100 anos do Castelo da Fiocruz: a ocupação da Fazenda de Manguinhos

A Brasiliana Fotográfica abre as comemorações do centenário da conclusão da construção do Castelo da Fiocruz, instituição parceira do portal, com um texto de autoria de Cristiane d’Avila, jornalista do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz com fotografias de autoria de Huberti (18? – 19?), J. Pinto (1884 – 1951) e de fotógrafos ainda não conhecidos. Posteriormente, serão publicados textos sobre o centenário do prédio dos pesquisadores da Casa de Oswaldo Cruz, Renato da Gama-Rosa, com detalhes sobre sua construção e sobre seu projeto arquitetônico, e de Ricardo Augusto dos Santos, com o foco nos pedreiros que o ergueram. Aos 30 anos e à frente do então Instituto Soroterápico Federal, na distante fazenda de Manguinhos, Oswaldo Cruz (1872 – 1917) não mediu esforços para materializar um sonho aparentemente irrealizável: construir um monumental castelo para abrigar a nova e incipiente ciência brasileira. Por sua extensão e distância do centro do Rio de Janeiro, a fazenda era um espaço adequado à instalação de laboratórios e à produção de soros antipestosos contra o surto de peste bubônica. Projetado pelo arquiteto Luiz Moraes Junior (1872 – 1955), o edifício começou a ser erguido em 1905 e foi concluído em 1918.

100 anos do Castelo da Fiocruz: a ocupação da Fazenda de Manguinhos

Cristiane d’Avila*

A missão, grandiosa, os obstáculos, gigantescos. Mas, já diria Brás Cubas, como escapar de uma ideia fixa, caro leitor? Contemporâneo de Machado de Assis, Oswaldo Cruz pode não ter inspirado o genial autor, mas a obsessão que avassalou o memorável personagem talvez tenha acometido o jovem e brilhante médico brasileiro. Aos 30 anos e à frente do então Instituto Soroterápico Federal, na distante fazenda de Manguinhos, Oswaldo Cruz não mediu esforços para materializar um sonho aparentemente irrealizável: construir um monumental castelo para abrigar a nova e incipiente ciência brasileira.

A tarefa não era fácil. A fazenda de Manguinhos, na freguesia (como eram denominados os bairros) de Inhaúma, havia sido ocupada até o final do século 19 por fornos de incineração do lixo da cidade. A partir de 1900, já destinada pelo governo para o funcionamento do Instituto Soroterápico Federal, após um surto de peste bubônica, a fazenda era de fato um terreno longínquo e extenso, em meio a mangues, com algumas edificações precárias, de difícil acesso. No entanto, por sua extensão e distância do centro da cidade, configurava-se como espaço adequado à instalação de laboratórios e à produção de soros antipestosos contra a doença, até então importados pelo governo federal.

Acessando o link para as fotografias de aspectos da construção do Castelo da Fiocruz que estão disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Nessa época, a freguesia de Inhaúma contava com três estações da Cia. Leopoldina Railway – Bonsucesso, Ramos e Olaria. O acesso à fazenda de Manguinhos se dava por terra e também pela Baía de Guanabara, onde uma enseada levava ao pequeno cais, construído para o desembarque dos funcionários do Instituto. O acesso por trem foi possível após a abertura da Estação do Amorim, depois rebatizada de Estação Oswaldo Cruz e, posteriormente, de Manguinhos, como está até hoje.

 

Em resumo histórico sobre a fundação do Instituto, o arquivista Albino Taveira escreveu, no ano de 1941:

“Os trens eram raros. Quem não estivesse na Estação à hora marcada teria que vir a pé pelo leito da via férrea. Durante as marés baixas, surgiam dos esconderijos dos caranguejos grandes quantidades de mosquitos. Na fazenda não havia gás nem eletricidade” (FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ, 1947).

No mesmo relato, Albino destaca as palavras de Henrique Aragão, em conferência realizada por este em São Paulo, em 1940, com o tema “Oswaldo Cruz e a escola de Manguinhos”:

“Na vetusta fazenda abandonada há somente duas pequenas casas baixas, meio arruinadas, sobre colinas, as quais foram adaptadas muito rapidamente para os futuros laboratórios, todos bastante acanhados. Ao soar o meio-dia, suspende-se o labor para o almoço, na estreita varanda da casinha da fazenda. A mesa está posta sobre uma meia porta, que se apoia sobre duas barricas vazias e é coberta parcialmente com uma toalha grosseira, havendo dois longos bancos de madeira de cada lado para os convivas sentarem. Todos se apressam porque a comida não é muito abundante: uma clássica galinha ensopada com batatas, arroz, pão e, para terminar, algumas bananas e café ralo. Quem se atrasar só encontra ossos e traços de arroz (…) uns 20 minutos depois já o trabalho recomeça intenso embora os estômagos não estejam muito satisfeitos” (ARAGÃO apud FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ, 1947).

