O Morro de Santo Antônio na Casa de Oswaldo Cruz

O pesquisador Ricardo Augusto dos Santos, da Fiocruz, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, é o autor do artigo sobre um álbum antigo com 19 fotografias do Morro de Santo Antônio, no Rio de Janeiro, identificadas recentemente no Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz. Elas exibem o cotidiano do Morro de Santo Antônio, retratando os habitantes, as ruas e casas. Localizado no centro da cidade, assim como outra colina também destruída, o Morro do Castelo, Santo Antônio estava situado em planície cercado de outras elevações que nos primeiros tempos do Rio colonial marcavam os limites do núcleo urbano. Sua completa demolição ocorreu a partir da década de 1950, fechando um ciclo de grandes obras no Rio de Janeiro com base no desmonte de morros, aterros de lagoas e arrasamento das ruas. Representou um importante capítulo na consolidação da cidade. Seus limites correspondem as ruas da Carioca, do Lavradio, Evaristo da Veiga e o Largo da Carioca. Após sua destruição, foram abertas largas avenidas.

Morro de Santo Antônio

Ricardo Augusto dos Santos*

capinha

Recentemente, no Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz, identificamos um antigo álbum fotográfico contendo 19 fotografias. Após um rápido reconhecimento, constatamos que as imagens documentam cenas de um morro existente no centro do Rio de Janeiro. As fotos encontradas no acervo iconográfico da COC exibem o cotidiano do Morro de Santo Antônio, retratando os habitantes, as ruas e casas. Mas que morro era esse? Localizado no centro da cidade, assim como outra colina também destruída (Morro do Castelo), Santo Antônio estava situado em planície cercado de outras elevações que nos primeiros tempos do Rio colonial marcavam os limites do núcleo urbano. Sua completa demolição ocorreu a partir da década de 1950, fechando um ciclo de grandes obras no Rio de Janeiro com base no desmonte de morros, aterros de lagoas e arrasamento das ruas. Representou um importante capítulo na consolidação da cidade. Seus limites correspondem as ruas da Carioca, do Lavradio, Evaristo da Veiga e o Largo da Carioca. Após sua destruição, foram abertas largas avenidas.

Acessando o link para as fotografias do Morro de Santo Antônio do acervo da Casa de Oswaldo Cruz disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Mas as imagens? Quando foram feitas? O que revelam? Podemos seguir pistas para obter respostas. Na capa do álbum está escrito: Fotografias de vários trechos do Morro de Santo Antônio, antes e depois da ação da Saúde Pública. As fotografias possuem legendas e uma delas traz a seguinte frase: Rua Caminho Pequeno na Manhã do Incêndio. E na imagem seguinte, o mesmo local fotografado após a remoção dos escombros. Então, ocorreu um incêndio! Tudo indica que incêndios suspeitos aconteciam com incrível regularidade ameaçando os moradores e suas habitações.

 

 

Estes vestígios do tempo mostram que o Morro do Castelo ainda estava de pé. Portanto, as fotos foram produzidas antes de 1922, data da demolição do Morro do Castelo. As anotações à margem das imagens revelam que as fotos foram feitas a partir de uma intervenção das autoridades de saúde pública. As notícias nos jornais de época indicam que inspetores sanitários vigiavam o pequeno comércio que abastecia os trabalhadores da área. Além da questão higiênica, havia o interesse econômico. Desde o surgimento das primeiras construções no local, interesses imobiliários conflitantes sobre uso do solo, articulados com a preocupação das condições de vida e sanitárias das comidas e bebidas vendidas no morro, determinavam as ações das autoridades públicas e proprietários. Lembrando que, em caso de destruição do morro, os terrenos planos (e valorizados!) seriam de posse do proprietário do morro. Em várias ocasiões, a prefeitura tentou, por ordem judicial, remover os moradores, mas os habitantes conseguiam adiamento da remoção. Porém, em 1916 houve um grande incêndio, obrigando um grande número de habitantes a buscar refúgio no Morro do Telégrafo, perto da Quinta da Boa Vista. Em meados da década de 1960, o morro seria totalmente destruído, surgindo uma grande esplanada, hoje dominada por imensos prédios públicos (BNDES, Petrobrás).

