As doenças do Rio de Janeiro no início do século XX e a Revolta da Vacina em 1904

No início do século XX, no Rio de Janeiro, providências em torno do combate de diversas doenças já provocavam grandes polêmicas. A campanha de combate à varíola resultou, em novembro de 1904, em uma revolta popular e militar, a Revolta da Vacina ou Quebra-Lampiões – um protesto contra a lei que tornava obrigatória a vacinação em massa contra a doença, instituída pelo prefeito Pereira Passos e colocada em prática pelo então Diretor Geral de Saúde Pública, Oswaldo Cruz, contratado para o cargo para combater a varíola, assim como a peste bubônica e a febre amarela, que grassavam na cidade. Vamos contar um pouco dessa história.

 

 

Em 30 de dezembro de 1902, por decreto, Francisco Pereira Passos (1836 – 1913) foi nomeado prefeito do então Distrito Federal, o Rio de Janeiro, pelo presidente Rodrigues Alves (1848 – 1919), que prometia marcar seu governo pela modernização e pelo saneamento. Assumiu no mesmo dia (Gazeta de Notícias, 31 de dezembro de 1902, na sexta coluna), sucedendo Carlos Leite Ribeiro (1858 – 1945). Ocupou o cargo até 16 de novembro de 1906, quando foi sucedido por Francisco Marcelino de Sousa Aguiar (1855 – 1935) (O Paiz, 17 de novembro de 1906, na sexta coluna). Durante seu mandato, o prefeito Pereira Passos realizou uma significativa reforma urbana na cidade.

Para saneá-la e modernizá-la realizou diversas demolições, conhecidas popularmente como a política do “bota-abaixo”, que contribuiu fortemente para o surgimento do Rio de Janeiro da Belle Époque, sendo a abertura da Avenida Central dos seus maiores símbolos, festejada em uma crônica de Olavo Bilac (1865 – 1918) (Kosmos, março de 1904) . Essas transformações foram definidas por Alberto Figueiredo Pimentel (1869-1914), autor da seção “Binóculo”, da Gazeta de Notícias, com a máxima “O Rio civiliza-se”, que se tornou o slogan da reforma urbana carioca. Foi também Pereira Passos que contratou, em 1903, o primeiro fotógrafo oficial da prefeitura, Augusto Malta (1864 – 1957), justamente para documentar todas essas inúmeras e radicais mudanças na cidade.

 

 

Mas as reformas urbanas não eram o bastante para mudar o perfil do Rio de Janeiro, na época uma cidade bastante insalubre, assolada por doenças e sem saneamento básico, certamente obstáculos para o estabelecimento de uma sociedade moderna e cosmopolita nos moldes das capitais europeias. O Rio de Janeiro era inclusive conhecido internacionalmente como “túmulo dos estrangeiros”, possivelmente devido a versos sobre o verão carioca atribuídos ao escritor suíço Ludwig Ferdinand Schmid (1823-1888), que havia sido cônsul no Rio de Janeiro na década de 1860:

Oh! sombra, sobre a imagem encantada / Cores escuras pousam sobre os campos e florestas / O mal da natureza paira, poderoso / Sobre a florida superfície tropical /O poder supremo/ Deste Império não é de nenhum Herodes / No entanto é a terra da morte diária / Túmulo insaciável do estrangeiro”.

Pereira Passos aliou a reforma urbanística e arquitetônica da cidade – que incluiria a construção de um novo porto, de novas avenidas, o aterramento de praias, o desmonte de morros, a derrubada de casas e cortiços e o embelezamento de praças e jardins, que não deixou de ter seu lado excludente e criticado, deslocando parte da população do centro para o subúrbio e também contribuindo para o surgimento das favelas – a uma nova política higienista. Para implementar medidas sanitárias arrojadas foi nomeado pelo presidente Rodrigues Alves para a direção geral de Saúde Pública o jovem médico Oswaldo Cruz (1872 – 1917), que tomou posse em 23 de março de 1903. Ficou no cargo até 1909.

 

Oswaldo Cruz havia estudado microbiologia, soroterapia e imunologia no Instituto Pasteur, e medicina legal no Instituto de Toxicologia, na França, entre 1897 e 1898. Quando voltou ao Brasil, tomou posse, em 24 de agosto de 1899, na Academia Nacional de Medicina, e, em 1900, assumiu a direção técnica do Instituto Soroterápico Federal, o qual passou a dirigir em 1902.

 

 

Os principais problemas que Oswaldo Cruz teve que enfrentar como Diretor Geral de Saúde Pública foram a febre amarela, a peste bubônica e a varíola. Um de seus colaboradores foi o sanitarista Belisário Penna (1868 – 1939).

 

 

A febre amarela

 

 

Em 1902, a febre amarela havia sido responsável pela morte de cerca de mil pessoas no Rio de Janeiro. Oswaldo Cruz era adepto da teoria do médico cubano Carlos Finlay (1833 – 1915) sobre a transmissão da febre amarela pelos mosquitos Stegomyia fasciata. Para exterminá-los, em abril de 1903, iniciou a campanha de combate à doença. Em 15 de abril, foi criado o Serviço de Profilaxia Específica da Febre Amarela (O Paiz, 18 de abril de 1903, sexta coluna; 22 de abril de 1903, quarta coluna; 25 de abril, quinta coluna; e 29 de abril, quarta coluna).

 

 

 

A execução dessa profilaxia foi regulamentada pelas “Instruções para o Serviço de Profilaxia Específica de Febre-Amarela” nos primeiros dias de maio de 1903, do ministro da Justiça e Negócios Interiores, J.J. Seabra (1855 – 1942) (O Paiz, 7 de maio de 1903, penúltima coluna).

 

 

Foram criadas as brigadas sanitárias, que “eram constituídas por 1 inspetor do serviço, responsável por toda a execução das atividades e nomeado por decreto; 10 médicos que o auxiliam, destacados dentre os inspetores sanitários pelo diretor geral de saúde pública, mediante indicação do inspetor do serviço; 70 auxiliares acadêmicos e 9 chefes de turma, nomeados pelo diretor geral de saúde pública; 1 administrador do serviço, 1 almoxarife e 1 escrituario-arquivista, nomeados por portaria do Ministro; 200 capatazes, 18 guardas de saúde de primeira classe e 18 de segunda classe, 18 carpinteiros e pedreiros, bombeiros, cocheiros, nomeados pelo inspetor do serviço; e quantos mais trabalhadores fossem necessários” (BRASIL, 1905).

 

 

Guardas “mata-mosquitos” visitavam casas nas diversas regiões da cidade, muitas vezes acompanhados por soldados da polícia. A cidade foi dividida em distritos sanitários, sob jurisdição das delegacias de Saúde, que recebiam notificações dos enfermos, aplicavam multas e intimavam os donos de imóveis considerados insalubres a reformá-los ou até mesmo a demoli-los. Providenciava-se a remoção de pessoas infectadas para hospitais, o isolamento domiciliar dos enfermos assim como a desinfecção dos ambientes. Ao mesmo tempo, Oswaldo Cruz fazia circular na imprensa os folhetos Conselhos ao Povo, de divulgação das medidas adotadas.

 

 

A doença foi perdendo a força e, em 1907, Oswaldo Cruz escreveu ao presidente Afonso Pena (1847 – 1909): “graças à firmeza e vontade do governo, a febre amarela já não mais devasta sob a forma epidêmica a capital da República”. Nesse mesmo ano, a delegação brasileira de cientistas de Maguinhos, liderada por Oswaldo Cruz, recebeu a medalha de ouro no XIV Congresso Internacional de Higiene e Demografia de Berlim.

 

 

Acessando o link para as fotografias relativas à febre amarela disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Aline Lopes de Lacerda, historiadora e chefe do Departamento de Arquivo e Documentação da COC/Fiocruz,  escreveu o artigo Febre amarela: imagens da produção da vacina no início do século XX, publicado na Brasiliana Fotográfica, em 25 de março de 2018. Cristiane d’Avila, jornalista do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz, escreveu Vacinação no Brasil, uma história centenária, publicado em 17 de agosto de 2018. Ricardo Augusto dos Santos, pesquisador titular da Fundação Oswaldo Cruz, escreveu o artigo O sanitarista Belisário Penna (1868-1939), um dos protagonistas da história da saúde pública no Brasil, também publicado no portal, em 28 de setembro de 2018. A Fiocruz é uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica.

