Escola de Aprendizes e Artífices de Alagoas, registros de 1910

A Brasiliana Fotográfica traz hoje para seus leitores o artigo “Escola de Aprendizes e Artífices de Alagoas, 1910″, do historiador Paulo Celso Corrêa, do Museu da República, uma das instituições parceiras do portal. As Escolas de Aprendizes e Artífices foram criadas durante o governo do presidente Nilo Peçanha, em 1909. Sob a responsabilidade do recém-criado Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio, elas ofereciam ensino primário e profissional para menores de idade pobres, com a finalidade de formá-los em operários e contramestres para a indústria. Com o texto, estão disponibilizadas as 14 fotos de um álbum da Coleção Nilo Peçanha referentes ao tema. São cenas dos cinco primeiros meses de funcionamento da escola, com as crianças tendo aulas e participando de oficinas de marcenaria, funilaria, sapataria, entre outras. Em 1937, as Escolas de Aprendizes e Artífices foram transformadas em Liceus de Artes e Ofícios. Estas instituições de ensino técnico e profissionalizante deram origem às posteriores Escolas Técnicas, Centros Federais de Educação Tecnológica e Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia.

 

Escola de Aprendizes e Artífices de Alagoas, 1910

Paulo Celso Corrêa*

 

As Escolas de Aprendizes e Artífices foram criadas durante o governo do presidente Nilo Peçanha, pelo decreto nº. 7.566 de 23 de setembro de 1909. Funcionando sob responsabilidade do recém-criado Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio, elas ofereciam ensino primário e profissional para menores de idade pobres, com a finalidade de formá-los em operários e contramestres para a indústria. As escolas deveriam ser instaladas na capital de cada estado, a não ser que já houvesse ali instituição de ensino com o mesmo propósito. Em Maceió, capital de Alagoas, a Escola de Aprendizes e Artífices foi inaugurada em 21 de janeiro de 1910. O conjunto de fotos abaixo retrata cenas cotidianas dos cinco primeiros meses de funcionamento da instituição, reunidas em um álbum oferecido a Nilo Peçanha e que atualmente faz parte do acervo do ex-presidente no Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República.

 

 

Atribuí-se a Nilo Peçanha a frase “O Brasil futuro sairá das escolas profissionais”. O empenho de seu curto governo pela criação das Escolas de Aprendizes e Artífices representou uma ação direta do estado republicano no sentido de formar mão-de-obra qualificada e disciplinar, pelo trabalho, os filhos da camadas mais pobres da população urbana. É o que afirma a justificativa oficial para o decreto de 1909: “o aumento constante da população das cidades exige que se facilite às classes proletárias os meios de vencer as dificuldades sempre crescentes da luta pela existência; que para isso se torna necessário, não só habilitar os filhos dos desfavorecidos da fortuna com o indispensável preparo técnico e intelectual, como fazê-los adquirir hábitos de trabalho profícuo, que os afastará da ociosidade, escola do vício e do crime; que é um dos primeiros deveres do Governo da República formar cidadãos úteis à Nação”.

 

 

Não foi, porém, a primeira iniciativa do tipo, visto que instituições públicas ou privadas de ensino profissional já existiam desde o século anterior, como as Escolas de Aprendizes dos Arsenais de Guerra e Marinha e o Asilo de Meninos Desvalidos, no Rio de Janeiro. Destas predecessoras, as novas escolas herdaram algumas formas de organização e o caráter profissionalizante e correcional. Após a Revolução de Outubro de 1930, as Escolas de Aprendizes e Artífices passaram a integrar o novo Ministério da Educação e Saúde Pública e, em 1937, foram transformadas em Liceus de Artes e Ofícios. Estas instituições de ensino técnico e profissionalizante deram origem às posteriores Escolas Técnicas, Centros Federais de Educação Tecnológica e Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia.

 

Acessando o link para as fotografias da Escolas de Aprendizes e Artífices de Alagoas disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

A Escola de Aprendizes e Artífices de Alagoas funcionou na Rua Boa Vista, no centro de Maceió e seu primeiro diretor foi o engenheiro Miguel Guedes Nogueira. Na primeira página do álbum há uma descrição datilografada das atividades realizadas e da freqüência dos alunos, naqueles cinco primeiros meses de funcionamento. Havia 81 alunos matriculados, sendo a frequência média diária de 69 alunos. Registrava-se também a cor da pele dos alunos. Eram 21 negros, 36 “trigueiros” (mestiços) e 24 brancos. Além dos cursos primário e de desenho, funcionavam as oficinas de marcenaria, carpintaria, serralheria, sapataria e funilaria. A descrição ainda assegurava que a escola “está situada no centro mais populoso da capital e conta com os principais elementos de higiene e asseio”. O regime era de externato, isto é, os alunos não residiam na escola.

 

 

Para se candidatarem às vagas, os menores deveriam ser preferencialmente pobres (“desfavorecidos da fortuna”), terem entre 10 e 13 anos de idade (o limite foi posteriormente elevado a 16 anos) e não possuírem doença infecto-contagiosa nem “defeitos” (físicos, mentais) que impedissem o aprendizado do ofício. Os cuidados com a saúde e higiene dos futuros operários continuariam dentro da escola, com aulas de ginástica sueca, para corrigir a postura e evitar doenças, e ginástica militar, com uniformes e réplicas de armas, para acostumar os meninos à vida de soldado que, na ideologia republicana oficial, era a outra forma de os cidadãos pobres serem “úteis” à Nação. O ensino também visava à formação moral dos alunos, que receberiam noções de bons costumes e conversação e orientação contra os vícios do álcool e do fumo.

 

 

 

Para a formação básica dos alunos, a instituição oferecia um curso primário, dividido em elementar (para os analfabetos) e complementar, cada um com dois anos de duração; e um curso de desenho, com duração de quatro anos. As disciplinas do curso primário incluíam leitura, escrita, educação moral e cívica, ciências físicas e naturais, caligrafia e aritmética. Já o curso de desenho consistia no ensino de geometria prática, agrimensura e arquitetura. Segundo o relatório de 1910 do diretor da escola alagoana, a maioria dos alunos matriculados naquele ano necessitaram do curso elementar.

 

 

 

No início de seu funcionamento, a escola de Alagoas ofereceu cursos de marcenaria, carpintaria, funilaria, serralheria e sapataria, considerados os mais adequados às necessidades da indústria local. No entanto, o próprio diretor reconheceu o caráter experimental do funcionamento das oficinas em seu primeiro ano, seja pela sua pouca familiaridade com os assuntos, seja pelas necessidades práticas de organização da escola. De modo a permitir que os alunos aprendessem com segurança e tomassem gosto pela arte, foram improvisadas matérias-primas baratas como ferros velhos, latas vazias, restos de madeira de obras e caixões.

A renda obtida pela venda dos artefatos produzidos nas oficinas custearia as despesas da escola. O saldo remanescente da atividade de cada oficina deveria ser aplicado na Caixa Econômica ou Coletoria Federal para que fosse repartida em 15 quotas iguais, sendo uma para o diretor, quatro para o mestre e 10 para os aprendizes – estas últimas distribuídas em prêmios que variavam de acordo com a aptidão e nível de cada um. Os alunos também receberiam prêmios de acordo com o desempenho de suas oficinas em exposição anual, cuja avaliação caberia ao júri formado pelo diretor, pelo mestre e pelo inspetor agrícola do distrito.

 

 

 

 

 

 

A julgar pelo relatório do seu primeiro diretor, a Escola de Aprendizes e Artífices de Alagoas padeceu, em sua fase inicial de funcionamento, dos mesmos problemas de organização enfrentados por suas congêneres das outras capitais. Os imóveis e instalações eram precários, faltava preparo aos diretores, professores e mestres para o ensino profissional, não havia planejamento curricular. Outro problema comum era a evasão escolar que, na opinião do diretor alagoano, era culpa da ignorância dos pais e de sua inconsciência da responsabilidade moral sobre a educação dos filhos, que ficavam largados a sua “vontade infantil”. Por outro lado, o que os alunos ganhavam na escola como fruto de seu trabalho não era suficiente para contribuir na luta diária pela sobrevivência de suas famílias, razão pela qual muitas crianças abandonavam os estudos profissionais cedo, ou tão logo dominassem conhecimentos práticos que os permitissem trabalhar noutros lugares.

 

* Paulo Celso Liberato Corrêa é cientista político do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República.

 

Fontes:

Presidência da República do Brasil. Decreto nº 7566, de 23 de setembro de 1909.

CARVALHO, Marcelo Augusto Monteiro de. Nilo Peçanha e a criação das Escolas de Aprendizes e Artífices no contexto da Primeira República (EAAs): 1910-1914. In: Anais da 7ª Conferência Internacional de História de Empresas e IX Encontro de Pós Graduação em História Econômica. Ribeirão Preto: USP/ABPHE, 2019.

LIMA, Marcondes dos Santos. Entre os rastros e pistas da memória da Escola de Aprendizes e Artífices de Alagoas (1910-1913). In Novas epistemes e narrativas contemporâneas – Anais do V Congresso Internacional de História [suporte digital] / Antonio Ricardo Calori de Lion; Robson Pereira da Silva, Sandra Nara da Silva Novais. Jataí: Gráfica UFG, 2016. http://www.congresso2016.congressohistoriajatai.org/conteudo/view?ID_CONTEUDO=319

NOGUEIRA. Miguel Guedes. Relatório apresentado ao Ex. Sr. Dr. Pedro de Toledo, ministro da Agricultura, Indústria e Comércio pelo Diretor da Escola de Aprendizes e Artífices do Estado de Alagoas. Maceió: Livraria Fonseca, 1910.

SOARES, Manoel de Jesus A. As Escolas de Aprendizes e Artífices – estrutura e evolução. In Revista Fórum Educacional v. 6, n. 2. Rio de Janeiro, 1982. pp 58-92.

E o ex e futuro presidente do Brasil morreu de gripe…a Gripe Espanhola de 1918

 

 

E o ex e futuro presidente do Brasil, Francisco de Paula Rodrigues Alves (1848 – 1919), faleceu de Gripe Espanhola! Logo ele que em seu mandato como o quinto presidente da República do Brasil, exercido entre 1902 e 1906 (Gazeta de Notícias, 16 de novembro de 1902, sexta colunaGazeta de Notícias, 16 de novembro de 1906, segunda coluna), designou o médico e sanitarista Oswaldo Cruz (1872 – 1917) para a chefia do Departamento Nacional de Saúde Pública, justamente para melhorar as condições sanitárias do Rio de Janeiro deflagrando a reforma sanitária da capital, combatendo primordialmente a febre amarela, a peste bubônica e a varíola.

Além de Oswaldo Cruz, os engenheiros Francisco Pereira Passos (1836 – 1913), nomeado por Alves prefeito do Rio de Janeiro, em dezembro de 1902 (Gazeta de Notícias, 31 de dezembro de 1902, na sexta coluna), e Paulo de Frontin  (1860 – 1933) foram fundamentais durante o governo de Rodrigues Alves: Passos foi o prefeito do “bota-abaixo” e Frontin, presidente do Clube de Engenharia, o engenheiro-chefe da construção da Avenida Central.

 

Acessando o link para as fotografias de Rodrigues Alves disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Rodrigues Alves foi eleito presidente do Brasil, pela segunda vez, em 1º de março de 1918. Acometido pela doença, não pode tomar posse no dia 15 de novembro de 1918, tendo seu vice, Delfim Moreira (1868 – 1920), assumido o cargo em seu lugar. Rodrigues Alves faleceu meses depois, em janeiro de 1919, confinado em sua casa na rua Senador Vergueiro, no Flamengo, bairro do Rio de Janeiro (Gazeta de Notícias, 16 de janeiro de 1919Gazeta de Notícias, 17 de janeiro de 1919O Malho , 25 de janeiro de 1919). Foi enterrado em Guaratinguetá, cidade paulista onde nasceu (O Paiz, 18 de janeiro de 1919).

 

“Depois da morte do Barão do Rio Branco, nenhuma outra poderia, sob o ponto de vista nacional, representar prejuízo maior para o Brasil do que a do conselheiro Rodrigues Alves”.

 

 

Ele foi a mais notória vítima brasileira da Gripe Espanhola, que matou cerca de 300 mil pessoas no país. Novas eleições foram convocadas para 13 de abril de 1919 e o paraibano Epitácio Pessoa (1865 – 1942) foi eleito.

 

 

Mas depois da tragédia veio a esbórnia! O que seguiu no Rio de Janeiro, em março, foi um carnaval animadíssimo, como uma vingança contra a terrível doença que havia atingido intensamente a cidade. Foi publicado no Correio da Manhã de 20 de janeiro de 1919:

 

 

 

No 12º capítulo das “Memórias de Nelson Rodrigues” foi publicado, em 10 de março de 1967, no Correio da Manhã: 

“Estou aqui reunindo as minhas lembranças. Aquele Carnaval foi, também, e sobretudo, uma vingança dos mortos mal vestidos, mal chorados e, por fim, mal enterrados. Ora, um defunto que não teve o seu bom terno, a sua boa camisa, a sua boa gravata é mais cruel e mais ressentido do que um Nero ultrajado. E o Zé de S. Januário está me dizendo que enterrou sujeitos em ceroulas, e outros nus como santos. A morte vingou-se, repito, no Carnaval… E tudo explodiu no sábado de Carnaval. Vejam bem: até sexta-feira, isto aqui era o Rio de Machado de Assis; e, na manhã seguinte, virou o Rio de Benjamim Costallat […] Desde as primeiras horas de sábado, houve uma obscenidade súbita, nunca vista, e que contaminou toda a cidade. Eram os mortos da espanhola e tão humilhados e tão ofendidos que cavalgavam os telhados, os muros, as famílias… Nada mais arcaico do que o pudor da véspera. Mocinhas, rapazes, senhoras, velhos cantavam uma modinha tremenda. Eis alguns versos: ‘Na minha casa não se racha lenha,/ Na minha racha, na minha racha./ Na minha casa não há falta d’água,/ Na minha abunda, na minha abunda’”.

 

 

Anos depois, Carlos Heitor Cony (1926 – 2018) escreveu, na Folha de São Paulo de 19 de fevereiro de 1996, um artigo sobre a Gripe Espanhola e o carnaval de 1919:

“No Rio, o sujeito ia atravessar a rua, botava o pé no meio-fio com plena saúde e chegava morto ao meio-fio do outro lado. Era fulminante a gripe, os parentes deixavam os mortos nos bondes, pagavam a passagem deles, como se passageiros fossem. Não havia tempo nem lugar para o enterro. Natural que, depois da fase mortuária, viesse a fase libertária, ou libertina, basta dizer que as delegacias da cidade registraram a queixa de 4.315 defloramentos e outros tantos casos de abandono do lar, adultério e até incesto.”

