Celebrando o fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923)

Celebrando o aniversário de Marc Ferrez (7 de dezembro de 1843 – 12 de janeiro de 1923), a Brasiliana Fotográfica traz para seus leitores todos os artigos já publicados no portal sobre o fotógrafo e o Instituto Moreira Salles, uma de suas instituições fundadoras, inaugura a exposição “Marc Ferrez: território e imagem”, em sua sede carioca, no próximo dia 7. Lembramos que estão disponibilizados no nosso acervo os dois álbuns da Comissão Geológica do Império, com fotografias de autoria de Ferrez, que integrou a expedição, chefiada por Charles Frederick Hartt, entre 1875 e 1877. Os álbuns pertencem ao J. Paul Getty Museum, localizado em Los Angeles, nos Estados Unidos e estão em alta resolução devido ao Programa de Conteúdo Aberto do Getty. As fotografias dos álbuns foram expostas na seção de Obras Públicas da 4ª Exposição Nacional de 1875 e na Exposição Internacional da Filadélfia em 1876.

Segundo Sérgio Burgi, coordenador de Fotografia do Instituto Moreira Salles, já com pleno domínio de sua virtuosidade técnica, Ferrez realizou para a comissão um primoroso trabalho documental e paisagístico:

‘…Seu domínio da luz, sua precisão na escolha do ponto de vista, sempre buscam ressaltar os aspectos mais formais e abstratos da cena sendo registrada. É igualmente importante ressaltar que em diversas imagens realizadas por Ferrez, sempre o elemento humano participa de maneira discreta porém marcante, conferindo escala aos cenários naturais e urbanos, e principalmente nos convidando a percorrer a imagem em todas as suas dimensões…Os trabalhos realizados em Paulo Affonso, Pernambuco, Recôncavo Baiano, Abrolhos e sul da Bahia representam um grande esforço documental e registram, além dos aspectos mais claramente geológicos, paisagens naturais e vistas urbanas de grandes cidades e pequenas povoações daquelas regiões, além de elementos antropológicos e etnográficos, como a série dos índios botocudo… Essas imagens também foram utilizadas para ilustrar  a conferência do professor Charles Frederick Hartt durante a IV Exposição Nacional, no Rio de Janeiro… Da mesma maneira, diversas imagens fizeram parte da Exposição Universal da Filadélfia, EUA, em 1876, que contou com a presença de D. Pedro II…’

 

Links para os álbuns da Comissão Geológica do Império, que pertencem ao J. Getty Museum e estão no site da instituição: Primeiro álbum e Segundo álbum

Links para os pdfs dos álbuns da Comissão Geológica do Império, que pertencem ao J. Getty Museum:  Primeiro álbum e Segundo álbum

 

 

Um pouco da história da Comissão Geológica do Império (1875 – 1878), de seu chefe, Charles Frederick Hartt (1840 – 1878), e da participação de Marc Ferrez (1843 – 1923) como fotógrafo da expedição

 

 

Em 1874, Charles Frederick Hartt (1840 – 1878), realizou uma expedição científica ao Brasil, durante a qual convenceu as autoridades brasileiras da importância da elaboração de um mapa geológico do Império. Antes, Hartt havia vindo ao Brasil quatro vezes. Pela primeira vez, como membro da Expedição Thayer, entre 1865 e 1866, financiada pelo empresário e filantropo norte-americano Nathaniel Thayer, Jr. (1808-1883) e chefiada por seu ex-professor no Museu de Zoologia Comparada, em Harvard, o suíço Louis Agassiz (1807 – 1873), quando ocupou-se sobretudo em fazer um mapeamento geológico da área do Rio de Janeiro até o norte da Bahia. Em 1867, já estabelecido como conferencista no Instituto Cooper, em Nova York, voltou ao Brasil, de maneira independente, e durante três meses examinou a costa entre Pernambuco e Rio, explorando mais particularmente as vizinhanças da Bahia e as ilhas e recifes do coral dos Abrolhos. Em 1868, tornou-se professor de História Natural no Vassar College e também da Universidade de Cornell. Em 1870 e em 1871, chefiou as Expedições Morgan ao Amazonas, financiadas pelo político norte-americano Edwin D. Morgan (1811- 1883) .

Além de ter obtido sucesso em seu pleito junto ao Governo Imperial, Hartt conseguiu criar a Comissão Geológica do Império, pelo Aviso de 30 de abril de 1875. Como a comissão estaria ligada ao Ministério da Agricultura, o desenvolvimento das atividades agrícolas e mineradoras a partir do conhecimento que a geologia propiciaria foi um argumento decisivo para sua criação. Foi convidado para chefiá-la e foram nomeados como seus assistentes os geólogos Orville Adalbert Derby (1851 – 1915) e Richard Rathbun (1852-1918) – ambos da Universidade de Cornell -, que chegaram ao Brasil em fins de 1875; John Casper Branner (1850-1922), do Departamento de Botânica e Geologia da Universidade de Indiana; e os brasileiros Elias Fausto Pacheco Jordão (1849 – 1901), que havia se doutorado em 1874 em engenharia civil na Universidade de Cornell, e Francisco José de Freitas, assistente geral e tradutor. Integraram, também, o corpo técnico da comissão os geólogos Luther Wagoner, substituto de Pacheco Jordão, em 1876, que foi posteriormente substituído por Frank Carpenter; o naturalista Herbert Huntington Smith (1851-1919), e o fotógrafo Marc Ferrez (1843-1923). Segundo Gilberto Ferrez, foi durante as viagens que fez com a Comissão Geológica que Marc Ferrez contraiu uma doença no fígado, da qual nunca se curou.

 

 

A Comissão, criada em abril de 1875, iniciou seus trabalhos ativos em 10 de junho de 1875 e percorreu os atuais estados de Alagoas, Bahia, Fernando de Noronha, Paraná, Pernambuco, Rio Grande do Norte, São Paulo, Santa Catarina, Sergipe, e parte da região amazônica nessa importante missão científica realizada no Brasil sob os auspícios do governo imperial, que gerou a primeira grande representação fotográfica de diversas regiões do território brasileiro (Illustração Brasileira, 1º de agosto de 1876). O governo decretou o fim da Comissão em 1º de julho de 1877 (Diário do Rio de Janeiro, 7 de julho de 1877, quarta coluna). Segundo Rathbun, o fato aconteceu devido a motivos econômicos e a discordâncias em torno do volume e do valor do trabalho realizado até ali pela comissão. Porém Hartt conseguiu seis meses de prorrogação nos trabalhos. No início de janeiro de 1878, com a formação do novo gabinete liberal, sob o comando do primeiro-ministro João Lins Vieira de Cansanção, o visconde de Sininbu (1810 – 1906), que também era ministro da Agricultura, sua extinção foi efetivada. Segundo Hartt, em junho de 1877,  as coleções zoológicas, geológicas e etnográficas feitas pela Comissão Geológica possuíam cerca de 500 mil espécimes.

Hartt foi contratado como naturalista-viajante do Museu Nacional do Rio de Janeiro, por volta de 1874. Em 1876, assumiu a Seção de Geologia, criada pela reforma do botânico Lasdilau de Souza Mello Netto (1838 – 1894), e reorganizou as coleções e preparou a mostra mineralógica brasileira apresentada na Exposição Universal de Filadélfia de 1876. Faleceu em 18 de março de 1878, um domingo, no Rio de Janeiro, de febre amarela, em sua casa no número 44 da rua da Princesa, atual Correia Dutra, no Flamengo (O Vulgarizador, 15 de maio de 1878) . Os professores e demais funcionários do Museu Nacional deliberaram tomar luto por oito dias (Gazeta de Notícias, 19 de março de 1878, segunda e penúltima colunaJornal do Commercio, 19 de março de 1878, quarta colunaRevista Illustrada, 30 de março de 1878; e O Vulgarizador, 15 de maio de 1878). Morreu sem sua família porque  sua mulher, Lucy Lynde Hartt, com quem havia se casado em 1869, havia voltado com os dois filhos do casal, Mary and Rollin, para Buffalo, nos Estados Unidos, em dezembro de 1876  – não suportou os períodos de solidão, os mosquitos, as doenças e os desconfortos do Rio de Janeiro. Quando partiu do Brasil, ela estava grávida de gêmeos mas a gravidez não se completou, o que trouxe grande tristeza para o casal. Hartt foi enterrado no cemitério de São Francisco Xavier mas, a pedido de sua esposa, seu corpo foi transladado para os Estados Unidos, em 1883.

Suas coleções foram colocadas sob a guarda do Museu Nacional do Rio de Janeiro, única instituição da época capaz de receber intelectual e fisicamente todo o trabalho da Comissão Geológica.

Acessando o link para as fotografias de Marc Ferrez realizadas para a Comissão Geológica do Império disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Breve cronologia da participação de Marc Ferrez nos trabalhos da Comissão Geológica do Império

 

 

1875 – Ferrez começou a trabalhar como fotógrafo da Comissão Geológica do Império, chefiada pelo norte-americano Charles Frederick Hartt (1840 – 1878), que se tornaria diretor da Seção de Geologia do Museu Nacional em 1876. Percorreu os atuais estados de Alagoas, Bahia, Pernambuco e parte da região amazônica numa importante missão científica realizada no Brasil sob os auspícios do governo imperial, que gerou a primeira grande representação fotográfica de diversas regiões do território brasileiro.

Marc Ferrez e outros membros da Comissão Geológica do Império embarcaram no paquete Parácom destino a Pernambuco (Jornal do Commercio, 10 de julho de 1875, na segunda coluna). Ele, Elias Fausto Pacheco Jordão, Francisco José de Freitas e Charles Frederick Hartt, todos membros da Comissão, agradeceram, publicamente, ao “digno comissário” J. Feliciano Gomes, que os recebeu no navio (Jornal do Recife, 26 de julho de 1875, na quarta coluna).

Foi publicado o relatório preliminar dos trabalhos da Comissão Geológica na província de Pernambuco, de autoria de Hartt. Ferrez foi mencionado (Diário de Pernambuco, 25 de novembro de 1875, na primeira coluna).

As fotografias produzidas por Marc Ferrez para a Comissão Geológica, mostradas durante uma visita do governador, do chefe da Polícia e do Diretor de Obras de Pernambuco na residência de Haart no Recife, foram muito elogiadas: “Rara vez um fotógrafo é tão feliz na reprodução dos quadros naturais como o Sr. Ferrez o foi neste trabalho, do qual com justiça se deve se regozijar” (Diário do Rio de Janeiro, 30 de novembro de 1875, segunda coluna).

 

 

Na residência do inspetor do arsenal de Marinha, em Recife, o chefe da Comissão Geológica do Império, Charles Frederick Hartt, fez uma conferência sobre os arrecifes e outros aspectos de Pernambuco como o cabo de Santo Agostinho, praias, o rio São Francisco e a cachoeira de Paulo Afonso, ilustrados com fotografias de Marc Ferrez (Diário do Rio de Janeiro, 2 de dezembro de 1875, nas quinta e sexta coluna, sob o título “Norte do Império”).

Ferrez  apresentou na seção de Obras Públicas da IV Exposição Nacional, dois álbuns com imagens dos recifes de Pernambuco, do baixo São Francisco e da cachoeira de Paulo Afonso, além de registros de corais e madrepérolas. As imagens produzidas durante a viagem da Comissão Geológica foram projetadas por Ferrez durante uma conferência do professor Hartt (Diário do Rio de Janeiro, 27 e 28 dezembro de 1875, primeira colunaO Globo, 4 de janeiro de 1876, na penúltima coluna, e Diário do Rio de Janeiro, 3 de fevereiro de 1876, quarta coluna).

1876 -  Apresentou na Exposição Universal da Filadélfia, aberta em 10 de maio, panoramas do Rio de Janeiro e fotografias realizadas para a Comissão Geográfica do Império, que foram premiadas. Foram expostas no Photographic Exhibition Building, prédio projetado pelo arquiteto H.J. Schwarzmann (1846 – 1891) onde foram exibidas as fotografias do evento.

 

 

 

 

New York Commercial Advertiser, de 29 de maio de 1876, publicou um artigo que informava que “riquíssimas fotografias da exploração geológica a cargo do professor Hartt” haviam sido apresentadas pelo Brasil na exposição. Uma curiosidade: a comissão de organização da Exposição da Filadéfia modificou as regras da premiação: os ganhadores receberiam um diploma, uma medalha de bronze e uma cópia certificada do parecer do júri, rompendo com o padrão de premiação hierárquica (Free Library of Philadelphia).

 

1876 Centennial Exposition Award MedalExpositon Medal

 

Foi publicada uma fotografia de autoria de Ferrez da cachoeira de Paulo Afonso na Revista Ilustração Brasileira, 1º de agosto de 1876, acompanhada por um texto de Charles Frederick Hartt (1840 – 1878), chefe da Comissão Geológica do Império. Na mesma edição, publicação de matéria sobre a Comissão Geológica do Império.

 

 

 

Ferrez havia chegado do sul da Bahia com o geólogo Richard Rathbum, também ajudante da Comissão Geológica, com diversas fotografias dos índios botocudo, dentre outras (Revista Ilustração Brasileira, 1º de novembro de 1876, na última coluna). Essas teriam sido as primeiras imagens desses índios produzidas no Brasil (Palcos e Telas, 8 de abril de 1920). Botocudo foi um termo genérico utilizado pelos colonizadores portugueses para denominar diversos grupos indígenas integrantes do tronco macro-jê (grupo não tupi), caracterizados pelo uso de botoques labiais e auriculares, habitantes originais do sul da Bahia e região do vale do rio Doce, incluindo o norte do Espírito Santo e Minas Gerais. A série de fotografias de indígenas tirada por Marc Ferrez na Bahia, durante uma segunda etapa de viagens realizadas por ele para a Comissão Geológica do Império do Brasil, no final de 1876, compõe um conjunto de  registros fotográficos pioneiros e raros dessas tribos, que se mantiveram isoladas e resistentes ao contato com os brancos, sendo violentamente perseguidas e praticamente  dizimadas nas primeiras décadas do século XX.

 

 

 

 

1877 – Publicação da fotografia do farol da Barra da Bahia, de autoria de Marc Ferrez, na capa da Revista Ilustração Brasileira, 15 de janeiro de 1877.

 

 

 

O governo decretou o fim da Comissão em 1º de julho de 1877 e em janeiro do ano seguinte sua extinção foi efetivada.

Publicação de uma matéria sobre o trabalhos da Comissão Geológica do Império e sobre o local onde estavam guardados e onde os membros da comissão cuidavam de sua classificação, estudo e do desenvolvimento, na rua da Constituição, nº 41, visitado pelo imperador Pedro II, no dia 27 de outubro. Foi mencionada a existência de um laboratório fotográfico, “grande e espaçoso…nele estão guardados algumas centenas de clichês , feitos no campo pelos Srs. Ferrez e Branner e no laboratório pelo Sr. Ratbunn (Rathbun), que hoje toma conta dessa parte do serviço da comissão” (O Vulgarizador, 3 de novembro de 1877). O imperador já havia visitado o local dos trabalhos da Comissão, em 30 de julho de 1877 (Diário do Rio de Janeiro, 31 de julho de 1877, segunda coluna).

