Série “Feministas, graças a Deus!” I – Elvira Komel (1906 – 1932), a feminista mineira que passou como um meteoro

Série “Feministas, graças a Deus!” I – Elvira Komel

 

A Brasiliana Fotográfica inaugura hoje a série “Feministas, graças a Deus!” com a publicação de um artigo sobre a advogada e sufragista mineira Elvira Komel (1906 – 1932), líder do movimento feminista em Minas Gerais, na década de 1920 e no início da de 30, e , com seu espírito ativo e inteligência brilhante, uma das mais destacadas militantes do feminismo no Brasil e um dos expoentes da intelectualidade mineira de sua época. A ideia da série surgiu a partir da proposta da pesquisadora Maria Silvia Pereira Lavieri Gomes, do Instituto Moreira Salles, de escrever sobre Elvira. Seu artigo, seguido de uma cronobiografia elaborada pela editora do portal, Andrea C. T. Wanderley, abre a série.

A proposta de Maria Silvia surgiu quando ela assistiu à última mesa do seminário online “Do ponto de vista do antropólogo”, “Arquivos de Mulheres e memória visual”, apresentada por Carolina Alves e Adelina Novaes e Cruz, ambas pesquisadoras do CPDOC, da Fundação Getúlio Vargas, em 29 de junho de 2020. A série “Feministas, graças a Deus!” pretende dar visibilidade à trajetória de mulheres que trabalharam vigorosamente pelas conquistas femininas e pelo desenvolvimento do Brasil. Muitas vezes, a história não lhes faz jus.

A fotografia em destaque pertence ao fundo Federação Brasileira pelo Progresso Feminino – FBPF -, do Arquivo Nacional, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica. O fundo possui quase 500 fotografias e evidencia, segundo as historiadoras Claudia Beatriz Heynemann e Maria do Carmo Rainho, a rede formada por mulheres em várias partes do mundo – dos Estados Unidos à Turquia, da Argentina à República Tcheca – na luta por seus direitos, por trabalho, educação, mas, sobretudo, por representatividade política através do voto. Elas são as autoras do artigo Memória das lutas feministas, embrião desta série, publicado na Brasiliana Fotográfica, em 8 de agosto de 2017.

 

Elvira Komel (1906 – 1932), a feminista mineira que passou como um meteoro

 Maria Silvia Pereira Lavieri Gomes *

 

Primeira advogada mulher no Fórum de Belo Horizonte, sufragista e primeira eleitora mineira, alistada em 1928, Elvira Komel apoiou a Revolução de 1930, publicando nos jornais manifestos dirigido às mulheres, convocando-as a integrar o Batalhão Feminino João Pessoa, que fundou para servir de base de apoio ao movimento na capital mineira. Defendeu também a luta pela educação formal feminina liderando congressos e encontros. Sua breve trajetória foi marcada pelo engajamento nas bandeiras feministas e movida pelo sentimento de construção de um novo Brasil. Ela se posicionou na contramão de juristas que valorizavam a proteção oferecida às mulheres pelo casamento, que fornecia aparência e fazia perpetuar subserviência e obediência.

 

 

No retrato acima destacado, produzido no estúdio do fotógrafo J. Bonfioti, em 1928, Elvira aparece de cabelos curtos, a la garçonne, prático e moderno, como ditava a moda. Essa nova estética buscava simbolizar a independência feminina, a mentalidade moderna.

Elvira Komel nasceu em São João do Morro Grande, hoje município Barão de Cocais, em 24 de junho de 1906, filha de Ernest Komel, austríaco, especialista em montagem hidráulica e usinas elétricas; e da mineira Marieta Correia Guedes. Cursou o ensino primário em sua terra natal e, entre 1921 e 1924, fez o curso ginasial em Viçosa, para onde sua família havia se mudado. Revelou-se uma excelente aluna. Foi para o Rio de Janeiro onde, com apenas 19 anos, em 10 de janeiro de 1925, prestou vestibular para Direito. Graduou-se em Ciências Jurídicas e Sociais, na Universidade do Rio de Janeiro, em novembro de 1929. Foi apontada como a “leader do movimento feminista” de Minas Gerais (Diário Carioca, 8 de janeiro de 1930, primeira coluna).

 

 

 

Voltou para Belo Horizonte e foi morar com os pais no bairro da Floresta. Foi a primeira advogada a atuar em Minas Gerais, no Fórum da Comarca de Belo Horizonte, enfrentando juízes conservadores da época, inclusive o então promotor de Justiça, pronuncia, futuro ministro de Relações Exteriores e constituinte em 1988. Segundo Alberto Deodato, “ela teve grande atividade forense, enfrentando em vários júris o promotor Afonso Arinos de Mello Franco, que levou dela sempre a pior.” [i] No depoimento de Afonso Arinos prestado à historiadora Lélia Vidal para o livro Elvira Komel: Uma estrela riscou o céu, afirmou acreditar “que a formação feminista de Elvira teve o seu forjamento no âmbito universitário, pois naquele tempo já se discutia o voto feminino no Rio de Janeiro. Já a mulher mineira era mais do lar, recatada e não participava dos movimentos organizados em prol de seus direitos”. [ii]

Outra bandeira defendida com entusiasmo por Elvira era a educação feminina, fato que fica evidenciado na conferência pronunciada por ela na Radio Club, “Pela educação da mulher brasileira”, e publicada na íntegra no O Jornal, 05 de janeiro de 1930.

 

 

Durante a Revolução de 30, liderada por Getúlio Vargas (1882 – 1954), cuja esposa, Alzira Vargas (1914 – 1992), era sua amiga, Elvira fundou o Batalhão Feminino João Pessoa e seu empenho na causa conseguiu reunir legiões de mulheres em toda Minas Gerais, “de  fardas de brim cáqui e confeccionando a bem da Revolução mais de quatro mil fardamentos para os soldados e servindo nos hospitais de sangue da Capital e dos municípios mineiros, além de terem como obrigatória a instrução militar feminina. Eram mulheres de todas as classes e profissões sociais, incluindo 300 enfermeiras práticas, postas à disposição da Saúde Pública (através de aquiescência do secretário da Saúde, Dr. Ernani Agrícola) e bem comandadas pela inesperada comandante.”[iii]

Foi publicada na primeira página de O Jornal, 15 de novembro de 1930 sob manchete “A colaboração da mulher mineira no movimento revolucionário” uma reportagem completa sobre o Batalhão Feminino.

 

 

O Batalhão Feminino João Pessoa, nome escolhido em homenagem ao Governador da Paraíba que morrera assassinado durante a Revolução de 30, possuía oito mil seguidoras em 52 municípios do Estado de Minas Gerais, sendo 1.200 em Belo Horizonte. No desfile das forças militares realizado no Rio de Janeiro em 15 de novembro, em comemoração à Proclamação da República, o Batalhão da Komel, representado por 75 mulheres, comandadas por Elvira foi uma grande atração (Diário Carioca e o Diário de Notícias, ambos de 15 de novembro de 1930; Jornal do Brasil, 16 de novembro de 1930).

 

 

 

No Rio de Janeiro, ainda participou da inauguração da Praça João Pessoa, onde ficava a Praça dos Governadores (Jornal do Brasil, de 20 de novembro de 1930).

É importante lembrar que a louvação do militarismo e patriotismo, presentes fortemente ideário de Elvira e de suas companheiras, se ajustava à atmosfera carregada do pré-guerra europeu e da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), na ampla mobilização social desejada pelos intelectuais de sua época. O que não impedia que elas fossem muito hostilizadas por questões de gênero, a exemplo da publicação da revista Careta.

 

 

 

No dia 23 de novembro de 1930, na sede do América Futebol Clube, na rua dos Caetés, 343, no centro de Belo Horizonte, Elvira Komel transformou o batalhão feminino na Associação Feminina João Pessoa (AFJP). A reunião preparatória para a fundação da AFJP determinou uma comissão elaboradora dos estatutos: Celina Coelho, a bacharelanda Elza Pinheiro Guimarães; as farmacêuticas Zinah Coelho Júnior e Elvira Poch; as professoras Olympia Duarte, Diva Magalhães, Esmeralda Alves e Irene Dias. Adeptas de 52 municípios mineiros receberam ofícios da Comandante Komel comunicando o início da Associação Feminina João Pessoa e autorizando e estimulando as a fundação de centros municipais e centros filiais nos bairros de Belo Horizonte, por professoras.

 

 

Em janeiro de 1931, esteve no Rio de Janeiro com a também sufragista e advogada gaúcha Natércia da Silveira, e se encontraram com o ministro do Trabalho, Lindolpho Collor (1890 – 1942), com Oswaldo Aranha, ministro da Justiça e Assuntos Internos, e com outras autoridades para pleitear a igualdade de direitos entre os sexos, reivindicando para as mulheres o direito ao voto e as honras militares de oficiais do Exército (Jornal do Brasil, 14 de janeiro de 1931, primeira coluna).

Foi a presidente do I Congresso Feminino Mineiro, em Belo Horizonte, entre 21 e 2de junho de 1931, com a participação de representantes de municípios mineiros, do Espírito Santo, de Goiás, da Paraíba, do Rio Grande do Sul, e da Aliança Nacional de Mulheres, fundada por Natércia Silveira, 1ª vice-presidente do evento. A primeira-dama Alzira Vargas foi a presidente de honra do congresso. Na ocasião, foram discutidas questões de interesse das mulheres, inclusive a equiparação dos direitos da mulher ao do homem perante à legislação nacional. Foi também votada e aprovada por unanimidade uma moção de solidariedade ao governo de Getúlio Vargas.  O congresso foi encerrado em 29 de junho (Correio da Manhã, 6 de junho de 1931, segunda coluna; Correio da Manhã, 23 de junho de 1931, terceira coluna; Correio da Manhã, 30 de junho de 1931, sétima coluna; Diário Carioca, 14 de agosto de 1931, última coluna). Um pouco antes, em 11 de junho, a brasileira Odete Carvalho (1904 – 1969) participou da Conferência Internacional do Trabalho, em Genebra, conselheira técnica governamental;  e, em 19 de junho de 1931, havia sido inaugurado o II Congresso Internacional Feminista, no Rio de Janeiro, sob a direção de Bertha Lutz (1894 – 1976).

 

 

Fundou, em 1931, o Partido Liberal Feminino Mineiro, uma fusão da Associação Feminina João Pessoa e da Legião Feminina, “formando uma única corporação com finalidades amplas: sociais, humanitárias, cívicas e políticas. O nosso programa visa proteger a mulher, trabalhar pela sociedade e pela pátria, colaborando, também, na realização do programa revolucionário, para que a República Nova se torne realidade” (Correio da Manhã, 24 de setembro de 1931, primeira colunaA Noite, 7 de outubro de 1931, quarta coluna).

 

 

Finalmente, através do Decreto nº 21.076, de 24 de fevereiro de 1932, que instituiu o Código Eleitoral Provisório, foi reconhecido o direito de voto às mulheres. Em julho do mesmo ano, Elvira foi para Juiz de Fora, onde proferiu diversas palestras sobre a Revolução de 30 e seu caráter político, preparando-se para a sua candidatura ao senado estadual (deputada estadual). Voltando para Belo Horizonte, sentiu fortes dores de cabeça e, vítima de meningite, faleceu no dia 25 de julho de 1932, com apenas 26 anos de idade, sendo sepultada no Cemitério do Bonfim, na capital mineira (Jornal do Brasil, 27 de julho de 1932; Correio da Manhã, 27 de julho de 1932, sexta coluna). Este laudo foi contestado por sua família, que atribuiu sua morte precoce a um aneurisma cerebral.

A morte inesperadamente a vem colher no desdobramento de um programa de úteis iniciativas em prol da causa feminina, que a Dra. Elvira Komel defendia com desassombro[iv].

                                                                                                                                   Jornal Minas Gerais de 27 de agosto de 1932

 

Os amigos de Elvira, Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, Cyro dos Anjos, Edmundo Hass, Olinto Fonseca e Alberto Deodato lamentaram sua morte.

 

[i] DUARTE, CARMO & LUZ in Mulheres em Minas: Lutas e Conquistas. Conselho Estadual da Mulher de Minas Gerais – 25 anos. Belo Horizonte: Imprensa Oficial. 2008, p 270

[ii] Idem, p 271

[iii] Idem, p 271

[iv] Idem, p 272

 

*Maria Silvia Pereira Lavieri Gomes é historiadora e é desde 2014 pesquisadora responsável pelo acervo do embaixador Walther Moreira Salles, no Instituto Moreira Salles.

 

Cronologia de Elvira Komel (1906 – 1932)

Andrea C. T. Wanderley**

 

 

1906 – A mineira Elvira Komel nasceu em São João do Morro Grande, hoje município Barão de Cocais, em 24 de junho de 1906, filha de Ernest Komel, austríaco, especialista em montagem hidráulica e usinas elétricas; e da mineira Marieta Correia Guedes. Cursou o ensino primário em sua terra natal.

(Correio da Manhã, 27 de junho de 1931, sétima coluna)

1921 a 1924 - Fez o curso ginasial em Viçosa, para onde sua família havia se mudado. Revelou-se uma excelente aluna.

1925 – Foi para o Rio de Janeiro onde, com apenas 19 anos, em 10 de janeiro de 1925, prestou vestibular para Direito.

1925 – Registro de sua aprovação plena nos exames do primeiro ano da facudade de Direito (Jornal do Commercio, 20 de março de 1926, primeira coluna).

1928 – Por volta desse ano começou a exercer a advocacia nos auditórios de Belo Horizonte (O Paiz, 6 janeiro de 1930, quarta coluna).

Quando o politico e advogado Maurício de Lacerda (1888 – 1959) visitou Belo Horizonte, antes de proferir sua palestra sobre o voto secreto no Teatro Municipal da cidade, foi saudado por Elvira. Na ocasião, ela discursou acerca de “conceitos oportuníssimos sobre as mais palpitantes questões políticas do momento, monstrando-se profunda conhecedora de nosas prementes necessidades” (O Jornal, 15 de junho de 1928, quinta coluna; A Esquerda, 20 de setembro de 1928, terceira coluna).

Foi a segunda mulher mineira a se alistar para ter o direito do exercício do voto: “É, pois, um novo valor que se vem  juntar ao esforço coletivo em prol da n,ossa regeneração política” (O Paiz, 20 de setembro de 1928, segunda colunaDiário Carioca, 20 de setembro de 1928, penúltima colunaA Esquerda, 20 de setembro de 1928, terceira coluna).

Ela e a advogada mineira Mietta Santiago (1903 – 1995) foram citadas no relatório que a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF) – entidade civil criada no Rio de Janeiro, em 1922, cuja fundadora e principal líder foi a bióloga Bertha Lutz  (1894 – 1976) – apresentou à Comissão Redatora da História do Movimento Feminista Internacional, da Aliança Internacional pelo Sufrágio Feminino (O Paiz, 21 de outubro de 1928).

Publicação do artigo Requerendo o meu alistamento eleitoral, de autoria de Elvira Komel (O Paiz, 4 de novembro de 1928, terceira coluna).

Em entrevista, Elvira declarou que o feminismo em Minas estava efetivamente triunfante e que várias mineiras já haviam se alistado. Argumentou também em favor do voto feminino. Nessa matéria, está reproduzida a fotografia de Elvira Komel que se encontra no acervo fotográfico da Brasiliana Fotográfica (A Noite, 16 de novembro de 1928).

 

 

1929 – Foi a primeira eleitora a exercer o direito do voto em Minas Gerais (O Jornal, 8 de maio de 1929, sexta colunaDiário Carioca, 10 de maio de 1929, penúltima colunaDiário Nacional: A Democracia em Macha, 10 de maio de 1929, quinta coluna e Brasil Social, julho de 1929).

 

 

Era a única mulher integrante da embaixada universitária mineira que passou pelo Rio de Janeiro em direção ao Paraná, onde para participaria de uma confraternização acadêmica. Foi como representante da FederaçãoBrasileira pelo Progresso Feminino e da União Universitária Feminina de Minas. O advogado e escritor Cyro dos Anjos (1906 – 1994), na época redator do Diário de Minas, e José Américo de Macedo (1906 – ?), futuro prefeito de Ituiutaba, eram os líderes do grupo. elvira proferiu uma palestra sobre feminismo no Club Curitibano onde depois houve um sarau dançante em homenagem à embaixada universitária (Correio da Manhã, 17 de julho de 1929, segunda coluna; A República: órgão do Partido Republicano Paranaese, 22 de julho de 1929, terceira colunaO Dia (PR), 22 de julho de 1929, segunda colunaO Dia (PR), 27 de julho de 1929, segunda coluna; A República: órgão do Partido Republicano Paranaese, 29 de julho de 1929, penúltima coluna).

 

 

Em reunião da União Universitária Feminina, presidida pela engenheira Carmen Portinho (1903 – 2001), foi comunicado que Elvira Komel estava fundando com a colaboração de Alzira Reis Vieira Ferreira (1886 – 1970), de Teófilo Otoni, o Diretório Mineiro da entidade. O evento foi realizado na sede da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, na avenida Rio Branco, nº 111 (Jornal do Commercio, 2 de novembro de 1929, quarta coluna).

Foi anunciado que Elvira Komel seria a palestrante da pemúltima conferência da série promovida pela Federação bBrasileira pelo Progresso Feminino, na Rádio Club (O Paiz, 21 de dezembro de 1929, quinta coluna).

Foi uma das duas mulheres que se graduaram em Ciências Jurídicas e Sociais, na Universidade do Rio de Janeiro, em 1929. A outra foi Myrthes Etienne Dessaune. A cerimônia de colação de grau dos bacharelandos realizou-se no Instituto Nacional de Música, com a presença do presidente da República, Washington Luis (1869 – 1957) e de outras autoridades. O reitor da universidade, Cícero Peregrino, abriu a cerimônia, o orador da turma foi Narcélio de Queiroz e o paraninfo, Clóvis Bevilaqua (1859 – 1944). O aluno apontado como o melhor da turma foi Helvecio Xavier Lopes, que recebeu a medalha de ouro das mãos do presidente da República. A benção dos anéis foi feita pelo arcebispo coajutor do Rio de Janeiro, Sebastião Leme (1882 – 1942). Uma curiosidades: na mesma turma formou-se Paschoal Carlos Magno (1906 -1980), futuro ator, dramaturgo, poeta e diplomata de destaque no Brasil (A Noite, 27 de dezembro de 1929, primeira coluna).

 

1930 – De volta a Belo Horizonte e morando com os pais no bairro da Floresta, Elvira tornou-se a primeira advogada a atuar em Minas Gerais, no Fórum da Comarca de Belo Horizonte, enfrentando juízes conservadores da época. Foi apontada como a “leader do movimento feminista” de Minas Gerais (Diário Carioca, 8 de janeiro de 1930, primeira coluna).

Pronunciou a conferência “Pela educação da mulher brasileira”, na Rádio Club, de Belo Horizonte (O Jornal, 05 de janeiro de 1930.

Era a representante de Minas Gerais da União Universitária Feminina (A Noite, 5 de abril de 1930, segunda coluna).

Durante a Revolução de 30, liderada por Getúlio Vargas (1882 – 1954), cuja esposa, Alzira Vargas (1914 – 1992), era sua amiga, Elvira fundou, em 5 de outubro, o Batalhão Feminino João Pessoa para apoiar o movimento. O batalhão, cujo nome foi escolhido para homenagear o governador da Paraíba que morrera assassinado durante a Revolução, chegou a possuir  oito mil seguidoras em 52 municípios do Estado de Minas Gerais, sendo 1.200 em Belo Horizonte (Jornal do Brasil, 15 de novembro de 1930).

O Batalhão Feminino João Pessoa participou do desfiles de forças militares realizados no Rio de Janeiro, em 15 de novembro de 1930. A porta-bandeira foi Esmeralda Alves, sobrinha de Olegário Maciel (1855 – 1933), presidente do estado de Minas Gerais.

 

 

O Batalhão tinha um hino, escrito por Zinah Coelho Junior e Celina Coelho (Diário da Noite, 14 de novembro de 1930Correio da Manhã, 15 de novembro de 1930, sexta colunaO Estado de Florianópolis, 19 de novembro de 1930, quarta coluna; Jornal do Brasil, 16 de novembro de 1930).

 

 

Foi publicada uma entrevista com Elvira no Diário da Noite de 15 de novembro de 1930.

 

 

Participaram também de diversos eventos sociais e homenagens como a realizada pela União do Empregados do Comércio do Rio de Janeiro, de um Chá na Cruzada Feminina do Brasil Novo e de uma festa no Teatro João Caetano (Diário de Notícias, 18 de novembro de 1930A Batalha, 15 de novembro de 1930A Batalha, 18 de novembro de 1930, terceira coluna; Diário de Notícias, 18 de novembro de 1930O Jornal, 18 de novembro de 1930, penúltima coluna).

 

 

O pai de Elvira, o engenheiro Ernest Komel, foi agredido por um cabo do Exército, quando passava em frente ao Quartel dos Barbonos, na rua Evaristo da Veiga, no Rio de Janeiro. Foi atendido no posto de saúde da Praça da república e retornou ao Hotel Magnífico, na rua do Riachuelo, 124, onde o Batalhão Feminino João Pessoa e sua filha estavam hospedados (A Noite, 18 de novembro de 1930, penúltima coluna).

O Diário de Notícias publicou uma grande reportagem com diversas fotografias sobre o Batalhão Feminino João Pessoa, no Hotel Magnífico (Diário de Notícias, de 18 de novembro de 1930).

 

Elvira participou da inauguração da Praça João Pessoa, onde ficava a Praça dos Governadores, no Centro do Rio de Janeiro (Correio da Manhã, 20 de novembro de 1930, última colunaJornal do Brasil, de 20 de novembro de 1930).

 

 

Foi publicado artigo “A Mulher Mineira“, do médico e jornalista Floriano de Lemos (1906 – 1965), sobre o desfile do Batalhão Feminino João Pessoa (Diário da Noite, 20 de novembro de 1930, última coluna).

Fez uma visita à redação do Jornal do Brasil (Jornal do Brasil, 21 de novembro de 1930). Também visitou a sede do Touring Clube do Brasil acompanhada de Zinah Coelho Junior, Elvira Rodrigues e Julia Guerra (Jornal do Commercio, 30 de novembro de 1930, quinta coluna).

 

 

No dia 23 de novembro de 1930, na sede do América Futebol Clube, na rua dos Caetés, 343, no centro de Belo Horizonte, Elvira Komel transformou o batalhão feminino na Associação Feminina João Pessoa (AFJP).

Durante a sessão do Partido Nacional Feminino, em Nova York, a sra. Oliveira Lima, membro brasileiro da Comissão Interamericana de Mulheres citou o Batalhão João Pessoa, comandado por Elvira, como um exemplo da atuação das mulheres na Revolução de 30, comparável a dos homens (A Gazeta (SP), 22 de dezembro de 1930, quinta coluna).

1931 – Em janeiro, em companhia da também advogada e sufragista Natércia Silveira, Elvira esteve no Rio de Janeiro onde permaneceu até dia 17 de janeiro. Em pauta, o apoio à causa do voto feminino.

O mineiro Augusto Lima (1859 – 1934), diretor do jornal A Noite, publicou o artigo “A Mulher Militar“, onde elogiava a ação de Elvira Komel (A Noite, 13 de janeiro de 1931, primeira coluna). Ela agradeceu com uma carta publicada no jornal A Noite, de 20 de janeiro de 1931, penúltima coluna.

Fizeram visitas ao prefeito Adolpho Bergamini (1886 – 1945), às redações de A Batalha, do Jornal do Brasil , de O Jornal  e de A Noite. Na manchete da notícia da visita neste último jornal foram classificadas como “Duas batalhadoras do ideal feminista, no Brasil” (A Batalha, 16 de janeiro de 1930, última colunaA Noite, 17 de janeiro de 1931).

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Encontraram-se com o então ministro do Trabalho, Lindolpho Collor (1890 – 1942), para pleitear a igualdade de direitos entre os sexos reivindicando para as mulheres o direito ao voto e as honras militares de oficiais do Exército (Diário da Noite, 13 de janeiro de 1931, quarta colunaJornal do Brasil, 14 de janeiro de 1931, primeira coluna).

Publicação de uma reportagem sobre o encontro de Elvira Komel e Natércia da Silveira com o Barão de Itararé, alcunha de Aparicio Torelly (1895 – 1971), dono do semanário humorístico A Manha (A Manha, 16 de janeiro de 1931).

Publicação de uma entrevista com Elvira a respeito da luta pelo voto feminino e sobre o Batalhão João Pessoa (Correio da Manhã, 16 de janeiro de 1931, penúltima coluna).

Foi citada em uma reportagem do jornal O Globo acerca da possibilidade de uma mulher poder ser oficial honorária do Exército (República (SC), 16 de janeiro de 1931, segunda coluna).

Durante sua estadia no Rio de Janeiro, Elvira e Natércia encontraram-se também com o ministro da Fazenda, José Maria Whitaker (1878 – 1970), e com o general Juarez Távora (1898 – 1975), no Rio de Janeiro (A Notícia (SC), 20 de janeiro de 1931, quarta colunaEu vi, 21 de janeiro de 1931).

 

 

Já em Belo Horizonte, Elvira deu uma entrevista sobre o direito da mulher de ser jurada (A Notícia (SC), 22 de janeiro de 1931).

Elvira declarou-se confiante no êxito das reivindicações feministas que havia feito ao Governo Provisório e ao Cardeal Sebastião Leme durante sua estadia no Rio de Janeiro (A Batalha, 23 de janeiro de 1931, primeira coluna).

Na seção “Notas e comentários”, foi questionada as reivindicações de Elvira: “Ora, para que diabo é que a dra. Elvira Komel quer ser generala? Em que lucra a pátria? Em que melhora o câmbio? Que benefícios trará a distinção à mulher brasileiro? Que ideias novas acarretará?” (Excelsior, fevereiro de 1931).

No Tribunal de Júri de Belo Horizonte, o reú, Agostinho Simão Santos, defendido por Elvira, foi considerado culpado (Correio da Manhã, 4 de fevereiro de 1931, sexta coluna)

A revista Careta de 7 de fevereiro de 1931publicou uma caricatura de Elvira Komel pleiteando patentes de oficiais do Exército. Em 11 de março de 1931, ela enviou uma carta a Alzira Reis Vieira Ferreira (1886 – 1970), que na época dirigia a União Feminina de Teófilo Otoni, comentando algumas críticas em relação a essa reivindicação (O Fluminense, 31 de julho de 1932).

 

 

Elvira e Natércia encontraram-se com Delminda Aranha, mulher de Oswaldo Aranha (1894 – 1960), então ministro da Justiça e Assuntos Internos, para conversar sobre direitos politicos das mulheres na organização da constituinte. Já haviam estado com o prórpio ministro, em janeiro (O Estado de Florianópolis, 15 de janeiro de 1931, primeira colunaO Dia (PR), 11 de fevereiro de 1931, última coluna).

Publicação de um telegrama enviado ao Correio da Manhã desmentindo o que havia sido noticiado por alguns jornais mineiros em relação à atuação de Elvira à frente do movimento feminista em Minas Gerais. De acordo com o telegrama ela continuava firme no comando, tendo inclusive feito um discurso na chegada do Chefe do Governo Provisório, Getúlio Vargas, quando ele visitou a capital mineira (Correio da Manhã, 6 de março de 1931, terceira coluna).

Elvira enviou telegramas para Getúlio Vargas e para Batista Luzardo (1892 – 1992), chefe da polícia do Distrito Federal, após a divulgação, em Minas Gerais, do discurso desse último em nome do Governo Provisório, anunciando a concessão do voto feminino (A Noite, 19 de março de 1931, segunda coluna).

Como diretora do recém criado Núcleo Feminino da Legião de Outubro, lançou um manifesto às mulheres mineiras chamando-as para participarem da reconstrução nacional (A Noite, 12 de março, terceira colunaA Noite, 23 de  março de 1931, segunda coluna).

 

 

Respondendo à enquente promovida peo jornal A Esquerda, Deve a mulher ser guerreira ou pacifista?, Elvira Komel declarou “a mulher mineira é inteiramente pacifista, como devem ser todas as mulheres, qualquer que seja o país a que pertencem” (A Esquerda, 31 de março de 1931).

Foi conferido à Elvira o título de sócia honorária da Cruz Vermelha Internacional (A Noite, 15 de abril de 1931).

Presidiu, em junho de 1931, o I Congresso Feminino Mineiro, em Belo Horizonte, cuja presidente de honra foi a primeira-dama, Alzira Vargas. Foi publicada a programação do evento (Excelsior, junho de 1931).

 

 

 

Durante o evento, representantes de municípios mineiros, do Espírito Santo, de Goiás, da Paraíba, do Rio Grande do Sul, e da Aliança Nacional de Mulheres, fundada por Natércia da Silveira, 1ª vice-presidente do evento, discutiram questões acerca da emancipação da mulher. Foi aprovada unanimemente uma moção de apoio ao governo revolucionário (Correio da Manhã, 6 de junho de 1931, primeira colunaCorreio da Manhã, 23 de junho de 1931, terceira coluna; Diário de Notícias, 23 de junho de 1931, quarta colunaCorreio da Manhã, 30 de junho de 1931, sétima coluna; Diário Carioca, 14 de agosto de 1931, última coluna).

 

 

 

Publicação de uma entrevista com Elvira Komel sobre a realização do I Congresso Feminino Mineiro (Diário da Noite, 31 de julho de 1931, quinta coluna).

Pela passagem do primeiro ano de morte de João Pessoa (1878 – 1930), a Associação dos Voluntários Mineiros promoveu uma homenagem no Teatro Municipal de Belo Horizonte, sob a presidência de Ribeiro Junqueira, secretário de Agricultura de Minas Gerais (1871 – 1946). Na ocasião Pedro Aleixo (1901 – 1975), um dos fundadores da Legião Liberal Mineira, versão estadual da Legião de Outubro; e Elvira discursaram (Correio da Manhã, 28 de julho de 1931, quarta coluna).

Anunciou, em setembro, a fundação do Partido Liberal Feminino Mineiro, uma fusão da Associação Feminina João Pessoa e da Legião Feminina.  (Correio da Manhã, 24 de setembro de 1931, primeira coluna; Diário de Pernambuco, 25 de setembro de 1931, quarta colunaA Noite, 7 de outubro de 1931, quarta coluna).

Elvira Komel lançou um manifesto congratulando-se com suas associadas pela publicação do ante-projeto da lei eleitoral, no qual ficou claramente estipulado o voto feminino (A Notícia (SC), 30 de setembro de 1931, penúltima coluna).

 

 

Foi recebida, no Palácio do Catete, por Getúlio Vargas (Diário de Notícias, 26 de setembro de 1931, segunda coluna).

Elvira participou da reunião da Aliança Nacional de Mulheres, no Rio de Janeiro, e sua presença foi anunciada pela presidente da entidade, Natércia da Silveira, e saudada pela professora Adélia de Lacerda (Correio da Manhã, 2 de outubro de 1931, sétima coluna).

Elvira comentou o ante-projeto de reforma eleitoral e criticou alguns de seus aspectos como o de colocar a mulher casada em inferioridade ao homem e também as solteiras, viúvas ou desquitadas sujeitando-as a uma interminável tutela (Diário de Pernambuco, 10 de outubro de 1931, quarta coluna).

1932 – O Decreto nº 21.076, de 24 de fevereiro de 1932 instituiu o Código Eleitoral Provisório e reconheceu o direito de voto às mulheres, uma das bandeiras defendidas por Elvira.

O jornal A Batalha parabeniza Elvira por seu aniversário e anuncia que ela havia acabado de contratar casamento com o engenheiro Clarkson de Mello Menezes (A Batalha, 24 de junho de 1932, primeira coluna).

Elvira era correspondente especial da revista Brasil Feminino (Brasil Feminino, julho de 1932).

Em julho, Elvira foi para Juiz de Fora, onde proferiu diversas palestras sobre a Revolução de 30. Preparava sua candidatura ao senado estadual (deputada estadual).

Elvira apoiou a indicação de Natércia da Silveira, da Aliança Nacional de Mulheres, para ingressar na comissão que Getúlio Vargas havia prometido nomear para elaborar o ante-projeto da nova Constituição. Havia um impasse porque outras feministas apoiavam Bertha Lutz (1894 – 1976), da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (A Batalha, 6 de julho de 1932).

Já em Belo Horizonte, lançou um manifesto em prol da pacificação do Brasil, onde se inciava a Revolução Constitucionalista de 1932, que tinha o objetivo derrubar o governo provisório de Getúlio Vargas e convocar uma Assembleia Nacional Constituinte  (Jornal do Brasil, 20 de julho de 1932, quinta coluna).

Vítima de meningite, faleceu no dia 25 de julho de 1932, com apenas 26 anos de idade, sendo sepultada no Cemitério do Bonfim, na capital mineira. Na ocasião, Elza Pinheiro Guimarães e Anibal Vaz de Melo, representando Sociedade Cultural e Coligação dos Universitários Independentes, fizeram discursos enaltecendo as qualidades e a atuação de Elvira em favor dos “fracos e oprimidos” (Jornal do Brasil, 27 de julho de 1932Correio da Manhã, 27 de julho de 1932, sexta coluna; Diário de Notícias, 5 de agosto de 1932, primeira colunaNação Brasileira, setembro de 1932). O laudo da causa de sua morte foi contestado por sua família, que atribuiu seu falecimento precoce a um aneurisma cerebral.

A passagem do féretro, todo de branco, foi uma nota muito comovente, arrancando lágrimas a muitos dos circuntantes

(A Noite, 27 de julho de 1932, penúltima coluna).

Amélia Duarte, aluna de Direito da Faculdade de São Paulo, publicou um comentário sobre a morte de Elvira (Correio da Manhã, 28 de julho de 1932, segunda coluna).

A Aliança Nacional de Mulheres, que decretou luto de oito dias pelo falecimento de Elvira Komel, a homenageou  com a celebração de uma missa de sétimo dia na Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro. O Chefe do Governo Provisório, Getúlio Vargas, foi convidado, não compareceu, tendo sido representado por seu ajudante de ordens, Amaro da Silveira (Correio da Manhã, 28 de julho de 1932, penúltima colunaO Radical, 1º de agosto de 1932, quarta colunaFon-Fon, 6 de agosto de 1932).

 

 

A poetisa Ilka Labarthe falou sobre a vida de Elvira em um programa da Rádio Club (Correio da Manhã, 31 de julho de 1932, quinta coluna).