 

 

Um pouco sobre a Gripe Espanhola, a primeira e mais letal pandemia do século XX 

 

 

A Gripe Espanhola aconteceu, entre 1918 e 1920, em três ondas . Aparentemente, a primeira ocorreu entre março e abril de 1918 ainda durante a Primeira Guerra Mundial. Sua origem é até hoje uma dúvida: teria surgido na Ásia ou em campos militares no interior dos Estados Unidos? O nome Gripe Espanhola é atribuído ao fato de que a Espanha, neutra durante a Primeira Guerra Mundial, ter reconhecido a gripe como problema e ter permitido a divulgação de informações epidemiológicas sobre a doença.

O fato é que a gripe rapidamente se espalhou pela Europa Ocidental e, em julho, já havia chegado à Polônia. Durante o verão do mesmo ano, durante o mês de agosto, em sua segunda onda, uma forma mais letal da doença surgiu – causava pneumonia e, usualmente, dois dias depois do primeiro sintoma, o paciente falecia. A terceira onda ocorreu no inverno de 1919. A pandemia acometeu cerca de 50 % da população mundial e a Organização Mundial de Saúde estima que tenha causando entre 20 e 40 milhões de mortes.

Inicialmente, a repercussão no Brasil da disseminação da doença na Europa foi de despreocupação por parte das autoridades de saúde do país. Imaginaram que a distância entre os continentes, com um oceano os separando, não permitiria a chegada da epidemia em nosso país. Uma nota sem destaque no jornal O Paiz, de 1º de agosto de 1918, referia-se a doença como intensa porém sem gravidade. Em outra nota, também publicada em O País, cinco dias depois, noticiava-se, de novo sem nenhum destaque, a relação entre a gripe infecciosa e o preço do limões.

 

 

Supõe-se que a Gripe Espanhola tenha chegado no Brasil em 9 de setembro de 1918, no navio inglês SS Demerara, que partiu de Liverpool, na Inglaterra e fez escalas em Lisboa, no Recife, em Salvador e no Rio de Janeiro (Jornal do Recife, 10 de setembro de 1918, primeira colunaGazeta de Notícias, 16 de setembro de 1918).

 

 

“A seu bordo, durante a travessia, grassou com caráter epidêmico a tal “hespanhola” ou “dançarina”, influenza há pouco aparecida na Espanha e que tem grassado em uutras cidades da Europa”

Nesse mesmo mês foi noticiado que marinheiros brasileiros que prestavam serviço militar em Dakar, no Senegal, e oficiais da missão médica militar que havia partido no navio Plata tinham contraido a Gripe Espanhola (Jornal do Brasil, 22 de setembro de 1918, A Noite, 23 de setebmro de 1918Jornal do Brasil, 24 de setembro de 1918Revista da Semana, 28 de setembro de 1918Gazeta de Notícias, 5 de outubro de 1918, segunda coluna; e Folha de São Paulo, 1º de abril de 2012).

 

 

Entre os meses de setembro e novembro de 1918, a epidemia assolou o Brasil.  Em outubro, foram diagnosticados casos em Niterói e as primeiras mortes no Estado do Rio foram reportadas em 14 de outubro, quando o número de pacientes chegava já a 20 mil.

 

 

 

O quinino, a canja de galinha, preparados a base de limão, cachaça e outros eram usados contra a doença. A Bayer oferecia a aspirina Fenacetina (O Paiz, 30 de outubro de 1918, quarta coluna) e um laboratório produziu o remédio homeopático Grippina, fórmula do médico Alberto Seabra (A Noite, 10 de outubro de 1918). Balas peitoraes também e gargarejos com Diogexen eram oferecidos como cura para a doença (Careta, 26 de outubro de 1918; e Fon-Fon, 2 de novembro de 1918).

 

 

A essa altura o pânico já tomava conta do Rio de Janeiro, na época capital do Brasil. São Paulo começava também a registrar seus primeiros casos (Correio Paulistano, 17 de outubro de 1918). Outras cidades do Brasil foram atingidas mas nenhuma como o Rio.

 

 

 

O então Diretor Geral de Saúde Pública, Carlos Seidl (1867 – 1929), renunciou.

 

 

Foi substituído por Theóphilo Torres (1863 – 1928) (Gazeta de Notícia, 19 de outubro de 1918, penúltima coluna), que convidou o pesquisador Carlos Chagas (1879 – 1934), que havia assumido a direção do Instituto Oswaldo Cruz em 1917, para atuar no controle da epidemia. Chagas liderou a campanha de combate à doença, implementando cinco hospitais emergenciais e 27 postos de atendimento à população em diferentes pontos do Rio de Janeiro (Gazeta de Notícias, 22 de outubro de 1918). Chagas e sua família adoeceram, mas todos sobreviveram.

 

 

Mas mesmo no auge da tragédia, o humor esteve presente na imprensa carioca.

 

 

Houve um aumento no preço dos alimentos, alguns escassearam e muitos estabelecimentos, dentre eles fábricas, teatros, escolas, restaurantes e bares fecharam suas portas. Atividades básicas foram praticamente suspensas e saques começaram a ocorrer pela cidade. A polícia passou então a garantir que em cada bairro houvesse uma farmácia e uma padaria aberta.

 

 

Em 19 de outubro foi decretado um feriado de três dias e o governo tomou providências como a abertura de novos postos de assistência e de pavilhões com leitos para receber doentes, a divisão da cidade em zonas com médicos autorizados a ordenar tudo quanto o doente precisar. Também determinou a publicação de “conselhos ao povo” e um apelo foi feito para que médicos, farmacêuticos e estudantes colaborassem com a Saúde Pública (Jornal do Brasil, 20 de outubro de 1918 e O Paiz, 20 de outubro de 1918).

 

 

“O número de casos declinou drasticamente no final de outubro, retornando a cidade pouco a pouco às suas rotinas diárias, ficando no ar por muitos meses a pergunta se haveria uma volta da epidemia, o que afinal não ocorreu.” (1)

 

 

Estima-se que cerca de 65% da população brasileira tenha sido infectada pela Gripe Espanhola e por volta de 35.240 pessoas tenham morrido em São Paulo e no Rio de Janeiro e 300 mil em todo o Brasil. Esses números variam e diversas fontes os consideram abaixo das estatísticas reais.

 

 

Famílias inteiras foram dizimadas, principalmente as que viviam em condições mais vulneráveis. Os corpos acabavam sendo deixados na rua, onde permaneciam alguns dias até serem recolhidos, ampliando o cenário de devastação. Houve falta de serviço de transporte, alta dos preços e escassez de alimentos. Por volta de 19 de outubro, a doença já havia atingido metade da população do Rio, estimada em 700 mil pessoas, deixando a cidade vazia e silenciosa … este cenário crítico perdurou até o final do mês, quando houve um declínio drástico no número de casos e a cidade começou a retornar às suas rotinas diárias. Estima-se a epidemia tenha causado a morte de cerca de 15 mil pessoas no Rio.(2)

Além de Rodrigues Alves, outros brasileiros famosos foram vítimas da gripe, dentre eles a educadora Anália Franco (1853 – 1919) e, provavelmente, o poeta de literatura de cordel Leandro Gomes de Barros (1865 – 1918). Personalidades internacionais como os pintores austríacos Egon Schiele (1890 – 1918) e Gustav Klimt (1862 – 1918), os escritores franceses Edmond Rostand (1868 – 1918) e Guillaume Appolinaire (1880 – 1918), as crianças portuguesas Francisco (1908 – 1919) e Jacinta (1910 – 1920) do famoso Milagre de Fátima, os irmãos John (1864 – 1920) e Horace Dodge (1868 – 1920), empresários da indústria automobilística; o pianista Henry Hagas (1891 – 1919), da Original  Dixieland Jazz Band, o sociólogo alemão Max Weber (1864 – 1920) e Sophie (1893- 1920),  filha de Sigmund Freud, também foram vitimados pela doença.

Outros que foram infectados mas sobreviveram à gripe foram o pintor Edvard Munch (1863 – 1944), o então futuro presidente dos Estados Unidos, Franklin Delano Roosevelt (1882 – 1945);  o escritor Franz Kafka (1883 – 1924), a pintora Georgia O’Keeffe (1887 – 1986),  a escritora Katherine Anne Porter (1890 – 1980), as estrelas do cinema mudo Mary Pickford (1892 – 1979) e Lillian Gish (1893 – 1993); o cineasta Walt Disney (1901 – 1966), e além do então presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson (1856 – 1924).

Link para fotografias de aspectos da Gripe Espanhola no site Getty Images

A escritora inglesa Virginia Woolf (1882 – 1941), testemunha do impacto da Gripe Espanhola, registrou em seu diário em outubro de 1918: “Estamos … no meio de uma praga só comparável à Peste Negra“. Em seu ensaio “Doença: uma mina inexplorada“, de 1926, escreveu:

Se considerarmos o quão comum é a doença, quão terrível é a mudança espiritual que ela acarreta, quão medonhos, quando as luzes da saúde se apagam, são os países virgens que se descerram, as ruínas e desertos d’alma que um leve ataque da influenza traz à tona, os precipícios e relvas regadas de resplandecentes flores que um pequeno aumento de temperatura revela, os carvalhos antigos e obdurados que se nos desenraizam no ato da doença, como adentro o abismo da morte descemos e sentimos as águas da aniquilação bem acima de nossas cabeças e despertamos jurando nos encontrar na presença de anjos e querubins quando temos um dente extraído e, voltando à superfície da cadeira do dentista, confundimos o seu “Abra a boca – abra a boca” com as boas-vindas da Divindade a se inclinar do chão do Céu para nos acolher – quando pensamos nisto e numa infinidade mais, como tão frequentemente somos forçados a pensá-lo, parece deveras estranho que a doença não tenha, junto com o amor, a batalha, a inveja, tomado seu posto entre os temas primordiais da literatura. Romances, pensar-se-ia, teriam sido dedicados à Influenza; poemas épicos à Tifóide; odes à Pneumonia, Apendicites e Câncer; cânticos à Dor de Dente. Mas não: com algumas poucas exceções – de Quincey arriscou algo do tipo em Confissões de um comedor de ópio; deve haver um volume ou dois sobre doença espalhados pelas páginas de Proust – a literatura se esforça ao máximo para sustentar que sua preocupação é com o espírito; que o corpo é uma camada de vidro límpido através da qual a alma enxerga clara e distintamente e que, salvo uma ou duas paixões tais como o desejo e a cobiça, ele é nulo, insignificante e inexistente“.

Aqui no Brasil, o futuro escritor e médico Pedro Nava (1903 – 1984), então com 15 anos, testemunha da Gripe Espanhola no Rio de Janeiro escreveu muitas décadas depois:

“Era apavorante a rapidez com que ela ia da invasão ao apogeu, em poucas horas, levando a vítima às sufocações, às diarréias, às dores lancinantes, ao letargo, ao coma, à uremia, à síncope e à morte em algumas horas ou poucos dias. Aterravam a velocidade do contágio e o número de pessoas que estavam sendo acometidas. Nenhuma de nossas calamidades chegara aos pés da moléstia reinante: o terrível não era o número de casualidades mas não haver quem fabricasse caixões, quem os levasse ao cemitério, quem abrisse covas e enterrasse os mortos. O espantoso já não era a quantidade de doentes, mas o fato de estarem quase todos doentes, a impossibilidade de ajudar, tratar, transportar comida, vender gêneros, aviar receitas, exercer, em suma, os misteres indispensáveis à vida coletiva…”.

Ainda no século XX o mundo sofreu com mais duas pandemias: a Gripe Asiática, em 1957; e a Gripe de Hong Kong, em 1968. No século XXI, foi identificado um novo vírus da influenza do tipo A pandêmico que desencadeou a Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional, decretada pela Organização Mundial da Saúde(OMS), em 2009. Cerca de 11 anos depois, em 11 de abril de 2020, a OMS declarou uma pandemia do novo coronavírus, chamado de Sars-Cov-2, surgido na cidade de Wuhan, na China, em fins de 2019.

 

(1) A virologia no Estado do Rio de Janeiro: uma visão global.

(2) Pandemias de influenza e a estrutura sanitária brasileira: breve histórico e caracterização dos cenários. 

 

 

brasiliana fotográfica rodrigues alves

Foto oficial de Rodrigues Alves, presidente do Brasil entre 1902 e 1906.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Atlas Histórico do Brasil

BRITO, Nara Azevedo de. La dansarina: a gripe espanhola e o cotidiano na cidade do Rio de Janeiro. Hist. cienc. saude-Manguinhos [online]. 1997, vol.4, n.1, pp.11-30.

CABRAL, Maulori C.; SCHATZMAYR, Hermann G. A virologia no Estado do Rio de Janeiro: uma visão globalRio de Janeiro : Fiocruz, 2012

CASTRO, Ruy. Metrópole à beira-mar: o Rio moderno dos anos 20. São Paulo : Companhia das Letras, 2019.

CONY, Carlos Heitor. O Canaval da peste. Folha de São Paulo, 19 de fevereiro de 1996.

COSTA, Ligia Maria Cantarino da;MERCHAN-HAMANN, Edgar. Pandemias de influenza e a estrutura sanitária brasileira: breve histórico e caracterização dos cenários. Rev Pan-Amaz Saude v.7 n.1 Ananindeua, mar. 2016.

Folha de São Paulo

GOULART, Adriana da Costa. Revisitando a espanhola: a gripe pandêmica de 1918 no Rio de JaneiroHist. cienc. saude-Manguinhos v.12 n.1 Rio de Janeiro jan./abr. 2005

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Incrível História

KOLATA, Gina. Gripea história da pandemia de 1918. Rio de Janeiro : Record, 2002.

NAVA, Pedro. Chão de ferro. Memórias/3. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1976.

O Estado de São Paulo

O Globo

OUTKA, Elizabeth. Viral Modernism: The Influenza Pandemic and Interwar Literature. New York : Columbia University Press, 2020.

Rádio Senado

RODRIGUES, Nelson. A menina sem estrela. São Paulo : Companhia das Letras, 1993.

SANTANA, Rosemeire Siqueira de. Tecendo os fios da memória: um breve ensaio biográfico sobre as educadoras Anália Franco, Neide Mesquita e Laura Amazonas.