1878 – No Almanak Laemmert de 1878, Ferrez foi identificado como fotógrafo da Marinha Imperial e da Comissão Geológica. Seu estabelecimento ficava na rua São José, 88 com depósito na rua do Ouvidor, 55.

Foi noticiada a morte de Charles Frederick Hartt, que havia sido o chefe da Comissão Geológica do Império. Ferrez foi mencionado (A Boa Nova, 24 de abril de 1878, na terceira coluna).

1879 -  Em inglês, foram publicados anúncios das fotografias de Ferrez no jornal Rio News de 5 de agosto, de 15 de setembro15 de outubro5 de novembro, mencionando que ele havia recebido uma medalha na Exposição da Filadélfia e que havia sido fotógrafo da Comissão Geológica do Império. Os anúncios seguiram sendo publicados em 1880 e 1881.

 

Publicações da Brasiliana Fotográfica em torno da obra do fotógrafo Marc Ferrez 

O Rio de Janeiro de Marc Ferrez, publicada em 30 de junho de 2015

Obras para o abastecimento no Rio de Janeiro por Marc Ferrez , publicada em 25 de janeiro de 2016

O brilhante cronista visual Marc Ferrez (7/12/1843 – 12/01/1923), publicada em 7 de dezembro de 2016

Do natural ao construído: O Rio de Janeiro na fotografia de Marc Ferrez, de Sérgio Burgi, publicada em 19 de dezembro de 2016

No primeiro dia da primavera, as cores de Marc Ferrez (1843 – 1923), publicada em 22 de setembro de 2017

Marc Ferrez , a Comissão Geológica do Império (1875 – 1878) e a Exposição Antropológica Brasileira no Museu Nacional (1882), publicada em 29 de junho de 2018

O quiosque Chopp Berrante no Passeio Público, Ferrez, Malta e Charles Dunlop, publicada em 20 de julho de 2018

Uma homenagem aos 175 anos de Marc Ferrez (7 de dezembro de 1843 – 12 de janeiro de 1923), publicada em 7 de dezembro de 2018 

Pereira Passos e Marc Ferrez: engenharia e fotografia para o desenvolvimento das ferrovias, publicado em 5 de abril de 2019

Fotografia e ciência: eclipse solar, Marc Ferrez e Albert Einstein, publicado em 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

 

CASTRO, Danielle Ribeiro. Photographos da Casa Imperial: a Nobreza da Fotografia no Brasil do Século XIX, 2013

CERON, Ileana Pradilla Ceron. Marc Ferrez – uma cronologia da vida e da obra. São Paulo : Instituto Moreira Salles, 2018.

Charles F. Hartt e a Comissão Geológica do Império (Youtube)

FREITAS, Marcus Vinícius. Hartt: expedições pelo Brasil Imperial 1870 – 1878, 2001. São Paulo : Metalivros

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

SANJAD, Nelson. Charles Frederick Hartt e a institucionalização das ciências naturais no Brasil, maio/agosto de 2004. Rio de Janeiro: História, Ciências, Saúde-Manguinhos, volume 11, nº2

SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

Serviços Geológicos nos trópicos: a experiência brasileira

Site Free Library of Philadelphia

Café Brasil: o Império na Exposição Internacional de Filadélfia

Os portões se abriram em 10 de maio de 1876, tendo à frente o presidente americano Ulysses S. Grant (1822 – 1885) e o imperador do Brasil; a música era do alemão Richard Wagner (1813 – 1883), composta especialmente para a exposição“. Assim foi inaugurada a Exposição Internacional da Filadélfia. É um pouco dessa história, com a disponibilização de fotografias do evento, que a historiadora Claudia B. Heynemann, do Arquivo Nacional, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, traz para os leitores do portal no artigo “Café Brasil: o Império na Exposição Internacional de Filadélfia”. Nas exposições universais ou internacionais, das quais o Brasil participou de 5 durante o século XIX – Londres (1862), Paris (1867 e 1889), Viena (1873) e Filadélfia (1876) -, eram expostos os símbolos do progresso das sociedades industrializadas. Eram “espetáculos da modernidade” onde eram divulgadas as novidades da arte, da cultura, da ciência e da técnica. Foi na Exposição Internacional da Filadélfia que foram apresentados panoramas do Rio de Janeiro e fotografias realizadas para a Comissão Geológica do Império, de autoria do fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923).

 

 

Café Brasil: o Império na Exposição Internacional de Filadélfia

Claudia B. Heynemann*

 

A partir de 1862, em Londres, o Brasil participou oficialmente de cinco exposições internacionais ou universais no século XIX. As exposições, intituladas internacionais para um cenário de países unidos, mas competitivos ou universais, na perspectiva francesa da fraternidade, consagraram-se como eventos característicos nos quais eram expostos os trunfos das sociedades industrializadas e seu progresso.

Acessando o link para as fotografias da exposição brasileira na Exposição Internacional de Filadélfia de 1876 disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas. 

Na cartografia que se estabelecia, predominava entre as prateleiras das economias dos países recém-independentes a exibição de seus recursos naturais e de produtos que formavam a pauta primária da exportação. Por vezes tratado como o espelho de seu descompasso, opondo mundo civilizado ao primitivo, sociedades urbanas versus a selva e a floresta, o Brasil de d. Pedro II estava atento às exposições e, embora trouxesse maquinário de ferrovias, peças relacionadas ao telégrafo e artefatos bélicos, entre outros itens saídos de suas fábricas, continuava a ser lembrado por sua agricultura, sua fauna e flora (1). Nesse espetáculo se reencenava o domínio da técnica, os ideais da “civilização”, o imperialismo e a submissão dos povos “exóticos” e ainda mais se impunha uma
visualidade e uma apreensão do mundo calcadas em uma rede de aproximações, contrastes, circuitos, fluxos; nos enunciados e na taxionomia que preside o sistema das exposições (2).

A delegação brasileira em Filadélfia se sobressai na série de exposições internacionais nas quais o Império se fez representar. Finda há poucos anos a Guerra do Paraguai, que
havia exposto a fraqueza do Estado, o governo responde prontamente ao convite para a primeira exposição internacional na América, que assinalava o centenário da Independência do país sede. Os americanos também tinham na memória recente a guerra civil, cujas feridas se agravavam com a depressão industrial de 1873 e a feira podia, no mínimo, desviar as atenções das denúncias de corrupção que vinham da capital, das falências e da insatisfação dos trabalhadores com o sistema industrial:

Contudo, mais do que apenas fornecer um escape das incertezas políticas e econômicas dos anos de Reconstrução, a feira foi uma resposta calculada a essas condições. Seus organizadores procuraram desafiar dúvidas e restabelecer a confiança na vitalidade do sistema de governo da America assim como na estrutura econômica e social do país. No momento em que os portões se abriram a feira funcionou como “uma escola para a nação”, um modelo da “Meca americana”(3)

 

Os portões se abriram em 10 de maio de 1876, tendo à frente o presidente americano Grant e o imperador do Brasil; a música era de Wagner, composta especialmente para a exposição. Enormes pavilhões em madeira, ferro e vidro tomavam aquele espaço que acabou por se mostrar excepcionalmente bom, mais uma expectativa negativa que seria revertida na época. Logo no primeiro dia passaram pelos pavilhões 186.672 visitantes aos quais se somariam outros até chegar à cifra de quase 10 milhões de pessoas do público total, equivalente a quase 1/5 da população americana, superando o número de expectadores de todas as exposições anteriores. O ápice da solenidade de inauguração foi a demonstração da máquina Corliss, um gerador de energia que provia as exibições no “Machinery Hall”, o salão de máquinas. Acionado pelo imperador brasileiro e pelo presidente americano conseguiu deixar em suspenso o poeta Walt Whitman que, sensível aos efeitos do progresso, permaneceu em silêncio por longos minutos diante daquela que era a maior máquina já vista(4).

América, Américas

A América do Norte era parte do Novo Mundo, mas se colocava ao lado das grandes potências europeias no desenvolvimento industrial, no domínio da técnica, impondo-se
simultaneamente como celeiro da humanidade. Em resposta à tese da inferioridade da América, do continente imaturo, na senda aberta por Buffon e trilhada por outros naturalistas, a disputa do Novo Mundo iria se modificar ao longo do século XIX. Por um lado, as ciências naturais começavam a se emancipar da rigidez das ideias climáticas, por outro, o desenvolvimento social e político dos Estados Unidos e a vitalidade dos países hispano-americanos contradiziam as habituais caracterizações da América, especialmente dos Estados Unidos, mesmo que a aversão europeia
permanecesse e migrasse das considerações sobre a natureza física para as sociedades (5). Contudo, enquanto o romantismo norte-americano emprestaria um caráter original à sua natureza e literatura, era recente o massacre dos indígenas e a escravidão praticada nos estados do sul. Indígenas e negros seriam exibidos como elementos exóticos e à parte da sociedade em Filadélfia, de onde igualmente se propagaria a voz dos homens de negócios, dos líderes políticos, das corporações, num elogio do progresso tecnológico e da nacionalidade. Eram realidades percebidas como indissociáveis, segundo a fórmula de que “escravizar os negros e dominar os índios, arrebatando-lhes a terra, não era apenas um direito, mas um dever dos brancos, civilizados e superiores, de instaurarem uma ordem social mais ‘avançada’” (6).

No campo das relações internacionais, sobretudo da política norte-americana para seus vizinhos ao sul, a partir da formulação da Doutrina Monroe de 1823 e ao longo do século XIX, não houve grandes variações. Pautaram-se de modo contínuo “por três principais preocupações: a segurança nacional, os interesses financeiros e a política doméstica”( 7).  Marcadas pela distância e pela barreira da língua, os contatos entre os dois países foram rotineiros, com um volume modesto de transações, não obstante o Brasil figurar como o maior parceiro comercial dos americanos na região. E se o Império tinha pouca importância estratégica para os Estados Unidos, por sua vez o Brasil relacionava-se prioritariamente com a Europa, situação que começaria a se transformar a partir de 1875 com a melhora nas comunicações e o reconhecimento da relevância que a economia americana poderia ter para os interesses brasileiros:

 

A tendência a uma maior aproximação também é corroborada pela visita do imperador Dom Pedro II aos Estados Unidos em 1876, em virtude das comemorações do centenário da independência estadunidense. Embora faltasse uma motivação política real para a visita, assuntos como a expansão do comércio entre os países foram tratados(8).

 

Para os americanos, a organização de uma exposição internacional comemorativa do centenário da independência reafirmava seu lugar junto às economias centrais, enquanto a disposição dos pavilhões do Brasil e do México, instalados à frente do país anfitrião podia ser interpretada como um passo em direção aos vizinhos. Do lado brasileiro o país contava, para sua visibilidade, com três locais para ostentação de seus produtos e atividades, a começar pelo estande interno ao edifício principal do parque. Em diversas imagens dessa série constatamos que o país ocupava uma construção mourisca, vinculando-nos a uma origem sem dúvida, alheia, no entanto, aos elementos normalmente associados à ex-colônia. Imponente, portando os nomes das províncias nas divisões internas e por toda fachada externa, deixando entrever vitrines e produtos, foi criado pelo arquiteto americano Frank Furness que se valeu do estilo em voga: “empregou seus temas islâmicos favoritos no pavilhão brasileiro: o arco em ferradura e o arco ogival, ameias, superposição de colunas com seção quadrada sobre outras de seção circular para criar altura […] pastilhas de vidro coloridas e ornamentos florais” (9)

 

 

Outro edifício, de autoria de Hermann J. Schwarzmann, arquiteto-chefe da exposição ficava em meio ao parque; registrado em um ângulo lateral, tendo ao fundo árvores nuas
e à frente o brasão do Império, erguia-se em dois andares, completamente americano, “com bow-windows, estrutura em madeira, colunas esbeltas na varanda elevada e perfis
em relevo marcando “almofadas” na parede”. Como escreve Niuxa D. Drago, o ecletismo permitia a todos os países adotar a sua “identidade arquitetônica”, o que não foi seguido pelo Brasil, que mostrou opulência, e não o que se poderia chamar de uma arquitetura nacional (10).

 

 

O registro dessas construções do Brasil e de todo o evento é de autoria da empresa Centennial Photographic Company, presidida por W. Notman, fotógrafo canadense já bastante conhecido nos Estados Unidos. Ele se tornou ainda mais popular ao se juntar ao empresário da fotografia Edward Wilson na firma contratada com exclusividade pelo estado da Pensilvânia. William Notman e seus associados tinham assim o direito de anunciar e vender o catálogo de vistas da exposição, além de deter os direitos sobre todo o trabalho fotográfico feito em Fairmont Park ( 11).

Café Brasil

Na série de onze fotografias, duas especialmente dialogam entre si e são as únicas a incluir pessoas. A mais famosa foi tirada do pavilhão “Caffé do Brazil” (12) e é, por sua vez, uma das duas ao ar livre. Exibindo frequentadores bem trajados, distribuídos em mesinhas à porta, simulam esse hábito cotidiano em ascensão, incorporado à vida social e urbana dos grandes centros da Europa e dos Estados Unidos. Enquanto em primeiro plano somos atraídos para a louça, chapéus, bengalas e poses, ao fundo, próximos à máquina de café, se distinguem um homem de cavanhaque e uma mulher. Trata-se do capitão da Guarda Nacional Luiz Ribeiro de Souza Rezende (1827-1891), filho do marquês de Valença, militar condecorado na Guerra do Paraguai com as comendas da
Ordem da Rosa e da Ordem de Cristo, acompanhado por sua esposa Maria Ambrosina da Motta Teixeira. Segundo matéria publicada quase um século depois no jornal Correio da Manhã, Rezende recebeu três contos de réis de ajuda da Comissão Brasileira para servir o “genuíno café” (além de mate e chá) no Fairmount Park. Era um modo de promover os 71 expositores de café que vinham do Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia, Pernambuco e Ceará e, portanto, embora fossem inevitáveis os prejuízos face os custos de manutenção e ao fornecimento gratuito, isso, segundo o Correio, não preocupava o brasileiro, “que na propaganda era auxiliado por sua mulher, d. Maria Ambrosina da Mota Teixeira de Rezende e os dois filhos, Carlos e Amélia” (13).