Foi feita uma homenagem  a Elvira Komel na reunião da Aliança Nacional de Mulheres (Jornal do Brasil, 2 de agosto de 1932, quinta coluna).

Na passagem do trigésimo dia de seu falecimento, foi feita uma romaria a seu túmulo, em Belo Horizonte (Correio da Manhã, 30 de agosto de 1932, sétima coluna).

 

 

A escritora e jornalista curitibana Rachel Prado (1891 – 1943) publicou um artigo sobre Elvira Komel (Brasil Feminino, dezembro de 1932).

 

 

1934 - Existia em Belo Horizonte o Grêmio Literário Elvira Komel (Lavoura e Commercio (MG), 3 de março de 1934, quarta coluna).

 

** Andrea C. T. Wanderley é editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

CAMPOS, Raquel Discini de. Floriano de Lemos no Correio da Manhã, 1906-1965. Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.20  supl.1 Rio de Janeiro Nov. 2013

DUARTE, CARMO & LUZ in Mulheres em Minas: Lutas e Conquistas. Conselho Estadual da Mulher de Minas Gerais – 25 anos. Belo Horizonte: Imprensa Oficial.

DEL PRIORE, Mary (Org.). História das mulheres no Brasil. Coordenação de textos de Carla Bassanesi. São Paulo: Contexto, 1997

DEL PRIORI, Mary. História e conversas de mulher. São Paulo: Planeta Brasil, 2014

ENGLER, Isabel. A primeira prefeita brasileira Alzira Soriano: o poder polpitico coronelístico, Lages/RN, 1928. Trabalho de Conclusão de Curso  – Universidade Federal da Fronteira do Sul, Curso de História – Licenciatura, Chapecó, SC, 2019

GAMA, Lélia Vidal Gomes de. Elvira Komel: uma estrela riscou o céu. EDIÇÃO IMPRENSA OFICIAL DE BELO HORIZONTE, 1987

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

HEYNEMANN, Claudia; RAINHO, Maria do Carmo. Memória das lutas feministas in Brasiliana Fotográfica, 8 de agosto de 2017.

PINTO, Celi Regina Jardim. Uma história do feminismo no Brasil. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo (coleção história do povo brasileiro) 2003.

Portal da Câmara dos Deputados

SHUMAHER, Schuma; BRAZIL, Erico Vital (organizadores). Dicionário mulheres do Brasil: de 1500 até a atualidade biográfico e ilustrado. Rio de Janeiro : Jorge Zahar Ed., 2000.

SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa Murgel. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

SEVCENKO, Nicolau. Orfeu extático na metrópole: São Paulo, sociedade e cultura nos frementes anos 20. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 1992

Site Acontece Online

Site CPDOC

Site Mulheres de Minas- Lutas e conquistas

Site Mulher 500 anos atrás dos panos

Site Observatório do Terceiro Setor

Tribuna do Paraná, 19 de janeiro de 2013

O fotógrafo amador Guilherme Santos e sua coleção de estereoscopias eróticas

A historiadora Maria Isabela Mendonça dos Santos escreveu para o portal o artigo O erotismo na fotografia e a coleção de estereoscopias eróticas de Guilherme Santos, onde conta um pouco da história desse tipo de imagem, focando na série de fotografias estereoscópicas de nus femininos produzidas pela Richard/Verascope encontrada na coleção Guilherme Santos do acervo fotográfico do Instituto Moreira Salles. Faz parte de um conjunto de cerca de 3000 imagens relacionadas ao fotógrafo adquiridas pelo Instituto Moreira Salles, em 2013.

 

 

Acessando o link para as fotografias de Guilherme Santos disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

 

Guilherme Antônio dos Santos (1871 – 1966) era um entusiasta da fotografia estereoscópica, tendo sido um dos pioneiros dessa técnica no Brasil, ao adquirir, em 1905, na França, o Verascope, um sistema de integração entre câmera e visor, que permitia ver imagens em 3D, produzidas a partir de duas fotos quase iguais, porém tiradas de ângulos um pouco diferentes. Eram impressas em uma placa de vidro e reproduziam a sensação de profundidade de maneira bem próxima da visão real. Antes dele, entre os anos de 1855 e 1862, o “Photographo da Casa Imperial”, Revert Henrique Klumb (1826 – c. 1886), favorito da imperatriz Teresa Christina e professor de fotografia da princesa Isabel, havia produzido vários registros utilizando a técnica da estereoscopia. A Casa Leuzinger também produziu fotografias estereoscópicas. Guilherme Santos se interessou pela técnica, em 1905, quando viajou em férias para Paris e adquiriu um Verascope, após visitar uma exposição de fotografias estereoscópicas e constatar que havia pouquíssimos registros do Brasil. A fotografia passou a ser seu hobby. A maior parte da obra de Santos, que inclui 17.812 mil negativos e 9.310 mil positivos (em vidro), além de 1.302 ampliações em papel feitas a partir dos negativos, está guardada no MIS-RJ.

 

 

O erotismo na fotografia e a coleção de estereoscopias eróticas de Guilherme Santos

 

Maria Isabela Mendonça dos Santos*

 

 

O sucesso mercadológico das estereoscopias eróticas entre as décadas finais do século XIX e as primeiras décadas do século XX é amplamente conhecido e consta em toda bibliografia que trata de fotografia estereoscópica. “Como meio de representação, o estereoscópio era inerentemente obsceno (…) Ele destruía a relação cênica entre espectador e objeto (…) Não é coincidência que, cada vez mais, o estereoscópio tenha se tornado sinônimo de imaginário erótico e pornográfico ao longo do século XIX.”[i]

A Maison Richard, fábrica responsável pela produção das câmeras e vistas estereoscópicas Verascope, foi uma das grandes incentivadoras da estereoscopia erótica, graças aos interesses pessoais do proprietário da marca. Jules Richard foi um amante do erotismo tendo produzido, ele próprio, uma infinidade de fotografias de mulheres nuas e, até mesmo se casando com uma de suas modelos.

 

Acessando o link para as fotografias eróticas da Coleção Guilherme Santos, sob a guarda do Instituto Moreira Salles, disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

Segundo Jorge Leite Jr. a fotografia “pornográfica” nasceu junto aos primeiros daguerreótipos, provavelmente na década de 1840, em Paris. A primeira foto erótica de que se tem registro data de 1850 e foi tirada por Féliz-Jacques-Antoine Moulin, que chegou a ser condenado a um mês de prisão pela produção de imagens do tipo. Reinhard Seufert em seu estudo sobre porno-fotografia, no entanto, afirma que o primeiro nu frontal feminino é de 1860. Até então as mulheres apareciam sempre de costas, com as nádegas expostas. Ainda segundo Leite Jr, no início, as fotografias pornográficas tinham prostitutas como modelos, que as usavam como cartão de visitas para clientes. Outro uso frequente das fotos eróticas era como cartão postal.

O surgimento da cultura de massa na segunda metade do século XIX, contribui significativamente para a publicação de revistas eróticas. Na França, a revista La Vie Parisienne, fundada em 1863, vai se tornar muito popular quando em 1905, seu novo proprietário decide transformá-la em uma publicação erótica. Em termos estéticos, a revista refletiu a estilização da ilustração Art Nouveau e Art Déco, com belos desenhos animados em cores de vários artistas da época. A estética Art Nouveau das ilustrações de La Vie Parisienne vai influenciar, sem dúvidas, as fotografias eróticas do período. A fotografia “pornoerótica” vai acompanhar, desse modo, as tradições dos nus artísticos da pintura, mostrando as mulheres nuas nas posições iguais as dos quadros clássicos.

 

 

Leite Jr. destaca o lesbianismo encontrado nas produções da virada do século, como um exemplo da visão masculina, presente em imagens e textos desde o século XIX. “As mulheres que entregam-se a esse prazer, mostram-se nesses trabalhos sempre disponíveis também para o homem. A prática homossexual entre elas é mostrada mais como um passatempo que uma paixão, pois o prazer verdadeiro é sempre alcançado graças à virilidade masculina.”[ii]

De fato, a série de fotografias estereoscópicas de nus femininos encontradas na coleção Guilherme Santos do acervo fotográfico do Instituto Moreira Salles, comprovam as afirmações de Leite Jr.. Produzidas pela Richard/Verascope, as vistas apresentam mulheres de maneira muito semelhante aos postais de mesmo gênero do período. Muitas são as imagens de mulheres em dupla, ou em grupo, insinuando um lesbianismo descompromissado. Em quartos de decoração romântica, ou em jardins floridos, os estilos Art Nouveau e o Art Déco dominam os cenários em que as fotos eram tiradas. Geralmente as mulheres eram retratadas com acessórios como colares, tiaras ou até mesmo tecidos que cobriam parte do corpo.

 

 

As imagens eróticas da Richard são geralmente reconhecíveis pela localização. Jules Richard costumava produzir seus nus femininos em três locais distintos: numa propriedade que possuía no interior da França, num cabaré frequentado pela classe média francesa, o Tabarin, e num estúdio construído em frente à sua residência parisiense com o propósito de receber e fotografar mulheres jovens, conhecido como L’Atrium.[iii] A arquitetura do local tinha inspiração na Grécia Antiga o que, de acordo com Tomas Weynants, foi uma estratégia utilizada para dar às imagens pornográficas um ar de aceitabilidade artística, uma vez que o nudismo total não era tolerado à época.[iv]

Dificilmente os órgãos genitais aparecem nas imagens, e em nenhuma delas encontramos insinuações do ato sexual propriamente dito. Por conta disso, podemos dizer que as estereovistas da série enquadravam-se mais no estilo  “erótico” do que “pornográfico”, apesar de os limites entre os dois termos ser fluido e, na maioria das vezes, de alta complexidade de definição.[v] Além disso, estamos nos referindo apenas às vistas da Richard. Ou seja, fotografias estereoscópicas de teor mais explícito tiveram uma circulação significativa no período em questão, porém ficaram restritas a um mercado clandestino especial, sujeito a prisões e confisco de coleções.[vi]

 

 

Se o lugar por excelência da fotografia estereoscópica é a sala da família burguesa, a volumosa produção de estereoscopias pornográficas vai assombrar essa mesma família. “Banido da sala de visitas e da mirada familiar, a imagem estereoscópica pornográfica encontra caminho de entrada no domínio masculino exclusivo do drawing room.”[vii] Este “quarto de vestir” constitui aquilo que  identifica como o “lugar de tolerância” das sociedades burguesas da virada do século.[viii] No quarto de vestir, longe das vistas da esposa e dos filhos, o homem burguês podia desfrutar de momentos de prazer, ainda que virtualmente, através da observação de vistas estereoscópicas de temática erótica.

O fotógrafo Guilherme Santos encontrava-se inserido na lógica da família conjugal monogâmica e da pureza moral do corpo social e evidentemente cumpria as normas comportamentais que lhe eram socialmente apresentadas. Estas normas, no entanto, concediam-lhe o direito de frequentar “lugares de tolerância” e colecionar estereoscopias eróticas. Desfrutar destas concessões morais, configuravam não somente uma expressão de masculinidade e virilidade, mas sobretudo, a maneira pela qual o fotógrafo se conduzia moralmente dentro de sua fidelidade conjugal. A presença de uma coleção robusta de estereoscopias eróticas da Richard no acervo de Guilherme Santos, nos revela desde já, aspectos de sua subjetividade e de sua inserção na sociedade burguesa da virada do século. Mas este é assunto para outro artigo.[ix]

 

 

*Maria Isabela Mendonça dos Santos é  Doutora em História pela Universidade Federal Fluminense.

 

[i] CRARY, Jonathan. Técnicas do observador: Visão e modernidade no século XIX. Rio de Janeiro: Contraponto, 2012. P. 125.

[ii] LEITE JR., Jorge. Das maravilhas e prodígios sexuais: a pornografia bizarra como entretenimento. Annablume: São Paulo, 2006. P.69.

[iii] Informação extraída de: http://www.ignomini.com/photographica/stereophotovintage/richardnudes/richardnudes.html. Último acesso em 23/01/2019 às 21:00 h.

[iv] Disponível em: http://users.telenet.be/thomasweynants/jules-richard.html: Último acesso em 24/01/2019 às 14:00 h.

[v] Ver: CARDOSO, Erika Natasha. Carlos Zéfiro e os discursos morais no Brasil (1950 – 1970). Dissertação. (Mestrado em História) Universidade Federal Fluminense: Niterói, 2014.

[vi] PARENTE, José Inácio. A estereoscopia no Brasil. Rio de Janeiro: Sextante, 1999. P. 14.

[vii] ADAMS, Gavin. A mirada estereoscópica e a sua expressão no Brasil. Tese (Doutorado em Comunicação e Estética do Audiovisual) Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2004. p. 7.

[viii] FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: A vontade de saber. São Paulo: Paz e Terra, 2014.

[ix] Para mais informações sobre a vida e a obra de Guilherme Santos ver : SANTOS, Ma. Isabela M. dos. A mirada estereoscópica de Guilherme Santos: Cultura Visual na cidade do Rio de Janeiro Séculos XIX e XX. 2019. Tese (Doutorado em História) – Instituto de História da Universidade Federal Fluminense, Niterói (RJ).

 

 

 Cronologia de Guilherme Antônio dos Santos

Andrea C. T. Wanderley**

1871 – No Rio de Janeiro, em 12 de fevereiro, nasceu Guilherme Antonio dos Santos, cuja família residia na Rua do Rezende. Seu pai era o joalheiro José Antonio dos Santos (? – 1905).

1883 - No encerramento das aulas do Colégio Aquino, onde fez seus estudos, Guilherme Santos e Escragnolle Doria (1869 – 1948) receberam do imperador Pedro II medalhas por terem respondido “com prontidão e segurança a todas as suas perguntas sobre História do Brasil” (Correio da Manhã, 31 de maio de 1952).

1896 – Guilherme casou-se com Maria Mendonça dos Santos, conhecida como dona Mariquinhas. Tiveram quatro filhos: Guilherme dos Santos Júnior (? – 1980), médico que foi diretor do Souza Aguiar e do Hospital Paulino Werneck; Amália Santos Pinto da Silva (? – 1986), Manoel Antônio dos Santos , que sempre trabalhou com o pai na representação dos cofres belgas Fichet; e Francisca Mendonça dos Santos (1901 – ?) . Os filhos estudaram no Colégio São Vicente de Paulo e as filhas no Colégio Santa Isabel, em Petrópolis.

dezembro de 1898 – A joalheria e galeria de arte Luiz de Rezende & Cia, cujo um dos sócios era o pai de Guilherme Santos, José Antonio dos Santos, foi roubada. Ficava na rua do Ouvidor 88 e 89 e na rua Ourives 69 ( Gazeta de Notícias, 6 de dezembro de 1898, na última coluna e  Jornal do Brasil, 19 de dezembro de 1903, na sétima coluna, sob o título “O buraco do Rezende”). Anteriormente, a joalheria chamava-se Santos Moutinho e Cia. Na época do roubo, que teve grande repercussão, Guilherme Santos morava no último andar da loja.

1901 – Guilherme Santos foi empossado no conselho da Sociedade Animadora da Corporação dos Ourives (Jornal do Brasil, 31 de julho de 1901, na última coluna). Nasceu sua filha caçula, Francisca, (Jornal do Brasil, de 16 de dezembro de 1901, na quarta coluna). Nos Almanak Laemert de 1901190219031904, 19051906 e 1907, Guilherme e seu irmão, Francisco Antonio, aparecem como dois dos sócios da joalheria Luiz de Rezende & Cia. Luiz de Rezende ( – 1927) era português e foi com o pai de Guilherme Santos, José Antônio, que ele aprendeu a ourivesaria.

1905 / 1906 – No Almanak Laemert de 1905, Guilherme Santos aparece como o 2º secretário da Sociedade Animadora da Corporação dos Ourives. Viajou para Paris com a família para, a conselho de seu pai, se tratar de um estado de nervosismo permanente ocasionado pelo roubo à joalheira em 1898. Cuidou-se com um tratamento de auto-sugestão cujo lema era “Hoje sob todos os pontos de vista vou cada vez melhor”. Interessou-se pela técnica da estereoscopia e adquiriu um equipamento Verascope, da Maison Richard, após visitar uma exposição de fotografias estereocópicas no Grand Palais. Lá constatou que havia pouquíssimos registros do Brasil, todos de mulheres negras vendendo abacaxis. Santos começou a praticar a fotografia amadora e foi em Portugal que produziu seu primeiro registro, no pinhal de Caldas da Rainha. Seu pai, José Antonio dos Santos, faleceu (Correio da Manhã, 20 de maio de 1952).

1907 – Provavelmente, foi um dos proprietários do Cinema Pavilhão Progresso, na rua Hadock Lobo, 16. O cinema foi inaugurado em 31 de outubro de 1907 (Jornal do do Brasil, 30 de outubro de 1907, na primeira coluna).

1920 – Guilherme Santos morava na rua Conde de Bonfim, 86, na Tijuca.

1922 – Santos cedeu ao então ministro do Exterior, José Manuel de Azevedo Marques (1865 – 1943), milhares de reproduções estereográficas de quadros da natureza brasileira que foram distribuídas aos estrangeiros que vieram representar seus países nas comemorações do centenário da independência do Brasil. Deixou de trabalhar na Casa Luiz de Rezende ( Correio da Manhã, 20 de maio de 1952).

1923 – Foi criado o Photo Club Brasileiro, uma associação de fotógrafos, no Rio de Janeiro, pelos associados do Photo Club do Rio de Janeiro, fundado em 1910, que se juntaram a fotógrafos de arte para debater as relações entre fotografia e arte. O Photo Club Brasileiro promovia cursos, concursos, exposições e excursões. Publicou as revistas Photo Revista do Brasil (1925 – 1926) e Photogramma (1926 – 1931). Também organizava salões anuais, o primeiro deles inaugurado em 4 de julho de 1924, no Liceu de Artes e Ofícios (artigo de Fernando Guerra Duval, na Gazeta de Notícias, 9 de julho de 1924), além de divulgar novas técnicas e estéticas, mantendo correspondência com sociedades internacionais de fotografia. Até o fim da década de 1940, foi uma instituição fundamental na difusão da ideia da fotografia como arte. Uma matéria da revista Para Todos, de 17 de setembro de 1927, sobre a quarta exposição anual do Photo Club ilustrava essa função primordial da associação. Alguns de seus membros de destaque foram Alberto Friedmann, Barroso Neto, Fernando Guerra Duval, Herminia Borges, João Nogueira Borges, Oscar de Teffé e Silvio Bevilacqua.

maio de 1925 –  Guilherme Santos tornou-se membro do Photo Club Brasileiro. Publicou na edição de lançamento da Photo Revista do Brasil, órgão oficial da associação, o artigo “Photographia Estereoscópica”. No expediente da revista, aparece como um de seus principais colaboradores. E, nas páginas dedicadas às notícias do Photo Club, que acabava de se instalar em uma nova sede, na rua 13 de maio, 35, aparece como um dos membros recentes da associação. O presidente e o vice-presidente do Photo Club Brasileiro eram Alberto Friedmann e Fernando Guerra Duval, respectivamente.

 

“Photographia Estereoscópica”

Por Guilherme A Santos

Confeccionar uma photographia é quasi sempre reconstruir uma recordação!

Nenhuma outra photographia trabalhada pelos processos conhecidos, pôde dar-nos tamanha satisfação, produzir-nos impressão tão viva  e tão nitida daquilo que quizermos recordar como a photographia estereoscopica! Seja o retracto de um ente querido, seja uma paysagem, ou ainda uma reunião de família, cujo objecto exprima um momento feliz da nossa existencia!

A sensação do relevo e da perspectiva que nos dá um positivo sobre vidro, copia de um cliche estereoscopico, introduzido no instrumento apropriado, é inegualavel! inconfundivel! incomparavel!

Ao olhar, apresentam-se as imagens das creaturas, da Natureza ou dos objectos, com a expressão a mais perfeita e verdadeira , mostrando-nos em destaque todos os planos que as objectivas colheram na extensão do angulo focal!

Como passa tempo, o que é possível de encontrar que seja mais agradável, mais divertido do que os positivos sobre vidro da photoestereoscopia!?

Reunidos em família e acompanhados de bons amigos sentados em redor de uma mesa, passa-se de mão em mão o apparelho estereoscópicos exibindo as differentes séries de positivos! Algumas, despertando recordações aos que, num afogar de saudades revêem os bons momentos que passaram, contemplando imagens de creaturas que talvez nunca mais encontrem no caminho da vida e que fizeram a delícia daqueles momentos, em uma estação de águas, em uma excursão, em cidades de verão, a bordo de um transatlântico, na convivência íntima de uma longa viagem, etc.

Outras séries apresentando o esplendor da Natureza em grandes quadros compostos com senso esthético, com observação artística que estasiam, que empolgam e que nunca cançaríamos de contemplar são photografias que provam como é impossível negar o extraordinário poder que tem a natureza, de impressionar e fazer vibrar a alma das creaturas com suas majestosas creações!

Nesse particular a nossa terra recebeu do CREADOR um dote precioso, o qual infelizmente em vez de ser transportado para as chapas da photographia por meio das objectivas dos differentes apparelhos, tem o homem esbanjado e destruido quasi inconscientemente sem considerar o grande mal que causa ao bem commum e sem reflectir no crime que pratica!

Disse PAULO MANTEGAZZA, capitulo IV no “O LIVRO DAS MELANCHOLIAS” de uma forma encantadora e com a alma amargurada: que se conhecesse DEUS, dir-khe-hia que na sua infinita misericordia, perdoasse todos os peccados dos homens e reservasse toda a sua ira, toda as suas vinganças, tododos seus raios, para o homem que destróe uma “FLORESTA”!!…

Faço minhas as palavras do primoroso escriptor, mas accrescento que o homem que dedicar-se á photographia, de preferenciaa estereoscopica, no contacto intimo e constante que ele tiver com a NATUREZA, quando a tiver estudado bem, irá lentamente habituando-se a apreciar devidamente a sua obra grandiosa, sentirá despertar em sua alma, sentimentos delicadosque até então desconhecia e difficilmente será capaz de derrubar uma arvore ou consentir que alguem o faça em sua presença!

A falta de amor e o abandono ás nossa bellezas naturaes é patente! Cito um exemplo mui recente:

Por uma destas lindas manhãs de ABRIL (era dia feriado) percorremos uma parte da estrada que liga o ALTO DA BOA VISTA ao SUMARÉ.

É uma das maravilhas da TIJUCA! A vegetação é abundante e variada e conta-se ás dezenas, arvores gigantescas cujas ramadas projectam sombras extensas sobre o caminho!

O sol imprimia uma luz de oiro sobre o verde esmeralda do arvoredo e fazia pensar que foi a NATUREZA quem inspirou os nossos antepassados sobre a escolha das cores para a nossa bandeira!

Caminhamos cerca de 6 kilometros ida e volta e gastamos cerca de 5 horas. Pois bem, nesse demorado percurso, cruzamos com 3 outros grupos de excursionistas, todos elles, compunham-se de estrangeiros!

Nem um brasileiro! nem um amador da photographia! Digo, encontramos um brasileiro, que empunhando uma vara que tinha um sacco de gaze preso a uma das extremidades, caçava as lindas borboletas azues de grandes azas que faziam o encanto daquellas paragens! aquelle rapaz de 20 annos presumives, de bella estaturaphysica, fazia-o como meio de vida! Contamos estendidas sobre um jornal, 20 daquellas borboletas, apanhadas em menos de uma hora! Pobrezinhas! a  NATUREZA limitou-lhes curtíssima existência, nem mesmo a essas deixam viver!

Creio ser o momento de ser transformada essa situação. A Photo-Revista vem preencher uma lacuna e acreditamos que uma campanha sustentada com perseverança por todos os seus collaboradores, daria bom resultado, no sentido de desenvolver o gosto dos brasileiros pela arte photographica: talvez conseguíssemos convence-los de trocar uma ou outra vez (às horas de ócio) os encantos do lar doméstico, pelos encantos naturaes, lembrando-lhes que em companhia de nossa família e em contacto com a floresta, também construímos lares provisorios sob a benção da mãe de tudo e de todos que é a NATUREZA!

(Photo Revista do Brasil, vol 1, maio de 1925, pg 14)

Além disso, a fotografia da capa era de sua autoria (O Brasil, 31 de maio de 1925, na sexta coluna, sob o título “Publicações”). E, na mesma edição da revista, foi publicada uma propaganda das fotografias estereoscópicas de Guilherme. O endereço, rua Buenos Aires, 93, é o mesmo do escritório dos cofres belgas Fichet, empresa que ele representava no Brasil. Posteriormente, o escritório foi transferido para a rua do Rosário, 146.

1937  Resumo do assalto ocorrido na Casa Luiz de Rezende, em 1898, com retratos dos sócios Luiz de Rezende e José Antonio dos Santos, pai de Guilherme (Noite Illustrada, 25 de maio de 1937).

1942 – Publicação da matéria “Rio desaparecido”, de Escragnolle Doria, sobre a importância dos arquivos fotográficos de Augusto Malta e Guilherme Santos (Revista da Semana, 30 de maio de 1942).

1945 – Publicação no Boletim de Belas Artes de outubro de um artigo sobre o desmonte do Morro do Castelo com entrevista de Guilherme Santos (Correio da Manhã, 8 de maio de 1952).

1950 – Publicação de matéria elogiando a coleção de fotografias de Guilherme Santos (Jornal do Brasil, 24 de março de 1950, na última coluna sob o título “Belas Artes). Publicação de uma reportagem de Walter Sampaio sobre o “Arquivo Guilherme dos Santos”. Na matéria, Santos revelou ter vontade de “expor em um museu o seu valioso arquivo histórico e estereoscópico nacional”. (A Noite Ilustrada, 1º de agosto de 1950).

1951  O Departamento de História e Documentação do Rio de Janeiro examinou a coleção fotográfica de Guilherme Santos (O Malho, setembro de 1951).

1952 – Faleceu sua esposa, Maria Mendonça dos Santos, em 26 de maio ( Correio da Manhã, 30 de maio de 1952, na primeira coluna). Na coluna “Pequenas Reportagens”, é lembrado um artigo do Boletim de Belas Artes de outubro de 1945, onde Guilherme Santos comentava seus registros fotográficos do desmonte do Morro do Castelo (Correio da Manhã, 8 de maio de 1952). Na mesma coluna, foi publicada uma matéria sobre Guilherme Santos ( Correio da Manhã, 20 de maio de 1952). Finalmente na coluna de 31 de maio de 1952, o assunto foi a coleção de fotografias de Santos.

 

 

1954 –  Às vésperas do Natal, a sede da G.A. Santos & CIA, localizada na Rua do Rosário, 146, sofreu um incêndio. A única coisa resgatada foi o acervo de fotografias de Guilherme que estava dentro de um cofre à prova de fogo. Foi devido a esse fato que Santos decidiu vender sua coleção de fotografias (Correio da Manhã, 24 de dezembro de 1954).

1956 – Na primeira página do Jornal do Brasil, foi publicada a matéria “O Rio de Janeiro através da estereoscopia”, assinada por Augusto Maurício, sobre a coleção de fotografias de Guilherme Santos ( Jornal do Brasil, 27 de maio de 1956).

1964 – A Coleção Guilherme Santos foi adquirida pelo Banco do Estado da Guanabara, em 28 de abril de 1964, para iniciar, juntamente com a coleção de fotografias de Augusto Malta (1864 – 1957), o acervo do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro. O contrato de compra e venda foi assinado pelo filho e procurador de Guilherme, Manoel Antônio dos Santos.

1965 – Inauguração do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, em 3 de setembro de 1965 (Diário de Notícias, 2 de setembro de 1965). A maior parte da obra de Santos, que inclui 17.812 mil negativos e 9.310 mil positivos (em vidro), além de 1.302 ampliações em papel feitas a partir dos negativos, está sob a guarda da instituição.

janeiro de 1966 – Guilherme Santos faleceu em 26 de janeiro, na casa de sua filha Francisca, na Ilha do Governador. Na época, ele morava na rua Cesário Alvim, 39. Anúncio da missa de sétimo dia de Guilherme Santos (Diário de Notícias, 30 de janeiro de 1966).

1984 – Fotografias do Rio Antigo de autoria de Guilherme Santos fizeram parte da exposição “19 anos do Museu da Imagem e do Som” (Última Hora, 27 de dezembro de 1984, na última coluna).

2013 – Um conjunto de cerca de 3000 imagens produzidas pelo fotógrafo foi adquirida pelo Instituto Moreira Salles, em 2013.

 

Links para artigos publicados na Brasiliana Fotográfica sobre o fotógrafo Guilherme Santos e sobre estereoscopia

 

O fotógrafo Guilherme Santos (1871 – 1966), publicada em de julho de 2016

A viagem dos reis da Bélgica ao Brasil sob as lentes de Guilherme Santos, publicada em 26 de setembro de 2016

A estereoscopia e o olhar da modernidade, de Maria Isabela Mendonça dos Santos, publicada em 29 de maio de 2019

 

**Andrea C. T. Wanderley é editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica.

 

Jorge Kfuri (1893 – 1965), autor das primeiras fotografias aéreas do Rio de Janeiro

A Brasiliana Fotográfica publica seu último artigo de 2019. É sobre o fotógrafo aviador Jorge Kfuri que nasceu em 3 de setembro de 1893, na Síria, e naturalizou-se brasileiro, em 19 de março de 1921 (O Paiz, 5 de maio de 1921, na terceira colunaRelatório da Marinha de 1922 e Relatório do Ministério da Justiça de 1922). Foi o autor das primeiras fotografias aéreas do Rio de Janeiro, produzidas em 1916, quando voou com o piloto naval Virginius de Lamare, futuro major-brigadeiro, no C-1, uma das três aeronaves Curtiss Flying Boats encomendadas pelo então ministro da Marinha, o almirante Alexandrino de Alencar (1848 – 1926), que chegaram ao Brasil em 9 de julho de 1916 (A Noite, 24 de outubro de 1953, na quarta coluna). O acervo da Brasiliana Fotográfica possui 106 fotografias produzidas por Kfuri, sendo a maioria da Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, uma das instituições parceiras do portal.

Acessando o link para as fotografias de autoria de Jorge Kfuri disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Há registros de diversos bairros do Rio de Janeiro, como Botafogo, Centro, Lapa, Leblon e São Cristóvão; de prédios famosos como o Hotel Glória e a Central do Brasil; de ícones da paisagem carioca como o Corcovado, o Pão de Açúcar e a Lagoa Rodrigo de Freitas; do Zeppelin voando sobre a cidade; das ilhas Fiscal, Paquetá e Brocoiós; de navios iluminados na ocasião do Centenário da Independência do Brasil e da visita dos aviadores Sacadura Cabral e Gago Coutinho, ambos em 1922; e também de outras cidades como Florianópolis, Niterói, Petrópolis, São Paulo, São Vicente e Santos, dentre várias outras fotografias.

 

Breve cronologia do piloto e fotógrafo Jorge Kfuri (1893 – 1965)

 

1893 – Nascimento de Jorge Kfuri, na Síria, em 3 de setembro.

1916 –  Kfuri já trabalhava como fotógrafo do jornal A Noite, quando passou mal, com sintomas de intoxicação, após tomar um chocolate em um café do Largo da Carioca. Foi noticiado que esses casos de envenenamento aconteciam porque os donos dos estabelecimentos usavam vasilhames de cobre, o que era proibido pela Saúde Pública e, para isso, contavam com a desonestidade dos fiscais (A Noite, 2 de abril de 1916, na última coluna).

Um falso advogado foi preso e no caminho para a delegacia tentou agredir Kfuri (A Razão, 12 de junho de 1917, na terceira coluna).

Kfuri foi o autor das até hoje conhecidas primeiras fotografias aéreas do Rio de Janeiro, em 1916, quando voou com o piloto naval Virginius de Lamare, futuro major-brigadeiro, no C-1, uma das três aeronaves Curtiss Flying Boats. Foram encomendadas pelo então ministro da Marinha, almirante Alexandrino de Alencar (1848 – 1926), e chegaram ao Brasil em 9 de julho de 1916 (A Noite, 24 de outubro de 1953, na quarta coluna).

 

 

 

1918 – Kfuri presenteou a Associação Brasileira de Imprensa com uma fotografia produzida por ele do sr.presidente da República em companhia dos ministros do Estado num dos maiores momentos históricos da vida nacional – assinando a declaração de guerra do Brasil à Alemanha (O Imparcial, 8 de outubro de 1918, na última coluna). O presidente era Wenceslau Braz (1868 – 1966) e a assinatura aconteceu em 26 de outubro de 1917.

1919 –  Fez parte do time de futebol de fotógrafos que jogou na festa do Audax Club (O Paiz, 16 de janeiro de 1919, na primeira coluna) e, ainda trabalhando no jornal A Noite, foi arrolado como testemunha de irregularidades praticadas em uma casa de saúde ( Jornal, 7 de outubro de 1919, na penúltima coluna). Participou da cobertura jornalística da prisão de um criminoso envolvido no tráfico de cocaína (A Noite, 23 de outubro de 1919, na terceira coluna).

1920 – Trabalhando como fotógrafo do jornal A Noite, Kfuri sofreu queimaduras de primeiro grau no dorso da mão direita pela explosão de magnésio quando se preparava para tirar uma chapa no edifício do Senado Federal. Na época, ele residia na rua Senador Dantas, nº 14, e foi identificado como sírio com a idade de 27 anos (O Jornal, 4 de maio de 1920, na última coluna).

Kfuri foi aceito como associado na Associação Brasileira de Imprensa (Jornal do Brasil, 23 de junho de 1920, na penúltima coluna).

1921 – O sírio Kfuri naturalizou-se brasileiro, em 19 de março (O Paiz, 5 de maio de 1921, na terceira coluna e Relatórios do Ministério da Justiça de 1922).

Kfuri foi contratado como encarregado técnico do serviço de fotografia aérea da Aviação Naval (O Paiz, 21 de dezembro de 1921, na primeira coluna, e Relatório do Ministério da Marinha de 1922).

 

Sofreu um pequeno acidente aéreo com o piloto Epaminondas Santos, no aeromarino 40 (O Paiz, 28 de dezembro de 1921, na quarta coluna).

1922 – Kfuri estava no avião Avro nº 2, pilotado pelo tenente Luiz Leal Netto dos Reis, que sobrevoou a casa de Santos Dumont (1873 – 1932), em Petrópolis, onde deixaram cair um para-quedas com uma mensagem de saudações a ele, que a recolheu (O Paiz, 16 de março de 1922, na terceira coluna).