À frente da direção do Instituto, em 1900, estava o Barão de Pedro Afonso, diretor do Instituto Vacínico Municipal, que contratou os jovens médicos Oswaldo Cruz, Henrique de Figueiredo Vasconcelos e Ismael da Rocha, e o estudante Antônio Cardoso Fontes, para iniciar os trabalhos. Em 1902, Pedro Afonso é exonerado do cargo e Cruz assume o posto, elevando o Instituto a um novo patamar, que incluía não apenas a fabricação de produtos biológicos, mas também a realização de pesquisas biomédicas e o ensino da microbiologia. O modelo seguido pelo cientista, hábil administrador da ciência, era o Instituto Pasteur de Paris, onde havia cursado, por dois anos, sua especialização em microbiologia, soroterapia e imunologia.

A partir de então, as duas casas já existentes no terreno da fazenda foram reformadas para acolher os laboratórios, e também construídos uma cocheira, um biotério e uma enfermaria para cavalos, além de outra casa para servir como dormitório e depósito de cereais e forragens (FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ, 1990, p. 99). Depois que Oswaldo Cruz assumiu em definitivo o Instituto Soroterápico Federal, e a chefia da Diretoria Geral de Saúde Pública, em 1903, a fazenda se transformou em um imenso canteiro de obras.

 

As escavações para o alicerce do edifício central sonhado por Cruz, o pavilhão mourisco – ou o memorável “castelo” – foram iniciadas em 1905. O projeto definitivo, maior que o original desenhado por seu construtor, o engenheiro português Luiz Moraes Junior, data de 1908, ano que coincide com a finalização das obras da estrutura do prédio. Em 1910, embora as obras continuassem, o castelo já era ocupado pelos pesquisadores, sendo finalmente concluído em 1918, coroando com êxito o ambicioso projeto de seu idealizador.

Ao todo, o prédio soma 1.517 m2 de área construída, com materiais em grande parte importados da Alemanha, França, Inglaterra e Portugal, e uso de modernas técnicas construtivas. “Com certeza, nenhum outro edifício do Rio de Janeiro – e talvez do país – se igualava a este pavilhão em sofisticação tecnológica”. (Idem, p. 114)

O contexto

Uma ideia, um projeto, não se realiza de forma isolada. Concorre para o seu desfecho uma série de fatores, que em determinado momento se convergem e associam para concretizar o objetivo inicial de seu idealizador, ou idealizadores. Com o Castelo da Fiocruz, como foi batizado o pavilhão mourisco, não foi diferente.

No alvorecer de 1900, o Rio de Janeiro era uma cidade em conflito com a contemporaneidade, na acepção das elites. Se, por um lado, convivia-se com práticas sociais consideradas anacrônicas, típicas de um centro ainda colonial, as reformas – urbana (o “bota-abaixo”) e sanitária (campanhas contra a febre amarela, varíola e peste bubônica) empreendidas por Pereira Passos e Oswaldo Cruz, respectivamente, espelhavam um cotidiano tributário da incipiente modernidade. A grande imprensa saudava a nova fase com a sugestiva alcunha de “Regeneração”. Segundo Nicolau Sevcenko, a expressão era por si só esclarecedora do espírito que presidiu esse movimento de destruição da velha cidade, para complementar a dissolução da velha sociedade imperial, e de montagem da nova estrutura urbana. Pereira Passos [prefeito do Rio, grifo meu] atacou algumas tradições cariocas. Proibiu a venda ambulante de alimentos, o ato de cuspir no chão dos bondes e a exposição de carnes na porta dos açougues, assim como uma série de outros costumes “bárbaros” e “incultos” (SEVCENKO, 1983, pp. 31-57).

No cenário urbano, o combate às epidemias havia reforçado a importância de se estender e aprofundar as pesquisas e o investimento em campanhas sanitárias, alvos prioritários da Diretoria Geral de Saúde Pública (DGSP), sob a direção do cientista (1903-1906). Consagrado internacionalmente pelo sucesso alcançado no Rio, Oswaldo Cruz converteu-se em herói nacional, o que deu impulso à posterior transformação do Instituto Soroterápico Federal em Instituto de Patologia Experimental (1907) e, finalmente, em Instituto Oswaldo Cruz (1908).

No cenário nacional, Cruz e os médicos de seu grupo (Belisário Penna e Carlos Chagas) iniciaram expedições ao interior do Brasil, incluindo 30 portos marítimos e fluviais de Norte a Sul do país, para estabelecer um código sanitário com regras internacionais, a fim de erradicar doenças que mortificavam milhares de brasileiros, como a malária e a febre amarela. A partir da intensificação das expedições científicas empreendidas, “a saúde pública como base para a construção da nacionalidade permitiu que fosse abandonada a tese da inferioridade racial do brasileiro” (OLIVEIRA, 1990, p. 146).

