O fotógrafo Joaquim Pinto da Silva, o J. Pinto (1884-1951) e a Fundação Oswaldo Cruz

Ricardo Augusto dos Santos*

 

 

A história da fotografia brasileira possui seus atores emblemáticos, como Marc Ferrez (1843 – 1923) e Augusto Malta (1864 – 1957). Mas, também, tem seus heróis quase desconhecidos ou anônimos que, encantados com a possibilidade de registrar em imagens a realidade, nos deixaram documentos relevantes para a memória e a história do país. Um expressivo número de fotografias do acervo da Fundação Oswaldo Cruz foi produzido por Joaquim Pinto da Silva, o J. Pinto (1884 – 1951), como ficou conhecido. Este fotógrafo produziu milhares de imagens, documentando os trabalhos científicos, os primeiros prédios e as transformações urbanas da região onde seria construído o centro de pesquisa, ensino e produção de medicamentos.

 

Acessando o link para as fotografias de autoria de J. Pinto disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

Acessando o link para as fotografias em que J. Pinto ou sua família aparecem disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Inicialmente, J. Pinto ocupou um acanhado e improvisado chalé, onde o laboratório fotográfico dividia espaço com a biblioteca do recém-criado Instituto Oswaldo Cruz (IOC). Em 1911, quase finalizado o Pavilhão Mourisco, J. Pinto seria instalado no belo castelo. Podemos observar, em seu trabalho, um notável domínio das técnicas fotográficas. Autor de inúmeras imagens, negativos em vidro e microfotografias científicas, J. Pinto, em final de 1928, enviou aos amigos um cartão desejando um feliz ano novo, contendo a imagem de seu rosto reproduzida cinco vezes. Este fato remete à original fotografia conhecida como Os trinta Valérios, realizada por Valério Vieira (1862-1941), em torno de 1901. O registro, um marco na história da fotografia, traz 30 imagens de Valério Vieira.

 

 

Pouco se sabe da vida deste importante personagem do IOC. Em final dos anos 1980, um grupo de pesquisadores da Casa de Oswaldo Cruz entrevistou um dos filhos de J. Pinto, Wilson Pinto, que forneceu algumas informações sobre seu pai. Infelizmente, idoso, sua saúde precária impossibilitava um depoimento fidedigno, assim como sua irmã Edna, que também quase nada dizia com exatidão sobre a vida de Joaquim Pinto. Porém, naquela tarde, obtivemos registros raros do fotógrafo e de sua família. No próprio acervo da Fiocruz, J. Pinto pouco aparece, a não ser em fotos de uma provável caçada em companhia de Carlos Chagas, ou em seu laboratório fotográfico.

 

 

Nascido em Alagoinhas, na Bahia, em 1884, J. Pinto teria vindo para o Rio de Janeiro com 14 anos. Seus pais eram José Camerino Pinto da Silva e Maria da Purificação. Casou-se com Izaura Costa da Silva e tiveram cinco filhos: Wilson, Milton, Elza, Zeni e Ilda. Depois de morar no Centro da cidade, comprou um terreno no Méier, na Rua Jacinto, número 67, construindo ali sua casa.

 

 

Em 1903, contratado por Oswaldo Cruz na fase inicial das atividades em Manguinhos, ele começou a documentar a construção do que viria a ser um dos principais centros de ciência e saúde do Brasil. Foi fotógrafo da instituição até 1946, quando se aposentou em decorrência de problemas de saúde. Mas as imagens produzidas por ele permaneceram como a memória fotográfica da Fundação Oswaldo Cruz. As fotos de sua autoria também mostram um Rio de Janeiro em processo de urbanização. J. Pinto, que se tornou amigo de Oswaldo Cruz (1872 – 1917) e de Carlos Chagas (1879 -1934), fotografou o aspecto rural de Manguinhos, que foi se transformando. Estão registrados a construção do Castelo, da avenida Brasil, os pesquisadores e instalações físicas. Em seus registros também aparecem construções, como o aquário, demolido, que era ligado à Baía de Guanabara por uma tubulação subterrânea, onde se estudavam organismos aquáticos; a cavalariça e a chaminé da antiga usina de incineração do lixo da cidade, também demolida no início da década de 1940.

