Praias do Rio na memória, na história e na fotografia

E é sobre as praias cariocas, das quais, devido ao atual contexto da pandemia de coronavírus temos que nos manter afastados, o artigo “Praias do Rio na memória, na história e na fotografia”, escrito pela historiadora Ana Maria Mauad. Segundo a autora, nas últimas décadas do século XX, a renovação historiográfica deslocou a praia do foco da história urbana para os espaços das práticas e representações de uma história cultural”. Sobre o portal, comentou: “Temos de saudar e incentivar iniciativas como a da Brasiliana Fotográfica, pois ao disponibilizar de forma organizada e de fácil acesso arquivos fotográficos de grande valor, contribui para incrementar as pesquisas com e sobre a prática fotográfica como experiência histórica incontornável ao sujeito moderno”.

 

Praias do Rio na memória, na história e na fotografia

Ana Maria Mauad*

 

As idas à praia de Ipanema povoam as minhas lembranças de infância. Até hoje sinto na pele o calor de deitar na areia quente, depois de um mergulho no mar geladinho do verão carioca; os grãos finíssimos escorrendo pelos dedos depois de amassar um torrão de areia, daqueles que ficavam na faixa mais seca no caminho do mar, ou ainda, do ‘jacaré” com prancha de isopor encapada de tecido para não irritar a barriga. Poderia desfiar aqui o fio da memória em cenas que teriam a praia como o cenário de prazer e alegria. Não sem motivo, em 2015, a coletânea Fotograficamente Rio: a cidade e seus temas, que organizei como resultado do edital FAPERJ Rio 450 anos, apresentava o mar como um dos seus fios condutores e as praias da cidade como tema de vários artigos (http://www.labhoi.uff.br/fotograficamente-rio).

A renovação historiográfica, dos anos 1980 e 1990, deslocou a praia do foco da história urbana e da geografia histórica para os espaços de sociabilidade, das práticas e representações de uma história cultural que se consolidava em sintonia com os debates sobre novas fontes, novos objetos e novas abordagens. Esse ambiente abrigou um movimento quase arqueológico de escavação em arquivos, em busca de documentos que iluminassem experiências cotidianas e vivências sociais, por meio de diferentes formas de as representar. Nesse movimento, as imagens invadem os domínios da história, alçando a visualidade como princípio para estudar as sociedades passadas.

 

Acessando o link para as fotografias das praias brasileiras disponíveis na Brasiliana Fotográfica e que foram selecionadas e enviadas a Ana Maria Mauad, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas. 

 

Do mundo das imagens, as fotografias ganharam a minha atenção desde os anos 1980, na minha pesquisa de doutorado. Fotografias do álbum de família ganhavam ressonância nas páginas das revistas ilustradas descortinando um mundo de consumo, aparências e desigualdades. As praias ocupavam um lugar central nas narrativas visuais, tanto privadas quanto públicas. Em uma charge de 1904, publicada no Jornal do Brasil, edição de 11 de setembro, logo na primeira página, observa-se uma cena de praia, em que todos os banhistas portam câmeras fotográficas. Identificamos entre os usuários,  a Kodak Pocket, câmera lançada pela Eastman Kodak, em 1895, ou a mais recente Brownie, comercializada pela mesma fábrica a partir de 1900, ambas espalharam a febre da democratização da imagem no início do século XX. Essa ilustração apresenta uma dupla qualidade: primeiro por apontar a presença da prática fotográfica no cotidiano dos ‘batedores de chapa’ com expansão do mercado de cameras e produtos fotográficos; mas também por evidenciar a praia como espaço de sociabilidade de um grupo variado de personagens.

 

 

No Rio de Janeiro, os banhos de mar já foram recomendados como tratamento de saúde para governantes, logo no início do século XIX, e continuariam a ser prescritos por médicos sanitaristas até o início do século XX. As praias eram consideradas lugares de ares frescos que pouco a pouco se tornariam espaço para vilegiatura dos mais abastados, sobretudo, nas praias oceânicas. Uma nova geografia cultural se desenhava pela frequência social e urbana das praias. Ir à Praia das Virtudes para o morador da Lapa, não era o mesmo que um morador de Botafogo frequentar o Balneário da Urca. Para os primeiros, o importante era a farra; para os outros, o que valia era ver o ser visto. Na crônica Da praia do Flamengo ao Balneário da Urca, assinada por Leão Padilha, essa distinção fica clara:

