Após encantar-se com Molière e Giulietta Dionesi, o imperador Pedro II sofre um atentado

Dom Pedro II (1825 – 1891) foi alvo de um atentado quando saía do Theatro Sant´Anna, no Rio de Janeiro, com alguns membros de sua família, em 15 de julho de 1889. Foi o primeiro governante do Brasil a sofrer um atentado!

 

 

Pela primeira vez, após um reinado de mais de meio século, fora quebrado o respeito que sempre cercou a pessoa do imperador”. 

                                                                                                                                                                   O Paiz, 17 de julho de 1889

 

Na verdade, Pedro II, um Habsburgo perdido nos trópicos, cuja figura de 1,90m, louro e de olhos azuis contrastava com a aparência da maioria da população do Brasil, governou por quase 50 anos e não por mais de meio século – foram 49 anos, três meses e 22 dias. Só foi superado por duas inglesas e rainhas do Reino Unido: Vitória (1817 – 1901), que reinou de 1837 até sua morte, em 1901; e Elizabeth II (1926 -), que ocupa o trono desde 1952. Pedro II governou o Brasil, país pelo qual era apaixonado, de 23 de julho de 1840 a 15 de novembro de 1889 e, segundo José Murilo de Carvalho, o fez “com os valores de um republicano, com a minúcia de um burocrata e com a paixão de um patriota. Foi respeitado por quase todos, não foi amado por quase ninguém”.

 

 

Na noite de 15 de julho de 1889, houve a apresentação de uma jovem violinista italiana e a encenação de uma peça,  no Theatro Sant´Anna. O imperador Pedro II (1825 – 1891), acompanhado da imperatriz Teresa Cristina (1822 – 1889), de sua filha, a princesa Isabel (1846 – 1921), e do príncipe Pedro Augusto (1866 – 1934), seu neto mais velho, estiveram presentes.

 

Acessando o link para as fotografias de dom Pedro II disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas. 

 

O Theatro Sant´Anna localizava-se onde anteriormente ficava o Theatro Casino Franco-Brésilien. Foi reinaugurado em 29 de outubro de 1880, com a opereta do alemão Jacques Offenbach (1819 – 1880), La fille du tambour major, executada pela Companhia Lírica Francesa. Era, desde então, um dos palcos mais importantes do Rio de Janeiro. Ficava na Praça da Constituição, atual Praça Tiradentes (Revista Musical e de Bellas Artes, 30 de outubro de 1880, segunda coluna). Em 26 de janeiro de 1905, já propriedade do empresário Paschoal Segreto (1868 – 1920), foi reinaugurado com o nome de Theatro Carlos Gomes com a encenação da peça Papa Lebonnard, de Jean Aicard (1848 – 1921), com a Companhia Christiano de Souza e Lucinda Simões (O Malho, 21 de janeiro de 1905).

Voltando à noite de 15 de julho de 1889. O Sant’Anna achava-se repleto: platéia e camarotes ocupados por pessoas da melhor sociedade; as galerias cheias da gente que de ordinário a freqüenta (Novidades, 16 de julho de 1889, quinta coluna). Foi apresentada a comédia Escola de Maridos (1661), do célebre dramaturgo francês Molière (1622 – 1673), traduzida pelo jornalista e dramaturgo maranhense Arthur de Azevedo (1855 – 1908), que em um dos intervalos foi chamado ao camarote do imperador, que felicitou seu trabalho e manifestou o desejo de possuir uma cópia de sua excelente tradução (Gazeta de Notícias, 16 de julho de 1889, quarta coluna). Arthur de Azevedo foi, anos depois, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e algumas de suas peças de maior sucesso foram A Capital Federal e O Mambembe.

 

 

Nos intervalos da peça, a violinista Giulietta Dionesi (c. 1877 – 1911), com a apenas 11 anos e já considerada uma virtuose do instrumento, executou a Grande Marcha Militar, do belga Hubert Leonard (1819 – 1890); e o Andante e Polonesa de Concerto, do francês Charles Dancla (1817 – 1907). Foi acompanhada por seu irmão, 10 anos mais velho do que ela, o maestro e pianista Romeu Dionesi (c. 1867 – ?). A apresentação foi um sucesso (Gazeta de Notícias14 de julho de 1889, quarta coluna; e 17 de julho de 1889, penúltima coluna).

 

GIULIETA1

A violinista italiana Giulietta Dionesi, aos 11 anos, em gravura da revista Pantheon

 

Os Dionesi haviam chegado em junho no Rio de Janeiro, após uma bem sucedida excursão pela Itália, Espanha e Portugal. No dia 6 de julho, Giulieta foi cumprimentar o imperador que, segundo noticiado, a recebeu com benéfico acolhimento e pediu que ela deixasse com ele o álbum com os artigos que a imprensa havia publicado sobre ela. Os irmãos ficaram órfãos de mãe e fugiram da Itália devido à exploração que o pai fazia do talento dos dois (Gazeta de Notícias, 29 de junho de 1889, quinta coluna; e 7 de julho de 1889, quinta coluna).

Enfim, a noite no Teatro Sant´Anna havia sido um sucesso absoluto! O espetáculo correu na melhor ordem. A atitude do povo era de todo o ponto pacífica e cortês. Porém, quando dom Pedro II e seus familiares, ao fim do espetáculo, chegaram ao saguão do teatro, houve uma manifestação contra a família imperial. Alguém gritou “Viva o Partido Republicano!”, abafado imediatamente esses gritos sediciosos aos aplausos de Viva o imperador! Viva a família imperial! Viva a monarquia! ((Novidades, 16 de julho de 1889, quinta coluna; e Novidades, 17 de julho de 1889, quinta coluna).

Causou a mais viva impressão a notícia da deplorável ocorrência de ontem à noite, às portas do teatro Sant’Anna e suas circunvizinhanças. Um grupo, quando o Imperador saía do teatro em companhia de sua augusta família, levantou vivas à república, o que produziu a maior confusão no povo, que em desafronta de Sua Magestade levantou vivas ao imperador. Sua Magestade embarcou em seguida no seu coche, que partiu a trote largo, e afirmam várias pessoas que, no momento de passar aquele por defronte da Maison Moderne, ou Stat-Coblentz, ouviu-se a detonação de um tiro” (Cidade do Rio, 16 de julho de 1889).

 

 

Foi na frente do restaurante Maison Moderne, localizado na própria Praça da Constituição, entre a rua Espírito Santo e a Travessa da Barreira, que foram disparados tiros na direção da carruagem imperial, que seguiu pela rua da Carioca em direção ao Paço Imperial.

 

 

Ainda na madrugada do dia 16 de julho, o 1º delegado de polícia, Bernardino Ferreira da Silva, começou as investigações. O primeiro detido, logo liberado, foi Germano Hasslocher. Depois compareceu à delegacia Eduardo José de Freitas informando que um funcionário da Maison Moderne, Antônio José Nogueira, conhecia o autor dos disparos, Adriano Augusto do Valle. Assim, o delegado Bernardino prendeu o acusado em um bonde da Companhia de Botafogo, na rua de Gonçalves Dias. Ele tinha 20 ou 21 anos, era natural de Coimbra, filho de Adriano Francisco Augusto do Valle e trabalhava desde maio como primeiro caixeiro do estabelecimento de pedras açorianas e máquinas para lavoura dos Srs. Ferreira & C., na rua Teófilo Otoni, nº 119, mesma rua onde residia, no nº 128. Na edição de O Paiz de 17 de julho de 1889, foram publicados alguns antecedentes do acusado que, segundo o periódico, há algum tempo discutia assuntos políticos , mostrando-se extremado em suas opiniões. Noticiou também o boato de que Adriano já havia dado um tiro em um retrato do conde d´Eu (1842 – 1922), marido da princesa Isabel, dizendo que sentia não poder fazer o mesmo, por enquanto, na pessoa desse príncipe (O Paiz, de 17 de julho de 1889; e Diário do Commércio, 17 de julho de 1889, terceira coluna).

 

 

Segundo alguns relatos, pouco antes do atentado, junto com outros rapazes, em bebedeira, Adriano do Valle teria afirmado ter coragem de dar “Vivas a República” diante do imperador. Foi incentivado pelos colegas, atirou e fugiu. Tentou se esconder em diversos hotéis, mas todos estavam cheios. No Hotel Provenceaux, pediu que o caixeiro Antônio Gonçalves guardasse os dois revólveres que possuía. Durante o interrogatório, confessou seu crime e declarou:

 

 

Houve um clima de consternação geral. O atentado causou polêmica em torno da imigração estrangeira, em crescimento durante a década de 1880, já que o criminoso era português, pertencendo à maior colônia de imigrantes da Corte e também à comunidade mais rica da cidade do Rio de Janeiro; e do movimento republicano.

Os republicanos imediatamente declararam-se contra o atentado, dissociando-se da ação criminosa. Quintino Bocaiuva (1836 – 1912 ), chefe do Partido Republicano e redator-chefe do jornal O Paiz, publicou o editorial “Os dois fatos“(O Paiz, 17 de julho de 1889, terceira coluna).

 

 

Outros jornais também se pronunciaram nesse sentido:

Infelizmente, houve ontem um atentado que não podemos atribuir senão à inconsciência de quem o praticou: ou loucura ou embriaguez, pois, por honra do partido republicano, não acreditamos que tal ato dele partisse. Esse triste acontecimento é ainda uma das consequências da profunda anarquia que lavra nos espíritos do Brasil, onde todas as noções de direito, dever e liberdade acham-se completamente obliteradas”. Tal ato contrariaria a “brandura do coração brasileiro e dos nossos costumes” (Gazeta da Tarde, 16 de julho de 1889, segunda coluna). 

“Revolucionários, sim, assassinos, nunca!”

“O Partido Republicano não tem a menor responsabilidade pelo desacato cometido contra S.S.M.M… O desacato que sofreu o chefe do estado, alquebrado pelos anos e pela moléstia, junto à santa senhora que o acompanhava só pode ser levado à conta da loucura daqueles que a todo transe procuram indispor e vilipendiar o nosso partido. Apelamos para o próprio imperador, e ele, que com cosciência nos diga, se julga que haja nesta terra um “verdadeiro republicano” que seja capaz de atentar contra a sua vida! Revolucionários, sim, assassinos, nunca!” (República Brazileira, 17 de julho de 1889, primeira coluna).

O próprio dom Pedro II, que no dia seguinte ao atentado foi com a imperatriz para o Palacete Itamaraty, no Alto da Boa Vista, procurou minimizar publicamente a importância do ocorrido, descartando a possibilidade de Adriano fazer parte de uma trama para sua deposição: “Não foi nada, foi um tiro de louco!” teria exclamado, na tentativa de encerrar o caso. Na ocasião, recebeu diversas visitas em desagravo ao ocorrido (O Paiz, 17 de julho de 1889, última coluna).

 

 

Devido à nacionalidade do acusado, o conselheiro Nogueira Soares, ministro de Portugal no Brasil, convocou seus compatriotas a uma reunião para a discussão sobre o atentado contra o imperador (Gazeta de Notícias, 21 de julho de 1889, sexta coluna). Associados das caixas beneficentes e associações portuguesas lançaram uma nota de repúdio ao crime e a diretoria do Liceu Literário Português anunciou seu total desacordo com o ato cometido contra o imperador: “Este ato manou de um louco, e os loucos não têm pátria” (Gazeta de Notícias, 18 de julho de 1889, terceira coluna).

Na reunião do ministério de Portugal, realizada no Gabinete Português de Leitura, no dia 24 de julho, o ministro Nogueira Soares leu um retrospecto dos acontecimentos acerca do atentado e fundamentou a seguinte proposta:

 

 

A Gazeta de Notícias publicou um editorial contra a posição aprovada por parte da colônia portuguesa durante a reunião (Gazeta de Notícias, 26 de julho de 1889, primeira coluna). O jornal O Paiz, cujo dono era o português João José dos Reis Junior, também se pronunciou afirmando que “A nacionalidade portuguesa não pode de modo algum ser lastimada pelo acidente da origem do jovem presumido criminoso” e desaprovando o ato de Nogueira Soares classificando- o de”azáfama de zumbaias à monarquia” e de “ostenstação de desprezo e de abandono para com o desventurado moço português (O Paiz, 28 de julho de 1889, quarta coluna).

Enquanto isso, o imperador seguiu recebendo, entre os meses de julho e agosto, vários telegramas o felicitando por ter sobrevivido ao atentado. Pelo mesmo motivo, também foram oferecidas diversas missas em Ação de Graças. Mas o fato é que a monarquia estava mesmo em seus estertores no Brasil. Em 9 de novembro, foi realizado o baile da Ilha Fiscal (Gazeta de Notícias, de 11 de novembro de 1889), que passou à história como o último baile do regime monárquico no país. Dias depois, em 15 de novembro, foi proclamada a República (Gazeta de Notícias, 16 de novembro de 1889).  Em 17 de novembro, a família real partiu para o exílio, na Europa, a bordo do Alagoas (Gazeta de Notícias, edição de 18 de novembro de 1889, sob o título “O Embarque do Imperador”, na segunda coluna).

Cerca de uma semana depois, no dia 23 de novembro de 1889, aconteceu o julgamento de Adriano do Valle perante o júri. Foi presidida pelo juiz Hollanda Cavalcanti. O reú compareceu acompanhado por seu curador, Julio Ottoni, e por seu defensor Ferreira Lima. O promotor do caso foi Lima Drummond. A defesa alegou que o grito de “Viva o Partido Republicano” tornara-se irrelevante devido à mudança de regime de governo ocorrido no Brasil; que Adriano não havia atirado contra a carruagem imperial já que nem os cocheiros nem os membros do piquete haviam ouvido disparos; e que não havia marca de tiros na carruagem. Argumentaram também que Adriano do Valle havia ingerido absinto, um dos motivos de ter tomado uma atitude irracional. O juiz Hollanda Cavalcanti fez 10 perguntas para os jurados, sendo a primeira “O acusado atirou no carro do imperador?” As demais estavam associadas a ela. Por 10 votos a 0, os jurados responderam “não” à primeira questão. As seguintes perderam o sentido e Adriano do Valle foi então, poucos dias após a proclamação da República, absolvido e posto em liberdade (Gazeta de Notícias, 24 de novembro, penúltima coluna).

Pedro II faleceu, no exílio, em Paris, em 5 de dezembro de 1891, no Hotel Bedford, na rua Arcade, no oitavo arrondissement da cidade. Foi retratado pelo renomado fotógrafo Nadar e seu atestado de óbito foi assinado por Jean Marie Charcot (1825 – 1893), Charles Jacques Bouchard (1837 – 1915) e por seu médico e amigo pessoal, Cláudio Velho da Motta Maia (1843 – 1897). A causa da morte foi pneumonia aguda no pulmão esquerdo.

 

Registro de morte de dom Pedro II

Registro de morte de dom Pedro II

Tradução do registro de morte do imperador:

Nós, abaixo assinados, Professores da Faculdade de Medicina e doutores em medicina, certificamos que Dom Pedro II d’Alcantara morreu em 5 de Dezembro de 1891 à meia noite e 35 (da manhã) no hotel Bedford, 17 rue de l’Arcade, em Paris, em conseqüência de uma pneumonia aguda do pulmão esquerdo.

Paris, 5 de dezembro de 1891

J.M Charcot

C. de Motta Maia

Bouchard”

Link para o registro da morte de Pedro II.

 

 

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Academia Brasileira de Letras

CPDOC

BESOUCHET, Lídia. Exílio e morte do Imperador. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1975

CARVALHO, José Murilo de. Os bestializados, o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo: Cia. das Letras, 1987.

CARVALHO, José Murilo. Pedro II: ser ou não ser. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

Enciclopédia Britannica

HARING, Bertita. O Trono do Amazonas – a história dos Braganças no Brasil – José Olympio, RJ, 1944.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Jornal da Manhã de Uberaba, 20 de setembro de 1918

MEDEIROS, Karla Armani. Giulietta Dionesi, a jovem violinista. O Diário de Barretos, 8 de janeiro de 2019.