 

 

 

1923 –  Para servir como encarregado técnico do serviço de fotografia aérea da Aviação Naval, o Ministério da Marinha contratou o sr. Jorge Kfuri, servindo também como operador cinematográfico em qualquer dos departamentos da Marinha para que seja requisitado (Jornal do Commercio, 14 de maio de 1923, na segunda coluna).

O ministro da enviou ao presidente do Tribunal de Contas uma cópia do contrato celebrado com Jorge Kfuri para servir como fotógrafo da Marinha (Última Hora, 15 de junho de 1923, na terceira coluna e O Paiz, 16 de junho de 1923, na última coluna).

Kfuri integrou como segundo tenente honorário da Marinha a esquadrilha de quatro hidroaviões que foi para a Bahia, sob o comando do capitão de mar e guerra e futuro ministro da Marinha Protógenes Pereira Guimarães (1876 – 1938) (Gazeta de Notícias, 26 de junho de 1923, na quinta coluna e A Rua, 2 de julho de 1923, na penúltima coluna). A esquadrilha voltou para o Rio de Janeiro e foi muito homenageada (O Paiz, 9 de agosto de 1923). Kfuri foi um dos convidados para o banquete oferecido no Palace Hotel pelo Aero Club Brasileiro a Protógenes e a seus comandados no raid de aviação entre Rio e Aracaju (O Imparcial, 30 de agosto de 1923, na segunda coluna).

Foi um dos tripulantes dos três hidroaviões que regressaram de Santos para o Rio de Janeiro (Jornal do Commercio, 12 de setembro de 1923, na quarta coluna).

1926 – Fez parte da tripulação de um dos aviões que recepcionou a chegada, no Rio de Janeiro, do avião Plus Ultra, que havia partido da Europa, pilotado por Ramon Franco (1896 – 1938), um dos pioneiros da aviação espanhola (A Manhã, 3 de fevereiro de 1926 e Jornal do Brasil, 10 de fevereiro de 1926, na terceira coluna).

Participou do segundo voo do avião 322 no serviço postal (O Paiz, 4 de abril de 1926, na sexta coluna).

Houve uma tentativa de assalto na casa de Kfuri na rua Taylor, nº 80 (Gazeta de Notícias, 21 de abril de 1926, na quarta coluna).

Kfuri fez parte da tripulação dos aviões que receberam o hidroavião Buenos Aires, pilotado pelos aviadores argentinos Duggan e Olivero (O Paiz, 19 e 20 de julho de 1926).

Integrava a equipe da esquadrilha da Marinha de Guerra, de três aviões, que partiu para pela primeira vez voar entre o Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Estava no avião, pilotado pelo capitão-tenente Luiz Leal Netto dos Reis, que sofreu uma pane e caiu nos arredores de Petrópolis (O Brasil, 4 de agosto de 1926, O Paiz, 4 de agosto de 1926, na sexta coluna e O Jornal, 4 de agosto de 1926).

 

 

1927 –  Sua participação na documentação fotográfica das pesquisas sobre os explosivos super-rupturita foi elogiada em um ofício encaminhado pelo diretor da comissão dos estudos desse tipo de explosivo ao diretor-geral da Aeronáutica (O Brasil, 11 de novembro de 1927, na última coluna).

1928 – Jorge Kfuri foi elogiado por seu trabalho à disposição do comando da esquadra no segundo período dos exercícios gerais, em dezembro de 1927, e que satisfazendo os desejos do referido comando, conseguiu organizar para o Diretório da Aeronáutica da Armada, valioso documento cinematográfico demonstrativo das fainas e exercícios naquela ocasião (O Paiz, 10 de agosto de 1928, na quinta coluna).

Kfuri foi um dos oficiais escalados para velar o corpo do aviador italiano Carlo del Prete (1897 – 1928), na Embaixada da Itália, no Rio de Janeiro. O italiano havia sofrido um acidente na Ponta do Galeão (Jornal do Commercio, 17 de agosto de 1928, na segunda coluna).

Na Escola de Grumetes de Angra dos Reis, Kfuri foi um dos três oficiais feridos com a explosão de uma bomba que deveria ser utilizada pelos aviadores navais durante os exercícios da Armada. Dois oficiais morreram (A Noite, 27 de novembro de 1928O Estado, 28 de novembro de 1928 e Careta, 1º de dezembro de 1928).

 

 

1929 - Foi ferido em um acidente no avião MF 4, pilotado por Raul Bandeira (Diário Nacional, 12 de junho de 1929, na última colunaJornal do Brasil, 12 de junho de 1929 e O Paiz, 13 de junho de 1929, na segunda coluna).

No Almanak Laemmert de 1929 e de 1931, Jorge Kfuri foi listado como o encarregado do serviço fotográfico da Escola de Aviação Naval.

1931 – Falecimento da mãe de Kfuri, dona Amélia Kfuri, no Rio de Janeiro (Diário da Noite, 16 de março de 1931, na primeira coluna).

A família de Kfuri mandou rezar uma missa em Ação de Graças por seu restabelecimento após o acidente de 1929 (Diáro da Noite, 11 de junho de 1931, na segunda coluna).

1932 – O ministro da Marinha, Protógenes Pereira Guimarães (1876 – 1938), elogiou a conduta de Kfuri no navio Belmonte, como auxiliar do aviador João Correia Dias Costa (Correio da Manhã, 21 de fevereiro de 1932, na terceira coluna).

Por decreto do Ministério da Marinha, Kfuri foi efetivado no lugar de encarregado técnico dos serviços fotográficos dos Centros e Escola de Aviação Naval com as honras e vantagens do posto de 1° tenente da Armada (Correio da Manhã, 14 de maio de 1932, na sétima coluna).

1933 – A reportagem Aspectos de Belém foi ilustrada com fotografias produzidas por Jorge Kfuri (A Noite Ilustrada, 19 de julho de 1933)

Kfuri foi um dos oficiais integrantes da 4ª Divisão de Esclarecimento e Bombardeio Aéreo que atuou no Alto Solimões na vigilância da neutralidade do Brasil no conflito entre a Colômbia e o Peru. A divisão foi comandada pelo capitão de corveta aviador Álvaro de Araújo (Jornal da Noite, 28 de junho de 1933, na terceira coluna, e Correio da Manhã, 21 de junho de 1933, na terceira coluna).

Entrevista com Kfuri sobre suas impressões da região do Alto Solimões nos 45 dias que passou lá (Jornal da Noite, 3 de julho de 1933).

Kfuri produziu a primeira fotografia aérea de Belo Horizonte, durante uma viagem do ministro da Marinha, Protógenes Pereira Guimarães (1876 – 1938), a Minas Gerais. Kfuri voou em um avião Fairey pilotado pelo capitão de corveta Álvaro de Araújo (Diário da Noite, 19 de julho de 1933, na quinta coluna).

 

 

Kfuri ficou ferido em um acidente aéreo perto de Petrópolis, quando voava em um avião da Marinha em exercício no território fluminense, pilotado pelo capitão de corveta Álvaro Araújo. O terceiro tripulante era o aviador civil Raphael Chrisóstomo de Oliveira. Esses dois últimos sofreram pequenas escoriações. A aeronave, Fairey 55, ficou inutilizada. Kfuri foi referido comoum dos nossos aviadores navais mais arrojados…Fotógrafo, talvez, o mais hábil da nossa aviação naval… (Pequeno Jornal, 3 de outubro de 1933, na quarta colunaJornal da Noite, 3 de outubro de 1933, e Jornal do Brasil, 4 de outubro de 1933). Segundo a matéria do Jornal da Noite, foi a sétima vez que Kfuri estava em uma avião que caiu (Jornal da Noite, 3 de outubro de 1933, na penúltima coluna).

1934 – Foi um dos filhos de libaneses homenageados pela Missão Libanesa Maronita do Rio de Janeiro (Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1934).

Kfuri iria integrar como responsável pelo serviço aerofotográfico o grupo da Marinha que faria o levantamento aerotopográfico do litoral nortista (Jornal da Noite, 27 de abril de 1934, na sétima coluna).

1935 – O ministro da Marinha, Protógenes Pereira Guimarães (1876 – 1938), solicitou ao consultor geral da República a extensão do abono salarial a três oficiais honorários da Armada brasileira e Kfuri era um deles (Jornal do Brasil, 2 de outubro de 1935, na segunda coluna).

1936 – Terrenos da aviação naval no campo de São Bento, na Ilha do Governador, estavam ameaçados de despejo pela Companhia Indústria e Comércio. Kfuri era um dos oficiais da Armada que possuía um dos lotes (O Imparcial27 de junho de 1936 e 28 de junho de 1936, na última coluna).

1939 – Participou de um cruzeiro aéreo entre o Rio de Janeiro e São Paulo (Correio Paulistano, 18 de julho de 1939, na última coluna).

1941 – Kfuri estava presente na posse do coronel Dias Costa como presidente do Aeroclube do Brasil (Jornal do Brasil, 1º de agosto de 1941, na quinta coluna).

1942 – O ministro da Aeronáutica, Joaquim Pedro Salgado Filho (1888 – 1950), tornou sem efeito a transferência e nomeação de Jorge Kfuri para monitor de fotografia aérea da Escola de Especialistas da Aeronáutica (Diário de Notícias, 23 de maio de 1942, na segunda coluna, e A Manhã, 7 de julho de 1942, na quarta coluna).

1954 – Kfuri servia no gabinete do ministro da Aeronáutica (Correio da Manhã, 1º de setembro de 1954, na sétima coluna).

1956 – Em uma coluna sobre reportagens antigas do jornal A Noite,  o jornalista Bento Malafaia relatou que o fotógrafo Kfuri havia participado de uma reportagem onde ele se fez passar como secretário de um suposto faquir, na verdade, o redator Eustachio Alves. O “consultório” fez muito sucesso na cidade. Depois de revelada a verdade, foram tomadas medidas contra a exploração de faquires e cartomantes abrandando a crendice popular (A Noite, 24 de julho de 1956, na penúltima coluna).

 

 

 

1957 – Em cerimônia realizada na praça Salgado Filho, com a presença do presidente da República, Juscelino Kubitschek (1902 – 1976), e de Thomas White, Chefe do Estado Maior da Força Aérea dos Estados Unidos, Kfuri foi condecorado com o grau de Cavaleiro da Ordem do Mérito Aeronáutico. Foi publicada uma fotografia de Kfuri sendo condecorado (Correio da Manhã, 24 de outubro de 1957 e Jornal do Brasil, 24 de outubro de 1957, na primeira coluna).

1959 – O presidente da República, Juscelino Kubitschek (1902 – 1976), assinou um decreto suprimindo o cargo de chefe do Serviço Fotográfico da Aeronáutica, vago em virtude da aposentadoria de Jorge Kfuri (Jornal do Dia, 15 de setembro de 1959, na quarta coluna).

1965 – Falecimento de Jorge Kfuri, em 21 de janeiro, no Hospital Central da Aeronáutica. Sua esposa, Hilda Carelli Kfuri, publicou um anúncio do enterro, realizado no cemitério São João Batista (Correio da Manhã, 22 de janeiro de 1965, na primeira coluna).

1999 – No Espaço Cultural da Marinha, no Rio de Janeiro, foi realizada entre dezembro de 1999 e abril de 2000 a exposição Imagens da Aviação Naval com fotografias pertencentes ao acervo do Serviço de Documentação da Marinha, que fazem parte de um álbum de 555 imagens produzidas por Kfuri com registros da aviação naval desde seu início, de vistas aéreas do Rio de Janeiro e de acontecimentos importantes na cidade.

 

 

 

 

Colaborou para esta pesquisa a bibliotecária Marcia Prestes Taft, Encarregada da Divisão de Documentos Especiais da Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ANDRADE, Joaquim Marçal Ferreira. Milan Alram. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2015.

Arquivo Nacional

Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha

Hemeroteca da Biblioteca Nacional

Site da Biblioteca da Presidência da República

Site da Câmara dos Deputados

Site da Secretaria de Estado de Cultura do Distrito Federal

Site da Presidência da República – Casa Civil

Site do CPDOC

Site do Senado Federal

Site do Superior Tribunal Militar

Ilha da Trindade: síntese histórica

A Ilha de Trindade, localizada na costa do estado do Espírito Santo, foi diversas vezes, entre os séculos XVI e XIX, alvo de disputas entre Portugal e Inglaterra. Devido à Primeira Guerra Mundial, foi criada uma guarnição mista de terra e mar, sob administração do Ministério da Marinha, na Ilha da Trindade, onde, em 24 de maio de 1916, chegou o cruzador Barroso com militares e uma comissão científica, com o material necessário à instalação de uma estação radiotelegráfica. Foi a partir desta comissão científica, capitaneada pelo Museu Nacional que, de maio a outubro de 1916, pesquisadores colheram materiais, produziram registros fotográficos e classificaram espécies até então inéditas. São dessa época as fotografias que pertencem ao acervo do Departamento do Patrimônio Histórico da Marinha do Brasil – uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica – que ilustram o artigo Ilha da Trindade: síntese histórica, escrito pelo capitão de corveta Daniel Martins Gusmão. 

José Domingues dos Santos Filho (1866 – 19?), que fazia parte da equipe do museu, e o então capitão-tenente Moraes Rego (1882 – 1941), encarregado pela instalação de uma estação radiotelegráfica na ilha, foram os responsáveis pelas fotografias. Posteriormente, Santos Filho foi trabalhar no Museu Paulista, onde confeccionava fotografias, copiava mapas, fazia desenhos científicos e foi responsável por pelo menos uma série composta por 12 desenhos aquarelados, a maioria deles baseada nas obras de Hercule Florence (1804-1877). Já Moraes Rego tornou-se patrono das Comunicações Navais no Brasil.

 

Ilha da Trindade: síntese histórica

Daniel Martins Gusmão*

 

 

Em 1501, de passagem a caminho da Índia, o explorador galego João da Nova (c. 1460 – 1509), a serviço de Portugal, avistou a Ilha da Trindade. No entanto, sua posse só foi confirmada pela Coroa portuguesa, em 1503, quando Afonso de Albuquerque (1453 – 1515) navegava pela mesma rota. Ainda no século XVI, foi transformada em capitania e transferida por carta de doação de d. João III (1502 – 1557) ao fidalgo Belchior Camacho, em 1538, que nunca a ocupou. O documento é a primeira manifestação da soberania portuguesa sobre a ilha. Porém, no decorrer dos séculos XVII a XIX, a ilha foi ocupada, por breves períodos, para fins científicos ou militares, por ingleses e portugueses, tendo sido também alvo de disputa por estes reinos devido à sua posição estratégica privilegiada. Em 1825, no tratado que confirmou a Independência do Brasil, Trindade foi incorporada definitivamente ao território brasileiro. No final do século XIX, voltou a ser alvo de disputa e cobiça pelos britânicos.

Em 15 de abril de 1700, o capitão inglês Edmond Halley (1656 – 1742) visitou a Ilha da Trindade para estudos astronômicos e dela tomou formalmente posse em nome do rei Guilherme III (1650 – 1702) e da rainha Ana II (1662 – 1694), da Grã-Bretanha. Como prática usual entre os navegadores da época, foram soltos diversos animais na ilha, entre cabras e porcos, para servir de alimento a possíveis náufragos ou futuros ocupantes. Mais tarde, tal ato desencadearia drásticas alterações na flora da ilha, com consequências extremas na perda do solo e na descaracterização geral da cobertura vegetal. Em 22 de fevereiro de 1724, uma carta régia de d. João V ordenou providências no sentido de impedir que a Companhia Inglesa de Guiné se servisse da Ilha da Trindade para o comércio de escravos. Foi, sem dúvida alguma, um protesto solene contra o ato de 1700 praticado pelo Capitão Halley.

 

Acessando o link para as fotografias da Ilha da Trindade disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Em 28 de maio de 1775, o navegador inglês James Cook (1728 – 1779) também visitou Trindade sem muitas pretensões, deixando-nos impressionante descrição da agressiva natureza da ilha. Os primeiros passos para o início de uma colonização inglesa foi efetivada em 1781, quando desembarcaram no Porto do Príncipe e ergueram um forte, deixando na ilha uma guarnição armada. Os ingleses tinham como objetivo transformar a Ilha da Trindade em ponto de apoio para as suas rotas oceânicas, com o intuito de hostilizar o comércio espanhol com as colônias do Prata devido à guerra travada pela Grã-Bretanha com este país. Ao tomar conhecimento dessa invasão, Portugal formalizou protestos em Londres e, em 1783, deslocou um contingente de militares e civis para ocupar a ilha que, no momento da chegada dos portugueses, já havia sido abandonada pelos ingleses. No ano seguinte contava com 200 habitantes, e, em 1789, este contingente decresceu até 88 militares, quando finalmente, em 1795, a ilha, muito provavelmente pelas condições inóspitas e agressivas já destacadas pelo inglês James Cook, foi completamente desguarnecida.

Seguiu-se um longo período em que a ilha foi visitada por sucessivos navegantes entre ingleses, franceses e americanos que, porém, nela não se fixaram. Por ocasião da Independência do Brasil, o projeto de Constituição elaborado em 1823 incluía, no seu art. 2º, a Ilha da Trindade como compreendida no âmbito do território brasileiro.

Em 1825, visitaram-na uma comissão do Governo brasileiro com a corveta Itaparica. No período da Regência, em 1831, foi expedido um aviso mandando proceder a estudos e exames para a utilização da ilha, entretanto ela continuou relegada ao esquecimento. Em 1839, o notável explorador do continente antártico, James Clark Ross (1800 – 1862), empenhado em fixar a posição do polo sul magnético, esteve na ilha com os naturalistas Joseph Dalton Hoocker (1817 – 1911) e Robert Mac Cormick (1800 – 1890).

Em 1846, a corveta brasileira Sete de Abril esteve na ilha e, em 1856, a corveta Dona Isabel também a visitou durante uma viagem de instrução. A Marinha preocupou-se constantemente para que suas embarcações realizassem visitas periódicas à ilha. Como forma de demonstrar a ocupação do território, o Governo Imperial, por meio do Decreto nº 9.334, de 29 de novembro de 1884, concedeu permissão ao cidadão João Alves Guerra para “explorar minerais e extrair produtos naturais, assim como estabelecer salinas na Ilha da Trindade, podendo explorar-lhe os minérios pelo prazo de 10 anos e as salinas pelo de 30”, fato que não se concretizou. Entre o final do século XIX até 1916 nada menos de 12 expedições aportaram na ilha à procura de tesouros escondidos por hipotéticos piratas.

 

 

 

Preocupados ainda com a questão da não ocupação efetiva da ilha, o Governo Imperial enviou uma comissão no vapor Penedo a fim de estudar a possibilidade de sua utilização como local para exílio de presos políticos, bem como para fixação de um posto de ocupação, o que não aconteceu. Nova ocupação só ocorreria em 1895, quando a Inglaterra tomou posse da ilha mais uma vez, sob o pretexto de instalar uma estação de cabo submarino, que se estenderia até a Argentina, com o argumento de “se tratar de território abandonado e nela não haver vestígio algum de posse de qualquer outra nação”. Desta forma, o comandante do HMS Baraconta, de passagem pela ilha, nela arvorou o pavilhão britânico. Mobilizada a diplomacia brasileira, houve troca de notas. O ministro das Relações Exteriores de Portugal ofereceu-se como mediador, prevalecendo a tese de que a ilha, embora não ocupada, pertencia de direito ao Brasil. A 14 de janeiro de 1897, o cruzador Benjamin Constant transportou para a ilha um marco padrão de granito que não pôde desembarcar. No entanto, no local do Forte da Rainha, um sinal de posse foi hasteado, afirmando a definitiva soberania do Brasil.

 

Marco da Ilha da Trindade

Marco da Ilha da Trindade

 

Em 1910, um novo marco em granito, transportado pelos Cruzadores República e Andrada, foi erguido como forma de confirmar a posse da Ilha da Trindade. O local do marco, que até hoje encontra-se lá instalado, está situado na Praia do Andrada, junto ao Morro das Tartarugas. Em 1915, o governo britânico indagou sobre a ocupação da ilha com o intuito de comprá-la.  O então ministro da Marinha, o almirante Alexandrino de Alencar, respondeu: “quanto à ocupação ou não da Ilha da Trindade, não interessa a estrangeiros: e quanto à venda, o Brasil, apesar de muito grande, não negociava com seus territórios”.

 

 

Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, foi criada pelo Decreto nº 11.181, de 30 de setembro de 1914, uma guarnição mista de terra e mar, sob administração do Ministério da Marinha, nas ilhas de Fernando de Noronha e da Trindade. Para a Ilha da Trindade, chegou, em 24 de maio de 1916, o cruzador Barroso com uma guarnição militar e uma comissão científica, com o material necessário à instalação de uma Estação Radiotelegráfica. Terminada a guerra, a guarnição foi evacuada em 2 de setembro de 1919.

 

 

Foi a partir desta comissão científica, capitaneada pelo Museu Nacional, que, de maio a outubro de 1916, pesquisadores colheram materiais, fizeram observações, registros fotográficos e classificaram espécies até então inéditas. A fauna brasileira ficou acrescida e a ciência ganhou novas espécies, principalmente entre aves e peixes, conforme levantamento fotográfico demonstrado pela comissão.

 

 

De 1924 a 1926, a Ilha da Trindade serviu de presídio político. Com o intuito de consolar um dos presos políticos, a filha do coronel Waldomiro de Lima, Lourdes de Lima, levou para a ilha a imagem de Nossa Senhora de Lourdes, que se encontra numa gruta que leva o seu nome. Evacuados os presos políticos, a partir de 1927, novamente a Ilha da Trindade ficou despovoada.

A Ilha voltou a ser guarnecida em 1941 para impedir que os submarinos do Eixo fossem apoiados durante a Segunda Guerra Mundial, além de garantir o domínio efetivo deste longínquo território pelo Brasil. Tal situação perdurou até junho de 1945, com a retirada da guarnição militar.

Em 1950, uma expedição visitou a ilha com a finalidade de avaliar a sua ocupação permanente e a construção de uma base aeronaval. Em 29 de maio de 1957, por meio do Aviso n° 1.420 do Ministro da Marinha, foi criado o Posto Oceanográfico da Ilha da Trindade (POIT), como parte do programa de participação da Marinha no Ano Geofísico Internacional, possibilitando desta forma, a ocupação permanente da ilha pela Marinha do Brasil, que inicialmente era uma organização militar subordinada à Diretoria de Hidrografia e Navegação. As atividades científicas na ilha foram retomadas e, desde então, são desenvolvidas ações de observações meteorológicas, apoio às pesquisas científicas, atividades de preservação do meio ambiente, além do controle do tráfego marítimo na área. Esta continuidade somente tem sido viável em virtude do apoio da Marinha às pesquisas, sendo a instituição responsável por garantir a presença do Estado brasileiro naquela longínqua porção da Amazônia Azul.

 

 

Por sua localização, em latitude próxima das principais bacias petrolíferas e da região de maior desenvolvimento econômico e concentração populacional do País, a Ilha da Trindade constitui um posto avançado, permanentemente ocupado por um destacamento militar, sendo importante para a Defesa Nacional no que concerne ao emprego do Poder Naval.

As pesquisas científicas permitem identificar o potencial sustentável de exploração e utilização sustentável do patrimônio. Além disso, novas descobertas podem contribuir para preservação do meio ambiente. No caso particular da Ilha da Trindade, o caminho da ciência tem sido uma das prioridades da atuação conjunta da MB, das instituições de pesquisa e universidades.

A partir de 1986, a Organização Militar foi transformada em um setor do Comando do Primeiro Distrito Naval, sendo desde então administrada logística e operacionalmente por este comando. Conforme dispõe o inciso IV, do Art. 20, da Constituição da República, a Ilha da Trindade é um bem da União, entregue pela Secretaria do Patrimônio da União (SPU) ao encargo da Marinha do Brasil (MB), por meio do Termo de Entrega nº SCC-001/84, de 24 de abril de 1984. A Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar dá ao Brasil o direito de estabelecer, ao redor da Ilha da Trindade, Mar Territorial, Zona Contígua, Zona Econômica Exclusiva e Plataforma Continental, o que foi concretizado pela Lei nº 8.617/1993.

Nos últimos anos a Marinha tem recebido uma quantidade crescente de solicitações para a realização de pesquisas na Ilha da Trindade. Tais solicitações recomendaram a criação de um programa específico, sob a égide da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (CIRM), coordenado pela MB, aproveitando o apoio logístico regular por ela prestado às instalações que mantém na ilha. Este programa, criado em abril de 2007 e denominado PROTRINDADE (Programa de Pesquisas Científicas na Ilha da Trindade), destina-se a gerenciar o desenvolvimento de pesquisas científicas na Ilha da Trindade, Arquipélago de Martin Vaz e na área marítima adjacente, possibilitando, dessa forma, a obtenção, a sistematização e a divulgação de conhecimentos científicos sobre a região.

 

Geografia

 

A Ilha da Trindade é o cume de elevada montanha submarina que se eleva de uma profundidade de 5.000 metros do assoalho oceânico, sobre uma base de 50 km de diâmetro. Está situada na latitude de 20º 30’S e longitude 29º 49’W e encontra-se no limite da bacia do Brasil, profunda depressão que atinge os 7.000 metros. O seu ponto culminante é o Pico do Desejado, com 600 m de altitude. Está situada a 1.140 km da costa, no pararelo que passa 70 km ao sul de Vitória (ES), tendo o comprimento de 5 km de N.W a S.E e a largura de 2,5 Km, é circundada por uma plataforma que atinge 3 km de largura, com a profundidade de 200 m.

Os rochedos de Martin Vaz, situados 48 km a leste, fazem parte do arquipélago vulcânico. Suas rochas são análogas às da Ilha da Trindade. Grande parte do litoral, especialmente as enseadas e menores reentrâncias, possui um banco de coral que protege a orla do mar. A formação coralígena forma um barranco na zona de arrebentação (afastada da terra 50 m ou mais), com a altura de 5 a 10 m.

A abundância de material piroclástico presente na Ilha da Trindade propiciou a existência de diversas fontes de água. O solo é pouco espesso e escasso, havendo predominância de gramíneas e ciperáceas, enquanto que nas regiões sombrias e úmidas existem grandes florestas de samambaias gigantes. A ilha é cercada por costões abruptos, o que torna difícil e perigosa a sua abordagem, sendo a topografia bastante acidentada nessas áreas.

Nos planaltos originados pelos derrames e depósitos quase horizontais de material piroclástico, a topografia já é mais suave. As rochas que preenchiam antigas chaminés vulcânicas são frequentemente responsáveis pelas formas acidentadas do relevo, como o chamado Monumento, composto de fonólito. As raras e estreitas praias existentes na ilha constituem-se principalmente de fragmentos calcários derivados de recifes de algas calcárias e restos de carapaças de moluscos, formando-se em menos de 10% de fragmentos de rochas vulcânicas.

 

 

 Naufrágios históricos da Ilha da Trindade

 

Atualmente, ao longo de área habitável do POIT é possível encontrar diversos vestígios arqueológicos, tais como âncoras e restos de navios. Tais conjuntos de artefatos fazem parte da cultura material que compõe o contexto de ocupação da ilha ao longo do tempo. No museu do POIT e ao lado da Casa da Chefia estão expostos remanescentes do navio Oceanográfico Beberibe, que naufragou em 1966; do pesqueiro chinês HWA Shing, encalhado deliberadamente em 1989 (ambos na Praia dos Portugueses); e do veleiro Le Roi des Harengs, lançado sobre as pedras em 1994, na Ponta do Valado (Enseada dos Portugueses). Estes sítios arqueológicos representam um pouco da história da ilha.

Cabe destacar também que o Projeto Atlas dos Naufrágios de Interesse Histórico da Costa do Brasil, desenvolvido pela Marinha, possui registros de quatro embarcações naufragadas ao largo da Ilha da Trindade. Tais vestígios, se localizados, representam sítios arqueológicos submersos, consideravelmente formados por restos de embarcações naufragadas. O primeiro desses registros é o do cúter inglês HMS Rattlesnake, que naufragou por mau tempo em 21 de outubro de 1781, quando realizava levantamento hidrográfico no entorno da ilha. Em 1805, uma baleeira americana pegou fogo e os sete sobreviventes foram resgatados pelo navio inglês Agamenon. Em 1817, o bergantim francês La Jeune Sophie naufragou ao se aproximar da ilha. Por último, no ínicio da Grande Guerra, em setembro de 1914, a Ilha da Trindade foi palco de um confronto naval entre o cruzador alemão Cap Trafalgar e o cruzador inglês RMS Carmania, tendo sido o primeiro bombardeado e vindo a naufragar nas proximidades da ilha. Tal evento ficou conhecido na história como a Batalha de Trindade e foi retratado por Charles Dixon (1872 – 1934), em aquarela de papel, tendo como pano de fundo a Ilha da Trindade e o Cap Trafalgar afundando.

 

Carmania sinking Cap Trafalgar off Trinidad, September 14, 1914, 1923 / Acervo do Museu Marítimo Nacional em Londres

Charles Dixon. Carmania sinking Cap Trafalgar off Trinidad, September 14, 1914, 1923 / Acervo do Museu Marítimo Nacional em Londres

 

*Daniel Martins Gusmão é Capitão de Corveta (T) e Ajudante da Divisão de Arqueologia Subaquática da Marinha do Brasil.

 

 

 

FONTES:

ALVES, Ruy José Válka. Ilha da Trindade & Arquipélago Martin Vaz: um ensaio geobotânico. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação da Marinha, 1998.

ARRAES, Virgílio Caixeta. A presença britânica na Ilha da Trindade: a reação do Parlamento brasileiro. Brasília: Revista de Informação Legislativa, n. 153, 2002.

CAMINHA, Herick Marques. Organização e Administração do Ministério da Marinha na República. Ministério da Marinha, Brasília˗Rio de Janeiro: Serviço de Documentação Geral da Marinha, 1986.

De Tordesilhas ao Mercosul – uma exposição da história da diplomacia brasileira: Catálogo da exposição. Rio de Janeiro: Ministério das Relações Exteriores, s/d.

PETTIGREW, Willian A. A Dívida da Liberdade: A Companhia Real Africana e a Política do Comércio de Escravos do Atlântico, 1672–1752. Chapel Hill, Carolina do Norte: University of North Carolina Press, 2014.

SECRETARIA DA COMISSÃO INTERMINISTERIAL PARA OS RECURSOS DO MAR. PROTRINDADE: programa de pesquisas científicas na Ilha da Trindade – 10 anos de pesquisas. Brasília: SECIRM, 2017.

TONELLI, Nicélio. A dimensão da ocupação britânica da ilha brasileira de Trindade (1895-1896). Brasília: Revista Brasileira de Política

 

 

Um pouco da história e cronologia da comissão científica na Ilha de Trindade em 1916 e

sobre José Domingues dos Santos Filho (1866 – 19?) e o comandante Tácito Reis de Moraes Rego

Andrea Wanderley**

 

Professor Bruno Lobo

Professor Bruno Lobo, diretor do Museu Nacional

O professor e médico Bruno Lobo (1884 – 1945), diretor do Museu Nacional entre 1915 e 1923, aproveitando a ida do cruzador Barroso para a Ilha da Trindade, em 1916, promovida pelo almirante e ministro da Marinha Alexandrino de Alencar (1848 – 1926), foi para lá acompanhado por quatro auxiliares: Arnaldo Blake de Santa Anna (18? – 19?), Armando dos Santos Belleza (18? – 19?), Pedro Pinto Peixoto Velho (18? – 19?) e José Domingues dos Santos Filho (1866 – 19?). Estes dois últimos ficaram cerca de 6 meses na ilha. Santos Filho foi responsável pela maioria das fotografias produzidas. No período, colheram o seguinte material: mamíferos, aves, répteis, crustáceos, insetos, moluscos, vermes, equinodermes e esponjas, além de espécimes vegetais. O professor Lobo distribuiu o material entre os naturalistas Carlos Moreira (1869 – 1946) – crustáceos e insetos -, Hermann von Ihering (1850 – 1930) – moluscos – Alípio de Miranda Ribeiro (1874 – 1939) – vertebrados – e h (1882 – 1959) – botânica. Também integrava a comissão científica, o assistente de Oswaldo Cruz, o médico e zoólogo Lauro Travassos (1890 – 1970), de Manguinhos, que colheu vermes endoparasitas e colecionou peixes para o Museu Nacional.  As

 

 Breve cronologia

 

1916 – Foi noticiado que o diretor da Museu Nacional, Bruno Lobo, seguiria para a Ilha da Trindade, a bordo do cruzador Barroso (Gazeta de Notícias, 19 de maio de 1916, sexta coluna).

O cruzador Barroso zarpou do Rio de Janeiro, em 20 de maio, sob o comando do capitão de Mar e Guerra José Libânio Lamenha Lins, levando Bruno Lobo e sua equipe: Pedro Pinto Peixoto Velho, José Domingues dos Santos Filho, Arnaldo Blake de Santa Anna e Armando dos Santos Belleza. A comissão do museu conduzia todos os aparelhos e objetos necessários para os minuciosos estudos que vai empreender na ilha no que possa interessar a esse referido estabelecimento (Gazeta de Notícias, 21 de maio de 1916; e Revista Marítima Brasileira, 1916).

Em 24 de maio, chegada do cruzador à Ilha da Trindade (Gazeta de Notícias, 26 de maio de 1916, última coluna).

Em 6 de junho, o Barroso partiu de Trindade e chegou no Rio de Janeiro, em 9 de junho. Bruno Lobo, que retornou, foi muito elogiado. O preparador de taxidermia Pedro Pinto Peixoto Velho e o auxiliar petrógrafo José Domingues dos Santos Filho, da equipe do Museu Nacional, ficaram lá (Gazeta de Notícias, 8 de junho de 1916, penúltima coluna e Gazeta de Notícias, 10 de junho de 1916, terceira coluna). De maio a outubro de 1916, eles colheram materiais, produziram registros fotográficos e classificaram espécies até então inéditas. A fauna brasileira ficou acrescida e a ciência ganhou novas espécies, principalmente entre aves e peixes, conforme levantamento fotográfico realizado por José Domingues dos Santos Filho (Revista da Sociedade Brasileira de Ciências, 1919).

 

 

O vapor Carlos Gomes partiu do Rio de Janeiro, em 24 de setembro, para a Ilha da Trindade onde permaneceu por cerca de 15 dias. Chegou de volta ao Rio de Janeiro, em 13 de outubro, trazendo os preparadores do Museu Nacional, Pedro Pinto Peixoto Velho e José Domingues dos Santos Filho (Gazeta de Notícias, 23 de setembro de 1916, sexta coluna;  Gazeta de Notícias, 15 de outubro de 1916, segunda coluna; e Revista Marítima Brasileira, 1916).