 

 

 

*Ricardo Augusto dos Santos é Pesquisador Titular da Fundação Oswaldo Cruz

 

 

Pequena cronologia de Joaquim Pinto da Silva  (1884-1951) 

1884 – O fotógrafo Joaquim Pinto da Silva, que ficou conhecido como J. Pinto, nasceu em Alagoinhas, na Bahia, filho de José Camerino Pinto da Silva e Maria da Purificação.

c. 1898 – Com 14 anos, J. Pinto teria vindo para o Rio de Janeiro.

1903 – Foi contratado pelo médico e sanitarista Oswaldo Cruz na fase inicial das atividades em Manguinhos e começou a documentar a construção do que viria a ser um dos principais centros de ciência e saúde do Brasil.

1910 – Segundo o historiador Eduardo Thielen, que escreveu a dissertação Imagens da saúde no Brasil – A fotografia na institucionalização da saúde pública, J. Pinto teria sido possivelmente o autor do primeiro filme científico feito no Brasil, Chagas em Lassance. A obra, com 9 minutos de duração, era sobre a descoberta da doença de Chagas, feita pelo cientista Carlos Chagas, em Lassance, Minas Gerais, em 1909 (Agência Fiocruz, 15 de agosto de 2008).

1911 – Chagas em Lassance foi exibido por Oswaldo Cruz na Exposição Internacional de Higiene e Demografia de Dresden, na Alemanha (Agência Fiocruz, 15 de agosto de 2008). Também foi exibido o filme sobre as ações de combate à febre amarela no Rio de Janeiro. Esses dois filmes constituem o mais antigo acervo audiovisual científico preservado de que se tem notícia no Brasil. O pavilhão do Brasil, único país das Américas a construir um estande próprio no evento, foi inaugurado em 15 de junho (O Paiz, 16 de junho de 1911, quinta coluna).

1946 - J. Pinto aposentou-se devido a problemas de saúde.

1951 – Em outubro, falecimento de Joaquim Pinto da Silva. Sua missa de 30º dia foi realizada na Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro (Diário de Notícias, 25 e 26 de novembro de 1951).

 

2014 – Lançamento do livro Vida, engenho e arte — O acervo histórico da Fundação Oswaldo Cruz, com imagens produzidas por J. Pinto (O Globo, 6 de junho de 2014).

2016 – Realização da exposição Manguinhos Revelado: um Lugar de Ciência, com cerca de 120 fotografias, a maioria de autoria de J. Pinto (Portal Fiocruz, 8 de novembro de 2016).

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Novos acervos: Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz

Fotografia, Ciência e Saúde Pública 

 

As imagens aqui apresentadas integram o acervo histórico da Fundação Oswaldo Cruz, instituição de referência internacional na área das ciências biomédicas e cuja trajetória encontra-se intrinsecamente relacionada à formulação, planejamento e execução de políticas públicas de saúde no Brasil. Este acervo encontra-se sob a guarda da Casa de Oswaldo Cruz, unidade da Fiocruz e centro de pesquisa e documentação dedicado à memória, à história das ciências biomédicas e da saúde pública e à educação e divulgação em ciência e saúde.

As origens da Fundação Oswaldo Cruz remetem ao Instituto Soroterápico Federal, criado em 1900, no bairro de Manguinhos, no Rio de Janeiro, com o objetivo de produzir soros e vacinas contra a peste bubônica e que, em curto espaço de tempo, já como Instituto Oswaldo Cruz (IOC) em homenagem ao seu primeiro diretor Oswaldo Cruz (1872 – 1917) -, transformou-se no maior centro de medicina experimental da América Latina. O IOC – considerado o primeiro instituto de pesquisa da história do Brasil a trazer contribuições científicas durante um período constante, e o primeiro a dar ao país uma reputação científica internacional -, proporcionou os fundamentos para o desenvolvimento contínuo das ciências biomédicas no Brasil na primeira metade do século XX.

Acessando o link para as fotografias do acervo da Fiocruz disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Desde os primeiros anos de atividade, o IOC já contava com laboratório fotográfico próprio, e integrava em seus quadros funcionais o fotógrafo Joaquim Pinto da Silva, contratado ainda na primeira década do século XX. Desde a origem do Instituto, a produção de registros fotográficos, entre outros suportes de informação tais como plantas arquitetônicas, correspondências, impressos etc, se firmou como uma das mais prolíficas, sendo instituída, formalmente, como um dos setores de produção institucional. A existência de um laboratório próprio no Instituto Oswaldo Cruz denota o interesse e a importância da produção de registros fotográficos para os trabalhos que ali seriam desenvolvidos.