OLIVEIRA, Olga Maria Frange de. O atentado e o resgate de um gênioJornal da Manhã (Uberaba), 20 de setembro de 2018.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

Site Naxos

Site Theatros do Centro Histórico do Rio de Janeiro

Site ViolinMan.com

VIDIPÓ, George. Um processo criminal nos jornais do século XIX: o atentado contra dom Pedro II. Anais do Encontro Internacional XVII Encontro de História da Anpuh-Rio: História e Parcerias, 2018.

 

A Ilha Fiscal na Baía de Guanabara

A Brasiliana Fotográfica destaca seis imagens da Ilha Fiscal, uma das principais atrações turísticas do Rio de Janeiro, localizada na Baía de Guanabara. Foram produzidas pelos fotógrafos Jorge Kfuri (1893 – 1965)Juan Gutierrez ( c. 1860 – 1897) e Marc Ferrez (1843 – 1923). O registro de Kfuri é de 1916 e os de Ferrez e de Gutierrez das últimas duas décadas do século XIX.  O edifício da ilha, projeto do engenheiro Adolpho José Del Vecchio (1848 – 1927), foi inaugurado em 27 de abril de 1889.

Acessando o link para as fotografias da Ilha Fiscal disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Espécie de elo entre o passado e o presente, a Ilha Fiscal, que ocupa uma área de 7000 m2 e se distancia do continente por pouco mais de um quilômetro, notabilizou-se por ter sido o cenário do último baile do império, realizado em 9 de novembro de 1889, dias antes da Proclamação da República no Brasil, ocorrida em 15 de novembro de 1889. Na década de 1910, o domínio da Ilha Fiscal foi transferido do Ministério da Fazenda para a Marinha. Integra o Complexo Cultural da Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica. A Ilha Fiscal foi tombada, em 1990, pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural, e aberta à visitação pública em 1999.

 

 

A construção de um posto alfandegário para o controle de mercadorias comercializadas no porto do Rio de Janeiro foi solicitada pelo conselheiro João Antônio Saraiva (1823 – 1895), do Ministério da Fazenda, no século XIX, e a localização da, na época conhecida como Ilha dos Ratos, era ideal devido à proximidade aos pontos de fundeio dos navios mercantes estrangeiros que aportavam à Baía de Guanabara, na altura da atual Praça XV. Foi o imperador Pedro II que decidiu construir o prédio e que optou pelo estilo arquitetônico gótico-provençal, típico dos castelos franceses do século XIV e inspirado pelo trabalho do arquiteto francês Viollet-le-Duc (1814 – 1879). Durante a construção, fez frequentes visitas à ilha p.ara verificar o progresso dos trabalhos.

 

 

O projeto da edificação foi de Adolpho José Del Vecchio ( 1848 – 1927), então Engenheiro-Diretor de Obras do Ministério da Fazenda, e ganhou a Medalha de Ouro na Exposição da Academia Imperial de Belas Artes de 1890, tendo sido apresentado com a seguinte argumentação:

A construção planejada, tendo de ser levantada isoladamente em uma ilha, projetando-se sobre um fundo formado pela caprichosa Serra dos Órgãos, encimada por vasto horizonte, e de frente para a entrada da baía, devia causar impressão agradável aos que penetrassem no porto, suficientemente elevada para que pudesse facilmente ser vista de qualquer ponto entre a mastreação dos navios, e prestar-se ao mesmo tempo à fiscalização do ancoradouro.

Del Vecchio foi diretor de diversas outras obras de vulto como a das Docas Pedro II e da Praça do Comércio. Exerceu cargos importantes e recebeu diversas condecorações e prêmios nacionais e internacionais ao longo de sua carreira (O Paiz, 6 e 7 de junho de 1927, terceira coluna; Revista Brasileira de Engenharia, junho de 1927).

 

 

 

 

 

 

Em 6 de novembro de 1881, foi assentada a primeira pedra do edifício (Gazeta de Notícias, 7 de novembro de 1881, última coluna). No ano seguinte, del Vecchio foi condecorado como Oficial da Ordem da Rosa (Gazeta de Notícias, 26 de março de 1882, terceira coluna). O prédio da Ilha Fiscal foi inaugurado em 27 de abril de 1889 com a presença de Pedro II, do Conde d´Eu e de uma grande comitiva de ministros e autoridades. A elegante construção ocupa cerca de um terço da ilha medindo 68 metros de frente e 28 de fundos. Seu torreão tem 53 metros de altura ( Jornal do Commercio, 28 de abril de 1889, sexta coluna).

A Ilha Fiscal era abastecida de água e em sua torre havia um holofote cuja movimentação e potência permitiam uma melhor fiscalização de qualquer ponto do porto. Todas as salas eram iluminadas com lâmpadas elétricas e a ilha estava ligada à alfândega por uma linha telefônica, para a qual havia sido instalado um cabo submarino. Os trabalhos de cantaria foram realizados pelo comendador Antonio Rodrigues Teixeira, a construção e a montagem da agulha de ferro do corpo central por Manoel Joaquim Moreira & C., o mosaico da sala de honra por Moreira & Carvalho, a montagem do relógio pela firma Krussman & C, a colocação dos aparelhos elétricos pelo sr. Léon Rodde e os trabalhos de pintura pelo alemão Frederico Steckel (1834 – 1921). Os vitrais coloridos a fogo foram confeccionados com cristal inglês e mostravam o imperador Pedro II entre os brasões da Casa Imperial Brasileira e da Casa de Saxônia; e a princesa Isabel  entre os brasões da Casa Imperial Brasileira e a Casa de Orléans.

 

 

 

“Essa importante construção esteve sob a direção do engenheiro Adolpho José del Vecchio, diretor das obras do ministério da Faqzenda, que deu provas da maior atividade e zelo, muito concorrendo para dotar esta cidade com tão bem acabado e importante edifício”

(Revista de Engenharia, 14 de maio de 1889).

 

 

 

cardapiocapa

Capa do cardápio do Baile da Ilha Fiscal / Acervo Arquivo Nacional

Poucos meses depois, em 9 de novembro de 1889, foi realizado o evento pelo qual a Ilha Fiscal ficou mais conhecida: o último baile do Império do Brasil. Inicialmente marcado para o dia 19 de outubro, foi adiado devido à morte do rei Luís I de Portugal (1861 – 1889), sobrinho do imperador Pedro II (Gazeta de Notícias, 20 de outubro de 1889). A festa foi uma homenagem aos oficiais do cruzador chileno Almirante Cochrane, ancorado na Baía de Guanabara desde 11 de outubro de 1889, sob o comando de Constantino Bannen (1847 – 1899) (Gazeta de Notícias, 12 de outubro de 1889). Com o baile, que contou com as presenças de dom Pedro II, de dona Teresa Cristinada princesa Isabel e do Conde d´Eu , e para o qual foram distribuídos cerca de três mil convites, pretendia-se realizar uma celebração inesquecível para fortalecer a monarquia diante da ameaça republicana. Não funcionou: seis dias depois foi proclamada a República no Brasil (Gazeta de Notícias, 9 de novembro de 1889O Paiz, 10 de novembro de 1889Gazeta de Notícias, 11 de novembro de 1889Novidades, 11 de novembro de 1889, primeira colunaRevista Illustrada, 16 de novembro de 1889; e O Paiz, 16 de novembro de 1889, primeira coluna).

Em 1893,  a Ilha Fiscal sofreu avarias durante a Revolta da Armada, quando parte da esquadra brasileira rebelou-se contra o governo do Marechal Floriano Peixoto. Durante mais de seis meses, a ilha ficou no meio da artilharia travada entre as fortalezas da costa e os navios que se encontravam na Baía de Guanabara. Seus vitrais foram quebrados e suas paredes ficaram crivadas de balas de canhão.

Em 1913, foi autorizada pelo ministro da Fazenda, Rivadávia da Cunha Correia (1866 – 1920), a transferência do domínio da Ilha Fiscal do referido ministério para a Marinha em troca do vapor Andrada, proposta feita pelo almirante Alexandrino Faria de Alencar (1848 – 1926), então ministro da Marinha,  (O Paiz, 9 de setembro de 1913, quinta coluna7 de de outubro de 1913, quinta coluna; Correio da Manhã, 24 de janeiro de 1914, última coluna).

 

 

Finalmente, em janeiro de 1914, foi assinado o termo  que oficializou a troca entre a Ilha Fiscal e o vapor Andrada, que passaria a servir de alojamento aos guardas da Alfândega (Correio da Manhã, 27 de janeiro de 1914, terceira coluna).

 

 

A partir de 1914 (até 1983), a Ilha Fiscal abrigou a Repartição Hidrográfica da Marinha do Brasil, então denominada Superintendência de Navegação (O Século, 9 de janeiro de 1914, primeira coluna; Correio da Manhã, 30 de janeiro de 1914, última coluna; e O Paiz, 30 de janeiro de 1914, terceira coluna). Nos primeiros anos de ocupação, a Marinha refez a decoração interna e externa do prédio da Ilha Fiscal, restaurando sua beleza arquitetônica. Os vitrais com motivos monárquicos foram restaurados pela mesma firma inglesa que os tinha instalado originariamente.

Logo no início dos anos 1930, a Ilha Fiscal foi ligada à Ilha das Cobras através de um estreito molhe de pedra.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

CALDEIRA, Jorge. Viagem pela História do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. p. 222.

CARDOSO, Rafael. Uma introdução à história do design. São Paulo : Blucher, 2008.

CARVALHO, José Murilo. Pedro II: ser ou não ser. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

Dicionátio de Verbetes do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro

DUNLOP, Charles. Rio Antigo, vol 3. Rio de Janeiro : Editora Rio Antigo, 1960.

GOMES, Laurentino. 1889. São Paulo : Globo Livros.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

SILVA, Hélio. Nasce a República. São Paulo: Três, 1975.

Site Diretoria de Hidrografia e Navegação da Marinha

Site Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha

Site Inepac

Site O Rio de Janeiro

Site Receita Federal

Site Riotur

Petrópolis, a Cidade Imperial, pelos fotógrafos Marc Ferrez e Revert Henrique Klumb

A Brasiliana Fotográfica celebra a fundação de Petrópolis, ocorrida em 16 de março de 1843, trazendo para seus leitores uma seleção de imagens da cidade produzidas pelo francês Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886) e por Marc Ferrez (1843 – 1923), no século XIX. Klumb era o fotógrafo preferido da família real brasileira, tendo sido agraciado com o título de “Fotógrafo da Casa Imperial”, em 1861. Seus registros aqui destacados são de ruas petropolitanas como a do Imperador, a Tereza e a Joinville; do interior e do exterior do Palácio Imperial, dos hotéis Beresford, Brangança e Inglês, do Retiro da Cascatinha, do rio Quitandinha, de palacetes e casas, da princesa Isabel (1846 – 1921) e do conde D´Eu (1842 – 1922), além de vistas gerais. Apresentamos também o Álbum Vistas de Petrópolis e Rio de Janeiro, realizado por Ferrez, em torno de 1885, com 30 imagens de Petrópolis que recebeu, em 1981, do governo federal, o título de Cidade Imperial.

 

Revert Henrique Klumb e Petrópolis

 

 

 

Revert Henrique Klumb chegou ao Rio de Janeiro, em 1854, com Affonso Rouel, trazendo uma máquina fotográfica. Eles eram, segundo consta no livro Artistas de meu tempo, de Mello Morais Filho, fugitivos do exército francês. No ano seguinte, já era anunciada a Photographia de François Rene Moreaux, Klumb e Cia, na rua do Rosário, 134. Entre 1865 e 1866, Klumb mudou-se para Petrópolis e seu endereço era rua dos Artistas, nº 10, em frente à praça Coblenz. Fez uma extensa documentação da paisagem urbana da cidade, inclusive com efeitos noturnos – uma grande inovação na época.

Foi o autor do livro Doze horas em diligência. Guia do viajante de Petrópolis a Juiz de Fora, publicado em 1872. Foi a única obra do Brasil do século XIX a ser idealizada, fotografada, escrita e publicada por uma só pessoa. Também foi o primeiro livro de fotografia inteiramente litografado e produzido no país. Em 1874, foi publicado o livro Petrópolis e seus arrabaldes, com fotografias produzidas por Klumb. Um ano depois, realizou uma exposição de fotografias de Petrópolis que fez muito sucesso, tendo sido visitada por dom Pedro II (1825 – 1891) e pela imperatriz Tereza Cristina (1822 – 1889) ( O Globo, de 10 de janeiro de 1875 , na segunda coluna; O Mercantil, de 6 e 9 janeiro de 1875, de 10 de janeiro e de 6 de fevereiro de 1875; ). Ainda, em 1875, Klumb anunciou seus serviços de fotógrafo na cidade, na rua dona Januária, aos domingos, segundas, terças e dias santos.

Em 1886, Klumb estava em Paris e de lá escreveu à imperatriz Teresa Cristina pedindo que ela financiasse a volta dele e de sua família para o Brasil – era casado com a baiana Hermelinda Barreto, com quem tinha duas filhas. O pedido foi deferido e ele e sua família deveriam embarcar para o Brasil em outubro de 1886. Porém, não se sabe se ele chegou a vir. Essa é a última notícia que se tem, até o momento, sobre o fotógrafo.

 

 

 

 

 

 

Acessando o link para as fotografias de Petrópolis realizadas por Revert Henrique Klumb disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas. 

 

Álbum Vistas de Petrópolis e Rio de Janeiro, por Marc Ferrez

 

Álbum Vistas de Petrópolis e Rio de Janeiro, de autoria de Marc Ferrez , possui 42 fotografias, sendo 30 de aspectos de Petrópolis: seus canais, casarões, escolas, estação de trem, fábricas, jardins, paisagens, palacetes e ruas, além de imagens do Palácio de Cristal, do Palácio do Grão-Pará, da avenida Koeller e da construção de uma ferrovia. A vasta e abrangente obra iconográfica de Ferrez se equipara a dos maiores nomes da fotografia do mundo.  Cerca de metade de sua produção fotográfica foi realizada no Rio de Janeiro e em seus arredores, onde registrou, além do patrimônio construído, a exuberância das paisagens naturais. Outro segmento de sua obra iconográfica registrou as várias regiões do Brasil – ele foi o único fotógrafo do século XIX que percorreu todas as regiões do país.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Acessando o link para as fotografias do Álbum Vistas de Petrópolis e Rio de Janeiro por Marc Ferrez disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Um pouco da história de Petrópolis

 

Brasão de Petrópolis

Brasão de Petrópolis

 

Dom Pedro I (1798 – 1834) se encantou com a região serrana, em 1822, quando viajava para Minas Gerais na busca de apoio à independência do Brasil. Ficou hospedado na fazenda do Padre Correia (1759 – 1824), cuja sede ficava na confluência dos rios Morto e Piabanha. A fazenda oferecia hospedagem e alimentação aos tropeiros. O padre Correia recusou uma oferta feita pelo imperador para a compra de sua propriedade. Então, em 1830, dom Pedro I comprou a fazenda do Córrego Seco, localizada no topo da Serra da Estrela, por considerá-la situada em uma região de salubridade e beleza ideais, o que beneficiaria sua filha, a princesa dona Paula (1823 – 1833), que tinha sérios problemas de saúde. D. Pedro I queria construir ali um palácio para o verão, o Palácio da Concórdia. Porém, sua abdicação, em 1831, e sua morte, em 1834, o impediram de realizar seu desejo. Seus credores entraram nas justiças europeia e brasileira e a fazenda foi destinada para cobrir suas dívidas. Em 1839, o governo do Brasil foi autorizado a comprar a propriedade ( Diário do Rio de Janeiro, 21 de setembro de 1839, na primeira coluna ) e, em 1840, ela passou a pertencer a dom Pedro II (1825 – 1891) e a seus sucessores ( Diário do Rio de Janeiro, 15 de outubro de 1840, na terceira coluna). O mordomo da Casa Imperial, Paulo Barbosa da Silva (1790 – 1868), teve a iniciativa de retomar os planos de dom Pedro I de construir um palácio na região. Então no dia 16 de março de 1843, o imperador, com dezoito anos e recém-casado com dona Teresa Cristina (1822 – 1889), assinou o Decreto Imperial nº 155, que arrendava as terras da fazenda do Córrego Seco ao major alemão Júlio Frederico Koeler (1804 – 1847) para a fundação da “Povoação-Palácio de Petrópolis”. Koeler teria que edificar um palácio para dom Pedro II, uma igreja e um cemitério, além de povoar a região. Surgia assim a cidade de Petrópolis.

