Série “Avenidas e ruas do Brasil” V – A rua Direita, a rua das Mercês e a rua Macau do Meio, em Diamantina, Minas Gerais

Série “Avenidas e ruas do Brasil” V – A rua Direita, a rua das Mercês e a rua Macau do Meio, em Diamantina, Minas Gerais

 

No quinto artigo da série “Avenidas e ruas do Brasil”, a Brasiliana Fotográfica destaca imagens de três ruas na cidade de Diamantina, em Minas Gerais: a rua Direita, a rua das Mercês e a rua Macau do Meio. O registro da rua Direita foi realizado, no século XIX, pelo fotógrafo alemão Augusto Riedel (1836 – ?) e os da rua das Mercês e Macau do Meio pelo mineiro Chichico Alkmim (1886 – 1978), já nas primeiras décadas do século XX. Em suas ruas de pedras, com várias subidas e descidas, onde se encontra um casario homogêneo e bem conservado, fazemos uma viagem no tempo…

 

 

Diamantina é uma das mais importantes cidades históricas do Brasil e sua formação está ligada à exploração de ouro e de diamante. Sua ocupação inicial ocorreu com o bandeirante Jerônimo Gouveia (16? – ?) que, seguindo o curso do rio Jequitinhonha, encontrou uma significativa quantidade de ouro nas confluências dos rios Piruruca e Grande. O povoado começou a surgir nas primeiras décadas do século XVIII, em torno dos rios garimpados. A cidade de Diamantina, cuja origem foi o Arraial do Tijuco (ou Tejuco), foi oficialmente fundada em 6 de março de 1831. O conjunto arquitetônico de seu centro histórico foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 16 de maio de 1938. Em dezembro de 1999, Diamantina recebeu da Unesco o título de Patrimônio Cultural da Humanidade (Jornal do Brasil, 2 de dezembro de 1999).

 

“Diamantina foi o maior centro de extração de diamantes do mundo no século XVIII, condição que se refletiu na evolução da cidade, desfavorecendo a formação de um espaço urbano arquitetônico na forma de uma praça representativa do poder político e religioso, como era então regra geral. Sua arquitetura civil tem referência especial pela extrema homogeneidade do seu casario. Possui uma estética sóbria, simples, porém refinada se comparada com outras cidades de sua época. Suas fachadas são bem geometrizadas e seu padrão foi sistematicamente reproduzido pela cidade, não havendo rupturas estilísticas importantes. Essas edificações apresentam evidentes testemunhos da reprodução do modelo cultural de origem portuguesa.” 

                               Portal Iphan

Brasão de Diamantina

Brasão de Diamantina

 

Augusto Riedel (1836 – ?) e Diamantina

 

Considerado um dos mais talentosos fotógrafos paisagistas dos oitocentos, o alemão Augusto Riedel (1836-?) foi proprietário de um estúdio fotográfico à rua Direita nº 24, em São Paulo (Diário de São Paulo, de 1º de outubro de 1865, primeira coluna), na década de 1860, e na rua Cassiano, 41, no Rio de Janeiro, entre 1875 e 1877. De sua produção, restaram 40 imagens do álbum Viagem de S.S.A.A. Reaes Duque de Saxe e seu Augusto Irmão D. Luis Philippe ao Interior do Brasil no Anno 1868 – que se tornou um dos trabalhos clássicos da documentação fotográfica do século XIX no Brasil. Os registros de Diamantina fazem parte deste conjunto. O duque de Saxe, dom Luis Augusto de Saxe Coburgo e Gotha (1845 – 1907), era genro do imperador Pedro II (1825 – 1891), marido da princesa Leopoldina de Bragança e Bourbon (1847 – 1871). A presença do nome do fotógrafo na capa do álbum indica que ele já devia ser bastante conhecido e que provavelmente devam existir outras fotos dele ainda hoje não amplamente reconhecidas.