“PRAIA DO FLAMENGO: Domingo de manhã, os banhistas do Flamengo chegam mais tarde do que os da Lapa e saem mais cedo do que os de Copacabana. Às 10 horas, aquele pedacinho de areia fica que nem formigueiro, cheio, muito cheio (…) uma pequena faz maravilhas acrobáticas nos braços de um sportsman! Bóiam pares abraçados dentro de pneumáticos de automóveis … Na calçada vendem água doce para tirar o sal, o guarda-civil passeia para lá e para cá medindo a moralidade das roupas. PRAIA DE BOTAFOGO: Pouca gente. Criadas e funcionários das quitandas de bairro aficionados do sport. O pessoal chic vai mostrar suas toilletes no Balneário da Urca, e deixa a Enseada tranqüila para a criadagem que não teve tempo para tirar o pó do Flô do Abacate. BALNEÁRIO DA URCA: Supra sumo do chic. Fora ficam os carros esquentando ao sol. Lá dentro aqueles 50 palmos de areia regurgitam… Em cima, dança, flirt e cocktail (…) uma ‘jazz-band’ comunica tremura coreográficas aos corpos quentes (…) Lá embaixo há cubículos para trocar de roupa e outros misteres mais íntimos (…) a empresa não fiscaliza nem tampouco a polícia. Na areia senhoras respeitáveis, a julgar pela pintura e pelo volume, conversam coisas graves e fumando cigarros turcos. Rapazes ensinam ginástica a seco e dentro d’água. Mais tarde, o balneário perde esse aspecto familiar da manhã, o jazz-band ataca músicas mais frenéticas, os cocktails ganham ingredientes mais fortes e o ‘flirt’ é mais íntimo. Dentro da água ensina-se a nadar com menos inocência (…) fala-se alto (…) onde os rr franceses arrastam na gíria da moda, as exclamações das revistas alegres do Carlos Gomes e do Recreio (…) Não se ouve falar em cocaína, morfina ou ópio (…) PRAIA DAS VIRTUDES: No lencinho de areia perdido no mar (…) a promiscuidade é estonteante. A salada tem gosto de tudo – laranja de turco, cebola de português, macarrão de italiano, banana de brasileiro. Freqüentam essa praia moradores da Lapa, Sta. Luzia e todas as pensões do Centro. E por fim. A praia do Caju: todos vão à praia e tomam o seu banho de areia, de sol e de água suja…” (Rio Ilustrado, Ano I, out-dez, 1928)

 

Acessando o link para todas as fotografias das praias brasileiras disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.  

 

As crônicas escritas ao sabor de quem andava pela cidade e a observava, guardavam a marca da visualidade de época, em estreito diálogo com as caricaturas, as ilustrações e, sobretudo, com as fotografias. Imagens que redefinem a experiência histórica com o mundo visível instituindo novas formas de olhar.

É interessante acompanhar as mudanças no enquadramento da paisagem praiana que a Brasliana Fotográfica nos apresenta. É possível, pelas lentes de José Baptista Barreira Vianna, visualizar uma Copacabana que, de um grande areal vai aos poucos sendo povoada, com as primeiras linhas de bonde ainda a tração animal.

 

 

Em uma delas, parece que nos debruçamos no muro da residência dos Barreira Vianna, para olhar como se vivia então. Dos fundos da casa, se vislumbra a varanda de frente para o mar de Ipanema.

 

 

Já as vistas aéreas de Jorge Kfuri nos lança em uma nova experiência visual: o Zepelim  que nos visitou causando sensação, sobrevoando as praias da zona sul; o forte de Copacabana na ponta que une Arpoador ao Posto Seis e a belíssima vista da Praia de Copacabana com sua primeira geração de casas, arruamento definido, pista de rolamento de mão dupla com carros de último tipo circulando, calçada com as tradicionais pedras portuguesas em ondas, dá até para ver uma parte do calçadão destruída por uma das famosas ressacas. Esse tipo de escrutínio, vale lembrar, só se tornou possível ao público que hoje tem o privilégio, de forma remota, conhecer essas verdadeiras preciosidades que o acesso irrestrito às imagens nos oferece.