Foi noticiado que haviam sido feitas importantes descobertas pela equipe do Museu Nacional que havia regressado da Ilha da Trindade (Gazeta de Notícias, 22 de outubro de 1916, última coluna).

1918 – Em 3 de agosto, o professor Bruno Lobo fez uma conferência sobre a Ilha da Trindade, na Biblioteca Nacional. Na plateia, o professor Ramiz Galvão (1846 – 1938), o ministro da Marinha Alexandrino de Alencar e o senador Epitácio Pessoa (1865 – 1942), entre outros (Gazeta de Notícias, 5 de agosto de 1918, segunda coluna).

 

 

1919 - O volume de 1919 dos Arquivos do Museu Nacional, dedicado à comemoração do centenário do museu, trouxe três artigos relativos às descobertas realizadas na expedição de 1916 à Ilha da Trindade: de Bruno Lobo, de Lauro Travassos e de Alípio de Miranda Ribeiro (Arquivos do Museu Nacional do Rio de Janeiro, 1919).

 

José Domingues dos Santos Filho (1866 – 19?) e almirante Moraes Rego (1882 – 1941)***

 

As fotografias publicadas nesse artigo, que pertencem ao acervo do Departamento do Patrimônio Histórico da Marinha do Brasil, foram utilizadas durante a conferência proferida pelo então diretor do Museu Nacional, Bruno Lobo, em 3 de agosto de 1918, na Biblioteca Nacional. Ao final, ele comentou sobre as fotografias:

As fotografias que documentam o presente trabalho foram executadas em sua maioria pelo praticante do Museu Nacional José Domingues dos Santos, devendo contudo algumas à gentileza do comandante Moraes Rego‘.

Tanto Moraes Rego como Santos Filho haviam ido para Trindade a bordo do cruzador Barroso, que chegou à ilha em maio de 1916. Porém Moraes Rego retornou ao Rio de Janeiro no mesmo navio, em junho, enquanto que Santos Filho permaneceu na Ilha da Trindade até outubro de 1916, quando voltou para o Rio de Janeiro a bordo do vapor Carlos Gomes.

 

José Domingues dos Santos Filho (1866 – 19?)

 

Nascido em 22 de fevereiro de 1866, em Rezende, José Domingues dos Santos Filho, da equipe do Museu Nacional, na viagem de 1916 para a Ilha da Trindade,  foi, como já mencionado, o responsável pela maioria das fotos produzidas na ocasião. Em maio de 1917, poucos meses depois de assumir a diretoria do Museu Paulista, Affonso d´Escragnolle Taunay (1876-1958) contratou José Domingues dos Santos Filho, nascido em Rezende, em 22 de fevereiro de 1886, como desenhista-fotógrafo e auxiliar do botânico Frederico Carlos Hoehne (1882-1959). Ambos vinham do Rio de Janeiro, onde haviam colaborado em instituições científicas como, por exemplo, o Museu Nacional. Hoehne e ele também atuavam nos Institutos Soroterápico (futuro Butantan) e Bacteriológico.

José Domingues dos Santos Filho seria responsável no Museu Paulista pela confecção de fotografias, de cópias de diversos mapas, pelos desenhos científicos e ao menos de uma série composta por 12 desenhos aquarelados, a maioria deles baseada nas obras de Hercule Florence (1804-1877). Essas aquarelas integraram a sala “Consagrada ao passado da cidade de São Paulo”, que foi inaugurada em outubro de 1918. Também faziam parte da sala telas como as de José Wasth Rodrigues (1891-1957)  representando os largos do Palácio e da Sé, o grande panorama Inundação da Várzea do Carmo (1892), de Benedito Calixto (1853-1927), documentos históricos emprestados pelo Arquivo Municipal de São Paulo, referidos como uma série de alto valor evocativo absolutamente insubstituível, além de plantas da cidade de São Paulo, como a produzida pelo engenheiro alemão (1804 – 1856), em 1841, copiada por José Domingues dos Santos Filho (Correio Paulistano, 11 de outubro de 1918, quarta coluna).

Em 1920, apesar de estar doente, Santos Filho encaminhou uma série de mapas a Taunay mas informou não ter mais condições de realizar serviços muito extensos. Provavelmente referia-se ao Ensaio geral das Bandeiras paulistas, carta cartográfica onde seu nome aparece com destaque. No mesmo ano foi exonerado, a pedido, do Instituto Soroterápico (Butantan), onde era fotógrafo-micrografista  (Correio Paulistano, 11 de novembro de 1920, quarta coluna). Em 1921, continuava a prestar serviços fotográficos para o Museu Paulista. Seria ele, entre 1928 e 1929, o fotomicrógrafo do Laboratório Central da Diretoria do Serviço de Inspeção e Fomento Agrícola do Ministério da Agricultura? (Almanak Laemmert, 1929 e 1930, )

 

Tácito Reis de Moraes Rego (1882 – 1941)

 

 

O então capitão-tenente Tácito Reis de Moraes Rego foi para Trindade como o encarregado pela montagem da estação radiotelegráfica da ilha (Gazeta de Notícias, 20 de maio de 1916). Ele, Bruno Lobo e o pessoal do escaler que os levou do navio à ilha foram os primeiros a desembarcar em Trindade (Correio de Notícias, 1º de junho de 1916, quinta coluna). Retornou ao Rio de Janeiro, a bordo do cruzador Barroso, em 9 de junho de 1916, e, no dia seguinte, apresentou-se ao então ministro da Marinha, Alexandrino de Alencar, e explicou ser impossível a instalação de uma estação radiotelegráfica na ilha (Correio de Notícias, 11 de junho de 1916, quinta coluna).

Nascido no Rio de Janeiro, em 8 de março e 1882, Moraes Rego ingressou na Escola Naval em 1898, serviu nos navios Minas Gerais e Rio Grande do Sul como radiotelegrafista. Em 1928, quando era adido naval, cursou a Escola de Guerra Naval. Comandou os cruzadores Barroso e o Rio Grande do Sul. Em 1930, comandou a Divisão Naval do Norte e a Divisão de Cruzados. Em julho de 1932, foi designado capitão do Portos de São Paulo, sediado em Santos. Foi também comandante da 2ª Divisão Naval, diretor geral da Fazenda da Marinha, diretor do Serviço de Rádio e diretor geral de Navegação. Quando faleceu, em 14 de dezembro e 1941, era diretor geral do Ensino Naval e presidente do Conselho do Almirantado (Correio da Manhã, 16 de dezembro de 1941, quarta coluna).

É o patrono das Comunicações Navais no Brasil por ter sido o primeiro encarregado da Estação Radiotelegráfica da Ilha das Cobras – Estação Central e por sua atuação nos primórdios das comunicações na Marinha do Brasil.

 

**Andrea Wanderley é editora-assistente e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

*** O pequeno perfil aqui publicado sobre José Domingues dos Santos Filho foi baseado principalmente no trabalho Desenhos como intermediários no projeto de exposição de Taunay para o Museu Paulista: as aquarelas de José Domingues dos Santos Filho, publicado em 2019, de autoria de Ana Paula Nascimento, doutora em História da Arquitetura e do Urbanismo.

 

Fontes:

Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832 – 1930) – Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz

DUARTE, Regina Horta. Barth e a Ilha da Trindade in Histórias, Ciências, Saúde –  Manguinhos, 2012

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

LOBO, Bruno. Conferência sobre a Ilha da Trindade in Arquivos do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1919.

NASCIMENTO, Ana Paula. Desenhos como intermediários no projeto de exposição de Taunay para o Museu Paulista: as aquarelas de José Domingues dos Santos Filho, 2019

RIBEIRO, A. de Miranda. A fauna vertebrada da Ilha da Trindade in Arquivos do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1919.

RIBEIRO, Paulo de Miranda. O professor Carlos Moreira. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1947.

Site do Instituto Oswaldo Cruz

Site do Ministério da Defesa

O objeto de trabalho: Augusto Malta e sua câmera fotográfica

O objeto de trabalho: Augusto Malta e sua câmera fotográfica

Beatriz Kushnir e Carolina Ferro*

 

A facilidade com a qual produzimos uma fotografia nos dias atuais faz com que nos esqueçamos das dificuldades enfrentadas no passado para registrar um determinado momento, monumento ou evento. Da vinda do daguerreótipo para o Brasil, na década de 1840, até as primeiras décadas do século XX, os objetos destinados às fotografias eram muito maiores e mais complexos. As imagens eram, em sua grande maioria, em preto e branco, tendo em vista que a versão colorida era uma novidade que seria popularizada aos poucos, pós 1907. Também aos poucos os fotógrafos se profissionalizavam e se preocupavam com seus instrumentos de trabalho, acompanhando os avanços técnicos que se aceleravam. Nesse período, mais especificamente no início do século XX, Augusto Malta, fotógrafo oficial do município do Rio de Janeiro, foi um dos nomes mais célebres da fotografia no Brasil.

Malta percorreu a cidade do Rio de Janeiro com diversas câmeras, uma boa parte operada com chapas de vidro à base de gelatina. Segundo Amanda Danelli Costa (2019), essas chapas eram bastante sensíveis à luz, o que permitiam “diafragmas bem fechados e velocidades de obturador entre um segundo e um quarto de segundo”, o que é um avanço se compararmos com os vários minutos que a fotografia demorava a ficar pronta nos seus primórdios. Segundo a autora (COSTA, 2019), os objetos de trabalho de Malta carregavam grandes formatos de negativos (24X30 cm, 18X24 cm e 13X18 cm) e essas informações nos ajudam a afirmar que as técnicas e as câmeras utilizadas por ele são essenciais para a compreensão da qualidade das fotografias que esse profissional nos proporcionou durante mais de 30 anos de trabalho. Ele se deslocava pela cidade sempre com uma câmera pesada, um tripé de madeira, um flash de magnésio e uma maleta com as chapas (BUENO, 2014). Uma dessas câmeras se encontra, hoje, no Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro.

 

Máquina fotográfica de Augusto Malta

Máquina fotográfica de Augusto Malta

 

Não cabe aqui retomar toda a vida de Augusto Malta, tão amplamente divulgada por inúmeros estudiosos. Mas cabe salientar que detalhes importantes de sua vida profissional estão em documentos encontrados no AGCRJ. Do decreto de nomeação à aposentadoria, o viés público de Malta nos faz refletir sobre a prática de produção de uma memória política e histórica pelo poder público e sobre a importância da fotografia como documento.

O alagoano Augusto Malta tornou-se fotógrafo através do decreto n° 445, de 27 de junho de 1903, publicado pelo prefeito Pereira Passos, um dos grandes responsáveis pela remodelação da cidade do Rio de Janeiro. Dentre suas atribuições, estavam “tirar provas photographicas, no número que for necessário, dos edifícios, monumentos, obras da municipalidade e pontos do Districto Federal que lhe forem determinados e bem assim, quando o diretor geral o julgar conveniente, auxiliar o expediente da Directoria”, que era a de Obras e Viação. Para cumprir com uma missão tão grandiosa, Malta precisou de auxiliares, sendo os seus filhos, Aristógiton e Uriel, os mais conhecidos.

Acessando o link para as fotografias de autoria de Augusto Malta e de seus filhos Aristógiton e Uriel disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Em 1909, o cargo de fotógrafo oficial da prefeitura foi extinto, mas em 1913 ele foi recriado e Malta foi o escolhido para ocupar esse lugar devido ao seu profissionalismo e à qualidade de suas fotografias. Ele começou seu trabalho de forma amadora, mas era um grande estudioso e autodidata, o que fez com que aprimorasse sua técnica e a qualidade de suas obras. Ficou na prefeitura até 25 de agosto de 1936, quando se aposentou, tendo passado por 19 prefeitos, comprovando que as disputas políticas pelas quais o Brasil enfrentou, inclusive no período dos movimentos da década de 1930, deixaram intocáveis seu serviço público muito bem prestado. Quem o substituiu foi seu filho Aristógiton, sendo nomeado alguns dias depois, em 9 de setembro do mesmo ano.

No percurso da carreira de Malta, há um momento que, para os historiadores e pesquisadores do Rio de Janeiro em geral, é precioso. Em 1931, o cargo de fotógrafo oficial da prefeitura passa da Diretoria Geral de Viação e Obras para a Diretoria Geral de Engenharia e, no ano seguinte, através do decreto n° 3.759, de 30 de janeiro, novas atribuições somam-se às já relatadas. Agora, é necessário “§2 – Organizar o Archivo photographico e histórico dos serviços executados” e “§3º – Fornecer ao Archivo geral as fotografias históricas relativas ao desenvolvimento da cidade ou de cerimonias realisadas e que tiverem sido photographadas”. Isto significa que Malta passa a ser obrigado por lei a entregar o material produzido na execução de seu trabalho ao Arquivo do Distrito Federal, atual AGCRJ. Graças a essa decisão é que temos mais de 30 mil negativos de Malta em nosso acervo, uma vasta coleção que carrega a história das fotografias e suas técnicas, bem como a história de nossa cidade.último decreto nos faz supor que, ao se aposentar, Malta também teria entregado uma de suas câmeras (talvez a mais utilizada para os serviços da prefeitura), tendo em vista que era um patrimônio da municipalidade, mas, infelizmente é só uma suposição. Malta continuou trabalhando como fotógrafo até sua morte, por enfarto, aos 93 anos.

 

 

A Câmera que se encontra no AGCRJ, provavelmente, é uma Speed Graphic, da empresa Graflex. Lançada pela primeira vez em 1912, ela tinha como propósito ser um instrumento de fotografia de paisagens, voltadas para profissionais que necessitavam de uma câmera mais leve, eficaz e preparada especificamente para esta função. Possivelmente, esse objeto foi adquirido bem depois de seu lançamento, tendo em vista que, à época, as novidades tecnológicas não chegavam com a mesma rapidez que nos dias atuais e, muitas vezes, era necessário importa-las. Sua qualidade é tão notável que, ainda hoje, existem fotógrafos que usam essa câmera para ter a mesma experiência do passado.

 

Máquina fotográfica de Augusto Malta

Máquina fotográfica de Augusto Malta

 

Ao pesquisar sobre a câmera utilizada por Augusto Malta, inúmeras questões são levantadas. Como e quando ela chegou ao AGCRJ? Em que momentos Malta utilizou esse instrumento? Será que ela foi uma das câmeras mais utilizadas pelo fotógrafo? Por que decidiram doar esta e não as outras câmeras? Qual era a circulação e como era a utilização desse tipo de câmera no Rio de Janeiro e no Brasil? Onde esse objeto teria sido comprado?

Infelizmente não temos muitas informações sobre a câmera de Augusto Malta, tendo em vista que os funcionários do Arquivo do Distrito Federal da época não registraram sua entrada, nem suas especificidades. Por isso, convidamos especialistas em câmeras fotográficas e em história da fotografia a visitarem o AGCRJ e nos ajudarem a resgatar um pouco mais da memória desse que foi um personagem icônico de nossa cidade e que nos forneceu inúmeros caminhos de pesquisa.

 

Máquina fotográfica de Augusto Malta

Máquina fotográfica de Augusto Malta

 

 

*Esse artigo teve uma preciosa ajuda na pesquisa e revisão de Rafael Martins de Araújo, estagiário da Gerência de Pesquisa do AGCRJ.

Beatriz Kushnir é diretora do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (AGCRJ). Tem estágio pós-doutoral pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e é doutora em História pela mesma instituição.

Carolina Ferro é gerente de pesquisa do AGCRJ, professora do Centro Universitário Carioca (UniCarioca) e doutora em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

 

Fontes:

Fontes secundárias:

Livros e artigos:

BUENO, Débora Gauziski de Figueiredo. Documentando a experiência urbana carioca: o Rio de Janeiro pelas fotografias de Augusto Malta e do Rio 365. 2014. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2014.

COSTA, Amanda Danelli. Augusto Malta e a fotografia da alma dos quiosques cariocas. Acervo, Rio de Janeiro, v. 32, n. 2, p. 117-132, maio/agosto 2019.
______. Impressões imagéticas: história, memória e a fotografia carioca de Augusto Malta. 2007. Dissertação (Mestrado em História Social da Cultura) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2008.

TURAZZI, Maria Inez. Câmara fotográfica de Marc Ferrez. In: KNAUSS, Paulo; LENZI, Isabel; MALTA, Marize (Orgs.). História do Rio de Janeiro em 45 objetos. Rio de Janeiro: FGV Editora / Jauá editora / FAPERJ, 2019.

KOSSOY, Boris. O daguerreotipo nos trópicos. Jornal da USP. Publicado em: 29 mar. 2019. Disponível em: https://jornal.usp.br/?p=233593. Acesso em: 30 jul. 2019.

LOUREIRO, Elizabeth Cristina Marques de (Coord.). Augusto Malta: catálogo da série negativo em vidro / Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, Departamento Geral de Documentação e Informação Cultural, Divisão de Editoração, 1994.

MOREIRA, Regina da Luz. Augusto Malta, dono da memória fotográfica do Rio. Portal Augusto Malta. Publicado em: 18 ago. 2008. Disponível em: http://portalaugustomalta.rio.rj.gov.br/blog-post/augusto-malta-dono-da-memoria-fotografica-do-rio. Acesso em: 30 jul. 2019.

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CLEAVE, Joe Van. A 75 year Old Camera Review. Youtube. Publicado em: 28 mar. 2017. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=IQEXobv3OC4. Acesso em: 15 ago. 2019.

LENG, Bopp. Graflex Pacemaker Speed Graphic. Youtube. Publicado em: 19 jan. 2019. Disponível em: https://www.youtube.com/results?search_query=Graflex+speed+graphic++1920. Acesso em: 15 ago. 2019.

Fontes primárias:

PREFEITURA DO DISTRICTO FEDERAL. Decreto nº 445, de 27/06/1903.

PREFEITURA DO DISTRICTO FEDERAL. Decreto nº 1365, de 22/07/1919.

PREFEITURA DO DISTRICTO FEDERAL. Decreto nº 3484, de 13/04/1931.

PREFEITURA DO DISTRICTO FEDERAL. Decreto nº 3759, de janeiro de 1932.

PREFEITURA DO DISTRICTO FEDERAL. Boletim da PDF. Jul./set. 1936, p. 316.

 

 

Cronologia de Augusto Malta

Andrea Wanderley**

 

1864 – Em 14 de maio, Augusto Cesar Malta de Campos nasceu em Mata Grande, Alagoas, filho do escrivão Claudino Dias de Campos e Blandina Vieira Malta de Campos. Foi batizado em 5 de junho, na matriz de Nossa Senhora de Mata Grande.

1886 – Deixou de morar com o padre Antonio Marques de Castilho, com quem havia ido residir por decisão de seu pai, que queria que ele seguisse a carreira religiosa. Alistou-se no Exército, no Recife. Pretendia seguir a carreira militar, mas, posteriormente, quando cumpriu o prazo de tempo de serviço, foi dispensado.

1887 - Serviu no Exército como cadete sargento. Tornou-se republicano e participou com estudantes de encontros revolucionários.

1888 – Em maio, participou, ainda no Recife, de manifestações a favor da abolição da escravatura. No fim desse ano, chegou ao Rio de Janeiro. Seu primeiro emprego na cidade foi o de auxiliar de escrita da Casa Leandro Martins, localizada na rua dos Ourives, atual rua Miguel Couto.

1889 - Foi promovido a guarda-livros. Participou dos acontecimentos de 15 de novembro de 1889, quando foi proclamada a República no Brasil e, no dia seguinte, foi um dos signatários do termo de juramento lido na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, dando posse ao governo provisório republicano.

1890 – Por volta desse ano, Augusto Malta visitou a família, em Alagoas, e trouxe, para o Rio de Janeiro, seus irmãos Alfredo e Joaquim Pópolo. Seus irmãos Fernando e Teófilo vieram para o Rio um pouco depois. Casou-se com sua prima distante, a alagoana Laura Oliveira Campos. O casal teve cinco filhos: Luthgardes (1896-?), Arethusa (1898-1913), Callisthene (1900-1919), Aristocléa (1903-1934), afilhada do prefeito Pereira Passos; e Aristógiton (1904-1954). Todas as filhas do casal morreram de tuberculose. Durante a década de 1890, abriu casas comerciais, mas não foi bem sucedido. Fundou uma loja de secos e molhados, a Casa Ouvidor, na rua de mesmo nome, mas teve que fechá-la. Depois, instalou outra loja de secos e molhados, na rua Larga de São Joaquim, atual avenida Marechal Floriano, que também não prosperou. Começou, então, a vender tecidos finos.

1900 – Em agosto, foi criado, entre os sócios do Congresso Commercial, o Grupo de Velocemen com o objetivo de organizar passeios ciclísticos pela cidade. Augusto Malta foi aclamado secretário da agremiação (Semana Sportiva, 25 de agosto de 1900, na seção “Velocipedia”).  Foi noticiado o passeio ciclístico inaugural do grêmio velocipédico (Semana Sportiva, 29 de setembro de 1900, na seção “Velocipedia”). Um dos clientes de Malta, um aspirante da Marinha, propôs que ele trocasse a bicicleta, que usava para entregar encomendas de tecidos, por uma máquina fotográfica. No início, Malta não aceitou, mas dias depois concordou com a troca. Continuou a vender fazendas, a pé, e começou, então, a se interessar por fotografia. Aos domingos, saía para tirar fotografias com um amigo, também fotógrafo amador.

1903 – Foi apresentado pelo empreiteiro Antônio Alves da Silva Júnior, fornecedor da Prefeitura do Rio de Janeiro, que já havia visto suas fotografias, ao prefeito, Francisco Pereira Passos (1836-1913), que promovia uma grande reforma urbana na cidade, que ficou conhecida como o “bota-abaixo”. Ele precisava de um fotógrafo para registrar as obras e os imóveis a serem desapropriados para posteriores pagamentos de indenizações. Em 27 de junho, pelo Decreto Municipal 445, Augusto Malta foi nomeado fotógrafo da Prefeitura do Distrito Federal. O cargo foi criado para ele e era subordinado à Diretoria Geral de Obras e Viação da Prefeitura. Trabalhou durante 33 anos para a Prefeitura do Rio de Janeiro.

1904 – Fotografou a comemoração do Dia do Trabalho, promovida por Domingo Rodrigues Pacheco e Antônio Alves da Silva Júnior, proprietários das pedreiras situadas à rua Conselheiro Bento Lisboa (Correio da Manhã, 02 de maio de 1904, sob o título “Um almoço”). Este último foi quem apresentou Malta a Pereira Passos. Malta um dos fundadores da Sociedade Cartophila Emanuel Hermann, uma associação incentivadora da divulgação de cartões-postais.

Foi realizada no escritório do jornal Correio da Manhã uma exposição com as fotos que Malta produziu da Batalha de Flores, e de outras de sua autoria (Correio da Manhã, 29 de setembro de 1904, quarta coluna).

1905 – O então prefeito Pereira Passos, na Mensagem enviada ao Conselho Municipal, chamava atenção para a importância do trabalho realizado no laboratório fotográfico da Diretoria de Obras e Viação pela verificação que permitirá aos vindouros da transformação que operam na cidade com os melhoramentos ora em execução. No dia 7 de novembro, ocorreu um incêndio de grandes proporções no Centro do Rio de Janeiro, entre as ruas do Lavradio, da Relação, dos Inválidos e do Rezende. O laboratório e a residência de Malta, localizados na rua do Lavradio, nº 96, foram atingidos. Ele e a família conseguiram escapar apenas com a roupa do corpo (O Paiz, 8 de novembro de 1905, sob o título “Pavoroso Incêndio). Na ocasião, foram destruídos cerca de quinhentos clichês da coleção de Malta de pontos demolidos ou desaparecidos da cidade do Rio de Janeiro, devido à reforma urbana promovida pela Prefeitura.

Foi contratado pela The Rio de Janeiro Tramway, Light and Power Company Limited – que ficaria popularmente conhecida como Light. Ao longo dos anos, prestando serviços para a empresa, Malta fotografou as atividades modernizadoras da Light no Rio de Janeiro, como a implantação dos bondes elétricos e da iluminação pública.

1906 – Faleceu sua esposa, Laura Oliveira Campos. Augusto Malta passou a viver maritalmente com Celina Augusta Verschueren (1884 – 19?), que trabalhava desde os 15 anos como babá dos filhos de Malta e Laura. Com Celina, Malta teve mais quatro filhos: Dirce (1907 – ?), Eglé (1909 – ?), Uriel (1910 – 1994) e Amaltéa (1912 – 2007).

Fotografou a Conferência Internacional Pan Americana, inaugurada, no Rio de Janeiro, em 23 de julho. Durante o evento, conheceu Joaquim Nabuco, na época representante do Brasil nos Estados Unidos. Tornaram-se amigos.

Em setembro, feriu sua mão esquerda fazendo experimentos com a câmara escura (Correio da Manhã, 12 de setembro de 1906,a primeira coluna, abaixo de “Assistência à Infância”).

Obteve a carta patente de major da Guarda Nacional assinada pelo então presidente da República, Afonso Pena (1847-1909). 

Foi identificado como major, além de fotógrafo da Prefeitura, quando fez uma visita ao ministro da Justiça e Negócios Interiores, Felix Gaspar de Barros e Almeida (1865 – 1907), que foi fotografado por ele (Correio da Manhã, 26 de setembro de 1906, na seção “Do Maranhão”, na sexta coluna).

1907 – Participou com fotografias que documentavam as transformações do Rio de Janeiro da Terceira Exposição do Photo-Club e primeira do Salão Livre de Belas Artes, promovida pelo Photo-Club. A mostra, realizada no Museu Commercial, na avenida Central, contava com 170 fotografias e 142 pinturas (Gazeta de Notícias, 13 de agosto de 1907, sob o título “Nossos Artistas”). Ganhou o terceiro prêmio na categoria de profissionais. O júri não considerou nenhum dos trabalhos merecedores do 1º e 2º lugares (O Paiz, 28 de agosto de 1907, abaixo da propaganda “Retalhos e Saldos”).

Malta apareceu em duas fotos da revista O Malho. Na primeira, de 3 de agosto de 1907, foi fotografado durante a queima das listas e cadernetas que serviram para o recenseamento feito pelo ex-prefeito Pereira Passos. Na edição de 10 de agosto, foi fotografado participando da inauguração oficial, pela Light and Power, do serviço de distribuição de energia elétrica, produzida por motor hidraúlico, no Rio de Janeiro.

1908 – Colaborou com fotografias na revista Exposição Nacional, edição especial da Revista da Época, fundada por Carlos Vianna.

1909 –  A Prefeitura, através da Diretoria de Estatística, ilustrou o guia La ville de Rio de Janeiro et ses environs com algumas de suas fotografias.

Foi extinto o cargo de Malta, que ficou adido à Subdiretoria de Serviços da Carta Cadastral, na Diretoria de Obras e Viação. Prestou, então, serviços particulares de fotografia para o ex-prefeito Pereira Passos.

Malta encontrou os equipamentos fotográficos que haviam sido roubados de sua casa (A Notícia, 26 de agosto de 1909, sob o título “Apprehensão de Furto“).

Passou a ser sócio efetivo do Centro Alagoano (O Século, 7 de outubro de 1909, sob o título “Centro Alagoano“).

Com o prefeito do Rio de Janeiro, Serzedelo Correa ( 1858-1932), visitou a Villa Ipanema e participa da inauguração da área de diversões da Brahma (O Paiz, 29 de novembro de 1909, sob o título “Villa Ipanema”).

1910 - Criou o Centro Fotográfico de Propaganda no Brasil.

Por ordem do prefeito Serzedelo Correa, foi posto à disposição da comissão de inspeção escolar (Gazeta de Notícias, 6 de agosto de 1910, na seção “Prefeitura“).

1911 – Em junho, fotografou o presidente da República, Hermes da Fonseca (1855 – 1923).

Foi autorizado pelo prefeito do Rio de Janeiro, Bento Ribeiro ( 1856-1921), a organizar a galeria dos ex-prefeitos (Gazeta de Notícias, 10 de julho de 1911, na seção “Prefeitura“).

Em outubro, lançou, em edição de autor, o Álbum geral do Brasil, primeiro fascículo de uma coleção de fotos do Rio de Janeiro e de outras cidades brasileiras.

1913 – O prefeito Bento Ribeiro recriou o cargo de fotógrafo oficial da Prefeitura e Malta foi reconduzido à sua antiga posição.

1914 - No Palácio da Guanabara, retratou o presidente da República, Wenceslau Brás (1868-1966) (Gazeta de Notícias, 14 de dezembro de 1914, última notícia da terceira coluna).

1919 – Foi inaugurada a nova sede do Centro Alagoano, sob a direção de Augusto Malta, na rua São José nº 34 (Gazeta de Notícias, 9 de março de 1919).

Com uma nota ilustrada com foto, foi noticiado o aniversário de Augusto Malta (Gazeta de Notícias 14 de maio de 1919).

1922 - Pela primeira vez, devido ao acúmulo de trabalho ocasionado pela Exposição do Centenário da Independência, Malta contratou um ajudante – seu irmão, Teófilo.

1925 – Quando prestava um serviço para a Sul América, uma explosão ocasionada pelo flash de sua máquina fotográfica dilacerou um de seus dedos. Malta foi operado e ficou internado no Hospital da Ordem Terceira da Penitência. Seu filho, Aristógiton, começou a auxiliá-lo na Prefeitura.

1930 – Ao longo dessa década, suas fotos ilustraram artigos de Ulysses de Aguiar, um dos pseudônimos de Luiz Gastão d’ Escragnolle Dória (1869-1948), na Revista da Semana, e também de outros autores (Revista da Semana, 2 de fevereiro de 1935, 2 de março de 193527 de julho de 193522 de outubro de 1938).

Em 13 de maio, foi inaugurada, na Associação Brasileira de Imprensa, uma exposição individual de fotografias de Augusto Malta, “O Rio de Janeiro Antigo”.

1931 -1932 –  A Diretoria Geral de Obras e Viação foi substituída pela Diretoria Geral de Engenharia e Malta começou a organizar o arquivo histórico e fotográfico dos serviços executados. Começou então a fornecer ao Arquivo Público as fotografias relativas ao desenvolvimento da cidade ou de cerimônias realizadas.

1936 – Malta deu uma entrevista sobre a extinção dos quiosques no Rio de Janeiro (Correio da Manhã, 10 de janeiro de 1936). Uma semana depois, um leitor contestou a entrevista (Correio da Manhã, 17 de janeiro de 1936, na última coluna, sob o título “Os velhos kiosques do Rio de Janeiro”).

Foi concedida a ele, pela Associação Brasileira de Imprensa, a carteira de jornalista profissional (Diário Carioca, 4 de abril de 1936).

O jornal O Globo de 1° de agosto, publicou uma matéria sobre a elegância de Malta e comentou o fato dele ter lançado a moda dos óculos de aro de tartaruga. Comentou, também, que ele sempre usava um panamá de fita preta. Sempre sem colete, ao pescoço esvoaçava e ainda esvoaça como borboleta uma gravata de laço preto.

Em 25 de agosto, Augusto Malta aposentou-se da Prefeitura e foi substituído por seu filho, Aristógiton, a partir de 9 de setembro do mesmo ano. Posteriormente, seu outro filho, Uriel, passou a trabalhar com o irmão. Augusto Malta continuou a trabalhar como fotógrafo.

Foi um dos colaboradores da homenagem que o Diário de Notícias publicou na ocasião do centenário do ex-prefeito Pereira Passos (Diário de Notícias, 29 de agosto de 1936). Com a publicação de uma foto de Malta, o suplemento do jornal A Noite agradeceu a Malta por ter facilitado singularmente o trabalho de reminiscência fotográfica da remodelação da cidade em uma matéria publicada pelo periódico na ocasião do centenário de Pereira Passos (A Noite, 1º de setembro de 1936).

Malta foi um dos homenageados por serviços prestados ao Centro Alagoano, na ocasião da comemoração do 119º aniversário da emancipação de Alagoas e do 49º aniversário da associação (A Offensiva, 16 de setembro de 1936, na última coluna, sob o título “Emancipação política do Estado de Alagoas”).

1937 - Participou, como escrutinador, das eleições da Associação Brasileira de Imprensa (Correio da Manhã, 4 de maio de 1937, na terceira coluna).

1938 – Foi publicada uma reportagem sobre Augusto Malta. Nela, Malta comentou ter produzido a foto do Barão de Rio Branco de costas por sugestão do escultor Rodolfo Bernardelli (Diário da Noite, 13 de janeiro de 1938).

O jornal Diário da Noite sugeriu que a Prefeitura adquirisse o arquivo fotográfico de Malta (Diário da Noite, 2 de março de 1938, na última coluna, sob o título “Uma suggestão do Diário de Noite”).

Tornou-se sócio honorário do Centro Carioca (O Imparcial, 29 de junho de 1938, sob o título “A grande Assembléa Geral do Centro Carioca”).

Foi lançado o livro O Rio de Janeiro de meu tempo, de Luiz Edmundo, ilustrado com fotos de diversos fotógrafos, dentre eles, Malta (O Jornal, de 28 de agosto de 1938).

O presidente da República, Getúlio Vargas (1882 – 1954), visitou a “Feira de Amostras”,  uma exposição de diversas secretarias da Prefeitura do Rio de Janeiro. Um dos stands de maior sucesso foi o da Secretaria de Viação, Trabalho e Obras Públicas, que expôs fotos de Augusto Malta e de seu filho, Aristógiton (A Noite, 31 de outubro de 1938, sob o título “A evolução do Rio através da fotografia”).

1939 – O Diário da Noite publicou uma fotografia de autoria de Malta, de 1907, em que o escritor Machado de Assis foi retratado tendo uma síncope e sendo socorrido por populares no Cais Pharoux (Diário da Noite, 21 de junho de 1939).

1940 – Durante essa década, suas fotos ilustram vários artigos de Luiz Gastão d’ Escragnolle Dória (1869-1948) na Revista da Semana.

Foi morar em Niterói e anunciou a venda de alguns de seus quadros (Correio da Manhã, 8 de fevereiro de 1940, na primeira coluna, sob o título “Photographias do Rio Antigo”).

1941 – Vende para a Biblioteca Nacional 280 fotos distribuídas em vários álbuns.

Na coluna assinada por Roberto Macedo, intitulada “Notas Históricas – A Primeira Posse Republicana”,  no Correio da Manhã, Augusto Malta foi citado como um dos signatários do termo de juramento lido na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, em 16 de novembro de 1889, dando posse ao governo provisório republicano (Correio da Manhã, 24 de outubro de 1941, na sétima coluna).