SANTOS, Ricardo Augusto dos. O Carnaval, a peste e a espanhola. Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.13 no.1 Rio de Janeiro Jan./Mar. 2006

SECCHIN, Antonio Carlos. Melancólico em livro de Bandeira, Carnaval em 1919 foi pura libertinagem. Folha de São Paulo, 22 de junho de 2019.

Site Casa de Rui Barbosa

Site CPDOC

Site Enciclopédia Britânica

Site Fiocruz

Site Gripenet

Site Hipercultura

Site WelcomeCollection

Site Standford University

Smithsonion Magazine

Suplemento Ofical do Diário Oficial do Estado de Pernambuco

WOOLF, Virginia. Illness: an unexploited mine. In: Forum, abril de 1926, pp.582-590.

Último dia do verão

Para celebrar o último dia do verão no hemisfério sul, a Brasiliana Fotográfica selecionou duas belas imagens de crepúsculos. Ambas foram produzidas em torno de 1920. Uma em Niterói, realizada pelo fotógrafo Braz e a outra, na avenida Niemeyer, com a Pedra da Gávea ao fundo, no Rio de Janeiro, pela Photo Lopes, do fotógrafo e paisagista free-lancer Lopes. Pouco se sabe sobre Braz e Lopes, mas ambos tinham boa parte de sua produção fotográfica distribuída pela Papelaria Rio Branco, propriedade do também fotógrafo José dos Santos Affonso (18? – 1921), negócio que a partir de 1921 foi administrado pela viúva de Affonso.

Lopes também distribuia suas imagens pela casa Belas Artes. Em 1921, a Photo Lopes anunciou que era fabricante exclusiva da Casa Affonso e que acabava de substituir com vantagem a Photo Bippus que até então se dizia único no fabrico de vistas de noite (Jornal do Brasil, 5 de março de 1921, quinta coluna).

 

 

A Photo Lopes, em 1922, localizava-se na rua Itapiru, 173, casa 4, no bairro do Rio Comprido (Jornal do Brasil, 16 de junho de 1922, última coluna).

 

 

O estilo do fotógrafo e paisagista Braz era muito semelhante aos de Carlos Bippus (18? – 19?) e Lopes, mas sua produção foi, pelo que se conhece até o momento, bem menos numerosa.

 

 

De acordo com o Observatório Nacional, o verão 2019/2020 começou na madrugada do dia 22 dezembro, à 1h19 (Horário de Brasília), quando ocorreu o solstício de verão no hemisfério sul. Terminou hoje, dia 20 de março de 2020, à 0h49 (Hora de Brasília), quando teve início o outono.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ERMAKOFF, George. Rio de Janeiro 1900 – 1930 – Uma crônica fotográfica. Rio de Janeiro: G. Ermakoff Casa Editorial, 2003.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Observatório Nacional

 

 

 

 

Petrópolis, a Cidade Imperial, pelos fotógrafos Marc Ferrez e Revert Henrique Klumb

A Brasiliana Fotográfica celebra a fundação de Petrópolis, ocorrida em 16 de março de 1843, trazendo para seus leitores uma seleção de imagens da cidade produzidas pelo francês Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886) e por Marc Ferrez (1843 – 1923), no século XIX. Klumb era o fotógrafo preferido da família real brasileira, tendo sido agraciado com o título de “Fotógrafo da Casa Imperial”, em 1861. Seus registros aqui destacados são de ruas petropolitanas como a do Imperador, a Tereza e a Joinville; do interior e do exterior do Palácio Imperial, dos hotéis Beresford, Brangança e Inglês, do Retiro da Cascatinha, do rio Quitandinha, de palacetes e casas, da princesa Isabel (1846 – 1921) e do conde D´Eu (1842 – 1922), além de vistas gerais. Apresentamos também o Álbum Vistas de Petrópolis e Rio de Janeiro, realizado por Ferrez, em torno de 1885, com 30 imagens de Petrópolis que recebeu, em 1981, do governo federal, o título de Cidade Imperial.

 

Revert Henrique Klumb e Petrópolis

 

 

 

Revert Henrique Klumb chegou ao Rio de Janeiro, em 1854, com Affonso Rouel, trazendo uma máquina fotográfica. Eles eram, segundo consta no livro Artistas de meu tempo, de Mello Morais Filho, fugitivos do exército francês. No ano seguinte, já era anunciada a Photographia de François Rene Moreaux, Klumb e Cia, na rua do Rosário, 134. Entre 1865 e 1866, Klumb mudou-se para Petrópolis e seu endereço era rua dos Artistas, nº 10, em frente à praça Coblenz. Fez uma extensa documentação da paisagem urbana da cidade, inclusive com efeitos noturnos – uma grande inovação na época.

Foi o autor do livro Doze horas de diligência. Guia do viajante de Petrópolis a Juiz de Fora, publicado em 1872. Foi a única obra do Brasil do século XIX a ser idealizada, fotografada, escrita e publicada por uma só pessoa. Também foi o primeiro livro de fotografia inteiramente litografado e produzido no país. Em 1874, foi publicado o livro Petrópolis e seus arrabaldes, com fotografias produzidas por Klumb. Um ano depois, realizou uma exposição de fotografias de Petrópolis que fez muito sucesso, tendo sido visitada por dom Pedro II (1825 – 1891) e pela imperatriz Tereza Cristina (1822 – 1889) ( O Globo, de 10 de janeiro de 1875 , na segunda coluna; O Mercantil, de 6 e 9 janeiro de 1875, de 10 de janeiro e de 6 de fevereiro de 1875; ). Ainda, em 1875, Klumb anunciou seus serviços de fotógrafo na cidade, na rua dona Januária, aos domingos, segundas, terças e dias santos.

Em 1886, Klumb estava em Paris e de lá escreveu à imperatriz Teresa Cristina pedindo que ela financiasse a volta dele e de sua família para o Brasil – era casado com a baiana Hermelinda Barreto, com quem tinha duas filhas. O pedido foi deferido e ele e sua família deveriam embarcar para o Brasil em outubro de 1886. Porém, não se sabe se ele chegou a vir. Essa é a última notícia que se tem, até o momento, sobre o fotógrafo.

 

 

 

 

 

 

Acessando o link para as fotografias de Petrópolis realizadas por Revert Henrique Klumb disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas. 

 

Álbum Vistas de Petrópolis e Rio de Janeiro, por Marc Ferrez

 

Álbum Vistas de Petrópolis e Rio de Janeiro, de autoria de Marc Ferrez , possui 42 fotografias, sendo 30 de aspectos de Petrópolis: seus canais, casarões, escolas, estação de trem, fábricas, jardins, paisagens, palacetes e ruas, além de imagens do Palácio de Cristal, do Palácio do Grão-Pará, da avenida Koeller e da construção de uma ferrovia. A vasta e abrangente obra iconográfica de Ferrez se equipara a dos maiores nomes da fotografia do mundo.  Cerca de metade de sua produção fotográfica foi realizada no Rio de Janeiro e em seus arredores, onde registrou, além do patrimônio construído, a exuberância das paisagens naturais. Outro segmento de sua obra iconográfica registrou as várias regiões do Brasil – ele foi o único fotógrafo do século XIX que percorreu todas as regiões do país.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Acessando o link para as fotografias do Álbum Vistas de Petrópolis e Rio de Janeiro por Marc Ferrez disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Um pouco da história de Petrópolis

 

Brasão de Petrópolis

Brasão de Petrópolis

 

Dom Pedro I (1798 – 1834) se encantou com a região serrana, em 1822, quando viajava para Minas Gerais na busca de apoio à independência do Brasil. Ficou hospedado na fazenda do Padre Correia (1759 – 1824), cuja sede ficava na confluência dos rios Morto e Piabanha. A fazenda oferecia hospedagem e alimentação aos tropeiros. O padre Correia recusou uma oferta feita pelo imperador para a compra de sua propriedade. Então, em 1830, dom Pedro I comprou a fazenda do Córrego Seco, localizada no topo da Serra da Estrela, por considerá-la situada em uma região de salubridade e beleza ideais, o que beneficiaria sua filha, a princesa dona Paula (1823 – 1833), que tinha sérios problemas de saúde. D. Pedro I queria construir ali um palácio para o verão, o Palácio da Concórdia. Porém, sua abdicação, em 1831, e sua morte, em 1834, o impediram de realizar seu desejo. Seus credores entraram nas justiças europeia e brasileira e a fazenda foi destinada para cobrir suas dívidas. Em 1839, o governo do Brasil foi autorizado a comprar a propriedade ( Diário do Rio de Janeiro, 21 de setembro de 1839, na primeira coluna ) e, em 1840, ela passou a pertencer a dom Pedro II (1825 – 1891) e a seus sucessores ( Diário do Rio de Janeiro, 15 de outubro de 1840, na terceira coluna). O mordomo da Casa Imperial, Paulo Barbosa da Silva (1790 – 1868), teve a iniciativa de retomar os planos de dom Pedro I de construir um palácio na região. Então no dia 16 de março de 1843, o imperador, com dezoito anos e recém-casado com dona Teresa Cristina (1822 – 1889), assinou o Decreto Imperial nº 155, que arrendava as terras da fazenda do Córrego Seco ao major alemão Júlio Frederico Koeler (1804 – 1847) para a fundação da “Povoação-Palácio de Petrópolis”. Koeler teria que edificar um palácio para dom Pedro II, uma igreja e um cemitério, além de povoar a região. Surgia assim a cidade de Petrópolis.

Decreto Imperial nº 155

“Tendo approvado o plano que me apresentou Paulo Barbosa da Silva, do Meu Conselho, Official Mór, e Mordomo de Minha Imperial Casa, de arrendar a Minha Fazenda denominada “Corrego Seco” ao Major de Engenheiros Koeler; pela quantia de um conto de réis annual, reservando um terreno sufficiente para nelle se edificar um Palacio para Mim, com suas dependencias e jardins, outro para uma povoação, que deverá ser afórado a particulares, e assim como cem braças dum e outro lado da estrada geral, que corta aquella Fazenda, o qual deverá tambem ser afórado a particulares, em datas ou prazos de cinco braças indivisiveis, pelo preço porque se convencionarem, nunca menos de mil réis por braça : Hei por bem authorisar o sobredito Mordomo a dar execução ao dito plano sob estas condições. E outrosim o Authorizo a fazer demarcar um terreno para nelle se edificar uma Igreja com a invocação de S. Pedro de Alcantara, a qual terá uma superficie equivalente a quarenta braças quadradas, no logar que mais convier aos visinhos e foreiros, do qual terreno lhes faço doação para este fim e para o cemiterio da futura povoação. Ordeno portanto ao sobredito Mordomo que proceda aos ajustes e escripturas necessarias, n’esta conformidade, com as devidas cautelas e circumstancias de localidades, e outrosim que forneça a minhas espenças os vazos sagrados, e ornamentos para a sobredicta Igreja, logo que esteja em termos de n’ella se poder celebrar. Paço da Boa Vista deseseis de Março de 1843, vigesimo segundo da Independencia e do Imperio. Dom Pedro II. Paulo Barbosa da Silva. Conforme, Augusto Candido Xavier de Brito.”(Instituto Histórico de Petrópolis)

 

 

Ao longo de sua história, Petrópolis foi fortemente influenciada pela presença de imigrantes alemães, italianos, sírio-libaneses e portugueses. Foi intitulada Cidade Imperial pelo decreto federal 85.849, de 27 de março de 1981. Fica a 809 metros de altitude e é o maior município da Região Serrana do estado do Rio de Janeiro. Sua arquitetura, história, clima e gastronomia contribuem para que a cidade seja um dos principais destinos turísticos do Brasil.

 

 

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ALQUÉRES, José Luiz. Petrópolis. Petrópolis: Viana & Mosley, 2002.

BADE e DURIEZ. Conhecendo Petrópolis. Petrópolis: Ed. Gráfica Serrana, 1993.

BRITTO PEREIRA, Cecilia Duprat. Revert Henrique Klumb – Fotógrafo da Família Imperial BrasileiraRio de Janeiro: Anais da Biblioteca Nacional, 1982.

CARVALHO, José Murilo. Pedro II: ser ou não ser. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

CERON, Ileana Pradilla Ceron. Marc Ferrez – uma cronologia da vida e da obra. São Paulo : Instituto Moreira Salles, 2018.

FERREZ, Gilberto; NAEF, Weston J.. Pioneer Photographers of Brazil, 1840-1920. New York: Center for Inter-American Relations, 1976.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário Histórico-Fotográfico Brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil(1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002. ISBN 85-86707-07-4

LAGO, Bia Corrêa do;LAGO, Pedro Corrêa do. Os Fotógrafos do Império. Rio de Janeiro: Capivara, 2005. 240p.:il

MARTIM, Ricardo (pseudônimo de Guilherme Auler). Dom Pedro II e a fotografia. Tribuna de Petrópolis. Petrópolis, 1 de abril de 1956.

RABAÇO, Henrique José. História de Petrópolis. Petrópolis : Universidade Católica de Petrópolis, 1985.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

Site História de Petrópolis

Site Instituto Histórico de Petrópolis

Site Instituto Municipal de Cultura e Esportes

Site Museu Imperial de Petrópolis

VASQUEZ, Pedro Karp. Revert Henrique Klumb: um alemão na Corte Imperial brasileira. Apresentação Joaquim Marçal, Demosthenes Madureira de Pinho Filho; coordenação de coleção Pedro Corrêa do Lago; coordenação editorial Pedro Corrêa do Lago, Luiz Eduardo Meira de Vasconcellos; design Victor Burton; fotografia César Barreot, Miguel Pacheco e Chaves; pesquisa Pedro Karp Vasquez; tradução Carlos Luís Brown Scavarda. Rio de Janeiro: Capivara, 2001 229p., il. p&b. (Visões do Brasil, 4). ISBN 85-86011-49-5.

Ressaca no Rio de Janeiro invade o porão da casa do fotógrafo Marc Ferrez, em 1913

Há muito tempo as águas de março castigam o Rio de Janeiro. Nas primeiras décadas do século XX, ocorreram várias ressacas na cidade e a Brasiliana Fotográfica destaca duas fotografias produzidas por Augusto Malta (1864 – 1957) e Carlos Bippus (18? – 19?), em 1913, quando, em março, aconteceu uma delas. Um dos bairros mais afetados foi o Flamengo e o porão da casa onde a família de Marc Ferrez (1843 – 1921) morava, na rua Dois de Dezembro – antiga rua Christovão Colombo -, foi inundado destruindo boa parte da tiragem do Álbum da Avenida Central*, um dos mais ambiciosos projetos da carreira do fotógrafo, monumental como a obra de engenharia que representava (O Paiz, 9 de março de 1913; Correio da Manhã, 9 de março de 1913). Cerca de um mês depois da enchente, Ferrez e sua mulher, a francesa Marie Lefebvre (c. 1849 – 1914), embarcaram para a Europa no paquete holandês Zeelandia (O Paiz, 17 de abril de 1913, na quarta coluna) e, no primeiro semestre de 1914, quando retornaram ao Rio de Janeiro, alugaram uma casa na rua Voluntários da Pátria 50, em Botafogo. Terá sido para fugir de possíveis novas ressacas?