 

 

 

 

*Ricardo Augusto dos Santos é Pesquisador Titular da Fundação Oswaldo Cruz

O Paço, a praça e o morro

 

Será inaugurada hoje no Paço Imperial a exposição O paço, a praça e o morro, que reúne imagens que construíram a representação fotográfica do Rio de Janeiro. São 200 registros de grandes mestres da fotografia brasileira do século XIX e das primeiras décadas do século XX, como Augusto Malta, Camillo VedaniGeorges Leuzinger, Guilherme Santos, Juan GutierrezMarc Ferrez, além de trabalhos produzidos por fotógrafos ainda não identificados. As fotografias fazem parte do acervo do Instituto Moreira Salles e a exposição é um desdobramento da mostra Rio, primeiras poses, realizada no centro cultural do IMS na Gávea, ao longo de 2015. Desta vez, o olhar é dirigido especificamente ao território onde a cidade nasceu e a partir do qual se desenvolveu em direção a sua configuração atual de grande metrópole, reconhecida internacionalmente como sítio urbano privilegiado pela conjunção única de paisagem natural e cultural.

As profundas e constantes transformações na região central do Rio de Janeiro nos últimos 120 anos são fundamentais para se compreender a cidade dos dias de hoje. As fotografias de época reunidas nesta exposição permitem que se compreenda o processo de crescimento e expansão urbana do Rio de Janeiro. No ano em que a cidade recebe um dos mais importantes eventos mundiais, a Olimpíada de 2016, revisitar estes marcos fundadores da cidade por meio do olhar de grandes nomes da fotografia brasileira é também um convite à imersão na paisagem e na vida de uma região que novamente passa por um processo de revitalização e transformação.

Além disso, realizar esta exposição no próprio Paço Imperial permite que se lance um olhar privilegiado sobre este importante edifício, de valor referencial único na cidade. Os registros fotográficos aqui reunidos são uma oportunidade de se confrontar in loco a evolução histórica de uma importante região da cidade, formada por este edifício e seu entorno − a praça ou largo do Paço, hoje praça XV de Novembro, e o próprio marco fundador da cidade, o morro do Castelo, removido há quase um século da paisagem e, consequentemente, também da própria memória que se tem da cidade.

Centro da vida econômica, social e política do Rio de Janeiro nos seus primeiros séculos de ocupação, o Paço Imperial, a praça XV e o morro do Castelo moldaram o crescimento da cidade a partir de sua configuração geográfica e urbana original até a virada para o século XX. Nesse momento, o centro do Rio sofreu grandes transformações e intervenções urbanas, associadas às reformas realizadas pelo prefeito Pereira Passos. Os dois grandes marcos dessa transformação foram a abertura da Avenida Central e o início do “bota-abaixo”, processo de expansão, valoração, modernização e gentrificação urbana que levaria ao total desmonte do morro do Castelo no final da década de 1920.

A exposição apresenta imagens que mostram a cidade no período anterior a essas mudanças e outras que documentam e acompanham as reformas urbanas do início do século XX, em registros de fotógrafos profissionais, como Marc Ferrez, Augusto Malta e Guilherme Santos, e amadores. Ferrez e Malta construíram, com seus trabalhos, o principal legado da fotografia para a memória da cidade nesse período. Por meio das imagens aqui expostas, é possível acompanhar o processo de transformação da cidade desde a chegada da daguerreotipia ao Rio de Janeiro em 1840, pouco antes da posse, no ano seguinte, de d. Pedro II como imperador, aos 15 anos, até o final da década de 1920, momento de fortes mudanças econômicas, sociais e políticas que culminariam na revolução de 1930 e lançariam o país e a própria cidade do Rio de Janeiro na modernidade e na contemporaneidade.

Acessando o link para as fotografias do Paço Imperial, da Praça XV e do Morro do Castelo disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.