 

 

O sucesso do principal produto de exportação da economia brasileira, responsável pelos superávits alcançados até em períodos de grande oscilação dos preços, devia-se em parte à oferta do café já empacotado e torrado, pronto para o consumo a partir de 1865. Em seu curso ininterrupto e devastador das matas, ao longo do século o café garantiu a obtenção de empréstimos no exterior. Outros produtos como o açúcar, o algodão e o fumo estavam no topo do quadro de exportações, sendo que, na década de 1871 a 1880, o café correspondia a 56,6% do valor, seguido de longe pelo açúcar, com 11,8%, e pelo algodão, que participava com 4,2% (14). Esse último decorou em profusão a seção brasileira no pavilhão agrícola (15) . Em meio às muitas ramagens de algodão um quadro de produtos de exportação do Império fornece os valores em moeda estrangeira. Inclui couro, tabaco, borracha, erva-mate, diamantes e outros, em seguida aos três principais itens. Além dos produtos agrícolas, minérios, itens manufaturados como mobiliário, vestuário, material bélico (munição) dividiam espaço com quadros, gravuras, mapas e fotografias.

 

 

Entre as províncias mais empenhadas na preparação que antecedeu Filadélfia, estavam o Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul coerentemente com os principais polos econômicos e com a situação política do Brasil dos anos 1870. De modo geral foi grande o entusiasmo dos políticos e da classe senhorial com a presença brasileira no evento, quando se procurou mostrar todo o potencial do país, mesmo que as riquezas naturais ficassem em primeiro plano e que, a despeito de Brasil e Estados Unidos serem as maiores nações da América do Sul e do Norte, a discrepância entre ambas fosse inegável: “para a tropical monarquia dos Bragança, a Exposição foi muito além da expectativa dos povos europeus. Enfim, a modernidade atravessava o oceano e
comprovava-se ser possível a aventura do progresso em terras americanas. Os Estados Unidos, que também haviam sido colônias d’-mar, eram o exemplo vivo de que era possível acompanhar o trem da história”(16). Ainda para Sandra Pesavento a estrela da exposição foi Pedro II que se notabilizou pela admiração demonstrada ante o invento de Alexander Graham Bell, conquistando a simpatia de muitos, mas não de todos, como os chargistas da Harper´s Bazaar, que não pouparam o séquito de brasileiros que cercavam o imperador, desenhando-os com cabeças de burros. Finalmente, acrescenta a autora, não houve apenas entusiasmo. A Comissão Brasileira admitia em relatório que o sucesso eventualmente obtido se atribuía às riquezas naturais e não aos produtos da indústria, o que não deixava de ser uma depreciação do uso da mão de obra de escravizados no país (17).

 

 

A imagem que constrói uma narrativa com o “Caffé do Brazil” tem ao centro o tear no qual Maria Ambrozina, natural de Sabará, Minas Gerais, ensina a tecer a seda (18). Casada com Luís Ribeiro S. Rezende, ela participou das demonstrações que envolviam os dois negócios de interesse da família. Membro da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional – SAIN à época da escolha dos membros da Comissão das Exposições (19) , o capitão era o proprietário da Imperial Companhia Seropédica Fluminense, em Itaguaí, salva da falência por sucessivas doações de loterias concedidas pela assembleiafluminense. A compra da companhia explica o estande e a tabuleta “Estabelecimento Seropédico Bananal de Itaguaí”. Bem próxima a ela está o quadro anunciando o “Café Luís Ribeiro de Souza Rezende”, tradução da simbiose entre o café e os estabelecimentos manufatureiros que começam a prosperar ao final do século. Esse talvez seja, afinal, o registro mais importante da participação brasileira em Filadélfia, no qual, a despeito da postura ensaiada, diversos entre os presentes deixaram apenas um rastro, o vulto tremido, comum na fotografia oitocentista e alusiva ao modo de inserção do Império na grande feira.

 

 

(1) MACHADO, Marina Monteiro; MARTINS, Monica de Souza Nunes. A modernidade nas teias da floresta: o Brasil na exposição Universal da Filadélfia de 1876. Geosul, Florianópolis, v. 32, n. 65, p. 68-86, nov. 2017. ISSN 2177-5230. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/geosul/article/view/2177-5230.2017v32n65p68>. Acesso em: 4 jul. 2018.

(2) SANJAD, Nelson. Exposições internacionais: uma abordagem historiográfica a partir da América Latina. Hist. cienc. saúde-Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 24, n. 3, p. 785-826, set. 2017. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702017000300785&lng=pt&nrm=iso> Acessos em 3 jul.2018

(3) RYDELL, Robert W. The Centennial Exhibition, Philadelphia, 1876: the exposition as a "moral influence". In: All the world's a fair: visions of empire at american international expositions, 1876-1916.Chicago: The University os Chicago Press, 1984, p. 11.

(4) Idem, p. 9.

(5) Cf. GERBI, Antonello. La disputa del Nuevo Mundo, 1750-1900. México, Fondo de Cultura Económica, 1960.

(6) PESAVENTO, Sandra Jatahy. Imagens da nação, do progresso e da tecnologia: a Exposição Universal de Filadélfia de 1876. Anais do Museu Paulista. São Paulo. N. Ser. v.2 p.151-167 jan./dez. 1994, p. 158.

(7) BIANCHET Jr., Antonio Battisti. As relações EUA-América Latina na segunda metade do século XIX. Um estudo através dos casos de Argentina e Brasil. Anais do V Congresso Internacional de História. UEL. Set, 2011, p. 551 Disponível em http://www.cih.uem.br/anais/2011/trabalhos/246.pdf. Acesso em 17/10/2019

(8) Idem, p. 556

(9) DRAGO, Niuxa Dias. Arquitetura e cenografia na representação do Brasil: pavilhões brasileiros de Londres a Milão. O Percevejo Online. Rio de Janeiro, v. 8, n. 1, jan. / jun. 2016, p. 37. Disponível em http://www.seer.unirio.br/index.php/opercevejoonline/article/view/5758. Acesso em 16/10/2019

(10) Idem, p. 38

(11) HALL, R., DODDS, G., TRIGGS, S. The world of William Notman: the nineteenth century through a master lens. Boston : D.R. Godine, 1993, p. 44.

(12) BR_RJANRIO_O2_0_FOT_0474_m0010de0011 http://brasilianafotografica.bn.br/brasiliana/handle/20.500.12156.1/4936

(13) Café e seda do Brasil em 1876 fizeram propaganda em Filadélfia. Rio de Janeiro, 30 de outubro de 1960. Correio da Manhã. Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=089842_07&pasta=ano%20196&pesq=Caf%C3%A 9%20e%20seda. Acesso em 20 de outubro de 2019.

(14) FARIA, Sheila de Castro. Exportações. In: VAINFAS, Ronaldo (Dir.). Dicionário do Brasil Imperial. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002, p. 248

(15) BR_RJANRIO_O2_0_FOT_0474_m0009de0011 http://brasilianafotografica.bn.br/brasiliana/handle/20.500.12156.1/6680

(16) PESAVENTO, Sandra Jatahy. Op. cit., p. 162

(17) Idem.

(18) BR_RJANRIO_O2_0_FOT_0474_m0008de0011 http://brasilianafotografica.bn.br/brasiliana/handle/20.500.12156.1/4935

(19) O Auxiliador da Indústria Nacional: ou coleção de memorias e notícias interessantes (RJ) – 1833 a 1896 Sessão da Assemblea Geral em 31 de dezembro de 1875. Disponível em
http://memoria.bn.br/DocReader/Hotpage/HotpageBN.aspx?bib=302295&pagfis=24711&url=http://memoria.bn.br/docreader#. Acesso em 20 de outubro de 2019

 

Claudia B. Heynemann  é Doutora em História e Pesquisadora do Arquivo Nacional

 

Fotógrafos que representaram o Brasil na Exposição Internacional da Filadélfia de 1876 

As fotografias produzidas por Marc Ferrez (1843 – 1923) para a Comissão Geológica do Império e Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912) foram premiados na Exposição de 1876. Uma curiosidade: a comissão de organização da Exposição da Filadéfia modificou as regras da premiação: os ganhadores receberam um diploma, uma medalha de bronze e uma cópia certificada do parecer do júri, rompendo com o padrão de premiação hierárquica.

Além deles, representaram o Brasil Felipe Augusto Findanza (c. 1847 -1903), um dos mais importantes fotógrafos que atuaram no norte do Brasil no século XIX e no início do século XX; José Tomás Sabino (18? – ?), cujo ateliê ficava em Belém; Luís Terragno (18? – ?), um dos fotógrafos pioneiros do Rio Grande do Sul; e Pedro Satyro de Souza da Silveira (18? – ?), que atuou no Rio de Janeiro nas décadas de 1870 e 1880. Expuseram no Photographic Exhibition Building, prédio projetado pelo arquiteto H.J. Schwarzmann (1846 – 1891), especialmente construído para a mostra dos fotógrafos da Exposição Internacional da Filadélfia que aconteceu entre 10 de maio e 10 de novembro de 1876, tendo sido a mais popular das exposições internacionais realizadas até então, com 9.789.392 visitantes. O Brasil foi uma das onze nações que construíram edifícios para o evento. Os outros foram Canadá, França, Alemanha, Grã-Bretanha, Japão, Portugal, Espanha, Suécia, Tunísia e Turquia. Participaram também da Exposição a Argentina, Austrália, Áustria, Bélgica, Bolívia, Chile, China, Colômbia, Dinamarca, Egito, Equador, Estado Livre de Orange, Grécia, Guatemala, Holanda, Honduras, Ilhas Sanduíche, Itália, Libéria, México, Nicarágua, Noruega, Peru, Rússia, Suíça e Venezuela.

 

Links para artigos publicados na Brasiliana Fotográfica sobre a participação do Brasil em outras exposições no exterior:

Paris, 1889: o álbum da exposição universal – Claudia Beatriz Heynemann – 27 /07/ 2018 –, Arquivo Nacional

A festa do progresso: o Brasil na Exposição Continental, Buenos Aires, 1882 – Maria do Carmo Rainho – 29/03/2018, Arquivo Nacional

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Pernambuco e a fotografia no século XIX

A partir do século XIX, vários fotógrafos estrangeiros estabeleceram ateliês fotográficos no Recife, tornando a cidade uma referência importante na história da fotografia no Brasil. Alguns dos mais importantes e que estão representados no acervo da Brasiliana Fotográfica foram o alemão Alberto Henschel (1827 – 1882), o francês Alfred Ducasble (18-? – 19?), o francês nascido na Itália Augusto Stahl (1828-1877), o austríaco Constantino Barza (18? -?), o português Francisco du Bocage (1860-1919), os pernambucanos João Ferreira Villela (18?-1901) e Manoel Tondella (1861 – 1921), o português Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912) e o europeu Moritz Lamberg (18?-?). Outros importantes fotógrafos estrangeiros e brasileiros produziram imagens do Recife e de Pernambuco, dentre eles o suíço Guilherme Gaensly (1843-1928) e o carioca Marc Ferrez (1843-1923), também representados no acervo do portal, que traz para seus leitores uma seleção de imagens de ruas, pontes, teatros, bairros e igrejas recifenses, de retratos de pessoas e de registros de paisagens de Pernambuco realizadas por esses profissionais e também por fotógrafos até hoje não identificados. Esses registros fazem parte da memória visual do Brasil. Com a participação da Fundação Joaquim Nabuco, que desde outubro de 2019 é parceira da Brasiliana Fotográfica, o universo de fotografias de Pernambuco no portal ficará ainda mais diversificado e numeroso.

 

 

 

 

Acessando o link para as fotografias do Recife, de Olinda, de paisagens pernambucanas e de retratos produzidos no estado disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Registros realizados em Pernambuco por Marc Ferrez, Guilherme Gaensly e também por fotógrafos ainda não identificados

 

Em julho de 1875, o chefe da Comissão Geológica do Império**, importante missão científica que entre 1875 e 1878 percorreu diversos estados do Brasil, Charles Frederick Hartt, Marc Ferrez e outros membros da Comissão Elias Fausto Pacheco Jordão e Francisco José de Freitas embarcaram no paquete Pará com destino a Pernambuco (Jornal do Commercio, 10 de julho de 1875, na segunda coluna). Poucos meses depois, na residência do inspetor do arsenal de Marinha, no Recife, Hartt, fez uma conferência sobre os arrecifes e outros aspectos de Pernambuco como o cabo de Santo Agostinho, praias, o rio São Francisco e a cachoeira de Paulo Afonso, ilustrados com fotografias de Marc Ferrez (Diário do Rio de Janeiro, 2 de dezembro de 1875, nas quinta e sexta coluna. sob o título “Norte do Império”).

 

 

 

 

O suíço Guilherme Gaensly, que possuiu estabelecimentos fotográficos em Salvador e em São Paulo, além de ter trabalhado para Henschel, e seu sócio Rodolpho Frederico Francisco Lindemann (c. 1852 – 19?) produziram entre fins da década de 1880 e a década de 1890 fotografias do Recife.

 

 

 

 

A seguir, algumas fotografias produzidas em Pernambuco por fotógrafos ainda não identificados:

 

 

 

 

 

 

 

Links para artigos publicados na Brasiliana Fotográfica sobre fotógrafos que tiveram ateliês fotográficos no Recife

 

 

 

 

 

 

 

 
Outros fotógrafos que atuaram no estado no século XIX foram Agio Rio Pedro da Fonseca, Antônio Lopes Cardoso, A.W. Osborne, Borges de Mello, Cincinato Mavignier, Daniel Bérard, Eduardo Gadaut, Eugênio, Firmino, Flósculo de Magalhães, Francisco Labadie, Frederico Ramos, Herminia de Carvalho Menna da Costa, João José de Oliveira, J. B. Thoma, Joaquim Canelas de Castro, Jorge Augusto Roth (c. 1840 – 1893), Lins, Louis Piereck, Ludgero Jardim da Costa, Manoel Inocêncio Menna da Costa, Manoel Ribeiro Filho,Mauricio, Monteiro e Roberto.
Andrea C. T. Wanderley
Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

FERREZ, Gilberto. Velhas fotografias pernambucanas: 1851-1890. Rio de Janeiro: Campo Visual, 1988.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

KOSSOY, Boris. Origens e expansão da fotografia no Brasil : século XIX. Prefácio Boris Kossoy. Rio de Janeiro: Funarte, 1980.

MENDES, Luciana Cavalcanti. O campo fotográfico em Pernambuco: um resumo do final do XIX até 1930. XXIX Simpósio Nacional de História – Anpuh, 2017.

Site da Fundação Joaquim Nabuco

TURAZZI, Maria Inez. Poses e trejeitos: A fotografia e as exposições na era do espetáculo (1839 – 1889). Rio de Janeiro: Funarte/Rocco, 1995.

VASQUEZ, Pedro Karp. Dom Pedro II e a fotografia no Brasil. Rio de Janeiro: Fundação Roberto Marinho: Companhia Internacional de Seguros: Ed. Index, 1985.

VASQUEZ, Pedro Karp. Mestres da fotografia no Brasil: Coleção Gilberto Ferrez. Tradução Bill Gallagher. Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil, 1995.