 

 

Acessando o link para as fotografias de ressacas ocorridas no Rio de Janeiro no início do século XX disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

 

 *O Álbum da Avenida Central

 

capa1

 

Ferrez iniciou pouco antes da inauguração da avenida Central, em 15 de novembro de 1905 (Jornal do Brasil, 16 de novembro de 1905, última coluna), a produção do Álbum da Avenida Central importante registro da reforma da principal via da então capital federal, onde ele contrapôs reproduções das plantas às fotografias das fachadas de cada edifício documentado. Esse tipo de fotografia foi fundamental para a construção e para a difusão de uma nova imagem do Rio de Janeiro, uma imagem associada aos ideais de civilização e progressoEle havia sido contratado pela Comissão Construtora da Avenida Central, que era coordenada por Paulo de Frontin (1860 – 1933), presidente do Clube de Engenharia. O álbum original foi lançado em 1907. As fotos foram realizadas em negativos de grande formato. As dos projetos arquitetônicos foram impressas em zincografia e, as das fachadas de todos os edifícios, em colotipia.

Na época de sua inauguração, a avenida Central tinha 1.800 metros de extensão e 33 metros de largura. Cerca de 300 casas coloniais foram demolidas para a construção dos novos edifícios, cujas fachadas foram escolhidas por concurso. Alguns dos jurados foram o prefeito Pereira Passos (1836 – 1913), responsável pela significativa reforma urbana carioca – o “bota-abaixo” -, que contribuiu para o surgimento do Rio de Janeiro da Belle Époque; o engenheiro Paulo de Frontin (1860 – 1933), Lauro Muller (1863 – 1926), ministro da Viação e Obras Públicas; e Oswaldo Cruz (1872 – 1917), diretor-geral da Saúde Pública. Além de edifícios do governo, ergueram-se, na avenida, jornais, clubes, hotéis e sedes de empresas. O calçamento, em mosaico português, foi feito por artesãos vindos de Portugal. Passear pela avenida Central era passear pela espinha dorsal do mundo das compras e do lazer dos elegantes, dos negócios e da cultura. Alguns remanescentes da primeira geração de prédios da avenida são o Teatro Municipal, o Clube Naval, a Biblioteca Nacional, o Museu Nacional de Belas Artes e o Centro Cultural da Justiça Federal.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

 

BARROS, Mariana Gonçalves Monteiro de. Marc Ferrez e o Rio de Janeiro do seu tempo. Tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós-graduação em História Social da Cultura do Departamento de História da PUC-Rio, Rio de Janeiro, setembro de 2006.

CERON, Ileana Pradilla Ceron. Marc Ferrez – uma cronologia da vida e da obra. São Paulo : Instituto Moreira Salles, 2018.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

ERMAKOFF, George. Rio de Janeiro 1840 – 1900 Uma crônica fotográfica. Rio de Janeiro: G. Ermakoff Casa Editorial, 2006.

FERREZ, Gilberto. O Rio Antigo do fotógrafo Marc Ferrez: paisagens e tipos humanos do Rio de Janeiro, 1865-1918. Rio de Janeiro: João Fortes Engenharia/Editora Ex-Libris, 1984.

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002. 408 p., il. p&b.

Rio / Marc Ferrez – São Paulo : IMS; Göttingen: Steidl, 2015

TURAZZI, Maria Inez. Cronologia. In O Brasil de Marc Ferrez – São Paulo : Instituto Moreira Salles, 2005.

Cenas da folia em Manaus em 1913

Com o artigo Cenas da folia em Manaus em 1913, da jornalista Cristiane d´Avila, da Casa de Osvaldo Cruz, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, o portal destaca fotografias do carnaval na capital do Amazonas no início do século XX. Além da documentação fotográfica das expedições que o Instituto Oswaldo Cruz realizou entre 1910 e 1913 ao Norte, Nordeste e Centro Oeste do Brasil, os fotógrafos que acompanhavam os  cientistas também registraram muitas imagens em cidades e lugarejos por onde passavam, a exemplo das imagens sobre o Carnaval em Manaus, em fevereiro de 1913, realizadas dias antes da partida dos médicos Carlos Chagas (1879 – 1934), Antônio Pacheco Leão (1872 – 1931) e João Pedro de Albuquerque (1874 – 1934) para sua a última viagem ao rio Negro e seu afluente, o Branco, até a fronteira com a Venezuela.

 

Cenas da folia em Manaus em 1913

 Cristiane d’Avila*

 

 

Era um domingo de Carnaval, 2 de fevereiro de 1913. Dali a quatro dias, 6 de fevereiro, os médicos Carlos Chagas, do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), Antônio Pacheco Leão, da Escola de Medicina do Rio de Janeiro, e João Pedro de Albuquerque, da Diretoria Geral de Saúde Pública (DGSP), partiriam para sua a última viagem ao rio Negro e seu afluente, o Branco, até a fronteira com a Venezuela. A rota encerrava a expedição organizada a partir de contrato firmado entre a Superintendência da Defesa da Borracha e Oswaldo Cruz, então diretor do IOC, para avaliar as condições sanitárias dos seringais às margens dos rios Solimões, Tarauacá, Iaco, Negro, Branco, Purus e afluentes.

 

Acessando o link para as fotografias do carnaval em Manaus em 1913 disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Para o governo federal, as endemias que assolavam as populações na Amazônia, em especial a malária, eram o principal obstáculo ao desenvolvimento da economia da borracha. O enfrentamento dessas condições sanitárias seria capaz de fazer frente à concorrência asiática no Ceilão e na Malásia, iniciada após o contrabando de sementes de Hevea brasiliensis realizado, com sucesso, em 1876, sob a liderança do botânico Henry Wickham com patrocínio da Grã-Bretanha. Por essa razão, o Instituto Oswaldo Cruz foi designado para coordenar a comissão, que gerou o Relatório sobre as condições médico-sanitárias do vale do Amazonas, cuja versão final foi assinada por Oswaldo Cruz.

Iniciada em outubro de 1912, a missão científica levou os sanitaristas a percorrerem a geografia fluvial a bordo de um pequeno vapor, equipado com instrumentos e material necessários a seus estudos. Os sanitaristas enviados pelo governo atracavam nos seringais e povoados recolhendo amostras para exames, realizados no precário laboratório a bordo da embarcação. No trajeto, observavam casos clínicos de doenças comuns e até então completamente desconhecidas, anotavam práticas medicinais e modos de habitar das populações daquelas regiões, coletavam insetos suspeitos de transmitir doenças, recolhiam plantas de valor medicinal, entre outras ações de investigação científica. O objetivo era propor medidas de saneamento.

A missão partia sempre de Manaus, então um centro urbano pujante e moderno, enriquecido com a extração e comércio da borracha, exportada em grande escala para fábricas da Europa. A descoberta de processos de impermeabilização e vulcanização (1844) para a transformação industrial da matéria-prima dos seringais numa grande variedade de produtos, e a invenção do pneumático (1890), elevaram a cotação da borracha brasileira no mercado internacional.

Desde a segunda metade do século XIX até a década de 1910, a produção brasileira de borracha representava 61% da produção mundial (dado de 1892) e 50% em 1910. “Estas duas décadas demarcam a época áurea do ciclo da borracha, das grandes fortunas acumuladas por seringalistas, pelos negociantes que controlavam o comércio e a navegação do Amazonas e por toda espécie de aventureiro que pôde tirar proveito da opulência que se instalou em Manaus e em Belém”.

 

 

As fotografias aqui apresentadas foram registradas pelos fotógrafos que acompanhavam os cientistas. Incumbidos de registrar as expedições do IOC de 1910 a 1913 ao Norte, Nordeste e Centro-Oeste do país, esses profissionais não se atinham ao registro das condições de vida da população interiorana. A serviço da ciência, também produziram muitas imagens sobre as cidades e lugarejos por onde passavam, a exemplo dos registros sobre o Carnaval em Manaus. Os corsos – carros de luxo ornamentados, de onde os foliões jogavam confetes e flores nos passantes e em outros corsos – denotam a elitização da folia na cidade.

 

 

* Cristiane d’Avila é jornalista do Departamento de Arquivo e Documentação Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz

 

Fontes:

 

FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ. CASA DE OSWALDO CRUZ. A ciência a caminho da roça: imagens das expedições científicas do Instituto Oswaldo Cruz ao interior do Brasil entre 1911 e 1913. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 1992.

VITAL, André Vasques. Carlos Chagas na “guerra dos rios”: a passagem da comissão do Instituto Oswaldo Cruz pelo rio Iaco (Alto Purus, território federal do Acre, 1913). História, Ciências, Saúde-Manguinhos, vol. 25, núm. 1, 20

 

 

Links para artigos sobre carnaval já publicados na Brasiliana Fotográfica

Imagem relacionada

O carnaval nas primeiras décadas do século XX, publicado em 5 de fevereiro de 2016

 

O carnaval do Cordão da Bola Preta, publicado em 9 de fevereiro de 2018

 

As Camélias Japonesas no carnaval de Alagoas pelas lentes do fotógrafo amador Luiz Lavenère Wanderley (1868 – 1966) publicada em 21 de fevereiro de 2020

 

Acessando o link para as fotografias de Carnaval disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

As Camélias Japonesas no carnaval de Alagoas pelas lentes do fotógrafo amador Luiz Lavenère Wanderley (1868 – 1966)

A Brasiliana Fotográfica homenageia o carnaval brasileiro, que é o maior e mais conhecido do mundo e também a festa mais popular do país, destacando uma cena da folia momesca em Maceió, em 1906. É uma fotografia do bloco carnavalesco Camélias Japonezas, agremiação que nasceu na rua General Hermes, na Cambona, antigo bairro da capital alagoana. O registro foi realizado por Luiz Lavenère Wanderley (1868 – 1966), um dos pioneiros fotógrafos amadores de Alagoas, e mostra uma situação de carnaval de rua com pessoas – fantasiadas ou não – acompanhando o desfile, cuja figura central empunha o estandarte do bloco, onde, além do nome da agremiação, há a figura de uma gueisha. Vê-se também alguns membros da banda com instrumentos nas mãos. A fotografia pertence ao acervo do Arquivo Nacional, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica.

 

Foi justamente nas primeiras décadas do século XX que Lavenère, estimulado pelos fotógrafos amadores Joaquim da Silva Costa e F. Porto, se dedicou mais consistentemente à fotografia, tendo sido listado como fotógrafo no Almanak Laemmert de 1906 e 1907.  Foi, muito provavelmente, o primeiro repórter fotográfico de Alagoas. Imagens de sua autoria foram publicadas em revistas como Mundo Elegante de Paris, O Malho e Tico-Tico. Um álbum com imagens de Maceió de sua autoria, impresso e encadernado pela Livraria Fonseca, foi ofertado, em maio de 1906, em nome do jornal Evolucionista, do qual era diretor, ao político Afonso Pena (1847 – 1909), meses antes dele se tornar presidente da República, em novembro do mesmo ano. Foi premiado com uma medalha de ouro na Exposição Internacional de Turim, na Itália, em 1911, quando exibiu fotografias sobre madeira, sobre porcelana e quadros de gênero. Nesse mesmo ano foram editados 24 cartões-postais de Maceió, de sua autoria. Em um artigo elogioso em torno da obra literária de Lavenère, publicado em 1926,  foi mencionado que ele teria sido um fotógrafo emérito e responsável por um processo prático, original, rápido e barato de preparo de “clichês” (Diário de Pernambuco, 2 de dezembro de 1926, quarta coluna).

Personagem bastante atuante na vida social alagoana, Lavenère foi também jornalista, escritor, professor, político e musicólogo, além de ter sido um dos precursores do estudo do folclore de Alagoas. Participou da campanha abolicionista, trabalhou na Repartição Geral dos Telégrafos e durante a Primeira Guerra Mundial exerceu a função de Agente Consular da França. Foi também proprietário da Livraria Americana e de A Conquista, primeiro periódico ilustrado com a técnica da fotogravura, preparado totalmente em Maceió. Ocupou a cadeira número 36 da Academia Alagoana de Letras e é o patrono da cadeira 41 do Instituto Geográfico e Histórico de Alagoas, do qual foi secretário entre 1934 e 1943. Publicou diversos livros, dentre eles Zéfinha: scenas da vida alagoana (1921) e Padre Cornélio: scenas da vida alagoana (1921), duas partes de uma mesma novela; Compêndio de Teoria Musical (1927) e Ad Memoriam (1948). Foi agente das revistas Fon-Fon e Selecta em Alagoas e representante da Casa dos Artistas em Maceió.

Nasceu em Maceió, Alagoas, em 17 de fevereiro de 1868, filho do jornalista e funcionário da Fazenda federal Stanislau Wanderley (1830 – 1899), provavemente o primeiro fotógrafo amador de Maceió; e de Amélia Lavenère Wanderley (1835  – 1905). O casal teve mais dois filhos: Rachel (1869 – 1952) e o futuro general Alberto Lavenère Wanderley (1870 – 1930), pai de Nelson Lavenère Wanderley (1909 – 1985), que foi ministro da Aeronáutica no governo Castelo Branco, em 1964, e chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, entre 1966 e 1968. Luiz Lavenère foi casado com Maria Capitulina (18? – 1890) , com quem teve uma filha, Albertina (1889 – 1914). Depois casou-se com Túlia dos Reis (1877 – 1940) e o casal teve cinco filhos: Jessie (1894 – 19?), Edith (1896 – 1916), Olga (? – 19?), os gêmeos Carmen (1906 – 1910) e Túlio (1906 – 1932), e Yvonne (1915 – 1998) . Faleceu em Maceió, em 29 de outubro de 1966.

Foi lançado, em dezembro de 2018, o livro Olhares de Maceió por Luiz Lavenère, com 220 fotografias de Maceió, a maioria inédita e rara, organizado por Gian Carlos de Melo Silva e Wilma Maria Nóbrega Lima e editado pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos em parceria com o Arquivo Público Alagoano. As fotografias foram separadas em grupos: Águas, Construções, Cotidiano e  e Lavenère. São registros de diversos aspectos de Maceió. Também está reproduzido no livro o artigo A fotografia em Maceió: 1858- 1918, de Luiz Lavenère e Moacir Medeiros de Sant’Ana, publicado na primeira revista do Arquivo Público de Alagoas, 1962.