 

 

A viagem representada no mencionado álbum durou meses , durante os quais foram percorridos os estados de Minas Gerais, onde foram retratadas, além de Diamantina, as cidades de Ouro Preto, Mariana, Sabará, Lagoa Santa e o primeiro vapor do rio das Velhas, além das minas de Morro Velho; vistas do rio São Francisco, que levaram os viajantes até Penedo, em Alagoas; Sergipe e, finalmente, Bahia, último estado visitado pela expedição. São possivelmente os mais antigos registros fotográficos dessas regiões do Brasil.  O itinerário percorrido sugere um grande interesse do grupo em geologia e em assuntos relativos à mineração. Um obscuro diamantinense publicou uma homenagem à visita dos príncipes à Diamantina (Diário do Rio de Janeiro, de 10 de agosto de 1868, primeira coluna).

 

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Acessando o link para as fotografias de Augusto Riedel de aspectos de Diamantina disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 Chichico Alkmim (1886 – 1978) e Diamantina

 

O mineiro Chichico Alkmim (1886 – 1978), autodidata, pioneiro da fotografia de estúdio em Diamantina, e primeiro cronista visual da cidade, atuou na profissão de 1907 a 1955. Seu primeiro ateliê foi inaugurado em 1912 e sua obra, uma das principais referências da memória visual de Minas Gerais, compreende imagens da arquitetura diamantinense, sua religiosidade, suas ruas, costumes, ritos e retratos de seus habitantes. Chichico retratou a burguesia e também os trabalhadores ligados ao pequeno garimpo, ao comércio e à indústria. Produziu imagens de casamentos, batizados, funerais, festas populares e religiosas, paisagens e cenas de rua. De 1955, quando parou de  fotografar, até 1978, ano de sua morte, continuou cuidando de seu acervo, que guardava no porão de sua casa.

 

 

Acessando o link para as fotografias de Chichico Alkmim de aspectos de Diamantina disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

Links para os outros artigos da série “Avenidas e ruas do Brasil”:

Série “Avenidas e ruas do Brasil” I – Avenida Central, atual Rio Branco

Série “Avenidas e ruas do Brasil” II – A rua do Imperador em Petrópolis por Klumb, Leuzinger e Stahl

Série “Avenidas e ruas do Brasil” III – A rua do Bom Jesus, no Recife

Série “Avenidas e ruas do Brasil” IV – A rua 25 de Março, em São Paulo

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Portal Iphan

Site Prefeitura de Diamantina

Série “Avenidas e ruas do Brasil” IV – Rua 25 de março em São Paulo

 

Série “Avenidas e ruas do Brasil” IV – Rua 25 de Março

 

No quarto artigo da série “Avenidas e ruas do Brasil”, a rua 25 de Março, atualmente uma das mais movimentadas de São Paulo é a destacada. Popularmente conhecida como “a 25″, é o maior centro comercial da América Latina, localiza-se no Centro da cidade e sua história é fortemente identificada com a própria história da cidade e marcada pela presença da imigração para a metrópole, principalmente de sírios e libaneses. Foi batizada, em 1865, em homenagem à data da assinatura da primeira constituição brasileira, em 25 de março de 1824. As fotografias deste artigo muito contrastam com a região nos dias de hoje, conhecida como “o maior shopping céu aberto da América Latina”. São do fim do século XIX e início do XX, de autoria de Guilherme Gaensly (1843 – 1928) e de Vincenzo Pastore (1865 – 1918).

Um das 10 fotografias da rua 25 de Março destacadas nesse artigo é de autoria do fotógrafo suíço Guilherme Gaensly, autor de importantes registros de São Paulo, vendidos como fotografias em papel albuminado e colotipias impressas na Suíça e comercializadas em álbuns. Ao lado de seu contemporâneo Marc Ferrez (1843 – 1923), foi provavelmente o fotógrafo mais publicado em postais no Brasil.

 

 

Acessando o link para as fotografias da Rua 25 de março, em São Paulo, disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas. 

