As expedições do Instituto Oswaldo Cruz entre 1911 e 1913

Com o objetivo de acompanhar obras de construção de ferrovias e a inspeção sanitária de portos, médicos do Instituto Oswaldo Cruz realizaram, entre 1911 e 1913, três expedições ao Nordeste e Centro-Oeste do Brasil: Arthur Neiva (1880 – 1943) e Belisário Penna (1868 – 1939) percorreram o norte da Bahia, o sudeste de Pernambuco, o sul do Piauí e Goiás de norte a sul. João Pedro de Albuquerque  (1874 – 1934) e José Gomes de Faria (1887 – 1962) dirigiram-se para o Ceará e o norte do Piauí. Por sua vez, Adolpho Lutz (1855 – 1940) e Astrogildo Machado (1885-1945) desceram o rio São Francisco, de Pirapora a Juazeiro, cruzando também alguns de seus afluentes, entre março e outubro de 1912. O objetivo era realizar amplo levantamento das condições epidemiológicas e socioeconômicas das regiões percorridas pelo rio São Francisco e de outras áreas do Nordeste e Centro-Oeste brasileiros. A serviço da Superintendência da Defesa da Borracha, Carlos Chagas (1878 – 1934), Pacheco Leão (1872 – 1931) e João Pedro de Albuquerque inspecionaram boa parte da bacia do rio Amazonas, entre outubro de 1912 e março de 1913. A partir dessas expedições científicas, “a saúde pública como base para a construção da nacionalidade permitiu que fosse abandonada a tese da inferioridade racial do brasileiro”. A jornalista Cristiane d´Avila, do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz, uma das parceiras do portal, conta um pouco dessa história.

 

As expedições do Instituto Oswaldo Cruz entre 1911 e 1913

Cristiane d’Avila*

 

 

Em O mapa fantasma, o norte-americano Steven Johnson (1968 -) sabiamente elege como abre-alas de seu thriller científico sobre a epopeia inglesa para debelar o cólera, na Londres vitoriana do século 19, o pintor e poeta alemão nascido na Suíça, Paul Klee (1879 – 1940), e o filósofo alemão Walter Benjamin (1892 – 1940). Destaca Johnson que Benjamin, ao interpretar o quadro de Klee, Angelus Novus, deduz, em insight genial, que o anjo novo (redenominado O Anjo da História), sabedor da força do progresso que irremediavelmente o tragaria, mira o passado, voltando as costas ao futuro.

A resistência do anjo de Klee à força do sopro da “tempestade” do progresso, sugere o futuro como ruptura inexorável com o passado. Não muito longe do universo de Klee e Benjamin, que vivenciaram os horrores da Primeira Guerra Mundial e anteviam as ameaças que acarretariam o conflito bélico subsequente, no Brasil travava-se um outro tipo de guerra, dessa feita contra micróbios e bactérias que aniquilavam as chances de o país superar seu malfadado “atraso”.

 

Acessando o link para as fotografias das expedições do Instituto Oswaldo Cruz  selecionadas para esse artigo e disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas. 

 

Naquele início de século, a construção nacional nos moldes europeus mirava ideais civilizadores em todas as esferas da vida social. Em processo de urbanização e industrialização, principalmente no Sudeste, o país voltava-se inquieto e intrigado para seu imenso interior, buscando na pesquisa científica a chave para compreender os obstáculos colocados ao progresso por um território até então invisível.

 

 

Embora conceitualmente divergentes, as perspectivas sobre a realidade nacional cruzavam-se em um ponto de interseção: era preciso superar o “atraso”, considerado fruto de determinações socioeconômicas, históricas, políticas, climáticas, raciais e geográficas, por meio de estratégias que permitissem integrar o Brasil ao mundo moderno. Todas, ainda que se apoiassem em discursos antagônicos, não deixavam de buscar soluções para o desconforto, o sentimento de inadequação que a nossa realidade provocava nas elites nacionais. Como afirma Roberto Schwarz, essa experiência “pode ser e foi interpretada de muitas maneiras, por românticos, naturalistas, modernistas, esquerda, direita, cosmopolitas, nacionalistas etc., o que faz supor que corresponda a um problema durável e de fundo” (2005, p.109).