VASQUEZ, Pedro Karp. O Brasil na fotografia oitocentista. São Paulo: Metalivros, 2003.

 

Registros em Lagoa Santa, Minas Gerais, relacionados ao naturalista Peter Wilhelm Lund (1801 – 1880)

A Brasiliana Fotográfica destaca as imagens disponíveis em seu acervo relacionadas ao notável naturalista dinamarquês Peter Wilhelm Lund (1801 – 1880), importante cientista no desenvolvimento da paleontologia, da espeleologia e da arqueologia no Brasil. Os registros pertencem à Fundação Biblioteca Nacional, uma das fundadoras do portal, e são de um crânio fóssil, da casa de Lund e do do jazigo de Peter Andreas Brandt (1792 – 1862), norueguês responsável pelos desenhos e pinturas que ilustram a obra do naturalista.

 

 

Acessando o link para as fotografias relacionadas a Peter Wilhelm Lund disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Peter Wilhelm Lund, nascido em 14 de junho de 1801, em Copenhagem, após a morte de um de seus irmãos, vítima de tuberculose, decidiu vir para um país de clima mais ameno, aonde se dedicaria ao estudo de História Natural. Desembarcou em 8 de dezembro de 1825, no Rio de Janeiro, na época festivamente iluminado em homenagem ao recente nascimento de Pedro II, ocorrido seis dias antes. Lund ficou no Brasil até  abril de 1829, quando retornou a Copenhagem. Entre esse ano e 1833, quando estabeleceu-se definitivamente no Brasil, viajou para diversos países da Europa. Entre 1835 e 1884, escavou milhares de fósseis nas cavernas de Lagoa Santa, cidade de Minas Gerais, onde viveu até sua morte, em 25 de maio de 1880. Descreveu dezenas de espécies extintas do período Pleistoceno – época geológica compreendida entre 2,588 milhões e 11,7 mil anos atrás. Durante este trabalho, Lund descobriu os esqueletos fossilizados de cerca de 30 seres humanos. Assim como outros cientistas, por exemplo o berlinense Alexander von Humboldt (1769 – 1859) e o britânico Charles Darwin (1809 – 1892), Lund interessou-se pela extinta fauna americana. Combinou o trabalho prático das escavações com o trabalho quanto à sistemática e à taxonomia dos gigantes extintos.

Os registros da casa de Lund e do jazigo de Brandt em Lagoa Santa são de autoria do alemão Augusto Riedel (1836 – ?)*. Seria ele filho de Ludwig Riedel (1790 – 1861), médico e botânico berlinense que havia integrado a Expedição Langsdorff**? Lund e Ludwig Riedel se conheceram na casa do Conde Reventlow (1792-1851), cônsul-geral da Dinamarca, onde Lund se hospedou, entre janeiro e maio de 1833, quando retornou definitivamente ao Brasil. Juntos realizaram várias excursões botânicas nos arredores do Rio de Janeiro e, em 12 de outubro do mesmo ano, iniciaram uma longa viagem pelo interior dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás e Minas Gerais. Separaram-se em fevereiro de 1835, quando, após seis semanas acamado, Ludwig Riedel retornou ao Rio de Janeiro, onde viria a ocupar os cargos de Diretor do Jardim Botânico do Passeio Público (1839-1858), de primeiro Diretor de Jardins (1848-1861) e de primeiro diretor da seção de Botânica, Agricultura e Artes Mecânicas do Museu Nacional, a partir de 1842 – já havia fundado o herbário da instituição, em 1831. Os amigos nunca mais se viram porém mantiveram uma assídua correspondência até o falecimento de Ludwig, em 1861.

 

 

Voltando à história da fotografia da casa e do jazigo: foram produzidas muitos anos depois, como já mencionado, por Augusto Riedel. Fazem parte do álbum Viagem de S.S.A.A. Reaes Duque de Saxe e seu Augusto Irmão D. Luis Philippe ao Interior do Brasil no Anno 1868 – um dos trabalhos clássicos da documentação fotográfica do século XIX no Brasil. O duque de Saxe, dom Luis Augusto de Saxe Coburgo e Gotha (1845 – 1907), era genro do imperador Pedro II (1825 – 1891), marido da princesa Leopoldina de Bragança e Bourbon (1847 – 1871). Augusto Riedel teria feito parte da comitiva da viagem***. A presença de seu nome na capa do álbum indica que ele já devia ser bastante conhecido e que provavelmente devam existir outras fotos de sua autoria ainda hoje não reconhecidas. A viagem durou meses e foram percorridos os estados de Minas Gerais, onde foram retratadas as cidades de Ouro Preto, Mariana, Sabará, Diamantina (e suas minas de diamantes), Lagoa Santa e o primeiro vapor do rio das Velhas, além das minas de Morro Velho; vistas do rio São Francisco, que levaram os viajantes até Penedo, em Alagoas; Sergipe e, finalmente, Bahia, último estado visitado pela expedição. São possivelmente os mais antigos registros fotográficos dessas regiões do Brasil.  O itinerário percorrido sugere um grande interesse do grupo em geologia e em assuntos relativos à mineração.

 

 

 

 

 

* Pouco se sabe da biografia de Augusto Riedel e a grande maioria dos livros e sites consultados pela Brasiliana Fotográfica afirmam ou levam em conta a possibilidade de ele ser filho do botânico Ludwig Riedel (1790-1861). Em O olhar distante – a paisagem brasileira vista pelos grandes artistas estrangeiros 1637-1998, de Pedro Corrêa do Lago, e no livro Fotógrafos alemães no Brasil do século XIX, de Pedro Vasquez, a dúvida em relação a essa filiação foi levantada. Uma notícia do jornal O Globo, de 10 de novembro de 1874, na quarta coluna da página 4, encontrada pela pesquisa da Brasiliana Fotográfica, prova que havia, de fato, dois Augustos Riedel. O filho de Ludwig trabalhava na casa Leuzinger & Filhos:

 

 

**A Expedição Langsdorff foi uma expedição russa, chefiada e organizada pelo barão Georg Heinrich von Langsdorff (1774 – 1852). Artistas e cientistas, percorreram, entre 1821 e 1829, mais de 17 mil quilômetros pelo interior do Brasil e realizaram um importante inventário do país. Alguns dos principais participantes foram, além do próprio Langsdorff, o francês Antoine Hercule Romuald Florence (1904 – 1879), que se tornaria o autor do mais antigo registro fotográfico existente nas Américas; o artista francês Aimé-Adrien Taunay (1803 – 1828) e o alemão Johan Moritz Rugendas (1802 – 1858), os zoólogos francês Edouard Ménétriès (1802 – 1861) e o alemão Christian Friedrich Hasse (1771 – 1831), o astrônomo russo Néster Rubtsov (1799-1874) e o já citado botânico alemão Ludwig Riedel (1790 – 1861).

*** A grande maioria das fontes consultadas pela Brasiliana Fotográfica afirmam que Riedel fazia parte da comitiva da viagem, porém no livro O naturalista dr. Lund (Peter Wilhelm) - sua vida e seus trabalhos, publicado em 1883 (Gazeta de Notícias, 21 de julho de 1883, segunda coluna), o autor, o médico dinamarquês Theodoro Langgaard (1813 – 1883), que morou no Brasil, afirmou que um fotógrafo, sem mencionar a identidade, havia sido enviado pelo Duque de Saxe, após a realização da viagem, para fazer os registros dos lugares que ele havia julgado mais interessantes.

 

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Trecho do livro O naturalista dr. Lund (Peter Wilhelm) – sua vida e seus trabalhos, de Theodoro Langgaard, página 35

 

Um trecho do testamento de Lund, escrito em 21 de junho de 1871, confirma que Augusto Riedel esteve em Lagoa Santa, em 1869, e teria procurado a caverna de Maquiné:

A pedido do Sr. Augusto Riedel delarco, ser com o meu consentimento que o mesmo senhor, na sua passagem por aqui no mês de maio de 1869, procedeu à procura da caverna chamada Lapa Nova de Maquiné, por mim explorada e descrita no ano 1834. Delcaro outrossim, que, se a mim couber direito, privilégio, prêmio ou emolumento qualquer como primeiro descobridor, cedo todos estes direitos e emolumentos ao dito Sr. Augusto Riedel

(Trecho transcrito do livro Peter Wilhelm Lund, o naturalista que revelou ao mundo a pré-história brasileira, de Ana Paula Almeida Marchesotti, página 93)

Duas imagens que ilustram o livro de Theodoro Langgaard são do álbum Viagem de S.S.A.A. Reaes Duque de Saxe e seu Augusto Irmão D. Luis Philippe ao Interior do Brasil no Anno 1868 : Morada do dr. Lund em Lagoa Santa e Jazigo de Brandt em Lagoa Santa. Brandt trabalhou com Lund de 1835 até sua morte, em 1862. Posteriormente, o próprio Lund, Wilhelm Behrens, que havia sido seu secretário, e seu amigo suíço, Johann Rudolph Müller, foram enterrados no mesmo jazigo. A terceira imagem é a reprodução de um retrato de Lund. As três estão presentes nesse artigo.

 

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Annaes da Escola de Minas de Ouro Preto, nº 3, 1884

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002. 408 p., il. p&b.

LAGO, Pedro Corrêa do. O olhar distante – a paisagem brasileira vista pelos grandes artistas estrangeiros 1637-1998. In: Mostra do redescobrimento: o olhar distante – The distant view. Nelson Aguilar, organizador. Fundação Bienal de São Paulo. São Paulo: Associação Brasil 500 Anos Artes Visuais, 2000.

LANGGAARD, Theodoro. O naturalista dr. Lund (Peter Wilhelm) – sua vida e seus trabalhos. Rio de Janeiro : Typographia Universal de H. Laemmert & C, 1883.

LUNA FILHO, Pedro Ernesto de. Peter Wilhelm Lund: o auge de suas investigações científicas e a razão para o término das pesquisas. Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 2007.

MARCHESOTTI, Ana Paula Almeida: Peter Wilhelm Lund, o naturalista que revelou ao mundo a pré-história brasileira. Rio de Janeiro : E-Papers, 2011.

SANTOS, Nerêu Cecílio dos. O Naturalista – Biographia do Dr. Pedro Guilherme Lund. 1.ed., Bello Horizonte: Imprensa Official do Estado de Minas Gerais, 1923.

Site da Biblioteca Nacional

Site do Museu Nacional

Site Vitruvius

VASQUEZ, Pedro Karp. Fotógrafos Alemães no Brasil do Século XIX: Deutsche Fotografen des 19. Jahrhunderts in Brasilien. Apresentação Winston Fritsch; prefácio Joaquim Marçal; projeto editorial Pedro Karp Vasquez, Ronaldo Graça Couto; projeto gráfico Victor Burton. São Paulo: Metalivros, 2000. 203 p., il. p&b. ISBN 85-85371-28-5.

Zumbi dos Palmares (Alagoas,1655 – Alagoas, 20 de novembro de 1695)

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Zumbi (1927), pintura de Antonio Parreiras (1860 – 1937) / Acervo do Museu Antonio Parreiras, Niterói

A Brasiliana Fotográfica homenageia Zumbi dos Palmares (1655-1695), considerado um dos símbolos da luta contra a escravidão no Brasil, com a publicação de uma galeria de tipos negros fotografados, em torno de 1869, na Bahia e em Pernambuco, por Alberto Henschel (1827-1882). Esses registros fotográficos integram o acervo do Leibniz-Institut für Laenderkul (1), primeira instituição internacional a se tornar parceira da Brasiliana Fotográfica.

O quadro retratando Zumbi (ao lado) é de Antonio Parreiras (1860-1937). Tanto o fotógrafo Alberto Henschel como o pintor já foram temas da Brasiliana Fotográfica.

O dia da morte de Zumbi, 20 de novembro, é comemorado em todo o Brasil como o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra. A data foi criada, em 2003, e instituída oficialmente em âmbito nacional com a lei nº 12.519, de 10 de novembro de 2011. É feriado oficial em mais de mil cidades brasileiras.

Zumbi nasceu, em 1655, em uma das aldeias do Quilombo dos Palmares, uma comunidade formada por escravos fugitivos. O quilombo, o maior do período colonial brasileiro, localizava-se na região da Serra da Barriga, na Capitania de Pernambuco, atual região de União dos Palmares, em Alagoas. Foi capturado, no quilombo, ainda criança, pelos soldados da expedição comandada por Brás da Rocha Cardoso, e entregue ao padre português Antônio Melo, do distrito de Porto Calvo, Alagoas. Foi batizado, aprendeu português e latim, e recebeu o nome de Francisco.

Aos 15 anos, fugiu e voltou para o Quilombo dos Palmares. Posteriormente, tornou-se o líder da comunidade, substituindo seu tio, Ganga Zumba (c. 1630 – 1678). A capital de Palmares foi destruída, em 1694, e Zumbi foi ferido. Traído por um dos seus principais comandantes, Antônio Soares, foi morto em 20 de novembro de 1695, na serra de Dois Irmãos, local de seu esconderijo. Foi esquartejado e sua cabeça foi cortada e exposta na praça do Carmo, em Recife.

Há uma grande bibliografia sobre Zumbi e o Quilombo dos Palmares. Nem sempre os estudos apontam para a mesma direção.

 

Galeria de tipos negros fotografados por Alberto Henschel

 

Acessando o link para as fotografias de tipos negros fotografados por Alberto Henschel disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

(1) O conjunto de 460 imagens do Brasil produzidas até 1900 pertencentes ao acervo do Leibniz-Institut für Länderkunde foi, mediante convênio, incorporado ao acervo do Instituto Moreira Salles por meio da digitalização das fotos em alta resolução. A instituição, sediada na cidade de Leipzig,  reúne o mais importante acervo de fotografia brasileira do século XIX  na Alemanha, em especial pelas imagens reunidas na coleção Stübel.

O geólogo alemão Moritz Alphons Stübel (1835 – 1904) viajou, entre 1868 e 1877, pela América do Sul com o também geólogo Wilhelm Reiss (1838 – 1908), que retornou um ano antes para a Alemanha. Stübel formou uma importante coleção de fotografias, composta originalmente por quase duas mil imagens. A “Collection Alphons Stübel”, a maior coleção de fotografias sul-americanas do século XIX, até agora conhecida, da Alemanha – e provavelmente da Europa – está preservada no Leibniz-Institut für Länderkunde.