Decreto Imperial nº 155

“Tendo approvado o plano que me apresentou Paulo Barbosa da Silva, do Meu Conselho, Official Mór, e Mordomo de Minha Imperial Casa, de arrendar a Minha Fazenda denominada “Corrego Seco” ao Major de Engenheiros Koeler; pela quantia de um conto de réis annual, reservando um terreno sufficiente para nelle se edificar um Palacio para Mim, com suas dependencias e jardins, outro para uma povoação, que deverá ser afórado a particulares, e assim como cem braças dum e outro lado da estrada geral, que corta aquella Fazenda, o qual deverá tambem ser afórado a particulares, em datas ou prazos de cinco braças indivisiveis, pelo preço porque se convencionarem, nunca menos de mil réis por braça : Hei por bem authorisar o sobredito Mordomo a dar execução ao dito plano sob estas condições. E outrosim o Authorizo a fazer demarcar um terreno para nelle se edificar uma Igreja com a invocação de S. Pedro de Alcantara, a qual terá uma superficie equivalente a quarenta braças quadradas, no logar que mais convier aos visinhos e foreiros, do qual terreno lhes faço doação para este fim e para o cemiterio da futura povoação. Ordeno portanto ao sobredito Mordomo que proceda aos ajustes e escripturas necessarias, n’esta conformidade, com as devidas cautelas e circumstancias de localidades, e outrosim que forneça a minhas espenças os vazos sagrados, e ornamentos para a sobredicta Igreja, logo que esteja em termos de n’ella se poder celebrar. Paço da Boa Vista deseseis de Março de 1843, vigesimo segundo da Independencia e do Imperio. Dom Pedro II. Paulo Barbosa da Silva. Conforme, Augusto Candido Xavier de Brito.”(Instituto Histórico de Petrópolis)

 

 

Ao longo de sua história, Petrópolis foi fortemente influenciada pela presença de imigrantes alemães, italianos, sírio-libaneses e portugueses. Foi intitulada Cidade Imperial pelo decreto federal 85.849, de 27 de março de 1981. Fica a 809 metros de altitude e é o maior município da Região Serrana do estado do Rio de Janeiro. Sua arquitetura, história, clima e gastronomia contribuem para que a cidade seja um dos principais destinos turísticos do Brasil.

 

 

 

 

Publicações da Brasiliana Fotográfica em torno da obra do fotógrafo Marc Ferrez 

 

O Rio de Janeiro de Marc Ferrez, publicada em 30 de junho de 2015

Obras para o abastecimento no Rio de Janeiro por Marc Ferrez , publicada em 25 de janeiro de 2016

O brilhante cronista visual Marc Ferrez (7/12/1843 – 12/01/1923), publicada em 7 de dezembro de 2016

Do natural ao construído: O Rio de Janeiro na fotografia de Marc Ferrez, de Sérgio Burgi, publicada em 19 de dezembro de 2016

No primeiro dia da primavera, as cores de Marc Ferrez (1843 – 1923), publicada em 22 de setembro de 2017

Marc Ferrez , a Comissão Geológica do Império (1875 – 1878) e a Exposição Antropológica Brasileira no Museu Nacional (1882), publicada em 29 de junho de 2018

O quiosque Chopp Berrante no Passeio Público, Ferrez, Malta e Charles Dunlop, publicada em 20 de julho de 2018

Uma homenagem aos 175 anos de Marc Ferrez (7 de dezembro de 1843 – 12 de janeiro de 1923), publicada em 7 de dezembro de 2018 

Pereira Passos e Marc Ferrez: engenharia e fotografia para o desenvolvimento das ferrovias, publicado em 5 de abril de 2019

Fotografia e ciência: eclipse solar, Marc Ferrez e Albert Einstein, publicado em 

Uma homenagem da Casa Granado ao imperial sob as lentes de Marc Ferrez, publicada em 7 de fevereiro de 2020

Ressaca no Rio de Janeiro invade o porão da casa do fotógrafo Marc Ferrez, em 1913, publicado 6 de março de 2020

Bambus, por Marc Ferrez, publicado em 5 de junho de 2020

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Outros artigos publicados na Brasiliana Fotográfica sobre Revert Henrique Klumb:

Revert Henrique Klumb, o fotógrafo da família real do Brasil, 31 de agosto de 2016

As versões diurna e noturna na fotografia de Revert Henrique Klumb, 28 de dezembro de 2018

 

Fontes:

ALQUÉRES, José Luiz. Petrópolis. Petrópolis: Viana & Mosley, 2002.

BADE e DURIEZ. Conhecendo Petrópolis. Petrópolis: Ed. Gráfica Serrana, 1993.

BRITTO PEREIRA, Cecilia Duprat. Revert Henrique Klumb – Fotógrafo da Família Imperial BrasileiraRio de Janeiro: Anais da Biblioteca Nacional, 1982.

CARVALHO, José Murilo. Pedro II: ser ou não ser. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

CERON, Ileana Pradilla Ceron. Marc Ferrez – uma cronologia da vida e da obra. São Paulo : Instituto Moreira Salles, 2018.

FERREZ, Gilberto; NAEF, Weston J.. Pioneer Photographers of Brazil, 1840-1920. New York: Center for Inter-American Relations, 1976.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário Histórico-Fotográfico Brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil(1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002. ISBN 85-86707-07-4

LAGO, Bia Corrêa do;LAGO, Pedro Corrêa do. Os Fotógrafos do Império. Rio de Janeiro: Capivara, 2005. 240p.:il

MARTIM, Ricardo (pseudônimo de Guilherme Auler). Dom Pedro II e a fotografia. Tribuna de Petrópolis. Petrópolis, 1 de abril de 1956.

RABAÇO, Henrique José. História de Petrópolis. Petrópolis : Universidade Católica de Petrópolis, 1985.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

Site História de Petrópolis

Site Instituto Histórico de Petrópolis

Site Instituto Municipal de Cultura e Esportes

Site Museu Imperial de Petrópolis

VASQUEZ, Pedro Karp. Revert Henrique Klumb: um alemão na Corte Imperial brasileira. Apresentação Joaquim Marçal, Demosthenes Madureira de Pinho Filho; coordenação de coleção Pedro Corrêa do Lago; coordenação editorial Pedro Corrêa do Lago, Luiz Eduardo Meira de Vasconcellos; design Victor Burton; fotografia César Barreot, Miguel Pacheco e Chaves; pesquisa Pedro Karp Vasquez; tradução Carlos Luís Brown Scavarda. Rio de Janeiro: Capivara, 2001 229p., il. p&b. (Visões do Brasil, 4). ISBN 85-86011-49-5.

Uma homenagem da Casa Granado ao casal imperial sob as lentes de Marc Ferrez

 

A Brasiliana Fotográfica destaca um registro da fachada da Farmácia Granado produzido por Marc Ferrez (1843 – 1921). No topo da imagem há um quadro a óleo retratando dom Pedro II (1825 – 1891) e a imperatriz Teresa Cristina (1822 – 1889), com o neto primogênito, Pedro Augusto de Saxe-Coburgo e Bragança (1866 – 1934). Foi encomendado pela farmácia ao artista alemão Frederico Steckel (c. 1834 -1921), em homenagem ao “feliz regresso” do casal ao Brasil, em 22 de agosto de 1888 (Gazeta de Notícias, 23 de agosto de 1888, primeira coluna). Em 1880, dom Pedro II havia concedido à drogaria o título de Farmácia Oficial da Família Imperial Brasileira. A Granado, uma das únicas marcas brasileiras que existe desde o reinado de dom Pedro II, completa 150 anos e é o tema da exposição “A história da botica mais tradicional do Brasil”, aberta em 15 de janeiro último, no Museu Histórico Nacional, uma das instituições parceiras do portal. Ficará em cartaz até 3 de maio de 2020.

 

A farmácia dos senhores Granado, conhecido estabelecimento da rua Primeiro de Março, número 12, encomendou ao artista Frederico Antônio Steckel uma decoração especial. A pintura a óleo, reprodução de uma fotografia tirada depois do restabelecimento de D. Pedro, exibia em tamanho natural os avós e o neto: “o favorito”. No alto da grossa moldura, as armas imperiais. Em seda carmesim, tremulavam sobre o quadro os dizeres em letras douradas: “Feliz Regresso de Suas Majestades  Imperiais”. A novidade era a iluminação a gás que fazia brilhar as estrelas do Cruzeiro e as colunas do quadro. Embasbacados, os passantes se amontoavam na vitrine.”(1)

 

 

Acessando o link para a fotografia Pharmacia Drogaria Granado and Ca, produzida em 1888 por Marc Ferrez disponível na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar a imagem e verificar todos os dados referentes a ela.

 

Frederico Steckel, autor da decoração da fachada da Granado

Frederico Steckel, autor da decoração da fachada fotografada por Ferrrez /Acervo de Fernando Argeu Murta

 

 

O casal imperial havia viajado em 30 de junho de 1887 para a Europa. Estiveram inicialmente em Portugal e, de lá, seguiram para Paris. Aconselhado por médicos, dom Pedro II foi para Baden-Baden, e retornou a Paris, onde visitou intelectuais, entre eles, Louis Pasteur. Fez um cruzeiro pela Riviera italiana e foi para a estação de cura de Aix-les-Bains, na França. Também visitou, atendendo a um desejo de sua esposa, as ruínas de Pompeia (Gazeta de Notícias, 17 de junho de 1888, quarta coluna).

A Casa Granado foi fundada por José de Barros Franco e pelo português José Antônio Coxito Granado com o nome “Botica de Barros Franco” e ficava na então denominada rua Direita, uma das mais movimentadas do centro do Rio de Janeiro, atual rua Primeiro de Março, onde permanece até hoje. Em 1876, Barros Franco retirou-se da sociedade e Pedro Gonçalves Bastos tornou-se sócio até 1878 (A Reforma, 16 de setembro de 1876, primeira coluna; Gazeta de Notícias, 19 de maio de 1878, penúltima coluna). A loja tornou-se ponto de encontro de personalidades ilustres como o prefeito Pereira Passos (1836 – 1913) e Rui Barbosa (1849 – 1923). Em 1903, João Bernardo Granado, irmão de Coxito, criou um dos produtos mais populares da botica: o polvilho antisséptico, cuja fórmula teve registro aprovado pelo cientista Oswaldo Cruz. Em 1915, lançamento de outro produto pioneiro: o sabonete de glicerina.

 

(1) PRIORI, Mary del. O Príncipe Maldito. Rio de Janeiro: Objetiva, 2017.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Publicações da Brasiliana Fotográfica em torno da obra do fotógrafo Marc Ferrez 

O Rio de Janeiro de Marc Ferrez, publicada em 30 de junho de 2015

Obras para o abastecimento no Rio de Janeiro por Marc Ferrez , publicada em 25 de janeiro de 2016

O brilhante cronista visual Marc Ferrez (7/12/1843 – 12/01/1923), publicada em 7 de dezembro de 2016

Do natural ao construído: O Rio de Janeiro na fotografia de Marc Ferrez, de Sérgio Burgi, publicada em 19 de dezembro de 2016

No primeiro dia da primavera, as cores de Marc Ferrez (1843 – 1923), publicada em 22 de setembro de 2017

Marc Ferrez , a Comissão Geológica do Império (1875 – 1878) e a Exposição Antropológica Brasileira no Museu Nacional (1882), publicada em 29 de junho de 2018

O quiosque Chopp Berrante no Passeio Público, Ferrez, Malta e Charles Dunlop, publicada em 20 de julho de 2018

Uma homenagem aos 175 anos de Marc Ferrez (7 de dezembro de 1843 – 12 de janeiro de 1923), publicada em 7 de dezembro de 2018 

Pereira Passos e Marc Ferrez: engenharia e fotografia para o desenvolvimento das ferrovias, publicado em 5 de abril de 2019

Fotografia e ciência: eclipse solar, Marc Ferrez e Albert Einstein, publicado em 

Celebrando o fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923), publicado em 4 de dezembro de 2019

Ressaca no Rio de Janeiro invade o porão da casa do fotógrafo Marc Ferrez, em 1913, publicado 6 de março de 2020

Petrópolis, a Cidade Imperial, pelos fotógrafos Marc Ferrez e Revert Henrique Klumb, publicado em 16 de março de 2020

Bambus, por Marc Ferrez, publicado em 5 de junho de 2020

 

Fontes:

CARVALHO, José Murilo. Pedro II: ser ou não ser. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

GIANETTI, Ricardo. Frederico Steckel: pintor-decorador do Império e da República. IV Colóquio Internacional. A Casa Senhorial: Anatomia dos Interiores, Universidade de Pelotas no Rio Grande do Sul, 2017

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

PRIORI, Mary del. O Príncipe Maldito. Rio de Janeiro: Objetiva, 2017.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

Site da Granado

ilustração

A chegada do daguerreótipo no Brasil – os primeiros registros no Rio de Janeiro

Hoje são comemorados os 180 anos da produção, pelo abade francês Louis Comte (1798 – 1868), das primeiras daguerreotipias no Rio de Janeiro, em 16 de janeiro de 1840. O daguerreótipo, processo fotográfico desenvolvido por Joseph Nicèphore Niépce (1765-1833) e Louis Jacques Mandé Daguerre (1787-1851) e anunciado em Paris em 19 de agosto de 1839 por François Arago (1786 – 1853), secretário da Academia de Ciências da França, chegou ao Brasil no L’Oriental-Hydrographe, navio-escola da Marinha Mercante da França que, sob o comando  do  capitão Augustin  Lucas (1804-1854?), partiu do porto de Paimboeuf, nas proximidades da cidade francesa de Nantes, em 25 de setembro de 1839, com cerca de 80 pessoas a bordo, entre tripulação e passageiros.

Antes de chegar ao Rio de Janeiro, o navio havia atracado em algumas cidades de Portugal, em Tenerife e na Ilha da Goreia (Senegal) e, já no Brasil, no Recife e em Salvador. Essa viagem é o tema do novo livro da historiadora Maria Inez Turazzi, O Oriental-Hydrographe e a fotografia; a primeira expedição ao redor do mundo com uma ‘arte ao alcance de todos’ (1839-1840). Segundo ela, a presença do daguerreótipo a bordo assim como a de outros instrumentos inovadores, não foi casual ou improvisada, porém fruto de uma complexa rede de interesses diplomáticos, transações comerciais e intercâmbios científicos. É possível afirmar que a viagem de circunavegação do Oriental-Hydrographe teve início com a expectativa de consagrá-la como a primeira do gênero a utilizar a fotografia como meio de registro da experiênciaO daguerreótipo revolucionou em pouco tempo e para sempre a forma do registro do mundo e de seus habitantes, inundando nosso planeta de imagens fotográficas. Em 1864, em uma crônica reproduzida nesse artigo, o escritor Machado de Assis (1839 – 1908), que nasceu no mesmo ano do anúncio do daguerreótipo perguntou “Até onde chegará o aperfeiçoamento do invento de Daguerre?”. 

 

  A invenção do daguerreótipo e sua chegada no Brasil

 

Câmara de daguerreótipo Succe Frères, de 1939 / Westlicht Photography Museum, em Viena, na Áustria

Câmara de daguerreótipo Succe Frères, de 1939 / Westlicht Photography Museum, em Viena, na Áustria

 

Em 7 de janeiro de 1839, na Academia de Ciências da França, foi anunciada a descoberta da daguerreotipia, um processo fotográfico desenvolvido por Joseph Nicèphore Niépce (1765-1833) e Louis Jacques Mandé Daguerre (1787-1851). Cerca de sete meses depois, em 19 de agosto, durante um encontro realizado no Instituto da França, em Paris, com a presença de membros da Academia de Ciências e da Academia de Belas-Artes, o cientista François Arago (1786 – 1853), secretário da Academia de Ciências, explicou o processo e comunicou que o governo francês havia adquirido o invento, colocando-o em domínio público e, dessa forma, fazendo com que o “mundo inteiro” tivesse acesso à invenção. Em troca, Louis Daguerre e o filho de Joseph Niépce, Isidore, passaram a receber uma pensão anual vitalícia do governo da França, de seis mil e quatro mil francos, respectivamente. Um daguerreótipo consiste em uma imagem única e positiva, formada diretamente sobre placa de cobre, revestida com prata e, em seguida, polida e sensibilizada por vapores de iodo. Depois de exposta na câmera escura, a imagem é revelada por vapores de mercúrio e fixada por uma solução salina.