1942 – Vendeu fotografias para o Museu Paulista.

Foi a uma missa de Ação de Graças pelo restabelecimento da saúde do presidente do Brasil, Getúlio Vargas (1882-1954), realizada na igreja Nossa Senhora da Glória do Outeiro (O Jornal,  27  de agosto de 1942).

Sofreu uma intervenção cirúrgica (O Jornal, 26 de setembro de 1942, na seção “Notas Mundanas”).

1943 – Malta apoiou que se presenteasse os condutores de bondes no Natal (Gazeta de Notícias, 24 de novembro de 1943).

Em reportagem sobre o Barão do Rio Branco, foram publicadas várias fotos de autoria de Augusto Malta (Illustração Brasileira, outubro de 1943)

1944 – Malta foi roubado por uma ladra na barca entre o Rio de Janeiro e Niterói (Correio da Manhã10 de fevereiro de 1944, na seção “O Dia Policial”).

Na edição de natal da Revista da Semana, de 16 de dezembro de 1944, foi descrito como um nortista tipo perfeito da classificação conhecida: braquicéfalo, altura mediana, maxilares salientes, olhos amendoados como os de um mongol. Na verdade, visto de perfil, parece-se com um soldado de Chiang-Kai-Chek, que tivesse abandonado a farda… Há cinquenta anos usa uma gravata borboleta, dessas preferidas pelos pintores e poetas do século passado.

1945 – Malta foi comparado a Marc Ferrez (Boletim da Sociedade de Geographia do Rio de Janeiro, 1945): A documentação fotográfica e de gravuras era, como se vê, abundante e valiosa, oriunda de desenhos de Rugendas e outros, e de fotografias de Marc Ferrez, que desempenhou no Império a função que mais tarde seria, no Rio, exercida por Augusto Malta, fotógrafo da Prefeitura: de documentador pela imagem dos principais acontecimentos de seu tempo”. No Jornal do Brasil, de 11 de fevereiro de 1945, Malta é comparado a José de Alencar, no artigo “A velha e nobre Tijuca”, de Everardo Backheuser: “José de Alencar em Sonhos d´Ouro foi para a Tijuca das cercanias da Guerra do Paraguai o que Augusto Malta representa para o Rio de Janeiro do tempo de Pereira Passos. Cada qual ao seu modo gravou de maneira indelével as recordações do “quadro geográfico” da respectiva era. Graças a Malta, eu e outros temos podido documentar asserções sobre a geografia carioca do princípio do século. José de Alencar vai me servir para ilustrar com exemplos fatos da geografia da Tijuca daqueles afastados tempos. Em artigos posteriores, Backheuser voltou a elogiar o trabalho de Malta.

1946 - Foi noticiado que Augusto Malta teve sua carteira roubada em um bonde no Rio de Janeiro (O Fluminense, 21 de agosto de 1946, sob o título “Cuidado com os batedores de carteiras”).

1947 - Em seu aniversário, foi homenageado pelos jornalistas credenciados junto ao gabinete do prefeito (A Noite, 14 de maio de 1947, na coluna “Sociedade”).

1948 – Publicação da reportagem Centenário de Rodrigues Alves, com texto de Raymundo Athayde e fotos de Augusto Malta (O Cruzeiro, 17 de julho de 1948).

Publicação da reportagem Biografia da cidade – Largo da Carioca, com texto de Raymundo Athayde e fotos de Augusto Malta e Ângelo Regato (O Cruzeiro, 16 de outubro de 1948).

1949 – Publicação da reportagem Centenário de Joaquim Nabuco, com texto de Raymundo Athayde e fotos de Augusto Malta, identificado como o fotógrafo mais antigo do Brasil (O Cruzeiro, 20 de agosto de 1949).

Publicação da reportagem Rui na intimidade, com texto de Raymundo Athayde e fotos de Augusto Malta e Aristogiton Malta (O Cruzeiro, 12 de novembro de 1949).

1950 – Foi internado na Ordem Terceira da Penitência (A Manhã, 19 de janeiro de 1950, na seção “Mundo Social”).

Publicação da reportagem Banho de mar – 1915, com texto de Raymundo Athayde e fotos de Augusto Malta (O Cruzeiro, 22 de abril de 1950).

Por ocasião de seu aniversário, foi saudado como o mais velho repórter fotógrafo do Brasil (A Manhã, 13 de maio de 1950, na seção “Mundo Social“).

Na edição de O Cruzeiro, de 9 de setembro de 1950foi publicada a matéria Biografia da cidade – Do Convento da Ajuda às luzes da Cinelândia , com texto de Raymundo Athayde e fotos de Augusto Malta e Luciano Carneiro. Contava a história da Cinelândia e as  fotos antigas que ilustraram a reportagem foram produzidas por Malta, em 1911. São do Convento da Ajuda, de sua demolição e do terreno que ocupava, após a demolição; e do edifício do antigo Conselho Municipal. As fotografias abaixo estavam entre as que foram publicadas na reportagem.

 

 

 

 

1951 – Publicação da reportagem Biografia da Cidade – O Flamengo e suas ressacas, com texto de Raymundo Athayde e fotos de Augusto Malta (O Cruzeiro, 12 de maio de 1951).

1952 – Ao longo desse ano, a coluna “Transformações da Cidade”, do jornal Correio da Manhã, foi ilustrada com fotos de Malta.

Também a partir desse ano até 1955, a coluna “Rio Antigo”, de Charles Julius Dunlop (1908 – 1997), no mesmo jornal, foi, muitas vezes, ilustrada por fotos de Malta. Charles Dunlop e Malta haviam se conhecido na época em que Malta prestava serviços para a Light, empresa na qual Dunlop começou a trabalhar na década de 20.

1953 – Foi publicada uma fotografia dos arquivos de Augusto Malta sobre os banhos a fantasia do carnaval carioca (Diário da Noite, 14 de fevereiro de 1953).

Para ilustrar uma matéria sobre Ipanema, foi publicada uma foto do bairro, tirada por Malta, em 1907 (Diário de Notícias, 27 de março de 1953).

Foi publicado o artigo O Jubileu do Bota Abaixo, sobre a radical reforma urbana promovida pelo prefeito Pereira Passos no Rio de Janeiro, de autoria do acadêmico Pedro Calmon, com fotos de Augusto Malta (Revista da Semana, 8 de agosto de 1953). Como parte das comemorações da Quinzena do Jornalismo, é um dos 35 decanos da imprensa premiados pelo Sindicato dos Jornalistas com o diploma de honra (Diário Carioca, 21 de novembro de 1953, sob o título “Jornalistas Veteranos”).

1955 - é publicada uma foto de jornaleiros em torno de um quiosque, de Augusto Malta,  sob o título de “O Rio da Velha Guarda” (Diário da Noite, 8 de março de 1955). Na série “Rio de Amanhã”, escrita por Almir de Andrade, é publicada uma foto de Ipanema de autoria de Malta (Diário de Notícias, 1º de maio de 1955). No mesmo ano, foram publicadas pelo Diário de Notícias fotos antigas de Copacabana, do Lido e do Leblon, também de autoria de Malta. Reportagem sobre o lançamento do livro Rio Antigo, do pesquisador Charles Dunlop. Publicado pela Editora Gráfica Laemmert Ltda, conta a história do Rio com fotos de Malta, Marc Ferrez, George Leuzinger e E.A. Mortimer (Revista da Semana, 5 de novembro de 1955).

1957 – é publicada uma reportagem sobre o arquivo de fotografias de Augusto Malta, na coluna “Letras Vivas” (Diário da Noite, 30 de março de 1957). É lançado o segundo fascículo da publicação Rio Antigo, do pesquisador Charles Dunlop, com ilustrações de Ângelo Agostini, reproduzidas da Revista Illustrada, e com fotos de Malta, Marc Ferrez, George Leuzinger e E.A. Mortimer (Careta, 4 de maio de 1957, sob o título “Documentário Militar no Rio Antigo”). Em 30 de junho, morte de Augusto Malta, no Hospital da Ordem Terceira da Penitência, devido a uma insuficiência cardíaca. Foi sepultado no dia seguinte, no Cemitério do Caju (Correio da Manhã, 2 de julho de 1957, na seção “Prefeitura”).

Para a elaboração da presente cronologia de Augusto Malta, além da pesquisa em dezenas de periódicos e revistas, valemo-nos, especialmente, do livro Augusto Malta e o Rio de Janeiro: 1903-1936, de George Ermakoff, e do artigo de Regina da Luz Moreira, “Augusto Malta, dono da memória fotográfica do Rio”, publicado no Portal Augusto Malta.

O lançamento do Portal Augusto Malta, em 2008, foi uma importante iniciativa do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (AGCRJ). No portal, estão reunidos o acervo do fotógrafo na referida instituição e no Museu Histórico da Cidade, além de fotografias de seus filhos, Aristógiton e Uriel Malta. Um dos curadores da Brasiliana Fotográfica, Joaquim Marçal, foi consultor do projeto.

O Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, o Arquivo Fotográfico da Light, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, o Instituto Moreira Salles, a Biblioteca Nacional e o Museu Histórico Nacional são outros importantes acervos da obra do fotógrafo.

Link para publicações sobre a obra de Augusto Malta no site do Instituto Moreira Salles

Link para a matéria Banho de mar – 1915, escrita por Raymundo Athayde e ilustrada com fotografias de Augusto Malta, publicada na revista O Cruzeiro, 22 de abril de 1950).

Link para a matéria Do Convento da Ajuda às luzes da Cinelândia, escrita por Raymundo Athayde com fotos de Augusto Malta e Luciano Carneiro, publicada na revista O Cruzeiro, 9 de setembro de 1950. 

 

**Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Anais do Museu Histórico Nacional: volume XXXII – 2000, pág 131.

BULHÕES, Antonio & REBELO, Marques. O Rio de Janeiro do bota-abaixo. Rio de Janeiro: Salamandra, 1997

CAMPOS, Fernando Ferreira. Um fotógrafo, uma cidade: Augusto Malta, Rio de Janeiro: Maison Graphique, 1987.

Catálogo da Exposição comemorativa da doação do Acervo Brascan ao IMS – Guilherme Gaenly e Augusto Malta: dois mestres da fotografia brasileira no Acervo Brascan. Rio de Janeiro: Instituto Moreira Salles, 2002

ERMAKOFF, George. Augusto Malta e o Rio de Janeiro: 1903-1936 / George Ermakoff; tradução para o inglês Carlos Luís Brown Scavarda. Rio de Janeiro: G. Ermakoff Casa Editorial, 2009. 288p. : il.; 28cm

KOSSOY, Boris. A fotografia como fonte histórica: introdução à pesquisa e interpretação das imagens do passado. São Paulo: Secretaria da Ind., Com., Ciência e Tecnologia, 1980. (Coleção Museu &Técnicas; 4).

LAGO, Bia Corrêa do;LAGO, Pedro Corrêa do. Coleção Princesa Isabel: fotografia do século XIX. Rio de Janeiro: Capivara, 2008.432p.:il., retrs.

LOUREIRO, Elizabeth Cristina Marques de (coord.). Augusto Malta, Aristógiton Malta: catálogo da série negativo em vidro. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, 1994. (Biblioteca carioca, 29. Instrumentos de pesquisa)

Nosso Século. São Paulo; Abril Cultural, 1980. vol 1 (1900-1910)

Portal Augusto Malta do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro

Site da Enciclopédia Itau Cultural

Site do Centro Cultural da Light

Site do Instituto Moreira Salles

Site do Museu da Imagem e do Som

João Ferreira Villela, um dos primeiros fotógrafos pernambucanos

João Ferreira Villela, um dos primeiros fotógrafos pernambucanos* 

Contemporâneo no Recife dos estrangeiros Augusto Stahl (1828 – 1877) e Alberto Henschel (1827 – 1882), João Ferreira Villela (18? – ?) é considerado, até hoje, um dos primeiros fotógrafos pernambucanos, tendo sido antecedido por Cincinato Mavignier (1826 – 1868), pensionista de S.M. o Imperador, que anunciou, em 9 de junho de 1854, uma Galeria de retratos a óleo e daguerreótipo, no Aterro da Boa Vista, nº 82, primeiro e segundo andares, em 1854, um ano antes de Villela (1).

A biografia de Villela é ainda bastante desconhecida. Iniciou sua vida profissional como taquígrafo mas foi como retratista e paisagista que se notabilizou. Seu primeiro ateliê, aonde permaneceu de 1855 a 1858, ficava no Aterro da Boa Vista nº 4, mesmo endereço onde anteriormente trabalharam os fotógrafos norte-americanos Charles DeForest Fredricks (1823 – 1894), em 1851 e, em 1854, Augustin Lettarte (18? – ?) e o português Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912). Desse último, Villela afirmava ser o único discípulo. Sempre demonstrou interesse em ter máquinas modernas para a realização dos trabalhos de seu estabelecimento e prometia, como resultado, a perfeição.

 

 

Em fins de 1858, transferiu-se para a rua Nova, nº 18, primeiro andar.  No ano seguinte, quando dom Pedro II(1825 – 1891) visitou Recife, Villela ofereceu a ele seis molduras douradas com imagens obtidas sobre chapas metálicas. Na ocasião, o monarca encomendou a Villela vistas de locais no interior de Pernambuco que havia conhecido durante sua viagem pelo nordeste. Em 18 de setembro de 1860, Villela tornou-se o único pernambucano a ser agraciado por dom Pedro II com o título de Fotógrafo Imperial. No fim de 1860, o casal real foi padrinho de uma de suas filhas. Na cerimônia, realizada na Igreja Paroquial de Santo Antônio, fizeram-se representar pelo Presidente da Província de Pernambuco, Ambrósio Leitão da Cunha, o Barão de Mamoré (1825 – 1898), e sua esposa.

 

Acessando o link para as fotografias de João Ferreira Villela disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Inaugurou seu novo ateliê na rua do Cabugá, nº 18, em 1861. Oferecia retratos por ambrótipos e por melainótipos sobre panos encerados próprios para remeter dentro de cartas ou sobre malacacheta ou talco especiais para alfinetes ou cassoletas, além de retratos transparentes, oferecendo o mesmo retrato em duas vistas, uma colorida e outra em preto e branco, além de retratos dos principais personagens da Europa, vistas estereoscópicas, vidros para ambrótipos e químicas fotográficas. Nesse mesmo ano, assinou alguns artigos da coluna “Palestra sobre o Theatro”, do jornal pernambucano O Constitucional: jornal político, religioso, científico e literário.

Em 7 de abril de 1870, após 10 meses de obras, o estabelecimento de Villela na rua do Cabugá, agora denominado Photographia Imperial, foi reinaugurado. A reforma teve como modelo o ateliê do fotógrafo Insley Pacheco, na rua do Ouvidor, 102, no Rio de Janeiro, que Villela havia visitado em 1868. A partir de 1870, o pintor alemão Jorge Augusto Roth (c. 1840 – 1893), passou a colaborar no ateliê de Ferreira Villela como encarregado de colorir as cópias fotográficas. A última notícia sobre seu estabelecimento fotográfica é de 1873. Acredita-se que depois dessa data ele tenha se dedicado exclusivamente à produção de tintas de escrever indeléveis e produtos farmacêuticos.

 

 

Ferreira Villela participou de diversas exposições, dentre elas as Exposições Provinciais de Pernambuco de 1861, 1866 e 1872; da II Exposição Nacional do Rio de Janeiro de 1866, quando recebeu com Leon Chapelin a 3ª menção honrosa; da III Exposição Nacional no Rio de Janeiro de 1873, expondo produtos farmacêuticos e tintas de escrever, tendo sido premiado com as medalhas de prata e de bronze; e da IV Exposição Nacional no Rio de Janeiro de novo com tintas de escrever, quando ganhou uma medalha de mérito. No exterior, participou da Exposição Universal de Viena de 1873 com produtos farmacêuticos, tendo sido premiado com a medalha de mérito e com uma menção honrosa; dois anos depois, da Exposição Internacional de Santiago do Chile, com tintas de escrever, tendo conquistado o segundo prêmio; e, finalmente da Exposição Universal da Filadélfia, ocorrida entre 10 de maio e 10 de novembro de 1876, também com tintas de escrever, quando conquistou a medalha de honra. Dessas duas últimas constou como expositor do Rio de Janeiro. Teria ido viver na corte?

 

 

Cronologia de João Ferreira Villela

1840 – O aluno João Ferreira Villela, do Colégio Pernambucano, foi aprovado na prova geral de primeiras letras e gramática nacional (Diário de Pernambuco, 23 de dezembro de 1840, última coluna).

1841 – João Ferreira Villela foi aprovado na prova de História, seção de História Sagrada, do Colégio Pernambucano (Diário de Pernambuco, 18 de dezembro de 1841, segunda coluna).

1849 – João Ferreira Villela requereu à Assembleia Provincial de Pernambuco uma gratificação para que ele pudesse concluir o curso de taquigrafia. Ele e outro aluno, Joaquim Izidoro Simões, receberam uma gratificação de  400 mil réis cada um, e o professor de arte recebeu 800 (Diário de Pernambuco, 30 de maio de 1849, primeira coluna; e Diário de Pernambuco, 23 de junho de 1849, primeira coluna).

1850 – Fez outro requerimento à Assembleia Provincial de Pernambuco em relação a financiamento para seu curso de taquigrafia e passou a ser adido da secretaria da assembleia (Diário de Pernambuco, 25 de maio de 1850, primeira coluna, e Diário de Pernambuco, 2 de julho de 1850, primeira coluna).

1851 – João Ferreira Villela e Joaquim Izidoro Simões solicitaram a criação de lugares de taquígrafos na Assembleia Provincial de Pernambuco (Diário de Pernambuco, 13 de março de 1851, terceira coluna).

1852 – Foi concedida uma licença de um mês e 24 dias para João Ferreira Villela, praticante de taquigrafia, ir à Paraíba (Diário de Pernambuco, 11 de maio de 1852, quinta coluna).

No dia 13 de novembro, a bordo do vapor brasileiro Mucury, Villela chegou ao Rio de Janeiro (O Globo, 20 de novembro de 1852, primeira coluna).

1853 – O então taquígrafo João Ferreira Villela voltou para Pernambuco, em 12 de novembro, no vapor Guanabara e informou que não devia nada nesta praça (Diário do Rio de Janeiro, 9 de novembro de 1853, primeira coluna; e Diário do Rio de Janeiro, 13 de novembro de 1853, última coluna).

1855 – Inicialmente, segundo Boris Kossoy, sem anunciar seu nome, João Ferreira Villela possuía um ateliê de fotografia no Aterro da Boa Vista, nº4, mesmo endereço onde anteriormente trabalharam os fotógrafos norte-americanos Charles DeForest Fredricks (1823 – 1894), em 1851 (Diário de Pernambuco, 23 de julho de 1851, última coluna), e, em 1854, Augustin Lettarte (18? – ?) (Diário de Pernambuco, 6 de fevereiro de 1854, segunda coluna) e o português Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912) (Diário de Pernambuco, 29 de março de 1854, na terceira coluna). O ateliê de Villela oferecia retratos de pessoas idosas, de crianças e anunciava que iria a qualquer lugar para tirar retratos de pessoas mortas. Anunciava também tirar retratos em stereoscopo, isto é de maneira a apresentar a pessoa em relevo e ao natural e incumbiam-se de tirar cópias em daguerreótipo (Diário de Pernambuco, 10 de dezembro de 1855, penúltima coluna).

1856 – Vendia-se no estabelecimento de Villela um grande sortimento de objetos para a colocação de retratos que lá se tiravam com a maior perfeição tanto pelo sistema francês como pelo norte-americano (Diário de Pernambuco, 3 de outubro de 1856, primeira coluna).

 

1857 – Publicação de propaganda da Grande Oficina de Galeria de Daguerreótipo informando a chegada de produtos de Nova York e também informando os preços dos retratos (Diário de Pernambuco, 13 de junho de 1857, terceira coluna).

1858 –  Recém chegado à cidade, no vapor Oyapock, o retratista J. Villela abriu seu novo estabelecimento de daguerreotipia à rua Nova, nº 18, primeiro andar. Anunciava possuir o mais completo sortimento de caixinhas, molduras pretas, douradas e jóias para a colocação dos retratos. Anunciava também que iria a qualquer parte tirar retrato de família ou de pessoa morta (Diário de Pernambuco, 15 de dezembro de 1858, segunda coluna).

1859 –  Em uma propaganda de seu estabelecimento, Villela divulgou sua habilidade como restaurador de daguerreótipos (Diário de Pernambuco, 7 de setembro de 1859).

Quando dom Pedro II visitou Recife, em outubro, Villela ofereceu a ele seis molduras douradas com imagens obtidas sobre chapas metálicas: do Pavilhão construído a mando da Câmara Municipal para a recepção do imperador, do porto de desembarque do imperador com quiosque, dois barracões, chafariz e cais do Colégio; da continuação da citada vista com o mastro norte do pavilhão da Câmara e mosqueiro com todas as embarcações ali fundeadas; de uma marinha, do Templo dos Ingleses, na rua da Aurora; e do fim da rua da Cruz com o princípio do arsenal de Marinha. S. Majestade, com a bondade que todos conhecem, dignou-se receber o mimo, declarar que conhecia todas as vistas e achava bom o trabalho. O monarca encomendou a Villela vistas de locais no interior de Pernambuco que havia conhecido. Ficou combinado que seriam remetidas para o Rio de Janeiro. É mais uma prova do quanto nosso adorado monarca aprecia e anima as artes assim como do valor e importância que dá ao que é nosso (Diário de Pernambuco, 26 de dezembro de 1859, quarta coluna; e Correio Mercantil (RJ), 7 de janeiro de 1860, quarta coluna).

1860 – Sobre a foto abaixo, produzida por Villela em torno de 1860, Luis Felipe de Alencastro comentou no livro História da vida privada no Brasil Império: a corte e a modernidade nacional, publicado pela Companhia das Letras, em 1998:

 

Imagem representativa da obra

João Ferreira Villela. Augusto Gomes Leal com a Ama-de-Leite Mônica, c. 1860. Recife. Pernambuco / Acervo da Fundação Joaquim Nabuco

 

A fotografia feita no Recife por volta de 1860. Na época era preciso esperar no mínimo um minuto e meio para se fazer uma foto. Assim, preferia-se fotografar as crianças de manhã cedo, quando elas estavam meio sonolentas, menos agitadas. O menino veio com a sua mucama, enfeitada com a roupa chique, o colar e o broche emprestado pelos pais dele. Do outro lado, além do fotógrafo Villela, podiam estar a mãe, o pai e outros parentes do menino. Talvez por sugestão do fotógrafo, talvez porque tivesse ficado cansado na expectativa da foto, o menino inclinou-se e apoiou-se na ama. Segurou-a com as duas mãozinhas. Conhecia bem o cheiro dela, sua pele, seu calor. Fora no vulto da ama, ao lado do berço ou colado a ele nas horas diurnas e noturnas da amamentação, que os seus olhos de bebê haviam se fixado e começado a enxergar o mundo. Por isso ele invadiu o espaço dela: ela era coisa sua, por amor e por direito de propriedade. O olhar do menino voa no devaneio da inocência e das coisas postas em seu devido lugar. Ela, ao contrário, não se moveu. Presa à imagem que os senhores queriam fixar, aos gestos codificados de seu estatuto. Sua mão direita, ao lado do menino, está fechada no centro da foto, na altura do ventre, de onde nascera outra criança, da idade daquela. Manteve o corpo ereto, e do lado esquerdo, onde não se fazia sentir o peso do menino, seu colo, seu pescoço, seu braço escaparam da roupa que não era dela, impuseram à composição da foto a presença incontida de seu corpo, de sua nudez, de seu ser sozinho, da sua liberdade. O mistério dessa foto feita há 130 anos chega até nós. A imagem de uma união paradoxal mas admitida. Uma união fundada no amor presente e na violência pregressa. A violência que fendeu a alma da escrava, abrindo o espaço afetivo que está sendo invadido pelo filho do senhor. Quase todo o Brasil cabe nessa foto‘.

Em propaganda de sua oficina e galeria da rua Nova, 18, anúncio de que Ferreira Villela já havia tirado mais de cinco mil retratos em quatro anos (Diário de Pernambuco, 22 de maio de 1860, terceira coluna).

 

 

Lado a lado, propagandas dos estabelecimentos fotográficos de Villela e de Augusto Stahl (1828 – 1877) (Diário de Pernambuco, 3 de fevereiro de 1860).

 

 

Embarcou no vapor Oyapock rumo aos portos do sul (Diário de Pernambuco, 6 de agosto de 1860, quarta coluna).

Embarcou, no Rio de Janeiro, no paquete Cruzeiro do Sul, rumo a Pernambuco (Correio Mercantil(RJ), 13 de setembro de 1860, penúltima coluna). Anunciou seu retorno, a iminência da inauguração de seu novo estabelecimento fotográfico, na rua do Cabugá, nº 18, e identificou-se como único discípulo de Insley Pacheco. Oferecia retratos por ambrótipo, daguerreótipo e ambrocromótipo. Este último sistema, invenção do distinto professor Insley Pacheco, de quem o anunciante é o único discípulo (Diário de Pernambuco, 4 de outubro de 1860).

 

 

De acordo com Guilherme Auler (6/1/1914 – 27/12/1965), sob o pseudônimo de Ricardo Martim, em dois artigos publicados na Tribuna de Petrópolis, em 1º e 8 de abril de 1956, segundo o livro O Brasil na fotografia oitocentista, de Pedro Vasquez, João Ferreira Villela, teve seu título de Fotógrafo Imperial concedido por dom Pedro II(1825 – 1891), em 18 de setembro de 1860. Foi o primeiro e único pernambucano agraciado. Antes dele, os fotógrafos Buvelot & Prat e Joaquim Insley Pacheco, ambos da província do Rio de Janeiro, haviam recebido o título em 8 de março de 1851 e em 22 de dezembro de 1855, respectivamente.

Os padrinhos de uma de suas filhas foram dom Pedro II e dona Teresa Cristina (1822 – 1889), que se fizeram representar pelo Presidente da Província de Pernambuco, Ambrósio Leitão da Cunha (1825 – 1898) e sua esposa. Muitas autoridades estavam presentes à cerimônia, na Igreja Paroquial de Santo Antônio, e também à festa na casa de Ferreira Villela (Diário de Pernambuco, 18 de dezembro de 1860, penúltima coluna; e Diário do Rio de Janeiro, 29 de dezembro de 1860, penúltima coluna).

1861 –  No Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial da Província de Pernambuco de 1861 , Villela foi listado como taquígrafo e, com Augusto Stahl, como fotógrafo.

 

taquigrafo

 

 AUGUSTO

 

Apresentou-se como Retratista da Augusta Casa Imperial em anúncio de seu estabelecimento fotográfico na rua do Cabugá, nº 18 (Diário de Pernambuco, 13 de abril de 1861).

 

 

Oferecia retratos por ambrótipos e por melainótipos sobre panos encerados próprios para remeterem-se dentro de cartas ou sobre malacacheta ou talco especiais para alfinetes ou cassoletas, além de retratos transparentes, oferecendo o mesmo retrato em duas vistas, uma colorida e outra em preto e branco (Diário de Pernambuco, 22 de junho de 1861).

Durante 1861, assinou alguns artigos da coluna “Palestra sobre o Theatro”, do jornal pernambucano O Constitucional: jornal político, religioso, científico e literário: em 31 de julho, 7 de agosto, 14 de agosto, 21 de agosto, 4 de setembro, 18 de setembro, e 25 de setembro.

Abaixo, uma reclamação do bilheteiro do Teatro Santa Isabel sobre Ferreira Villela que identificou como hábil em daguerreotipar os defeitos alheios. Há também uma resposta do diretor e regente da orquestra, Francisco Libânio Colás ( 1827 – 1885) a crítica feita a ele no O Constitucional de 7 de agosto de 1861 (Diário de Pernambuco, 8 de agosto de 1861, segunda coluna).

 

 

Villela deu um esclarecimento sobre a reclamação do bilheteiro do Teatro Santa Isabel, o Cunha  (Diário de Pernambuco, 9 de agosto de 1861, primeira coluna).

Em seu estabelecimento eram oferecidos retratos dos principais personagens da Europa, vistas estereoscópicas, vidros para ambrótipos e químicas fotográficas (Diário de Pernambuco, 26 de outubro de 1861, terceira coluna).

Participou com uma coleção de retratos pelo sistema ambrótipo da Exposição Provincial de Pernambuco, inaugurada em 16 de novembro de 1861, no Palácio do Governo (Diário de Pernambuco, 18 de novembro de 1861, última coluna e Jornal do Recife, 19 de novembro de 1861). Sua esposa, Idalina Teixeira Leal Ferreira Villela, participou expondo uma caixa envidraçada contendo um grupo de frutas de cera (Jornal do Recife, 23 de novembro de 1861, primeira coluna).

 

 

1862 – Villela ofereceu retratos a dom Pedro II, que haviam sido exibidos na Exposição Nacional (Boletim do Expediente do Governo: Ministério do Império, janeiro de 1862).

Foi qualificado como juiz de fato (Diário de Pernambuco, 7 de fevereiro de 1862, terceira coluna).

Anunciou a decoração de seu estabelecimento fotográfico com retratos dos imperadores, das princesas imperiais e de pessoas importantes do Recife. Afirmava que os preços dos retratos eram os mais razoáveis da cidade (Diário de Pernambuco, 17 de julho de 1862, última coluna).

Nessa mesma época, atuava no Recife o retratista norte-americano Augusto W. Osborn, na rua do Imperador (Diário de Pernambuco, 5 de agosto de 1862).

 

 

1864 – Candidatou-se a vereador (Diário de Pernambuco, 26 de agosto de 1864, penúltima coluna).

 

 

1866 – Participou com uma coleção de retratos da Exposição Provincial de Pernambuco e ganhou a medalha de cobre. Era na época o único fotógrafo brasileiro no Recife. Os outros eram estrangeiros (Diário de Pernambuco, 5 de dezembro de 1866, primeira coluna).

 

 

Participou da II Exposição Nacional do Rio de Janeiro quando recebeu com Leon Chapelin a 3ª menção honrosa (Diário do Rio de Janeiro, 1º de fevereiro de 1867, última coluna).

Sobre eles, o pintor Victor Meirelles (1832 – 1903), que assinou em nome do júri do quarto grupo – onde se incluía a fotografia – comentou no Relatório da II Exposição Nacional do Rio de Janeiro:

‘Os trabalhos fotográficos que esses senhores apresentaram não são absolutamente sem defeitos e, salvo algumas provas mais felizes, pecam em geral pela aparência que têm de dureza, e pouca transparência nas sombras, tendo alguns retratos os fundos pouco convenientes, e de modo que prejudicam antes o relevo das figuras, por não lhes dar maior destaque.

O efeito do contraste bem calculado é uma das qualidades essenciais, de que nem todos sabem tirar bom partido, e que requer mesmo muito estudo’.

Seu ateliê fotográfico continuava funcionando na rua do Cabugá, 18 (Diário de Pernambuco, 21 de dezembro de 1866).

 

 

1867 – Villela informou que havia comprado o material fotográfico do estabelecimento fotográfico de Eugênio & Maurício que ficava na rua Nova, 25 (Diário de Pernambuco, 1º de março de 1867).

Na coluna “Revista Diária”, muitos elogios foram feitos ao trabalho de Villela (Diário de Pernambuco, 12 de agosto de 1867, penúltima coluna).

Publicação de anúncios dos estabelecimentos fotográficos de Ferreira Villela e do berlinense Alberto Henschel (1827 – 1882) (Diário de Pernambuco, 25 de outubro de 1867).

 

 

1868 – Ferreira Villela publicou um convite para a missa de sétimo dia de sua mãe (Diário de Pernambuco, 15 de fevereiro de 1868, última coluna).

Em propaganda anunciava seus cartões de visita sem o menor retoque de lápis ou de nanquim e chamava a atenção do público para os retratos expostos no salão de cortar cabelos do sr. José Ricardo Coelho e na livraria do sr. Nogueira de Souza (Diário de Pernambuco, 27 de fevereiro de 1868, última coluna).

Anunciou uma liquidação de vistas estereoscópicas de países da Europa e também de estereoscopos (Diário de Pernambuco, 21 de março de 1868, última coluna).

Anunciou a venda de retratos do bispo dom Francisco Cardoso Ayres (1821 – 1870). Anunciou também a utilização sem economia de uma lavagem sobre os retratos para extrair todo o hipossulfito de soda, causa da alteração das provas (Diário de Pernambuco, 4 de junho de 1868, última coluna).

Após uma temporada no Rio de Janeiro, para onde havia ido a fim de conhecer e examinar os melhores estabelecimentos fotográficos da corte, tendo passado um mês estudando e aproveitando as lições do fotógrafo Insley Pacheco, retornou ao Recife no dia 7 de dezembro e retomou a direção de seu ateliê (Diário de Pernambuco, 23 de dezembro de 1868, terceira coluna).

1869 – No Almanak Administrativo, Mercantil, Industrial e Agrícola de Pernambuco de 1869 , Villela foi listado como taquígrafo e, com Alberto Henschel (1827 – 1882), como fotógrafo.

 

taquigrafo

 

Anunciou que estava sempre em dia com os melhoramentos e progressos que na América do Norte, na Europa ou no Rio de Janeiro se consegue na arte fotográfica e para alcançarmos tal fim nunca poupamos despesas nem sacrifícios de sorte que nossos numerosos fregueses podem ter a certeza de que sempre encontrarão em nosso estabelecimento tudo quanto a arte e a moda oferecer de bom no novo e velho mundo aos amantes da fotografia (Diário de Pernambuco, 22 de janeiro de 1869).

 

 

Após 10 meses de reforma em seu estabelecimento, anunciou o fim das obras para a primeira quinzena do mês de dezembro de 1869. A reforma teve como modelo o ateliê fotográfico de Insley Pacheco, na rua do Ouvidor, 102, no Rio de Janeiro, que Villela visitou em 1868. Em 16 de dezembro, informou um novo prazo para a conclusão das obras: 7 de janeiro de 1870 (Diário de Pernambuco, 24 de novembro de 1869, terceira coluna; Diário de Pernambuco, 16 de dezembro de 1869, terceira coluna; e O Liberal, 2 de setembro de 1870, última coluna).

 

 

1870 – Em 7 de abril, após uma grande reforma, abertura da Photographia Imperial e Galeria de Pintura de João Ferreira Villela, no mesmo endereço, rua do Cabugá, 18 (Diário de Pernambuco, 7 de abril de 1870, terceira colunaDiário de Pernambuco, 23 de junho de 1870, terceira coluna; e O Liberal, 2 de setembro de 1870, última coluna).