 

A peste bubônica

 

 

A peste bubônica, doença transmitida pela picada de pulgas infectadas por ratos contaminados pela bactéria Yersinia pestis, o bacilo descoberto pelo suíço Alexandre Yersin (1863 – 1943) e pelo japonês Shibasaburo Sato (1852 – 1931), em 1894, chegou ao Brasil, pelo porto de Santos, em 1900. Foi combatida por Oswaldo Cruz e as medidas contra a peste bubônica não encontraram resistência da população. Foi intensificada a limpeza urbana e a notificação dos doentes era compulsória, o que ajudava no isolamento e no tratamento dos mesmos com o soro fabricado no Instituto Soroterápico Federal. Foi também promovida a vacinação de pessoas residentes nas áreas mais atingidas e uma abrangente campanha de desratização foi realizada: os funcionários destacados para a função tinham que recolher 150 ratos por mês, pelos quais recebiam 60 mil-réis.

A Diretoria Geral de Saúde Pública (DGSP) passou a comprar ratos: para cada animal morto apresentado, pagava-se a quantia de duzentos réis, o que ocasionou o surgimento da profissão de “ratoeiro” – compravam ratos a baixo preço ou até mesmo os criavam em casa e os revendiam para a DGSP. A “guerra aos ratos” virou motivo de piada, de críticas (Revista da Semana, 21 de agosto de 1904Kosmos, outubro 1904) e até uma música sobre o tema, a polca Rato, rato, composta por Casemiro da Rocha (1880 – 1912), integrante da banda do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro, com letra de Claudino Costa, foi um grande sucesso no carnaval de 1904. Foi gravada na Casa Edison.

 

 

O fato é que as mortes por peste bubônica que, em 1903, atingiram o índice de 48,74 mortes para cada 100 mil habitantes, caíram vertiginosamente e quando Oswaldo Cruz deixou a Diretoria Geral de Saúde Pública, em 1909, esse índice chegou ao seu mais baixo patamar: 1,73.

 

A varíola e a Guerra da Vacina

 

 

Até meados de 1904, as internações causadas pela varíola já chegavam a 1800 no Hospital São Sebastião. Oswaldo Cruz pretendeu controlar a doença com a vacinação em massa da população. Pediu que fosse enviado ao Congresso Nacional um projeto de lei para resgatar a obrigatoriedade da vacinação e revacinação antivariólica. A vacinação já estava contemplada em uma lei em vigor desde 1837, mas que nunca havia sido cumprida.

 

 

 

A medida enfrentou a oposição liderada pelo senador paraense Lauro Sodré (1858 – 1944), líder do Partido Republicano Federal, e pelos deputados pernambucano Barbosa Lima (1862 – 1931) e gaúcho Alfredo Varela (1864 – 1943), todos contra o governo do presidente Rodrigues Alves, do Partido Conservador. O Apostolado Positivista do Brasil, liderado por Raimundo Teixeira Mendes (1855 – 1927), também se opôs à lei.

 

 

 

 

Jornais e políticos lançaram uma campanha contra a medida, incitando a desobediência à lei, que eles classificavam como despótica e ameaçadora, já que estranhos tocariam nas pessoas no caso da vacinação, além de entrarem nas casas para desinfecção. Além disso, a vacina, que consistia no líquido de pústulas de vacas doentes, era rejeitada pelas camadas populares – havia um boato de que os vacinados adquiriam feições bovinas…

 

 

 

Finalmente, foi promulgada, em 31 de outubro de 1904, uma lei que tornou a vacinação e a revacinação contra a varíola obrigatória.

 

Lei n° 1.261, de 31 de outubro de 1904

 

Torna obrigatorias, em toda a Republica, a vaccinação e a revaccinação contra a variola.

O Presidente da Republica dos Estados Unidos do Brazil:
Faço saber que o Congresso Nacional decretou e eu sancciono a lei seguinte:

     Art. 1º A vaccinação e revaccinação contra a variola são obrigatorias em toda a Republica.

     Art. 2º Fica o Governo autorizado a regulamental-a sob as seguintes bases:

     a) A vaccinação será praticada até o sexto mez de idade, excepto nos casos provados de molestia, em que poderá ser feita mais tarde;

     b) A revaccinação terá logar sete annos após a vaccinação e será repetida por septennios;

     c) As pessoas que tiverem mais de seis mezes de idade serão vaccinadas, excepto si provarem de modo cabal terem soffrido esta operação com proveito dentro dos ultimos seis annos;

     d) Todos os officiaes e soldados das classes armadas da Republica deverão ser vaccinados e revaccinados, ficando os commandantes responsaveis pelo cumprimento desta;

     e) O Governo lançara mão, afim de que sejam fielmente cumpridas as disposições desta lei, da medida estabelecida na primeira parte da lettra f do § 3º do art. 1º do decreto n. 1151, de 5 de janeiro de 1904;

     f) Todos os serviços que se relacionem com a presente lei serão postos em pratica no Districto Federal e fiscalizados pelo Ministerio da Justiça e Negocios Interiores, por intermedio da Directoria Geral de Saude Publica.

     Art. 3º Revogam-se as disposições em contrario.

Rio de Janeiro, 31 de outubro de 1904, 16º da Republica.

FRANCISCO DE PAULA RODRIGUES ALVES.
J. J. Seabra.

 

 

 

 

Em um encontro presidido pelo senador Lauro Sodré, no Centro das Classes Operárias, em 5 de novembro de 1904, foi fundada a Liga Contra a Vacina Obrigatória (O Paiz, 6 de novembro de 1904, penúltima coluna). O descontentamento popular se agravou quando, no dia 9 de novembro de 1904, o governo divulgou seu plano de regulamentação da aplicação da vacina obrigatória contra a varíola (Gazeta de Notícias, 10 de novembro de 1904, quinta coluna). Nos dias 10 e 11, no Largo de São Francisco, estudantes contrários à lei se reuniram e, no dia 13 de novembro, acirrou-se a rebelião popular, que ficou conhecida como , da Vacina, marcada por diversos distúrbios urbanos em várias regiões da cidade, embates com a polícia e prisões. Mais de 20 bondes da Companhia Carris Urbanos e muitos lampiões da iluminação pública foram destruídos, daí o apelido Quebra Lampiões atribuído ao movimento (Gazeta de Notícias, 14 de novembro de 1904; e Jornal do Brasil, 14 de novembro de 1904).

 

 

 

Paralelamente à revolta popular, aconteceu um movimento militar orquestrado pelos generais Silvestre Travassos (? – 1904) e Olímpio da Silveira (1887 – 1935), Lauro Sodré, Barbosa Lima, o major Gomes de Castro e o capitão Augusto Mendes de Moraes, que se reuniram no dia 14 de novembro de 1904, no Clube Militar. Tinham por objetivo derrubar o governo de Rodrigues Alves, que foi aconselhado a ir para um navio de guerra, onde teria mais segurança – ele recusou.

Houve no mesmo dia uma tentativa fracassada de levante na Escola de Tática do Realengo, sufocada pelo então diretor da instituição, general Hermes da Fonseca (1855 – 1923), futuro presidente do Brasil. O comandante da Escola Militar de Realengo, o general Alípio Costallat (c. 1853 – 1933), foi deposto pelo general Travassos que liderou, durante a noite, a marcha dos alunos em direção ao Palácio do Catete. Os revoltosos trocaram tiros com uma brigada de ataque enviada pelo govenro, na rua da Passagem, em Botafogo. O tiroteio, de cerca de meia hora, matou um aluno da Escola Militar, Silvestre Cavalcanti, e um sargento da tropa legalista, chamado Camargo. O general Travassos ficou gravemente ferido e faleceu oito dias depois. A Escola Militar, bombardeada durante a noite por navios de guerra posicionados na baía de Guanabara, foi ocupada pelo ministro da Guerra, o marechal Francisco de Paula Argollo (1847 – 1930) e pelo ministro da Indústria, Viação e Obras Públicas, Lauro Müller (1863 – 1926). Seus alunos foram presos, expulsos da Escola e levados para portos na região Sul do país. Obviamente, o desfile comemorativo dos 15 anos da Proclamação da República foi cancelado (Gazeta de Notícias, 15 de novembro de 1904Jornal do Brasil, 15 de novembro de 1904; Gazeta de Notícias, 16 de novembro de 1904; Jornal do Brasil, 16 de novembro de 1904).

No dia 16 de novembro, foi decretado o estado de sítio e revogada a obrigatoriedade da vacinação. Com isso, o movimento popular arrefeceu, os serviços voltaram a funcionar e a cidade se apazigou. Saldo do movimento: 945 prisões, 461 deportações, 110 feridos e 30 mortos (Gazeta de Notícias, 17 de novembro de 1904 e 18 de novembro de 1904).

 

 

Segundo o historiador Jaime Larry Benchimol: Todos saíram perdendo. Os revoltosos foram castigados pelo governo e pela varíola. A vacinação vinha crescendo e despencou, depois da tentativa de torná-la obrigatória. A ação do governo foi desastrada e desastrosa, porque interrompeu um movimento ascendente de adesão à vacina”.