 

A descoberta que comunico ao público está entre as poucas que, por seus princípios, seus resultados e a promissora influência que deverá exercer sobre as artes, se situam naturalmente entre as mais úteis e extraordinárias invenções…“.

Louis Daguerre, 1838

 

A velocidade com que a notícia do invento do daguerreótipo chegou ao Brasil é curiosa: cerca de quatro meses depois do anúncio da descoberta, foi publicado no Jornal do Commercio, de 1º de maio de 1839, sob o título “Miscellanea”, na segunda coluna, um artigo sobre o assunto – apenas 10 dias após de ter sido assunto de uma carta do inventor norte-americano Samuel F. B. Morse (1791 – 1872), escrita em Paris em 9 de março de 1839 para o editor do New York Observer, que a publicou em 20 de abril de 1839.

A introdução da daguerreotipia no Brasil se deu com a chegada do navio L’Oriental-Hydrographe, navio-escola da Marinha Mercante da França, em fins de 1839, sob o comando  do  capitão Augustin  Lucas (1804-1854?), que havia estado no ateliê de Daguerre em 1839. A viagem de circunavegação pensada como uma escola flutuante começou a ser planejada em 1838, quando seu projeto, pedagógico e mercantil, foi apresentado ao ministro da Marinha francesa, Claude Rosamel (1774 – 1848).

Segundo a historiadora Maria Inez Turazzi, a presença do daguerreótipo a bordo assim como a de outros instrumentos inovadores, não foi casual ou improvisada, porém fruto de uma complexa rede de interesses diplomáticos, transações comerciais e intercâmbios científicos. É possível afirmar que a viagem de circunavegação do Oriental-Hydrographe teve início com a expectativa de consagrá-la como a primeira do gênero a utilizar a fotografia como meio de registro da experiência

O Estatuto de admissão ao navio Hydrographe que fará a volta ao mundo sob o comando do capitão Lucas informava que os alunos a bordo seriam divididos em quatro seções, de acordo com o grau de instrução que tivessem recebido a partir de um exame realizado por professores de diferentes disciplinas antes do embarque. Esses professores pertenceriam aos quadros da universidade e estariam associados à expedição. Os alunos fariam estudos iguais aos dos colégio reais e aprenderiam línguas estrangeiras e conhecimentos específicos de marinha e comércio durante a viagem.

L’Oriental, um navio de três mastros, partiu do porto de Paimboeuf, nas proximidades da cidade francesa de Nantes, em 25 de setembro de 1839, com cerca de 80 pessoas a bordo, entre tripulação e passageiros. A previsão de duração da viagem era de dois anos e meio. Durante o mês de outubro, atracou em Lisboa, no dia 7, e na Ilha da Madeira, no dia 23. Posteriormente, fez escalas em Tenerife e na Ilha da Goreia (Senegal), de onde veio para o Brasil. Chegou no Recife, em 30 de novembro (Diário de Pernambuco, 2 de dezembro de 1839, última coluna), tendo zarpado no dia 4 de dezembro rumo a Salvador, onde chegou no dia 7 (Correio Mercantil (BA), 10 de dezembro de 1839, segunda coluna), permanecendo até 17 de dezembro (Correio Mercantil (BA), 18 de dezembro de 1839, última coluna) – entre essas duas cidades brasileiras ocorreu a única morte registrada da viagem, a de um estudante belga.

O navio chegou no Rio de Janeiro, em 23 de dezembro de 1839, quando foi identificado como um colégio boiante, um navio-escola que promovia uma expedição didática- científica (Jornal do Commercio, 25 de dezembro de 1839, terceira coluna e Jornal do Commercio, 28 de dezembro de 1839, terceira coluna). No navio havia marinheiros capazes e professores hábeis, reunidos pelo capitão para iniciar os alunos a bordo nas primeiras noções da marinha e do comércio.  Dentre eles estava Francisco Sauvage, inventor do phisionotypo, um novo modo de suprir a escultura,  (Correio Mercantil (BA), 13 de dezembro de 1839, terceira coluna) e o abade francês Louis Comte (1798 – 1868), que viria a  ser o responsável pelas primeiras demonstrações da daguerreotipia no Brasil (Jornal do Commercio, de 17 de janeiro de 1840, primeira coluna). O médico em chefe da expedição deu consultas para moléstias de olhos no Hotel Europa, que ficava na rua do Carmo, esquina com a rua Ouvidor (Jornal do Commercio, 28 de dezembro de 1839, terceira coluna). Em 26 de janeiro, o L´Oriental partiu para Montevidéu, no Uruguai (Jornal do Commercio, 27 de janeiro de 1840, última coluna) e de lá seguiu para Valparaíso, no Chile, onde naufragou quando deixava a cidade, em 23 de junho de 1840.Tudo foi recuperado e não houve vítimas (Jornal do Commercio, 14 de agosto de 1840, primeira coluna). O abade Comte permaneceu em Montevidéu ensinando daguerreotipia até 1847. Posteriormente, alugando armazéns na área portuária, acumulou uma fortuna e voltou para a França, onde faleceu, em 22 de setembro de 1868. Está enterrado no cemitério de Sampans, na França.

 

 

No Jornal do Commercio, de 17 de janeiro de 1840, era anunciada a chegada do daguerreótipo no Rio de Janeiro

 

O abade Comte, encarregado pela assistência intelectual e espiritual e pelo ensino de religião, música e canto durante a viagem, produziu alguns daguerreótipos, em 16 de janeiro de 1840, e, alguns dias depois, apresentou o invento a dom Pedro II (Jornal do Commercio,  20 de janeiro de 1840, terceira coluna). Foi com o próprio Daguerre que o abade havia aprendido a daguerreotipia. Em março do mesmo ano, d. Pedro II adquiriu um daguerreótipo, provavelmente o primeiro da América do Sul.

 

 

Louis Compte. Chafariz do Largo do Paço, Rio de Janeiro, 16/1/1840, daguerreótipo, 9 [8,3] x 7 cm [1/6 placa]. Arquivo Grão Pará, Petrópolis, RJ

Louis Compte. Chafariz do Largo do Paço, Rio de Janeiro, 16/1/1840, daguerreótipo, 9 [8,3] x 7 cm [1/6 placa]. Arquivo Grão Pará, Petrópolis, RJ

 

Louis Comte. L. Compte, Vista parcial do Mercado da Praia do Peixe, Rio de Janeiro, 16/1/1840, daguerreótipo, 7 x 9 [8,3] cm [1/6 placa]. Arquivo Grão Pará, Petrópolis, RJ Reprodução

Louis Comte. Vista parcial do Mercado da Praia do Peixe, Rio de Janeiro, 16/1/1840, daguerreótipo, 7 x 9 [8,3] cm [1/6 placa]. Arquivo Grão Pará, Petrópolis, RJ – Reprodução

 

dague 1

Sobre esse daguerreótipo há uma discussão de autoria e data: teria sido produzido por Comte em janeiro de 1840 ou por Morand entre 1842 e 1843? Daguerreótipo, 7 x 9 [8,3] cm [1/6 placa]. Acervo Grão Pará, Petrópolis, RJ – Reprodução

 

Por sediar o Império, o Rio de Janeiro foi a capital da fotografia no Brasil. O imperador, grande entusiasta da nova invenção, foi retratado por diversos fotógrafos, dentre eles Marc Ferrez (1843-1923) e Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912), tendo conhecido praticamente o trabalho de todos eles. A fotografia passou a ser o instrumento de divulgação da imagem de dom Pedro II, moderna como queria que fosse o reino, segundo comenta Lilia Moritz Schwarcz no livro As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos, e tornou-se também mais um símbolo de civilização e status. Foi um dos primeiros monarcas a oferecer seu real patrocínio a um fotógrafo, juntamente com a rainha Victoria da Inglaterra (1819 – 1901), quando, em 1851, permitiu que Buvelot & Prat, que haviam realizado uma série de daguerreótipos de Petrópolis – todos desaparecidos – usassem as armas imperiais na fachada de seu estabelecimento fotográfico.

 

Lista dos Fotógrafos Imperiais, na ordem cronológica em que foram agraciados com este título, segundo Guilherme Auler (1914-1965), sob o pseudônimo de Ricardo Martim, em dois artigos publicados na Tribuna de Petrópolis, em 1º e 8 de abril de 1956, segundo o livro O Brasil na fotografia oitocentista, de Pedro Vasquez. Pedro Hees e Pedro Satyro da Silveira foram incluídos na lista de agraciados e a inclusão foi baseada no trabalho Photographos da Casa Imperial: A Nobreza da Fotografia no Brasil do Século XIX, de Danielle Ribeiro de Castro

 

Buvelot & Prat, título concedido em 8 de março de 1851 (província do Rio de Janeiro)

Joaquim Insley Pacheco, título concedido em 22 de dezembro de 1855 (província do Rio de Janeiro)

João Ferreira Villela, título concedido em 18 de setembro de 1860 (província de Pernambuco)

Revert Henrique Klumb, título concedido em 24 de agosto de 1861 (província do Rio de Janeiro)

Stahl & Wahnschaffe, título concedido em 21 de abril de 1862 (província do Rio de Janeiro)

Diogo Luiz Cipriano, título concedido em 20 de setembro de 1864 (província do Rio de Janeiro)

Antonio da Silva Lopes Cardoso, título concedido em 30 de novembro de 1864 (província da Bahia)

Tomas King, título concedido em 18 de maio de 1866 (província do Rio Grande do Sul)

José Ferreira Guimarães, título concedido em 13 de setembro de 1866 (província do Rio de Janeiro)

Fernando Starke, título concedido em 14 de dezembro de 1866 (província de São Paulo)

Pedro Satyro da Silveira, título concedido na década de 1870  (província do Rio de Janeiro)

José Tomás Sabino, título concedido em 13 de agosto de 1873 (província do Pará)

Henschel & Benque, título concedido em 7 de dezembro de 1874 (província do Rio de Janeiro)

Pedro Hees , título concedido em 1876 (província do Rio de Janeiro)

Antonio Henrique da Silva Heitor, título concedido em 2 de março de 1885 (província do Rio de Janeiro)

Juan Gutierrez de Padilla, título concedido em 3 de agosto de 1889 (província do Rio de Janeiro)

Ignácio Mendo, título concedido em 6 de agosto de 1889 (província da Bahia)

 

 

 

“Até onde chegará o aperfeiçoamento do invento de Daguerre?

 

Uma curiosidade: o escritor Machado de Assis (1839 – 1908) nasceu no mesmo ano em que nasceu a fotografia: 1839. Aos 24 anos dele e do invento, escreveu sobre o assunto em sua coluna do Diário do Rio de Janeiro de 7 de agosto de 1864. Comentou sobre suas visitas à casa do Pacheco (o fotógrafo português Joaquim Insley Pacheco), que ficava na rua do Ouvidor, nº 102, exaltando poder ver no mesmo álbum fotográfico os rostos mais belos do Rio de Janeiro, falo dos rostos femininos. Contou também a história da chegada do daguerreótipo na cidade e, em seguida, elogiou o trabalho realizado pelo artista  J.T. da Costa Guimarães, uma miniatura de Diane de Poitiers, exposto no estabelecimento de Insley Pacheco. Finalmente, revelou que havia chegado há pouco tempo no referido ateliê um aparelho fotográfico destinado a reproduzir em ponto grande as fotografias de cartão. Termina seu passeio perguntando-se “Até onde chegará o aperfeiçoamento do invento de Daguerre?

 

 

Leia também o artigo A grande viagem da fotografia, de Nani Rubin, publicado no site do Instituto Moreira Salles, em 13 de janeiro de 2010.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

CARRÉ, Adrien. La singulière histoire de l’Oriental-Hydrographe. Bulletin du Comité Nantais de Documentation Historique de la Marine, Nantes, p. 17-35, 1970. 2.

CASTRO, Danielle Ribeiro. Photographos da Casa Imperial: a Nobreza da Fotografia no Brasil do Século XIX, 2013

Dictionary of Canadian Biography

Estatuto de admissão ao navio Hydrographe que fará a volta ao mundo sob o comando do capitão Lucas. Registro autenticado – Bertinot e Roquebert – Rua Richelieu n. 28, Paris. Em 2 de abril de 1839. Arquivo Nacional da França, Paris. Transcrição e revisão de Maria Inez Turazzi; digitação de Márcia Trigueiro; tradução de Maria Elizabeth Brêa Monteiro. Publicado em TURAZZI, Maria Inez. A viagem do Oriental-Hydrographe (1839 – 1840) e a introdução da daguerreotipia no Brasil. Acervo; Revista do Arquivo Nacional, Rio de Janeiro, v.23, nº 1, p.45-62, jan-jun 20

GURAN, Milton (organizador), TURAZZI, Maria Inez; VASQUEZ, Pedro Karp. Os daguerreótipos de Louis Comte no Rio de Janeiro – As primeiras fotografias feitas na América do Sul. Rio de Janeiro: Luz Tropical, 2016.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

KOSSOY, Boris. O mistério dos daguerreótipos do Largo do Paço in Revista da USP, n. 120, janeiro-março, 2019, pp.127-152.

PALMQUIST,Peter E; KAILBOURN,Thomas R. Pioneer Photographers of the Far West: A Biographical Dictionary, 1840-1865. Stanford: Universidade de Stanford, 2000.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

TURAZZI, Maria Inez. A viagem do Oriental-Hydrographe (1839 – 1840) e a introdução da daguerreotipia no Brasil. Acervo; Revista do Arquivo Nacional, Rio de Janeiro, v.23, nº 1, p.45-62, jan-jun 2010.

TURAZZI, Maria Inez. Máquina viajante. Fotografia, uma viagem sem volta, janeiro de 2010.

TURAZZI, Maria Inez. O Oriental-Hydrographe e a fotografia; a primeira expedição ao redor do mundo com uma ‘arte ao alcance de todos’ (1839-1840). Montevidéu: Centro de Fotografía de Montevideo, 2019. 380 p. il.

VASQUEZ, Pedro Karp. Dom Pedro II e a fotografia no Brasil. Rio de Janeiro: Fundação Roberto Marinho, 1985.

WOOD, Rupert Derek. A viagem do Capitão Lucas e do daguerreótipo a Sidney.  NZ Journal of Photography, 3-7, agosto 1994.

 

 

Café Brasil: o Império na Exposição Internacional de Filadélfia

Os portões se abriram em 10 de maio de 1876, tendo à frente o presidente americano Ulysses S. Grant (1822 – 1885) e o imperador do Brasil; a música era do alemão Richard Wagner (1813 – 1883), composta especialmente para a exposição“. Assim foi inaugurada a Exposição Internacional da Filadélfia. É um pouco dessa história, com a disponibilização de fotografias do evento, que a historiadora Claudia B. Heynemann, do Arquivo Nacional, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, traz para os leitores do portal no artigo “Café Brasil: o Império na Exposição Internacional de Filadélfia”. Nas exposições universais ou internacionais, das quais o Brasil participou de 5 durante o século XIX – Londres (1862), Paris (1867 e 1889), Viena (1873) e Filadélfia (1876) -, eram expostos os símbolos do progresso das sociedades industrializadas. Eram “espetáculos da modernidade” onde eram divulgadas as novidades da arte, da cultura, da ciência e da técnica. Foi na Exposição Internacional da Filadélfia que foram apresentados panoramas do Rio de Janeiro e fotografias realizadas para a Comissão Geológica do Império, de autoria do fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923).

 

 

Café Brasil: o Império na Exposição Internacional de Filadélfia

Claudia B. Heynemann*

 

 

A partir de 1862, em Londres, o Brasil participou oficialmente de cinco exposições internacionais ou universais no século XIX. As exposições, intituladas internacionais para um cenário de países unidos, mas competitivos ou universais, na perspectiva francesa da fraternidade, consagraram-se como eventos característicos nos quais eram expostos os trunfos das sociedades industrializadas e seu progresso.

Acessando o link para as fotografias da exposição brasileira na Exposição Internacional de Filadélfia de 1876 disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas. 