Colaboraram para esta pesquisa a designer Mariana Newlands e a socióloga Roberta Zanatta, da equipe do IMS

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Bibliografia

CARNEIRO, Edison. O Quilombo dos Palmares, Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 3a ed., 1966

CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil. O longo Caminho. 3ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002

FONSECA JR, Eduardo. Zumbi dos PalmaresA História do Brasil que não foi contada. Rio de Janeiro: Soc. Yorubana Teológica de Cultura Afro-Brasileira, 1988)

FREITAS, Décio. Palmares, a guerra dos escravos. Porto Alegre: Movimento, 1973

GOMES, Flavio dos Santos. De olho em Zumbi dos Palmares: História, símbolos e memória social. São Paulo: Claro Enigma, 2011

MOURA, Clovis. Dicionário da Escravidão Negra no Brasil / Clovis Moura; assessora de pesquisa Soraya Silva Moura – São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2004

VASQUEZ, Pedro Karp. Fotógrafos alemães no Brasil do século XIX, São Paulo: Metalivros, 2000

Outras fontes:

Artigo de  Frank Stephan Kohl: “Collection Alphons Stübel”: um tesouro escondido

Artigo de Fernando Correia da Silva: Zumbi dos Palmares: libertador dos escravos: 1655-1695.

Entrevista Zumbi, um herói cercado de mistério, na Revista História, de novembro de 2009

Portal Brasil

Site Calendarr

Site da Fundação Joaquim Nabuco

Site do Instituto Moreira Salles

Site do Leibniz-Institut für Laenderkunder

Estrada de Ferro Central do Brasil: estação e trilhos

A Brasiliana Fotográfica apresenta imagens da Estação da Estrada de Ferro Central do Brasil produzidas nos séculos XIX e XX: uma fotografia de Marc Ferrez (1843 – 1923), uma estereoscopia realizada pela firma Rodrigues & Co. e registros aéreos realizados pelo fotógrafo sírio naturalizado brasileiro Jorge Kfuri (1893 – 1965), autor das primeiras fotografias aéreas do Rio de Janeiro, realizadas em 1916; e pelo piloto britânico S. H. Holland (1883- 1936), que atuou no Brasil, entre 1928 e 1932, tendo sido, inclusive, acusado por espionagem. Além disso, há imagens dos trilhos da ferrovia produzidas por Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912) e do Túnel Ottoni, de autoria de Ferrez.

 

 

Acessando o link para as fotografias de trilhos e da Estação da Estrada de Ferro Central do Brasil disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Pelo decreto 1.598, de 9 de maio de 1855, foram aprovados os estatutos da Companhia de Estrada de Ferro d. Pedro II e foi determinada sua organização no Rio de Janeiro com um capital de 38 mil contos, cumprindo o decreto 641, assinado em Londres, em 26 de junho de 1852 (Jornal do Commercio, 15 de maio de 1855, primeira coluna). Pouco tempo depois, em 29 de julho de 1855, quando a princesa Isabel completava 9 anos, foi realizada na quinta de dona Januária a cerimônia de lançamento da pedra fundamental da Estrada de Ferro Pedro II com a presença do imperador  (Diário do Rio de Janeiro, 30 de julho de 1855, primeira coluna).  Foi a terceira ferrovia brasileira – as anteriores foram a Estrada de Ferro Mauá (1854) e a Estrada de Ferro do Recife ao Cabo (1858) – e sua construção está ligada às famílias Teixeira Leite e Ottoni, grandes produtoras de café da região de Vassouras, no estado do Rio.

A Igreja de Nossa Senhora de Santana foi demolida para a construção da Estação do Campo de Santana, mas a imagem da santa, em madeira, vinda de Portugal, encontra-se até hoje numa capela na gare da Central (Jornal do Commercio, 15 de maio de 1855, quarta colunaDiário do Rio de Janeiro, 19 de julho de 1857, quarta coluna; Revista da Semana, 20 de setembro de 1941). Foi de lá, na ocasião a principal estação ferroviária do novo meio de transporte que ligaria o Rio de Janeiro ao cafeeiro Vale do Paraíba, que saíram as três locomotivas que inauguraram a primeira sessão da Estrada de Ferro Pedro II, em 29 de março de 1858, pela manhã, quando a locomotiva Imperador levou dom Pedro II (1825 – 1891), sua corte e ministério até Pouso dos Queimados. As outras  chamavam-se Brazil e Imperatriz (Correio Mercantil, 24 de março de 1858, terceira coluna; Correio Mercantil, 30 de março de 1858, segunda coluna; e Diário do Rio de Janeiro, 30 de março de 1858, segunda coluna). Antes das partidas das locomotivas, houve as bênçãos do bispo, a saudação de Christiano Benedicto Ottoni (1811 – 1896), diretor da Companhia da Estrada de Ferro Dom Pedro II, e a resposta do imperador:

 

 

 

Em pouco tempo passou a ser conhecida como Estação da Corte e mais tarde foi denominada Estação Dom Pedro II. Com a República, a ferrovia foi rebatizada como Estrada de Ferro Central do Brasil  e com isso a estação foi imediatamente chamada de Estação Central do Brasil. Foi reformada anos mais tarde e finalmente demolida nos anos 30 para a construção da avenida Presidente Vargas (Revista da Semana, 4 de abril de 1936 e 31 de julho de 1937).  A comemoração dos 85 anos da Estrada de Ferro Central do Brasil, em 1943, foi realizado no hall do atual edifício da estação, em estilo art déco, com um almoço com diversas autoridades e com a abertura de uma exposição, além das inaugurações do trecho eletrificado entre Nova Iguaçu e Morro Agudo e do relógio da torre da Central, que se tornou um ponto de referência dos cariocas (Jornal do Brasil, 30 de março de 1943Careta, 10 de abril de 1943; e Revista da Semana, 10 de abril de 1943). O relógio fica entre o 21º e o 26º andares da estação ferroviária e é um dos maiores relógios de quatro faces do mundo – cada uma é um quadrado com dez metros de altura por dez metros de largura. Está montado a 110 metros de altura e pode ser visto de diversos pontos da cidade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

 

BEM, Sueli Ferreira de. Contribuição para estudos das estações ferroviárias paulistas. Dissertação de Mestrado apresentada à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, 1998

COARACY, Vivaldo. Coleção Rio 4 séculos, volume 3. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1965.

GUIMARÃES, Ino Venerotti. Campo de Santana: de charco a palco privilegiado de manifestações populares e oficiais. Revista do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, 2011.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

MATOS, Odilon Nogueira de. Café e ferrovias: a evolução ferroviária de São Paulo e o desenvolvimento da cultura cafeeira. São Paulo : Editora Alfa-Ômega, 1974.

O Globo

PESSOA, Vicente Alves de Paula. Guia da Estrada de Ferro Central do Brasil. Rio de Janeiro : Imprensa Nacional, 1902.

Site da Supervia

TELLES, Pedro Carlos da Silva. História da Engenharia no Brasil. Rio de Janeiro : Editora Livros Técnicos e Científicos, 1984.

 

A Colônia Dona Francisca, Joinville, por Louis Niemeyer

 

 

A Brasiliana Fotográfica destaca o álbum Vistas fotográficas da Colônia Dona Francisca, importante conjunto iconográfico da colonização alemã no sul do Brasil, dedicado ao imperador dom Pedro II. As imagens foram produzidas, em 1866, por Johann Otto Louis Niemeyer, fotógrafo, provavelmente, de origem alemã*. Colônia Dona Francisca era o nome, na época, de Joinville, cidade em Santa Catarina. O álbum pertence à Coleção Dona Thereza Cristina Maria, da Fundação Biblioteca Nacional, uma das fundadoras do portal. São fotografias de casas, de engenho de açúcar, de ruas, de igreja e também de imigrantes identificados em suas profissões como engenheiro, negociante, administrador e engenheiros. Apenas na foto publicada acima a figura humana é o tema central e ela expressa justamente o espírito desbravador e aventureiro dos imigrantes. Segundo o historiador Pedro Vasquez, os registros de Niemeyer para esse álbum seriam uma espécie de brado de “nós conseguimos”, proferido em uníssono pelos imigrantes da Colônia Dona Francisca.

 

capa 2

 

Esses registros foram apresentados na Exposição de História do Brasil, inaugurada em 2 de dezembro de 1881, na Biblioteca Nacional, organizada pelo seu então diretor Benjamin Franklin de Ramiz Galvão (1846 – 1938). Originalmente eram 18 imagens, porém oito foram furtadas em 2005. Uma foi recuperada em 2012.

Acessando o link para as fotografias de Joinville produzida por Louis Niemeyer disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

O autor das fotografias, Louis Niemeyer, era desde 1860 diretor da Colônia Dona Francisca, assim batizada em homenagem à princesa D. Francisca de Bragança (1824 – 1898), quarta filha do imperador dom Pedro I (1798 – 1834) e de dona Leopoldina (1797 – 1826) e irmã de dom Pedro II (1825 – 1892), que se casou, em 1843, com Francisco Fernando de Orléans (1818 – 1900), Príncipe de Joinville, terceiro filho do rei francês Luís Filipe I (1773 – 1850) (O Correio Oficial (SC), 20 de março de 1861, terceira colunaCorreio Mercantil, e , 31 de outubro de 1866, segunda coluna; e Diário do Rio de Janeiro, 15 de janeiro de 1867, segunda coluna). Em 1871, Niemeyer enviou ao governo um ofício tratando do desenvolvimento da agricultura na província de Santa Catarina com um mapa da colônia de Dona Francisca. Pedia auxílio para a abertura de um negócio (O Auxiliador da Indústria, 1871). Em 1873, teria deixado a diretoria da Colônia.

 

 

 

 

 

 

* De acordo com um artigo publicado no O Atibaiense sobre uma comemoração da família Niemeyer, Louis Niemeyer seria do ramo da família de Hannover, na Alemanha. Em torno de 1790, um general membro da família que fazia parte da Casa Real de Hannover se casou e teve 10 filhos. Um deles teria emigrado para Portugal, onde se casou e teve por filho Conrado Jacob Niemeyer, que teria vindo com a esquadra de d. João VI ao Brasil. Aí teria começado o ramo do Brasil da família Niemeyer, da qual Louis faria parte (O Atibaiense, 13 de outubro de 2010).

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Blumenau em cadernos, março de 1982

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002. 408 p., il. p&b.FERREZ, Gilberto;

FERREZ, Gilberto;NAEF, Weston J. Pioneer photographers of Brazil : 1840 – 1920. New York: The Center for Inter-American Relations, 1976. 143 p.

FERREZ, Gilberto. A fotografia no Brasil: 1840- 1900. Prefácio Pedro Karp Vasquez. 2. ed. Rio de Janeiro: Funarte, 1985. 248 p. (História da fotografia no Brasil, 1).

VASQUEZ, Pedro Karp. Dom Pedro II e a fotografia no Brasil. Rio de Janeiro: Fundação Roberto Marinho: Companhia Internacional de Seguros: Ed. Index, 1985. 243 p.

Oliveira Reis: o engenheiro-historiador do Rio de Janeiro e seu acervo iconográfico

O engenheiro paulista José de Oliveira Reis (1925 – 1994) trabalhou na Prefeitura do Rio de Janeiro, de 1933 a 1966, e se apaixonou pela cidade. Durante esse período acumulou vários tipos de documentos públicos produzidos pela prefeitura sobre a urbe, especialmente fotografias, tornando-se um dos inúmeros profissionais que trabalharam na administração pública do Rio de Janeiro e auxiliaram na formação dos acervos, sua preservação e memória, ainda que não fossem historiadores de formação.  Uma pequena parcela do acervo que forma a Coleção Particular José de Oliveira Reis, doada por seu titular ao Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (AGCRJ), uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, encontra-se no acervo do portal. Sobre o assunto, os pesquisadores do AGCRJ Carolina Ferro e Rafael Martins de Araujo escreveram o artigo “Oliveira Reis: o engenheiro-historiador do Rio de Janeiro e seu acervo iconográfico”.

 

Oliveira Reis: o engenheiro-historiador do Rio de Janeiro e seu acervo iconográfico

Carolina Ferro e Rafael Martins de Araujo*

 

 

Inúmeros foram os profissionais que trabalharam na administração pública do Rio de Janeiro e auxiliaram na formação dos acervos, sua preservação e memória, ainda que não fossem historiadores de formação. Este é o caso de José de Oliveira Reis (1925 – 1994), importante engenheiro da cidade que, paulista, se apaixonou pela antiga capital do Brasil, acumulando, já na década de 1930, vários tipos de documentos públicos produzidos pela então Prefeitura do Distrito Federal sobre a urbe, especialmente fotografias. Uma pequena parcela do acervo que forma a Coleção Particular José de Oliveira Reis, doada por seu titular ao Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (AGCRJ), encontra-se no site da Brasiliana Fotográfica.

Acessando o link para as fotografias Coleção Particular José de Oliveira Reis disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

José de Oliveira Reis nasceu em 25 de setembro de 1903, em Ribeirão Preto, São Paulo. Formou-se em Engenharia Civil na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, em 1925, e foi transferido em definitivo para a cidade três anos depois, quando trabalhava em uma empresa privada. Em 1933, foi o terceiro colocado no primeiro concurso público para o cargo de engenheiro da Prefeitura do Distrito Federal.

Naquele período, o debate acerca dos impactos nas transformações urbanas para a administração pública era crescente e exposto tanto na criação de um processo seletivo para engenheiros municipais quanto na instituição do Plano Agache. O projeto de remodelação urbana elaborado por Alfred Agache  não chegou a ser implantado (1928-1930) e era parte da reestruturação organizacional que permitiria à prefeitura obter o protagonismo sobre o processo de urbanização da cidade. Doutor Reis (como era conhecido na Prefeitura do Rio) foi um dos engenheiros mais destacados desse cenário. Apenas cinco anos após sua aprovação no concurso, foi nomeado Chefe da Comissão do Plano da Cidade, sendo enviado aos Estados Unidos, em 1939, para estudar o processo de desenvolvimento de diversas regiões. Ao retornar, participou da elaboração do Plano Diretor da Cidade e de projetos de grande importância histórica para o Rio de Janeiro, como a abertura da avenida Presidente Vargas e a urbanização da Esplanada do Castelo. Em 1945, a Comissão do Plano da Cidade foi transformada em Departamento de Urbanismo (DUR), com Oliveira Reis sendo nomeado seu primeiro diretor, cargo que ocupou até 1948. Nos anos seguintes, ele voltaria a ocupar a diretoria do DUR: em 1954; entre 1956 e 1960 (quando foi um dos nomes na urbanização da esplanada do Morro de Santo Antônio); e em 1962.

 

 

Em 1965, apenas um ano antes de se aposentar, Oliveira Reis publicou As Administrações Municipais e o Desenvolvimento Urbano: O Rio e seus Prefeitos (1862 a 1960). Sua aposentadoria não significou o seu desligamento do serviço público, pois, até as vésperas de seu falecimento, permanecia como colaborador, estando à frente da Revista Municipal de Engenharia. Segundo seu biógrafo, Rodrigo Santos de Faria (2007) – que inclusive usa boa parte da documentação do AGCRJ para construir o argumento de sua tese – o biênio 1965/1966, marca o início da atuação do engenheiro como “historiógrafo da administração pública” do Rio de Janeiro. Após a primeira publicação, viriam diversos livros, artigos e palestras abordando o tema, como Os Prefeitos do Rio de Janeiro como Capital da República de 1889 a 1960, apresentado em conferência em 1971; O Rio de Janeiro e seus Prefeitos (1977, quatro volumes); A Guanabara e seus Governadores (1979); História da Legislação sobre o Uso do Solo (1983); As inundações do Rio de Janeiro e o Sesquicentenário do nascimento de Pereira Passos, publicados na famosa Revista Municipal de Engenharia (RME), que existiu entre 1932 e 1999, e cujas edições estão disponíveis para consulta online numa parceria DocPro, BN Digital e AGCRJ.