 

 

Temos de saudar e incentivar iniciativas como a da Brasiliana Fotográfica, pois ao disponibilizar de forma organizada e de fácil acesso arquivos fotográficos de grande valor, contribui para incrementar as pesquisas com e sobre a prática fotográfica como experiência histórica incontornável ao sujeito moderno.

 

 

*Ana Maria Mauad é Doutora em História e professora titular do Departamento de História, pesquisadora do Laboratório de História Oral e Imagem da UFF

 

Acesse outros artigos sobre praias do Rio de Janeiro e do Brasil publicados na Brasiliana Fotográfica:

 

Início do verão – as praias do Brasil, publicado em 22 de dezembro de 2015

Ipanema, que completa 122 anos, pelas lentes de José Baptista Barreira Vianna (1860 – 1925, publicado em 26 de abril de 2016

A fundação de Copacabana, publicado em 6 de julho de 2016

 

O Arpoador, um dos cartões postais do Rio de Janeiro, por Jorge Kfuri e Baptista Vianna

Hoje a Brasiliana Fotográfica destaca três imagens do Arpoador. Localizado entre os bairros de Copacabana e Ipanema, na zona sul do Rio de Janeiro, com uma praia de 800m de extensão, é um dos cartões postais da cidade. Uma das imagens é uma fotografia aérea produzida por Jorge Kfuri (1893 – 1966), tendo o Forte de Copacabana em primeiro plano e pertence à Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, uma das instituições parceiras do portal. Kfuri, autor das primeiras fotografias aéreas do Rio de Janeiro, em 1916, foi contratado como encarregado técnico do serviço de fotografia aérea da Aviação Naval, em 1921, e aposentou-se como chefe do Serviço Fotográfico da Aeronáutica em 1959. Os outros dois registros são de autoria do fotógrafo amador, o comerciante português José Baptista Barreira Vianna (1860-1925), que chegou ao Rio de Janeiro, em 1875.  Até os anos 40, o Arpoador era um areal deserto, frequentado principalmente por pescadores. Foi durante os anos 60 e 70 que tornou-se uma das principais praias cariocas para a prática de surf e é, até os dias de hoje, uma das prediletas tanto dos moradores do Rio como dos turistas.

 

 

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

 

A Pedra da Gávea

 

Um dos cartões-postais mais bonitos do Rio de Janeiro, a Pedra da Gávea fica localizada entre as praias de São Conrado e da Barra da Tijuca. Sua beleza não passou despercebida pelos fotógrafos do século XIX. A Brasiliana Fotográfica destaca os registros da Pedra da Gávea produzidos por Augusto Malta (1864 – 1957), Georges Leuzinger (1813 – 1892), José Baptista Ferreira Vianna (1860 – 1925) e Marc Ferrez (1843 – 1923).

 

 

Acessando o link para as fotografias da Pedra da Gávea disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

De acordo com o portal Serviço Geológico do Brasilo rochedo tem esse nome porque visto de longe lembra a gávea das caravelas ou galeões antigos. A gávea é uma plataforma no alto de um grande mastro que permitia a um marinheiro observar à distância. Ao contrário do que acontece em quase todas as elevações do Rio de Janeiro, a Pedra da Gávea apresenta um topo plano em lugar das formas de pirâmides, morros arredondados e picos roliços e aguçados do tipo pão-de-açúcar comuns na paisagem do Rio…Tais rochas foram formadas no mínimo há 500 milhões de anos e, posteriormente deformadas por falhas e dobras no interior da crosta terrestre. Depois de um constante e incansável trabalho de erosão na crosta é que esse maciço aflorou na superfície.

 

 

A Pedra da Gávea tem 844 metros de altura, integra o Maciço da Tijuca e é formada por dois tipos de rocha: gnaisse e granito.

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Ipanema pelas lentes de José Baptista Barreira Vianna (1860 – 1925)

A Brasiliana Fotográfica homenageia Ipanema, um dos mais emblemáticos bairros do Rio de Janeiro, com uma seleção de registros de autoria do fotógrafo amador, o comerciante português José Baptista Barreira Vianna (1860-1925), que chegou ao Rio de Janeiro, em 1875. Deixou como legado dois álbuns com 98 fotografias em cada um, que atualmente pertencem ao acervo do Instituto Moreira Salles, uma das instituições fundadoras do portal. Um dos álbuns traz imagens de paisagens, prioritariamente, da Tijuca e de Ipanema, produzidas entre 1897 e 1905; o outro, cenas de família, retratos e vistas de interiores, no período entre 1897 e 1907. Essas fotografias são importantes documentos da virada do século no Rio de Janeiro.

