigo do Boletim de Belas Artes de outubro de 1945, onde Guilherme Santos comentava seus registros fotográficos do desmonte do Morro do Castelo (Correio da Manhã, 8 de maio de 1952). Na mesma coluna, foi publicada uma matéria sobre Guilherme Santos ( Correio da Manhã, 20 de maio de 1952). Finalmente na coluna de 31 de maio de 1952, o assunto foi a coleção de fotografias de Santos.

 

 

1954 –  Às vésperas do Natal, a sede da G.A. Santos & CIA, localizada na Rua do Rosário, 146, sofreu um incêndio. A única coisa resgatada foi o acervo de fotografias de Guilherme que estava dentro de um cofre à prova de fogo. Foi devido a esse fato que Santos decidiu vender sua coleção de fotografias (Correio da Manhã, 24 de dezembro de 1954).

1956 – Na primeira página do Jornal do Brasil, foi publicada a matéria “O Rio de Janeiro através da estereoscopia”, assinada por Augusto Maurício, sobre a coleção de fotografias de Guilherme Santos ( Jornal do Brasil, 27 de maio de 1956).

1964 – A Coleção Guilherme Santos foi adquirida pelo Banco do Estado da Guanabara, em 28 de abril de 1964, para iniciar, juntamente com a coleção de fotografias de Augusto Malta (1864 – 1957), o acervo do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro. O contrato de compra e venda foi assinado pelo filho e procurador de Guilherme, Manoel Antônio dos Santos.

1965 – Inauguração do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, em 3 de setembro de 1965 (Diário de Notícias, 2 de setembro de 1965). A maior parte da obra de Santos, que inclui 17.812 mil negativos e 9.310 mil positivos (em vidro), além de 1.302 ampliações em papel feitas a partir dos negativos, está sob a guarda da instituição.

janeiro de 1966 – Guilherme Santos faleceu em 26 de janeiro, na casa de sua filha Francisca, na Ilha do Governador. Na época, ele morava na rua Cesário Alvim, 39. Anúncio da missa de sétimo dia de Guilherme Santos (Diário de Notícias, 30 de janeiro de 1966).

1984 – Fotografias do Rio Antigo de autoria de Guilherme Santos fizeram parte da exposição “19 anos do Museu da Imagem e do Som” (Última Hora, 27 de dezembro de 1984, na última coluna).

2013 – Um conjunto de cerca de 3000 imagens produzidas pelo fotógrafo foi adquirida pelo Instituto Moreira Salles, em 2013.

 

Links para artigos publicados na Brasiliana Fotográfica sobre o fotógrafo Guilherme Santos e sobre estereoscopia

 

O fotógrafo Guilherme Santos (1871 – 1966), publicada em de julho de 2016

A viagem dos reis da Bélgica ao Brasil sob as lentes de Guilherme Santos, publicada em 26 de setembro de 2016

A estereoscopia e o olhar da modernidade, de Maria Isabela Mendonça dos Santos, publicada em 29 de maio de 2019

 

**Andrea C. T. Wanderley é editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica.

 

Cartões de visita – cartes de visite

André Adolphe-Eugène Disdéri. Autorretrato, c. 1860. Paris, França. Acervo da Reunion des Musées Nationaux.

A troca de cartes de visite – cartões de visita fotográficos – foi um dos grandes modismos da segunda metade do século XIX e deu origem a outro modismo: os álbuns de fotografia. E foi a febre do retrato fotográfico, por sua vez, que solidificou a fotografia no Brasil e no mundo. Os cartes de visite eram trocados entre amigos,familiares e colecionadores, que com eles se confraternizavam. Conferiam ao fotografado um certo status social e, muitas vezes, continham dedicatórias e eram datados. A fotografia tornava-se, assim, parte da vida do homem moderno.

“Os cartes de visite, como todos sabem, tornaram-se a moeda social, os dólares da civilização”. A frase do escritor norte-americano Oliver Wendell Holmes (1809-1894) foi escrita, em 1863, e evidencia a popularidade desse formato de fotografia em todo o mundo.

André Adolphe-Eugène Disdéri (1819-1889), em 27 de novembro de 1854, patenteou sua invenção com o nome de carte de visite: uma câmara fotográfica com quatro lentes para obter oito retratos em apenas uma chapa de vidro; as primeiras 4 fotos eram expostas, a chapa se deslocava e permitia a exposição das outras 4 fotos.

Os cartes de visite apresentavam uma fotografia de cerca de 9,5 x 6 cm montada sobre um cartão rígido de cerca de 10 x 6,5 cm. A copiagem era feita geralmente com a técnica de impressão em albumina. O invento permitiu a produção em massa de fotografias.