Na cartografia que se estabelecia, predominava entre as prateleiras das economias dos países recém-independentes a exibição de seus recursos naturais e de produtos que formavam a pauta primária da exportação. Por vezes tratado como o espelho de seu descompasso, opondo mundo civilizado ao primitivo, sociedades urbanas versus a selva e a floresta, o Brasil de d. Pedro II estava atento às exposições e, embora trouxesse maquinário de ferrovias, peças relacionadas ao telégrafo e artefatos bélicos, entre outros itens saídos de suas fábricas, continuava a ser lembrado por sua agricultura, sua fauna e flora (1). Nesse espetáculo se reencenava o domínio da técnica, os ideais da “civilização”, o imperialismo e a submissão dos povos “exóticos” e ainda mais se impunha uma
visualidade e uma apreensão do mundo calcadas em uma rede de aproximações, contrastes, circuitos, fluxos; nos enunciados e na taxionomia que preside o sistema das exposições (2).

A delegação brasileira em Filadélfia se sobressai na série de exposições internacionais nas quais o Império se fez representar. Finda há poucos anos a Guerra do Paraguai, que
havia exposto a fraqueza do Estado, o governo responde prontamente ao convite para a primeira exposição internacional na América, que assinalava o centenário da Independência do país sede. Os americanos também tinham na memória recente a guerra civil, cujas feridas se agravavam com a depressão industrial de 1873 e a feira podia, no mínimo, desviar as atenções das denúncias de corrupção que vinham da capital, das falências e da insatisfação dos trabalhadores com o sistema industrial:

Contudo, mais do que apenas fornecer um escape das incertezas políticas e econômicas dos anos de Reconstrução, a feira foi uma resposta calculada a essas condições. Seus organizadores procuraram desafiar dúvidas e restabelecer a confiança na vitalidade do sistema de governo da America assim como na estrutura econômica e social do país. No momento em que os portões se abriram a feira funcionou como “uma escola para a nação”, um modelo da “Meca americana”(3)

 

Os portões se abriram em 10 de maio de 1876, tendo à frente o presidente americano Grant e o imperador do Brasil; a música era de Wagner, composta especialmente para a exposição. Enormes pavilhões em madeira, ferro e vidro tomavam aquele espaço que acabou por se mostrar excepcionalmente bom, mais uma expectativa negativa que seria revertida na época. Logo no primeiro dia passaram pelos pavilhões 186.672 visitantes aos quais se somariam outros até chegar à cifra de quase 10 milhões de pessoas do público total, equivalente a quase 1/5 da população americana, superando o número de expectadores de todas as exposições anteriores. O ápice da solenidade de inauguração foi a demonstração da máquina Corliss, um gerador de energia que provia as exibições no “Machinery Hall”, o salão de máquinas. Acionado pelo imperador brasileiro e pelo presidente americano conseguiu deixar em suspenso o poeta Walt Whitman que, sensível aos efeitos do progresso, permaneceu em silêncio por longos minutos diante daquela que era a maior máquina já vista(4).

América, Américas

A América do Norte era parte do Novo Mundo, mas se colocava ao lado das grandes potências europeias no desenvolvimento industrial, no domínio da técnica, impondo-se
simultaneamente como celeiro da humanidade. Em resposta à tese da inferioridade da América, do continente imaturo, na senda aberta por Buffon e trilhada por outros naturalistas, a disputa do Novo Mundo iria se modificar ao longo do século XIX. Por um lado, as ciências naturais começavam a se emancipar da rigidez das ideias climáticas, por outro, o desenvolvimento social e político dos Estados Unidos e a vitalidade dos países hispano-americanos contradiziam as habituais caracterizações da América, especialmente dos Estados Unidos, mesmo que a aversão europeia
permanecesse e migrasse das considerações sobre a natureza física para as sociedades (5). Contudo, enquanto o romantismo norte-americano emprestaria um caráter original à sua natureza e literatura, era recente o massacre dos indígenas e a escravidão praticada nos estados do sul. Indígenas e negros seriam exibidos como elementos exóticos e à parte da sociedade em Filadélfia, de onde igualmente se propagaria a voz dos homens de negócios, dos líderes políticos, das corporações, num elogio do progresso tecnológico e da nacionalidade. Eram realidades percebidas como indissociáveis, segundo a fórmula de que “escravizar os negros e dominar os índios, arrebatando-lhes a terra, não era apenas um direito, mas um dever dos brancos, civilizados e superiores, de instaurarem uma ordem social mais ‘avançada’” (6).

No campo das relações internacionais, sobretudo da política norte-americana para seus vizinhos ao sul, a partir da formulação da Doutrina Monroe de 1823 e ao longo do século XIX, não houve grandes variações. Pautaram-se de modo contínuo “por três principais preocupações: a segurança nacional, os interesses financeiros e a política doméstica”( 7).  Marcadas pela distância e pela barreira da língua, os contatos entre os dois países foram rotineiros, com um volume modesto de transações, não obstante o Brasil figurar como o maior parceiro comercial dos americanos na região. E se o Império tinha pouca importância estratégica para os Estados Unidos, por sua vez o Brasil relacionava-se prioritariamente com a Europa, situação que começaria a se transformar a partir de 1875 com a melhora nas comunicações e o reconhecimento da relevância que a economia americana poderia ter para os interesses brasileiros:

 

A tendência a uma maior aproximação também é corroborada pela visita do imperador Dom Pedro II aos Estados Unidos em 1876, em virtude das comemorações do centenário da independência estadunidense. Embora faltasse uma motivação política real para a visita, assuntos como a expansão do comércio entre os países foram tratados(8).

 

Para os americanos, a organização de uma exposição internacional comemorativa do centenário da independência reafirmava seu lugar junto às economias centrais, enquanto a disposição dos pavilhões do Brasil e do México, instalados à frente do país anfitrião podia ser interpretada como um passo em direção aos vizinhos. Do lado brasileiro o país contava, para sua visibilidade, com três locais para ostentação de seus produtos e atividades, a começar pelo estande interno ao edifício principal do parque. Em diversas imagens dessa série constatamos que o país ocupava uma construção mourisca, vinculando-nos a uma origem sem dúvida, alheia, no entanto, aos elementos normalmente associados à ex-colônia. Imponente, portando os nomes das províncias nas divisões internas e por toda fachada externa, deixando entrever vitrines e produtos, foi criado pelo arquiteto americano Frank Furness que se valeu do estilo em voga: “empregou seus temas islâmicos favoritos no pavilhão brasileiro: o arco em ferradura e o arco ogival, ameias, superposição de colunas com seção quadrada sobre outras de seção circular para criar altura […] pastilhas de vidro coloridas e ornamentos florais” (9)

 

 

Outro edifício, de autoria de Hermann J. Schwarzmann, arquiteto-chefe da exposição ficava em meio ao parque; registrado em um ângulo lateral, tendo ao fundo árvores nuas
e à frente o brasão do Império, erguia-se em dois andares, completamente americano, “com bow-windows, estrutura em madeira, colunas esbeltas na varanda elevada e perfis
em relevo marcando “almofadas” na parede”. Como escreve Niuxa D. Drago, o ecletismo permitia a todos os países adotar a sua “identidade arquitetônica”, o que não foi seguido pelo Brasil, que mostrou opulência, e não o que se poderia chamar de uma arquitetura nacional (10).

 

 

O registro dessas construções do Brasil e de todo o evento é de autoria da empresa Centennial Photographic Company, presidida por W. Notman, fotógrafo canadense já bastante conhecido nos Estados Unidos. Ele se tornou ainda mais popular ao se juntar ao empresário da fotografia Edward Wilson na firma contratada com exclusividade pelo estado da Pensilvânia. William Notman e seus associados tinham assim o direito de anunciar e vender o catálogo de vistas da exposição, além de deter os direitos sobre todo o trabalho fotográfico feito em Fairmont Park ( 11).

Café Brasil

Na série de onze fotografias, duas especialmente dialogam entre si e são as únicas a incluir pessoas. A mais famosa foi tirada do pavilhão “Caffé do Brazil” e é, por sua vez, uma das duas ao ar livre. Exibindo frequentadores bem trajados, distribuídos em mesinhas à porta, simulam esse hábito cotidiano em ascensão, incorporado à vida social e urbana dos grandes centros da Europa e dos Estados Unidos. Enquanto em primeiro plano somos atraídos para a louça, chapéus, bengalas e poses, ao fundo, próximos à máquina de café, se distinguem um homem de cavanhaque e uma mulher. Trata-se do capitão da Guarda Nacional Luiz Ribeiro de Souza Rezende (1827-1891), filho do marquês de Valença, militar condecorado na Guerra do Paraguai com as comendas da
Ordem da Rosa e da Ordem de Cristo, acompanhado por sua esposa Maria Ambrosina da Motta Teixeira. Segundo matéria publicada quase um século depois no jornal Correio da Manhã, Rezende recebeu três contos de réis de ajuda da Comissão Brasileira para servir o “genuíno café” (além de mate e chá) no Fairmount Park. Era um modo de promover os 71 expositores de café que vinham do Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia, Pernambuco e Ceará e, portanto, embora fossem inevitáveis os prejuízos face os custos de manutenção e ao fornecimento gratuito, isso, segundo o Correio, não preocupava o brasileiro, “que na propaganda era auxiliado por sua mulher, d. Maria Ambrosina da Mota Teixeira de Rezende e os dois filhos, Carlos e Amélia” (12).

 

 

O sucesso do principal produto de exportação da economia brasileira, responsável pelos superávits alcançados até em períodos de grande oscilação dos preços, devia-se em parte à oferta do café já empacotado e torrado, pronto para o consumo a partir de 1865. Em seu curso ininterrupto e devastador das matas, ao longo do século o café garantiu a obtenção de empréstimos no exterior. Outros produtos como o açúcar, o algodão e o fumo estavam no topo do quadro de exportações, sendo que, na década de 1871 a 1880, o café correspondia a 56,6% do valor, seguido de longe pelo açúcar, com 11,8%, e pelo algodão, que participava com 4,2% (13). Esse último decorou em profusão a seção brasileira no pavilhão agrícola . Em meio às muitas ramagens de algodão um quadro de produtos de exportação do Império fornece os valores em moeda estrangeira. Inclui couro, tabaco, borracha, erva-mate, diamantes e outros, em seguida aos três principais itens. Além dos produtos agrícolas, minérios, itens manufaturados como mobiliário, vestuário, material bélico (munição) dividiam espaço com quadros, gravuras, mapas e fotografias.

 

 

Entre as províncias mais empenhadas na preparação que antecedeu Filadélfia, estavam o Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul coerentemente com os principais polos econômicos e com a situação política do Brasil dos anos 1870. De modo geral foi grande o entusiasmo dos políticos e da classe senhorial com a presença brasileira no evento, quando se procurou mostrar todo o potencial do país, mesmo que as riquezas naturais ficassem em primeiro plano e que, a despeito de Brasil e Estados Unidos serem as maiores nações da América do Sul e do Norte, a discrepância entre ambas fosse inegável: “para a tropical monarquia dos Bragança, a Exposição foi muito além da expectativa dos povos europeus. Enfim, a modernidade atravessava o oceano e

comprovava-se ser possível a aventura do progresso em terras americanas. Os Estados Unidos, que também haviam sido colônias d’-mar, eram o exemplo vivo de que era possível acompanhar o trem da história”(14). Ainda para Sandra Pesavento a estrela da exposição foi Pedro II que se notabilizou pela admiração demonstrada ante o invento de Alexander Graham Bell, conquistando a simpatia de muitos, mas não de todos, como os chargistas da Harper´s Bazaar, que não pouparam o séquito de brasileiros que cercavam o imperador, desenhando-os com cabeças de burros. Finalmente, acrescenta a autora, não houve apenas entusiasmo. A Comissão Brasileira admitia em relatório que o sucesso eventualmente obtido se atribuía às riquezas naturais e não aos produtos da indústria, o que não deixava de ser uma depreciação do uso da mão de obra de escravizados no país (15).

A imagem que constrói uma narrativa com o “Caffé do Brazil” tem ao centro o tear no qual Maria Ambrozina, natural de Sabará, Minas Gerais, ensina a tecer a seda. Casada com Luís Ribeiro S. Rezende, ela participou das demonstrações que envolviam os dois negócios de interesse da família. Membro da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional – SAIN à época da escolha dos membros da Comissão das Exposições (16) , o capitão era o proprietário da Imperial Companhia Seropédica Fluminense, em Itaguaí, salva da falência por sucessivas doações de loterias concedidas pela assembleiafluminense. A compra da companhia explica o estande e a tabuleta “Estabelecimento Seropédico Bananal de Itaguaí”. Bem próxima a ela está o quadro anunciando o “Café Luís Ribeiro de Souza Rezende”, tradução da simbiose entre o café e os estabelecimentos manufatureiros que começam a prosperar ao final do século. Esse talvez seja, afinal, o registro mais importante da participação brasileira em Filadélfia, no qual, a despeito da postura ensaiada, diversos entre os presentes deixaram apenas um rastro, o vulto tremido, comum na fotografia oitocentista e alusiva ao modo de inserção do Império na grande feira.

 

 

(1) MACHADO, Marina Monteiro; MARTINS, Monica de Souza Nunes. A modernidade nas teias da floresta: o Brasil na exposição Universal da Filadélfia de 1876. Geosul, Florianópolis, v. 32, n. 65, p. 68-86, nov. 2017. ISSN 2177-5230. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/geosul/article/view/2177-5230.2017v32n65p68>. Acesso em: 4 jul. 2018.

(2) SANJAD, Nelson. Exposições internacionais: uma abordagem historiográfica a partir da América Latina. Hist. cienc. saúde-Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 24, n. 3, p. 785-826, set. 2017. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702017000300785&lng=pt&nrm=iso> Acessos em 3 jul.2018

(3) RYDELL, Robert W. The Centennial Exhibition, Philadelphia, 1876: the exposition as a “moral influence”;. In: All the world's a fair: visions of empire at american international expositions, 1876-1916.Chicago: The University os Chicago Press, 1984, p. 11.

(4) Idem, p. 9.

(5) Cf. GERBI, Antonello. La disputa del Nuevo Mundo, 1750-1900. México, Fondo de Cultura Económica, 1960.

(6) PESAVENTO, Sandra Jatahy. Imagens da nação, do progresso e da tecnologia: a Exposição Universal de Filadélfia de 1876. Anais do Museu Paulista. São Paulo. N. Ser. v.2 p.151-167 jan./dez. 1994, p. 158.

(7) BIANCHET Jr., Antonio Battisti. As relações EUA-América Latina na segunda metade do século XIX. Um estudo através dos casos de Argentina e Brasil. Anais do V Congresso Internacional de História. UEL. Set, 2011, p. 551 Disponível em http://www.cih.uem.br/anais/2011/trabalhos/246.pdf. Acesso em 17/10/2019

(8) Idem, p. 556

(9) DRAGO, Niuxa Dias. Arquitetura e cenografia na representação do Brasil: pavilhões brasileiros de Londres a Milão. O Percevejo Online. Rio de Janeiro, v. 8, n. 1, jan. / jun. 2016, p. 37. Disponível em http://www.seer.unirio.br/index.php/opercevejoonline/article/view/5758. Acesso em 16/10/2019

(10) Idem, p. 38

(11) HALL, R., DODDS, G., TRIGGS, S. The world of William Notman: the nineteenth century through a master lens. Boston : D.R. Godine, 1993, p. 44.

(12) Café e seda do Brasil em 1876 fizeram propaganda em Filadélfia. Rio de Janeiro, 30 de outubro de 1960. Correio da Manhã. Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=089842_07&pasta=ano%20196&pesq=Caf%C3%A 9%20e%20seda. Acesso em 20 de outubro de 2019.

(13) FARIA, Sheila de Castro. Exportações. In: VAINFAS, Ronaldo (Dir.). Dicionário do Brasil Imperial. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002, p. 248

(14) PESAVENTO, Sandra Jatahy. Op. cit., p. 162

(15) Idem.