Campanhas de saúde foram realizadas por sanitaristas no interior do país a fim de erradicar doenças que mortificavam milhares de brasileiros, como a malária e a febre amarela. A partir das expedições científicas empreendidas por médicos do Instituto Oswaldo Cruz, “a saúde pública como base para a construção da nacionalidade permitiu que fosse abandonada a tese da inferioridade racial do brasileiro” (OLIVEIRA, 1990, P.145).

Com o objetivo de acompanhar obras de construção de ferrovias e a inspeção sanitária de portos, esses médicos protagonizaram, entre 1911 e 1913, três expedições ao Nordeste e Centro-Oeste do Brasil: Arthur Neiva e Belisário Penna percorreram o norte da Bahia, o sudeste de Pernambuco, o sul do Piauí e Goiás de norte a sul. João Pedro de Albuquerque e José Gomes de Faria dirigiram-se para o Ceará e o norte do Piauí.

Por sua vez, Adolpho Lutz e Astrogildo Machado desceram o rio São Francisco, de Pirapora a Juazeiro, cruzando também alguns de seus afluentes, entre março e outubro de 1912. O objetivo era realizar amplo levantamento das condições epidemiológicas e socioeconômicas das regiões percorridas pelo rio São Francisco e de outras áreas do Nordeste e Centro-Oeste brasileiros. A serviço da Superintendência da Defesa da Borracha, Carlos Chagas, Pacheco Leão e João Pedro de Albuquerque inspecionaram boa parte da bacia do rio Amazonas, entre outubro de 1912 e março de 1913.

“As expedições desse triênio foram demoradas e percorreram extensas áreas onde as investigações científicas predominaram sobre as preocupações médico-sanitárias de curto prazo. Estas expedições produziram, através dos relatórios de viagem e de intenso uso da fotografia, um minucioso registro das condições de vida da população interiorana, seus hábitos, suas técnicas, sua mentalidade, associando às questões sanitárias os aspectos socioeconômicos, culturais e ambientais das regiões percorridas”, escreveram os organizadores do livro A ciência a caminho da roça (1992, p.7). Algumas fotografias dessas expedições podem ser aqui observadas.

Linha do tempo das expedições realizadas entre 1910 e 1913 (Fonte: www.fiocruz.br/ioc), com o objetivo de conhecer e mapear o quadro nosológico de regiões brasileiras para aumentar seu potencial produtivo, visando a sua modernização:

1910: Oswaldo Cruz e Belisário Penna seguem para a Amazônia, em ação de controle da malária para a Madeira-Mamoré Railway Company.

1912 (abril a outubro): Arthur Neiva e Belisário Penna percorrem Piauí, Pernambuco, Bahia e Goiás, para o reconhecimento topográfico e o levantamento sanitário das regiões secas, por requisição da Inspetoria de Obras Contra as Secas, órgão do Ministério dos Negócios da Indústria, Viação e Obras Públicas. Estão incluídos estudos da fauna, flora, geografia, condições de vida e história das localidades.

1912-1913: Carlos Chagas, Pacheco Leão e João Pedro de Albuquerque partem em expedição para avaliar as condições sanitárias e de vida dos principais centros de produção da borracha através dos rios Solimões, Juruá, Purus, Acre, Iaco, Negro e o baixo rio Branco, em expedição requisitada pela Superintendência da Defesa da Borracha.

 

 

 

*Cristiane d’Avila  é jornalista do Departamento de Arquivo e Documentação Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz

 

Fontes:

 

FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ. CASA DE OSWALDO CRUZ. A ciência a caminho da roça: imagens das expedições científicas do Instituto Oswaldo Cruz ao interior do Brasil entre 1911 d 1913. Rio de Janeiro: Fiocruz/Casa de Oswaldo Cruz, 1992.

JOHNSON, Steven. O mapa fantasma: como a luta de dois homens contra o cólera mudou o destino de nossas metrópoles. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

LIMA, Nísia Trindade. “Missões civilizatórias da República e interpretação do Brasil” Hist. cienc. saude-Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 5, supl. p. 163-193, Julho 1998. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59701998000400010&lng=en&nrm=iso>. Acessado em 08 Jan. 2019.

OLIVEIRA, Lúcia Lippi. A questão nacional na Primeira República. São Paulo: Brasiliense, 1990.

SCHWARZ, Roberto. “Nacional por subtração”. In: Cultura e política. São Paulo: Paz e Terra, 2005.

 

Para saber mais sobre as expedições do Instituto Oswaldo Cruz, acesse o artigo Manguinhos e os sertões, publicado em 9 de outubro de 2017, na Brasiliana Fotográfica.