O apogeu da popularidade dos cartes de visite começou, em 1859, quando, no dia em que partia para a Itália, em 10 de maio, Napoleão III parou no estúdio de Disdéri, em Paris, para ser retratado. No dia seguinte, já havia filas na porta do ateliê fotográfico. O entusiasmo em torno desses retratos era enorme e o sucesso do luxuoso ateliê de Disdéri, reputado, na década de 1860, como o fotógrafo mais rico do mundo, foi descrito por um viajante alemão como o verdadeiro templo da fotografia. Ainda, segundo esse relato, Disdéri vendia “todos os dias de 3 a 4.000 francos de retratos e empregava 90 pessoas que realizavam mais de duas mil fotografias por dia”.

Câmara de múltiplas objetivas introduzida por Disdéri para a produção de fotografias no formato carte de visite. Fonte: Imaging Resource

Em Nova York, os cartes de visite começaram a circular, provavelmente, no verão de 1859, introduzidos pelo fotógrafo Charles DeForest Fredricks (1823-1894). A Guerra Civil norte-americana (1861 – 1865) deu grande impulso aos cartes de visite – os soldados e suas família se faziam retratar antes de serem separados pelo conflito. Na Inglaterra, a venda de cartes de visite era muit0 grande e a própria Rainha Vitória (1819 – 1901) formou mais de 100 álbums de retratos de membros da família real e de pessoas socialmente importantes.

O declínio do formato carte de visite aconteceu a partir da década de 1870, quando começou a ser suplantado pelo cartão cabinet (gabinete), que surgiu na Inglaterra, em 1866. Era um pouco maior: apresentava fotografias de cerca de 9,5 x 14cm montadas sobre cartões rígidos de cerca de 11 x 16,5 cm.

No Brasil, um panorama sobre a expansão do retrato de estúdio pode ser obtido através do Dicionário Histórico-Fotográfico Brasileiro, de Boris Kossoy, e editado pelo Instituto Moreira Salles, em 2002. Segundo o autor:

“Foram investigados a modesta expansão da atividade no período da daguerreotipia (entre 1840 e 1858,  aproximadamente) e o caráter itinerante dos pioneiros, estrangeiros na sua grande maioria, que para este lado do mundo se aventuravam em razão, inclusive, da forte concorrência em seus países de origem  e que, após reunir algum pecúlio, embarcavam de volta. Foi demonstrado também o progressivo desenvolvimento da atividade a partir da década de 1860 em virtude , por um lado, da introdução de novos processos e de técnicas fotográficas baseadas no princípio do negativo-positivo, que, barateando os custos de produção do retrato fotográfico, o tornaria acessível a um público maior. Por outro lado, assiste-se a um progresso econômico: multiplicam-se as ligações ferroviárias, a imigração européia é incentivada, transformam-se as feições dos mais importantes centros urbanos, há, enfim, um efetivo crescimento de uma classe média nas maiores cidades, particularmente no Rio de Janeiro, sede da Corte e, mais tarde, da República. A clientela, nesta altura, já teria um perfil diferente daquele dos primeiros tempos da daguerreotipia, quando o retratado era, via de regra, um representante da elite agrária ou da nobreza oficial.

Nas últimas décadas do século avolumava-se o número de estabelecimentos fotográficos em virtude da nova clientela constituída de comerciantes urbanos, professores, profissionais liberais, funcionários da administração, entre outros elementos de uma classe que almejava ter sua imagem perpetuada pela fotografia”(pg.11-12).

Importante contribuição para o desenvolvimento da fotografia brasileira no século XIX, o título de Photographo da Casa Imperial, foi agraciado por dom Pedro II a diversos fotógrafos, muitos deles de estúdios fotográficos de renome no período como Buvelot & Prat, Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912), Stahl & Wahnschaffe, José Ferreira Guimarães e  Henschel & Benque.

Galeria dos cartes de visite

Acessando o link para as fotografias de cartes de visite disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002. 408 p., il. p&b.

KOSSOY. Boris. Fotografia & História. 2. ed. rev. – São Paulo: Ateliê Editorial, 2001.

MAUAD, Ana Maria. Através das Imagens: Fotografia e História InterfacesTempo, Rio de Janeiro, vol. 1, nº 2, 1996.

VASQUEZ, Pedro Karp. Dom Pedro II e a fotografia no Brasil. Rio de Janeiro: Fundação Roberto Marinho, 1985.

Site da Enciclopédia Itaú Cultural

Site do The American Museum of Photography