 

José Baptista Barreira Vianna. Residência da família Barreira Vianna, em Ipanema na esquina da avenida Vieira Souto e rua Francisco Otaviano. Ilhas Cagarras ao fundo, 1903. Rio de Janeiro, RJ / Acervo IMS

 

Barreira Vianna trabalhou no comércio e abriu uma loja de produtos importados da Europa no Largo da Carioca. Com a esposa, Laura Moreira, e seis filhos, vivia no tradicional bairro da Tijuca. Possuía um espírito progressista e tinha como hobbies a marcenaria e a fotografia. Com um amigo fotógrafo, Sr. Mendes, produzia imagens com sua máquina, uma Eastman Kodak. No final da década de 1890, comprou um terreno do loteamento de José Antônio Moreira Filho (1830-1899), o barão e conde de Ipanema, exatamente na esquina das atuais avenida Vieira Souto e rua Francisco Otaviano, ao lado de onde seria construído, mais tarde, o Colégio São Paulo. A residência da família Barreira Vianna, cujo projeto e construção ficou a cargo do arquiteto italiano Rafael Rebecchi (18? – 1922), foi a primeira na praia e uma das primeiras de Ipanema. Uma curiosidade: Rebecchi, fundador da empresa Rebecchi & Cia, foi o vencedor do projeto contemplado com o 1º prêmio do concurso de fachadas da avenida Central, tendo projetado cinco edificações e construído outras quatro na referida avenida durante a reforma do prefeito Pereira Passos (1836 – 1913) (O Malho, 2 de abril de 1904).

Barreira Vianna possuía uma oficina – que ficava ao lado da casa – onde construiu uma miniatura de bondinho elétrico, que corria em trilhos que ficavam no jardim e atravessava uma ponte sobre um lago. Anos depois, devido a problemas financeiros, ele vendeu a casa para o conde Modesto Leal.

 

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José Baptista Barreira Vianna. Bonde nas proximidades da pedra do Arpoador, c. 1900. Rio de Janeiro, RJ / Acervo IMS

 

Acessando o link para as fotografias de José Baptista Barreira Vianna disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Cronologia de José Baptista Barreira Vianna

 

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José Baptista Barreira Vianna. Autorretrato, c. 1900. Rio de Janeiro, RJ / Acervo do IMS

 

1860 – Nascimento de José Baptista Barreiros, em Vianna do Castelo, em Portugal.

1875 - Chegou ao Brasil com seu irmão, José Lourenço. Ele se fixa no Rio de Janeiro e emprega-se no comércio. Seu irmão estabeleceu-se em São Paulo. Por ter nascido em Vianna do Castelo, José Baptista Barreiros foi chamado por seus amigos da colônia portuguesa de Vianna. Adotou o apelido como sobrenome e também mudou seu sobrenome de Barreiros por Barreira, passando a chamar-se José Baptista Barreira Vianna.

1884 - Casou-se com Laura Carlota Moreira (O Apóstolo, de 9 de março de 1884, na última coluna). Tiveram seis filhos: Maria Alice, João Jorge, Henriqueta, Rita, José e Lívia.

1887 - Solicitou um seguro de vida à empresa New York Life Insurance Company (Jornal do Commercio, de 10 de julho de 1887, na terceira coluna).

Década de 1890 – Durante essa década, a família Barreira Vianna residia na rua Santa Carolina, na Tijuca. José tinha como hobbies a marcenaria e a fotografia. Com um amigo fotógrafo, Sr. Mendes, produzia imagens com sua máquina, uma Eastman Kodak. Adquiriu um terreno do loteamento do Barão de Ipanema, na esquina das atuais Francisco Otaviano e Vieira Souto.

1891 - Tornou-se um dos membros do conselho fiscal do Banco Incorporador (Diário do Commercio, de 15 de fevereiro de 1891, na sétima coluna e em anúncio de 16 de fevereiro).