Apenas nove pessoas morreram por varíola em 1906 no Rio de Janeiro. Porém, dois anos depois, em 1908, uma violenta epidemia da doença ocorreu na cidade, causando mais de 6.500 casos.

 

 

Link para músicas sobre Oswaldo Cruz e também sobre as campanhas de combate à febre amarela, à peste bubônica e à vacinação obrigatória contra a varíola, publicadas na Biblioteca Virtual Oswaldo Cruz

 

Retrospectiva das pandemias do século XX e XXI

 

O mundo, ao longo dos séculos XX e XXI, enfrentou cinco pandemias: a Gripe Espanhola, em 1918, tema de uma recente publicação da Brasiliana Fotográfica, E o ex e futuro presidente do Brasil morreu de gripe…a Gripe Espanhola de 1918; a Gripe Asiática, em 1957; a Gripe de Hong Kong, em 1968, a identificação de um novo vírus da influenza do tipo A pandêmico que desencadeou a Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional, decretada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2009; e cerca de 11 anos depois, em 11 de abril de 2020, a OMS declarou uma pandemia do novo coronavírus, chamado de Sars-Cov-2, causador da Covid-19, surgido na cidade de Wuhan, na China, em fins de 2019.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

 

BENCHIMOL, Jaime Larry. Pereira Passos: um Haussmann Tropical. A renovação urbana na cidade do Rio de Janeiro no início do século XX. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, Departamento Geral de Documentação e Informação Cultural, 1992.

BENCHIMOL, Jaime Larry. Reforma urbana e Revolta da Vacina na cidade do Rio de Janeiro. In: Jorge Ferreira e Lucilia de Almeida Neves Delgado (org.) O Brasil Republicano. O tempo do liberalismo excludente. Da proclamação da República à Revolução de 1930. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

BIBEL, David J.; CHEN, T.H. Diagnosis of Plague: an Analysis of the Yersin-Kitasato Controversy. American Society for Microbiology, 1976.

Biblioteca Virtual Oswaldo Cruz

BRASIL. Ministério da Justiça. Relatório 1904 – 1905. Imprensa Nacional, Rio de Janeiro, 1905.

CARVALHO, José Murilo de: Os Bestializados – O Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo : Companhia das Letras, 1987.

COSTA, Zouraide; ELKHOURY, Ana; FLANNERY, Brendan; ROMANO, Alessandro. Evolução histórica da vigilância epidemiológica e do controle da febre amarela no Brasil, 2011.

CURY, Bruno da Silva Mussa. Combatendo ratos, mosquitos e pessoas: Oswaldo Cruz e a saúde pública na reforma da capital do Brasil (1902-1904). / Bruno da Silva Mussa Curry. – 2012. 160 f. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Programa de Pós-graduação em História, Rio de Janeiro, 2012.

Dicionário Cravo Alvim

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Ministério da Saúde

Nosso Século. São Paulo : Abril Cultural, 1980.

Portal Fiocruz – A trajetória do médico dedicado à ciência

Portal Fiocruz  – A Revolta da Vacina

Projeto Memória – Fundação Banco do Brasil

ROCHA, Oswaldo; CARVALHO, Lia de Aquino. A era das demolições Habitações Populares. Rio de Janeiro : Biblioteca Carioca, 1986

SEVCENKO, Nicolau. A Revolta da Vacina: mentes insanas em corpos rebeldes. São Paulo: Cosac Naify, 2010.

Site CPDOC

Site Multirio

O “descobrimento” do Forte do Príncipe da Beira: a expedição de 1913 do almirante José Carlos de Carvalho

O Real Forte do Príncipe da Beira é considerado a maior edificação militar portuguesa construída fora da Europa, no Brasil Colonial. É sua história que Carlos André Lopes da Silva, pesquisador da Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, traz para os leitores do portal. Inaugurado em 20 de agosto de 1783, na margem direita do rio Guaporé, perto do atual município de Costa Marques, em Rondônia, o forte foi batizado em homenagem a dom José de Bragança, o Príncipe da Beira, filho da Rainha D. Maria I. Majestosa relíquia da arquitetura militar luso-brasileira, é uma das mais importantes construções do Brasil Colônia. As fotografias reproduzidas nesse artigo são de autoria do fotógrafo Augusto Clímaco de Carvalho (18? – 19?) que participou de uma expedição ao local liderada pelo almirante José Carlos de Carvalho (1847 – 1934) realizada em 1913.

Empreendimento de imenso custo, a construção do Forte do Príncipe da Beira em plena floresta amazônica, representava uma iniciativa da coroa portuguesa e da política do Marquês de Pombal, poderoso e influente ministro do governo de dom José I, rei de Portugal, para proteger as fronteiras do centro-oeste do Brasil nas disputas com a Espanha. Com a proclamação da República, em 1889, ficou durante muito tempo abandonado. Foi tombado em 1950 pelo então Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e faz parte do Conjunto de Fortificações candidato a Patrimônio Mundial da UNESCO em 2019. Atualmente, o 1º Pelotão de Infantaria de Selva Destacado, pertencente ao 3o Batalhão da 17a Brigada de Infantaria de Selva, é o responsável pela preservação e manutenção desse patrimônio histórico.

Acessando o link para as fotografias do Forte Príncipe da Beira disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Pouco se sabe sobre o fotógrafo Alfredo Clímaco de Carvalho. Provavelmente nasceu na segunda metade do século XIX. Em 1910, foi eleito suplente da diretoria da Associação dos Empregados no Comércio do Amazonas , dois anos depois, fotografou Rodolfo Aranz, Delegado Nacional no Território de Colônias na Bolívia, e seus companheiros em visita ao Amazonas. Foi referido como inteligente amador. Em 1913, diversas guardas da coletoria foram extintas e Alfredo Clímaco de Carvalho (18? – 19?), que seria o responsável por uma delas, foi dispensado. No mesmo ano, em julho, integrou a expedição ao Forte do Príncipe da Beira, liderada pelo contra-almirante honorário José Carlos de Carvalho (1847 – 1934), e produziu diversas imagens da construção e dos integrantes da viagem. Várias dessas fotos foram publicadas na imprensa. Ainda em 1913, em novembro, foi nomeado subdelegado de Porto Velho. Foi empossado, em 24 de janeiro de 1915, um dos suplentes do primeiro Conselho Municipal de Porto Velho. Em 1918 e em 1919, foi listado no Almanak Laemmert como fotógrafo no estado do Amazonas. Há registros de que um homônimo ou ele próprio teria ido para o Rio Grande do Norte.

 

Planta e desenho aproximado do Forte do Príncipe da Beira feita por algum membro da expedição de 1913, provavelmente pelo próprio José Carlos de Carvalho que era engenheiro / Acervo DPHDM

Planta e desenho aproximado do Forte do Príncipe da Beira feita por algum membro da expedição de 1913, provavelmente pelo próprio José Carlos de Carvalho que era engenheiro / Acervo DPHDM

 

O “descobrimento” do Forte do Príncipe da Beira: a expedição de 1913 do contra-almirante José Carlos de Carvalho

Carlos André Lopes da Silva*

 

 

Em 6 de julho de 1913, num ponto altaneiro da margem direita do rio Guaporé, que demarca a divisa entre o Brasil e a República da Bolívia, oito membros destacados do então estado do Mato Grosso se reuniram com um oficial-general da Marinha e um fotógrafo para assinar um documento que alertava para o esquecimento e abandono do que os mesmos identificaram como “monumento histórico”: o Real Forte do Príncipe da Beira. 

No interior das sólidas muralhas de 10 metros de altura, inspecionaram aquele amplo forte setecentista: o intendente da Vila de Santo Antônio do Madeira, a sede municipal mais próxima, dr. Joaquim Augusto Tanajura, médico que atuou como chefe do serviço de saúde da Comissão Rondon; Octávio Costa Marques, delegado fiscal de Mato Grosso; Francisco Paes, um agente fiscal estadual; J. da Silva Campos, um engenheiro da Inspetoria Federal das Estradas; A. W. Wohott, também médico e sub-diretor do Hospital da Candelária de Porto Velho; R. A. Gesteira, um coronel do Exército venezuelano; Rudolph O. Kesselring, engenheiro alemão, representante da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, que apenas no ano anterior tinha iniciado sua operação comercial, e diretor da recém instalada Guaporé Rubber, companhia de capital dos Estados Unidos que explorava os seringais e inaugurou a navegação comercial no Guaporé; coronel Paulo Saldanha, gerente da mesma empresa; José Carlos de Carvalho (1847 – 1934), contra-almirante honorário, veterano da Guerra do Paraguai, político, explorador e a maior autoridade federal presente; e Alfredo Clímaco de Carvalho (18? – 19?), o fotógrafo que acompanhava aquela expedição. 