 

Cronologia de Luiz Lavenère Wanderley (1868 – 1966)

 

 

Acessando o link para as fotografias de Luiz Lavenère disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

1868 – Em Maceió, Alagoas, em 17 de fevereiro, nascimento de Luiz Lavenère Wanderley, filho do jornalista e funcionário da Fazenda federal Stanislau Wanderley (7 de maio de 1830 – 18 de março de 1899) e de Amélia Lavenère Wanderley (1835  – 1905). O casal teve mais dois filhos: Rachel (1869 – 1952) e o futuro general Alberto Lavenère Wanderley (1870 – 1930).

1876 – 1878 – Quando tinha entre 8 e 10 anos de idade, encontrou a câmara fotográfica e o material de laboratório pertencentes ao seu pai.

1881 – Em prol do movimento abolicionista, instalação da Sociedade Libertadora Alagoana, em 28 de setembro, no antigo Teatro Maceioense. Dela fizeram parte, entre outros:  Luiz Lavenère,  e seu pai, Stanislau Wanderley. Seu primeiro presidente foi Antônio de Almeida Monteiro.

1883 – Começou a lecionar (Gutenberg, 13 de julho de 1899, última coluna).

Foi o representante da Sociedade Recreio Scientífico na cerimônia fúnebre pelo 30 º dia do falecimento de Dias Cabral, no Instituto Arqueológico Alagoano (Gutemberg, 21 de agosto de 1883, primeira coluna).

Luiz Lavenère era o primeiro secretário do jornal literário Castro Alves (Castro Alves, 11 de novembro de 1883, última coluna).

1884 – Foi aprovado no Colégio Bom Jesus – Boletim de 10 de dezembro de 1884 (O Orbe, 16 de janeiro de 1885).

Contribuiu com o movimento abolicionista escrevendo no jornal Lincoln, dirigido pela Sociedade Libertadora Alagoana, cujos redatores eram, além dele, Francisco Domingues da Silva e Euzébio de Andrade.

1885 – Era um dos redatores do periódico quinzenal José de Alencar, lançado em 15 de maio de 1885 e propriedade do clube literário homônimo (José de Alencar, 15 de maio de 1885, segunda coluna).

1886 - Foi aprovado como sócio correspondente do Instituto dos Professores Primários de Alagoas (O Orbe, 19 de setembro de 1886, quarta coluna).

1887 - Embarcou para Pernambuco no vapor Pará (Gutemberg, 11 de maio de 1887, última coluna).

Ensinava francês, inglês e matemáticas elementares em sua casa, na rua da Boa Vista, nº 110, ou na casa dos alunos (Gutenberg, 12 de agosto de 1887, terceira coluna).

 

 

Foi publicado um artigo de Lavenère na revista pedagógica, científica, literária e noticiosa O Magistério, de 30 de outubro de 1887. Começava assim: O Brasil não progride: é arrastado pela avalanche universal da civilização.

Foi um dos oradores da sessão magna de aniversário da instalação do Instituto Arqueológico e Geográfico Alagoano (Gutenberg, 3 de dezembro de 1887, primeira coluna).

Anunciou que no ano seguinte abriria um Curso Primário Misto ministrado por sua esposa, Maria Capitulina (18? – 1890) e avisou que continuaria dando aulas particulares (Gutenberg, 24 de dezembro de 1887).

 

 

1888 – Doou livros para a formação da biblioteca do Instituto dos Professores Primários de Alagoas (O Magistério, 15 de fevereiro de 1888, última coluna).

1889 - Nascimento da única filha do casal, Albertina, em 27 de julho (1889 – 1914).

1890 - Falecimento de sua esposa, Maria Capitulina.

Foi um dos representantes do Clube Federal Republicano em um encontro realizado na sede do Club Centro Popular Republicano. Em pauta a eleição do presidente do Partido Republicano de Maceió e a escolha dos candidatos do partido à Constituinte (Diário do Povo, 24 de fevereiro de 1890, segunda coluna).

Fora publicados os contos O mais infeliz dos três, O philosopho apaixonado e Secção de moral, de sua autoria (O Republicano (SE), 21 de novembro de 1890, 24 de novembro de 1890 e 19 de dezembro de 1890).

1891 – O conto Um typo de mulher, de autoria de Lavenère que foi publicado nos jornais Monitor Fidelense (RJ) e no Publicador Goyano (O Republicano (SE), 21 de janeiro de 1891, primeira coluna; e 12 de março de 1891, primeira coluna).

Publicação da fantasia A ermida dos mortos, também de sua autoria (O Republicano (SE), 9 de abril de 1891).

Foi trabalhar como telegrafista da estação do Recife (Jornal do Commercio, 4 de novembro de 1891, quarta coluna). Provavelmente foi nessa época professor no Colégio Spencer e do Instituto Ayres Gama.

1892 – Foi promovido a 3º telegrafista da estação do Recife (Cruzeiro do Norte, 14 de fevereiro de 1892, terceira coluna).

 

 

1894 – Foi noticiado no Almanak do Estados das Alagoas de 1894, que Lavenère era o encarregado da estação telegráfica de Piassabussu.

Em 23 de dezembro, nascimento da primeira filha de Lavenère com Túlia dos Reis (1877 – 1940), Jessie (1894 – 19?) (Gutenberg, 23 de dezembro de 1896, quinta coluna). O casal teve mais quatros filhos: Edith (1896 – 1916), Olga (? – 19?), os gêmeos Carmen (1906 – 1910) e Túlio (1906 – 1932), e Yvonne (1915 – 1998) .

1896 – Durante a realização de um jantar a bordo do navio alemão Helas, Lavenère, representando o jornal Gutenberg, fez um brinde em inglês (Gutenberg, 17 de janeiro de 1896, última coluna).

Lançou a revista quinzenal literária Paulo Affonso, em 6 de abril, com Goulart de Andrade e Hugo Jobim. A gazeta, impressa na Tipografia de Tertuliano de Menezes, só teve dois números publicados, provavelmente, por falta de recursos (Gutenberg, 8 de abril de 1896, última colunaJornal de Recife, 21 de abril de 1896, quarta colunaO Trabalho, 27 de junho de 1896, primeira coluna).

Foi o tradutor dos contos Qui pro quo, de William Rogers;  A Vingança, de Miss Lambie (Gutemberg, 8 de outubro de 1896, e 11 de outubro de 1896).

Participou da festa de aniversário e da homenagem prestada ao engenheiro chefe do distrito telegráfico em que trabalhava (Gutenberg, 29 de outubro de 1896, quinta coluna).

Escreveu o artigo Sete anos saudando a proclamação da República em 1889 (Gutenberg, 15 de novembro de 1896).

Foi eleito suplente do 2º secretário do Instituto Arqueológico e Geográfico de Alagoas, Manuel Laurindo Martins Junior. Também fazia parte da comissão de redatores e revisores da revista da instituições e da comissão realizadora de trabalhos históricos, geográficos, arqueológicos e estatísticos (Gutenberg, 28 de novembro de 1896, primeira coluna).

Era um dos fiscais de raia das corridas realizadas pelo Club Veloz (Gutenberg, 13 de dezembro de 1896, quarta coluna).

Foi eleito segundo secretário do Club Atlético Alagoano, do qual foi um dos fundadores (Gutenberg, 24 de dezembro de 1896, quarta coluna).

1897 – Fundação em 18 de janeiro do Club Atlético Alagoas “com a finalidade de promover o desenvolvimento muscular de seus associados, empregando para isso qualquer tipo de força e agilidade”. Sua sede era em Jaraguá, seu presidente era Carlos Leopoldo Ferreira; seu vice, Napoleão Goulart; seu 1o secretário, Luiz Lavenère Wanderley e 2o secretário, José A. Leão.

1899 – Falecimento de seu pai, Stanislau Wanderley (1830 – 1899), republicano, abolicionista e um dos fundadores da Associação Libertadora Alagoana (Gutenberg, 19 de março de 1899, primeira coluna).

Ensinava inglês e francês pelo método indutivo e anunciou também ensinar para crianças.

 

 

Escrevia para a seção Questões gramaticais (Gutenberg, 17 de junho de 1899, primeira coluna; 1º de julho de 1899, quarta coluna; 16 de julho de 1899, quarta coluna; 18 de julho de 1899, primeira coluna; 19 de julho de 1899, terceira coluna; 10 de agosto de 1899, segunda coluna; 22 de agosto de 1899, terceira coluna).

Mudou-se para a rua do Commercio, nº 19 (Gutenberg, 18 de junho de 1899, quinta coluna).

1901 – Lavenère foi promovido a telegrafista de 2ª classe na Repartição Geral dos Telégrafos (Jornal do Brasil, 1º de maio de 1901, sétima coluna).

1902 - Era um dos jurados do concurso de tradução para o português do soneto Ave Dea, de Victor Hugo, promovido pelo jornal Gutenberg (Diário do Maranhão, 26 de junho de 1902, primeira coluna).

Lançamento do jornal Evolucionista, em 1º de setembro de 1902, sob a direção de Lavenère. No início era semanal e publicado às segundas-feiras.

Uma série de artigos intitulados Contra o socialismo, foram publicados  por Lavanère, no Evolucionista ( no ano seguinte foram vendidos como um libreto). Causaram grande polêmica com o socialista João Ferro (1872 – 1902) que respondeu a eles com a publicação de 7 artigos intitulados O “Evolucionista” e o Socialismo, publicados no periódico O Trocista, entre setembro e outubro do mesmo ano.

Já vendia material fotográfico e foi o primeiro em Alagoas a fcomercializar regularmente esses produtos.

Era o diretor da Empresa do Almanak Alagoano das Senhoras, anuário editado por Manoel Gomes da Fonseca, proprietário das Oficinas Tipográficas da Livraria Fonseca ou Oficinas Fonseca; e diretor do jornal  Evolucionista, que passou a ser diário (Almanak Laemmert, 1903).

1904 – Foi publicado no Almanak de Mato Grosso de 1904 uma tabela de fases da Lua para Cuiabá calculada por Lavenère.

1905 – Entre esse ano e 1906, fotografou o folguedo Festa da Chegança.

 

 

Era redator- chefe do jornal Evolucionista. O outro redator era Arroxelas Galvão, e os colaboradores eram Paulino Santiago, Sebastião de Abreu, Aurélio Jatubá e de P. Julio de Albuquerque.

Foi convidado por Joaquim Goulart de Andrade para ser um dos fundadores de uma associação para promover a construção de um monumento em homenagem ao marechal Floriano Peixoto (Gutenberg, 28 de janeiro de 1905).

Era deputado em Alagoas e foi convidado para ser o 2º secretário da Câmara (Gutenberg, 14 de abril de 1905, segunda coluna; e 27 de abril de 1905, primeira coluna). Foi deputado até 1908.

Falecimento de Amélia, mãe de Lavenère (Evolucionista, 19 de abril de 1905, última coluna).

Foi eleito para integrar a comissão de Finanças do Instituto Arqueológico e Geográfico de Alagoas (Gutenberg, 19 de abril de 1905, quarta coluna).

Polêmica entre Lavanère e José Correia da Silva, revisor do jornal Gutenberg (Gutenberg, 17 de junho de 1905, última coluna; Gutenberg, 18 de junho de 1905, segunda coluna).

Polêmica entre os jornais Gutenberg e o Evolucionista (Gutenberg, 6 de julho de 1905, quarta coluna; Gutenberg, 7 de julho de 1905, primeira coluna).

Lavenère foi eleito sócio efetivo e secretário da Associação Comercial (Evolucionista, 20 de julho de 1905, quinta colunaGutenberg, 21 de julho de 1905, segunda coluna; e 23 de julho de 1905, quinta coluna).

No Teatro Polytheama, participou do espetáculo em benefício de A. Sierra (Gutenberg, 28 de julho de 1905, segunda coluna).

Segundo noticiado no jornal Gutenberg, o jornal Correio de Alagoas dirigiu-se a Lavenère com o calão baixo e afrontoso (Gutenberg, 15 de setembro de 1905, primeira coluna; e Evolucionista, 20 de setembro de 1906, quinta coluna).

Lavenère ficou doente durante o mês de setembro e não pode dar aulas de inglês no Liceu de Artes e Ofícios, onde era professor (Gutenberg, 19 de outubro de 1905, última coluna).

Foi aceito unanimemente para ser sócio efetivo da Sociedade de Agricultura Alagoana (Evolucionista, 5 de outubro de 1905, primeira coluna).

Participou de uma almoço no paquete Castro Alves, a convite de seu comandante e do fiscal da Empresa Freitas de Navegação. Fotografou o grupo (Evolucionista, 10 de novembro de 1905, última coluna).

Fotografou uma mulher que havia sido assassinada (Jornal Pequeno (PE), 14 de novembro de 1905, terceira coluna).

Foi noticiado que um retrato do poeta Aristheu de Andrade (1878 – 1905) e duas fotografias de Maceió, de autoria de Lavenère haviam sido publicadas na revista Mundo Elegante de Paris (Evolucionista, 18 de dezembro de 1905, terceira coluna).

1906 – Foi listado como fotógrafo no Almanak Laemmert de 1906 e seu endereço era rua do Commercio, 40. Em 1907, continuava no mesmo endereço (Almanak Laemmert, 1907).

 

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Foi referido como diretor do Evolucionista (Evolucionista, 1º de janeiro de 1906).

Em fevereiro, nascimento dos gêmeos Túlio e Carmem, filhos de Lavenère e Túlia (Evolucionista, 28 de fevereiro de 1906, quinta coluna).

Foi distribuída a herança de sua mãe entre ele e seus dois irmãos, Rachel (1869 – 1952) e Alberto (1870 – 1930), que residia em São Paulo (Evolucionista, 7 de março de 1906, terceira coluna).

Em Paris,  falecimento de seu cunhado, o comerciante Gustavo Augusto dos Santos, casado com sua irmã Rachel (1869 – 1952) – tinham 7 filhos (Gutenberg, 27 de maio de 1906, quarta coluna).