Integrava a diretoria da Companhia Manufactora e Importadora de Calçado Brasil como tesoureiro (Gazeta de Notícias, de 21 de fevererio de 1891).

Firmou um contrato comercial de uma empresa de importação situada na rua General Câmara, número 72, em sociedade com Manoel Cândido de Azambuja, Francisco dos Santos Romano e Miguel de Magalhães Fonseca (Jornal do Commercio, de 14 de março de 1891, na terceira coluna, sob o título “Contratos Commerciaes”).

1894 -  Firmou um contrato de um comércio de armarinho com Manoel Cândido de Azambuja, Francisco dos Santos Romano e Miguel de Magalhães Fonseca (Jornal do Commercio, de 6 de junho de 1894, na sétima coluna).

Foi noticiado o aniversário de sua esposa, Laura Vianna (O Paiz, de 23 de setembro de 1894, na terceira coluna).

 

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José Baptista Barreira Vianna. D. Laura, esposa de José Baptista Barreira Vianna, c. 1900. Rio de Janeiro, RJ / Acervo IMS

 

1895 – Participou de um abaixo-assinado apoiando a medida da gerência da empresa New York Life Insurance Company em relação a um projeto de lei discutido na Câmara dos Deputados sobre companhias estrangeiras de seguro atuantes no Brasil (Cidade do Rio, de 21 de agosto de 1895, sob o título “Segurados da New York”, na segunda coluna).

1896 – Foi para a Europa com sua esposa e um filho, no paquete francês Brésil (Jornal do Brasil, de 16 de março de 1896, na terceira coluna).

Voltou para o Brasil, no paquete francês Chili (A Notícia, de 6 de setembro de 1896, na última coluna sob o título “Visita”).

Foi eleito um dos suplentes da Sociedade Portugueza de Beneficência (Liberdade, 23 de dezembro de 1896, sob o título “Sociedade Portugueza de Beneficencia, na quarta coluna).

1897 – A diretoria da Sociedade Portugueza de Beneficência tomou posse e Barreira Vianna foi um dos suplentes (Cidade do Rio, 29 de março de 1897, na sexta coluna).

Firmou um contrato com Francisco dos Santos Romano para o comércio de material de construção (O Paiz, de 25 de abril de 1897, na segunda coluna).

Integrou o grupo da colônia portuguesa que se organizou para oferecer um navio de guerra à Portugal como parte das comemorações do quarto centenário do descobrimento do caminho marítimo para as Índias (Jornal do Brasil, de 15 de novembro de 1897, na terceira coluna, sob o título “Grande subscripção patriotica portugueza“).

1899 – Já estava morando com a família na casa de Ipanema, cujo projeto e construção foram do arquiteto italiano Raphael Rebecchi (18? – 1922). Foi a primeira casa da praia e uma das primeiras do bairro. Dos dois lados da casa, havia duas construções onde ficavam as dependências dos empregados, a lavanderia e uma oficina. São dessa época as fotografias que produziu das áreas internas e externas da residência. Embora a eletricidade não houvesse chegado à Ipanema, a casa possuía eletricidade produzida por um gerador movido por motor à explosão alimentado por acetileno.

1900 – Firmou um contrato com Viríssimo Barbosa de Souza, Luiz José Monteiro e José Antônio Teixeira Barroso para o comércio de sabão na Praia de São Cristóvão, números 5 e 7 (O Paiz, de 21 de agosto de 1900, na terceira coluna).

Em 29 de dezembro,  falecimento do pintor João Baptista Castagneto (1862 – 1900), de quem José Baptista Barreira Vianna era muito amigo. Também fazia parte de seu rol de amizades o pintor João Baptista da Costa (1865 – 1926), que era professor de pintura de seus filhos.

1900 a 1903 – Do moinho de vento, que pertencia à propriedade e puxava água do sub-solo para a lavagem externa da casa, Barreira Vianna produziu fotografias do Leme, de Copacabana, do Arpoador, de Ipanema, do Leblon, da Gávea e da Lagoa.

1902 – Foi um dos escolhidos pela Associação Comercial do Rio de Janeiro para compor uma comissão para discutir os problemas gerados pela multiplicidade de taxas cambiais (Jornal do Commercio Retrospecto Commercial, edição de 1902, na primeira coluna).