 

 

A partir desse ano, o pintor alemão Jorge Augusto Roth (18? – ?), no Brasil desde 1868, quando desembarcou do vapor francês Extremadure (Diário de Pernambuco, 13 de junho de 1868, penúltima coluna) passou a colaborar no ateliê de Ferreira Villela, como encarregado de colorir as cópias fotográficas (Diário de Pernambuco, 3 de junho de 1870, segunda coluna; Diário de Pernambuco, 22 de agosto de 1870).

Na livraria francesa dos srs. Lalhacar & C., na rua do Crespo, exposição de quatro retratos produzidos no estabelecimento de Ferreira Villela (Diário de Pernambuco, 27 de julho, quarta coluna).

A Photographia Imperial anunciava os Retratos Timbre-posts, excelentes para circulares, convites, ou simplesmente para cartas a amigos (Diário de Pernambuco, 14 de novembro de 1871, terceira coluna).

A Photographia Imperial anunciava retratos de grupos de cinco a 100 pessoas (Diário de Pernambuco, 25 de novembro de 1871, última coluna).

1872 – A Photographia Imperial anunciava a grande novidade dos cartões de visita e afirmava ser o único estabelecimento que possuía as máquinas e os aparelhos precisos para preparar esses cartões (Diário de Pernambuco, 16 de fevereiro de 1872, segunda coluna).

Villela participou da Exposição Provincial de Pernambuco, inaugurada em 20 de outubro (Diário de Pernambuco, 21 de outubro de 1872, primeira coluna), com um quadro a óleo (fotopintura?), dois quadros com fotografias no formato carte de visite e 3 quadros de retratos a óleo (fotopinturas?). O fotógrafo alemão Alberto Henschel (1827 – 1882) também participou com 2 quadros de fotografias. Ambos ganharam medalhas de prata. Villela expôs também uma variada coleção de produtos químicos de seu fabrico que revelam uma capacidade artística congênita e de uma força de vontade digna de toda animação (Diário de Pernambuco, 20 de fevereiro de 1873, segunda coluna; e Diário de Pernambuco, 21 de fevereiro de 1873, última coluna).

Como relator da Comissão da Sociedade dos Artistas Mecânicos e Liberais de Pernambuco, fez o discurso na sessão fúnebre que o Club Popular do Recife celebrou em homenagem à memória de Antônio Rangel de Torres Bandeira (Diário de Pernambuco, 27 de dezembro de 1872, primeira coluna).

1873 – Ele e o fotógrafo Leon Chapelin eram integrantes avulsos da loja Capitular União e Beneficência da maçonaria de Pernambuco (Diário de Pernambuco, 9 de janeiro de 1873, segunda coluna).

Participou da III Exposição Nacional no Rio de Janeiro com produtos farmacêuticos e tintas de escrever, tendo sido premiado com as medalhas de prata e de bronze.

Participou da Exposição Universal de Viena com produtos farmacêuticos, tendo sido premiado com a medalha de mérito e com uma menção honrosa.

A Photographia Imperial anunciou ter cartões de visitas coloridos ao natural (Diário de Pernambuco, 18 de junho de 1873, última coluna).

A Photographia Imperial anunciou possuir retratos do papa Pio IX (1792 – 1878), de outros religiosos e da infeliz Maria da Conceição, assassinada pelo desembargador Pontes Visgueiro (Diário de Pernambuco, 12 de novembro de 1873, primeira coluna).

1874 – Estava na lista de devedores de um imposto de 4% cobrados a alguns estabelecimentos comerciais (Diário de Pernambuco, 7 de abril de 1874, quarta coluna).

Em 8 de abril de 1874, foi veiculado uma propaganda do estabelecimento de Lopes & C, na rua do Barão da Vitória, 14, denominado Photographia Imperial, mesmo nome do estabelecimento de Villela. Note-se que a última propaganda da Photographia Imperial de Villela foi veiculada em novembro de 1873 (Diário de Pernambuco, 8 de abril de 1874 e Diário de Pernambuco, 9 de abril, segunda coluna).

Participou de uma reunião do Instituto Arqueológico e Geográfico e na ocasião ofertou à entidade duas fotografias: da fortaleza do Brum e do porto de Pernambuco (Diário de Pernambuco, 21 de agosto de 1874, segunda coluna; e Jornal do Recife, 21 de agosto de 1874, penúltima coluna).

Chegou ao Rio de Janeiro a bordo do paquete a vapor Pará (O Globo, 2 de setembro de 1874, última coluna).

1875 - Participou da IV Exposição Nacional no Rio de Janeiro com tintas de escrever e ganhou uma medalha de mérito (O Globo, 4 de fevereiro de 1876, segunda coluna; e Diário de Pernambuco, 14 de fevereiro de 1876, terceira coluna).

Participou da Exposição Internacional de Santiago do Chile, ocorrida entre 16 de setembro de 1875 e 16 de janeiro de 1876, com tintas de escrever, tendo conquistado o segundo prêmio (O Globo, 4 de maio de 1876, primeira coluna). Na listagem dos premiados, apareceu como expositor do Rio de Janeiro. Teria se mudado para a corte?

1876 – Participou da Exposição Universal da Filadélfia, ocorrida entre 10 de maio e 10 de novembro de 1876, com tintas de escrever, e conquistou a medalha de honra (O Novo Mundo, setembro de 1876, quarta coluna; e O Novo Mundo, janeiro de 1877, quarta coluna). Da mesma forma como na listagem dos premiados na Exposição Internacional de Santiago do Chile, apareceu como expositor do Rio de Janeiro. Teria ido viver na corte?

 

 

(1) Em 1845, há o registro da atuação de um daguerreotipista no Recife, que se anunciava como Mr. Roberto, provavelmente estrangeiro (Diário de Pernambuco, 20 de setembro de 1845, terceira coluna). Os outros, de quem se têm notícia até  hoje e que também atuaram na cidade na década de 1840, eram com certeza estrangeiros: os norte-americanos Joseph Evans (? -18?) e Charles DeForest Fredricks (1823 – 1894). Na década de 1850, quando Villela começou a trabalhar como fotógrafo, foi o segundo pernambucano na profissão. O primeiro foi Cincinato Mevignier que, em junho de 1854, identificava-se-se como retratista e pensionista de S.M. o Imperador e possuía uma Galeria de retratos a óleo e daguerreótipo, no Aterro da Boa Vista, nº 82, primeiro e segundo andares. Anunciava ter encomendado da Europa uma máquina extraordinária daguerreótipo…será sem dúvida maior que tem de se apresentar-se nessa capital e mesmo em todas as outras províncias do império…Também, na mesma propaganda, afirmou ser pernambucano o que o torna o primeiro daguerreotipista nascido no referido estado conhecido até os dias de hoje: “Pernambucanos! a nossa província tão bela e tendo em si os melhores golpes de vista pra os astistas que sabem apreciar a natureza…” (Diário de Pernambuco, 9 de junho de 1854, segunda coluna). O primeiro registro de Villela como daguerreotipista é de 1855.

 

*Esse artigo foi atualizado em 25 de julho de 2019.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ALENCASTRO, Luis Felipe de. História da vida privada no Brasil Império: a corte e a modernidade nacional. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

Enciclopédia Itaú Cultural

FERREZ, Gilberto. Velhas fotografias pernambucanas: 1851-1890. Rio de Janeiro: Campo Visual, 1988.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

KOSSOY, Boris. Origens e expansão da fotografia no Brasil : século XIX. Prefácio Boris Kossoy. Rio de Janeiro: Funarte, 1980.

TURAZZI, Maria Inez. Poses e trejeitos: A fotografia e as exposições na era do espetáculo (1839 – 1889). Rio de Janeiro: Funarte/Rocco, 1995.

VASQUEZ, Pedro Karp. Dom Pedro II e a fotografia no Brasil. Rio de Janeiro: Fundação Roberto Marinho: Companhia Internacional de Seguros: Ed. Index, 1985.

VASQUEZ, Pedro Karp. Mestres da fotografia no Brasil: Coleção Gilberto Ferrez. Tradução Bill Gallagher. Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil, 1995.

VASQUEZ, Pedro Karp. O Brasil na fotografia oitocentista. São Paulo: Metalivros, 2003.

Nudez na Galeria Ducasble causa polêmica no Recife do século XIX

 

A exposição de uma cópia do quadro Sono de antíope (ao lado), do pintor italiano renascentista Correggio (c. 1439 – 1534), na Galeria Ducasble, causou polêmica no Recife, em 1885. Por ser considerado por parte do público um registro imoral, muitos deixaram de frequentar o estabelecimento. O advogado e ex-presidente das províncias do Piauí, do Ceará e de Pernambuco, Diogo Cavalcanti de Albuquerque (1829 – 1889), publicou, no Diário de Pernambuco de 27 de junho de 1885, uma crítica a esse comportamento, segundo ele, inspirado por uma nudofobia. No mesmo artigo, criticou o pouco incentivo do governo às artes e elogiou a galeria do fotógrafo e antiquário francês Alfred Ducasble (18-? – 19?). Diogo Cavalcanti de Albuquerque foi o Comissário Geral do Império à Exposição Universal de Paris, em 1889, na qual Ducasble participou como delegado oficial da província de Pernambuco e também como autor de fotografias e expositor de quadros, móveis, jóias e antiguidades.

O ateliê de fotografia e galeria de belas artes de Ducasble situava-se à Rua Barão da Vitória, 65 e era conhecido como A. Ducasble & C., Galeria Ducasble e Fotografia Parisiense. Pintores como Aurélio de Figueiredo (1856 – 1916) e José Jerônimo Telles Júnior (1851 – 1914)  expuseram seus trabalhos na galeria.

‘A uma habilidade não comum, que ele tem vantajosamente empregado no aperfeiçoamento dos processos fotográficos junta, como entusiasta e verdadeiro cultor das belas artes, ardente vocação, apurado gosto e inexcedível dedicação a esse gênero de cultura humana; ainda mais: vota particular interesse, liga a maior importância às produções e progresso da arte nacional’ (Diogo Cavalcanti de Albuquerque sobre Ducasble, em 1885).

Por ter fotografado grande parte da sociedade pernambucana, Ducasble ficou mais conhecido como retratista embora tenha sido também considerado um excelente paisagista. Foi casado com a alagoana e modista Urraca (1837 – 1893), com quem teve filhos: Maria Vitória (1864 – 1902), nascida em Alagoas, e o futuro caixeiro-viajante Alfredo Ducasble Filho (18? – 19?), nascido em Pernambuco.

 

 

 

Acessando o link para as fotografias de Alfredo Duscable disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Pouco se sabe sobre a vinda de Ducasble para o Brasil: teria chegado a Pernambuco em 1873 e atuou na cidade nas décadas de 1870 a 1890. Além de fotógrafo, era colecionador e antiquário. Foi professor de desenho e caligrafia no Liceu de Artes e Ofícios e na Escola Propagadora do Recife e é de sua autoria o livro Curso Prático de Caligrafia. Na década de 1880, participou de exposições no Brasil e no exterior, tendo obtido medalha de prata na Exposição Internacional de Antuérpia, em 1885. Foi possivelmente a primeira pessoa a divulgar internacionalmente o mobiliário colonial brasileiro ao enviar, além de pinturas e jóias, móveis e outras antiguidades de seu acervo para a Exposição Universal de Paris em 1889, da qual foi delegado oficial da província de Pernambuco. Na ocasião, recebeu a medalha de prata por seu panorama de Pernambuco e por retratos expostos. Algumas vistas do Recife de sua autoria foram incluídas no Album de vues du Brésil, que organizado pelo Barão do Rio Branco (1945 – 1912) e lançado em Paris na ocasião da Exposição Universal, fazia parte da segunda edição de Le Brésil, extrato da Grande Enciclopédia, trabalho dirigido pelo geógrafo Émile Levasseur  (1828-1911), para o qual o barão havia colaborado. Nesse mesmo ano, 1889, Ducasble teria ido viver em Paris.

 

 

Desenhos publicados no Album de vues du Brésil baseados em fotografias de Ducasble

(Páginas 53 a 56 do PDF)

 

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Em 1900, foi anunciada a existência de uma sucursal da Galeria Ducasble, na Avenue de la Grande Armée, em Paris. Em 1893, ano do falecimento de sua mulher, a Galeria Ducasble do Recife foi vendida para o fotógrafo Ludgero Jardim da Costa (18? – 19?).

 

Cronologia de Alfredo Ducasble (18? – 19?)

 

1873 – J. A. Ducasble teria chegado em Pernambuco vindo da Europa no vapor Rio Grande (Diário de Pernambuco, 11 de março de 1873, terceira coluna).

1874 – No Recife, A. Ducasble, sua mulher e três filhos embarcaram rumo ao sul do país, no vapor inglês Illimani (A Província – Órgão do Partido Liberal, 27 de janeiro de 1874, primeira coluna).

No Rio de Janeiro, João Alfredo Ducasble, sua senhora e um filho embarcaram no vapor Pará rumo a Pernambuco (Jornal do Commercio, 20 de junho de 1874).

Foi anunciado que Ducasble era consertador de máquinas de costura e que a modista Madame Ducasble havia chegado da corte e convidava as senhoras que desejassem vestir-se elegantemente para a visitarem na rua da Imperatriz, nº 8, mesmo local onde Ducasble atendia (Jornal de Recife, 9 de julho e 13 de julho de 1874).

 

 

 

Foi publicado um anúncio de Ducasble oferecendo aulas de caligrafia e de francês no primeiro andar da rua da Imperatriz, nº 1, onde sua esposa tinha um estabelecimento de moda (Jornal de Recife, 6 de agosto e 11 de agosto de 1874).

 

 

1875 – João Alfredo Ducasble trabalhava como desenhista na Repartição das Obras de Conservação dos Portos da Província (Almanak Administrativo, Mercantil, Industrial e Agrícola (PE), 1875).

Sua esposa, a modista Urraca Ducasble (18? – 1893), participava a mudança de seu estabelecimento de moda para a rua Barão da Vitória, 52, no 1º andar, a partir do dia 12 de julho de 1875 (A Província – Órgão do Partido Liberal, 11 de julho de 1875). Dois anos depois, mudou-se para o número 65 da mesma rua.

1876 - Vindo no navio Rio Grande, o francês Alfred Ducasble, chegou ao Rio de Janeiro (Diário do Rio de Janeiro, 13 de fevereiro de 1876, quinta coluna).

1877 - Foi publicado um anúncio onde Ducasble oferecia-se para fazer qualquer levantamento em plantas de engenho, nivelamentos, projetos de casas de campo, chalés e qualquer desenho de arquitetura, mecânico e topográfico (Jornal de Recife, 18 de abril de 1877, quinta coluna). Continuava lecionando caligrafia e desenho em colégios, em casas particulares e em sua casa (Jornal de Recife, 23 de abril de 1877, terceira coluna). Mudou-se para a Rua Barão da Vitória (ex- rua Nova), nº 65, 1º andar (Jornal de Recife, 16 de outubro de 1877, quarta coluna).

Ducasble participou de uma celebração na Escola Filotécnica (Jornal de Recife, 16 de novembro de 1877, quarta coluna).

Imprimiu o Curso Prático de Caligrafia, de sua autoria, aprovado pelo Conselho Superior de Instrução Pública de Pernambuco (Jornal de Recife, 28 de novembro de 1877, última coluna).

1878 - Durante uma reunião do Conselho de Instrução Pública da província da Bahia, foi lido um ofício mandando informar o requerimento de Alfred Ducasble, que se propõe a ensinar em 30 lições a caligrafia nas escolas, nos dois externatos e aos professores públicos, e oferece à venda por 1$500 réis cada exemplar da coleção de seus traslados. A venda não foi realizada (O Monitor, 28 de abril de 1878, terceira coluna e O Monitor, 18 de junho de 1878, sexta coluna).

Em Salvador, Alfredo Ducasble embarcou no vapor francês Niger rumo ao Recife (O Monitor, 20 de junho de 1878, quarta coluna e A Província – Órgão do Partido Liberal, de 1878, 20 de junho de 1878, segunda coluna).

Anunciou seus serviços como professor de caligrafia e de desenho, estabelecendo curtos prazos para ensinar as matérias (Jornal de Recife, 5 de julho de 1878, quinta coluna).

 

No fim dessa década, provavelmente, o alemão Rodolpho Frederico Francisco Lindemann (1852 – 19?)  trabalhava como fotógrafo junto a Alfredo Ducasble.

1880 – Anunciou a realização de Retratos Inalteráveis na Photographia Parisiense pelo processo de cromotipia, na rua Barão da Vitória, 65.

 

 

Em 1º de março, anunciou-se que na Photographia Parisiense, de Alfredo Ducasble & C., fazia-se retratos de pessoas falecidas, de grupos, retratos em domicílio e de paisagens e por todos os sistemas mais modernos. A dúzia de retratos custava 5 $ (Jornal de Recife, 1º de março de 1880).

1881 - Teria pretendido estender sua atuação para a Paraíba onde seria seu representante ou sócio Manoel Bezerra de Mello.

No Liceu de Artes e Ofícios do Recife, Ducasble era professor de caligrafia e de desenho linear. Doou para a biblioteca da instituição 10 exemplares de seu livro Curso de Caligrafia (Diário de Pernambuco, 18 de fevereiro de 1881, segunda coluna e Diário de Pernambuco, 22 de março de 1881, segunda coluna).

Exposição, no estabelecimento fotográfico de M. Alfred Ducasble , que de dia em dia vem caminhando num progresso rápido a ponto de já ser o primeiro da província, de dois quadros do pintor paraibano Aurélio de Figueiredo (1856 – 1916), Saudade e Melancolia (Diário de Pernambuco, 19 de abril de 1881, primeira coluna). Meses depois, por motivos de saúde, o pintor foi para a Paraíba e deixou como contato no Recife a Galeria Ducasble (Diário de Pernambuco, 8 de setembro de 1881, quarta coluna).

Participou da Exposição da Indústria Nacional e da Exposição Provincial de Pernambuco provavelmente com fotografias. Na última conquistou a medalha de mérito.

1882 – Participou da Primeira Exposição Artístico-Industrial promovida pela Imperial Sociedade dos Artistas Mecânicos e Liberais de Pernambuco e conquistou uma medalha de mérito pelos retratos de seu estabelecimento fotográfico. Alberto Henschel (1827 – 1882) também recebeu uma medalha de mérito pelas vistas fotográficas que expôs (Diário de Pernambuco, 17 de janeiro de 1882, segunda colunaJornal de Recife, 22 de janeiro de 1882, última coluna).

Uma menina de cor preta com aproximadamente 10 anos chamada Josefa foi abandonada na casa do casal Ducasble (Diário de Pernambuco, 14 de março de 1882, quinta coluna).

Ducasble foi laureado com o primeiro prêmio na Exposição Artístico-Industrial do Rio de Janeiro (Jornal de Recife, 14 de maio de 1884, última coluna).

Ducasble doou livros para a Biblioteca do Liceu de Artes e Ofícios de Pernambuco, inaugurada em 11 de dezembro de 1881 e aberta em 10 de abril de 1882 (Jornal de Recife, 4 de maio de 1882, penúltima coluna).

Fazia parte da comissão do Club Abolicionista encarregada de angariar donativos no bairro de Santo Antônio, no Recife (Jornal do Recife, 13 de junho de 1882, penúltima coluna).

Integrava o comitê nomeado pelo Consulado da França para organizar a Festa Nacional de 14 de julho (Jornal de Recife, 28 de junho de 1882, quinta coluna). Foi elogiado pelo trabalho verdadeiramente artístico - uma miniatura que foi ofertada aos participantes da festa (Jornal de Recife, de 16 de julho de 1882, penúltima coluna).

Na comemoração dos 41 anos da Imperial Sociedade dos Artistas Mecânicos e Liberais de Pernambuco, foi realizada uma exposição com quatro salas. A primeira sala, que era a principal, denominada Galeria Ducasble apresentava um quadro de fotografias produzidas por Ducasble, quadros a óleo do paraibano Aurélio de Figueiredo (1856 – 1916), do francês radicado em Pernambuco  Eugène Lassailly (18? – 19?) e do pernambucano José Jerônimo Telles Júnior (1851 – 1914), além de trabalhos a crayon de Benevenuto Cabral e estudos, também a crayon, de Maria Tasso (Jornal do Recife, 19 de dezembro de 1882, quinta coluna).

1883 – Fotografias porcelana produzidas por Ducasble eram um dos prêmios oferecidos em um sorteio da Livraria e Papelaria de G. Laporte & C. (Jornal de Recife, 4 de fevereiro de 1883, quinta coluna).

Ducasble partiu para a Europa a bordo do vapor inglês La Plata (Diário de Pernambuco, 16 de fevereiro de 1883, segunda coluna).

Na Galeria Ducasble, exposição de um quadro pintado por Leopoldino de Faria (1836 – 1911), retratando o diretor do Arsenal de Marinha (Jornal de Recife, 8 de junho de 1882, penúltima coluna).

Ducasble chegou da Europa a bordo do vapor francês Gironde (Jornal de Recife, 5 de agosto de 1883, última coluna). Publicou que retomava a direção de seu estabelecimento e que estava recuperado de seus incômodos. Informava que havia visitado os melhores estabelecimentos das principais cidades europeias, onde havia praticado com grandes mestres de fotografia e pintura. Anunciou ter trazido modernos equipamentos e que havia se dedicado ao estudo dos processos instantâneos podendo tirar facilmente o retrato de toda e qualquer criança com expressão e semelhança (Jornal de Recife, 10 de agosto de 1883, quinta coluna).

 

 

O pintor francês Lassaily havia chegado da França e anunciava que quem precisasse de seus serviços poderia procurá-lo na Photographia Parisienne (Jornal de Recife, 13 de novembro de 1883, última coluna).

Ducasble anunciou que o quadro dos bachareis do 5º ano encontrava-se em sua galeria e que até o fim do mês receberia o pagamento da segunda prestação (Jornal de Recife, 17 de novembro de 1883, terceira coluna).

1884 - Anúncio da Galeria Ducasble informava que a partir de qualquer fotografia produzia retratos a óleo, crayon e nanquim (Jornal de Recife, 9 de maio de 1884).

Ele, Menna da Costa e Hermina Costa formavam a comissão da Imperial Sociedade dos Artistas Mecânicos e Liberais para arrecadação dos impostos devidos por fotógrafos e retratistas (Jornal de Recife, 11 de julho de 1884, última coluna).

Ducasble fez a importação de espelhos, que chegaram no vapor francês Ville de Pernambuco (Jornal de Recife, 11 de julho de 1884, segunda coluna). Ao longo do ano foram noticiadas outras importações.

Na Galeria Ducasble, exposição de um belo retrato a óleo feito na Europa de Laurentino José de Miranda, que iria ornar a sala de sessões da Companhia de Ferrovia de Olinda (Diário de Pernambuco, 16 de maio de 1884). Exposição também de um bonito retrato a óleo do conselheiro Theodoro Machado Freire Pereira da Silva, que seria levado para o salão de honra da Câmara Municipal do Recife (Jornal de Recife, 14 de setembro de 1884, quarta coluna).

 

 

1885 – Estavam expostos na Galeria Ducasble os retratos a óleo dos advogados José Mariano Carneiro da Cunha (1850 – 1912) e Félix de Valois Correia (18? – 19?), encomendados pela Imperial Sociedade de Artistas Mecânicos e Liberais em homenagem aos serviços prestados por eles. Seriam colocados no salão de honra da referida instituição no dia do aniversário da mesma, em 18 de janeiro (Jornal de Recife, 14 de janeiro de 1885, quarta coluna).

Publicou um anúncio intitulado Antiguidades, onde anunciava interesse na compra de objetos antigos como sejam: pratos, cadeiras de sofá, vasos e candelabros de bronze, pinturas antigas e modernas e qualquer objeto artístico (Jornal de Recife, 25 de fevereiro de 1885, sexta coluna e Diário de Pernambuco, 6 de março de 1885). Esse anúncio foi publicado várias vezes ao longo do ano.

 

 

Participou da Exposição Internacional de Antuérpia, realizada entre 2 de maio e 2 de novembro de 1885, e ganhou o diploma de medalha de prata na Classe 7 – Fotografias e seus aparelhos (Diário de Pernambuco, 29 de outubro de 1885, terceira colunaJornal de Recife, 7 de abril de 1887, quinta coluna).

A carta geral do Brasil assim como outra da província de São Paulo não deixam nada a desejar como gravura topográfica. Saíram das oficinas dos senhores Paul Robin & O, do Rio de Janeiro que obtiveram por seus trabalhos uma medalha de prata; a mesma recompensa foi atribuída aos senhores Marc Ferrez e Ducasbles por suas belas fotografias’ (Anvers à l´Exposition Universelle, 1886).

A exposição de uma reprodução do quadro Sono de antíope, do pintor renascentista Correggio (c. 1439 – 1534), na Galeria Ducasble, causou polêmica por ser considerado imoral por parte do público e por essa causa deixou de frequentar o estabelecimento. O advogado e ex-presidente das províncias do Piauí, do Ceará e de Pernambuco Diogo Cavalcanti de Albuquerque (1829 – 1889) publicou uma crítica a esse comportamento, segundo ele, inspirado por uma nudofobia. No mesmo artigo critica o pouco incentivo do governo às artes e elogia o estabelecimento de Ducasble (Diário de Pernambuco, 27 de junho de 1885).

 

 

 

 

Continuava trabalhando como professor do Liceu de Artes e Ofícios (Diário de Pernambuco, 14 de outubro de 1885 e Diário de Pernambuco, 3 de julho de 1886).

Executou o retrato do sr. Epaminondas Gouvêia, que seria colocado na Igreja do Carmo. Foi encomendado pela Irmandade de Nossa Senhora da Luz (Jornal de Recife, 25 de outubro de 1885, quinta coluna).

Participou, na Seção de Fotografia, da 5ª Exposição Artístico-Industrial, promovida pela Imperial Sociedade dos Artistas Mecânicos e Liberais, quando obteve o diploma de Progresso (Jornal de Recife, 31 de dezembro de 1885, quinta coluna).

O larápio José Braz da Silva célebre autor do roubo que sofreu a atriz Helena Balsemão foi retratado por Ducasble (Diário de Pernambuco, 3 de julho de 1885, quarta coluna).

Ducasble vendeu à Irmandade de Nossa Senhora da Conceição cadeiras de carvalho revestidas de acentuados desenhos de talha (Jornal de Recife, 9 de dezembro de 1926, primeira coluna).

1886 – Na exposição fotográfica no Palácio de Cristal, na cidade do Porto, em Portugal, Ducasble foi contemplado com uma menção honrosa (Gazeta de Notícias, 27 de junho de 1886, terceira coluna).

Produziu um retrato da atriz portuguesa Lucinda Furtado Coelho (1850 – 1928) que constava de um jornal dedicado a ela (Jornal de Recife, 1º de julho de 1886, penúltima coluna).

Na Galeria Ducasble, exposição de um retrato a óleo de Diogo Cavalcanti de Albuquerque executado em Paris por um brasileiro. Também na galeria, exposição de trabalhos do pintor cearense Irineu de Souza (1850 – 1924) e de uma fotografia do Teatro Santa Isabel na ocasião da sessão fúnebre promovida União Federal Abolicionista em honra a José Bonifácio (Diário de Pernambuco, 9 de abril de 1886, primeira colunaJornal de Recife, 18 de setembro, quinta coluna e Jornal de Recife, 3 de dezembro de 1886, segunda coluna).

Participou da Exposição Sul-Americana de Berlim e conquistou o primeiro prêmio e a medalha de ouro (Diário de Pernambuco, 21 de agosto de 1886, penúltima colunaJornal do Commercio, 31 de março de 1887, última coluna e Jornal de Recife, 16 de março de 1888)

1887 – Publicação de artigos de Ducasble na quarta, na sexta e na oitava edição da Revista do Norte

Publicação de uma carta do pintor Telles Júnior ao mestre Alfredo Ducasble sobre o artigo escrito sobre os quadros de Barreto Sampaio na Revista do Norte, 10 de fevereiro de 1887. Telles Junior sentiu-se ofendido pela crítica de Ducasble (Jornal de Recife, 14 de março, quinta coluna).

Na Galeria Ducasble, exposição de retratos pintado a óleo por Bannel de Paris (Jornal de Recife, 13 de abril de 1887, quinta coluna).

Ducasble ofertou ao Instituto Arqueológico Geográfico de Pernambuco uma fotografia da inscrição da Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, no Monte Guararapes (Jornal de Recife, 20 de abril de 1887, primeira coluna).

Chegada no vapor Ville de Bahia de uma encomenda de quadros feita por Ducasble (Jornal de Recife, 7 de junho de 1887, quarta coluna).

Em uma carta publicada por Feliciano de Azevedo Gomes para a família de Emílio Soares, alfaiate e genro de Ducasble, casado com sua filha Maria Victória, foi revelado que Ducasble sofria dos nervos. Feliciano acusou Ducasble de calúnia no episódio envolvendo um surto de loucura de Soares e o desafiou para um duelo. Ducasble declarou jamais ter caluniado Feliciano, a quem continuava a considerar um cavalheiro muito distinto e honrado (Jornal de Recife, 14 de junho, última coluna;  15 de junho, penúltima coluna; e 18 de junho, terceira coluna).

O escritor português Ramalho Ortigão (1936 – 1915) em sua vista ao Recife foi à Galeria Ducasble onde foi fotografado. Estava com Joaquim Nabuco (Jornal de Recife, 20 de novembro de 1887, segunda coluna).

Na Galeria Ducasble, exposição de um retrato de Adolfo Manta, encomendado por seus ex-escravos, recém libertos por ele (Diário de Pernambuco, 7 de dezembro de 1887, última coluna).

1888 – Publicação de uma propaganda da Galeira Ducasble com lista de prêmios (Jornal de Recife, 16 de março de 1888). Foi publicada diversas vezes ao longo do ano no Jornal de Recife e no Diário de Pernambuco.

 

 

Na Galerie Artistique de Ducasble, exposição de dois bustos a óleo dos abolicionistas pernambucanos Joaquim Nabuco (1849 – 1910) e de José Mariano Carneiro da Cunha (1850 – 1912), realizados por Ducasble (Jornal de Recife, 30 de maio de 1888, quinta coluna).

 

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Joaquim Nabuco e José Mariano Carneiro da Cunha fotografados por Ducasble / Acervo Fundação Joaquim Nabuco

 

 

O artista, pintor e decorador francês Eugène Lassailly  publicou uma propaganda de seus serviços e um dos lugares onde poderia ser contactado era a Galeria Ducasble (Jornal de Recife, 19 de junho de 1888, quarta coluna).

Ducasble foi um dos contribuintes da subscrição agenciada no Recife por Luiz Cintra a fim de serem ofertadas aos médicos que cuidaram da saúde de dom Pedro II (Diário de Pernambuco, 28 de agosto de 1888, quinta coluna).

Participou da Comissão Pernambucana para a representação da província na Exposição Universal de Paris (Diário de Pernambuco, 23 de setembro de 1888, última coluna e Jornal de Recife, 11 de janeiro de 1889, primeira coluna).

Ducasble  lecionava caligrafia na Escola Normal da Sociedade Propagadora de Instrução Pública (Diário de Pernambuco, 23 de novembro de 1888, última coluna).

Em anúncio, Ducasble atestava ter feito com sucesso uso do Elixir Cabeça de Negro sedativo contra o reumatismo, fórmula do dr. Santa Rosa (Jornal do Commercio, 12 de dezembro de 1888).

1889 – Abertura da exposição prévia dos produtos que deveriam ir para a Exposição Universal de Paris, dentre eles objetos artísticos de Ducasble, que recebeu o diploma de 1ª classe (Jornal do Povo, 14 de janeiro de 1889, terceira coluna, Diário de Pernambuco, 15 de janeiro de 1889, quarta coluna; e Diário de Pernambuco, 5 de fevereiro de 1889, segunda coluna).

Foi eleito conselheiro da diretoria da Imperial Sociedade de Artistas Mecânicos e Liberais (Jornal de Recife, 26 de janeiro de 1889, terceira coluna).

Foi de sua autoria a fotografia do projeto do monumento em homenagem à abolição da escravidão que seria erigido em Olinda (Jornal de Recife, 10 de fevereiro de 1889, primeira coluna).

Ducasble foi escolhido delegado da Comissão Pernambucana para a representação da província na Exposição Universal de Paris (Diário de Pernambuco, 3 de maio de 1889, penúltima coluna).

Ducasble produziu uma fotografia do pessoal da Companhia de Bombeiros (Jornal do Povo, 17 de maio de 1889, segunda coluna).

Na Exposição Universal de Paris, realizada entre 6 de maio e 31 de outubro de 1889, ganhou medalha de prata por seu panorama de Pernambuco e por retratos expostos e também por lenços bordados e rendas. Além disso, expôs 5 quadros, móveis, jóias e antiguidades (Diário de Pernambuco, 23 de outubro, quarta coluna, e Jornal de Recife, 24 de outubro de 1889, penúltima coluna). Segunda a Revista do Patrimônio Artístico e Histórico Nacional de 1946, Ducasble talvez tenha sido o primeiro a enviar peças antigas brasileiras ou luso-brasileiras para serem mostradas fora do país. Nessa mesma exposição, o fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923) participou com vistas do Rio de Janeiro, vistas marinhas e paisagens e, de acordo com Maria Inez Turazzi, recebeu a medalha de bronze. Segundo o Auxiliador da Indústria Nacional, ele teria recebido a medalha de prata (O Auxiliador da Indústria Nacional, 1889). O fotógrafo Felipe Augusto Fidanza (c. 1847 – 1903) recebeu uma medalha de bronze. Outros fotógrafos que participaram foram Albert Richard Dietze (1838 – 1906), Rodolpho Lindemann (c. 1852 – 19?), Nicholson & Ferreira, Joaquim Insley Pacheco  (c. 1830 – 1912) e José Ferreira Guimarães (1841 – 1924). Foi também nessa exposição que a Torre Eiffel, na época a mais alta estrutura do mundo, foi inaugurada.

Ducasble estava presente no banquete realizado em 3 de outubro, no restaurante Voisin para a despedida de Visconde de Cavalcanti (1829 – 1899), presidente do Comissariado Geral do Brasil junto à Exposição Universal de Paris, que retornaria ao Rio de Janeiro (Jornal do Commercio, 24 de outubro de 1889, sexta coluna).