 

As outras nove foram produzidas pelo italiano Vincenzo Pastore (1865 – 1918), por volta de 1910. Com sua câmara de pequeno formato, Pastore capturava tipos e costumes de um cotidiano ainda pacato de São Paulo, uma cidade que logo, com o desenvolvimento econômico, mudaria de perfil. Captava as transformações urbanas e humanas da cidade, que passava a ser a metrópole do café. Com seu olhar sensível, o bem sucedido imigrante italiano flagrava trabalhadores de rua como, por exemplo, feirantes, engraxates, vassoureiros e jornaleiros, além de conversas entre mulheres e brincadeiras de crianças. Pastore, ao retratar pessoas simples do povo, realizou, na época, um trabalho inédito na história da fotografia paulistana. Registrou cenas de ruas de São Paulo, como estas na rua 25 de março, produzindo imagens diferentes das realizadas, durante o século XIX, com câmeras de grande formato sobre tripés, tendo sido um dos pioneiros da nova linguagem da fotografia do século XX.

 

 

Um pouco da história da rua 25 de Março, o “maior shopping a céu aberto da América Latina”

 

O Pátio do Colégio, reconhecido como o berço da cidade de São Paulo, está localizado próximo a área da rua 25 de Março, e o rio Tamanduateí, além de se relacionar com a fundação da cidade, tem ligação com a origem da referida rua, por ter sido a porta de entrada mais importante dos fundadores e dos desbravadores da cidade.

 

 

A colina do Pátio do Colégio, próxima ao rio Tamanduateí, abrigava o Porto Geral, que era usado para o descarregamento de mercadorias importadas que chegavam do Porto de Santos. Desde o século XVI, era utilizado como rota alternativa às trilhas no trajeto entre Santo André e São Paulo. Também por ele eram transportados da fazenda São Caetano, dos beneditinos, gêneros alimentícios para o Mosteiro de São Bento. A atual rua 25 de Março era chamada, no século XVIII, de rua ou beco das Sete Voltas por margear o rio Tamanduateí que era sinuoso e que, até meados do século XIX, abrigou quatro portos: o já citado Geral, o Tabatinguera, o Figueira e o Coronel Paulo Gomes. O rio foi retificado em duas etapas – em 1848 e entre 1896 e 1914.

 

 

Acessando o link para as fotografias do rio Tamanduateí, em São Paulo, disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas. 

 

Nesse século a rua recebeu a denominação popular de rua de Baixo, por ficar na parte baixa da cidade em realação à colina do Pátio do Colégio. Em 28 de novembro de 1865, foi apresentado pelo vereador Malaquias (ou Malachias) Rogério de Salles Guerra (18? – 19?) um ofício sugerindo a alteração do nome de várias ruas, sendo uma delas a alteração do nome da rua de Baixo para rua 25 de Março, até a projetada Praça do Mercado (atual praça Fernando Costa), e desse ponto em diante, até a Ladeira do Carmo, atual avenida Rangel Pestana (Correio Paulistano, 22 de dezembro de 1865, última coluna). Uma curiosidade: foi para a casa de São Paulo de Malaquias, primo de seu pai, que o futuro governador de São Paulo e presidente do Brasil, Manuel Ferraz de Campos Salles (1841 – 1913), nascido em Campinas, se mudou, aos 15 anos, para estudar na capital.

 

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Por volta de 1870, a migração de sírios e libaneses aumentou devido à ocupação desses dois países pelo Império Turco-Otomano, razão pela qual eles chegavam ao Brasil com passaportes fornecidos pelo governo turco. Daí terem ficado conhecidos como “turcos”, apesar de não sê-los. Uma ironia e até uma crueldade histórica já que os turcos eram, na verdade, seus opressores. Enfim, foram os sírios e os libaneses os responsáveis pela ocupação e pela colonização da área da rua 25 de Março. Vieram “fazer a América”. Em 1887 ou 1890 (as fontes variam em relação a essa data), foi aberta a primeira loja na rua de que se tem notícia até hoje. Era de propriedade do imigrante libanês Benjamin Jafet (1864 – 1940), que se mudou para o Brasil, em 1887, e tornou-se um grande empresário do ramo têxtil (Correio Paulistano, 25 de fevereiro de 1940, quinta coluna).