(16) O Auxiliador da Indústria Nacional: ou coleção de memorias e notícias interessantes (RJ) – 1833 a 1896 Sessão da Assemblea Geral em 31 de dezembro de 1875. Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/Hotpage/HotpageBN.aspx?bib=302295&pagfis=24711&url=http://memoria.bn.br/docreader#. Acesso em 20 de outubro de 2019

 

Claudia B. Heynemann  é Doutora em História e Pesquisadora do Arquivo Nacional

 

Fotógrafos que representaram o Brasil na Exposição Internacional da Filadélfia de 1876 

As fotografias produzidas por Marc Ferrez (1843 – 1923) para a Comissão Geológica do Império e Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912) foram premiados na Exposição de 1876. Uma curiosidade: a comissão de organização da Exposição da Filadéfia modificou as regras da premiação: os ganhadores receberam um diploma, uma medalha de bronze e uma cópia certificada do parecer do júri, rompendo com o padrão de premiação hierárquica.

Além deles, representaram o Brasil Felipe Augusto Findanza (c. 1847 -1903), um dos mais importantes fotógrafos que atuaram no norte do Brasil no século XIX e no início do século XX; José Tomás Sabino (18? – ?), cujo ateliê ficava em Belém; Luís Terragno (18? – ?), um dos fotógrafos pioneiros do Rio Grande do Sul; e Pedro Satyro de Souza da Silveira (18? – ?), que atuou no Rio de Janeiro nas décadas de 1870 e 1880. Expuseram no Photographic Exhibition Building, prédio projetado pelo arquiteto H.J. Schwarzmann (1846 – 1891), especialmente construído para a mostra dos fotógrafos da Exposição Internacional da Filadélfia que aconteceu entre 10 de maio e 10 de novembro de 1876, tendo sido a mais popular das exposições internacionais realizadas até então, com 9.789.392 visitantes. O Brasil foi uma das onze nações que construíram edifícios para o evento. Os outros foram Canadá, França, Alemanha, Grã-Bretanha, Japão, Portugal, Espanha, Suécia, Tunísia e Turquia. Participaram também da Exposição a Argentina, Austrália, Áustria, Bélgica, Bolívia, Chile, China, Colômbia, Dinamarca, Egito, Equador, Estado Livre de Orange, Grécia, Guatemala, Holanda, Honduras, Ilhas Sanduíche, Itália, Libéria, México, Nicarágua, Noruega, Peru, Rússia, Suíça e Venezuela.

 

Links para artigos publicados na Brasiliana Fotográfica sobre a participação do Brasil em outras exposições no exterior:

Paris, 1889: o álbum da exposição universal – Claudia Beatriz Heynemann – 27 /07/ 2018 –, Arquivo Nacional

A festa do progresso: o Brasil na Exposição Continental, Buenos Aires, 1882 – Maria do Carmo Rainho – 29/03/2018, Arquivo Nacional

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Os 180 anos da invenção do daguerreótipo – Os álbuns da Comissão Geológica do Império com fotografias de Marc Ferrez

Para comemorar os 180 anos do daguerreótipo, invento que revolucionou em pouco tempo e para sempre a forma do registro do mundo e de seus habitantes, inundando nosso planeta de imagens fotográficas, a Brasiliana Fotográfica apresenta a seus leitores dois artigos. Nesse segundo, o portal traz para seus leitores os dois álbuns da Comissão Geológica do Império, que pertencem ao J. Paul Getty Museum, localizado em Los Angeles, nos Estados Unidos. Foram disponibilizados em alta resolução através do Programa de Conteúdo Aberto do Getty e as fotografias foram produzidas por Marc Ferrez (1843 – 1923), que integrou a expedição, chefiada por Charles Frederick Hartt (1840 – 1878).

Segundo Sérgio Burgi, coordenador de Fotografia do Instituto Moreira Salles, já com pleno domínio de sua virtuosidade técnica, Ferrez realizou para a comissão um primoroso trabalho documental e paisagístico:

‘…Seu domínio da luz, sua precisão na escolha do ponto de vista, sempre buscam ressaltar os aspectos mais formais e abstratos da cena sendo registrada. É igualmente importante ressaltar que em diversas imagens realizadas por Ferrez, sempre o elemento humano participa de maneira discreta porém marcante, conferindo escala aos cenários naturais e urbanos, e principalmente nos convidando a percorrer a imagem em todas as suas dimensões…Os trabalhos realizados em Paulo Affonso, Pernambuco, Recôncavo Baiano, Abrolhos e sul da Bahia representam um grande esforço documental e registram, além dos aspectos mais claramente geológicos, paisagens naturais e vistas urbanas de grandes cidades e pequenas povoações daquelas regiões, além de elementos antropológicos e etnográficos, como a série dos índios botocudo… Essas imagens também foram utilizadas para ilustrar  a conferência do professor Charles Frederick Hartt durante a IV Exposição Nacional, no Rio de Janeiro… Da mesma maneira, diversas imagens fizeram parte da Exposição Universal da Filadélfia, EUA, em 1876, que contou com a presença de D. Pedro II…’

 

Links para os álbuns da Comissão Geológica do Império, que pertencem ao J. Getty Museum e estão no site da instituição: Primeiro álbum e Segundo álbum

Links para os pdfs dos álbuns da Comissão Geológica do Império, que pertencem ao J. Getty Museum:  Primeiro álbum e Segundo álbum

 

 

Um pouco da história da Comissão Geológica do Império (1875 – 1878), de seu chefe, Charles Frederick Hartt (1840 – 1878), e da participação de Marc Ferrez (1843 – 1923) como fotógrafo da expedição

 

 

Em 1874, Charles Frederick Hartt (1840 – 1878), realizou uma expedição científica ao Brasil, durante a qual convenceu as autoridades brasileiras da importância da elaboração de um mapa geológico do Império. Antes, Hartt havia vindo ao Brasil quatro vezes. Pela primeira vez, como membro da Expedição Thayer, entre 1865 e 1866, financiada pelo empresário e filantropo norte-americano Nathaniel Thayer, Jr. (1808-1883) e chefiada por seu ex-professor no Museu de Zoologia Comparada, em Harvard, o suíço Louis Agassiz (1807 – 1873), quando ocupou-se sobretudo em fazer um mapeamento geológico da área do Rio de Janeiro até o norte da Bahia. Em 1867, já estabelecido como conferencista no Instituto Cooper, em Nova York, voltou ao Brasil, de maneira independente, e durante três meses examinou a costa entre Pernambuco e Rio, explorando mais particularmente as vizinhanças da Bahia e as ilhas e recifes do coral dos Abrolhos. EEm 1868, tornou-se professor de História Natural no Vassar College e também da Universidade de Cornell.  Em 1870 e em 1871, chefiou as Expedições Morgan ao Amazonas, financiadas pelo político norte-americano Edwin D. Morgan (1811- 1883) .

Além de ter obtido sucesso em seu pleito junto ao Governo Imperial, Hartt conseguiu criar a Comissão Geológica do Império, pelo Aviso de 30 de abril de 1875. Como a comissão estaria ligada ao Ministério da Agricultura, o desenvolvimento das atividades agrícolas e mineradoras a partir do conhecimento que a geologia propiciaria foi um argumento decisivo para sua criação. Foi convidado para chefiá-la e foram nomeados como seus assistentes os geólogos Orville Adalbert Derby (1851 – 1915) e Richard Rathbun (1852-1918) – ambos da Universidade de Cornell -, que chegaram ao Brasil em fins de 1875; John Casper Branner (1850-1922), do Departamento de Botânica e Geologia da Universidade de Indiana; e os brasileiros Elias Fausto Pacheco Jordão (1849 – 1901), que havia se doutorado em 1874 em engenharia civil na Universidade de Cornell, e Francisco José de Freitas, assistente geral e tradutor. Integraram, também, o corpo técnico da comissão os geólogos Luther Wagoner, substituto de Pacheco Jordão, em 1876, que foi posteriormente substituído por Frank Carpenter; o naturalista Herbert Huntington Smith (1851-1919), e o fotógrafo Marc Ferrez (1843-1923). Segundo Gilberto Ferrez, foi durante as viagens que fez com a Comissão Geológica que Marc Ferrez contraiu uma doença no fígado, da qual nunca se curou.

A Comissão, criada em abril de 1875, iniciou seus trabalhos ativos em 10 de junho de 1875 e percorreu os atuais estados de Alagoas, Bahia, Fernando de Noronha, Paraná, Pernambuco, Rio Grande do Norte, São Paulo, Santa Catarina, Sergipe, e parte da região amazônica nessa importante missão científica realizada no Brasil sob os auspícios do governo imperial, que gerou a primeira grande representação fotográfica de diversas regiões do território brasileiro (Illustração Brasileira, 1º de agosto de 1876). O governo decretou o fim da Comissão em 1º de julho de 1877 (Diário do Rio de Janeiro, 7 de julho de 1877, quarta coluna). Segundo Rathbun, o fato aconteceu devido a motivos econômicos e a discordâncias em torno do volume e do valor do trabalho realizado até ali pela comissão. Porém Hartt conseguiu seis meses de prorrogação nos trabalhos. No início de janeiro de 1878, com a formação do novo gabinete liberal, sob o comando do primeiro-ministro João Lins Vieira de Cansanção, o visconde de Sininbu (1810 – 1906), que também era ministro da Agricultura, sua extinção foi efetivada. Segundo Hartt, em junho de 1877,  as coleções zoológicas, geológicas e etnográficas feitas pela Comissão Geológica possuíam cerca de 500 mil espécimes.

Hartt foi contratado como naturalista-viajante do Museu Nacional do Rio de Janeiro, por volta de 1874. Em 1876, assumiu a Seção de Geologia, criada pela reforma do botânico Lasdilau de Souza Mello Netto (1838 – 1894), e reorganizou as coleções e preparou a mostra mineralógica brasileira apresentada na Exposição Universal de Filadélfia de 1876. Faleceu em 18 de março de 1878, um domingo, no Rio de Janeiro, de febre amarela, em sua casa no número 44 da rua da Princesa, atual Correia Dutra, no Flamengo (O Vulgarizador, 15 de maio de 1878) . Os professores e demais funcionários do Museu Nacional deliberaram tomar luto por oito dias (Gazeta de Notícias, 19 de março de 1878, segunda e penúltima colunaJornal do Commercio, 19 de março de 1878, quarta colunaRevista Illustrada, 30 de março de 1878; e O Vulgarizador, 15 de maio de 1878). Morreu sem sua família porque  sua mulher, Lucy Lynde Hartt, com quem havia se casado em 1869, havia voltado com os dois filhos do casal, Mary and Rollin, para Buffalo, nos Estados Unidos, em dezembro de 1876  – não suportou os períodos de solidão, os mosquitos, as doenças e os desconfortos do Rio de Janeiro. Quando partiu do Brasil, ela estava grávida de gêmeos mas a gravidez não se completou, o que trouxe grande tristeza para o casal. Hartt foi enterrado no cemitério de São Francisco Xavier mas, a pedido de sua esposa, seu corpo foi transladado para os Estados Unidos, em 1883.

Suas coleções foram colocadas sob a guarda do Museu Nacional do Rio de Janeiro, única instituição da época capaz de receber intelectual e fisicamente todo o trabalho da Comissão Geológica.

Acessando o link para as fotografias de Marc Ferrez realizadas para a Comissão Geológica do Império disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Breve cronologia da participação de Marc Ferrez nos trabalhos da Comissão Geológica do Império

 

 

1875 – Ferrez começou a trabalhar como fotógrafo da Comissão Geológica do Império, chefiada pelo norte-americano Charles Frederick Hartt (1840 – 1878), que se tornaria diretor da Seção de Geologia do Museu Nacional em 1876. Percorreu os atuais estados de Alagoas, Bahia, Pernambuco e parte da região amazônica numa importante missão científica realizada no Brasil sob os auspícios do governo imperial, que gerou a primeira grande representação fotográfica de diversas regiões do território brasileiro.

Marc Ferrez e outros membros da Comissão Geológica do Império embarcaram no paquete Parácom destino a Pernambuco (Jornal do Commercio, 10 de julho de 1875, na segunda coluna). Ele, Elias Fausto Pacheco Jordão, Francisco José de Freitas e Charles Frederick Hartt, todos membros da Comissão, agradeceram, publicamente, ao “digno comissário” J. Feliciano Gomes, que os recebeu no navio (Jornal do Recife, 26 de julho de 1875, na quarta coluna).

Foi publicado o relatório preliminar dos trabalhos da Comissão Geológica na província de Pernambuco, de autoria de Hartt. Ferrez foi mencionado (Diário de Pernambuco, 25 de novembro de 1875, na primeira coluna).

As fotografias produzidas por Marc Ferrez para a Comissão Geológica, mostradas durante uma visita do governador, do chefe da Polícia e do Diretor de Obras de Pernambuco na residência de Haart no Recife, foram muito elogiadas: “Rara vez um fotógrafo é tão feliz na reprodução dos quadros naturais como o Sr. Ferrez o foi neste trabalho, do qual com justiça se deve se regozijar” (Diário do Rio de Janeiro, 30 de novembro de 1875, segunda coluna).

 

 

Na residência do inspetor do arsenal de Marinha, em Recife, o chefe da Comissão Geológica do Império, Charles Frederick Hartt, fez uma conferência sobre os arrecifes e outros aspectos de Pernambuco como o cabo de Santo Agostinho, praias, o rio São Francisco e a cachoeira de Paulo Afonso, ilustrados com fotografias de Marc Ferrez (Diário do Rio de Janeiro, 2 de dezembro de 1875, nas quinta e sexta coluna, sob o título “Norte do Império”).

Ferrez  apresentou na seção de Obras Públicas da IV Exposição Nacional, dois álbuns com imagens dos recifes de Pernambuco, do baixo São Francisco e da cachoeira de Paulo Afonso, além de registros de corais e madrepérolas. As imagens produzidas durante a viagem da Comissão Geológica foram projetadas por Ferrez durante uma conferência do professor Hartt (Diário do Rio de Janeiro, 27 e 28 dezembro de 1875, primeira colunaO Globo, 4 de janeiro de 1876, na penúltima coluna, e Diário do Rio de Janeiro, 3 de fevereiro de 1876, quarta coluna).

1876 -  Apresentou na Exposição Universal da Filadélfia, aberta em 10 de maio, panoramas do Rio de Janeiro e fotografias realizadas para a Comissão Geográfica do Império, que foram premiadas. O New York Commercial Advertiser, de 29 de maio de 1876, publicou um artigo que informava que “riquíssimas fotografias da exploração geológica a cargo do professor Hartt” haviam sido apresentadas pelo Brasil na exposição. Uma curiosidade: a comissão de organização da Exposição da Filadéfia modificou as regras da premiação: os ganhadores receberiam um diploma, uma medalha de bronze e uma cópia certificada do parecer do júri, rompendo com o padrão de premiação hierárquica.

Foi publicada uma fotografia de autoria de Ferrez da cachoeira de Paulo Afonso na Revista Ilustração Brasileira, 1º de agosto de 1876, acompanhada por um texto de Charles Frederick Hartt (1840 – 1878), chefe da Comissão Geológica do Império. Na mesma edição, publicação de matéria sobre a Comissão Geológica do Império.

Ferrez havia chegado do sul da Bahia com o geólogo Richard Rathbum, também ajudante da Comissão Geológica, com diversas fotografias dos índios botocudo, dentre outras (Revista Ilustração Brasileira, 1º de novembro de 1876, na última coluna). Essas teriam sido as primeiras imagens desses índios produzidas no Brasil (Palcos e Telas, 8 de abril de 1920). Botocudo foi um termo genérico utilizado pelos colonizadores portugueses para denominar diversos grupos indígenas integrantes do tronco macro-jê (grupo não tupi), caracterizados pelo uso de botoques labiais e auriculares, habitantes originais do sul da Bahia e região do vale do rio Doce, incluindo o norte do Espírito Santo e Minas Gerais. A série de fotografias de indígenas tirada por Marc Ferrez na Bahia, durante uma segunda etapa de viagens realizadas por ele para a Comissão Geológica do Império do Brasil, no final de 1876, compõe um conjunto de  registros fotográficos pioneiros e raros dessas tribos, que se mantiveram isoladas e resistentes ao contato com os brancos, sendo violentamente perseguidas e praticamente  dizimadas nas primeiras décadas do século XX.

 

 

 

 

1877 – Publicação da fotografia do farol da Barra da Bahia, de autoria de Marc Ferrez, na capa da Revista Ilustração Brasileira, 15 de janeiro de 1877.

 

 

 

O governo decretou o fim da Comissão em 1º de julho de 1877 e em janeiro do ano seguinte sua extinção foi efetivada.