Dr. Reis foi editor-chefe da RME entre 1978 e 1992. Uma edição especial da publicação, de agosto de 1997, três anos depois de seu falecimento, prestou homenagem ao engenheiro, com depoimentos de colegas, recortes de jornais que noticiavam feitos de Oliveira Reis, e uma edição de História Urbanística do Rio de Janeiro, publicado originalmente em 1986. Nos depoimentos, Dr. Reis é descrito como alguém tranquilo, fascinado por seu trabalho e pelo Rio de Janeiro. Exímio conhecedor da história das ruas mais importantes de cor, fazia de sua sala na RME um “ponto de encontro de arquitetos, historiadores, geógrafos [e] pesquisadores do Rio de Janeiro”. Sua paixão pela História também fica evidente em entrevista concedida ao AGCRJ, em 1986. Nela, o engenheiro não apenas responde cada pergunta, como também faz questão de comentar detalhes sobre antigas obras e expor as minúcias das mudanças na administração pública da prefeitura.

Bons exemplos são suas respostas sobre a construção da avenida Presidente Vargas. Depois de esclarecer que a obra se tratava de um projeto antigo, pretendido “desde o século XIX como uma extensão do canal do Mangue”, Reis, ao ser perguntado sobre o auxílio do governo federal para a construção da via, conta um detalhe curioso sobre a aprovação do projeto. Henrique Dodsworth não tinha muita convicção da execução da avenida porque o vulto da obra era muito grande. Mas o presidente da República se interessou pela obra a partir de uma visita à Feira de Amostras onde havia um estande da Secretaria de Viação e Obras com todo o projeto da avenida Presidente Vargas, inclusive uma perspectiva muito bonita feita pelo arquiteto Nelson Muniz Nevares, com o nome da via. O presidente olhou para a perspectiva, olhou para o prefeito e disse: “Dr. Henrique, vamos fazer essa avenida.” Aí o Henrique Dodsworth tomou a palavra do presidente e, naturalmente, tratou de executar a obra. (FREIRE; OLIVEIRA, 2008).

 

 

Como entusiasta da História e grande divulgador da memória da cidade, Oliveira Reis preservou e organizou uma vasta documentação acerca do processo de urbanização do Rio. Grande parte deste material foi doada ao AGCRJ, em 1992, e a outra se encontra no Arquivo Municipal de Ribeirão Preto, em São Paulo. Na instituição carioca há um manancial de documentos diversificados que vai desde proposições de Harland Bartholomew (1889-1989) – um importante urbanista norte-americano – para o descongestionamento do tráfego urbano, até imagens panorâmicas da cidade em que trabalhou durante toda sua vida. Tudo isso com tipologias diferenciadas, como documentos manuscritos, datilografados, periódicos, teses, decretos, palestras, certificados, memorandos, planejamentos urbanos, ilustrações etc. Alguns deles eram organizados em grupo, com o objetivo de construir uma memória de um determinado local. Este foi o caso da Avenida Perimetral, cujo conjunto inclui recortes de jornais sobre o projeto urbanístico, plantas de lotes da Avenida Presidente Vargas para permutas com terrenos desapropriados da localidade da nova construção e um histórico da avenida feito pelo próprio Oliveira Reis. Além dos documentos doados pelo personagem, à coleção particular foram acrescidas mais algumas fotografias e a entrevista citada que foi realizada pela historiadora Sandra Horta, que ocupou o cargo de Diretora de Pesquisa da instituição por algumas décadas e cuja transcrição está disponível na obra de Lúcia Lippi Oliveira e Américo Freire (2008).

 

 

A pequena parcela do acervo na Brasiliana Fotográfica refere-se a algumas das fotografias panorâmicas da Coleção Particular de Oliveira Reis, no AGCRJ. Infelizmente não há dados sobre autoria, muito menos datas exatas. Isto porque era um acervo de trabalho e auxiliava as reflexões nos cargos que ocupou. Sobre as imagens em questão, que formam um grupo de 99 fotos, sabe-se, apenas, que elas são da década de 1930, mesma época em que Reis se tornou engenheiro da Prefeitura do Distrito Federal. Através delas, é possível sobrevoar a história urbana da cidade, passando por bairros como Glória, Centro, Botafogo, Copacabana, Vila Isabel, Rio Comprido e muito mais. Exemplos interessantes são as que retratam a construção do Cristo Redentor, um ícone turístico e cartão postal do Rio de Janeiro, com a zona sul, o Pão de Açúcar, a enseada de Botafogo e a cidade de Niterói ao fundo; e uma das fotografias de Copacabana, sem a famosa calçada, mas já com o majestoso Copacabana Palace que foi inaugurado na década anterior. O objetivo do Dr. Reis ao acumular e guardar essas imagens era, além de compreender as mudanças da urbe carioca, preservar sua memória e construir uma história que fosse capaz de dar conta das intensas transformações perpetradas pelos governos municipais.

A Coleção Particular de Oliveira Reis está totalmente disponível para consulta no AGCRJ. Só de fotografias são acerca de 800, que abordam das décadas de 1930 a 1990. Essas imagens nos permitem apreciar e analisara cidade de outrora, pensar sobre os deslocamentos humanos e sociais, e refletir sobre as transformações de nossa urbe, cada vez mais cimentada e verticalizada.
No Arquivo Virtual, o banco de dados da instituição, há mais detalhes e o conteúdo dos documentos. Este pode ser acessado facilmente no link: rio.rj.gov.br/web/arquivogeral.

 

 

*Carolina Ferro é gerente de pesquisa do AGCRJ, professora do Centro Universitário UniCarioca e Doutora em História pela UFF.

Rafael Martins de Araujo é estagiário da gerência de pesquisa do AGCRJ e bacharel em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

 

 

 

Fontes:

FARIA, Rodrigo Santos de. José de Oliveira Reis, urbanista em construção: uma trajetória profissional no processo de institucionalização do urbanismo no Brasil (1926-1965/1966). 2007. Tese (Doutorado em História) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas-SP, 2007. Disponível em: http://www.repositorio.unicamp.br/handle/REPOSIP/280241. Acesso em: 23 set. 2019.

______. Da Comissão do Plano da Cidade (1937) ao Departamento de Urbanismo no Rio de Janeiro (1945): uma interpretação relacional pelo acervo documental do engenheiro José de Oliveira Reis. Oculum Ensaios, n. 09-10, Campinas-SP, p. 26-41, Jan./Dez. 2009.

FREIRE, Américo; OLIVEIRA, Lúcia Lippi (Org.). Novas memórias do urbanismo carioca. Rio de Janeiro: Editora da FGV, 2008.

JOSÉ DE Oliveira Reis (Lista de documentos). Rio de Janeiro: AGCRJ, [s./d.].

KUSHNIR, Beatriz (Dir.). Coleção Particular Oliveira Reis. Rio de Janeiro: AGCRJ, 2015.

MOREIRA, Fernando Diniz. Urbanismo e modernidade: reflexões em torno do Plano Agache para o Rio de Janeiro. Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais, v. 9, n. 2, nov. 2007.

REVISTA Municipal de Engenharia: 65 anos, Edição Especial. Homenagem ao Engenheiro Oliveira Reis. Rio de Janeiro, Edição especial, ago. 1997.
SILVA, Pedro Sousa da. Reforma Urbana no Estado Novo: a gestão de Henrique Dodsworth na cidade do Rio de Janeiro (1937-1945). Mosaico, v. 8, n° 13, 2017.

Trilhos sobre a floresta: imagens da construção da E.F. Madeira-Mamoré

Fotografias do dossiê “Madeira-Mamoré” do arquivo do sanitarista Belisário Penna (1868 – 1939), sob a guarda da Casa de Oswaldo Cruz, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, são o tema do artigo da jornalista Cristiane d’Avila. As fotos registram a obra de construção da estrada de ferro, iniciada em 1907 para ligar Porto Velho à Guajará-Mirim, do hospital e do cemitério da Candelária. O conjunto fotográfico aponta uma questão que inquieta arquivistas e pesquisadores: a autoria de fotos históricas. A partir do álbum fotográfico de Dana B. Merril, View of reviews or scenes as seen by Engineers, Tropical tourist, Global Trotters, Knights of fortune and Tramps: Madeira-Mamoré Ry. Brazil, South America, pertencente à Biblioteca Nacional, e da publicação aqui no portal do artigo A construção da Madeira-Mamoré, a “Ferrovia da Morte”, pelas lentes de Dana B. Merrill (c. 1887 – 19?), de autoria de Andrea Wanderley, é possível indagar: seria Dana Merril o autor das fotografias em papel do arquivo de Belisário Penna?

 

Trilhos sobre a floresta: imagens da construção da E.F. Madeira-Mamoré
Cristiane d’Avila*

 

O arquivo de Belisário Augusto de Oliveira Penna (1868-1939), sob a guarda do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz, reúne cartas, relatórios, artigos e mapas, entre outros documentos referentes à vida pessoal e à trajetória profissional do sanitarista. O material inclui itens de tipologias distintas sobre as campanhas de saneamento rural empreendidas por ele e suas investigações científicas sobre eugenia. Dentre esses itens, dois em especial ganham destaque no arquivo: a série “Fotografias” e o dossiê “Madeira-Mamoré”, com 70 imagens sobre a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, no início do século XX (séries, subséries e dossiês compõem a nomenclatura da Arquivologia para a organização de arquivos históricos).
A relevância do material se justifica. As fotos registram a monumental obra de construção da estrada de ferro, iniciada em 1907 para ligar Porto Velho à Guajará-Mirim, cortando a floresta amazônica no estado de Rondônia. Para além da qualidade estética das imagens e dos modos de ocupação da floresta ali revelados, o conjunto fotográfico aponta uma questão que inquieta arquivistas e pesquisadores: a autoria de fotos históricas.

 

 

Acessando o link para as fotografias do dossiê Madeira-Mamoré do acervo da Fiocruz disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

As imagens do arquivo de Penna sobre a Ferrovia do Diabo – como ficou conhecida a estrada, em razão dos milhares de mortos por malária, beribéri e outras doenças tropicais durante a sua construção -, estão nesse rol de fotografias históricas de autoria não-identificada. Contudo, um arquivo sob a guarda da Biblioteca Nacional pode elucidar o mistério.

No artigo A construção da Madeira-Mamoré, a “Ferrovia da Morte”, pelas lentes de Dana B. Merrill (c. 1887 – 19?) (1), a editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, Andrea Wanderley, destaca o álbum fotográfico de Merril, View of reviews or scenes as seen by Engineers, Tropical tourist, Global Trotters, Knights of fortune and Tramps: Madeira-Mamoré Ry. Brazil, South America(2). A obra, totalmente digitalizada, revela cenas impressionantes da ocupação da floresta e da construção da Madeira-Mamoré. Segundo Wanderley, especula-se que ele produziu, aproximadamente, dois mil negativos de vidro sobre a ferrovia. A partir dessa informação, é possível indagar: seria Dana Merril o autor das fotografias em papel do arquivo de Belisário Penna?

 

 

Para o pesquisador do Departamento de Arquivo e Documentação da COC, Ricardo Augusto dos Santos, especialista em Belisário Penna (3), provavelmente sim. “Não podemos afirmar categoricamente, mas que outro fotógrafo iria estar naquele momento, naquela região?”. Faz sentido. Afinal, Merril havia sido contratado pelo empresário (também norte-americano) Percival Farquhar (1964-1953), para registrar a construção da ferrovia desde o início dos trabalhos, em 1907.

Acessando o link para as fotografias de autoria de Dana B. Merrill disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Aqui vale destacar a trajetória de Farquhar no Brasil, em fase de intensa presença do capital norte-americano e europeu no país. Segundo o Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC), Farquhar iniciou suas atividades empresariais no Brasil em 1904, fundando a Rio de Janeiro Light & Power, companhia que assumiu concessões de serviços públicos de bondes, iluminação a gás e energia hidrelétrica.

Em 1905, começou a investir na Amazônia. Fundou a Brazil Railway Company (1906), a fim de construir um sistema ferroviário interligando a América do Sul. Em 1907, obteve a concessão para construir a Madeira-Mamoré. Para melhorar a navegação no rio Amazonas e, assim, aumentar a lucratividade do porto de Belém, administrado pela Port of Pará, da qual era proprietário, constituiu a Companhia de Navegação da Amazônia. Seu império no Brasil incluiu, além de ferrovias e portos, exploração de madeira, criação de gado e mineração, nos estados do Sul, Minas Gerais, São Paulo e região Norte (4).

 

 

Voltando ao arquivo fotográfico, Penna e Oswaldo Cruz prestaram consultoria a Farquhar para combater a malária na Madeira-Mamoré. Durante um mês, no ano de 1910, permaneceram em Porto Velho estudando as condições sanitárias na região e propuseram um plano para o combate à doença, que prescrevia o uso diário e compulsório de quinina, plano este plenamente aplicado por Farquhar. Inaugurada em 1912 com 364 quilômetros de extensão, a Ferrovia do Diabo ceifou a vida de um operário a cada dormente assentado, conforme se propagou na época, e foi sucateada até sua final desativação, em 1972.

Cruz e Belisário não testemunharam o fracasso do empreendimento majestoso, mas as 14 imagens selecionadas e disponibilizadas na Brasiliana Fotográfica registram o que provavelmente os olhos dos sanitaristas observaram: o avanço da engenharia humana sobre a opulenta floresta e os danos devastadores causados pelas doenças, como também as conquistas da ciência e das pesquisas biomédicas no processo de modernização do Brasil na Primeira República (1889-1930).

 

Mais sobre a ferrovia:

Com 364 quilômetros de extensão entre Porto Velho e Guarajá-Mirim, a Madeira-Mamoré foi inaugurada em 30 de abril de 1912. Sua rentabilidade logo seria abalada pela crise do principal produto de exportação da Amazônia, a borracha. Os seringais de Ceilão, Malásia, Sumatra, Java e Bornéus, organizados de maneira mais produtiva e racional pelos ingleses e holandeses, logo alcançaram o patamar brasileiro de produção. A ferrovia foi inaugurada no último ano em que a exportação brasileira de borracha superou a do Oriente. No mesmo ano a Madeira Mamoré Railway apresentou ao governo os custos finais da construção da ferrovia, em dinheiro e vidas. Dos 21.817 trabalhadores contratados, 1.552 morreram no Hospital da Candelária, excluindo-se dessa cifra os que tombaram ao longo da linha, os não contratados (tarefeiros) e aqueles que faleceram nos hospitais de Belém, Manaus ou mesmo em seus países de origem. Ferreira (2005, p.301, 302) estimou o total de mortos em 6.208 pessoas (5).