 

 

A maioria desses imigrantes sírios e libaneses era cristãos ortodoxos e foi em janeiro de 1897 que, após a celebração de uma missa, em uma salão situado na rua 25 de Março, que o padre Mussa Abi Haidar realizou a primeira procissão ortodoxa da América do Sul. Nas proximidades da rua 25 de Março, na antiga rua Itobi, atual rua Cavalheiro Basílio Jafet, foi construída, nos primeiros anos do século XX, a primeira igreja ortodoxa do Brasil, a Igreja Ortodoxa Antioquina da Anunciação à Nossa Senhora, consagrada em 1904.

Além dos sírios e libaneses, comerciantes alemães, franceses e italianos – como vendedores de tecidos e estes últimos também como maiores vendedores de sapatos e principais agentes das atividades de funilaria e ferragem -, ingleses e norte-americanos no setor de metalurgia, e brasileiros e portugueses em trabalhos de carpintaria, se instalaram na região. Nos últimos anos, a presença de orientais vem se intensificando.

A área, cuja origem é a rua 25 de Março, constitui-se de um conglomerado de lojas e galerias que vai desde o Mosteiro de São Bento até o Mercado Municipal. Desde o início de sua história, a rua foi identificada com a possibilidade de oportunidade de negócios em atividades comerciais e em sua região estão instaladas lojas tanto atacadistas como varejistas de produtos variados: de armarinhos a papelarias, roupas de cama e mesa, bijuterias e brinquedos, dentre vários outros. É, como já mencionado, apesar das grandes mudanças ocorridas na estrutura de comércio da capital paulistana, uma região comercialmente muito movimentada e ativa, o “maior shopping a céu aberto da América Latina“.

Em 2007, , “a 25″ foi o tema do enredo da Associação Cultural e Social Escola de Samba Mocidade Camisa Verde e Branco intitulado Das sete curvas de um rio nasce a Rua da Cultura, religião, comércio e festas populares: 25 de Março, Isso é Brasil!

Devido à pandemia do Covid-19, o comércio da rua ficou fechado de março de 2020 ao dia 10 de junho do mesmo ano. Recebe cerca de quatrocentas mil pessoas por dia e, perto de datas comemorativas, esse número sobe para um milhão.

 

Links para os outros artigos da série “Avenidas e ruas do Brasil”:

Série “Avenidas e ruas do Brasil” I – Avenida Central, atual Rio Branco

Série “Avenidas e ruas do Brasil” II – A rua do Imperador em Petrópolis por Klumb, Leuzinger e Stahl

Série “Avenidas e ruas do Brasil” III – A rua do Bom Jesus, no Recife

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

CESARINO, G. K.; CALDANA JUNIOR, V. L. (2017). Adaptação e resiliência do espaço comercial de rua: a 25 de marçoRUA23 (1), 117-139.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002. 408 p., il. p&b.

OLIVEIRA, Lineu Francisco de; GIL Antonio Carlos. O conglomerado comercial da rua 25 de março, em São Paulo: uma região socialmente construída. Revista de Estudos Sociais, 2011, nº 25, vol. 13

PONCIANO, Levino. Todos os centros da Paulicéia. São Paulo: Editora Senac, 2007.

PREFEITURA DO MUNICÍPIO DE SÃO PAUL, Departamento do Patrimônio Histórico. A enchente de 1º de janeiro de 1850. São Paulo, 2009.