Publicação de uma matéria sobre o trabalhos da Comissão Geológica do Império e sobre o local onde estavam guardados e onde os membros da comissão cuidavam de sua classificação, estudo e do desenvolvimento, na rua da Constituição, nº 41, visitado pelo imperador Pedro II, no dia 27 de outubro. Foi mencionada a existência de um laboratório fotográfico, “grande e espaçoso…nele estão guardados algumas centenas de clichês , feitos no campo pelos Srs. Ferrez e Branner e no laboratório pelo Sr. Ratbunn (Rathbun), que hoje toma conta dessa parte do serviço da comissão” (O Vulgarizador, 3 de novembro de 1877). O imperador já havia visitado o local dos trabalhos da Comissão, em 30 de julho de 1877 (Diário do Rio de Janeiro, 31 de julho de 1877, segunda coluna).

1878 – No Almanak Laemmert de 1878, Ferrez foi identificado como fotógrafo da Marinha Imperial e da Comissão Geológica. Seu estabelecimento ficava na rua São José, 88 com depósito na rua do Ouvidor, 55.

Foi noticiada a morte de Charles Frederick Hartt, que havia sido o chefe da Comissão Geológica do Império. Ferrez foi mencionado (A Boa Nova, 24 de abril de 1878, na terceira coluna).

1879 -  Em inglês, foram publicados anúncios das fotografias de Ferrez no jornal Rio News de 5 de agosto, de 15 de setembro15 de outubro5 de novembro, mencionando que ele havia recebido uma medalha na Exposição da Filadélfia e que havia sido fotógrafo da Comissão Geológica do Império. Os anúncios seguiram sendo publicados em 1880 e 1881.

 

 

Publicações da Brasiliana Fotográfica em torno da obra do fotógrafo Marc Ferrez 

O Rio de Janeiro de Marc Ferrez, publicada em 30 de junho de 2015

Obras para o abastecimento no Rio de Janeiro por Marc Ferrez , publicada em 25 de janeiro de 2016

O brilhante cronista visual Marc Ferrez (7/12/1843 – 12/01/1923), publicada em 7 de dezembro de 2016

Do natural ao construído: O Rio de Janeiro na fotografia de Marc Ferrez, de Sérgio Burgi, publicada em 19 de dezembro de 2016

No primeiro dia da primavera, as cores de Marc Ferrez (1843 – 1923), publicada em 22 de setembro de 2017

Marc Ferrez , a Comissão Geológica do Império (1875 – 1878) e a Exposição Antropológica Brasileira no Museu Nacional (1882), publicada em 29 de junho de 2018

O quiosque Chopp Berrante no Passeio Público, Ferrez, Malta e Charles Dunlop, publicada em 20 de julho de 2018

Uma homenagem aos 175 anos de Marc Ferrez (7 de dezembro de 1843 – 12 de janeiro de 1923), publicada em 7 de dezembro de 2018 

Pereira Passos e Marc Ferrez: engenharia e fotografia para o desenvolvimento das ferrovias, publicado em 5 de abril de 2019

Fotografia e ciência: eclipse solar, Marc Ferrez e Albert Einstein, publicado em 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

 

CASTRO, Danielle Ribeiro. Photographos da Casa Imperial: a Nobreza da Fotografia no Brasil do Século XIX, 2013

Charles F. Hartt e a Comissão Geológica do Império (Youtube)

FREITAS, Marcus Vinícius. Hartt: expedições pelo Brasil Imperial 1870 – 1878, 2001. São Paulo : Metalivros

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

SANJAD, Nelson. Charles Frederick Hartt e a institucionalização das ciências naturais no Brasil, maio/agosto de 2004. Rio de Janeiro: História, Ciências, Saúde-Manguinhos, volume 11, nº2

SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

Serviços Geológicos nos trópicos: a experiência brasileira

 

 

Os 180 anos do invento do daguerreótipo – Pequeno histórico e sua chegada no Brasil

Para comemorar os 180 anos do daguerreótipo, invento que revolucionou em pouco tempo e para sempre a forma do registro do mundo e de seus habitantes, inundando nosso planeta de imagens fotográficas, a Brasiliana Fotográfica apresenta a seus leitores dois artigos. Nesse primeiro, o portal conta a história do Dia Internacional da Fotografia e também da chegada ao Brasil, em 1840, do daguerreótipo, processo fotográfico desenvolvido por Joseph Nicèphore Niépce (1765-1833) e Louis Jacques Mandé Daguerre (1787-1851). O anúncio da invenção foi feito por François Arago (1786 – 1853), secretário da Academia de Ciências da França, em 19 de agosto de 1839.  Em 1864, em uma crônica reproduzida nesse artigo, o escritor Machado de Assis (1839 – 1908) perguntou “Até onde chegará o aperfeiçoamento do invento de Daguerre?”

 

 

  Sobre o Dia Internacional da Fotografia, a invenção do daguerreótipo e sua chegada no Brasil

 

Câmara de daguerreótipo Succe Frères, de 1939 / Westlicht Photography Museum, em Viena, na Áustria

Câmara de daguerreótipo Succe Frères, de 1939 / Westlicht Photography Museum, em Viena, na Áustria

 

A data escolhida para a comemoração do Dia Internacional da Fotografia tem sua origem no ano de 1839, quando, em 7 de janeiro, na Academia de Ciências da França, foi anunciada a descoberta da daguerreotipia, um processo fotográfico desenvolvido por Joseph Nicèphore Niépce (1765-1833) e Louis Jacques Mandé Daguerre (1787-1851). Cerca de sete meses depois, em 19 de agosto, durante um encontro realizado no Instituto da França, em Paris, com a presença de membros da Academia de Ciências e da Academia de Belas-Artes, o cientista François Arago, secretário da Academia de Ciências, explicou o processo e comunicou que o governo francês havia adquirido o invento, colocando-o em domínio público e, dessa forma, fazendo com que o “mundo inteiro” tivesse acesso à invenção. Em troca, Louis Daguerre e o filho de Joseph Niépce, Isidore, passaram a receber uma pensão anual vitalícia do governo da França, de seis mil e quatro mil francos, respectivamente. Um daguerreótipo consiste em uma imagem única e positiva, formada diretamente sobre placa de cobre, revestida com prata e, em seguida, polida e sensibilizada por vapores de iodo. Depois de exposta na câmera escura, a imagem é revelada por vapores de mercúrio e fixada por uma solução salina.

 

A descoberta que comunico ao público está entre as poucas que, por seus princípios, seus resultados e a promissora influência que deverá exercer sobre as artes, se situam naturalmente entre as mais úteis e extraordinárias invenções…“.

Louis Daguerre, 1838

 

A velocidade com que a notícia do invento do daguerreótipo chegou ao Brasil é curiosa: cerca de quatro meses depois do anúncio da descoberta, foi publicado no Jornal do Commercio, de 1º de maio de 1839, sob o título “Miscellanea”, na segunda coluna, um artigo sobre o assunto – apenas 10 dias após de ter sido assunto de uma carta do inventor norte-americano Samuel F. B. Morse (1791 – 1872), escrita em Paris em 9 de março de 1839 para o editor do New York Observer, que a publicou em 20 de abril de 1839.

A introdução da daguerreotipia no Brasil se deu com a chegada do navio L’Oriental-Hydrographe, navio-escola da Marinha Mercante da França, em fins de 1839, sob o comando  do  capitão Augustin  Lucas (1804-1854?), que havia estado no ateliê de Daguerre em 1839. A viagem de circunavegação pensada como uma escola flutuante começou a ser planejada em 1838, quando seu projeto, pedagógico e mercantil, foi apresentado ao ministro da Marinha francesa, Claude Rosamel (1774 – 1848).

Segundo a historiadora Maria Inez Turazzi, a presença do daguerreótipo a bordo assim como a de outros instrumentos inovadores, não foi casual ou improvisada, porém fruto de uma complexa rede de interesses diplomáticos, transações comerciais e intercâmbios científicos. É possível afirmar que a viagem de circunavegação do Oriental-Hydrographe teve início com a expectativa de consagrá-la como a primeira do gênero a utilizar a fotografia como meio de registro da experiência

O Estatuto de admissão ao navio Hydrographe que fará a volta ao mundo sob o comando do capitão Lucas informa que os alunos a bordo seriam divididos em quatro seções, de acordo com o grau de instrução que tivessem recebido a partir de um exame realizado por professores de diferentes disciplinas antes do embarque. Esses professores pertenceriam aos quadros da universidade e estariam associados à expedição. Os alunos fariam estudos iguais aos dos colégio reais e aprenderiam línguas estrangeiras e conhecimentos específicos de marinha e comércio durante a viagem.

L’Oriental, um navio de três mastros, partiu do porto de Paimboeuf, nas proximidades da cidade francesa de Nantes, em 25 de setembro de 1839, com cerca de 80 pessoas a bordo, entre tripulação e passageiros. A previsão de duração da viagem era de dois anos e meio. Durante o mês de outubro, atracou em Lisboa, no dia 7, e na Ilha da Madeira, no dia 23. Posteriormente, fez escalas em Tenerife e na Ilha da Goreia (Senegal), de onde veio para o Brasil. Chegou no Recife, em 30 de novembro (Diário de Pernambuco, 2 de dezembro de 1839, última coluna), tendo zarpado no dia 4 de dezembro rumo a Salvador, onde chegou no dia 7 (Correio Mercantil (BA), 10 de dezembro de 1839, segunda coluna), permanecendo até 17 de dezembro (Correio Mercantil (BA), 18 de dezembro de 1839, última coluna) – entre essas duas cidades brasileiras ocorreu a única morte registrada da viagem, a de um estudante belga.

O navio chegou no Rio de Janeiro, em 23 de dezembro de 1839, quando foi identificado como um colégio boiante, um navio-escola que promovia uma expedição didática- científica (Jornal do Commercio, 25 de dezembro de 1839, terceira coluna e Jornal do Commercio, 28 de dezembro de 1839, terceira coluna). No navio havia marinheiros capazes e professores hábeis, reunidos pelo capitão para iniciar os alunos a bordo nas primeiras noções da marinha e do comércio.  Dentre eles estava Francisco Sauvage, inventor do phisionotypo, um novo modo de suprir a escultura,  (Correio Mercantil (BA), 13 de dezembro de 1839, terceira coluna) e o abade francês Louis Comte (1798 – 1868), que viria a  ser o responsável pelas primeiras demonstrações da daguerreotipia no Brasil (Jornal do Commercio, de 17 de janeiro de 1840, primeira coluna). O médico em chefe da expedição deu consultas para moléstias de olhos no Hotel Europa, que ficava na rua do Carmo, esquina com a rua Ouvidor (Jornal do Commercio, 28 de dezembro de 1839, terceira coluna). Em 26 de janeiro, o L´Oriental partiu para Montevidéu, no Uruguai (Jornal do Commercio, 27 de janeiro de 1840, última coluna) e de lá seguiu para Valparaíso, no Chile, onde naufragou quando deixava a cidade, em 23 de junho de 1840.Tudo foi recuperado e não houve vítimas (Jornal do Commercio, 14 de agosto de 1840, primeira coluna). O abade Comte permaneceu em Montevidéu ensinando daguerreotipia até 1847. Posteriormente, alugando armazéns na área portuária, acumulou uma fortuna e voltou para a França, onde faleceu, em 22 de setembro de 1868. Está enterrado no cemitério de Sampans, na França.

 

 

No Jornal do Commercio, de 17 de janeiro de 1840, era anunciada a chegada do daguerreótipo no Rio de Janeiro

 

O abade Comte, encarregado pela assistência intelectual e espiritual e pelo ensino de religião, música e canto durante a viagem, produziu alguns daguerreótipos, em 16 de janeiro de 1840, e, alguns dias depois, apresentou o invento a dom Pedro II (Jornal do Commercio,  20 de janeiro de 1840, terceira coluna). Foi com o próprio Daguerre que o abade havia aprendido a daguerreotipia. Em março do mesmo ano, d. Pedro II adquiriu um daguerreótipo, provavelmente o primeiro da América do Sul.

 

 

Louis Compte. Chafariz do Largo do Paço, Rio de Janeiro, 16/1/1840, daguerreótipo, 9 [8,3] x 7 cm [1/6 placa]. Arquivo Grão Pará, Petrópolis, RJ

Louis Compte. Daguerreótipo do Chafariz do Largo do Paço 16/1/1840, Rio de Janeiro, RJ /
Arquivo Grão Pará, Petrópolis, RJ

 

Por sediar o Império, o Rio de Janeiro foi a capital da fotografia no Brasil. O imperador, grande entusiasta da nova invenção, foi retratado por diversos fotógrafos, dentre eles Marc Ferrez (1843-1923) e Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912), tendo conhecido praticamente o trabalho de todos eles. A fotografia passou a ser o instrumento de divulgação da imagem de dom Pedro II, moderna como queria que fosse o reino, segundo comenta Lilia Moritz Schwarcz no livro As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos, e tornou-se também mais um símbolo de civilização e status. Foi um dos primeiros monarcas a oferecer seu real patrocínio a um fotógrafo, juntamente com a rainha Victoria da Inglaterra (1819 – 1901), quando, em 1851, permitiu que Buvelot & Prat, que haviam realizado uma série de daguerreótipos de Petrópolis – todos desaparecidos – usassem as armas imperiais na fachada de seu estabelecimento fotográfico.

 

Lista dos Fotógrafos Imperiais, na ordem cronológica em que foram agraciados com este título, segundo Guilherme Auler (1914-1965), sob o pseudônimo de Ricardo Martim, em dois artigos publicados na Tribuna de Petrópolis, em 1º e 8 de abril de 1956, segundo o livro O Brasil na fotografia oitocentista, de Pedro Vasquez. Pedro Hees e Pedro Satyro da Silveira foram incluídos na lista de agraciados e a inclusão foi baseada no trabalho Photographos da Casa Imperial: A Nobreza da Fotografia no Brasil do Século XIX, de Danielle Ribeiro de Castro

 

Buvelot & Prat, título concedido em 8 de março de 1851 (província do Rio de Janeiro)

Joaquim Insley Pacheco, título concedido em 22 de dezembro de 1855 (província do Rio de Janeiro)

João Ferreira Villela, título concedido em 18 de setembro de 1860 (província de Pernambuco)

Revert Henrique Klumb, título concedido em 24 de agosto de 1861 (província do Rio de Janeiro)

Stahl & Wahnschaffe, título concedido em 21 de abril de 1862 (província do Rio de Janeiro)

Diogo Luiz Cipriano, título concedido em 20 de setembro de 1864 (província do Rio de Janeiro)

Antonio da Silva Lopes Cardoso, título concedido em 30 de novembro de 1864 (província da Bahia)

Tomas King, título concedido em 18 de maio de 1866 (província do Rio Grande do Sul)

José Ferreira Guimarães, título concedido em 13 de setembro de 1866 (província do Rio de Janeiro)

Fernando Starke, título concedido em 14 de dezembro de 1866 (província de São Paulo)

Pedro Satyro da Silveira, título concedido na década de 1870  (província do Rio de Janeiro)

José Tomás Sabino, título concedido em 13 de agosto de 1873 (província do Pará)

Henschel & Benque, título concedido em 7 de dezembro de 1874 (província do Rio de Janeiro)

Pedro Hees , título concedido em 1876 (província do Rio de Janeiro)

Antonio Henrique da Silva Heitor, título concedido em 2 de março de 1885 (província do Rio de Janeiro)

Juan Gutierrez de Padilla, título concedido em 3 de agosto de 1889 (província do Rio de Janeiro)

Ignácio Mendo, título concedido em 6 de agosto de 1889 (província da Bahia)

 

 

 

 

“Até onde chegará o aperfeiçoamento do invento de Daguerre?