 

Notas:

1 – WANDERLEY, Andrea. A construção da Madeira-Mamoré, a “Ferrovia da Morte”, pelas lentes de Dana B. Merrill (c. 1887 – 19?)publicado na Brasiliana Fotográfica em 16 de janeiro de 2018 - http://brasilianafotografica.bn.br/?p=10460

2 – View of reviews or scenes as seen by Engineers, Tropical tourist, Global Trotters, Knights of fortune and Tramps: Madeira-Mamoré Ry. Brazil, South America – http://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_iconografia/icon596245/icon596245.pdf – Acervo da Biblioteca Nacional, uma das fundadoras da Brasiliana Fotográfica

3 – SANTOS, Ricardo Augusto dos. O sanitarista Belisário Penna (1868-1939), um dos protagonistas da história da saúde pública no Brasil, publicado na Brasiliana Fotográfica em 28 de setembro de 2018 – http://brasilianafotografica.bn.br/?p=12777. Sobre Penna, ver também SANTOS,Ricardo Augusto dos. O Plano de Educação Higiênica de Belisário Santos – 1900 -1930Dynamis, 2012, vol. 32, nº 1 – pag 45-68. http://scielo.isciii.es/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0211-95362012000100003

4 – https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/FARQUHAR,%20Percival.pdf

5 – BENCHIMOL, Jaime Larry; SILVA. André Filipe Cândido da. Ferrovias, doenças e medicina tropical no Brasil da Primeira República. História, Ciências, Saúde – Manguinhos,  vol.15,  no.3, pág 719 – 762, julho/setembro de 2008 – http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702008000300009

 

*Cristiane d’Avila  é jornalista do Departamento de Arquivo e Documentação Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz

 

Fotografias idênticas no álbum de Dana Merril, do acervo da Biblioteca Nacional, e no arquivo de Belisário Penna,

do acervo da Casa de Oswaldo Cruz, disponíveis na Brasiliana Fotográfica

Andrea C. T. Wanderley**

 

Cemitério da Candelária

 

 

Farmácia

Thumbnail

Dana B. Merrill. [Construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré] : boticário, 1907/1912. Amazônia / Acervo Fundação Biblioteca Nacional

**Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Novos acervos: Fundação Joaquim Nabuco

A Brasiliana Fotográfica traz para seus leitores seu décimo parceiro, a Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj). Quem faz a apresentação é  Albertina Malta,  historiadora da instituição e responsável pela Coordenação de Documentação e Pesquisa, vinculada ao Centro de Documentação e de Estudos da História Brasileira Rodrigo Mello Franco de Andrade – Cehibra. Nesse primeiro momento, estão sendo disponibilizadas imagens de autoria do fotógrafo Manoel Tondella (1861 – 1921) com a publicação do artigo O fotógrafo pernambucano Manoel Tondella: breve perfil e cronologia, escrito por Andrea Wanderley, editora e pesquisadora do portal. Com mais essa importante adesão, a Brasiliana Fotográfica segue cumprindo um de seus objetivos, o de abordar todos os usos e funções da fotografia brasileira, expandindo seu acervo e possibilitando a seus leitores o acesso a um número cada vez maior de imagens.  Seus outros parceiros são o Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, o Arquivo Nacional, a Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz, a Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, o Leibniz-Institut fuer Laenderkunde, o Museu Histórico Nacional e o Museu da República, além do Instituto Moreira Salles e da Fundação Biblioteca Nacional, criadores da Brasiliana Fotográfica.

 

 

Novos acervos: Fundação Joaquim Nabuco

Albertina Malta*

A Fundação Joaquim Nabuco passa a integrar, com alegria, o projeto Brasiliana Fotográfica desenvolvido pelo Instituto Moreira Sales e pela Fundação Biblioteca Nacional. Essa parceria possibilita a ampliação dos canais de divulgação de acervos fotográficos brasileiros que contém informações preciosas para a recuperação visual do passado, além de revelarem a produção de artistas muitas vezes desconhecidos.

A Fundação Joaquim Nabuco apresenta, inicialmente, um conjunto de imagens originais de reconhecido valor documental, em bom estado de conservação, de autoria do fotógrafo Manoel Tondella. Trata-se de vistas do Recife produzidas entre 1890 e 1905, em papel fotográfico num tom violeta. Oferecido à Fundação, o conjunto foi adquirido em 1985. Segundo o historiador Fernando Ponce de Leon, então coordenador da Fototeca e responsável pelo processo de aquisição das imagens de Tondella, as vistas “são valiosas por representar intensamente e com boa qualidade os bairros centrais do Recife (o do Recife, o de Santo Antônio, o de São José, o da Boa Vista), além dos arrabaldes e subúrbios quase rurais da cidade… as imagens registram o Recife intacto, antes das demolições e obras de reurbanizações”.

Foi também neste momento da aquisição que dois renomados especialistas – Gilberto Ferrez e Boriz Kossoy – consultados por Ponce de Leon, avaliaram a pertinência da Fundação em adquirir a coleção de Manoel Tondella, especialmente por se tratar de conjunto documental original. E, por serem vistas antigas da cidade, tornavam-se ainda mais raras, paisagens com riscos de se perderem para sempre.

 

 

Acessando o link para as fotografias de autoria de Manoel Tondella disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

*Albertina Malta é historiadora e responsável pela Coordenação de Documentação e Pesquisa, vinculada ao Centro de Documentação e de Estudos da História Brasileira Rodrigo Mello Franco de Andrade – Cehibra.

 

O fotógrafo pernambucano Manoel Tondella: breve perfil e cronologia

Andrea C. T. Wanderley**

 

 

Breve perfil

 

Manoel Tondella é um dos mais importantes fotógrafos de Pernambuco da segunda metade dos século XIX, período a partir do qual Recife tornou-se referência histórica para a fotografia no Brasil. Nascido em 3 de outubro de 1861, de ascendência portuguesa, Tondela dedicou-se à fotografia da paisagem urbana, documentando em imagens as transformações da cidade, entre os anos 1890 e as duas primeiras décadas do século XX. Foi contemporâneo dos fotógrafos Alfredo Ducasble (18? – 19?)Francisco du Bocage (1860 – 1919), Hermina de Carvalho Menna da Costa (18? – 19?) , considerada a primeira mulher fotógrafa do Recife, Louis Piereck (18? – 1931) e Ludgero Jardim da Costa (18? – 19?) , dentre outros.

Tondella registrou, predominantemente no Recife e em Olinda, as ruas, a estação de trem, os prédios, o Mercado Público de São José, os casebres, as pontes, as igrejas, os ancoradouros, o teatro Santa Isabel, as praças, a Assembleia Legislativa, o Ginásio Pernambucano, as praias, cemitérios, locomotivas, engenhos, quiosques, feiras, estradas, os bairros centrais e também os subúrbios, com suas casas de taipa, além de vendedores, de pessoas se banhando no rio Beberibe e até um grupo de ciclistas à beira de um açude. São imagens muito ricas em detalhes que se destacam pela beleza, pela qualidade técnica e nos ajudam a entender a vida em Pernambuco no início do século XX. Alguns registros foram inspirados nas antigas litografias que desenhavam o perfil do litoral do Recife, da tradição holandesa ou portuguesa. Muitas imagens foram editadas em cartões-postais.

 

 

Não se sabe, até o momento, quando exatamente Tondella começou a trabalhar como fotógrafo, mas tudo indica não ter sido antes da década de 1890. Em 1895, presenteou o Jornal do Recife com duas fotografias de sua autoria e, nessa época, seu estabelecimento fotográfico ficava na rua da Concórdia, nº 13. Em 1897, já era associado a João José de Oliveira (18? – 19?) no ateliê fotográfico Photographia Popular Oliveira & Tondella, e, em 1889, o estabelecimento ficava, na rua da Imperatriz, 79. Ficaram juntos até 1904 quando a sociedade foi desfeita e Tondela abriu um ateliê na então rua Velha, posteriormente, rua Antônio Carneiro. Oliveira continuou no mesmo endereço. Tondella seguiu trabalhando como fotógrafo até, pelo menos, 1919, tendo falecido em 1921.

 

 

Filho de Manoel Pereira de Figueiredo Tondella, provavelmente português, e de Marcionilla Francisca Soares, o fotógrafo Tondella teve três irmãos: Francisco (18? – 1913), Antônio (18? – 1898) e Maria  (c. 1860 – 1905). Francisco foi proprietário da tipografia Acadêmica e do periódico mensal O Filatelista. Na ocasião do falecimento de uma tia dos Tondella, em 1902, a família foi adjetivada como ilustre e Francisco e Manoel Tondella referidos como seus dignos sobrinhos. Manoel Tondella casou-se com Anna Amelia Celestina Ramos (18? – 19?), em 1892, e não tiveram filhos.

 

 

 Cronologia

 

1854 – O pai do do fotógrafo Tondella, Manoel Pereira de Figueiredo Tondella, provavelmente português, e José Barros Veiga dissolveram amigavelmente a sociedade comercial que possuíam denominada Veiga & Tondella (Diário de Pernambuco, 26 de setembro de 1854, última coluna).

1855 – O Gabinete Português de Leitura decidiu promover uma subscrição em favor da construção de um hospital para atender os portugueses indigentes que não pudessem receber tratamento adequado contra a epidemia que se alastrava por algumas províncias do Brasil e que eles acreditavam que chegaria no Recife. No Bairro do Recife, Manoel Pereira de Figueiredo Tondella era o encarregado pelas subscrições (Diário de Pernambuco, 25 de agosto de 1855, primeira coluna). Fez parte da comissão responsável pela instalação do Hospital Português em Pernambuco para o qual contribuiu com 50 mil reis (Diário de Pernambuco,  7 de setembro de 1855, segunda coluna; e Diário de Pernambuco, 15 de novembro de 1855, penúltima coluna).

1861 / 1862 – O fotógrafo Manoel Tondella, nasceu em 3 de outubro de 1861, filho de Manoel Pereira de Figueiredo Tondella e Marcionilla Francisca Soares, e foi batizado em 1º de janeiro do ano seguinte, na freguesia de Boa Vista, no Recife. A família morava no bairro Capunga, no Recife (Diário de Pernambuco, 3 de outubro de 1862, segunda colunaDiário de Pernambuco, 17 de abril de 1862, segunda coluna; e Diário de Pernambuco, 22 de julho de 1899, segunda coluna).

1863 – José Carneiro de Faria Lins informava ter feitos as pazes com Manoel Pereira de Figueiredo Tondella, a quem teria ofendido em momentos de delírio (Diário de Pernambuco, 22 de abril de 1863, última coluna).

1881 – O irmão de Manoel, Francisco Tondella (18? – 1913), era proprietário da tipografia Acadêmica (Diário de Pernambuco, 12 de abril de 1881, penúltima coluna).

1884 – Casamento de seu irmão Francisco com Francisca Olympia Rodrigues (? – 1891) (Jornal do Recife, 22 de setembro de 1884, última coluna).

1885 - Francisco era sócio da Biblioteca do Club Dramático Familiar (Jornal do Recife, 19 de março de 1885, quinta coluna).

Anúncio do casamento do irmão de Manoel, Antônio Pereira de Figueiredo Tondella com Francelina Maria de França Caldas (Diário de Pernambuco, 5 de novembro de 1895, última coluna).

1886 - Falecimento de uma das avós de Manoel Tondella, Maria Monteiro da Silva, cuja missa de sétimo dia foi celebrada na matriz de Santo Antônio do dia 8 de novembro de 1886 (Jornal do Recife, 5 de novembro de 1886, última coluna). Manoel era irmão de Francisco (18? – 1913), Antônio (18? – 1898) e Maria Tondella (c. 1860 – 1905), que também convidavam para a missa, além da mulher de Francisco, Francisca Olympia Rodrigues (? – 1891) e da tia dos Tondellas, Antônia Monteiro da Silva (1826 – 1902), filha da falecida.

1890 - Era um dos subscritores para os festejos do aniversário de Deodoro da Fonseca contribuindo com 5 mil réis (Jornal do Recife, 7 de agosto de 1890, quarta coluna).

Publicação do primeiro número do periódico mensal O Filatelista, de propriedade de Francisco Tondella, seu irmão, direcionado para os colecionadores de selos  (Jornal do Recife, 17 de outubro de 1890, penúltima coluna)

1891 Falecimento de sua cunhada, Francisca Olympia Rodrigues Tondella, casada com seu irmão Francisco (Jornal do Recife, 10 de abril de 1891, última coluna).

1892 Anúncio de seu casamento com Anna Amelia Celestina Ramos (18? – 19?) (Jornal do Recife, 9 de fevereiro de 1892, última coluna).

Anna Amelia Tondela foi eleita juíza da Sociedade Beneficente Nossa Senhora do Carmo no período de 1892 a 1893 (Jornal do Recife, 20 de julho de 1892, primeira coluna).

1894 – Anunciou com sua mulher e outros parentes a missa pelo 1º ano de falecimento de Lesbina Celestina Ramos (? – 1893), mulher de seu compadre Caetano Ferreira Ramos (? – 1919) e irmã de sua esposa, Anna Amelia (Diário de Pernambuco, 6 de julho de 1894, segunda coluna).

1895 – Presenteou o Jornal do Recife com duas fotografias de sua autoria: uma da estação da Estrada de Ferro Central de Pernambuco e outra da rua Larga do Rosário por ocasião da procissão das Chagas. “Um correto trabalho que muito recomenda o seu autor” (Jornal do Recife, 28 de maio de 1895, quinta coluna). Nessa época, provavelmente seu estabelecimento fotográfico ficava na rua da Concórdia, nº 13.

Seu irmão Antônio casou-se com Francelina Maria de França Caldas (Diário de Pernambuco, 5 de novembro de 1895, última coluna).

1897 - Manoel Tondella enviou ao Diário de Pernambuco 2 exemplares de lindíssimas fotografias em ponto pequeno. É no gênero um trabalho de grande perfeição e cuja apreciação recomendamos ao público (Diário de Pernambuco, 13 de janeiro de 1897, quarta coluna).

Presenteou o Jornal do Recife com três fotografias de quadros de pintores célebres (Jornal do Recife, 14 de janeiro de 1897, sexta coluna).

Estava à venda na Livraria Francesa fotografias de autoria de Tondella do préstito que havia acompanhado o general Artur Oscar no dia 15 de novembro (Jornal do Recife, 23 de novembro de 1897, sexta coluna).

Já existia a sociedade Oliveira & Tondella, entre Manoel e João José de Oliveira (18? – 19?). Tornaram-se devedores de impostos do período entre 1897 e 1898 (Diário de Pernambuco, 3 de junho de 1899, terceira coluna).