Recepcionou na Câmara dos Deputados o político Afonso Pena (1847 – 1909), que se tornaria presidente da República em novembro de 1906. Em nome da Associação Comercial visitou Afonso Pena e em nome do jornal Evolucionista lhe ofertou um álbum de fotografias de Maceió de sua autoria, impresso e encadernado pela Livraria Fonseca (Evolucionista,  30 de maio de 1906, quarta coluna; e 31 de maio de 1906, primeira coluna). Lavenère fotografou a recepção a Afonso Pena no Palácio dos Martírios, em 28 de maio.

 

 

Denunciou que um canalha qualquer havia assinado um soneto em seu nome na revista O Malho (O Malho, 7 de julho de 1906, primeira coluna; e Evolucionista, 18 de julho de 1906, terceira coluna).

Na edição de 17 de julho de 1906 do Evolucionista, seu nome constava no expediente com a atribuição de redator do jornal com Raymundo de Miranda. O jornal deixou de ser publicado em dezembro.

 

 

Foi um dos 30 candidatos a deputado de Alagoas pelo Partido Republicano e foi eleito (Gutenberg, 23 de outubro de 1906, última coluna; 27 de abril de 1907, primeira coluna).

1907 - A casa editora da Livraria Fonseca publicou pela primeira vez imagens de autoria de Lavenère como cartões-postais.

Foi constituída uma empresa, da qual Lavenère fazia parte, para fazer reaparecer o Diário das Alagoas (Jornal de Recife, 15 de janeiro de 1907, sexta coluna).

Participou do desfile carnavalesco do Club dos Antigos, organizado por profissionais da imprensa (Gutenberg, 10 de fevereiro de 1907, última coluna).

Aposentou como telegrafista de 2ª classe (Gutenberg, 7 de abril de 1907, última coluna).

Foi publicada na revista Tico-Tico uma fotografia de Edith (1896-1916). Será de autoria de seu pai, Luiz Lavenère? (Tico-Tico, 5 de junho de 1907).

 

 

Era redator do Diário de Alagoas (Gutenberg, 6 de junho de 1907, primeira coluna).

Mudou-se para rua Macena nº 42 (Gutenberg, 12 de setembro de 1907, terceira coluna).

Realização do casamento de sua filha Albertina (1889-1914) com Manoel Gomes Machado (Gutenberg, 27 de outubro de 1907, primeira coluna).

1908 –  Uma fotografia de autoria de Lavenère de sua filha Edith (1896-1916) foi descrita no jornal Gutenberg de 30 de outubro de 1908. Na notícia, foi mencionado que ele havia sido elogiado pelo diretor da revista parisiense Photo Magazine, Charles Mendel. A foto foi publicada no ano seguinte na revista Tico-Tico. Outras fotografias de sua autoria foram expostas no jornal Gutenberg durante o ano.

 

 

 

 

Enviou um cartão de Boas Festas e um de Ano Novo usando fotografias de sua autoria. No de Boas Festas retratou sua filha, que aparecia no meio dos quatros jornais de Alagoas. No de Ano Novo, disfarçou-se e fotografou-se para representar o Ano Velho.

 

 

 

1909 - Foi listado no Almanak Laemmert de 1909 como professor particular e também como intérprete juramentado.

Recebeu 100 votos no concurso do oficial ou praça mais garboso do Tiro Alagoano (Guternberg, 4 de março de 1909).

 

 

 

 

 

Foi publicada uma fotografia de Aurora Silva, primeira farmacêutica alagoana, de autoria de Lavenère (O Malho, 4 de dezembro de 1909).

 

 

1910 – Ainda era diretor do jornal Evolucionista (Almanak Laemmert, 1910).

Publicação de uma carta de sua autoria onde ele explicava o significado do termo boycottage (Gutenberg, 15 de janeiro de 1910, sexta coluna).

Passou a dar aulas de inglês no Instituto de Humanidades, dirigido por Anisio Jobim (Gutenberg, 20 de janeiro de 1910, quarta coluna).

Estava em exposição na loja Lauria, em Maceió, um quadro retratando Lavenère de autoria do pintor baiano Olavo Baptista (1879-1953) (Gutenberg, 5 de fevereiro de 1910, quinta coluna).

Foi publicada na revista O Malho uma fotografia de autoria de Laverène suas filhas Edith e Jessie com uma amiga. Elas desfilaram no Club das Japonezas fantasiadas de gueishas (O Malho, 30 de abril de 1910).

 

 

Participou do primeiro concerto que o Círculo Musical de Alagoas, associação de musicistas de Maceió, apresentou no Teatro Maceioense. O Círculo Musical, do qual se tornou associado, foi fundado em 14 de julho de 1910 sob a presidência do músico e juiz Manoel Lopes Ferreira Pinto (Gutenberg, 6 de setembro de 1910, última coluna).

1911 - Foi identificado como guarda-livros e tradutor juramentado em Alagoas (Almanak Laemmert, 1911).

Foi editada uma série de 24 cartões-postais de autoria de Lavenère.

 

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Série de cartões-postais Phot. L. Lavenère. Jami Abib, Elysio de Oliveira Belchior, Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas e Josebias Bandeira de Oliveira.

 

Foi premiado na Exposição Universal de 1911 em Turim, na Itália, na qual expôs trabalhos fotográficos executados em porcelana, madeira e papelão. Os diplomas de suas medalhas estão no Instituto Histórico de Alagoas (Leituras para todos, janeiro de 1912).

 

 

1912 – No mesmo ano em que o fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923) começou a fazer suas experiências com fotografias em cores utilizando as placas autocromos Lumière, Lavenère  introduziu a fotografia em cores em Alagoas com a imagem de um trecho da rua Barão de Anadia. Segundo o Jornal de Alagoas a respeito da chapa autocromo: “A fotografia das cores naturais, onde sobressai o efeito da luz do sol sobre o solo e o mar, com esse brilho misterioso que o pincel dos mais afamados pintores não pode ainda levar à tela, foi conseguido pelo hábil amador (L. Lavenère) em placas diretamente importadas da Europa. É um deslumbramento” (Jornal de Alagoas, 10 de setembro de 1912).

1913 – Continuava dirigindo o Almanach Alagoano das Senhoras e foi de novo identificado como guarda-livros e tradutor juramentado em Alagoas (Almack Laemmert, 1913).

1914 – Foi de novo identificado como guarda-livros e tradutor juramentado em Alagoas (Almack Laemmert, 1914).

 

 

Em 25 de setembro, falecimento de sua filha Albertina, 25 anos (Diário de Pernambuco, 26 de setembro de 1914, quinta coluna).

1915 – Foi de novo identificado como guarda-livros e tradutor juramentado em Alagoas (Almanak Laemmert, 1915).

Publicação do livro O bonde elétrico, de sua autoria.

1916 - Foi de novo identificado como guarda-livros e tradutor juramentado em Alagoas (Almanak Laemmert, 1916).

Em 19 de maio, falecimento de sua filha Edith, com 20 anos (Diário de Pernambuco, 20 de maio de 1916, segunda coluna).

Era o proprietário da Livraria Americana, em Jaraguá, bairro de Maceió (Diário do Povo(AL), 19 de setembro de 1916).

 

 

Era o agente das revistas Fon-Fon e Selecta em Alagoas (Diário do Povo (AL), 19 de novembro de 1916, terceira coluna).

1917 - Foi de novo identificado como guarda-livros e tradutor juramentado em Alagoas (Almack Laemmert, 1917).

Importou da Europa papel para impressão (Diário do Povo (AL), 31 de janeiro de 1917, segunda coluna; 1º de fevereiro, quarta coluna).

Foi nomeado encarregado da Agência Consular da França em Alagoas (Diário do Povo (AL), 18 de março de 1917, primeira coluna).

Era árbitro da Alfândega de Maceió por parte do comércio e da indústria (Diário do Povo (AL), 25 de março de 1917, terceira coluna).

1918 – Foi de novo identificado como guarda-livros e tradutor juramentado em Alagoas, mas desta vez também como proprietário da Livraria Americana e como litógrafo, zincógrafo e tipógrafo (Almanak Laemmert, 1918).

 

 

Pediu exoneração do cargo de gerente da Agência Consular da França em Alagoas (Diário de Pernambuco, 10 de dezembro de 1918, segunda coluna).

1919 - Foi identificado como guarda-livros e proprietário da Livraria Americana (Almanak Laemmert, 1919).

Foi um dos fundadores, em 1º de novembro, da Academia Alagoana de Letras.

1920 – Editada pela Livraria Machado uma série de cartões-postais de autoria de Lavenère.

Lançamento em 14 de março , de A Conquista, o primeiro periódico ilustrado com a técnica da fotogravura, preparado totalmente em Maceió.  Lavenère era seu proprietário.

Semanário publicado em Maceió de 14 de março a 25 de dezembro de 1920. O primeiro, em Alagoas, a ter clichê de zinco. Confeccionado pelo dono do periódico – L. L. Lavenère -, o clichê intitulado “O Paurílio”, reproduz a figura de Hipólito Paurílio, tendo sido publicado no segundo número, a 21/3/1920. Em 14/7/1920 publicou um número dedicado à França, inclusive com a música da Marselhesa. Lavenère nele usava o pseudônimo de Marie Pambrun” (ABC das Alagoas).

Ao longo dos anos 20 continuou a atuar como guarda-livros, intérprete juramentado e dono da Livraria Americana.

Denunciou que um homem chamado Guedes Alcoforado estava recebendo criminosamente dinheiro por conta da Livraria Machado (Diário de Pernambuco, 17 de fevereiro de 1920, segunda coluna).

Instalação, em 17 de julho, da Academia Alagoana de Letras, no salão nobre do Teatro Deodoro. Lavenère foi o primeiro ocupante da cadeira número 36.

1921 – Foi anunciado o lançamento de um novo livro de Lavenère, identificado como jornalista e fotógrafo premiado (Diário de Pernambuco, 12 de maio de 1921, primeira coluna).

 

 

O livro se chamava Zefinha (Diário de Pernambuco, 10 de agosto de 1921, primeira coluna). Os srs. Monteiro Lobato e C. propuseram a edição da continuação da obra, que se chamaria O Padre Cornélio (Diário de Pernambuco, 24 de setembro de 1921, terceira coluna).

 

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1922 - Publicou o livro Mostruário de gravuras de zinco.

1924 – Lançamento do livro Novo método de escrituração, de autoria de Lavenère, identificado como verdadeira competência em assuntos comerciais, editado pela Livraria Machado (Diário de Pernambuco, 11 de setembro de 1924, penúltima coluna).

1926 – Foi pela última vez listado como dono de uma livraria na rua da Alfândega, 115, no Almanak Laemmert de 1926.

Em um artigo elogioso em torno da obra literária de Lavenère foi mencionado que ele teria sido um fotógrafo emérito e responsável por um processo prático, original, rápido e barato de preparo de “clichês” (Diário de Pernambuco, 2 de dezembro de 1926, quarta coluna).

 

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Foi eleito um dois membros da comissão da revista do Instituto Arqueológico e Geográfico Alagoano (Jornal do Commercio, 23 de dezembro de 1926, quarta coluna).

1927 - Lançamento de um Compêndio de Teoria Musical de autoria de Lavenère e publicado pela Livraria Machado de Alagoas (Diário de Pernambuco, 30 de julho de 1927, terceira coluna; e Diário de Pernambuco, 20 de agosto de 1927, penúltima coluna).

Lavenère escreveu vários artigos contra o aumento dos impostos (Gazeta de Notícias, 27 de dezembro de 1927, sexta coluna).

1929 – Lançou Musicologia, continuação do Compêndio de Teoria Musical (Diário de Pernambuco, 10 de julho de 1929, terceira coluna).

1930 – Continuou a ser identificado no Almanak Laemmert  de 1930 e de 1931 como guarda-livros e tradutor juramentado.

O livro Compêndio de Teoria Musical de autoria de Lavenère foi adotado no ensino primário de Alagoas por recomendação do Conselho de Ensino do estado (Revista de Ensino, 1930).

Falecimento de seu irmão Alberto, na época general de brigada, em 4 de outubro de 1930. Ele era desde 1929 comandante da 7ª Região Militar, em Recife. Com o assassinato de João Pessoa em fins de julho de 1930  o comando da 7ª RM foi transferido para o 22º Batalhão de Caçadores, na capital paraibana. Em 4 de outubro, revoltosos militares e civis que apoiavam a Revolução de 30 atacaram p 22º BC e controlaram, apo´s alguns combates, a situação. Houve troca de tiros e o general Alberto foi atingido. Foi operado mas faleceu à noite. Foi promovido post mortem a general de divisão no dia 15 de outubro de 1930. Alberto Lavenère Wanderley era pai de Nélson Lavenère Wanderley (1909 – 1985), que foi ministro da Aeronáutica em 1964 e chefe do Estado-Maior das Forças Armadas de 1966 a 1968.

1931 - Era 2º vice-presidente do Instituto Arqueológico e Geográfico Alagoano (Almanak Laemmert, 1931).

Era um dos colaboradores de Novidade Semanário Illustrado, lançado em 11 abril de 1931. Publicou um artigo na seção de Música na oitava edição da revista (Novidade, 30 de maio de 1931).

Foi eleito membro da Academia Alagoana de Letras (Novidade, 18 de julho de 1931, primeira coluna).

1933 - No Teatro Deodoro, instalação em 6 de abril, da Liga Alagoana Pró-Pensamento Livre, sob a presidência de Lavenère (Jornal de Recife, 18 de abril de 1933, segunda coluna). Fundada em

1934 - Em 24 de fevereiro de 1934, a Liga Alagoana Pró-Pensamento Livre realizou um ato em comemoração ao aniversário da promulgação da constituição de 1891, sob a presidência de  Lavenère com a participação dos oradores Levy Pereira, Barbosa Júnior, Sebastião da Hora, Esdras Gueiros e Américo Mello, “que expressaram seus veementes protestos contra a intromissão da igreja católica na política nacional, tendente a coarctar a liberdade de pensamento no que concerne ao ensino religioso nas escolas”.

Foi entre esse ano e 1943 secretário do Instituto Geográfico e Histórico de Alagoas (Diário de Pernambuco, 5 de agosto de 1934, quinta coluna).

Passou a lecionar Escrituração Mercantil na sede da Federação Alagoana para o Progresso Feminino (Diário de Pernambuco, 20 de fevereiro de 1934, terceira coluna).

Seu livro Compêndio de Teoria Musical foi adotado pelo Instituto Português de Música de Lisboa (Diário de Pernambuco, 6 de julho de 1934, terceira coluna).

 

1935 - Publicou o livro Nigumba, conto africano.

1936 – Foi o vereador mais votado de Maceió (Diário de Pernambuco, 29 de janeiro de 1936, terceira coluna).