Site Brasil Econômico

Site Casas Históricas Paulistanas

Site Dicionário de ruas da Prefeitura de São Paulo

Site Guiada25

Site Igreja Ortodoxa Antioquina

Site Loja Maçônica Campos Salles 2654

Site São Paulo in Foco

Site Viagens e Caminhos

Série “Avenidas e ruas do Brasil” III – A rua do Bom Jesus, no Recife

Série “Avenidas e ruas do Brasil” III – A rua do Bom Jesus, no Recife

 

A revista norte-americana Architectural Digest publicou, em 26 de novembro de 2019, a reportagem “31 of the most beautiful streets in the world“, de autoria de Nick Mafi, destacando as ruas mais bonitas do mundo. Em terceiro lugar, figurou a rua do Bom Jesus, no Bairro do Recife, única brasileira da lista. Os primeiro e segundo lugares ficaram com a ruas de Setenil de las Bodegas, cidade localizada no sul Espanha, entre Sevilha e Málaga; e a Washington Street, no Brooklyn, em Nova York, respectivamente.

Aqui destacamos três imagens da rua do Bom Jesus, tema do terceiro artigo da série “Avenidas e ruas do Brasil”. São de autoria de Auguste Stahl (1828 – 1877), de Guilherme Gaensly (1843 – 1928) e de Moritz Lamberg (18? – 19?).

 

Acessando o link para as fotografias da rua do Bom Jesus, no Recife, disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas. 

 

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A rua colorida, repleta de palmeiras altas, está cheia de história. E está mesmo! Na época da ocupação holandesa, conhecida como Rua do Bode – Bokestraet – , a atual rua do Bom Jesus era a mais importante alameda do Bairro do Recife, talvez por ser, na época, a via usada por viajantes que iam ou vinham de Olinda. Suas bases foram lançadas, em 1636, quando o cristão novo de origem portuguesa, Duarte Saraiva, cujo nome judeu seria David Sênior Colonel, comprou o terreno onde a rua começou a ser construída. Tornou-se a rua preferida dos israelitas e passou a ser chamada de rua dos Judeus.

Foi lá que entre 1636 e 1654 existiu a mais antiga sinagoga das Américas, a Sinagoga Kahal Zur Israel – Rochedo de Israel – , com a mais antiga piscina de banho ritual (micveb ou micveh) do continente, descoberta a partir de uma prospecção arqueológica realizada pela Universidade Federal de Pernambuco entre 1999 e 2000. Perto dali também foi construído o primeiro cemitéro judaico do continente. A lei municipal nº 16.496, de 19 de julho de 1999, transferiu o uso dos prédios para a Federação Israelita de Pernambuco, a fim de que fosse instalada uma réplica da sinagoga Zur Israel. Atualmente abriga o Centro Judaico de Pernambuco

A chegada de judeus em Pernambuco se deu de duas formas. Com a crescente perseguição a não cristãos em Portugal, o país, segundo Tania Kaufman, fundadora do Arquivo Histórico Judaico de Pernambuco, “chegou a distribuir terras no Brasil para os judeus. A Coroa queria que eles povoassem o Nordeste. Era uma forma de a Coroa garantir a posse das terras”. Porém havia uma condição: para terem direito a terras brasileiras, os judeus teriam que se converter, tornando-se cristãos novos.

Centenas de outros judeus chegaram em Pernambuco, em 1630, com os holandeses que estavam em busca de açúcar. Era o início da Invasão Holandesa no estado. Estes judeus haviam fugido de Portugal para os Países Baixos, uma meca da liberdade religiosa, devido à crescente perseguição da Inquisição. Eles tinham tradição mercantil, entendiam de refino de açúcar e eram fluentes em português.