1898 - Ele e o sócio importaram uma caixa com objetos de fotografia (Diário de Pernambuco, 20 de fevereiro de 1898, segunda coluna).

Chegou uma caixa de mercadorias para Oliveira & Tondella , do vapor inglês Ile, que vinha de potos da Europa (Diário de Pernambuco, 18 de março de 1898, terceira coluna).

Falecimento do irmão de Manoel Tondella, Antônio (? – 1898). Ele, seu irmão Francisco (? – 1913) e filhos, sua irmã Maria (1860 – 1905), sua tia Antônia Maria Monteiro da Silva  (1826 – 1902) e sua esposa Anna Amelia convidaram para a missa de Sétimo Dia, na matriz de Santo Antônio. Pelo anúncio, Maria não era casada e Manoel e Anna Amélia não tinham filhos. Na missa de trigésimo dia, quem convida é a mulher de Antônio, Francelina França Caldas (Diário de Pernambuco, 27 de agosto de 1898, terceira colunaDiário de Pernambuco, 21 de setembro de 1898, penúltima coluna; e Jornal do Recife, 23 de fevereiro de 1899, quarta coluna).

Anna Amelia era uma das paraninfas da bênção solene da imagem do Santíssimo Coração de Jesus, na Matriz de São José. A solenidade contou com a presença do governador de Pernambuco (Jornal do Recife, 4 de novembro de 1898, segunda coluna).

Oliveira & Tondella importaram álbuns e papel albuminado (Diário de Pernambuco, 30 de novembro de 1898, segunda coluna).

1899 – O estabelecimento dos fotógrafos ficava na rua da Imperatriz, nº 79 (Almanach de Pernambuco, 1900).

Oliveira & Tondella importaram artigos para fotografia (Diário de Pernambuco, 8 de março de 1899, segunda coluna).

Como era assinante da America Illustrada, Revista Nacional de Letras e Artes, a firma Oliveira & Tondella ganhou de brinde um Livro de Ouro do Brasil  na Exposição de 1900 em Paris (Jornal do Recife, 23 de julho de 1899, penúltima coluna).

1900 – Ao longo do ano, Oliveira & Tondella importaram diversas vezes materiais fotográficos, envelopes e cartões.

Tondella foi o fotógrafo responsável pela realização de uma imagem que a Celestial Confraria da Santíssima Trindade ofereceria à Sociedade Musical Charanga do Recife (A Província (PE), 17 de julho de 1900, penúltima coluna).

Encontrava-se exposto no ateliê  Photographia Popular Oliveira & Tondela, na rua da Imperatriz, nº 79, um quadro dos bacharéis da Faculdade de Direito do Recife de 1900 (Jornal do Recife, 22 de novembro de 1900, última coluna)

A firma Oliveira & Tondella realizou um retrato em busto do professor Gaspar Regueira Costa na ocasião de seu aniversário, com o qual o magistério municipal o presentearia (Jornal Pequeno, 20 de dezembro de 1900).

1901 – Ao longo do ano, Oliveira & Tondella importaram diversas vezes materiais fotográficos, cartões, papel para desenho.

 

 

Encontrava-se exposto no ateliê  Photographia Popular Oliveira & Tondela, na rua da Imperatriz, nº 79, um quadro dos bacharéis da Faculdade de Direito do Recife de 1901 (Jornal do Recife, 26 de novembro de 1901, última coluna).

 

 

1902 – Ao longo do ano, Oliveira & Tondella importaram diversas vezes materiais fotográficos.

Na Travessa da Concórdia, nº 13, falecimento da tia de Tondella, Antônia Maria Monteiro da Silva (1826 – 1902). A família foi adjetivada como ilustre e Francisco e Manoel Tondella foram referidos como seus dignos sobrinhos (Jornal do Recife, 18 de junho de 1902, segunda coluna; A Província, 24 de junho, quinta coluna; e Diário de Pernambuco, 18 de junho de 1902, quarta coluna).

Oliveira & Tondella realizaram um retrato em tamanho natural do tenente-coronel Miranda Curio, delegado de saúde do Exército junto ao comando do 2º Distrito Militar, que lhe seria dado como presente de aniversário pelos farmacêuticos do corpo de saúde de Pernambuco (A Província (PE), 22 de agosto de 1902, quarta coluna).

Jornalistas do Diário de Pernambuco fizeram uma visita ao ateliê fotográfico de Oliveira & Tondella e elogiaram os retratos e as vistas expostas e também a amabilidade dos dignos artistas. “Mostraram-nos os mesmos srs. os estereoscópios que acabam de receber, novidade que expõem à venda…” (Diário de Pernambuco, 22 de outubro de 1902, quinta coluna).

 

 

A firma Oliveira & Tondella ofereceu uma fotografia de presente ao Jornal do Recife: uma imagem do general Marinho da Silva passando em revista as tropas federais na Campina do Bode (Jornal do Recife, 28 de novembro de 1902, quarta coluna).

Oliveira & Tondella enviaram ao Jornal do Recife um cartão de boas festas com uma imagem de um trecho do rio Capibaribe próximo aos arrecifes. Além disso, enviaram a fotografia de uma paisagem (Jornal do Recife, 23 de dezembro de 1902, sétima coluna). Enviaram para o periódico A Província uma fotografia do farol de Olinda e uma de uma lancha (A Província (PE), 23 de dezembro de 1902, quarta coluna). E enviaram para o Jornal Pequeno uma fotografia dos bairros do Recife e de Santo Antônio como votos de boas festas (Jornal Pequeno, 23 de dezembro de 1902, primeira coluna).

1903 – Ao longo do ano, Oliveira & Tondella importaram diversas vezes materiais fotográficos.

Um retrato a óleo feito no ateliê de Oliveira & Tondella foi oferecido ao alferes Virgílio Antônio Borba (Diário de Pernambuco, 8 de janeiro de 1903, sexta coluna).

Foi noticiado o novo endereço do ateliê fotográfico de Oliveira & Tondella, devido à mudança do nome da rua da Imperatriz para rua Rosa e Silva. O número, 79, continuou o mesmo. Eles haviam produzido um retrato do conselheiro Rosa e Silva durante um banqueteExpuseram as vistas do salão do banquete, que deveriam ser apreciadas com um estereoscópio (Diário de Pernambuco, 12 de fevereiro de 1903, sexta coluna; e 13 de fevereiro de 1903, última coluna). Expuseram as vistas do salão do banquete, que deveriam ser apreciadas com um estereoscópio (Diário de Pernambuco, 20 de fevereiro de 1903, última coluna).

Os hábeis artistas Oliveira & Tondella produziram uma fotografia da Igreja de Santa Cruz na ocasião da festa do Bom Jesus da Via Sacra, realizada em 3 de maio, e a enviaram de presente para o Jornal do Recife, para o Jornal Pequeno e para o periódico A Província (Jornal Pequeno, 16 de maio de 1903, segunda colunaJornal do Recife, 17 de maio de 1903, terceira coluna; e A Província (PE), 17 de maio de 1903, última coluna).

Casamento de Amália de Oliveira, filha de José Joaquim Oliveira, com Tacito Altino Correia de Araújo (Diário de Pernambuco, 5 de setembro de 1903, sexta coluna).

Leonilla Lusetta de Oliveira, esposa de Joaquim José de Oliveira, sócio de Tondella, faleceu (Jornal Pequeno, 31 de outubro de 1903, terceira coluna).

Oliveira & Tondella presentearam o Jornal Pequeno com fotografias em miniatura da primeira página edição de 28 de junho de 1902 do periódico (Jornal Pequeno, 4 de dezembro de 1903, terceira coluna).

Oliveira & Tondella presentearam o Diário de Pernambuco com fotografias do edifício do referido jornal na rua Duque de Caxias esquina com a Praça da Independência (Diário de Pernambuco, 25 de dezembro de 1903, quarta coluna)

1904 – Oliveira & Tondela enviaram votos de um feliz ano novo para o Jornal do Recife (Jornal do Recife, 1º de janeiro de 1904, quinta coluna).

Chegada, da Inglaterra, de papel fotográfico, de câmaras escuras, de cartões cortados e obras impressas para Oliveira & Tondella (Província (PE), 16 de janeiro de 1904, segunda coluna21 de maio de 1904, terceira coluna, 15 de junho, segunda coluna29 de julho de 1904, terceira coluna; e 31 de agosto de 1904, terceira coluna).

Oliveira & Tondella foram citados pela Diretoria de Contabilidades e Rendas Municipais do Recife. O endereço era av. Rosa e Silva, 79 (Diário de Pernambuco, 4 de fevereiro de 1904, sexta coluna).

A firma Oliveira & Tondella produziu uma fotografia da Companhia dos Bombeiros (Diário de Pernambuco, 6 de março de 1904, sexta coluna).

Tondella abriu, sem sócios, um estabelecimento fotográfico na rua da Velha, 137, no primeiro andar, onde também residia. Anos depois essa rua passou a chamar-se Antônio Carneiro. Na época, oferecia cartões postais da procissão Encontro, que havia saído da Igreja de Santa Cruz, no Recife (Jornal do Recife, 22 de abril de 1904, penúltima coluna; A Província, 13 de setembro de 1904, penúltima coluna). A recente abertura do ateliê do hábil e conhecido fotógrafo foi anunciada. Provisoriamente a entrada seria feita a partir da rua da Alegria (Jornal do Recife, 13 de setembro de 1904, última coluna; e A Província,(PE), 13 de setembro de 1904, penúltima coluna).

 

 

Tondela produziu de uma janela da Igreja de Santa Cruz uma fotografia da Charanga do Recife (A Província, 20 de setembro de 1904, última coluna).

1905 – Com cerca de 45 anos, falecimento de Maria Tondela, irmã de Manoel (A Província, 26 de abril de 1905, primeira colunaJornal do Recife, 6 de maio de 1905, sexta coluna).

Publicação de uma propaganda da Photographia Tondella anunciando o desligamento de Tondella da firma Oliveira & Tondella, realizado no ano anterior (A Província, 16 de julho de 1905, primeira coluna). No mesmo ano, publicação de uma propaganda da Photographia Popular apenas com o nome de Joaquim José de Oliveira no mesmo endereço, na rua da Imperatriz, 79 (Almanach de Pernambuco, 1905).

 

 

Ofertou ao Jornal do Recife a fotografia da canhoneira Pátria e seu trabalho foi considerado perfeitíssimo. Uma fotografia ampliada da mesma canhoneira estava exposta na Livraria Francesa, na rua Primeiro de Março, nº 9 (Jornal do Recife, 21 de setembro de 1905, oitava coluna).

O Jornal Pequeno homenageou Anna Amélia no dia de seu aniversário, 5 de dezembro (Jornal Pequeno, 5 de dezembro de 1905, primeira coluna).

1910 - O nome da rua de seu estabelecimento mudou de rua da Velha para rua Antônio Carneiro (Diário de Pernambuco, 11 de agosto de 1910, quarta coluna).

1913 - Falecimento de sue irmão Francisco, que havia sido livreiro no Recife, proprietário da antiga casa Bolitreau, a Livraria Tondella, Cockles & Co, desde 1897, na rua do Imperador, 46 (Diário de Pernambuco, 13 de fevereiro de 1898, penúltima coluna; e Diário de Pernambuco, 19 de março de 1898, terceira coluna) e que ultimamente trabalhava como contador na Papelaria Brasil. Era pai de Marcionila e de Francisco Tondella Junior (Diário de Pernambuco, 21 de setembro de 1897, penúltima coluna; e Jornal Pequeno, 19 de novembro de 1913, última coluna)

1917 -Morte de sua sobrinha, Marcionila Tondella, filha de seu irmão e comerciante Francisco (já falecido), que também era pai do poeta Tondella Junior (Diário de Pernambuco, 20 de maio de 1917, segunda coluna).

1919 - Falecimento do compadre e cunhado de Tondella, Caetano Ferreira Ramos (? – 1919) (Jornal do Recife, 20 de abril de 1919, última coluna).

Morte de seu sobrinho, o poeta Francisco Tondella Junior, aos 28 anos, filho de seu irmão já falecido, Francisco (Diário de Pernambuco, 15 de junho de 1919, segunda coluna).

Foi publicado um anúncio do estabelecimento fotográfico de Tondella, na rua Antônio Carneiro, 403 (antiga Velha) no qual eram oferecidos retratos Mignon, Visita, Elisabeth, Gabinete, Boudoir, Salão, cartões postais, e fotos de edifícios, de grupos ao ar livre em papel platina ou brilhante, retratos em tamanho natural em preto ou em cor pelo novo sistema americano. Oferecia também uma grande coleção de vistas de Pernambuco. Além disso, consertava máquinas e obturadores e fazia revelação, impressão e retoque em chapas de amador. O mesmo anúncio foi publicado diversas vezes ao longo de 1919 e 1920.

 

 

Foi anunciado que o artista e fotógrafo Manoel Tondela estava diariamente, na rua Velha, 103, à disposição dos assinantes e dos anunciantes de La Revue de revues de l´Amerique du Sud, de Daniel Valenford & C sobre Recife (A Província (PE), 8 de fevereiro de 1920, segunda coluna; e Jornal do Recife, 17 de outubro de 1919, penúltima coluna).

1921 - Foi realizada uma missa fúnebre pela alma de Manoel Tondella, na Igreja de Santa Cruz (A Província (PE), 22 de fevereiro de 1921, primeira coluna).

1922 -Pela última vez foi anunciado o estabelecimento fotográfico de Tondela, na rua Antônio Carneiro, nº 137 (Almanak Laemmert, 1922).

 

 

 

**Andrea C. T. Wanderley é editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

FERREZ, Gilberto. Velhas fotografias pernambucanas: 1851-1890. Rio de Janeiro: Campo Visual, 1988.

GASPAR, Lúcia. As ruas do Recife. Site da Fundaj, 2009

GASPAR, Lúcia; BARBOSA, Virginia. O Recife: uma bibliografia. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 2008. 360 p.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

MALTA, Albertina – Memória em sais de prata: fotografias do Recife em instituições memoriais. Dissertação para Universidade Federal de Pernambuco, fevereiro de 2013.

MEDEIROS, R. M. H. (Orgs.). Arquivos e coleções fotográficas da Fundação Joaquim Nabuco. Recife: Massangana, 1995.

MENDES, Luciana Cavalcanti. O campo fotográfico em Pernambuco: um resumo do final do XIX até 1930. XXIX Simpósio Nacional de História – Anpuh, 2017.

SILVA, Fabiana Bruce. Entre fotógrafos, modernidade e fotografia no Recife do século XX, uma pesquisa. Apresentado durante XI Encontro Regional Sudeste de História Oral, realizado na Universidade Federal Fluminense, em Niteroi, em julho de 2015

Site da Fundação Joaquim Nabuco