Apresentou um projeto de lei criando um serviço de Assistência à Infância Desvalida (Diário de Notícias, 21 de agosto de 1936, terceira coluna).

1937 - Como vereador por Maceió aderiu à candidatura de Armando Salles (1887 – 1945) à presidência da República e foi eleito membro da União Democrática Brasileira (O Jornal, 16 de setembro de 1937, segunda coluna).

1938 - Foi nomeado representante da Casa dos Artistas em Maceió (Diário de Notícias, 24 de abril de 1938, terceira coluna).

Contribuiu financeiramente para a confecção do busto do presidente Getúlio Vargas na Casa dos Artistas (O Imparcial, 25 de junho de 1938, primeira coluna).

1939 - Mantinha uma seção diária na Gazeta de Alagoas (A Noite, 12 de junho de 1939, quinta coluna).

Publicação de uma poesia de Lavenère (Correio de Manhã, 15 de junho de 1939).

 

 

1941 - Na inauguração do Sindicato dos Jornalistas Profissionais em Maceió, foi eleito um dos membros da comissão fiscal (Diário de Notícias, 3 de janeiro de 1941, terceira coluna).

Foi o orador do encerramento da Semana da Siderurgia no Teatro Deodoro, em Maceió (Jornal do Brasil, 25 de maio de 1941, terceira coluna).

1942 – Escreveu contra as indecências de cantigas carnavalescas (A Ordem (RN), 13 de fevereiro de 1942, terceira coluna).

1944 - Instalação em 8 de março do Centro de Estudos Econômicos e Sociais de Alagoas, no auditório da Faculdade de Direito, por iniciativa do Rotary Clube de Maceió. Sua primeira diretoria: presidente, Diegues Júnior; vice-presidentes, Sebastião da Hora e Barreto Falcão; secretários, Ruy de Almeida, Aurélio Viana e Luiz Lavenère; tesoureiros, Ismael Brandão e Luiz Calheiros; diretor da Biblioteca, Afrânio Melo; e diretor de Publicidade, Carvalho Veras. Tinha por finalidade discutir a realidade alagoana e os problemas regionais, dentro de uma visão interdisciplinar: econômica, social, histórica, sociológica, antropológica, sem exclusão da visão política ou ideológica.

1945 – Foi candidato ao senado por Alagoas concorrendo pelo Partido Republicano Progressista mas foi o candidato menos votado: só obteve 194 votos (O Jornal, 20 de dezembro de 1945, última coluna).

1946 – Foi eleito para integrar a Comissão de História do Instituto Histórico de Alagoas (A Noite, 28 de abril de 1946, quinta coluna).

Publicou o livro Meu Waterloo na imprensa de Maceió.

1948 – Publicou o livro Ad memoriam.

1949 – Publicou, pela Livraria Machado, Conversas com o reverendo.

1950 – Era o diretor do Teatro Deodoro, em Maceió (Diário de Pernambuco, 26 de março de 1950, quinta coluna).

Foi eleito tesoureiro da Academia Alagoana de Letras (A Noite, 15 de dezembro de 1950, sexta coluna).

1962 – O Arquivo Público de Alagoas, criado em dezembro de 1961, adquiriu para sua Fototeca a coleção de negativos fotográficos de vidro de Luiz Lavenère, composta de cerca de 350 chapas, em vidro, na sua maioria de trechos desaparecidos da cidade de Maceió e seus arrabaldes no princípio do século XX. Na época era dirigido por Moacir Medeiros de Santana.

Publicação, na primeira revista do Arquivo Público de Alagoas, do artigo pioneiro sobre a história da fotografia na capital alagoana desde seus primórdios intitulado A fotografia em Maceió: 1858- 1918, de Luiz Lavenère e Moacir Medeiros de Sant’Ana.

1966 – Falecimento de Luiz Lavenère Wanderley, em 29 de outubro de 1966, em Maceió.

 

foto

 

1985 - Foi escolhido para ser o patrono da cadeira número 41 do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas.

2012 - Início dos trabalhos de conservação e reprodução da coleção de imagens de Lavenère adquiridas pelo Arquivo Público de Alagoas em 1961.

2018 -  Foi lançado, em dezembro de 2018, o livro Olhares de Maceió por Luiz Lavenère, com 220 fotografias de Maceió, a maioria inédita e rara, organizado por Gian Carlos de Melo Silva e Wilma Maria Nóbrega Lima e editado pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos em parceria com o Arquivo Público Alagoano. As fotografias foram separadas em grupos: Águas, Construções, Cotidiano e Lavenère. São registros, dentre outros, do antigo farol, de atletas, avenidas, bairros, barcos, do carnaval de rua, de casas, cenas de teatro, engraxates, escolas, estação de trem, fábricas, festas, do folguedo Barca da Chegança, de hospital, hotéis, igrejas, inundações, da Livraria Fonseca ao lado do jornal Evolucionista, de lojas, do mercado público, de paisagens, pescadores, pessoas, praças, do prado, de praias, prédios governamentais, do primeiro avião em Maceió, de procissão, quartel, da recepção ao presidente da República Afonso Pena no Palácio dos Martírios, de ruas, do Teatro Deodoro e do Teatro Polytheama, além de imagens do próprio Lavenère. Também está reproduzido no livro o artigo A fotografia em Maceió: 1858- 1918, de Luiz Lavenère e Moacir Medeiros de Sant’Ana, publicado na primeira revista do Arquivo Público de Alagoas, 1962 (Agenda “a” (AL) , 28 de dezembro de 2020).

 

livro

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes: 

Agência Alagoas

BARROS, Francisco Reinaldo Amorim de. ABC das Alagoas: dicionário biobibliográfico, histórico e geográfico de AlagoasBrasília : Senado Federal, Secretaria Especial de Editoração e Publicação, 2005.

CAMPELLO, Maria de Fátima de Melo Barreto. A cidade de papel e a cidade de vidro: Maceió na Coleção de fotografias de Luiz Lavenère. In: ENANPARQ – arquitetura, cidade e projeto: uma construção coletiva. III, 2014, São Paulo, SP. Anais eletrônicos. São Paulo: Universidade Presbiteriana Mackenzie; Campinas: Pontifícia Universidade Católica de Campinas, 2014.

CAMPELLO, Maria de Fátima de Melo Barreto; CABRAL, Renata Campello; DUARTE, Jaianne Fernandes; SILVA. Thaysa de Oliveira. Cartões-postais: entre as práticas visuais e a conservação do patrimônio urbano. Postcards: betweeen visual practices and the conservation of urban heritage. Urbana: Rev. Eletrônica Cent. Interdiscip. Estud. Cid. Campinas, SP v.9, n.3 [17] p.659-676 set./dez. 2017

DUARTE, Jaianne Fernandes. Quando se olha para o escuro: A Maceió de Luiz Lavenère Wanderley através de seus negativos de vidro. 2019. 196f. Dissertação (Mestrado em Arquitetura: Dinâmica do Espaço Habitado). Faculdade de Arquitetura, Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo, Universidade Federal de Alagoas, 2018.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Instituto Geográfico e Histórico de Alagoas

LAVENÈRE, Luiz; SANT’ANA, Moacir Medeiros de (1962). A fotografia em Maceió (1858-1918). Revista do Arquivo Público de Alagoas, nº 1.

LIMA, Mariana. Luís Wanderley Lavenère. Universidade Federal de Alagoas, fevereiro de 2019.

MACIEL, Osvaldo Batista Acioly. Filhos do trabalho, apóstolos do socialismo: os tipógrafos e a construção de uma identidade de classe em Maceió (1895 – 1905)Dissertação apresentada ao programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Pernambuco, 2004.

SANTOS, José Fabino Cassiano dos. HISTÓRIA E CONSTRUÇÃO LITERÁRIA NAS NOVELAS ZÉFINHA (1921) E PADRE CORNÉLIO (1921) DE LUIS LAVENÈRE .  Trabalho apresentado na 70ª Reunião Anual da SBPC – 22 a 28 de julho de 2018 – UFAL – Maceió.

SILVA, Gian Carlos de Melo; LIMA, Wilma Maria Nóbrega (organizadores). Olhares de Maceió por Luiz Lavenère. Maceió : Imprensa Oficial Ramos, 2018.

Site Geni

Site O ABC das Alagoas

 

 

Links para artigos sobre carnaval já publicados na Brasiliana Fotográfica

Imagem relacionada

O carnaval nas primeiras décadas do século XX, publicado em 5 de fevereiro de 2016

 

O carnaval do Cordão da Bola Preta, publicado em 9 de fevereiro de 2018

 

Cenas da folia em Manaus em 1913, publicado em 28 de fevereiro de 2020

 

Acessando o link para as fotografias de Carnaval disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Paquetá na Coleção Antônio Manoel de Mattos Vieira

A família Mattos Vieira Guerra doou para o Instituto Moreira Salles (IMS), uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica, em 3 de maio de 2018, um conjunto de 61 fotografias de Paquetá produzidas em 1925 possivelmente por João de Lacaille e, a partir delas, podemos fazer um passeio pela Ilha. Muitos leitores do portal têm curiosidade em saber a trajetória das coleções até chegarem às instituições. Por isso, hoje a Brasiliana Fotográfica publica a história da chegada dessas fotografias ao IMS, contada pela socióloga Roberta Mociaro Zanatta no artigo A história da chegada da Coleção Antônio Manoel Mattos Vieira ao Instituto Moreira Salles, parte de sua tese de doutorado O legado histórico nacional – memória, difusão e acesso: o caso da Brasiliana Fotográfica (2019). Paquetá já foi, provavelmente por sua beleza e proximidade do Rio de Janeiro, registrada por diversos fotógrafos, dentre eles Antônio Caetano da Costa Ribeiro (18? – 19?), Augusto Malta (1864 – 1957), Frederico Carlos Con, Jorge Kfuri (1893 – 1965)Juan Gutierrez (c. 1860 – 1897)Marc Ferrez (1843 – 1923)S.H. Holland (1883 – 1936) e Uriel Malta (1910 – 1994). Foi também o tema de um artigo do portal, A bela ilha de Paquetá, publicado em 28 de março de 2019.

 

 

Acessando o link para as fotografias da Coleção Antônio Manoel de Mattos Vieira disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

 A história da chegada da Coleção Antônio Manoel de Mattos Vieira ao Instituto Moreira Salles

Roberta Mociaro Zannata*

 

Cada coleção possui uma trajetória particular e chega ao IMS por meio de algum tipo de negociação específica, seja diretamente com o dono da coleção ou com seus familiares e representantes. Em 2018 pude acompanhar a doação de um acervo com o perfil característico da Brasiliana Fotográfica, com data de produção das imagens até a década de 1930 e com conteúdo relevante para o entendimento social e cultural da época. É a Coleção Antônio Manoel de Mattos Vieira, que após receber os procedimentos de higienização, conservação, arranjo, codificação, digitalização, acondicionamento e catalogação em banco de dados teve parte de seu conteúdo selecionado para integrar a Brasiliana Fotográfica. Trago aqui um breve relato sobre seu processo de doação, como forma de ilustrar como se formam as coleções, mesmo lembrando que cada uma tem uma história própria.

Em 04 de janeiro de 2018, Márcio Miranda Ferreira, fotógrafo, morador da Ilha de Paquetá, entrou em contato por e-mail com o IMS com a seguinte mensagem:

 

“Sou morador de Paquetá e uma amiga tem guardada uma série de negativos grandes, em vidro, documentando a ilha no início do século passado. Gostaria de saber se podemos estabelecer algum tipo de colaboração com vocês visando a preservação de tais documentos.
Se houver algum interesse, por favor, nos informe que tipo de informações adicionais precisariam receber para dar alguma orientação.

                                                                                                                                                                                                                                     Atenciosamente,
                                                                                                                                                                                                                                      Marcio Ferreira”

 

Respondi seu e-mail e começamos uma troca intensa de informações, tais como: tamanho dos negativos, tipo de material, estado de conservação, se sabiam quem era o fotógrafo, qual o conteúdo das imagens. Ana Emília de Mattos Vieira Guerra, que aqui chamaremos de Anina Guerra, neta de Manoel de Mattos Vieira, herdeira responsável pela doação passou a ser incluída nos e-mails e, por fim, no dia 03 de maio de 2018 foi realizada a retirada, em Paquetá, na casa que pertenceu a seu avô, de 63 negativos de vidro, 13x18cm, retratando parte do cotidiano de sua família e da Ilha de Paquetá, no início dos anos de 1920.

 

fotolegal

Como os negativos estavam acondicionados no momento da retirada

 

Caixa do fabricante das placas de vidro

Caixa do fabricante das placas de vidro

 

 

 

 

Logo que Márcio enviou parte das imagens ficou evidente para o curador da Área de Fotografia do IMS, Sergio Burgi, a importância do conjunto e seu valor como registro histórico, prontamente a doação foi aceita. Vale destacar que outro importante fotógrafo que retratou Paquetá no século XIX foi Marc Ferrez, algumas dessas imagens se encontram no acervo do IMS e da Brasiliana Fotográfica:

 

 

 

Se passaram 5 meses entre o primeiro e-mail de Márcio e a doação efetiva de Anina Guerra. Nesse processo estabelecemos certa proximidade e logo soube que Anina Guerra e Márcio fazem parte de um grupo de amigos que defendem a preservação do patrimônio memorial de Paquetá. No dia da retirada do acervo, 03 de maio de 2018, eu e Rodrigo Bozzetti, responsável na época por parte do processamento técnico dos acervos do IMS, fomos a Paquetá formalizar a doação. Para nossa surpresa, Anina Guerra organizou um almoço e reuniu o presidente da Casa de Artes de Paquetá, Márcio e sua esposa, além de outros amigos. A assinatura do contrato de doação e a retirada do acervo foram comemorados e a contrapartida da doação foi o compromisso de restauro, preservação e difusão das imagens dos negativos, que levam o nome de seu avô como titular da coleção.