1906 – Foi um dos patronos da conferência que John R. Mott (1865 – 1955) proferiu na Associação dos Empregados do Commercio. Mott iria presidir, em São Paulo, a Convenção Nacional da Associação Cristã dos Moços, aberta em 19 de julho de 1906 (Gazeta de Notícias, de 19 de julho de 1906, na sétima coluna).

1909 – Firmou um contrato com Theophilo Rufino Bezerra de Menezes, Carlos Frederico Oberlaender e José Pinto de Almeida para o comércio de sal na rua da Gamboa, números 193 e 795 (O Paiz, de 7 de aogosto de 1909, na terceira coluna).

1925 – Foi noticiado o falecimento de Barreira Vianna, que na época morava na rua João Alfredo, número 31. Ele foi enterrado no Cemitério Francisco Xavier (O Paiz, 4 de julho de 1925, na sexta coluna). Foi anunciada sua missa de 30º dia (Jornal do Brasil, 2 de agosto de 1925, na quinta coluna).

 

Um pouco da história de Ipanema

 

José Antônio Moreira Filho (1830-1899), o barão e conde de Ipanema, comprou, em 1878, do tabelião e empresário Francisco José Fialho (1820? – 1885) um lote de terras que ia desde a atual rua Barão de Ipanema até o atual Canal do Jardim de Alah. Criou, então, um novo bairro, que batizou de “Villa Ipanema”, em homenagem a seu pai, o primeiro barão e conde de Ipanema, o paulista João Antônio Moreira (1797 – 1879). O nome Ipanema significa em tupi água ruim e foi inspirado por uma das propriedades do barão, em Minas Gerais.

A Villa Ipanema foi inaugurada em 15 de abril de 1894, pelo prefeito Henrique Valladares (1852 – 1903), amigo do barão e do coronel José Silva, sócio do barão, que no mesmo dia estava também inaugurando a ampliação das linhas de bonde da empresa de Ferro Carril do Jardim Botânico, da Praça Malvino Reis, atual Serzedelo Correia, até a ponta da Igrejinha, que era a Igreja de Nossa Senhora de Copacabana, erguida no século XVIII e derrubada em 1918, próxima à rua Francisco Otaviano (Gazeta de Notícias, 16 de abril de 1894, terceira coluna). Em 26 de abril de 1894, foi assinada a ata de fundação definitiva do bairro Villa Ipanema, com a presença do então prefeito Henrique Valadares e do barão e conde de Ipanema, que lançou, em seus terrenos, um enorme loteamento, berço do que é ainda hoje um dos bairros mais valorizados da cidade do Rio de Janeiro. No princípio, foram abertas 13 ruas, uma avenida e duas praças no areal sem valor, tomado por pitangueiras, cajueiros e araçazeiros. Até hoje essas vias são as mais importantes artérias do bairro. Entre elas, a avenida Vieira Souto e as ruas Prudente de Moraes e Visconde de Pirajá, essa última batizada inicialmente de Vinte de Novembro. Ipanema conservou a denominação de vila até a década de 20. Apesar de alguns autores considerarem outras datas, o dia 26 de abril de 1894 é a data mais aceita como marco de referência da fundação do bairro.

Ipanema tornou-se, ao longo do século XX, reduto de artistas, intelectuais, jornalistas e boêmios, um dos símbolos do comportamento de vanguarda, exportando a moda e os costumes cariocas para o resto do país.

 

Acessando o link para as fotografias do bairro de Ipanema disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Destacamos uma fotografia produzida por Marc Ferrez ( 1843 – 1923), em torno de 1895.

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Para a elaboração desse post, a Brasiliana Fotográfica baseou-se em diversos periódicos pesquisados na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, no depoimento deixado por um dos netos de Barreira Vianna, que tinha 9 anos quando ele faleceu; no site da Multirio, na dissertação Avenida Central: arquitetura e tecnologia no início do século XX, de Sandra Zagari-Cardoso; e também no artigo A cidade em direção a Copacabana e Ipanema: transição para a modernidade, publicado no blog do Instituto Moreira Salles na ocasião da abertura da exposição Rio, primeiras poses – Uma visão da cidade a partir da chegada da fotografia – 1840 – 1930, realizada entre 28 de fevereiro de 2015 e 28 de fevereiro de 2016.

 

*Esse artigo foi ampliado em 18 de junho de 2019.