 

Uma curiosidade: o escritor Machado de Assis (1839 – 1908) nasceu no mesmo ano em que nasceu a fotografia: 1839. Aos 24 anos dele e do invento, escreveu sobre o assunto em sua coluna do Diário do Rio de Janeiro de 7 de agosto de 1864. Comentou sobre suas visitas à casa do Pacheco (o fotógrafo português Joaquim Insley Pacheco), que ficava na rua do Ouvidor, nº 102, exaltando poder ver no mesmo álbum fotográfico os rostos mais belos do Rio de Janeiro, falo dos rostos femininos. Contou também a história da chegada do daguerreótipo na cidade e, em seguida, elogiou o trabalho realizado pelo artista  J.T. da Costa Guimarães, uma miniatura de Diane de Poitiers, exposto no estabelecimento de Insley Pacheco. Finalmente, revelou que havia chegado há pouco tempo no referido ateliê um aparelho fotográfico destinado a reproduzir em ponto grande as fotografias de cartão. Termina seu passeio perguntando-se “Até onde chegará o aperfeiçoamento do invento de Daguerre?

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

CARRÉ, Adrien. La singulière histoire de l’Oriental-Hydrographe. Bulletin du Comité Nantais de Documentation Historique de la Marine, Nantes, p. 17-35, 1970. 2.

CASTRO, Danielle Ribeiro. Photographos da Casa Imperial: a Nobreza da Fotografia no Brasil do Século XIX, 2013

Dictionary of Canadian Biography

Estatuto de admissão ao navio Hydrographe que fará a volta ao mundo sob o comando do capitão Lucas. Registro autenticado – Bertinot e Roquebert – Rua Richelieu n. 28, Paris. Em 2 de abril de 1839. Arquivo Nacional da França, Paris. Transcrição e revisão de Maria Inez Turazzi; digitação de Márcia Trigueiro; tradução de Maria Elizabeth Brêa Monteiro. Publicado em TURAZZI, Maria Inez. A viagem do Oriental-Hydrographe (1839 – 1840) e a introdução da daguerreotipia no Brasil. Acervo; Revista do Arquivo Nacional, Rio de Janeiro, v.23, nº 1, p.45-62, jan-jun 20

GURAN, Milton (organizador), TURAZZI, Maria Inez; VASQUEZ, Pedro Karp. Os daguerreótipos de Louis Comte no Rio de Janeiro – As primeiras fotografias feitas na América do Sul. Rio de Janeiro: Luz Tropical, 2016.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

KOSSOY, Boris. O mistério dos daguerreótipos do Largo do Paço in Revista da USP, n. 120, janeiro-março, 2019, pp.127-152.

PALMQUIST,Peter E; KAILBOURN,Thomas R. Pioneer Photographers of the Far West: A Biographical Dictionary, 1840-1865. Stanford: Universidade de Stanford, 2000.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

TURAZZI, Maria Inez. A viagem do Oriental-Hydrographe (1839 – 1840) e a introdução da daguerreotipia no Brasil. Acervo; Revista do Arquivo Nacional, Rio de Janeiro, v.23, nº 1, p.45-62, jan-jun 2010.

TURAZZI, Maria Inez. Máquina viajante. Fotografia, uma viagem sem volta, janeiro de 2010.

VASQUEZ, Pedro Karp. Dom Pedro II e a fotografia no Brasil. Rio de Janeiro: Fundação Roberto Marinho, 1985.

WOOD, Rupert Derek. A viagem do Capitão Lucas e do daguerreótipo a Sidney.  NZ Journal of Photography, 3-7, agosto 1994.

 

Fotografia e namoro

Fotografia e namoro

Imagens de casais enamorados como nos habituamos a ver ao longo do século XX até nossos dias não são frequentes na história da fotografia do século XIX e do início do novecentos. A Brasiliana Fotográfica convidou Elvia Bezerra, coordenadora de Literatura do Instituto Moreira Salles, para escrever sobre uma imagem de um casal de camponeses produzida pelo fotógrafo gaúcho Luiz do Nascimento Ramos, conhecido como Lunara (1864 – 1937). O registro faz parte do álbum Vistas de Porto Alegre – Photographias artísticas – Editores Krahe & Cia. Porto Alegre, que traz outras 18 fotografias de Lunara de circa 1910. O portal também selecionou mais uma fotografia de um casal de camponeses e outras dos casais reais formados por dom Pedro II (1825 – 1891) e dona Teresa Cristina (1822 – 1889) e pela princesa Isabel (1846 – 1921) e Gastão de Orleáns, o conde d´Eu (1842 – 1922). Todas revelam, em maior ou menor grau, afeto, cumplicidade e companheirismo. Foram produzidas por Alberto Henschel (1827 – 1882), Byrne & Co, Vincenzo Pastore (1865 – 1918) e por fotógrafos ainda não identificados. E assim a Brasiliana Fotográfica celebra o Dia dos Namorados.

 

Nhô João, deixa disso!

Elvia Bezerra*

 

É sabido que Lunara, nome artístico de Luiz do Nascimento Ramos, montava e dirigia cenas para fotos que fez na periferia da capital gaúcha, nas primeiras décadas do século XX. Não se pode, no entanto, saber o que esse método de trabalho foi capaz de desencadear nos coadjuvantes da composição. Como terá o casal, aqui retratado, voltado à intimidade da sua tosca torre de Pisa? Terá a senhora repetido o “nhô João, deixa disso!”, como informa a legenda, quando ficaram a sós? Seu recato terá se mantido dentro de quatro paredes? Terão os dois sido os mesmos? Haverá o clique do fotógrafo amador, nascido em Porto Alegre, em 1864, lhes restituído o gosto antigo do namoro?

Afinal, não é preciso ser nenhum André Gorz, filósofo austro-francês que só se deu conta da dimensão de seu amor pela mulher, com quem era casado havia décadas, depois que ela passou a sofrer de doenças incuráveis: “Já faz 58 anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca”, escreveu ele em Carta a D., documento de amor em que tornou pública a importância de Dorine na sua vida, confessando, aos 82 anos, que a amava e a desejava como na juventude.

Mas não é preciso tal situação dramática para acelerar um coração que bate devagar. Um clique precedido de uma arrumação de cena romantizada pode contagiar os personagens e fazê-los namorados de novo, ainda que seja por um dia.

Certamente não foi apenas a arquitetura dessa casa pobre que chamou a atenção de Lunara na cena registrada em um dos fins de semana em que saía para fotografar– consta que exercia o ofício especialmente aos domingos. A imagem de declínio, realçado pelo teto de telha vã da construção de taipa, se prolonga na do casal maduro, sentado entre a lateral e a frente da casa. A porta, inclinada para a esquerda, segue o movimento do telhado, deixando-se ver ladeada também pela irregularidade das varas de bambu, recheadas de barro. A decadência aqui é questionável.

A assimetria dos elementos da imagem resulta em harmonia: o telhado, decaído para a esquerda, compõe o fundo em que sobressai o casal de meia-idade, naquela fase da vida em que, como no poema de Manuel Bandeira, “o fogo já era frio”. Contrariamente à ideia de fragilidade que pode passar a milenar técnica construtiva da casa de taipa, ou pau a pique, como também é conhecida, o método está entre os mais resistentes. Na foto de Lunara, a solidez da construção é comprometida por um provável erro no momento da fixação da madeira no solo, talvez a causa do tombamento para o lado esquerdo. Ainda assim, não há dúvida com relação à firmeza que a imagem inspira.

Faz todo o sentido saber que Lunara fotografava nos fins de semana. Só assim poderia fixar um momento de ternura domingueira, ao ar livre, de um casal cuja labuta diária o impediria de vivenciá-la em outro dia que não fosse este, consagrado ao descanso e à oração.

Se atendem ao pedido de posar, é o homem quem incorpora o papel do cavalheiro, em atitude de devoção à dama. A figura dele é enternecida, mas sólida: pés paralelos fincados na terra, posta-se de frente para a companheira, que, sem encará-lo, coloca-se de lado e olha na direção oposta. Digno, ele segura as mãos da mulher; ela não as entrega. Recua, numa espécie de rejeição não totalmente desprovida de dengo, quem sabe provocada pelo desconforto da manifestação de carinho a céu aberto.

A fachada da casa é dignificada pelo chapéu que encima a porta, indicando que, ao deixá-lo à entrada, é com reverência que nhô João entra na sua moradia. A simplicidade do detalhe está longe da ironia presente no conto “Capítulo dos chapéus”, de Machado de Assis, em que o bacharel Conrado Seabra é instado pela mulher, Mariana, a trocar o chapéu por um mais moderno. Machado, impiedoso, começa por dizer que “o princípio metafísico é este: ‒ o chapéu é a integração do homem, um prolongamento da cabeça, um complemento decretado ab æterno; ninguém o pode trocar sem mutilação”. Ao longo da narrativa, entretanto, sem poupar a mulher de humilhação, conclui com esta ironia arrasadora: “Mas você reflita consigo, e verá… Quem sabe? Pode ser até que nem mesmo o chapéu seja complemento do homem, mas o homem do chapéu…”

A atmosfera pacífica da foto de Lunara opõe-se à tensão do conto de Machado. Na cena franciscanamente endomingada do gaúcho, reina a serenidade; quase se ouve “o silêncio que tem voz”. E o chapéu de palha, no alto, longe de ser objeto de discórdia ou de prestígio social, como acontece no conto, reafirma seu inquestionável caráter de dignidade na frente da casa. De resto, fica aqui a deixa para que, ainda recorrendo ao sombrero, nhô João encante sua mulher com os versos de Federico García Lorca, que, em “Por tu amor me duele el aire”, eleva o adereço ao patamar do ar e do coração, todos passíveis de serem sacrificados por amor:

“¡Ay, qué trabajo
me cuesta quererte como te quiero!

Por tu amor me duele el aire,
el corazón

y el sombrero”.

 

*Elvia Bezerra é coordenadora de Literatura do Instituto Moreira Salles

 

Mais fotografias e a história do Dia dos Namorados no Brasil

 

A data dedicada aos namorados foi criada, no Brasil, pelo publicitário João Doria (1919 – 2000), e é comemorada no dia 12 de junho, véspera do Dia de Santo Antônio, que por tradição é considerado o santo casamenteiro. Dória trouxe a ideia do exterior e a apresentou aos comerciantes paulistas, iniciando, em junho de 1949, uma campanha com o slogan “não é só com beijos que se prova o amor” (Diário da Noite27 de maio de 1949, última coluna9 de junho de 1949; e Revista da Semana, 18 de junho de 1949; Il Moscone, 25 de junho de 1949).

 

 

Acessando o link para as fotografias de casais disponíveis no acervo da Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Gastão de Orleáns, o conde d´Eu ( Neuilly-sur-Seine, 28/04/1842 – Oceano Atlântico 28/08/1922)

A Brasiliana Fotográfica apresenta uma seleção de registros de Gastão de Orleáns, o conde d´Eu. São imagens produzidas pelos fotógrafos Alberto Henschel (1827 – 1882), Arsênio da Silva, Christiano Jr. & Pacheco, Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912), Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886) e por fotógrafos ainda não identificados. Neto do rei Luís Filipe I de França, Gastão de Orleáns, o conde d´Eu, tornou-se príncipe imperial consorte do Brasil quando casou-se com a princesa Isabel (1846 – 1921), filha de d. Pedro II (1825 – 1891) e dona Teresa Cristina (1822 – 1889). O Conde d’Eu e seu primo, o duque Luís Augusto de Saxe-Coburgo-Gota (1845 – 1907) desembarcaram no Rio de Janeiro em 2 de setembro de 1864 e hospedaram-se no paço da cidade (Diário do Rio de Janeiro, 3 de setembro de 1864, terceira coluna). Foram para o Palácio de São Cristóvão, residência da família imperial brasileira onde conheceram as princesas Isabel e Leopoldina (1847 – 1871). Os casais previamente idealizados seriam formados por d. Gastão e a princesa Leopoldina, e por seu primo e a princesa Isabel. Mas, após alguns dias, devido a afinidades, os casais se rearranjaram.

 

 

Isabel e Gastão casaram-se em 15 de outubro de 1864, na Capela Imperial, no Rio de Janeiro, em cerimônia celebrada por D. Manoel Joaquim da Silveira, arcebispo da Bahia e primaz do Brasil (Diário do Rio de Janeiro, edição de 16 de outubro de 1864). O escritor Machado de Assis (1839 – 1908) escreveu na coluna Folhetim uma calorosa descrição do evento (Diário do Rio de Janeiro, edição de 17 de outubro de 1864). O casal passou a lua de mel em Petrópolis, de onde retornou no dia 24 de outubro. Devido à união, o conde d´Eu teve que renunciar aos seus direitos à linha da sucessão ao trono francês. Em 15 de dezembro, foi realizado o casamento da princesa Leopoldina com o duque de Saxe (Diário do Rio de Janeiro, de 16 de dezembro de 1864).

 

 

Acessando o link para as fotografias do conde d´Eu disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar a imagem e verificar todos os dados referentes a ela.

 

 

Juntos, Isabel e Gastão formaram uma coleção de fotografias que se encontra na Europa e representa um importante acervo iconográfico do oitocentos no Brasil. Fazem parte da coleção fotografias de Marc Ferrez (1843 – 1923), Alberto Henschel(1827 – 1882)Augusto Riedel (18? – ?)Augusto Stahl (1828 – 1877), George Leuzinger (1813 – 1892), e Victor Frond (1821 – 1881),  dentre outros, além de imagens das celebrações da abolição da escravatura, em 1888.

Após cerca de 10 anos de casados, em 28 de julho de 1874, a princesa Isabel deu à luz a uma menina natimorta, Luísa Vitória de Orléans e Bragança (Diário do Rio de Janeiro, edição de 29 de julho de 1874, sob o título “Parte Official”). O casal teve o primeiro filho, Pedro de Orléans e Bragança (1875 – 1940), nascido em 15 de outubro de 1875, em Petrópolis (Diário do Rio de Janeiro, edição de 16 de outubro de 1875, sob o título “Diário do Rio”). O segundo filho, Luis Maria de Orléans e Bragança (1878 – 1920), também nasceu em Petrópolis, em 26 de janeiro de 1878  (Diário do Rio de Janeiro, edição de 27 de janeiro de 1878, na segunda coluna). Faleceu em Cannes, na França, em março de 1920. O último, Antonio Gastão de Orléans e Bragança (1881 – 1918), nasceu em Paris em 9 de agosto de 1881 (Gazeta de Notícias, edição de 10 de agosto de 1881, na primeira coluna) e faleceu em 29 de novembro de 1918, devido a um desastre de avião, em Londres.

 

 

O conde d´Eu participou da Guerra do Paraguai (1864 – 1870), tendo assumido o comando em chefe das forças nacionais em campanha, em 1869, substituindo Luis Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias (1803 – 1880). Retornou à corte em 29 de abril de 1870, após ter vencido as batalhas de Pirebebuy e Campo Grande.

 

 

Em 17 de novembro de 1889, dois dias após a proclamação da República, a família real partiu para o exílio, na Europa (Gazeta de Notícias, edição de 18 de novembro de 1889, sob o título “O Embarque do Imperador”, na segunda coluna). Isabel e Gastão foram morar na França. Em 3 de setembro de 1920, realizou-se no salão de despachos do palácio do Catete a assinatura do decreto que revogava o banimento da família imperial (O Paiz, 4 de setembro de 1920, quarta coluna).

O conde d´Eu faleceu, em 28 de agosto de 1922,  justamente quando voltava ao Brasil para celebrar o centenário da independência do país. Estava a bordo do navio Massilia (O Paiz, 29 de agosto de 1922, penúltima coluna).

 

 

Em 6 de julho de 1953, chegaram no Rio de Janeiro os restos mortais da princesa Isabel e do conde D’Eu (Correio da Manhã, edição de 7 de julho de 1953 e O Cruzeiro, 18 de julho de 1953), que foram transladados, em 1971, da Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro para a igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos (Correio da Manhã, edição de 11 de maio de 1971) e, finalmente, foram sepultados na Catedral de Petrópolis (Correio da Manhã, edição de 14 de maio de 1971).

 

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Fontes

BESOUCHET, Lídia. Exílio e morte do Imperador. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1975

CARVALHO, José Murilo. Pedro II: ser ou não ser. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

DEL PRIORI, Mary. O Castelo de papel. Rio de Janeiro: Rocco, 2013.

DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra. São Paulo:Companhia das Letras, 2002.

ECHEVERRIA, Regina. A História da Princesa Isabel – amor, liberdade e exílio. Rio de Janeiro: Versal Editores, 2014.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

LIMA, Luiz Octavio de. A Guerra do Paraguai. São Paulo:Planeta do Brasil, 2016.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

Site do CPDOC