 

 

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Casa de Anina Guerra que pertenceu a seu avô Manoel de Mattos Vieira

 

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Anina Guerra e Márcio Miranda Ferreira

 

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O historiador Rodrigo Bozzeti

 

Cerca de um mês após a doação, Anina Guerra foi com seus filhos Maria Helena Guerra Gomes Pereira, psicóloga clínica, residente em Paris, e Pedro Affonso Guerra Gomes Pereira, advogado, que vive em Lenzburg, na Suíça, com sua esposa Carmen, ao IMS para conhecer o trabalho realizado com os acervos. Nessa ocasião pedi a ela que escrevesse um relato sobre a trajetória de seu avô, do qual transcrevo alguns trechos abaixo:

Meu avô, Antônio Manoel de Mattos Vieira, nasceu em 1º de julho de 1883, na Casa da Pedreira, Freguesia de Verim, Póvoa de Lanhoso, Distrito de Braga, em Portugal. Filho de Manuel Antônio Vieira e de Maria Joaquina de Mattos, viúva, com três filhos do seu primeiro casamento.
Antônio era o sétimo de nove irmãos, do segundo casamento de sua mãe. O filho mais velho, Álvaro, herdou a Quinta da Pedreira, como o costume da época, mas morreu muito jovem, deixando herdeiros, que até hoje cuidam da propriedade. O segundo filho, Francisco Manuel, era Padre; o terceiro, Manuel Inácio, farmacêutico; o quarto, Cândido Adelino, médico; as três irmãs, Lucinda, Adelaide e Aurora, se dedicaram a obras de caridade e o filho caçula, Joaquim Augusto, que também veio viver no Brasil, em Pernambuco, dedicou toda sua vida ao cinema, tornando-se, em 1953, o decano dos cinematografistas do Recife.

A vinda de meu avô para o Brasil não foi uma fuga planejada, na verdade, foi um arroubo de juventude. Ao saber que seria castigado por ter sido reprovado no Liceu, decidiu, aos quinze anos, fugir para o Rio de Janeiro. Conseguiu comprar um bilhete de navio, na terceira classe, e empreendeu a viagem, não atendendo aos apelos de seu pai.
Logo nos primeiros dias de viagem notou que o passadio do navio e as acomodações nos camarotes de terceira classe não correspondiam aos seus sonhos. Decidiu então trocar a única moeda de ouro que trazia, por um bilhete na primeira classe. Sentiu-se cômodo com seus novos companheiros de viagem e, apesar de sua pouca idade, conquistou a simpatia dos mais velhos, por sua afabilidade e elegância de trato à mesa. Foi justamente, nas intermináveis conversas dos jantares no transatlântico, que conheceu os irmãos do Visconde de Vilela, um mecenas português, que doou as portas esculpidas em bronze para a Igreja da Candelária, no Rio de Janeiro. Nessas longas conversas a bordo, meu avô descobriu, com surpresa, que o primeiro marido de sua mãe era também membro da família Vilela.
Em três de maio de 1898, o Senhor Mattos (como passou a ser conhecido) desembarcou na cidade do Rio de Janeiro, e começou a trabalhar na casa Sotto Maior & Cia, por indicação da família Vilela. Foi lá que iniciou seu aprendizado em artes gráficas, além de viajar pelo Brasil, representando os produtos comercializados pela Firma.
(…)
Em julho de 1903, o Senhor Mattos decide casar-se e, seguindo as regras da Casa, deixa a firma Sotto Maior. Começa então a trabalhar na gráfica Correa Jorge, adquirindo assim uma certa independência. Em três de setembro de 1904, casa-se com Anna Homem de Moraes e Azevedo, cidadã portuguesa, nascida nos Açores e recém chegada ao Brasil, com sua família. Por ser menor de idade (16 anos), não tinha adquirido ainda o sobrenome paterno, como o costume da época. Ao casar, adota o nome de Anna d’Azevedo Vieira e posteriormente passa a usar o nome Anna de Mattos Vieira.
Foi em 15 de maio de 1909, que finalmente o Senhor Mattos conseguiu alugar, na Rua do Hospício, 148, as máquinas de litografia e tipografia, para ter seu próprio negócio, dando início à Firma A. Steele & Mattos, em sociedade com o Sr. Armando Steele. Em 1916, a gráfica foi transferida para a Rua Buenos Aires 256 e 258, com sede própria, tendo seu nome mudado para Cia Gráfica Steele & Mattos. Nesse ano foi incorporado também um novo sócio, o Senhor Carlos Moraya.
A partir de 1916, por indicação médica, a família Mattos Vieira passa a frequentar regularmente a Ilha de Paquetá. Inicialmente alugam a casa do Diplomata Joaquim Nabuco, na Praia da Covanca e posteriormente, com a recusa do Diplomata em vender a casa, decidem construir sua própria casa na Praia dos Estaleiros, atualmente Praia dos Tamoios, cujo terreno já havia sido comprado em 1912.
A casa foi o grande orgulho de minha avó Ana. São dela os desenhos iniciais, feitos em aquarela, da faixada da casa e do jardim de inverno, que mais tarde, foram refeitos pelo desenhista francês Senhor Raizon, que trabalhava para a Gráfica de meu avô. A faixada da casa foge completamente à arquitetura brasileira da época, indicando a forte influência da arquitetura colonial inglesa, na África, e as saudosas lembranças dos Açores. A grande varanda frontal em arco, de frente para o mar, e o jardim de inverno, nos fundos, como um solarium, fechado por uma luminosa claraboia, são traços característicos dos sonhos de minha avó. Também foi dela a ideia de dividir o ambiente social em duas salas, separadas por uma grande porta branca, em cristal bisotado, que se abre em par.
Em 1922, com a família aumentada (dois filhos homens e três mulheres), e os negócios prosperando, a casa na Ilha de Paquetá foi finalmente inaugurada, com mais um acréscimo de terras, que compuseram o jardim lateral e a passagem para a entrada do barco. (…)”

Ana Emília também nos contou que seu avô, sócio da tipografia Firma A. Steele & Mattos, amante das artes impressas, cultivava forte apreço pela fotografia e que no início da década de 1920 contratou um fotógrafo, possivelmente João de Lacaille, para fazer um ensaio tendo a Ilha de Paquetá como cenário e sua família como protagonista. Desse ensaio fotográfico resultaram os negativos de vidro doados ao IMS.

A partir destes relatos podemos traçar parte do perfil de um homem que se interessava pela fotografia a ponto de contratar um fotógrafo profissional, nos anos de 1920, para ir a uma ilha e lá produzir um conjunto significativo de fotografias, quando essa ainda não era uma prática popular e financeiramente acessível à grande parcela da população do Brasil. A fotografia era uma arte restrita a certas camadas da sociedade e para reduzir seus custos de produção os fotógrafos muitas vezes reutilizavam as placas de vidro na realização de novas fotografias, o que faz com que os negativos em vidro que sobreviveram sejam valorizados como raros.

 

 

 

*Roberta Mociaro Zanatta é Doutora em Ciências Sociais, coordenadora do Núcleo de Catalogação e Indexação do IMS e uma das responsáveis pela gestão e atualização de conteúdos do portal Brasiliana Fotográfica.

Uma homenagem da Casa Granado ao casal imperial sob as lentes de Marc Ferrez

 

A Brasiliana Fotográfica destaca um registro da fachada da Farmácia Granado produzido por Marc Ferrez (1843 – 1921). No topo da imagem há um quadro a óleo retratando dom Pedro II (1825 – 1891) e a imperatriz Teresa Cristina (1822 – 1889), com o neto primogênito, Pedro Augusto de Saxe-Coburgo e Bragança (1866 – 1934). Foi encomendado pela farmácia ao artista alemão Frederico Steckel (c. 1834 -1921), em homenagem ao “feliz regresso” do casal ao Brasil, em 22 de agosto de 1888 (Gazeta de Notícias, 23 de agosto de 1888, primeira coluna). Em 1880, dom Pedro II havia concedido à drogaria o título de Farmácia Oficial da Família Imperial Brasileira. A Granado, uma das únicas marcas brasileiras que existe desde o reinado de dom Pedro II, completa 150 anos e é o tema da exposição “A história da botica mais tradicional do Brasil”, aberta em 15 de janeiro último, no Museu Histórico Nacional, uma das instituições parceiras do portal. Ficará em cartaz até 3 de maio de 2020.

 

A farmácia dos senhores Granado, conhecido estabelecimento da rua Primeiro de Março, número 12, encomendou ao artista Frederico Antônio Steckel uma decoração especial. A pintura a óleo, reprodução de uma fotografia tirada depois do restabelecimento de D. Pedro, exibia em tamanho natural os avós e o neto: “o favorito”. No alto da grossa moldura, as armas imperiais. Em seda carmesim, tremulavam sobre o quadro os dizeres em letras douradas: “Feliz Regresso de Suas Majestades  Imperiais”. A novidade era a iluminação a gás que fazia brilhar as estrelas do Cruzeiro e as colunas do quadro. Embasbacados, os passantes se amontoavam na vitrine.”(1)

 

 

Acessando o link para a fotografia Pharmacia Drogaria Granado and Ca, produzida em 1888 por Marc Ferrez disponível na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar a imagem e verificar todos os dados referentes a ela.

 

Frederico Steckel, autor da decoração da fachada da Granado

Frederico Steckel, autor da decoração da fachada fotografada por Ferrrez /Acervo de Fernando Argeu Murta

 

 

O casal imperial havia viajado em 30 de junho de 1887 para a Europa. Estiveram inicialmente em Portugal e, de lá, seguiram para Paris. Aconselhado por médicos, dom Pedro II foi para Baden-Baden, e retornou a Paris, onde visitou intelectuais, entre eles, Louis Pasteur. Fez um cruzeiro pela Riviera italiana e foi para a estação de cura de Aix-les-Bains, na França. Também visitou, atendendo a um desejo de sua esposa, as ruínas de Pompeia (Gazeta de Notícias, 17 de junho de 1888, quarta coluna).

A Casa Granado foi fundada por José de Barros Franco e pelo português José Antônio Coxito Granado com o nome “Botica de Barros Franco” e ficava na então denominada rua Direita, uma das mais movimentadas do centro do Rio de Janeiro, atual rua Primeiro de Março, onde permanece até hoje. Em 1876, Barros Franco retirou-se da sociedade e Pedro Gonçalves Bastos tornou-se sócio até 1878 (A Reforma, 16 de setembro de 1876, primeira coluna; Gazeta de Notícias, 19 de maio de 1878, penúltima coluna). A loja tornou-se ponto de encontro de personalidades ilustres como o prefeito Pereira Passos (1836 – 1913) e Rui Barbosa (1849 – 1923). Em 1903, João Bernardo Granado, irmão de Coxito, criou um dos produtos mais populares da botica: o polvilho antisséptico, cuja fórmula teve registro aprovado pelo cientista Oswaldo Cruz. Em 1915, lançamento de outro produto pioneiro: o sabonete de glicerina.

 

(1) PRIORI, Mary del. O Príncipe Maldito. Rio de Janeiro: Objetiva, 2017.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

CARVALHO, José Murilo. Pedro II: ser ou não ser. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

GIANETTI, Ricardo. Frederico Steckel: pintor-decorador do Império e da República. IV Colóquio Internacional. A Casa Senhorial: Anatomia dos Interiores, Universidade de Pelotas no Rio Grande do Sul, 2017

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

PRIORI, Mary del. O Príncipe Maldito. Rio de Janeiro: Objetiva, 2017.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

Site da Granado

ilustração

O Campo de Santana

No centro do Rio de Janeiro, a praça que hoje é tema da Brasiliana Fotográfica já teve diversos nomes ao longo de sua história: Campo de Santana, Campo da Honra, Praça do Curro, Campo da Aclamação e Praça da República – este último, até hoje, sua denominação oficial. Mas ficou mesmo conhecida como Campo de Santana, palco de celebrações e de importantes acontecimentos da história do Brasil como a aclamação de dom João VI como como rei de Portugal, Brasil e Algarves (1818), a aclamação de Pedro I como imperador do Brasil (1822), as comemorações populares de coroação de D. Pedro II (1841), festas do Império do Divino Espírito Santo promovidas pela Irmandade de Santana, festejos pelo fim da Guerra do Paraguai (1870), um baile em celebração da Abolição da Escravatura (1888) e a Proclamação da República (1889). Também na região foram construídos prédios como a Estação de Ferro Central do Brasilo primeiro Palácio da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro, a primeira sede do Museu Nacional e a Casa da Moeda – atual sede do Arquivo Nacional. O portal traz imagens do Campo de Santana e de algumas dessas construções produzidas por Augusto MaltaJorge KfuriJuan GutierrezMarc Ferrez, Uriel Malta e também por fotógrafos ainda não identificados.

 

 

Acessando o link para as fotografias do Campo de Santana e de alguns prédios em seu entorno disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

Até meados do século XVIII, o Campo de Santana era deserto e abandonado, tendo sido escolhido para o despejo de detritos, fato que perdurou até a gestão do vice-rei Conde Resende (1790 a 1801), que ordenou o aterro e o saneamento do campo. A partir daí, surgiu a praça, edificações e novas delineações urbanas. Foi o botânico e arquiteto paisagista francês Auguste Glaziou (1833 – 1906), que tinha vindo para o Brasil – segundo a maioria das fontes, a convite de dom Pedro II -, o responsável pelo embelezamento da praça, iniciado nos primeiros anos da década de 1870 (Jornal do Commercio, 2 de maio de 1872, terceira coluna; e Diário do Rio de Janeiro, 24 de dezembro de 1873, primeira coluna) com a a construção de jardins românticos, cascatas, pontes e grutas. A inauguração da obra aconteceu em 7 de setembro de 1880 com a presença do imperador. Na ocasião, Glaziou foi condecorado com a Ordem de Cristo (Gazeta de Notícias, 7 de setembro de 1880, primeira coluna; e Gazeta de Notícias, 8 de setembro, primeira coluna).

 

 

Auguste Glaziou, por Auguste Petit

Glaziou nasceu na cidade de Lannion, na Bretanha, em 30 de agosto de 1828. Formado em Engenharia, estudou Botânica no Museu de História Natural de Paris e participou da reforma do Jardim Público da cidade de Bordeaux. Chegou ao Rio de Janeiro em 1858, onde permaneceu até 1897, quando se aposentou e voltou para a França, onde faleceu em 30 de março de 1906. Durante sua estadia no Brasil, foi Diretor dos Parques e Jardins da Casa Imperial e Inspetor dos Jardins Municipais, além de ter integrado a Associação Brasileira de Aclimação, tendo trabalhado em obras de melhoramentos no Jardim Botânico, na Quinta da Boa Vista, na Floresta da Tijuca e no Passeio Público. Também realizou obras nos jardins da residência das princesas imperiais, da família do Barão de Nova Friburgo, do Barão de Mauá, no Rio de Janeiro, e de Tavares Guerra, em Petrópolis, dentre outros.

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

COARACY, Vivaldo. Coleção Rio 4 séculos, volume 3. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1965.

GERSON, Brasil. História das Ruas do Rio. Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2013.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Site da Casa de Rui Barbosa

Site da MultiRio

Site do Museu Nacional