Foi um dos fotógrafos incluídos no livro Album de vues du Brésilbarão do Rio Branco (1845-1912) foi o responsável pelo livro, considerado a última peça para a promoção do Brasil imperial, representando um resumo iconográfico do país e de suas riquezas. Foi um dos livros que inaugurou a ilustração fotográfica do Brasil e é considerado por muitos uma espécie de balanço final do período imperial. Nas palavras do barão, o álbum pretendia “mostrar a fisionomia atual das principais cidades do Brasil e seus arredores. Sob esse aspecto, a presente coleção é a mais completa publicada até hoje”. Trazia também fotografias produzidas por Augusto Riedel (1836 -?)Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912)Marc Ferrez (1843 – 1923) e Rodolpho Lindemann (c. 1852 – 19?), dentre outros. Foi lançado em Paris na ocasião da Exposição Universal de 1889, e fazia parte da segunda edição de Le Brésil, extrato da Grande Enciclopédia, trabalho dirigido pelo geógrafo Émile Levasseur  (1828-1911), para o qual o barão havia colaborado. O Album de vues du Brésil foi o primeiro do gênero publicado depois do Brasil Pitoresco (1861), primeiro livro de fotografia realizado na América Latina, com imagens de Jean Victor Frond (1821 – 1881) e texto do jornalista e político francês Charles Ribeyrolles (1812-1860), reeditado em 1941.

Sua proposta para a confecção do quadro de retratos da turma do 5º ano da Faculdade de Direito foi vencida pela a de Constantino Barza, sucessor do fotógrafo berlinense Alberto Henschel (1827 – 1882) (Jornal de Recife, 19 de julho de 1889, quinta coluna). Em anúncio, Ducasble convidada os quintanistas que quisessem fazer parte do grupo da Torre Eiffel para irem a sua galeria (Jornal de Recife, 20 de agosto de 1889, terceira coluna).

Na Galeria Ducasble, exposição de estudos cenográficos de um ex-aluno da Imperial Academia de Belas Artes do Rio de Janeiro (Diário de Pernambuco, 16 de julho de 1889, última coluna).

Ducasble compareceu em Paris à missa celebrada pelo abade , na Igreja de Saint Augustin, em 25 de julho, a mando do Barão de Penedo, em desagravo ao atentado sofrido por d. Pedro II (Gazeta do Norte, 8 de setembro de 1889, terceira coluna).

Escreveu uma carta informando sobre o sucesso dos produtos pernambucanos exibidos na Exposição Universal de Paris (Diário de Pernambuco, 8 de setembro de 1889, quarta coluna).

Estava à venda na Galeria Ducasble fotografias da armação funerária da Igreja da Penha para as exéquias pela morte de dom Luiz I de Portugal (1838 – 1889) celebradas pela colônia portuguesa do Recife (Diário de Pernambuco, 20 de dezembro de 1889, segunda coluna).

Duscable foi viver em Paris e abriu a farmácia Ducasbline, onde vendia remédios que produziu a partir de seus estudos sobre a flora brasileira e conseguindo a custa a custa de pacientes investigações e meticulosas experiências o conhecimento perfeito das propriedades medicinais de muitas plantas, submeteu-as a processos científicos manipulando assim os medicamentos vendidos em seu estabelecimento parisiense. Segundo carta enviada por Ducasble à redação do jornal A Província – Órgão do Partido Liberal, em dezembro de 1900, seus medicamentos eram aconselhados pelo Instituto Médico de Paris e e estavam obtendo resultado maravilhosos em casos de anemia, bronquite e outras doenças (A Província – Órgão do Partido Liberal, 20 de dezembro de 1900, terceira coluna).

1890 – Foi publicada uma cobrança de impostos relativa ao imóvel que seu estabelecimento fotográfico ocupava na Rua Barão da Vitória, 65 (A Província – Órgão do Partido Liberal, 9 de abril de 1890, sexta coluna).

Na Galeria, Ducasble, exposição de pinturas de paisagens de Frederico Desidério de Barros, cenógrafo da Companhia Heller (Jornal de Recife, 6 de julho de 1890, última coluna). Cerca de 2 meses depois, exposição de pinturas de paisagens do hábil amador e acadêmico José de Castro Paes Barreto (Jornal de Recife, 16 de setembro de 1890, quarta coluna).

Madame Ducasble anunciou sua volta ao Brasil após uma temporada em Paris e a reabertura de seu ateliê de moda no Recife. Havia condescendência nos preços (Diário de Pernambuco, 21 de outubro de 1890, segunda coluna).

No ateliê da Photografia Ducasble, exposição de retratos a óleo dos barões de Itapessuna e de Caiará, realizados por Frederico Ramos a partir de pequenas fotografias (A Província – Órgão do Partido Liberal, 14 de novembro de 1890, segunda coluna).

Foi anunciada a existência de uma sucursal da Galeria Ducasble na avenida de La Grande Armée, em Paris, na França. Também anunciava a venda de antiguidades e de objetos que por afluência de artigos tinham deixado de ir para a Exposição Universal de Paris, no ano anterior (Jornal de Recife, 16 de novembro de 1890, terceira coluna).

1891 – Para exportação 30 litros de licor foram embarcados por Madame Ducasble no vapor francês Equateur, que iria para Paris (Diário de Pernambuco, 5 de maio de 1891, terceira coluna).

Publicação de uma denúncia de Ducasble, que estava em Paris, sobre problemas de pagamento com a Comissão de Pernambuco na Exposição Universal em Paris em 1889, do qual havia sido representante diante da Comissão Central de Paris (Jornal de Recife, 7 de maio de 1891, terceira coluna). Dois dias depois, a comissão publicou sua versão dos fatos (Jornal de Recife, 9 de maio de 1891, primeira coluna).

 

 

1892 – Ducasble presenteou o Diário de Pernambuco com uma fotografia do cadafalso ereto na matriz de Boa Vista por ocasião das exéquias em memória de dom Pedro de Alcântara (Diário de Pernambuco, 5 de fevereiro de 1892, primeira coluna).

Foi no ateliê de Ducasble, que o fotógrafo português naturalizado brasileiro Francisco du Bocage (1860 – 1919), recém chegado no Recife a bordo do vapor nacional Olinda, vindo do sul do Brasil (Diário de Pernambuco, 17 de fevereiro de 1892, na segunda coluna) expôs chapéus e capotas (Diário de Pernambuco, 24 de fevereiro de 1892, quarta coluna e Jornal do Recife, 24 de fevereiro de 1892, terceira coluna).

 

 

Publicação de uma propaganda da Galeria Ducasble onde foram destacados os prêmios conferidos a ela e o fato de ter sempre à escolha de seus numerosíssimo fregueses fotografias artísticas onde o belo resplandece ante os efeitos de luz bem combinada e verdadeiros modelos que a crítica mais exigente jamais poderá ferir (Jornal de Recife, 30 de agosto de 1892, quarta coluna).

A Photographia Ducasble registrou no Teatro Santa Isabel, o pano de anúncios pintado por Libânio do Amaral (? – 1920) para o referido teatro (Jornal de Recife, 28 de outubro de 1892, segunda coluna).

1893 – Falecimento de Urraca, esposa de Ducasble, de meningite. Foi enterrada no Cemitério Público de Santo Amaro e a missa de sétimo dia foi celebrada na matriz da Graça, no Recife (Diário de Pernambuco, 20 de junho de 1893, primeira colunaJornal de Recife, 21 de junho de 1893, sexta coluna; e Diário de Pernambuco, 22 de junho de 1893, penúltima coluna).

A antiga Photographia Ducasble passou a ser dirigida por um fotógrafo de grande prática dispondo para a execução de seus trabalhos de um pessoal técnico competentemente habilitado (Diário de Pernambuco, 3 de outubro de 1893, quinta colunaJornal de Recife, 4 de outubro de 1893). O fotógrafo em questão era Ludgero Jardim da Costa (18? – 19?) (Jornal de Recife, 8 de agosto de 1894, sexta coluna).

 

 

 

 

1894 – Representada pelos parentes presentes e ausentes, foi celebrada uma missa pelo primeiro ano da morte de Urraca Ducasble (Diário de Pernambuco, 17 de junho de 1894, terceira coluna).

1895 – Casamento civil de Alfredo Ducasble Filho com Maria Hermelinda Magalhães (Jornal de Recife, 18 de setembro de 1895, última coluna).

1898 –  Alfredo Ducasble foi aprovado como benfeitor da Sociedade Propagadora Instrução Pública (Diário de Pernambuco, 25 de janeiro de 1898, segunda coluna).

1900 - Alfredo Ducasble Filho era representante da fábrica O Moinho de Ouro, produtora de chocolates, no Rio de Janeiro (A Província – Órgão do Partido Liberal, 20 de abril de 1900, terceira coluna). Posteriomente, passou a ser representante de um laboratório farmacêutico francês e viajante geral do Almanack Laemmert (A Província – Órgão do Partido Liberal, 5 de março de 1901, penúltima coluna; e A Província – Órgão do Partido Liberal, 25 de agosto de 1910, penúltima coluna).

Realização de um leilão na antiga Photographia Ducasble (A Província – Órgão do Partido Liberal, 12 de dezembro de 1900, primeira coluna).

 

Alfredo Ducasble Filho era o representante no Brasil do grupo Pollaion-Ducasble, de produtos farmacêuticos, sediado em Paris (A Província – Órgão do Partido Liberal, 14 de março de 1901, penúltima coluna).

1902 – A leitura do livro de Ducasble, Curso de caligrafia prática, foi indicado aos alunos pela Instrução Pública de Pernambuco (Diário de Pernambuco, 17 de maio de 1902, quinta coluna). Em 1904 e em 1906 foi adotado pelas escolas municipais do Recife.

Faleceu de nefrite a alagoana Maria Victoria Soares, filha de Ducasble e viúva de Emilio Soares. No anúncio de morte, foi mencionado que seu pai residia em Paris (A Província – Órgão do Partido Liberal, 2 de setembro de 1902, primeira coluna e Diário de Pernambuco, 12 de setembro de 1902, sexta coluna).

1904 - No Rio de Janeiro, com pouco menos de 5 anos, falecimento de Adalgisa Ducasble, filha de Ducasble Filho e neta de Alfredo Ducasble (Jornal do Commercio, 9 de abril de 1904, última coluna).

Alfredo Ducasble Filho e sua família viviam no bairro do Encantado, no Rio de Janeiro. Acolheram uma criança que havia sido maltratada por sua mãe adotiva, mas apesar dos cuidados, ela faleceu (Gazeta de Notícias, 18 de maio de 1905, primeira coluna).

1910 – Na primeira página do jornal A Província – Órgão do Partido Liberal, foi publicada uma fotografia de melhoramentos no Porto de Recife com crédito para Ducasble Filho (A Província – Órgão do Partido Liberal, 30 de agosto de 1910)

1917 – Na Sociedade da Cruz Vermelha, no Rio de Janeiro, Maria Magalhães Ducasble, filha de Ducasble Filho, recebeu o diploma de enfermeira (A Época, 4 de maio de 1917).

1923 – Foi doado ao Instituto Arqueológico de Pernambuco uma coleção de cédulas e moedas que o governo do estado havia comprado de Alfredo Ducasble (Diário de Pernambuco, 6 de abril de 1923, segunda coluna).

1928 – Desquite de Ducasble Filho e Maria (O Paiz, 17 de novembro de 1928, segunda coluna).

1931 – Foi ofertada ao Instituto Arqueológico de Pernambuco uma fotografia produzida por Ducasble, em 1888, de Joaquim Nabuco.  A foto havia pertencido a Antônio Machado Gomes da Silva e seu neto, Adolfo da Silva Neto, a doou para a instituição(Diário de Pernambuco, 17 de dezembro de 1931, primeira coluna).

1933 – Em um artigo sobre o pintor alagoano Rosalvo Ribeiro (1865 – 1915), Ducasble foi citado como seu admirador, que teria batizado uma das obras de Rosalvo de L´innocence (O Dia (PR), 8 de outubro de 1933, terceira coluna).

1946 – Em uma matéria sobre a vida do pintor pernambucano José Jerônimo Telles Júnior (1851 – 1914), a Galeria Ducasble foi citada como um dos lugares mais frequentados por ele  (Diário de Pernambuco, 26 de maio de 1946, gunda coluna).

1951 – Nas memórias de Telles Júnior, na ocasião do centenário de seu nascimento, Ducasble foi citado (Diário de Pernambuco, 2 de agosto de 1951, penúltima coluna)

1956 – Fotografias produzidas por Ducasble foram publicadas no livro, Álbum de Pernambuco e seus arrabaldes, organizado por Gilberto Ferrez (Jornal do Brasil, 4 de novembro de 1956).

1977 – Em Washington, capital dos Estados Unidos, fotografias de Ducasble, Insley Pacheco e Alberto Henschel encontradas na coleção Oliveira Lima foram expostas no Instituto Cultural Brasileiro Americano. Essas fotografias foram redescobertas por acaso pelo diretor da citada instituição, José Neinstein, quando ele foi pesquisar um livro raro sobre o Brasil na Biblioteca da Universidade Católica de Washington, em fins de abril de 1977. (Jornal do Brasil, 29 de junho de 1977, última coluna).

1978 – Publicação, no Diário de Pernambuco, de uma fotografia de Joaquim Nabuco, produzida por Ducasble, em 1887 (Diário de Pernambuco, 17 de setembro de 1978).

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

BECHARA FILHO, Gabriel. Primórdios da fotografia na Paraíba. Correio das Artes – suplemento literário do jornal A União, João Pessoa, 27 de novembro de 1983.

CORNELI, René; MUSSELY, Pierre. Anvers à l´Exposition Universelle. Bruxelles: Typographie et Lithographie Ad Mertens, 1886, pág. 346.

Enciclopédia Itaú Cultural

Guia Geográfico Salvador Antiga

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

KOSSOY, Boris. Realidades e ficções na trama fotográfica. Cotia(SP) : Ateliê Editorial, 1999.

Revista do IPHAN, nº 26 – 1997

Site do Arquivo Nacional

TURAZZI, Maria Inez. Poses e trejeitos: a fotografia e as exposições na era do espetáculo: 1839/1889. Prefácio Pedro Karp Vasquez. Rio de Janeiro: Funarte. Rocco, 1995. 309 p., il. p&b. (Coleção Luz & Reflexão, 4). ISBN 85-85781-08-4.

VASQUEZ, Pedro Karp. A fotografia no Império. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002.

Pereira Passos e Marc Ferrez: engenharia e fotografia para o desenvolvimento das ferrovias

Francisco Pereira Passos (1836-1913), que foi prefeito do Rio de Janeiro entre 1902 e 1906, quando liderou uma série de obras de reurbanização da cidade, teve uma atuação profissional importante como engenheiro, principalmente no que se refere ao trabalho de construção de ferrovias, no final do século XIX. Na ocasião, a fotografia passou a ser amplamente utilizada pelos engenheiros como recurso para estudos de projetos e execuções das obras ferroviárias e Marc Ferrez (1843 – 1923) foi um dos principais fotógrafos contratados para o registro das construções de ferrovias. A Brasiliana Fotográfica traz para seus leitores um artigo sobre o assunto, de autoria da historiadora Maria de Fatima Morado, do Museu da República, uma das instituições parceiras do portal,  com a publicação de imagens produzidas por Ferrez, uma colagem de fotos do alemão Alberto Henschel (1827 – 1882), e registros de fotógrafos ainda não conhecidos.

 

A aliança entre engenharia e fotografia para o desenvolvimento das ferrovias

Maria de Fatima Morado*

 

Francisco Pereira Passos (1836–1913) é, usualmente, identificado como o prefeito do “bota-abaixo”, pois sob sua polêmica gestão (1902-1906) a cidade do Rio de Janeiro passou por obras de modernização que implicaram na remoção dos habitantes pertencentes às camadas populares da região central para áreas mais afastadas e sem recursos. A sua atuação profissional, enquanto engenheiro, apesar de pouco conhecida não é menos relevante, principalmente no que se refere ao trabalho de construção de ferrovias, no final do século XIX.

 

 

Pereira Passos formou-se engenheiro pela Escola Militar da Corte, em 1856, “e, no ano seguinte, foi nomeado adido à legação brasileira em Paris, ocasião em que teve a oportunidade de frequentar os cursos da École de Ponts et Chaussées e de se dedicar a estudos sobre hidráulica, construção de portos, canais e estradas de ferro”. (MOTTA, 2015). De volta ao Brasil, atuou num dos ramos mais promissores da engenharia, a construção de estradas de ferro, demanda requerida pelo auge da produção cafeeira e seu necessário escoamento, que deveria ser feito de forma mais eficiente.

Acessando o link para as fotografias de ferrovias do acervo do Museu da República disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Em 1881, com a fundação do Clube de Engenharia, que teve Pereira Passos como um dos membros mais influentes, os engenheiros passaram a exercer um poder estratégico em relação às obras públicas de infraestrutura e conforme o artigo 1º de seu Estatuto ficou definido que “a sociedade – Club de Engenharia – tem por objecto promover e estreitar relações entre as classes de engenharia e as dos vários ramos industriais, no que diz respeito aos interesses recíprocos das suas profissões” (Decreto nº 8253 de 10/09/1881). Em 1882, o Clube patrocinou o I Congresso de Estradas de Ferro e, em 1887, realizou a I Exposição das Estradas de Ferro no Brasil.

 

 

A fotografia passou a ser amplamente utilizada pelos engenheiros como recurso para estudos de projetos e execuções das obras, não excluindo a função social para a difusão e propaganda dessas modernizações, por exemplo, através da confecção de cartões-postais. Marc Ferrez (1843 – 1923) foi um dos principais fotógrafos contratados para o registro das construções de ferrovias. “A engenharia ferroviária demandava imagens detalhadas da evolução das obras de engenharia (edifícios de passageiros, túneis, pontes, aterros, cortes)” (OLIVEIRA, 2018). A fotografia também servia como recurso no incentivo entre os acionistas para investimentos no empreendimento ferroviário. Para a divulgação desse processo modernizador foram comercializados álbuns fotográficos e realizadas exposições de fotos de engenharia em salões nacionais e internacionais.

A Coleção Família Passos, do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República, além de extensa documentação textual, dispõe de uma série de fotos sobre a construção de ferrovias, bem como estações e locomotivas. Além das fotografias produzidas por Marc Ferrez, existe uma colagem de fotos de Alberto Henschel (1827 – 1982), importante fotógrafo alemão que atuou no Brasil, nesse mesmo período.

 

 

 

Cronologia da carreira de Pereira Passos no setor ferroviário

1862 - Atuou em comissões de estudos de prolongamento e acompanhamento de obras da Estrada de Ferro Dom Pedro II.

1864 – 1867 - Foi  engenheiro-fiscal da construção da linha que ligou Santos a Jundiaí. Na condição de funcionário do governo imperial, fiscalizou a obra da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí, inaugurada em 1867 como São Paulo Railway.

1868 – 1869 - Substituiu J. Whitaker na comissão encarregada dos estudos e exploração do traçado de prolongamento da Estrada de Ferro D. Pedro II até o Rio São Francisco.

1870 a 1873Foi consultor técnico do Ministério da Agricultura e Obras Públicas, em Londres. Publicou um livro intitulado Caderneta de Campo, trabalho utilizado pelos engenheiros brasileiros dedicados à construção de ferrovias.

1876 – 1880 – Atuou como engenheiro-presidente na Estrada de Ferro Dom Pedro II. Conduziu a ampliação da estação da Corte e as construções do ramal ferroviário e da estação marítima, na Gamboa. Este complexo foi inaugurado em junho de 1880.

1881 – 1884 – Elaborou o projeto de engenharia da Estrada de Ferro Curitiba-Paranaguá; o prolongamento da Estrada de Ferro Petrópolis, no trecho da Raiz da Serra do Mar até Petrópolis; e a Estrada de Ferro Corcovado. Para as duas últimas introduziu o uso do sistema com trilho central dotado de encaixes, nos quais uma roda dentada se apoia para impulsionar o trem, conhecido como cremalheira. A Estrada de Ferro do Corcovado foi construída em conjunto com Marcelino Roma e Lopes Ribeiro e é a primeira via de turismo criada na Corte.

 

 

 

 

*Maria de Fátima Morado é Historiadora do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República

 

Fontes:
LAMARÃO, Sérgio; URBINATI, Inoã Carvalho. Clube de Engenharia. In: Dicionário histórico-biográfico da Primeira República – 1889-1930. Coordenação: Alzira Alves de Abreu. FGV, 2015.

MOTTA, Marly. Pereira Passos. In: Dicionário histórico-biográfico da Primeira República – 1889-1930. Coordenação: Alzira Alves de Abreu. FGV, 2015.

OLIVEIRA, Eduardo Romero. Vistas fotográficas das ferrovias: a produção de registros de obra pública no Brasil do século XIX. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v.25, n.3, jul-set 2018, p.695-723.

PINHEIRO, Manoel Carlos; FIALHO JR, Renato. Pereira Passos: vida e obra. Instituto Pereira Passos-Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, ago 2006.

RODRIGUES, Antônio Edmilson Martins; AZEVEDO, André Nunes de. Pereira Passos por ele mesmo. Revista Rio de Janeiro, n. 10 , maio-ago 2003.

TURAZZI, Maria Inez. Paisagem construída fotografia e memória dos melhoramentos urbanos na cidade do Rio de Janeiro. Varia História, Belo Horizonte, vol. 22, nº 35: p. 64-78, jan-jun 2006.

 

Pequena cronologia da carreira de Marc Ferrez como fotógrafo no setor ferroviário

Andrea C.T. Wanderley**

 

1880 – Entre 1880 e 1890,  fotografou as construções ferroviárias no Brasil, quando produziu um grande panorama da paisagem brasileira de sua época.

1882 – Fotografou as obras da ferrovia Dom Pedro II, em São Paulo e em Minas Gerais, tendo registrado a presença do imperador Pedro II e de sua comitiva na entrada do túnel da Serra da Mantiqueira (Gazeta de Notícias, 27 de junho de 1882, na quarta coluna).

 

1883 – O Club de Engenharia ofereceu uma recepção ao engenheiro hidráulico holandês J. Dirks, o grande especialista da época em portos e canais, que estava de passagem pelo Rio de Janeiro e seguiria para Valparaíso, no Chile. Na ocasião, foi realizada uma exposição de fotografias das estradas de ferro, de autoria de Marc Ferrez (Revista de Engenharia, 14 de abril de 1883).

1884 – Fotografou as obras da ferrovia do Paraná (Paranaguá – Curitiba com a presença de dom Pedro II. O gerente da firma Société Anonyme des Travaux Dyle et Bacalan, empreiteira belga encarregada pelas obras, o futuro prefeito do Rio de Janeiro, o engenheiro Francisco Pereira Passos (1836 – 1913), presenteou dom Pedro II com 14 fotografias e um álbum de autoria de Ferrez.

Exposição de fotografias da estrada de ferro Teresa Cristina, na A la Glacê Elegante (Gazeta da Tarde, 11 de novembro de 1884, na quinta coluna).

1885 – Ferrez participou da inauguração da ferrovia do Paraná (19 de Dezembro, 4 de fevereiro de 1885, na terceira coluna).

1886 – Em uma reunião da Sociedade Central de Immigração, da qual faziam parte, entre outros, o astrônomo belga Louis Ferdinand Cruls (1848 – 1908), o pintor italiano Nicolau Facchinetti (1824 – 1900), o alemão Franz Keller-Leuzinger (1835 – 1890), que era casado com uma das filhas de George Leuzinger e dirigia o setor de fotografia de seu estabelecimento, e o político Alfredo d´Escragnolle Taunay (1843 – 1899), foram apresentadas por esse último, presidente da associação, fotografias da ferrovia do Paraná, de autoria de Ferrez (A Immigração, agosto de 1886).

O Club de Engenharia aprovou a proposta de Marc Ferrez e de E. de Mascheuk para a execução de “diversos trabalhos concernentes à exposição dos caminhos de ferro” (Revista de Engenharia, 14 de dezembro de 1886, na primeira coluna).

Ferrez fotografou a ferrovia Dom Pedro II, em Juiz de Fora.

1887 - Entre 2 de julho e 2 de agosto, nos salões do Liceu de Artes e Ofícios, por uma iniciativa do Club de Engenharia, realizou-se a Exposição dos Caminhos de Ferro Brasileiros, com a exibição de fotografias de Ferrez (Revista de Engenharia, 14 de agosto de 1887). Estiveram presentes no encerramento da exposição, no dia 2 de agosto, a princesa Isabel e o conde d´Eu, além de outras autoridades. O ministro da Agricultura, o conselheiro Sinimbu (1810 – 1906), leu o relatório do juri da exposição, presidido pelo visconde de Mauá (1813 – 1889). Ferrez foi contemplado com uma menção honrosa pelas “magníficas fotografias de importantes trechos de nossas vias férreas, com que concorreu não só para abrilhantar a Exposição como até para suprir algumas lacunas sensíveis de estradas que se não fizeram representar” (Jornal do Commercio, 3 de agosto de 1887, na terceira coluna e Revista de Estradas de Ferro, 31 de agosto de 1887, na primeira coluna).

1888 – Em 25 de novembro, foi inaugurado o tráfego entre as estações de Alcântara e Rio do Ouro da estrada de ferro de Maricá. Marc Ferrez fotografou “instantaneamente ” um grupo de convidados da diretoria das estradas na estação Santa Izabel (Revista de Engenharia, 28 de dezembro de 1888, na primeira coluna).

1890 – Em setembro, Ferrez integrou a comitiva convidada para a  inauguração das obras da ferrovia Benevente-Minas, de Carangola a Benevente, atual Anchieta, no Espírito Santo (Diário de Notícias, 28 de setembro de 1890, quinta coluna).

1891 – Na Revista de Engenharia, 28 de dezembro de 1890, foi publicado um anúncio: “Marc Ferrez – Fotógrafo da Marinha Nacional. Especialista de vistas de estradas de ferro e em geral das grandes obras públicas. Reprodução de plantas com traços pretos sobre fundo branco. Rua São José 8″. O mesmo anúncio voltou a ser veiculado na edição de 14 de agosto de 1891.

1892 – Foi determinado que nas estradas de ferro subvencionadas pelo governo federal fossem liberados passes de ida e volta para Marc Ferrez e um ajudante para que pudessem “levantar fotografias em diversas localidades para o serviço da Exposição Universal Colombiana de Chicago”, que aconteceu entre 1º de maio e 30 de outubro de 1893 para celebrar os 400 anos da chegada do navegador genovês Cristóvão Colombo (1451 – 1506) ao Novo Mundo, em 1492 (Jornal do Brasil, 21 de agosto de 1892, na quinta coluna).

1895 – Em novembro, Ferrez fotografou, em Búzios, os convidados e a comissão responsável pela construção da Estrada de Ferro Rio de Janeiro-Minas, que uniria o povoado de Búzios a Paquequer, no estado de Minas Gerais (A Notícia, 11 de novembro de 1895, segunda coluna).

1900 – Revista da Semana de 21 de outubro de 1900, publicou uma litogravura da Estação Central da Estrada de Ferro da Central do Brasil baseada em uma fotografia de autoria de Marc Ferrez. A Revista da Semana havia sido lançada em 20 de maio por Álvaro de Tefé (1898-?).

 

 

1904 - Exposição de fotografias da estrada de ferro Central do Brasil de autoria de Ferrez, no Club de Engenharia (O Commentario, março de 1904).

1908 – A Casa Marc Ferrez produziu filmes sobre obras em estradas de ferro do Brasil.

 

**Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Publicações da Brasiliana Fotográfica em torno da obra do fotógrafo Marc Ferrez 

O Rio de Janeiro de Marc Ferrez, publicada em 30 de junho de 2015

Obras para o abastecimento no Rio de Janeiro por Marc Ferrez , publicada em 25 de janeiro de 2016

O brilhante cronista visual Marc Ferrez (7/12/1843 – 12/01/1923), publicada em 7 de dezembro de 2016

Do natural ao construído: O Rio de Janeiro na fotografia de Marc Ferrez, de Sérgio Burgi, publicada em 19 de dezembro de 2016

No primeiro dia da primavera, as cores de Marc Ferrez (1843 – 1923), publicada em 22 de setembro de 2017

Marc Ferrez , a Comissão Geológica do Império (1875 – 1878) e a Exposição Antropológica Brasileira no Museu Nacional (1882), publicada em 29 de junho de 2018

O quiosque Chopp Berrante no Passeio Público, Ferrez, Malta e Charles Dunlop, publicada em 20 de julho de 2018

Uma homenagem aos 175 anos de Marc Ferrez (7 de dezembro de 1843 – 12 de janeiro de 1923), publicada em 7 de dezembro de 2018 

Fotografia e ciência: eclipse solar, Marc Ferrez e Albert Einstein, publicada em 24 de junho de 2019

Celebrando o fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923), publicado em 4 de dezembro de 2019 

Uma homenagem da Casa Granado ao imperial sob as lentes de Marc Ferrez, publicada em 7 de fevereiro de 2020

Ressaca no Rio de Janeiro invade o porão da casa do fotógrafo Marc Ferrez, em 1913, publicado 6 de março de 2020

Petrópolis, a Cidade Imperial, pelos fotógrafos Marc Ferrez e Revert Henrique Klumb, publicado em 16 de março de 2020

Bambus, por Marc Ferrez, publicado em 5 de junho de 2020

 

Lunara (1864 – 1937), um fotógrafo amador e fotoclubista de Porto Alegre

A Brasiliana Fotográfica apresenta o álbum Vistas de Porto Alegre – Fotografias Artísticas, com 20 imagens assinadas pelo fotógrafo amador gaúcho Lunara (1864 – 1937), e produzido pelos Editores Krahe & Cia. As fotografias nos revelam uma Porto Alegre bucólica de fins do século XIX, início do século XX.  Lunara era um dos pseudônimos do comerciante Luiz do Nascimento Ramos (1864 – 1937). Pseudônimo composto a partir das primeiras sílabas de seus três nomes e que ele usava para expor suas fotos e também para participar de concursos fotográficos. Mas Lunara não foi seu único pseudônimo: quando escrevia crônicas para O Athleta (1883 – 1889), semanário do Clube Caixeiral Porto Alegrense, assinava com os pseudônimos Bitu ou Sancho.  Em torno de 1899, como fotógrafo amador passou a integrar a associação Sploro Photo-Club, em Porto Alegre, um dos fotoclubes pioneiros do Brasil.

 

 

Segundo Denise Burges Stumvoll, mestre em Artes Visuais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e autora da dissertação Fotografia e aproximações com a arte no início do século xx : um olhar para as narrativas visuais de Lunara, o álbum Vistas de Porto Alegre “…propõe um percurso realizado pelo fotógrafo, em que somos conduzidos pelas bordas e margens da cidade, bem como aos lugares e às pessoas que ali viveram, como se interessasse, ao autor das imagens, produzir uma metáfora da marginalidade, social e cultural, revelando o que geralmente ficava à sombra da memória visual sobre a modernidade na paisagem urbana.”

Participante ativo da vida cultural e econômica da cidade, adotou a fotografia como um hobby. Aos domingos, Lunara costumava sair com sua máquina fotográfica, um tripé e várias chapas de vidro 13 x 18cm. Uma de suas companhias mais constantes nesses passeios por Porto Alegre era seu amigo, o pintor Pedro Weingartner (1853 – 1929), um dos mais importantes artistas do sul do Brasil. Seus destinos favoritos eram as margens do rio Guaíba ou dos arroios Cascatinha e Dilúvio. A convivência entre Weingartner e Lunara é um exemplo de uma relação estreita entre fotógrafos e pintores, o que ajudou a sedimentar “o papel de vanguarda dos estúdios fotográficos na disseminação da arte moderna” (1).  Ainda sobre a a proximidade dos dois: “Suas pinceladas minuciosas e cheias de detalhes assemelham-se , em seu estilo, à precisão realista das imagens de Lunara, que reitera as qualidades miméticas da linguagem fotográfica para constituir um registro histórico de grande relevância para sua cidade”. Outros exemplos da interação entre fotógrafos e pintores são o apoio do fotógrafo francês Félix Nadar (1820 – 1910) à exposição dos pintores impressionistas em 1874, em Paris; e o trabalho do fotógrafo norte-americano Alfred Stieglitz (1864 – 1946) na realização das mostras de artistas como o espanhol Pablo Picasso (1881 – 1973) e o francês Georges Braque (1882 – 1966), em Nova York

Alguns dos temas mais abordados nas fotografias de Lunara foram os ex-escravizados, cenas de família, os carreteiros, as aguadeiras e os viajantes. Seus registros eram influenciados pelo movimento pictorialista internacional, movimento que se desenvolveu a partir do surgimento dos fotoclubes e que caracterizava-se pelo resultado da fotografia, que se aproximava da pintura. Em suas imagens, Lunara, com um olhar artístico que acentuava aspectos bucólicos, mostrava seu universo familiar com sensibilidade e humor. Suas fotografias revelavam também a incipiente modernização da capital gaúcha.

 

 

Na Gazeta do Comércio de Porto Alegre, de 25 de março de 1903, o jornalista Artur Pinto da Rocha (1864 – 1930) escreveu sobre o fotógrafo:

Lunara é outro incorrigível amador da fotografia, que trata simultaneamente de açúcar e de tudo quanto passa… na Praça. Laureado nos concursos a que tem comparecido, é um artista que faz honra ao nosso meio. Tem sobre todos os seus brilhantes colegas a qualidade superior de descobrir na natureza os melhores assuntos e de saber vê-los através da objetiva com uma perfeição inexcedível de arte. E, vistos os motivos e interpretadas as cenas e observada a perspectiva e encantadoramente preparado o conjunto com uma empolgante sobriedade de elementos, Lunara tem ainda o soberbo dom de aplicar a seus trabalhos o título preciso e flagrante, com verve, com verdade e com justeza de conceito‘.

Nas fotografias selecionadas pela Brasiliana Fotográfica, alguns desses títulos inspirados, que ajudam a exprimir a visão e o objetivo do fotógrafo, podem ser apreciados, dentre eles Nhô João deixa disso, As cantigas do vovô e Mourejando.

Acessando o link para as fotografias de Lunara disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas. 