Vinte e quatro anos depois, Portugal retomou o controle de Pernambuco e com a rendição dos exércitos holandeses, em janeiro de 1654, uma população de cerca de 400 judeus residentes no Recife teve estabelecido pelo então governador da região, Francisco Barreto de Menezes (1616 – 1688), um prazo de quatro meses para deixarem o Brasil. Quem ficasse teria que enfrentar a Inquisição. Muitos fugiram para o interior do país e outros partiram para as Antilhas e para Amsterdã. Dezenas de judeus embarcaram para a Holanda, no navio Valk, em janeiro de 1654, e devido a uma série de imprevistos, como uma tempestade e o saque do navio por piratas, foram socorridos por uma fragata francesa que os deixou na Jamaica, então uma colônia espanhola. Ficaram presos por um período, foram libertados e 23 deles – seis famílias compostas por 13 crianças, quatro casais e duas viúvas – acabaram indo para a região conhecida como Nova Amsterdã, futura Nova York, onde aportaram em 7 de setembro de 1654. Lá fundaram a primeira congregação judaica da América do Norte, a Shearith Israel.

Mas, voltando à história da rua. Quando os judeus foram embora de Pernambuco, a rua foi denominada rua da Cruz. Finalmente, em 1870, o Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano propôs que a rua da Cruz passasse a se chamar rua do Bom Jesus, iniciativa  aprovada pelo Conselho Municipal. Assim ficaria lembrado que “naquela rua existia sobre o arco, que era antiga porta da cidade, a capela do bom Jesus, demolida em 1850“(Diário de Pernambuco, 20 de agosto de 1870, terceira coluna).

 

 

O casario da rua do Bom Jesus, que liga a Marquês de Olinda à praça Artur Oscar, apesar de ter sido modificado principalmente no século XIX,  mantém quase o mesmo traçado da rua do tempo dos holandeses.

 

Um pouco sobre as imagens destacadas

 

Abaixo está reproduzida a mais antiga imagem da rua do Bom Jesus presente no acervo da Brasiliana Fotográfica. Na época ainda se chamava Rua da Cruz. É de autoria de Augusto Stahl (1828 – 1877), nascido em Bergamo, na Itália, em 23 de maio de 1828, originário de uma família da Alsácia, na França. Desembarcou do vapor inglês Thames, no Recife, em 31 de dezembro de 1853. Teve diversos ateliês fotográficos na cidade até mudar-se para o Rio de Janeiro, em 1862. Foi agraciado por d. Pedro II (1825 – 1891) com o título de “Fotógrafo de S.M , o Imperador”.

 

 

A próxima imagem foi produzida por Moritz Lamberg que, em 1880, teve anunciada sua chegada à Photographia Allemã de Recife, pelo gerente do estabelecimento, Constantino Barza, para cuidar da parte técnica e artística do ateliê do berlinense Alberto Henschel (1827 – 1882). Lamberg foi apresentado como celebridade europeia e insigne artista, que havia dirigido estabelecimentos em Berlim e em Viena e obtido prêmios em Paris e em Viena nas exposições de 1868 e 1873.

A fotografia é da já rebatizada rua do Bom Jesus. Aparecem do lado esquerdo o estabelecimento de Augusto Coers e a Botica Francesa, no número 22. Augusto Coers tinha o privilégio por 15 anos da funda herniária electo medical, invenção dos irmãos Marie para a cura de hérnias (Diário de Pernambuco, 23 de janeiro de 1880). Na Botica Francesa, eram vendidos medicamentos estrangeiros (Jornal do Recife, 14 de agosto de 1880). Atrás vemos a Torre Malakoff, um importante monumento construído no século XIX, atualmente tombado pelo Iphan. Foi o portão monumnetla do ARsenal da Marinha e um observatório astronômico. Desde 2000 abriga um espaço cultural.

 

 

 

A última fotografia, de autoria do suíço Guilherme Gaensly (1843 – 1928), é a mais recente, tendo sido produzida por volta de 1890. No número 86, quase ao lado da Botica Franceza, aparece a Botica do Recife. Um pouco depois, a Caixa Econômica.

 

 

Links para os outros artigos da série “Avenidas e ruas do Brasil”:

Série “Avenidas e ruas do Brasil” I – Avenida Central, atual Rio Branco

Série “Avenidas e ruas do Brasil” II – A rua do Imperador em Petrópolis por Klumb, Leuzinger e Stahl

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Architectural Digest, de 26 de novembro de 2019

CAVALCANTI, Carlos Bezerra. O Recife e suas ruas: se essas ruas fossem minhas… Recife: Edições Edificantes, 2002. 140 p. il. p. 59.