 

 

O documento em forma de ata, na ocasião redigido e assinado por esses homens, foi entregue ao então presidente da República, também um militar como Carvalho, Saldanha e Gesteira, o marechal Hermes da Fonseca (1855 – 1923), destacando os objetivos da expedição: a entrega do Forte à guarda do governo estadual enquanto o federal estudava formas de ocupá-lo e a remoção de vestígios de um passado imponente para salvaguarda do Museu Nacional. A fortaleza, longe de ser um Eldorado perdido por séculos na floresta tropical, se manteve ocupado por guarnição militar desde sua prontificação, em 1783, até início do período republicano.

Sua construção, iniciada em 1776, se deu dentro da política do ministro do rei dom José I de Portugal, Sebastião José de Carvalho e Melo (1699 – 1782), o marquês de Pombal, de garantir a posse e defesa da fronteira Oeste dos domínios portugueses, questionada pelos espanhóis nas deliberações dos diversos tratados firmados ao longo da segunda metade daquele século. A edificação seguia os preceitos mais altos da engenharia de fortificações do período, com formato quadrangular e quatro baluartes no sistema consagrado por Sébastien Le Prestre de Vauban (1633 – 1707), o grande arquiteto militar do reinado de Luís XIV (1638 – 1715). Com 970 metros de perímetro, os baluartes, com quatorze canhoneiras cada, permitiam o cruzamento de fogos para atacar os assediadores das muralhas, uma obra em pedra extraordinária para aquela fronteira inóspita. Iniciada pelo engenheiro militar italiano a serviço do Exército português Domingos Sambucetti (? – 1780) e terminada pelo sargento mór do Real Corpo de Engenheiros Ricardo Franco de Almeida Serra (1748 – 1809), a edificação da fortaleza engajou cerca de 200 trabalhadores especializados e mais de mil em regime de escravidão – negros e indígenas. Muitos desses, como o próprio Sambucetti, pereceram de doenças tropicais, sobretudo a malária, que ainda, em 1913, gerava crises sanitárias na região e a pobre Vila de Santo Antônio do Madeira era de seus epicentros. 

Contudo, o início da operação prática do Real Forte Príncipe da Beira coincidiu com o relaxamento das tensões sobre as fronteiras americanas entre Portugal e Espanha que sobreveio ao Tratado de Santo Ildefonso de 1777. Com a independência dos estados sul-americanos nas primeiras décadas do século XIX, o permanente guarnecimento pelo Exército brasileiro de fronteira não contestada com a Bolívia tornou-se custoso para um aparato militar franzino que se ocupava de conter revoltas regionais e atuar na conflituosa fronteira do rio Prata. As guarnições do Forte da Beira foram minguando até seu completo abandono em 1895. 

Em pouco menos de duas décadas, até a expedição de 1913, muito do material aproveitável foi retirado pela pobre e esparsa população do entorno. Telhas, tijolos, blocos menores de pedra, portas e janelas, madeirame do telhado e até os poucos e valiosos canhões de bronze, se espalharam para ambos os lados da fronteira. A ata encabeçada por José Carlos de Carvalho relatava que as muralhas e muros de pedra do casario interno ainda estavam bem conservados, mas tomados pela vegetação; antigos canhões de ferro fundido, sem valor comercial, tombados nos baluartes e a inscrição de 1776 em placa de pedra ainda encontrava-se fixada no frontão. Cumprindo o objetivo de recolher vestígios daquela marca de ocupação territorial para o Museu Nacional, trabalhadores da Guaporé Rubber transportaram um canhão calibre 24 de provável procedência inglesa, pelas alegadas inscrições “GR” (George Rex) encimada por coroa, encosta abaixo até um dos vapores daquela companhia. Também foram levadas partes da única porta de madeira maciça encontrada no baluarte Sul.

 

 

José Carlos de Carvalho, utilizando sua influência como deputado federal em três legislaturas, solicitou aos dirigentes daquela companhia a derrubada da vegetação que tinha tomado o interior da praça da fortaleza e impingiu ao mais graduado representante do estado do Mato Grosso presente, o delegado fiscal Octávio Costa Marques, a guarda da edificação. Este prometeu transferir para ali o posto fiscal de Lamego, outro povoamento criado no período pombalino para a defesa da calha do Guaporé, o que manteria aquele sítio pelo menos ocupado.

Mas pouco do dito e lavrado em ata, em 1913, foi realizado. Em 1930, o militar e sertanista Cândido Rondon (1865 – 1958) “redescobriu” o Forte tão abandonado como Carvalho o tinha encontrado. Muito por iniciativa do próprio Rondon, que dedicou a maior e melhor parte de sua carreira na exploração, mapeamento e extensão das linhas telegráficas pelos sertões do Mato Grosso e Amazonas, o sítio que se encontra o Forte Príncipe da Beira foi reocupado pelo Estado em 1937 com o estabelecimento do 7º Pelotão de Fronteira em quartel contíguo às muralhas. Em 1950, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional tombou a edificação, oficializando sua descoberta como “monumento histórico” requerida por José Carlos de Carvalho quando da expedição de 1913.

 

José Carlos de Carvalho, acompanhado por Gastão de Orléans e pela Princesa Isabel, em visita a usina dedicada à fabricação de armamentos militares, 1886 / Site do Exército

José Carlos de Carvalho, acompanhado por Gastão de Orléans e pela Princesa Isabel, em visita a usina dedicada à fabricação de armamentos militares, 1886 / Site do Exército

 

 

Fontes:

BARCELOS, Giovani da Silva. Forte Príncipe da Beira: conhecimento, valoração e preservação, 2018. 206 fls. Dissertação (Mestrado em Preservação do Patrimônio Cultural) – IPHAN, Rio de Janeiro, 2018. 

BARROSO, Lourismar da Silva. Real Forte Príncipe da Beira: ocupação oeste da Capitania do Mato Grosso e seu processo construtivo (1775-1783), 2015. 102 fls. Dissertação (Mestrado em História) – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2015.

NASCIMENTO. Sílvio Melo do. Real Forte Príncipe da Beira: história e estórias do imaginário popular do Vale do Guaporé. Revista Labirinto, ano XIII, n. 18, jun. 2013, p. 113-124. 

TEIXEIRA. Paulo R. Rodrigues. Forte Príncipe da Beira. Da Cultura, ano III, n. 4, p. 45-52.

Forte “Príncipe da Beira”. A Illustração Brazileira, n. 110, 16 de dezembro de 1913, p. 420,421.

Necrologia – Vice-Almirante José Carlos de Carvalho. Revista Marítima Brasileira, 1934, p. 1253-1257.

Noticiário – Presidência da República. Diário Official, 11 de setembro de 1913, p. 13305, 13306.

 

*Carlos André Lopes da Silva é pesquisador da Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha.

 

 Breve cronologia do Real Forte Príncipe da Beira

Andrea C. T. Wanderley**

 

 

1743 – Desde esse ano espanhóis estavam implantando alguns povoados na margem direita do rio Guaporé.

1748 – O português Antônio Rolim de Moura Tavares (1709 – 1782) foi nomeado governador de Mato Grosso e recebeu instruções da metrópole para manter a todo o custo a posse da referida área. Ao longo de seu governo destruiu povoados fundados pelos espanhóis.

1750 – Assinatura, em 13 de janeiro de 1750, do Tratado de Madri, firmado entre os reis João V de Portugal (1689 – 1750) e Fernando VI da Espanha (1713 – 1759) para definir os limites entre as respectivas colônias sul-americanas. Seu objetivo foi substituir o Tratado Tordesilhas, que na prática não era respeitado. As duas partes reconheceram ter violado o antigo tratado e utilizaram rios e montanhas para a demarcação dos novos limites, que se sobreporiam aos anteriores. As negociação foram baseadas no Mapa das Cortes.

c. 1760 - Foi erguido o Fortim Nossa Senhora da Conceição na margem direita do rio Guaporé.

1761 – O Tratado de El Pardo, de 12 de fevereiro de 1781, anulou todas as disposições e feitos decorrentes do Tratado de Madri, de 1750, que havia falhado em promover a paz nas colônias espanhola e portuguesa “de sorte que todas as coisas pertencentes aos limites da América e Ásia se restituem aos termos dos tratados, pactos e convenções que haviam sido celebrados entre as duas Corôas contratantes, antes do referido ano de 1750, ficam daqui em diante em sua fôrça e vigor..”

1767 /1769 – O então já denominado Forte Nossa Senhora da Conceição, que havia sido arruinado, teve sua estrutura reconstruída a partir de 26 de setembro de 1767 e foi rebatizado, em 1769, pelo então governador do Mato Grosso, o português Luís Pinto de Sousa Coutinho (1735 – 1804) como Forte de Bragança.

