Data Magna da Marinha do Brasil

Batalha Naval do Riachuelo – A Data Magna da Marinha do Brasil

Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha

A Batalha Naval do Riachuelo, ocorrida em 11 de junho de 1865, assinalou um momento capital na Guerra da Tríplice Aliança contra o Governo do Paraguai (1864-1870), o maior conflito entre Estados ocorrido na América. O controle dos rios Paraná e Paraguai, conquistado após a vitória sobre a Marinha paraguaia em Riachuelo, inviabilizou a ofensiva adversária sobre os territórios brasileiro e argentino, e também impediu que o Governo de Solano López ( 1827 – 1870) recebesse armamentos comprados no exterior.

Desde o início do conflito, com a invasão do Mato Grosso pelo Exército paraguaio, em dezembro de 1864, o Brasil e a Argentina sofriam seguidas derrotas no campo de batalha. O território de ambas as Nações foi invadido e algumas de suas cidades fronteiriças foram pilhadas pelas tropas adversárias, como Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, e Corrientes, na Argentina. A vitória brasileira na Batalha Naval do Riachuelo foi o primeiro triunfo aliado em quase sete meses de confronto e provocou uma grande onda de entusiasmo na população dos centros urbanos do País, antes apreensiva com os rumos da guerra.

O êxito da Força Naval, comandada pelo Chefe de Divisão Francisco Manoel Barroso da Silva (1804 – 1882), alcançado a quase 1.700 quilômetros da Capital do Império, continuou a ser celebrado nos anos posteriores à Guerra e deixou marcas profundas nas tradições da Marinha do Brasil. Tradições que não apenas cultuam a vitória através da figura do Almirante Barroso, mas os que tombaram em combate. Mesmo que muitos tenham perecido no bombardeio mútuo entre navios, foi na luta corpo a corpo que tomou conta do convés da Corveta brasileira Parnaíba, quando abordada por tripulações de três navios paraguaios, que emergiram os heróis que permanecem sendo celebrados pelos nossos marinheiros após um século e meio: o Guarda-Marinha João Guilherme Greenhalgh (1845 – 1865) e o Marinheiro de 1ª Classe Marcílio Dias (1838 – 1865).

 

 

Na imagem acima, registrada em 1917, ano que o Brasil entrava na Grande Guerra (1914-1918), a primeira guerra externa que o país se envolvia desde a travada no Paraguai, se vê uma das salas de aula da Escola de Aprendizes-Marinheiros do Ceará, instituição dedicada à formação militar dos novos tripulantes dos navios de guerra da Marinha do Brasil. O espaço, nomeado “Salão Riachuelo”, foi todo dedicado à celebração da Batalha. Na parede à direita dos alunos foram destacados os nove navios brasileiros que combateram naquele 11 de junho de 1865, expondo sua organização tática em duas divisões e o nome de cada um dos seus comandantes. À frente, onde todos os olhos se fixam, coroa o tablado designado ao professor o retrato do Almirante Barroso, ladeado pelas bandeiras do Regimento de Sinais que representaram os chamamentos daquele líder às tripulações durante os períodos mais adversos da Batalha: “Sustentar o fogo que a vitória é nossa” e “O Brasil espera que cada um cumpra o seu dever”. Encerrando aquela composição, à esquerda dos alunos há o retrato do Guarda-Marinha Greenhalgh e à direita o do Marinheiro Marcílio Dias, expostos como exemplos a serem perseguidos por aqueles jovens na busca por se tornarem combatentes na Marinha do Brasil.

Acessando o link para as fotografias do acervo da Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

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As fotografias do acervo da DPHDM disponibilizadas no portal são de autoria de Boute, H&J Tourte Éditeurs, Jorge Kfuri (1892/3 – 1965), um dos primeiros especialistas na fotografia aérea; Marc Ferrez (1843 – 1923) e de fotógrafos ainda não identificados. São imagens da visita do rei Alberto I da Bélgica ao Brasil em 1920, da Escola de Aprendizes Marinheiros do Ceará, do navio-escola Benjamin Constant, do cruzador Tamandaré e fotografias aéreas do Rio de Janeiro, além de outras.

 

 

Registros da Guerra do Paraguai (1864 – 1870)

Registros da Guerra do Paraguai (1864 – 1870) *

 

 

A Brasiliana Fotográfica traz para seus leitores registros de aspectos da Guerra do Paraguai, o maior conflito armado internacional ocorrido na América do Sul. Sua iconografia fotográfica é escassa, apesar da importância do evento e do fato de que na época já existia um bom número de fotógrafos atuando no continente. Porém, segundo o historiador André Toral: O registro fotográfico da guerra do Paraguai contra a Tríplice Aliança (1864-1870) foi, em termos gerais, uma continuidade do tipo de fotografia que se fazia na época. Mas foi, também, mais do que isso. A cobertura in loco e a força do assunto trouxeram maneiras inovadoras de se representar o conflito, o que colaborou para a constituição de uma linguagem fotográfica com características próprias em relação à pintura ou gravura do período dedicadas à guerra.

 

Acessando o link para as fotografias de aspectos da Guerra do Paraguai disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

As imagens do acervo do portal sobre o assunto são de autoria de Agostinho Forni, de Carlos Cesar, do estúdio Bate & CA, de Frederico Trebbi, de José Ferreira Guimarães (1841 – 1924), de Luigi Terragno (c.1831-1891) e de outros fotógrafos ainda não identificados. Retratam aspectos de várias cidades como Assunção, Humaitá, Lambaré e Luque; a batalha de 18 de julho, casas de militares como os generais José Antônio Correia da Câmara (1824-1893) e Joaquim Andrade Neves (1807 – 1869), a casa de Elisa Lynch (1835 – 1886), mulher do presidente do Paraguai, Francisco Solano Lopez Filho ( 1827 – 1870); acampamentos militares, igrejas, estações de ferro e hospitais, dentre outros. Há também uma fotografia do quadro Passagem de Humaitá, do pintor Victor Meirelles (1832 – 1903), produzida por José Ferreira Guimarães (1841 – 1924).

 

 

A Guerra do Paraguai, primeiro conflito a receber uma cobertura visual na imprensa sul-americana e um de seus assuntos preponderantes entre 1864 e 1870, foi um importante marco da fotorreportagem no Brasil, tema central da tese de doutorado A Semana Illustrada e a guerra contra o Paraguai: primórdios da fotorreportagem no Brasil, de autoria de Joaquim Marçal de Andrade, um dos curadores do portal Brasiliana Fotográfica. Diversas ilustrações de episódios da guerra e de alguns de seus participantes foram publicadas. A litografia propiciava a reprodução de fotografias, daguerreótipos e pinturas levando as imagens da guerra a um público maior. No início do conflito ainda não havia tecnologia capar de realizar a reprodução direta da fotografia pela prensa, então as fotografias foram largamente utilizadas como base para as ilustrações produzidas pelos litógrafos e publicadas pela imprensa.

O engenheiro militar, historiador, teatrólogo e músico Alfredo Maria Adriano d’Escragnolle Taunay (1843 – 1899), futuro visconde de Taunay, título que recebeu de D. Pedro II em 6 de setmbro de 1889, participou da cobertura da Guerra do Paraguai. Integrou as expedições militares entre 1865 e 1867 e entre 1869 e 1870 e seus escritos circularam na Semana Ilustrada. Parte dos textos jornalísticos do visconde de Taunay foram reunidos por Affonso Taunay (1876 – 1958) na coletânea Recordações de Guerra e de Viagem. Entre suas obras está o clássico A Retirada da Laguna, sobre um dos episódios da Guerra do Paraguai, quando a tropa brasileira, adoecida por beribéri, cólera e tifo foi forçada a se retirar sob os constantes ataques da cavalaria paraguaia.

 

taunay

Destacamos no periódico Semana Illustrada, do alemão Henrique Fleuiss (1824 – 1882), edição de 10 de setembro de 1865, as publicações de ilustrações da Batalha Naval de Riachuelo e de dom Pedro II e do duque de Saxe em traje de campanha.

 

 

Segunda antropóloga Lúcia Stumpf que em 2019 defendeu a tese de doutorado Fragmentos de Guerra: Imagens e Visualidades contra a Guerra do Paraguai (1865-1881):

Além de sua importância histórica, a guerra contra o Paraguai se apresenta como um estudo de caso muito interessante para pesquisas de cultura visual… Isso porque a eclosão da guerra coincidiu, no Brasil, com o auge do desenvolvimento de novas tecnologias óticas e de impressão, que impactavam as artes e a indústria, no que chamamos, em referência ao famoso ensaio de Walter Benjamin, de era da reprodutibilidade técnica.

Grande parte da documentação fotográfica do conflito constitui-se por de cartes-de-visite de generais, soldados, governantes e outros envolvidos na guerra, produzidos entre 1864 e 1870.

Em 10 de julho de 1865, d. Pedro II  esteve no teatro de operações do conflito.

 

 

Outro personagem da monarquia brasileira, o conde d´Eu (1842-1922), marido da Princesa Isabel (1846 – 1921), assumiu a chefia das tropas, em 1869, substituindo Luis Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias (1803 – 1880).

 

 

Bartolomeu Mitre (1821 – 1906) foi presidente da Argentina durante a Guerra do Paraguai.

 

 

Um pouco sobre a Guerra do Paraguai

Travada entre o Paraguai e a Tríplice Aliança, – cujo tratado foi assinado em 1º de maio de 1865 entre o Brasil, a Argentina e o Uruguai -, a Guerra do Paraguai ocorreu entre 1864 e 1870 e foi, como já mencionado o maior conflito armado internacional ocorrido na América do Sul. O presidente do Paraguai, Francisco Solano Lopez Filho ( 1827 – 1870), declarou guerra ao Brasil em 13 de dezembro de 1864 e, à Argentina, em 18 de março do ano seguinte. O conflito, durante o qual cerca de de 280 mil paraguaios, na época a metade da população do país, e 120 mil soldados argentinos, uruguaios e brasileiros morreram, terminou em 1870, com a vitória da Tríplice Aliança e com a destruição do Paraguai. Algumas das causas da guerra foram as questões de fronteiras entre os países, rivalidades históricas e a navegação nos rios platinos.

No Campo da Aclamação, atual Praça da República, foi construído um monumento, o Templo da Vitória, um pavilhão de madeira onde foi celebrada, em 10 de julho de 1870, o Te Deum em comemoração ao término da Guerra do Paraguai, com a presença de dom Pedro II e de outros membros da família real e de ministros do império. A data foi escolhida devido à chegada de dom Pedro II, cinco anos antes, à cidade de Uruguaiana, local da primeira rendição paraguaia.

A construção do templo teria que ser feita rapidamente e como os cofres públicos estavam depauperados foi criado um impoto extraordinário para financiá-la. A obra e sua concepção foram de Fachinetti e a decoração das ruas do entorno foram entregues ao escritório de arquitetura ligado a Pietro Bosisio, genro do ministro da Fazenda, o visconde de Itaboraí (A Reforma, 17 de maio de 1870, sugunda coluna). Anteriomente, havia se informado que a obra havia ficado a cargo do próprio Bosisio (A Reforma, 15 de maio de 1870, quarta coluna). O empreendimento foi muito criticado e ele foi apelidado na imprensa como o templo de papelão, já que apesar de uma aparência sólida, o edifício foi feito com papelão, lona, gesso e sarrafo. A missa foi um fiasco, com cerca de 200 pessoas nas arquibancadas quando cerca de 8 mil convites haviam sido enviados pelo ministro da Guerra. No mesmo mês de sua inauguração foi desmanchado (A Reforma, 10 de julho de 1870, primeira coluna e quarta coluna); Diário do Rio de Janeiro, 11 de julho de 1870, quarta coluna; A Reforma, 12 de julho de 1870, primeira coluna; Correio Nacional, 13 de julho de 1870, primeira colunaA Reforma, 29 de julho de 1870, segunda coluna; e A Reforma, 31 de julho de 1870, terceira coluna).

 

 

Na edição do Correio Nacional de 13 de julho de 1870, há uns versos sob o título “Cousas do Crispim”, onde foi comentado os eventos envolvendo o Templo da Vitória.

 

Links para outras publicações da Brasiliana Fotográfica sobre conflitos:

A Revolta da Armada

Guerra de Canudos pelo fotógrafo Flavio de Barros

Lampião e outros cangaceiros pelas lentes de Benjamin Abrahão

 

Acesse esse link para ler a reportagem A Guerra do Paraguai vista por um pintor suíco, de Theofilo Andrade, publicada na revista O Cruzeiro, 14 de abril de 1971.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

* O texto desse artigo foi atualizado em 18 de maio de 2020

 

Fontes:

ANDRADE, Joaquim Marçal Ferreira de. A Semana Illustrada e a guerra contra o Paraguai: primórdios da fotorreportagem no Brasil. Rio de Janeiro : Universidade Federal do Rio de Janeiro – Tese de doutorado, 2011.

ANDRADE, Joaquim Marçal Ferreira de. História da fotorreportagem no Brasil. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.

CARVALHO, José Murilo. Pedro II: ser ou não ser. São Paulo : Companhia das Letras, 2007.

CHIAVENATO, Júlio José. Genocídio americano: a Guerra do Paraguai. Rio de Janeiro : Editora Guanabara, 1979.

CUARTEROLO, Miguel Angel. Soldados de la memoria: imágenes y hombres de la Guerra del Paraguay. Argentina : Planeta,em 2000.

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LAGO, Bia Corrêa do;LAGO, Pedro Corrêa do.Coleção Princesa Isabel: fotografia do século XIX. Rio de Janeiro : Capivara, 2008.432p.:il., retrs.

LIMA, Luiz Octavio de. A Guerra do Paraguai. São Paulo:Planeta do Brasil, 2016.

MAESTRI, Mário. Guerra no Papel: história e historiografia da Guerra do Paraguai (1864 – 1870). Passo Fundo:PPGH/UPF, 2013.

MORENO, Leila Yaeko Kiyomura. Na Guerra do Paraguai, a imprensa inovou em reportagens visuais. Jornal da USP, 2020

MOTA, Isabela; PAMPLONA, Patricia. Vestígios da Paisagem Carioca: 50 lugares desaparecidos do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Mauad X, 2019.

QUEIROZ, Silvânia de. Revisando a Revisão: Genocídio americano: a Guerra do Paraguai. Porto Alegre: FCM Editora, 2014.

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SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

Site As histórias dos monumentos

Site Enciclopédia Itaú Cultural

Site MultiRio

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TORAL, André. Imagens em desordem: a iconografia da Guerra do Paraguai. São Paulo : Universidade de São Paulo, 2001.