 

 

Outro amigo de Lunara, Geraldino Silveira, publicou no O Athleta , em 1886, um pequeno perfil de Lunara, no qual fica evidente seu bom temperamento e gosto pelas mulheres. Revela também que ele tinha um problema de vista:

Luiz Ramos. Acanho-me em tratar deste bom amigo. Eu quisera dizer aqui tudo que sei a seu respeito; descobrir-lhe os segredos que povoam-lhe o coração. Um coração afeito a todas as doçuras do amor, moldado para a conquista dos sorrisos castos. Mas para quê?; prefirom guardar comigo a história de nossas confidências, a história de suas aventuras, como ele guarda consigo a ventura de seus afetos, o juramento de suas belas. É o fraco do Luiz; morre por um olhar de mulher, que é para ele o supremo ideal da vida. Se depois de um jejum de oito dias pusessem diante do Ramos um bife ensanguentado e uma mulher formosa, ele jamais olharia para o bife enquanto a deusa olhasse para ele.

Alimenta-se do belo; arrebatasse ante a plástica de uns contornos lânguidos e abundantes de carne. Jesus foi sacrificado sobre o Calvário; o Luiz também há de ter um dia o seu Calvário sobre a montanha azul de um amor imenso. Seria esse o ponto mais saliente da vida do Ramos, se ela não gostasse de literatura; se ele também já não tivesse produzido belas páginas de prosa; uma prosa temperada de verve e de elegância. Quem não tgerá aí lido o Bitu ou o Sancho?

Tem talento; mas um talento abandonado à fantasia dos diálogos romanescos dos salões de baile. Pouco estuda; um incômodo de olhos privou-o dos livros e o vidro azul dos óculos que traz sobre o nariz, enche-lhe a imaginação de volúpia e a alma de ternura. Tem facilidade admirável para o estudo das línguas; poderia vir a ser um filólogo se não estivesse diariamente debruçado sobre a escrivaninha de um escritório comercial. Gosta de preferência de falar o italiano; pudera, se o italiano é a língua dos amores, da música e das paixões enormes.

Nunca vi o Ramos incomodado; é um todo de bondade e de indulgênica. Se alguma vez o spleen o assoberba, embriaga-se à fumaça de um caporal e pouco fala. Nesse estado finge sorrir, mas nem mesmo ri. O céu do coração também tem suas tormentas…

É este o Luiz de que vos falo, e que agora desfruta a primavera de seus vinte e dois anos. No mais, um bom amigo, sincero, delicado e simpático.’

 

 

Cronologia do fotógrafo Luiz do Nascimento Ramos, conhecido como Lunara (1864 – 1937)

1864 - Luiz do Nascimento Ramos nasceu, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.

1883 - Passou a integrar a comissão editorial do jornal O Athleta (1883-1889), vinculado ao Club Caixeiral Porto Alegrense. No período de existência do jornal, escrevia e publicava crônicas bem-humoradas sob os pseudônimos Bitu ou Sancho. O Club Caixeiral Porto Alegrense foi fundado, em 1882, por imigrantes alemães vinculados ao comércio.

1886 – Era um dos integrantes do Club Caixeral que seria homenageado com um espetáculo de gala em honra da simpática e brisosa classe caixeiral, no Theatro São Pedro (A Federação, Orgam do partido Republicano, 17 de maio de 1886).

1888 – De novo os comerciários foram homenageados com um espetáculo de ópera no Theatro São Pedro e os integrantes do Club Caixeral, dentre eles Lunara, representaram a classe (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 10 de março de 1888).

Década de 1890 – Em fins dessa década, sua fotografia intitulada Aguadeira foi publicada na revista francesa Photo-Gazette .

 

 

1891 – Trabalhava na firma Caetano Pinto & Franco (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 17 de fevereiro de 1891).

1894 - Contratou casamento com Maria Isabel Borges Ramos (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 10 de maio de 1894, segunda coluna).

1896 - Associou-se a Adwaldo Franco e abriu a firma de importações Franco, Ramos & Cia. Também trabalhava como contador contábil em outras empresas.

c. 1899- Registrava a periferia da cidade aos domingos e utilizava o pseudônimo Lunara para expor suas imagens.

Como fotógrafo amador passou a integrar a associação Sploro Photo-Club, em Porto Alegre, um dos fotoclubes pioneiros do Brasil. Funcionava na Drogaria Ingleza , que pertencia a Sépia, também fotógrafo amador.

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Acervo de Imprensa da Museu de Comunicação Hipólito José da Costa, 1901

1899 –  Ele fotografou as festas da inauguração do velódromo da União Velocipédica e algumas ficaram expostas nas vitrines da Drogaria Ingleza, em Porto Alegre. Seu amigo, o fotógrafo Virgílio Callegari (1868 – 1937) faria as ampliações (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 23 de novembro de 1899, segunda coluna).

Lunara participou de um evento promovido pela associação Sploto Photo-Club, na Drogaria Ingleza. O júri do evento era formado por Augusto Daisson, Miguel Weingartner e Virgilio Callegari.

Década de 1900 - Foi editado e publicado o álbum Vistas de Porto Alegre – Fotografias Artísticas, com 20 imagens assinadas pelo fotógrafo amador gaúcho Lunara (1864 – 1937), e produzido pelos Editores Krahe & Cia, cuja loja e livraria ficavam na rua dos Andradas, em Porto Alegre.

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Acervo de Imprensa da Museu de Comunicação Hipólito José da Costa, 1901

1900 - Endereçou à Repartição Central da Secretaria de Estado de Negócios do interior e exterior em Porto Alegre uma carta sugerindo a adoção de um novo método marcas e sinais para gado (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 27 de agosto de 1900).

Nascimento de seu filho, Áureo.

1901 – Lunara já era um próspero comerciante e membro da diretoria da Associação Comercial de Porto Alegre.

Recebeu a medalha de bronze no segundo concurso para amadores da fotografia realizado nos salões da fotografia Leterre, na rua da Carioca, com um registro do busto de perfil da filha de um amigo. Fazia parte do júri o fotógrafo Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912), além do escultor Rodolfo Bernardelli (1852 – 1931) e do pintor Hilarião Teixeira (1860 – 1952). Nos dois primeiros lugares ficaram o carioca Narciso Braga e o gaúcho Luiz Manuel de Souza Filho (Jornal do Brasil, de 2 de março de 1901, sexta coluna e A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 9 de março de 1901, segunda coluna).

Realização da Exposição Estadual no Campo da Redenção, quando foi exibido o desenvolvimento da indústria e do comércio do Rio Grande do Sul. Luiz do Nascimento Ramos foi membro do júri do concurso de fotografias que integrava o evento. Os outros membros do júri foram Balduíno Rohrig e Luiz Manuel de Souza Filho (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 10 de março de 1901, quinta coluna). Na ocasião, fotografou todos os pavilhões da exposição. Forneceu as fotografias publicadas na  Revista da Semana, 5 de maio de 1901, uma edição especial comemorativa da Exposição Estadual Riograndense.

1902 – Publicação do artigo intitulado “Artigo Infamante – Aos Amadores de Fotografia no Brasil – Aos profissionais e a meus clientes e amigos “, de autoria de A. Laterre  em resposta a uma publicação de 5 de abril d e 1902 na Gazeta do Commercio, em Porto Alegre, que relatava que durante uma reunião do Sploro Photo-Club, da qual Lunara participou, haviam sido feitos protestos contra um artigo publicado pela revista parisiense Photographie Française, de janeiro de 1902, e também protestos contra o fotógrafo sr. A. Leterre, acusado de prejudicar os fotógrafos amadores do Rio Grande nos concursos que promovia. Nele o fotógrafo Joaquim Insley Pacheco, um dos juízes dos concursos, era mencionado (Jornal do Brasil, 20 de abril de 1902).

Publicação da fotografia “Sono Pesado”, de sua autoria, na Revista da Semana de 16 de novembro de 1902.

1903 - Conquistou medalha de ouro na Mostra Grupal de Artes Plásticas, promovida pelo jornal Gazeta do Comércio. Concorreu com diversas fotografias, dentre elas Águas correntes, Dois Filósofos e Nhô João, deixa disso…, que fazem parte do álbum Vistas de Porto Alegre.

Nascimento de sua filha, Zaida (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 28 de julho de 1901, terceira coluna).

1904 – Foi eleito para integrar o conselho fiscal da companhia de seguros marítimos e terrestre Phenix de Porto Alegre (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 11 de março de 1904, terceira coluna).

Foi eleito em 9 de outubro, conselheiro fiscal do Club Caixeiral Porto Alegrense (Almanak Laemert, 1905).

Recebeu 1 voto na eleição municipal para intendente e conselheiro (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 11 de outubro de 1904, terceira coluna).

1904 /1905 – Foram publicados cartões-postais colorizados de Lunara. A maioria pelos Editores Krahe &  Cia.

1905 – Foi eleito diretor da Praça do Comércio de Porto Alegre (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 1 de janeiro de 1905, quinta coluna).

1908 – Foi noticiada a chegada do negociante Luiz Nascimento Ramos ao Rio de Janeiro (O Século, 19 de setembro de 1908, quarta coluna).

Década de 10 – Publicava regularmente seu trabalho na revista Máscara.

1910 – Fotografou uma excursão automobilística (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 14 de novembro de 1910, primeira coluna).

1913 – Lunara foi o testamenteiro do pintor Pedro Weingartner (1853 – 1929).

1922 -Recebeu o prêmio da publicação La Revue de Photographie, de Paris, pela fotografia O Lago (Illustração Brasileira, 24 de junho de 1922).

Publicação da fotografia Sono pesado, de autoria de Lunara (Illustração Brasileira, 15 de agosto de 1922).

1937 – Faleceu em Porto Alegre e, durante décadas, sua obra permaneceu guardada por familiares.

1976 – A jornalista e fotógrafa gaúcha Eneida Serrano (1952 – ) entrou em contato com o filho de Lunara, Áureo, de 76 anos, que mostrou a ela o acervo de seu pai: uma máquina fotográfica, recortes de jornais, 15 chapas de vidro, 13 x 18cm, e dois álbuns com 60 fotografias de sua autoria.

1979 – Eneida Serrano realizou a exposição Lunara – Amador 1900, no Museu de Comunicação Hypólito José da Costa, em Porto Alegre.

2001 – Em homenagem ao fotógrafo, foi inaugurado no centro cultural Usina do Gasômetro, na capital gaúcha, a Galeria Lunara, espaço especializado em fotografias.

Suas fotos foram reunidas no livro Lunara Amador 1900, de Eneida Serrano.

2018 – Exposição, no Museu de Arte do Rio Grande do Sul, de 20 fotografias de autoria de Lunara na 11ª Bienal de Artes Visuais do Mercosul, realizada em Porto Alegre e Pelotas. As imagens fazem parte do álbum Vistas de Porto Alegre – Photographias Artísticas, do acervo fotográfico do Museu da Comunicação Hipólito José da Costa.

 Duas crônicas de Lunara com os pseudônimos Bitu e Sancho

(transcritas do livro Lunara Amador 1900, de Eneida Serrano)

É moda 

Tudo é moda, até dizer-se o que não se sente e sentir-se o que não se diz.

Não sei quem disse isto; mas quem disse tinha razão.

Uma moça conversando com um rapaz bem desempenado, de fácil verbiagem, dizia-lhe com o ar todo afetado:

- Sr. F… pelo o que o sr. acaba de dizer-me, detesta a maneira exagerada de usarem as modas hoje em dia?…

- Na verdade, minha senhora: e mil vezes bem digo a sorte por ter nascido homem, quando vejo passar-me pela frente essas moças, todas cheia de barbatanas, polvilhos, tintas, algodões e de tantas outras composições, que as francesas têm inventado para fazer do feio belo, do gordo magro, do pardo branco…

- Pois pensa inteiramente como eu… são coisas estas, que não só aborreço como também detesto.

- Pois então somos dois a pensar da mesma forma?!…

- Oh! naturalmente…

-Pois creia minha senhora…

Nisto entra o moleque da casa com um embrulho, e depositando-o sobre uma cadeira, diz todo vitorioso: “nhnhãsinha, o seu Juca deu a anquinha por um patacão, e mandou dizer prá nhanhãsinha que recebeu daqueles pós que nhanhãsinha…

- Minha senhora, sente-se incomodada? está vermelha…o que tem…

- Não é nada, costumo… sim… a enxaqueca…

- Queira receber as minhas despedidas e permita-me vir amanhã, saber de sua apreciável saúde…

- Pois não…quero dizer, queira não incomodar-se…

Saiu o homem… atravessou a rua… quis fazer um cumprimento ainda à moça da anquinha e teve a decepção de ver a sua cabeleira descolar-se do seu caco nu e descrever um semicírculo na sua frente…

Oh! malditas anquinhas!…

Impagabilíssimos chinós!…

Publicado no O Athleta de 14 de julho de 1886 e assinado Sancho (um dos pseudônimos de Luiz Nascimento Santos)

No baile do recreio

 Vi-a pela primeira vez, ainda me lembro bem, foi numa quinta-feira. Ela negociava uma caixinha de pós de arroz, com o Gama, na loja do Felizardo. Pisquei-lhe um olho, ela compreendeu.

A negrita que acompanhava a família estava à porta. Dei-lhe um níquel e fiquei logo ciente que Iaiá ia ao baile do Recreio.

Chegara o sábado. O Cosmopolita estava repleto das mais esplêndidas flores do nosso jardim.

Magnífica soirée.

Dançava-se com frenesi.

Fazia as honras da sala o simpático diretor, o roliço Guilherme.

Iaiá lá estava. Cumprimentei-a e tirei-a para uma valsa.

Ressoaram no salão as notas brilhantes de uma composição de Strauss. Cingindo aquela cinturinha breve, quis falar-lhe do meu amor. Pela primeira vez achei-me acanhado e senti que a amava deveras.

Guardaria-me para a quinta quadrilha. Armaria-me de coragem e estabeleceríamos as bases do nosso casamento.

Passeávamos na sala acalentando eu essa ideia, que me viera tirar de uma crítica posição.

Chega-se a nós, choramingas a morder um esquecido, uma encantadora criancinha. Agarra-se ao vestido da Iaiá, e com a mão esquerda a coçar-lhe o canto da vista repete-lhe três vezes:

– Eu quero ir pra casa, eu tô cum sono.

– Que belo irmãozinho

– Não tenho irmãos. Este é o meu filhinho mais velho.

Fiquei enfiado e viria para casa sem chapéu se o marido de Iaiá não me dissesse a chacotear.

– O Sr, vai sem cabeça?!…

Publicado no O Athleta de 24 de outubro de 1886 e assinado Bitu (um dos pseudônimos de Luiz Nascimento Santos)

A fotografia abaixo, Nhô João, deixa disso!,  inspirou o texto homônimo de Elvia Bezerra, coordenadora de Literatura do IMS, que foi publicado na Brasiliana Fotográfica, no Dia dos Namorados, 12 de junho de 2018.

 

Links para artigos já publicados na Brasiliana Fotográfica sobre fotógrafos amadores:

Ipanema, que completa 122 anos, pelas lentes de José Baptista Barreira Vianna (1860 – 1925), publicado em 26 de abril de 2016

O fotógrafo amador Guilherme Santos (1871 – 1966), publicado em 28 de julho de 2016

 

(1)  PEREGRINO, Nadja Fonseca; MAGALHÃES, Ângela. Fotoclubismo no Brasil: o legado da Sociedade Fluminense de Fotografia, pág. 119.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Hemeretoteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário Histórico-Fotográfico Brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

PEREGRINO, Nadja Fonseca; MAGALHÃES, Ângela. Fotoclubismo no Brasil: o legado da Sociedade Fluminense de Fotografia. Rio de Janeiro: Senac Nacional, 2012, 336 p.II.

SANTOS, Alexandre. O gabinete do Dr. Cellegari: considerações sobre um bem-sucedido fabricante de imagens. In: ACHUTTI, Luiz (org). Ensaios sobre o fotográfico. Porto Alegre: Unidade Editorial, 1998.

SERRANO, Eneida. Lunara amador 1900. Porto Alegre: E.S..,2002.

Site Enciclopédia Itaú Cultural

Site GaúchaZH Artes

Site Metropolitan Museum of New York

Site UFRGS Ciência

STUMVOLL, Denise Bujes. Fotografia e aproximações com a arte no início do século xx : um olhar para as narrativas visuais de Lunara. Dissertação de mestrado, 2014. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Instituto de Artes. Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais.

 

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Virgilio Calegari. Retrato de Luis do Nascimento Santos, c. 1900. Porto Alegre, Rio Grande do Sul / Fototeca Sioma Breitman / Museu Joaquim Felizardo

A Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro por Cássio Loredano

A Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro é uma das obras-primas da arquitetura portuguesa do período do Brasil colonial. Sabendo que a edificação é a preferida do caricaturista Cássio Loredano no Rio de Janeiro, inclusive tendo sido desenhada por ele para o livro “Rio, papel e lápis” (2015), a Brasiliana Fotográfica selecionou duas fotos do prédio, uma de Augusto Stahl (1828 – 1877) e outra de Georges Leuzinger (1813 – 1892), ambas produzidas em torno de 1865, e as mostrou para ele que, inspirado pelas imagens e por sua predileção, escreveu o texto que o portal publica no mês da festa de Nossa Senhora da Glória, que se comemora no dia 15 de agosto.

 

A Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro por Cássio Loredano

Cássio Loredano*

 

Antes de mais nada, uma pergunta em dois tempos. E um registro de protesto provindo de altíssima esfera. A pergunta: que necessidade terão tido os católicos cariocas de erigir, a poucas centenas de metros um do outro, dois templos em louvor da mesma virgem, Nossa Senhora da Glória? Por que a igreja do Largo do Machado se, desde pelo menos 1739, já pairava maravilhosa a outra, no alto do Outeiro, pequenina jóia incrustada no cenário prodigioso da baía?

 

 

Talvez outra irmandade devota da mesma virgem, talvez a necessidade de mais espaço e para fiéis que não desejassem sofrer subidas… E o protesto, de ninguém menos do que de Joaquim Maria Machado de Assis. O ‘bruxo’ simplesmente arrenegava daquele “templo grego imitado da Madeleine, com uma torre no meio imitada de coisa nenhuma” e desviava daquilo os olhos e o pensamento toda vez que passava pelo Largo, escreveu, para evitar o pecado de mandar templo e torre aos diabos. E tinha que fazê-lo pelo menos duas vezes ao dia, no bonde que o trazia do Cosme Velho à repartição e no que o levava de volta a casa. Mas chega. Não percamos mais tempo com a fealdade da Glória da praça, desviemos por nossa vez o pensamento e dirijamos o olhar para o Outeiro.

Acessando o link para as fotografias da Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas. 

Ótimo ponto de vista é a esquina da rua da Glória com Cândido Mendes, pelo vão que a folhagem dos plátanos abre ali. É agosto, é meio-dia e é domingo, suponhamos, dia da feira da Augusto Severo, a mais simpática da cidade. Os sinos se esganiçam e puxam-nos o olhar para o alto. Céu de inverno, nuvem nenhuma, o azul profundo que um jato estraga com uma risca de giz. Como é agosto, a igrejinha está toda engalanada para a festa do dia 15. A dez de seus dezoito coruchéus foram fixados os mastros das bandeiras, duas de cada, do Brasil, de Portugal, a branca e a amarela do Vaticano e as do Rio, estado e cidade. Aí, nesse domingo ideal, vinha uma brisa empurrar de leve os panos coloridos, só para sublinhar a sempre repetida leveza da construção. Banhada de sol, a cal da fachada brilha que ofusca contra aquele fundo de cobalto.
Não foram justos com a Glória os pintores viajantes que a retrataram dezenas de vezes nas vistas que fizeram da baía de Guanabara. Ou porque de muito longe não lhe vissem com clareza os detalhes ou pelo que fosse, nunca acertaram com sua forma, com sua elegância, com sua sobriedade, com sua graça. Menos o grande Thomas Ender, aquarelista que a princesa Leopoldina trouxe consigo e que voltou para Viena com o tesouro do Rio e um pouco do Brasil da segunda década do Oitocentos em seus desenhos e aquarelas. Ender e depois, é claro, a fotografia.
Fotografias antigas mostram então como foi se enchendo de ruído a placidez em que a Glória está nos óleos e aquarelas. Entre o sopé do outeiro e o monumento a Cabral e Pero Vaz, foi-se aglomerando um casario desordenado, houve depois um mercado e até uma chaminé. Manuel Bandeira levou a vida se lamentando de tudo o que vinha estorvar aquele silêncio antigo, coroando com a competição desonesta que a mole do Hotel Glória veio fazer à igreja na paisagem. (Agora, temos a mole – e depenada pelo infeliz que soltaram e cuja dívida fica para ser paga no Hades.) Ao menos nos vimos livres daquele certo mafuá que tinha se formado no entorno imediato do outeiro. E veio Lúcio Costa com seu tino certeiro para assuntos de patrimônio e construiu aquelas belas rampas de acesso ao adro da igreja com as pedras retiradas do cais do Flamengo com a construção do Aterro.
As rampas e seus patamares, quando o portão verde está aberto, são a subida mais bonita. Pelo lado da rua do Russel, existe para constar um plano inclinado que nunca está funcionando. Então, é subir pela Ladeira da Glória, que arranca do início da rua do Catete. A partir da praça de Nossa Senhora da Glória, lá em cima, a rua muda de nome e desce mais comprida, portanto menos íngreme, como Ladeira de Nossa Senhora, para desaguar no exosqueleto do Hotel Glória. É outra opção de subida.
Chegados à praça, damos, no centro do muro de arrimo do adro, com uma imagem sem interesse da virgem dentro de uma vitrine. De cada lado da vitrine estão os portões das escadas que convergem para a entrada do adro. Aberto está sempre só o da esquerda. O adro da Glória do Outeiro, um retângulo com os ângulos chanfrados, não é imenso mas é amplo em relação ao diminuto templo. É um dos espaços arquitetônico-urbanísticos mais generosos e felizes da cidade e a sensação de ali estar é das mais agradáveis possíveis, sensação de plenitude, de comunhão com a maravilhosa vista que dali se tem. (Neste espaço, José de Alencar imaginou a primeira cena de Lucíola, num entardecer de 15 de agosto, a festa da Glória. Em meio ao povaréu que está no adro, duas personagens masculinas põem-se a falar de linda dama desacompanhada que observam e que só um deles conhece. E mais não digo, para não bancar o spoiler.)
Eis a igreja, em suas delicadas proporções. A torre única, central, de base quadrada, se eleva a partir de um pórtico em cantaria de pedra com uma abertura frontal e duas laterais, todas em arcos plenos. A partir da altura do coro, a torre sobe em pilastras de pedra e alvenaria caiada até a cimalha e daí sai a sineira de alvenaria entre cunhais de pedra, tudo arrematado por quatro coruchéus e um bulbo de base octogonal com seu galo e sua cruz. Este bulbo foi a principal pedra no sapato daqueles pintores viajantes. Mas não acertaram mesmo. Só o austríaco.
A portada principal, a do pórtico, e as duas laterais de acesso à nave da igreja só se abrem em dias de serviço, casamentos, batismos, encomenda de almas. Em dias normais, a entrada é por trás, por uma das portas da sacristia. É preciso contornar a igreja. E mesmo que assim não fosse, a generosidade do adro nos convida, quase que nos obriga a essa volta em torno da construção. O espaço e a própria forma da igreja. Sua planta a partir do quadrado do pórtico/torre são dois octógonos irregulares, oblongos, um maior, o da nave, e outro menor, o da sacristia, interligados por uma cintura entre eles. O da nave é mais alto, contém o térreo e o nível do coro e das galerias que levam às tribunas, enquanto o da sacristia só tem térreo. Esses catorze ângulos externos dão ao corpo da igreja um dinamismo único e de cada um sobe uma pilastra de cantaria até a cimalha e seus catorze coruchéus ou pináculos.
Mas entremos pela sacristia. Mosaico xadrez preto e branco no chão; o grande aparador de madeira castanha escura com seus gavetões; os paramentos; a alfaia rebrilhando. A toda a volta, nas paredes, uma barra de azulejos de onze quadrados de altura – na nave, a altura da barra sobe para dezesseis azulejos -, que o BNDES fez restaurar há alguns anos. Mandou vir a equipe que fizera a restauração da azulejaria de São Francisco da Penitência da Bahia. Para os níveis mais baixos dos painéis, o pessoal tinha que trabalhar deitado no chão. “Não foram baianos”, alguém brincou. Quando na verdade a posição era extremamente desconfortável e dolorosa para braços e pescoços.

Dois corredores, que saem da sacristia um para cada lado e envolvem por fora a capela-mor lá dentro, conduzem às passagens que dão ingresso à nave. Muito do que aqui se fez até agora foi repetir as lições magistrais da professora Sandra Alvim em seus três volumes da Arquitetura religiosa colonial no Rio de Janeiro (Editora da UFRJ/IPHAN/Prefeitura do Rio/Faperj,1997/1999/2014). Uma vez dentro da igreja, é melhor darmos-lhe diretamente a palavra para que nos guie o olhar e nos ensine a ver a beleza daquela austeridade inaugural, na contramão da tendência do século ao luxo da talha e do ouro, dos forros coloridos, do ornamento em suma.

“A Igreja da Glória é uma das poucas do Rio de Janeiro na qual o espaço interno é definido pela construção propriamente dita. Não é a talha que organiza o espaço, e sim as superfícies das paredes estruturais e os elementos arquitetônicos de cantaria. O aspecto de obra acabada do seu interior foi tão forte e excepcional que não necessitou do preenchimento posterior com ornamentação em talha. Esta se restringiu aos altares e elementos complementares como os púlpitos, o coro e as sanefas. Até mesmo os nichos para os retábulos laterais foram definidos por arcos de cantaria, posteriormente encobertos pela talha dos altares. Outra importante característica da Igreja da Glória é a sua abundante iluminação natural, fato inédito entre as igrejas locais. Esse fato define uma mudança radical em relação às igrejas escuras da primeira fase [da arquitetura religiosa no Brasil] e revela também o apuro técnico de sua construção. Isso porque as grandes janelas laterais da nave foram abertas nas altas paredes que sustentam o empuxo exercido pela abóbada, sem comprometer suas funções estáticas.”
Tal domínio técnico e a qualidade formal da construção tornaram desnecessário o “uso de talha contínua para esconder as incorreções construtivas e a deficiência compositiva, como ocorria nas igrejas que então se realizavam”. À madeira, ao ouro, às cores, preferiu-se e se decidiu por deixar nuas a pureza de linhas e a perfeição estrutural do projeto atribuído ao tenente-coronel engenheiro José Cardoso Ramalho.
Um pouco de história e uma fofoca. Imagine-se a esquadra que trazia a família real em 1808 entrando na barra, entre a fortaleza de Santa Cruz e o Pão de Açúcar. O outeiro e a pequenina Glória são a primeira coisa da velha cidade que dali se avista, na época ainda diretamente debruçados sobre a baía, sem nenhum dos vários aterros que agora os mantêm tão apartados da água. Só pouco depois aparecem as igrejas do Castelo: São Sebastião e o Colégio dos Jesuitas.
Pedro, filho do regente d. João, que também vem embarcado, tem nove para dez anos. Vai se casar dali a nove anos com Leopoldina, a princesa austríaca que trará consigo aquele nosso Thomas Ender. O novel casal, certamente encantado com a mimosa igrejinha, elegerá a Glória para batizar todas as primeiras crianças brasileiras das casas de Bragança e Habsburgo, esta a linhagem dos ‘Áustrias’.
Parêntese, para tentar acabar com essa história de nossas matas, nosso ouro. Quem desenhou a bandeira do Brasil independente, depois de 1822, foi Debret, um daqueles artistas napoleônicos que ficaram desempregados depois de Waterloo e vieram bater às portas de palácios brasileiros, – e para quem arranjaram o eufemismo de “missão” francesa. Inspirado talvez nos estandartes dos regimentos napoleônicos, Debret botou um losango na bandeira, losango amarelo, cor dos Habsburgo, dentro do campo verde da casa de Bragança, sendo ainda o losango em heráldica a forma em que tradicionalmente se inscrevem os brasões das damas. Diz João Guilherme C. Ribeiro, em Bandeiras que contam histórias (ed. Zit, 2003), que “provavelmente a brasileira foi a primeira bandeira nacional a honrar uma mulher”.
Mas voltando. Na Glória foi batizado por exemplo o menino Pedro, futuro segundo imperador, mas antes dele a primogênita de Pedro e Leopoldina, Maria da Glória. Esta brasileirinha terá grande importância na história de Portugal. Quando d. João VI morreu em Lisboa em 1826, d. Pedro, que tinha sobre a cabeça a coroa brasileira, abdicou do trono português em favor de Maria da Glória, que tinha só sete anos. Propôs o casamento da garota com seu tio Miguel, irmão mais novo dele, Pedro, e determinou que o consorte fosse o regente da futura esposa até a maioridade desta. Mas Miguel se auto-coroou rei ele mesmo e Pedro ficou fulo do lado de cá do Atlântico. Abdicou de novo, dessa vez do trono brasileiro e partiu para guerrear o irmão. Ganhou – e o nosso Pedro I é o Pedro IV de lá. Oficialmente, foi uma guerra civil portuguesa de três anos entre absolutistas, os miguelistas, e liberais, os partidários de Pedro. Mas Evaldo Cabral de Melo bota pimenta no assunto. Diz que Miguel era só meio-irmão de Pedro. E não era por parte de pai, mas sim só da espanhola. Ora, não sendo filho do rei morto… Vá saber.
O fato é que Maria da Glória foi d. Maria II de Portugal. (Maria I foi sua bisavó, a louca, que morreu no Brasil.) D. Pedro IV é o nome oficial do Rossio, praça-umbigo de Lisboa. Está ele no centro da praça, de pé sobre altíssima coluna, olhando para a fachada do Teatro D. Maria II, o ‘municipal’ lá deles.
Irmão mais novo da brasileira rainha de Portugal, nosso Pedro II também batizou a filharada toda no Outeiro, inclusive a Redentora. E concedeu à irmandade dona da igreja o direito de usar ‘imperial': Imperial Irmandade de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, oficialmente. O brasão da família imperial está entalhado em madeira com detalhes em dourado no alto do arco-cruzeiro da igreja.
*Cássio Loredano é caricaturista.

 

Pequena cronologia da Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro

Cássio Loredano. A Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, 2015. Do livro “Rio, papel e lápis”(2015)

 

1608 – Segundo o site oficial da Imperial Irmandade de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, “alguns anos após a fundação da cidade, quando no ano de 1608, um certo Ayres colocou uma pequena imagem da Virgem numa gruta natural existente no morro”. Assim começava no Rio de Janeiro a devoção à Nossa Senhora da Glória.

1671 - Ainda segundo o site oficial,  as origens históricas remontam a a esse ano quando o “ermitão Antonio Caminha, natural do Aveiro, esculpiu a imagem da Virgem em madeira e ergueu uma pequena ermida no “Morro do Leripe”, onde já existia a gruta, formando-se em torno um círculo de devotos”.

1699 – Em 20 de junho, as terras com o nome de Chácara do Oriente, que compreendiam o outeiro, e que pertenciam a Cláudio Gurgel do Amaral, irmão da Ordem 3ª da Penitência e da Santa Casa de Misericórida, foram doadas à confraria de Nossa Senhora em escritura pública com a condição de que se fosse construída uma capela permanente e que nela fossem sepultados o doador e seus descendentes.

1701 – O padre João Caminha, filho de Antônio, foi designado em documento de 1º de abril capelão do coro da ermida.

1714 –  Segundo o Santuário Mariano, a Irmandade para cultuar Nossa Senhora da Glória possuía, nesse ano, quando foi iniciada a construção da Igreja da Glória, “quantidade de dinheiro para dar princípio a uma nova e grande igreja de pedra e cal, porque a primeira que se fez foi de madeira e barro.”

1739 – Conclusão da contrução da Igreja da Glória. Seu projeto é atribuído ao tenente-coronel José Cardoso Ramalho.

Instituição canônica da Irmandade de Nossa Senhora da Glória, em 10 de outubro, por ato do bispo do Rio de Janeiro, Frei Antonio de Guadalupe.

1808 – Chegada da família real portuguesa ao Rio de Janeiro, em 8 de maio. A predileção da Corte Portuguesa pela Igreja da Glória deu a ela muito prestígio.

1819 – A neta de D. João VI (1767 – 1826), filha de d. Pedro I (1798 – 1934), a princesa Maria da Glória (1819 – 1853), foi consagrada à Virgem da Glória e a partir de então os membros da família Bragança, nascidos no Brasil, são consagrados a ela.

1849 –  D. Pedro II outorgou o título de “Imperial” à Irmandade Nossa Senhora da Glória, em 27 de dezembro. Após esta data todos seus descendentes nascidos no Brasil são membros da mesma.

1937 – A Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro foi, durante o governo de Getúlio Vargas (1882 – 1954), declarada Monumento Nacional.

1938 – O tombamento definitivo da Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro está inscrito no Livro Tombo do Ministério de Educação, de 4 de maio de 1938, assinado por Rodrigo de Franco de Andrade (1898 – 1969), então presidente do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN, atual IPHAN).

1939 - Comemoração dos 200 anos da Irmandade de Nossa Senhora da Glória (Jornal do Brasil, 4 de outubro de 1939, segunda coluna, e Jornal do Brasil, 11 de outubro de 1939, quinta coluna).

1950 – Em 1° de novembro de 1950, o Papa Pio XII (1876 – 1958) proclamou o Dogma da Assunção da Virgem Maria e conferiu à Igreja da Glória o título de Basílica Nacional da Assunção (Correio da Manhã, 2 de novembro de 1950).

Foi publicada, na revista O Cruzeiro, 2 de setembro de 1950, uma fotografia de autoria de Luciano Carneiro da iluminação da Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro.

1965 - Dentro da programação de celebração do 4º Centenário da Fundação do Rio de Janeiro, foi construída pela administração estadual uma nova rampa de acesso à Igreja da Glória intercalada por terraços, um projeto do arquiteto Lúcio Costa (1902 – 1998), defensor da obra desde a década de 40.

Uma curiosidade: na revista O Cruzeiro de 27 de maio de 1961, foi publicada a matéria Um aquarelista inglês no Rio Imperial, sobre o pintor Emerica Essex Vidal (1791 – 1861), ilustrada com o trabalho Igreja da Glória em 1937.

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Fontes:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Outeiro da Glória: marco na história da cidade do Rio de Janeiro…[et al]: organizado por [Roberto Padilla]: fotografias de [Zeca Pinheiro Guimarães…et al]. – João Pessoa: Artepadilla, 2015.

Portal do IPHAN

Site Infopatrimônio

Site oficial da Imperial Irmandade Imperial de Nossa Senhora da Glória do Outeiro

SUZUKI, Marcelo. As rampas do Outeiro da Glória. Artigo da revista ArqTexto, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

TELLES, Augusto C. da Silva. Nossa Senhora da Glória do Outeiro. Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora, 1969.