1772 – Em 13 de dezembro de 1772, tomou posse como governador da capitania do Mato Grosso, Luís de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres (1739 – 1797), que futuramente tomaria a iniciativa de construir o Forte do Príncipe a Beira. Ocupou o cargo até novembro de 1789 (O Comércio (MT), 28 de junho de 1911, penúltima coluna).

c. 1775 - O Forte de Bragança estava em ruínas devido às enchentes regulares na região e foi iniciada a elaboração do Plano do Forte Príncipe da Beira, que o substituiria, no estilo do francês Sébastien Le Prestre de Vauban (1633 – 1707), o grande arquiteto militar do reinado de Luís XIV (1638 – 1715). As obras foram iniciadas em novembro de 1775.

 

Plano do Forte Príncipe da Beira, Mato Grosso", ca. 1775. Cartografia do Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa

Plano do Forte Príncipe da Beira, Mato Grosso”, c. 1775. Cartografia do Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa

 

1776 – Em 20 de junho, foi colocada a pedra fundamental do Forte Príncipe da Beira (Anais da Biblioteca Nacional, 1881). Luís de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres (1739 – 1797), como já mencionado,  era o governador e capitão-geral da capitania de Mato Grosso, cargo que ocupou entre 1772 e 1788. Foi dele a iniciativa da construção do forte, erguido a cerca de dois quilômetros a montante, do Forte de Bragança, na mesma margem do rio:

A soberania e o respeito de Portugal impõem que neste lugar se erga um forte, e isso é obra a serviço dos homens de El-Rei, nosso senhor e, como tal, por mais duro, por mais difícil e por mais trabalho que isso dê… é serviço de Portugal. E tem que se cumprir.”

1780 – O engenheiro militar genovês a serviço de Portugal Domingos Sambuceti (? – 1780), que havia iniciado a obra, contraiu malária e faleceu. Assumiu, então, o capitão José Pinheiro de Lacerda, substituído, alguns meses depois, pelo sargento-mor do Real Corpo de Engenheiros do Exército, Ricardo Franco de Almeida e Serra (1748 – 1809), que seria nos últimos anos do século XVIII responsável pela nova fortificação de Coimbra, na margem direita do rio Paraguai, perto da cidade de Corumbá.

1783 – Em 20 de agosto, inauguração do Forte Príncipe da Beira. Seu primeiro comandante foi o Capitão de Dragões, José de Melo de Souza Castro e Vilhena.

O astrônomo paulista Francisco José de Lacerda (1753 – 1798) relatou observações astronômicas que havia realizado do Forte Príncipe da Beira (Anais da Biblioteca Nacional, 1881).

1789 – O Forte Príncipe da Beira foi visitado, em 9 de junho, em missão científica oficial denominada Viagem Filosófica, pelo baiano Alexandre Rodrigues Ferreira (1756 – 1815), considerado um dos primeiros grandes naturalistas brasileiros.

1830 – Aportava a primeira artilharia que lhe era destinada, constante de quatro bocas de fogo de calibre 24, enviadas do Pará. Mais tarde ali foram ter mais 14 canhões de ferro, de calibre 12.

1836 – O Forte do Príncipe da Beira passou a receber sentenciados para ali cumprirem suas penas.

1869 – O cronista Joaquim Ferreira Moutinho (1833 – 1914) lançou um um livro sobre a província de Mato Grosso seguido de um roteiro de viagem de sua capital a São Paulo. Visitou o forte que, segundo ele, já apresentava sinais de abandono (Jornal do Commercio, 16 de julho de 1869, última coluna).

1876 -  O major de Engenharia Guilherme de Lassance,  o 1º Tenente da Marinha Frederico de Oliveira e o médico João Severiano da Fonseca (1836 – 1897), autor da Viagem ao Redor do Brasil, que compunham a Comissão Demarcadora dos Limites do Brasil com a Bolívia visitaram o Forte do Príncipe da Beira, que encontraram guarnecido com 14 praças e um sargento.

1887 – O benemérito João Severiano da Fonseca (1836 – 1897) declarou sobre o forte: “a pena e o pesar verdadeiros de existir tal monumento em lugar onde apenas um ou outro degredado, um ou outro selvagem e o raríssimo viajante tem ocasião de contemplá-lo“(O Paiz, 30 de março de 1911).

1889 – Após a Proclamação da República, o Forte deixou de receber assistência do Governo e a partir daí, passou a ser saqueado tanto por brasileiros quanto por bolivianos. Seu último comandante foi o sargento Queiroz.

1895 – Canhões e um grande sino de bronze foram levados da fortaleza.

1904 a 1908 - O Forte do Príncipe da Beira era guarnecido por um destacamento militar do 19º Batalhão de Infantaria (Almanak Laemmert, 1905, 1906, 1907 e 1909).

1906 – O engenheiro mato-grossense Manoel Esperidião da Costa Marques (c. 1859 – 1906), que dá nome ao município que abriga o Forte, em expedição ao Vale do Guaporé, visitou a edificação e registrou seu estado de abandono. Costa Marques contraiu malária durante essa expedição e faleceu, em 18 de abril de 1906.

Em entrevista, o coronel Serzedelo Correia (1858 – 1932) mencionou o abandono do Forte do Príncipe da Beira e também revelou que havia sido enviado para lá, em julho de 1905, um oficial e seis praças, mas que até março, quando havia deixado Corumbá, não havia tido notícias da expedição (Correio da Manhã, 8 de abril de 1906, penúltima coluna; e Correio do Norte, 10 de maio de 1906, terceira coluna).

A comissão construtora da linha telegráfica do Mato Grosso indicou procedimentos para a ligação com o Forte do Príncipe da Beira (Relatórios do Ministério da Guerra, 1906).

1909 – Foi noticiado que os bolivianos da fronteira com o rio Guaporé haviam saqueado o forte e denunciada a existência de problemas nas fronteiras de Mato Grosso (Correio da Manhã, 22 de julho de 1909, quinta coluna; e O Paiz, 2 de agosto de 1909, segunda coluna).

1910 – Alfredo Clímaco de Carvalho (18? – 19?), fotógrafo das imagens que seriam produzidas do Forte Príncipe da Beira, em 1913, foi eleito suplente da diretoria da Associação dos Empregados no Comércio do Amazonas (A Província, 2 de abril de 1910, sétima coluna).

João da Costa Garcia, fiscal do governo de Mato Grosso junto a Societe Industrielle e Agricole du Brésil, concessionária de seringais na região do baixo Guaporé, esteve no Forte do Príncipe da Beira e um relatório realizado por ele de sua viagem seria entregue ao governador do estado (O Comércio (MT), 29 de outubro de 1910, penúltima coluna, 24 de novembro de 1910, última coluna; e

1911 –  Em artigo para a revista Illutração Brazileira, Pires de Almeida relatou que existiam informações de que um dos canhões do Forte fora comprado por um cruzador inglês, no porto chileno de Antofagasta e remetido ao Museu Histórico de Londres, e denunciou o abandono do local, além da invasão de bolivianos e brasileiros nos seringais da área (A Illustração Brazileira, de 1º de abril de 1911).

1912 - Rodolfo Aranz, Delegado Nacional no Território de Colônias na Bolívia, em visita ao Amazonas, foi fotografado com com seus companheiros de viagem pelo inteligente amador Alfredo Clímaco de Carvalho (Jornal do Commercio(AM), 20 de fevereiro de 1912, última coluna).

1913 – Diversas guardas da coletoria foram extintas e Alfredo Clímaco de Carvalho (18? – 19?), que era o responsável por uma delas, foi dispensado (Jornal do Commercio (AM), de 18 de janeiro de 1913, terceira coluna).

Em 6 de julho, num ponto da margem direita do rio Guaporé, que demarca a divisa entre o Brasil e a Bolívia, oito membros destacados do então estado do Mato Grosso se reuniram com um oficial-general da Marinha e um fotógrafo para assinar um documento que alertava para o esquecimento e abandono do que os mesmos identificaram como “monumento histórico”: o Real Forte Príncipe da Beira. A comissão era formada pelo o intendente da Vila de Santo Antônio do Madeira, a sede municipal mais próxima, dr. Joaquim Augusto Tanajura, médico que atuou como chefe do serviço de saúde da Comissão Rondon; Octávio Costa Marques, delegado fiscal de Mato Grosso; Francisco Paes, um agente fiscal estadual; J. da Silva Campos, um engenheiro da Inspetoria Federal das Estradas; A. W. Wohott, também médico e sub-diretor do Hospital da Candelária de Porto Velho; R. A. Gesteira, um coronel do Exército venezuelano; Rudolph O. Kesselring, engenheiro alemão, representante da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, que apenas no ano anterior tinha iniciado sua operação comercial, e diretor da recém instalada Guaporé Rubber, companhia de capital dos Estados Unidos que explorava os seringais e inaugurou a navegação comercial no Guaporé; coronel Paulo Saldanha, gerente da mesma empresa; José Carlos de Carvalho (1847 – 1934), contra-almirante honorário, veterano da Guerra do Paraguai, político, explorador e a maior autoridade federal presente; e Alfredo Clímaco de Carvalho (18? – 19?), o fotógrafo que acompanhava aquela expedição (Jornal do Commercio, 16 de junho de 1913, terceira coluna e Jornal do Commercio, 19 de julho de 1913, terceira coluna) Algumas das fotografias por ele produzidas foram publicadas no Jornal do Commercio(AM), 27 de julho de 1913; e na  A Illustração Brazileira, 16 de dezembro de 1913). 

 

 

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No Palácio Monroe, o contra-almirante José Carlos de Carvalho (1847 – 1934) proferiu uma palestra sobre sua viagem ao norte do Brasil e algumas das fotografias produzidas durante a visita ao Forte Príncipe da Beira foram utilizadas durante a apresentação (O Paiz, 23 de outubro de 1913, penúltima coluna). Dias depois, informou ao governo sobre a chegada de dois canhões trazidos da fortaleza (O Paiz, 28 de outubro de 1913, penúltima coluna).

Alfredo Clímaco de Carvalho (18? – 19?), autor das imagens do forte realizadas em 1913,  foi nomeado subdelegado de Porto Velho (Jornal do Commercio (AM), 4 de novembro de 1913, quarta coluna).

1914 – Segundo o site do Exército, nesse ano, uma expedição do futuro marechal Cândido Rondon (1865 – 1958) chegou ao Forte Príncipe da Beira.

Major Cândido Mariano da Silva Rondon e sua comitiva / Site do Exército

Major Cândido Mariano da Silva Rondon e sua comitiva / Site do Exército

 

1915 – Alfredo Clímaco de Carvalho  (18? – 19?) era um dos suplentes do primeiro Conselho Municipal de Porto Velho, constituído pelos vereadores José Jorge Braga Vieira, Luzitano Barreto, Antônio Sampaio, Manuel Félix de Campos e José Z. Camargo. Os outros suplentes eram José de Pontes, Achiles Reis, Horácio Bilhar e Alderico Castilho. O município de Porto Velho havia sido criado em 2 de outubro de 1914 mas só foi instalado em 24 de janeiro de 1915, data em que os vereadores e suplentes foram empossados (Alto Madeira, 24 de janeiro de 1976).

1918 – Alfredo Clímaco de Carvalho  (18? – 19?) foi listado como fotógrafo no estado do Amazonas no Almanak Laemmert de 1918

1919 – Publicação de um artigo sobre o Forte Príncipe da Beira com a reprodução de algumas das fotografias produzidas por Alfredo Clímaco de Carvalho, em 1913 (Eu sei tudo, fevereiro de 1919). Ele foi listado como fotógrafo no estado do Amazonas no Almanak Laemmert de 1919.

1930 – Rondon (1865 – 1958) retornou ao Forte e alertou às autoridades sobre suas más condições e também ressaltou sua importância histórica. Sugeriu a ocupação do local por uma unidade do Exército Brasileiro (O Jornal, 13 de abril de 1930).

1932 – Foi anunciado a iminente exibição no cinema Pathé Palácio, no Rio de Janeiro, do filme Ao redor do Brasil, cujo um dos temas seria o Forte do Príncipe da Beira (O Jornal, 12 de maio de 1932, quinta coluna).

Foi noticiado que seria enviado ao Forte do Príncipe da Beira um contingente formado por um 2º sargento, dois cabos e 15 soldados (O Jornal, 25 de setembro de 1932, terceira coluna).

1934 – Foi iniciado junto ao Forte a construção de novas instalações, em madeira, onde durante vários anos ficou sediado o 7° Pelotão de fronteira subordinado à 6° Companhia de Fronteira em Guajará-Mirim.

1943 - O magnata das comunicações Assis Chateaubriand (1892 – 1968) integrou a caravana dos Diários Associados em viagem ao norte do Brasil, que visitou o Forte Príncipe da Beira, a convite da Rubber Development Corporation (O Jornal, 27 de maio de 1943).

1950 – O Forte foi tombado pelo antigo SPHAN, informado pelo então Diretor do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Rodrigo Melo Franco de Andrade, à Diretoria de Patrimônio da União. A Notificação n°643 de 06 de julho de 1950 comunicava que o Forte do Príncipe da Beira seria inscrito no Livro Tombo das Belas Artes. A inscrição realizada, conforme o Arquivo Noronha Santos, foi a de número 281 em 7 de agosto de 1950, porém no Livro Tombo Histórico e não no de Belas Artes.

Publicação da reportagem Três bandeiras no forte da beira, sobre a visita de personalidades importantes ao Forte Príncipe da Beira, com texto de Flávio Tambellini e fotos de Peter Scheier e Roberto Malta. Dentre os visitantes, o jornalista espanhol Duque de Parcent, o todo-poderoso dos Diários Associados, Assis Chateaubriand (1892 – 1968); o general Nelson de Mello, o empresário Antônio Seabra e o Barão Sten Ramel,(O Cruzeiro, 2 de setembro de 1950).

2007 – A partir desse ano, o Iphan e o Exército passaram a desenvolver atividades de restauração do Forte e escavações arqueológicas na área. O Exército mantém instalações militares vizinhas ao Forte.

 

**Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

BARCELOS, Giovani da Silva. Forte Príncipe da Beira: conhecimento, valoração e preservação, 2018. 206 fls. Dissertação (Mestrado em Preservação do Patrimônio Cultural) – IPHAN, Rio de Janeiro, 2018.

BARROSO, Lourismar da Silva. Real Forte Príncipe da Beira: ocupação oeste da Capitania do Mato Grosso e seu processo construtivo (1775-1783), 2015. 102 fls. Dissertação (Mestrado em História) – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2015.

BORZACOV, Yêdda Maria Pinheiro. Forte Príncipe da Beira. apud: Governo de Rondônia/Secretaria de Educação e Cultura. Calendário Cultural 1981/85. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 1981. p. 65-72.

COSTA, Maria de Fátima. Alexandre Rodrigues Ferreira e a capitania de Mato Grosso: imagens do interior. História, Ciências, Saúde-Manguinhos, vol.8 , Rio de Janeiro  2001.

Guia Geográfico de Rondônia

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

NASCIMENTO. Sílvio Melo do. Real Forte Príncipe da Beira: história e estórias do imaginário popular do Vale do Guaporé. Revista Labirinto, ano XIII, n. 18, jun. 2013, p. 113-124.    

NUNES, José M. de S.; ADONIAS, Isa. Real Forte Príncipe da Beira. Fundação Odebrecht, 1985

Site da Prefeitura de Porto Velho

Site do Exército do Brasil

Site do IPHAN

Site Expressão Rondônia

Site Fortalezas.org

TEIXEIRA, Paulo Roberto Rodrigues. Forte Príncipe da Beira. Rio de Janeiro: Revista DaCultura, ano III, nº 4, maio de 2003, p. 46-52.

 

Fotografia e ciência: eclipse solar, Marc Ferrez e Albert Einstein

Inspirada pela realização da exposição Marc Ferrez: Território e imagem, inaugurada em 26 de março de 2019, no Instituto Moreira Salles de São Paulo, e pela comemoração do centenário do eclipse solar observado na cidade de Sobral, no Ceará, em 29 de maio de 1919, a Brasiliana Fotográfica publica hoje o artigo Fotografia e ciência: eclipse solar, Marc Ferrez e Albert EinsteinFerrez (1843 – 1923) se relacionou com diversos cientistas e pesquisadores no Brasil do século XIX e do início do século XX, dentre eles o geólogo norte-americano Charles Frederick Hartt (1840 – 1878), que chefiou a Comissão Geológica do Império (1875 – 1878), da qual fez parte; o médico Camillo Fonseca (18? – 1923), em cujo consultório foram realizadas experiências radiográficas nas gêmeas siamesas Rosalina e Maria Pinheiro, nascidas em 1893, no Espírito Santo; e os diretores do Observatório Nacional no Rio de Janeiro, o astrônomo belga Louis Ferdinand Cruls (1848 – 1908), que ocupou o cargo entre 1891 e 1908; e o engenheiro e astrônomo francês naturalizado brasileiro Henrique Morize (1860 – 1930), que sucedeu Cruls e permaneceu na direção da instituição até 1930.

 

Henrique Morize / Acervo Arquivo Nacional

 

 

O eclipse solar observado em Passa Quatro, Minas Gerais, em 1912

 

 

Com seu amigo e então diretor do Observatório Nacional, Henrique Morize (1860 – 1930), Ferrez esteve em Passa Quatro, em Minas Gerais, em 1912, como um dos integrantes da comitiva do presidente do Brasil, o marechal Hermes da Fonseca (1855 – 1923), que havia ido para a cidade mineira observar o eclipse solar ocorrido em 10 de outubro daquele ano. Também estiveram presentes ao evento o diretor do Jardim Botânico, Graciano dos Santos Neves (1868 – 1922), delegações estrangeiras de astrônomos do Observatório de Greenwich (Inglaterra), do Bureau de Longitudes (França), do Observatório Nacional do Chile, do Observatório Nacional de Córdoba (Argentina), do Observatório de La Plata (Argentina) e do então recém-criado Observatório Astronômico e Meteorológico de São Paulo. Compareceram também ao evento representantes da imprensa e outras autoridades (Gazeta de Notícias, 11 de outubro de 1912, na quinta coluna sob o título “Marechal Hermes e o eclipse“). O chefe da comissão inglesa era Arthur Stanley Eddington (1882 – 1944); o da francesa, Milan Stefanick (1880 – 1919); do Observatório de Córdoba, Carlos Dillon Perrine (1867 – 1951); da comissão chilena, Friedrich Wilhelm Ristenpart (1868-1913); do Observatório de La Plata, William Joseph Hussey (1862-1926); e, finalmente, do Observatório de São Paulo, José Nunes Belfort Mattos (1862- 1926). Um dos objetivos da expedição era confirmar a Teoria da Relatividade, do cientista alemão Albert Einstein (1879 – 1955).

A comissão brasileira foi chefiada por Henrique Morize e contava com os astrônomos Mario Rodrigues de Souza (1889-1973), Domingos Fernandes Costa (1882-1956), Alix Corrêa de Lemos (1877 – 1957) e Gualter Macedo Soares (1891 – 19?), com o voluntário Antônio Alves Ferreira da Silva (18? – 19?), com o fotógrafo Augusto Soucasaux (1871-1962) e com o médico Camillo Fonseca (18? – 1923)(1).

Não se sabe se Ferrez teve alguma função específica na comitiva do governo já que a fotografia do fenômeno ficou a cargo de profissionais do Observatório Nacional. Ele produziu fotografias estereoscópicas dos acampamentos na cidade, que estão sob a guarda do Instituto Moreira Salles e disponíveis no acervo da Brasiliana Fotográfica.

 

 

 

Acessando o link para as fotografias relativas ao eclipse solar observado em Passa Quatro (MG), em 10 de outubro de 1912, disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

O Dr. Morize dirige os trabalhos gerais e encarrega-se especialmente da grande Equatorial Fotográfica de Heyde e do fotoheliógrafo de Wilstein. São seus assistentes o Dr. Mario de Souza, do Observatório, que tem ao seu cargo o grande Colostato de Malhat e o Dr. Domingos Costa, também do Observatório, que já fez as determinações da hora exata e da latitude do lugar; o Dr. Costa trabalhará o fotoheliógrafo de Steinhel’.

Correio da Manhã, 10 de outubro de 1912, segunda coluna

 

Abaixo, duas fotografias, com a presença de Marc Ferrez, em Passa Quatro, publicadas no jornal A Época, 12 de outubro de 1912, sob o título “Ecos do eclipse”

 

 

 

Devido a chuvas fortes, o eclipse, ocorrido em 10 de outubro, não pode ser visualizado, causando frustração entre os cientistas e entre o público em geral: O eclipse…eclipsou-se (O Paiz, 11 de outubro de 1912 e Fon-Fon!, 19 de outubro de 1912).

 

 

 

O eclipse solar observado de Sobral, no Ceará, em 1919

 

O mundo moderno começou em 29 de maio de 1919, quando fotografias de um eclipse solar, tiradas na Ilha do Príncipe, na África Ocidental, e em Sobral, no Brasil, confirmaram a verdade da nova teoria do universo.”

Paul Johnson (1928 – ), historiador inglês, e autor do livro Modern Times: The World from the Twenties to the Nineties

 

Acessando o link para as fotografias relativas ao eclipse solar observado de Sobral (1919), no Ceará, disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas. 

 

 

Em 1919, Marc Ferrez morava na França e supõe-se que ele teria, por seu interesse no assunto e por sua proximidade com Henrique Morize (2), acompanhado à distância os trabalhos dos registros fotográficos do eclipse total do Sol, ocorrido em 29 de maio de 1919, realizados por astrônomos brasileiros do Observatório Nacional e também por cientistas de outros países, em Sobral, no Ceará. A equipe brasileira, liderada por Morize, era formada pelos astrônomos Domingos Fernandes da Costa (1882 – 1956), Allyrio Hugueney de Mattos (1889 – 1975) e Lélio Itapuambyra Gama (1892 – 1981), além do químico Theophilo Henry Lee (1873 – ?), do meteorologista Luís Rodrigues, do mecânico Arthur de Castro Almeida e do carpinteiro Primo Flores. Partiram do Rio de Janeiro no dia 25 de abril de 1919, a bordo do vapor João Alfredo (Jornal do Commercio, 23 de abril de 1919, última coluna).

 

 

 

 

A comitiva dos Estados Unidos, formada pelos pesquisadores Daniel Maynard Wise (1888 – ?) e Andrew Thomson (1893 – 1974), ambos integrantes do Departamento de Magnetismo Terrestre da Carnegie Institution, de Washington, interessados em estudar os efeitos do eclipse solar sobre o magnetismo terrestre, partiram de Nova York, em 25 de março de 1919, no vapor Hollandia, e aportaram no Recife, em 15 de abril. Chegaram a Fortaleza, a bordo do paquete Pará, em 20 de abril. Eles e a comissão completa do Observatório Nacional do Brasil chegaram em Camocim, no Ceará, em 7 de maio, a bordo do vapor Prudente de Morais. Seguiram para Sobral dois dias depois em um trem especial da Viação Cearense, tendo chegado à cidade às três horas da tarde do mesmo dia (Mensagem do Governador do Ceará à Assembleia (CE), 1919, e Pequeno Jornal , 23 de abril de 1919, segunda coluna).

 

 

 

Viabilizadas pelo astrônomo real sir Frank Watson Dyson (1868 – 1939), duas expedições britânicas foram organizadas para observar o eclipse. Arthur Stanley Eddington (1882 – 1944), que havia estado no Brasil durante o eclipse de 1912, seu assistente Edwin Cottingham (1869 – 1940), Andrew Crommelin (1865 – 1939) e Charles Davidson (1875 – 1970)(4), da Royal Astronomical Society, partiram da Inglaterra em 8 de março de 1919, e se separaram em Lisboa. Os dois primeiros seguiram para a Ilha de Príncipe, na África, da onde observariam o fenômeno. Crommelin e Davidson vieram para o Brasil e chegaram à Sobral, após uma passagem pela Amazônia (Jornal do Commercio (AM), 4 de abril de 1919, quarta coluna, e Jornal do Litoral, 1º de maio de 1919, quarta coluna), em 30 de abril, ficando hospedados, assim como os norte-americanos, na casa do deputado e coronel Vicente Saboya. Estavam com os britânicos algumas das placas fotográficas que testariam a Teoria da Relatividade do cientista alemão Albert Einstein (1879 – 1955).

 

 

 

 

 

 

O eclipse solar começou às 7h46min2s do dia 29 de maio de 1919, sua totalidade foi iniciada às 8h58min28s e finalizada 5 minutos e 13 segundos depois.

Tenho a honra de comunicar à Vossa Excelência que o eclipse foi observado em regulares condições por todas as comissões. Antes da hora prevista, o céu estava quase totalmente encoberto, chegando a chuviscar, mas abriu. Houve algumas nuvens transparentes sobrepostas ao disco. Entretanto, espero fotografias sairão boas, mas podrão ser reveladas somente amanhã, de madrugada, a fim de obter condições de temperatura mais favoráveis. Atenciosas saudações‘.

Telegrama de Henrique Morize ao ministro da Agricultura, Antônio de Pádua Sales (1860 – 1957)

(O Paiz, 31 de maio de 1919, penúltima coluna)

 

Morize regressou ao Rio de Janeiro, em 11 de julho de 1919, e deu uma entrevista para a Gazeta de Notícias, comentando as atividades das comissões brasileira, britânica e norte-americana (Gazeta de Notícias, 12 de julho de 1919).

Foram os resultados obtidos a partir das bem sucedidas fotografias feitas pelos astrônomos ingleses, em 29 de maio de 1919, que permitiram a comprovação da teoria de Einstein, inaugurando um novo momento na história da ciência.