As fotografias foram originadas durante o processo de constituição, institucionalização, crescimento e legitimação do IOC desde sua origem até meados do século passado. Esse período é caracterizado pela expansão e fortalecimento do Instituto Soroterápico Federal a partir de alguns sucessos obtidos. O primeiro deles diz respeito às bem sucedidas campanhas de Oswaldo Cruz contra a febre amarela, a peste bubônica e a varíola na capital da República. Na época, Oswaldo Cruz encontrava-se à frente da Diretoria de Saúde Pública, cargo que acumulou juntamente com a direção do Instituto até 1909. Outra vitória acumulada refere-se ao reconhecimento científico internacional das atividades desenvolvidas no IOC, através da premiação com a medalha de ouro na Exposição de Higiene de Berlim, em 1907, e do anúncio da descoberta de uma nova doença – a doença de Chagas – na Exposição Internacional de Higiene de Dresden, em 1911.

Após a morte de Oswaldo Cruz, seu trabalho à frente do IOC teve continuidade com o médico sanitarista Carlos Chagas (1879 – 1934) que, coincidentemente, também acumulou por um período (1920-1926) a direção do Instituto e da recém-criada Diretoria Nacional de Saúde Pública, restabelecendo mais uma vez uma ligação direta entre aquela instituição e o Estado brasileiro naquilo que se refere à saúde pública. Na gestão de Chagas (1917 – 1934), o IOC já era uma instituição consolidada, com autonomia financeira e administrativa suficientes para garantir uma expansão considerável das atividades de pesquisa, ensino e produção ali desenvolvidas.

 

 

A conformação institucional do IOC nos primeiros anos do século XX teve como consequência uma expansão de seu quadro de funcionários e a contratação de um fotógrafo reforça esse fato. A importância dada aos registros visuais pode ser também aferida pelo espaço que a atividade vai ganhando institucionalmente, seja na ocupação de ambientes considerados “nobres” no principal espaço edificado para abrigar o IOC – o castelo mourisco -, onde ocupou gabinetes específicos destinados à fotografia e à cinematografia, seja pela importância da atividade na hierarquia interna, consubstanciada pela obrigatoriedade de apresentação de um relatório anual de atividades à direção do IOC contendo informações veiculadas na forma de textos e imagens.

Hoje, o acervo fotográfico remanescente desse período inicial de consolidação do Instituto – embora tenha sofrido perdas importantes causadas por crises pelas quais passou o IOC –, é marcante e minucioso na sua potência de registro de uma memória do período. Assim, a série fotográfica ora apresentada diz respeito a três dimensões dos impactos da atuação do IOC no contexto sócio, político e científico do período que compreende as primeiras décadas do século XX: a construção de suas instalações na então pouco conhecida região de Manguinhos e suas articulações com o entorno; a era das expedições científicas ao interior do país visando mapear as condições de vida e saúde da população rural e que originou um importante debate político sobre os males da nova república e seus obstáculos ao “progresso”; e flagrantes do cotidiano da instituição, representados por registros de visitantes ilustres, dos professores e alunos dos cursos que o IOC promovia, de algumas atividades de laboratório e, sobretudo, a vida intramuros da instituição.

 

 

Fontes:

BENCHIMOL, Jaime Larry. Manguinhos, do sonho à vida: a ciência na Belle Epoque. Rio de Janeiro: Fiocruz/COC, 1990.

Fundação Oswaldo Cruz. Casa de Oswaldo Cruz. A ciência a caminho da roça. Imagens das expedições científicas do Instituto Oswaldo Cruz ao interior do Brasil entre 1911 e 1913. Rio de Janeiro: Fiocruz/Casa de Oswaldo Cruz, 1991.

LACERDA, Aline Lopes de; Mello, Maria Teresa Villela Bandeira de. Imágenes de la salud pública: la institucionalización del Instituto Oswaldo Cruz em Brasil. Dymanis. Acta Hispanica ad Medicinae Scientiarumque Historiam Illustrandam. Vol. 25, 2005, p. 179-198.

THIELEN, Eduardo Vilela. Imagens da saúde pública do Brasil: a fotografia na institucionalização da saúde pública. Dissertação de mestrado, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 1992, p.158.