Diário de Pernambuco, 6 de julho de 2020

Folha de São Paulo, 25 de novembro de 2002

FRAGOSO, Danillo. Velhas ruas do Recife. Recife: UFPE, Imprensa Universitária, 1971. p. 60.

GASPAR, Lúcia. Rua do Bom Jesus, Recife, PE. Pesquisa Escolar online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/>. Acesso em 13 de julho de 2020.

LEVY, Daniela. De Recife para Manhattan. São Paulo : Editora Planeta, 2018.

Site Recife Antigo

SILVA, Leonardo Dantas. Arruando pelo Recife: por ruas, pontes, praias e sítios históricos. Recife: SEBRAE/PE, 2000. 178 p. il. p. 101-102.

Wiznitzer, Arnold. The Exodus from Brazil and Arrival in New Amsterdam of the Jewish Pilgrim Fathers, 1654. American Jewish Historical Society 44 (1954): 80-97.

WOLFF, Egon; WOLFF, Frieda. A Odisséia dos Judeus de Recife. Editora Centro de Estudos Judaicos, 1979.

Série “Avenidas e ruas do Brasil” II – A rua do Imperador em Petrópolis por Klumb, Leuzinger e Stahl

Série “Avenidas e ruas do Brasil” II – A rua do Imperador em Petrópolis por Klumb, Leuzinger e Stahl

A Brasiliana Fotográfica inaugura a série “Avenidas e ruas do Brasil” com um artigo sobre a rua do Imperador, em Petrópolis, registrada por três importantes fotógrafos estrangeiros que vieram para o Brasil no século XIX: o italiano filho de franceses Augusto Stahl (1828 – 1877), o suíço Georges Leuzinger (1813 – 1892) e o francês Revert Henrique Klumb (c. 1896 – c. 1886). Lembramos que antes do lançamento da série, já havia um artigo no portal sobre uma importante rua do Rio de Janeiro: Avenida Central,  atual Rio Branco, publicado em 7 de setembro de 2016. Portanto, apesar do lançamento formal ser hoje, vamos considerar o mencionado artigo como o primeiro da série.

 

 

A rua do Imperador é o centro comercial da cidade desde sua fundação. A partir dos anos 1850, houve um aumento na construção de casas e de sobrados com lojas comerciais no térreo, cujos proprietários eram, em sua maioria, portugueses. Nas ruas próximas, a elite política e financeira do Império construía suas casas. Na rua do Imperador ficava o Hotel Bragança, os Quartéis da Colônia e a Estação da Estrada de Ferro Príncipe do Grão-Pará. Em 1905, já se chamava avenida XV de Novembro, mas voltou a ser denominada rua do Imperador, em 1979.

 

 

Acessando o link para as fotografias da rua do Imperador em Petrópolis disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas. 

 

 

 

 

Links para os outros artigos da série “Avenidas e ruas do Brasil”: 

Série “Avenidas e ruas do Brasil” I – Avenida Central, atual Rio Branco

Série “Avenidas e ruas do Brasil” III – A rua do Bom Jesus, no Recife

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

Site A História de Petrópolis

 

 

Série “Avenidas e ruas do Brasil” I – Avenida Central, atual Rio Branco

 

Série “Avenidas e ruas do Brasil” I – Avenida Central, atual Rio Branco*

 

 

A Brasiliana Fotográfica fez uma seleção de imagens da avenida Central, atual avenida Rio Branco, produzidas por fotógrafos ainda não identificados, por Aristógiton Malta (1904-1954), Augusto Malta (1864 – 1957), Marc Ferrez  (1843 – 1923), João Martins Torres e pela Phototypia A. Ribeiro. Foram produzidos no início do século XX, quando surgia o Rio de Janeiro da Belle Époque. A abertura da avenida foi uma das principais marcas da reforma urbana realizada por Francisco Pereira Passos (1836 – 1913), o bota-abaixo, entre 1902 e 1906, período em que foi prefeito do Rio de Janeiro. Essas transformações foram definidas por Alberto Figueiredo Pimentel (1869-1914), autor da seção “Binóculo”, da Gazeta de Notícias, com a máxima “O Rio civiliza-se”, que se tornou o slogan da reforma urbana carioca.