Sobre a experiência:

Um século depois, pouquíssimos duvidam da relatividade geral. Mas, naquela época, o modelo einsteiniano do Universo ainda dava seus primeiro passos, encarado com bastante descrença pela comunidade científica por ainda não ter sido verificado. Publicada em 1916, a teoria havia levado oito anos para ficar pronta: foi o tempo que Einstein levou para generalizar os postulados da relatividade especial, de 1905, e incluir a gravidade na jogada.

De acordo com a teoria, o espaço e o tempo formam um único tecido, um contínuo maleável que é distorcido por corpos de muita massa como um buraco negro, um aglomerado de galáxias ou o Sol. Nem mesmo a luz escapa dessa distorção: quando os fótons atravessam regiões distorcidas do Universo, suas trajetórias também sofrem um desvio.

Os eclipses solares totais forneciam as condições perfeitas para testar se essa previsão de Einstein fazia, ou não, algum sentido. Com a Lua bloqueando temporariamente o brilho ofuscante do Sol, tornava-se possível enxergar (e fotografar) as estrelas posicionadas bem próximas a ele no céu. Por estarem praticamente encobertas pelo Sol quando vistas da Terra, isso significava que os raios dessas estrelas distantes necessariamente atravessaram o espaço-tempo distorcido pelo campo gravitacional solar. Esse desvio podia ser verificado.

O segredo era fotografar essas estrelas durante o eclipse e, um tempo depois, fotografá-las novamente quando estivessem na mesma região do céu, só que sem a interferência do Sol. Foi justamente o que a delegação britânica fez em Sobral. “Eles estavam procurando por variações comparáveis aos mais finos fios de cabelos humanos”, explica Dunn (5). Precisavam de estabilidade e rigor extremos nos instrumentos para produzir resultados confiáveis.

O segundo conjunto de fotos foi tirado em julho do mesmo ano, para serem comparadas aos registros de maio. Segundo a teoria de Einstein, a comparação deveria revelar uma diferença de 1,75 segundo de arco, enquanto a de Newton previa um número bem menor, de 0,86. Um segundo de arco equivale ao tamanho de uma estrela a olho nu. “Passaram os meses seguintes analisando aquelas placas e conseguiram centenas de páginas de cálculos baseados nas fotos”, diz Dunn. Então, em novembro, os olhos do mundo se voltaram para Londres, onde os cientistas anunciaram que Einstein estava certo.

Revista Galileu, 25 de outubro de 2018

Placas de vidro produzidas pelos brasileiros durante o eclipse de 1919 e disponíveis na internet

Diversas placas de vidro, que medem 24 centímetros (cm) por 18, e 9 cm por 12, foram produzidas pelos brasileiros a partir de câmaras acopladas aos telescópios. São cobertas por uma emulsão com sais de prata sensíveis à luz e, em 2015, foram encontradas por pesquisadores em caixas na biblioteca do Observatório Nacional. Foram restauradas, digitalizadas e estão disponíveis na internet. 

 

“Foi o luminoso céu do Brasil que se incumbiu de resolver o problema concebido pelo meu cérebro”

Frase dita pelo cientista alemão  Albert Einstein (1879 – 1955) e publicada no O Jornal, de propriedade de Assis Chateaubriand (1892 – 1968) e também na revista Fon-Fon quando, em passagem para a Argentina, visitou o Rio de Janeiro, em março de 1925.

 

 

 

 

 

 

 

 

(1) Em 1899, no consultório dos doutores Camillo Fonseca e Henrique Morize, foram realizadas experiências radiográficas nas gêmeas siamesas Rosalina e Maria Pinheiro, nascidas em 1893, no Espírito Santo.

(2) Em março de 1922, Morize, que havia viajado para a Europa em missão oficial do Observatório Nacional, fez uma visita a Ferrez, em Paris.

(3) Antônio Lima foi intérprete da comissão norte-americana e colocou os equipamentos para as investigações da eletricidade atmosférica na pista do Jockey Club próximo às instalações britânicas.

(4) Sobre a presença dos dois cientistas britânicos em Sobral, no O Jornal (MA), 25 de julho de 1919, foi publicado um curioso artigo copiado de um jornal cearense não identificado.
(5) O britânico Richard Dunn é pesquisador da Universidade de Leicester e curador das exposições de história da ciência do Observatório de Greenwich.
 

Publicações da Brasiliana Fotográfica em torno da obra do fotógrafo Marc Ferrez 

O Rio de Janeiro de Marc Ferrez, publicada em 30 de junho de 2015

Obras para o abastecimento no Rio de Janeiro por Marc Ferrez , publicada em 25 de janeiro de 2016

O brilhante cronista visual Marc Ferrez (7/12/1843 – 12/01/1923), publicada em 7 de dezembro de 2016

Do natural ao construído: O Rio de Janeiro na fotografia de Marc Ferrez, de Sérgio Burgi, publicada em 19 de dezembro de 2016

No primeiro dia da primavera, as cores de Marc Ferrez (1843 – 1923), publicada em 22 de setembro de 2017

Marc Ferrez , a Comissão Geológica do Império (1875 – 1878) e a Exposição Antropológica Brasileira no Museu Nacional (1882), publicada em 29 de junho de 2018

O quiosque Chopp Berrante no Passeio Público, Ferrez, Malta e Charles Dunlop, publicada em 20 de julho de 2018

Uma homenagem aos 175 anos de Marc Ferrez (7 de dezembro de 1843 – 12 de janeiro de 1923), publicada em 7 de dezembro de 2018 

Pereira Passos e Marc Ferrez: engenharia e fotografia para o desenvolvimento das ferrovias, publicado em 5 de abril de 2019

Celebrando o fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923), publicado em 4 de dezembro de 2019 

Uma homenagem da Casa Granado ao imperial sob as lentes de Marc Ferrez, publicada em 7 de fevereiro de 2020

Ressaca no Rio de Janeiro invade o porão da casa do fotógrafo Marc Ferrez, em 1913, publicado 6 de março de 2020.

Petrópolis, a Cidade Imperial, pelos fotógrafos Marc Ferrez e Revert Henrique Klumb, publicado em 16 de março de 2020.

Bambus, por Marc Ferrez, publicado em 5 de junho de 2020

Link para o debate sobre Marc Ferrez e o eclipse de Sobral com a participação de Christina Helena Barboza, Rodrigo Nemmen e Rogério Rosenfeld, com mediação de Sérgio Burgi e Nathan Berkovits, realizado no IMS Paulista, em 25 de maio de 2019.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ARRUDA, Rogério Pereira de. Um álbum ilustrado para Minas Gerais no alvorecer da República. São Paulo : Anais do Museu Paulista. vol. 26 , 9 de agosto de 2018.

Blog do Instituto Moreira Salles

COLES, Peter. Einstein, Eddington and the 1919 Eclipse. In: Proceedings of International School on “The Historical Development of Modern Cosmology“, 2001.

CRISPINO, Luiz Carlos Bassalo; LIMA, Marcelo Costa de. Expedição norte-americana e iconografia inédita de Sobral em 1919. São Paulo : Revista Brasileira de Ensino de Física, vol 40, n° 1, edição 1601, 2018

CRISPINO, Luiz Carlos Bassalo; LIMA, Marcelo Costa de. A teoria da relatividade de Einstein apresentada para a Amazônia. São Paulo : Revista Brasileira de Ensino de Física, vol. 38, nº 4, 2016.

ELLIS, Richard; FERREIRA, Pedro G; MASSEY, Richard; WESZKALNYS,Gisa. 90 years on – the 1919 eclipse expedition at Prince. In: Astronomy & Geophysics, Vol 50, edição 4, agosto de 2009 https://www.fisica.net/relatividade/o-eclipse-de-1919.php

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Instituto do Ceará, 1919

NASCIMENTO, Márcio Luis Ferreira. Rondon, a Carta de Einstein e o Prêmio Nobel da Paz. Ciência e Sociedade, CBPF, v. 4, n. 1, 2016.

Observatório Nacional

O Estado de São Paulo, 25 de maio de 2019

OLIVEIRA, Raquel dos Santos. O eclipse de 1912 e a correspondência entre os astrônomos Morize e Perrine. Anpuh2010.

Revista Galileu

Revista Pesquisa – FAPESP, abril de 2019 – Quando a luz se curvou e À sombra dos britânicos

RODRIGUES, Teresinha. O Observatório Nacional no eclipse solar de 1919. In: ComCiência – Revista Eletrônica de Jornalismo Científico, 6 de maio de 2019.

Royal Society Publishing

The Guardian, 13 de maio de 2019

The Royal Astronomical Society of Canada

The Royal Observatory Greenwich