Naquele momento, ao contrário do que acontecia no cenário econômico, em que o Brasil vivia uma economia agroexportadora dependente da importação de tecnologia e técnicas europeias para a criação de portos e ferrovias, Cruz fez do IOC um centro de pesquisa autossustentável, complexo, capaz de produzir ciência autonomamente. “A institucionalização da medicina experimental requereu a adaptação do modelo (o Instituto Pasteur) à realidade econômica e social do país e, sobretudo, a superação das barreiras políticas e culturais que bloqueavam um projeto de autossuficiência científica”, explica Jaime Benchimol (BENCHIMOL, 1990, p. 13).

A autonomia do IOC foi conquistada, segundo o pesquisador, no calor da euforia que marcou a reforma e o saneamento da capital federal. “Seguindo um curso independente, manteve em nível elevado sua produtividade científica, tornou-se celeiro dos quadros que iriam impulsionar as instituições regionais de medicina e saúde e afirmou-se como o baluarte de um novo projeto sanitarista” (Idem, 1990, pp. 71-72). Com os alicerces fincados, portanto, faltava ao IOC edificar uma sede à altura de sua relevância.

O construtor

Quatro anos de diferença e um oceano separavam Oswaldo Cruz, nascido em São Luís do Paraitinga, São Paulo, em 1872, e Luiz Moares Junior, nascido em 1868, em Faro, Portugal, antes do encontro fortuito entre ambos, em 1902, no trem da Leopoldina que levava Cruz ao IOC e Moraes à igreja da Penha. Recém chegado de Portugal, o engenheiro havia sido convidado pelo vigário da igreja para realizar obras de reforma e embelezamento externo no prédio e de construção das duas torres hoje existentes. Depois do encontro, a vida profissional deles tomaria um rumo surpreendente.

Com argúcia e imenso talento construtor, Luiz Moraes Junior equacionou duas qualidades essenciais para a construção do complexo arquitetônico de Manguinhos – planos arquitetônicos baseados em extensos e minuciosos cálculos matemáticos. Não à toa, Cruz “abriu-lhe as portas da comunidade médica da capital, possibilitando a Luiz Moraes assinar projetos de grande envergadura, como os da sede da Policlínica, na Avenida Central, e da Faculdade de Medicina, na Praia Vermelha” (Idem, 1990, p. 173).

Durante os sete anos em que Oswaldo Cruz permaneceu à frente da DGSP (1903-1909) e os 15 em que dirigiu o instituto batizado com seu nome (1902-1917), Luiz  Moraes Junior pôde acumular uma experiência notável num campo muito especializado da construção civil: o das edificações laboratoriais, sanitárias e hospitalares (Idem, p. 173).

A primeira geração de prédios projetados e construídos em Manguinhos por Moraes – pavilhão mourisco, cavalariça, pavilhão da peste, aquário e pombal – foram edificados a partir do permanente intercâmbio entre ele e Cruz. O construtor transformava os esboços e intenções do cientista em plantas finais, que calculava e executava com profissionais de sua confiança. Somam-se a essas edificações o Hospital Oswaldo Cruz (atual Instituto Nacional de Infectologia), o quinino e o pavilhão vacinogênico, construídos após a morte de Cruz, em 1918, na gestão de Carlos Chagas (Idem, 1990, p. 105).

O complexo arquitetônico de Manguinhos, realizado por Moraes, foi exibido na Exposição de Higiene realizada em Berlim, em 1907:

Ao lado dos trabalhos do instituto, dos gráficos e tabelas da Saúde Pública, figuraram na exposição plantas, fotografias e maquetes dos prédios projetados ou já executados por ele, incorporando os mais modernos preceitos arquitetônicos aplicáveis à construção de laboratórios, hospitais e equipamentos sanitários, em consonância com a higiene e a medicina pasteuriana. (Idem, p. 174)

Luiz Moraes Junior viveu os últimos anos de sua vida em Petrópolis, sendo responsável pelo projeto do prédio do jornal Tribuna de Petrópolis e do Grande Hotel, até hoje existentes. Faleceu aos 87 anos, em 15 de julho de 1955, deixando como maior legado o edifício símbolo da Fundação Oswaldo Cruz, o Castelo de Manguinhos, que, em 2018, completa 100 anos de sua conclusão.

 * Cristiane d’Avila é jornalista do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz

 

Fontes:

BENCHIMOL, Jaime L. (Coord.) Manguinhos do sonho à vida: a ciência na Belle Époque. Rio de Janeiro. Casa de Oswaldo Cruz, 1990.

FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ. CASA DE OSWALDO CRUZ. Resumo histórico da fundação do Instituto Soroterápico Federal, hoje Instituto Oswaldo Cruz. Coletânea organizada pelo arquivista Albino Taveira. Rio de Janeiro, COC, 1947.

OLIVEIRA, Lúcia Lippi. A questão nacional na Primeira República. São Paulo: Brasiliense, 1990, p. 146

SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. São Paulo: Brasiliense, 1983.