É de autoria do fotógrafo Marc Ferrez o Álbum Avenida Central: 8 de março de 1903-15 de novembro de 1906, importante registro da reforma da principal via da então capital federal, onde ele contrapôs reproduções das plantas às fotografias das fachadas de cada edifício documentado. Esse tipo de fotografia foi fundamental para a construção e para a difusão de uma nova imagem do Rio de Janeiro, uma imagem associada aos ideais de civilização e progresso.

A linha central da avenida foi inaugurada pelo presidente Rodrigues Alves (1848 – 1919), em 7 de setembro de 1904 (O Paiz, 8 de setembro de 1904, na sexta coluna, sob o título “Avenida Central” e Gazeta de Notícias, de 8 de setembro de 1904, na última coluna). No ano seguinte, 1905, sob um temporal, a avenida foi aberta oficialmente, em 15 de novembro (O Paiz, 16 de novembro de 1905, na quinta coluna, sob o título “15 de Novembro”). O engenheiro chefe de sua construção foi André Gustavo Paulo de Frontin (1860 – 1933). A avenida Central, que ligava o novo porto, onde atualmente está a Praça Mauá, à região da Glória, tornou-se logo a principal via de circulação da cidade, e também seu polo econômico e de entretenimento. Seu nome foi mudado, por decreto, em 15 de fevereiro de 1912, para avenida Rio Branco, uma homenagem ao diplomata e ministro das Relações Exteriores do Brasil, o barão de Rio Branco ( 1845 – 1912 ), que havia falecido cinco dias antes (O Paiz, 16 de fevereiro de 1912, sob o título “Barão do Rio Branco”).

 

 

Na época de sua inauguração, a avenida Central tinha 1.800 metros de extensão e 33 metros de largura. Cerca de 300 casas coloniais foram demolidas para a construção dos novos edifícios, cujas fachadas foram escolhidas por concurso. Alguns dos jurados foram o prefeito Pereira Passos, o engenheiro Paulo de Frontin, Lauro Muller (1863 – 1926), ministro da Viação e Obras Públicas; e Oswaldo Cruz (1872 – 1917), diretor-geral da Saúde Pública. Além de edifícios do governo, ergueram-se, na avenida, jornais, clubes, hotéis e sedes de empresas. O calçamento, em mosaico português, foi feito por artesãos vindos de Portugal. Passear pela avenida Central era passear pela espinha dorsal do mundo das compras e do lazer dos elegantes, dos negócios e da cultura. Alguns remanescentes da primeira geração de prédios da avenida são o Teatro Municipal, o Clube Naval, a Biblioteca Nacional, o Museu Nacional de Belas Artes e o Centro Cultural da Justiça Federal.

Acessando o link para as fotografias da avenida Central disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Link para a entrevista com a arquiteta italiana Maria Pace Chiavari. Um dos temas abordado  é o Álbum Avenida Central: 8 de março de 1903-15 de novembro de 1906, de Marc Ferrez.

 

*Em junho de 2020, a Brasiliana Fotográfica lançou a série “Avenidas e ruas do Brasil”, mas como já havia essa publicação no portal, consideramos esse artigo o primeiro da série.

 

Links para os outro artigos da série “Avenidas e ruas do Brasil”:

Série “Avenidas e ruas do Brasil” II – A rua do Imperador em Petrópolis por Klumb, Leuzinger e Stahl

Série “Avenidas e ruas do Brasil III – Avenida Central, atual Rio Branco

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica