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Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas: 100 anos de pesquisa clínica

A Brasiliana Fotográfica abre as comemorações do centenário do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, com um texto de autoria de Cristiane d’Avila, jornalista do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz, instituição parceira do portal. Há 100 anos, aliar pesquisa científica e assistência aos doentes acometidos por moléstias infecciosas, no Rio de Janeiro, era a preocupação dos médicos de Manguinhos. Liderados por Oswaldo Cruz aqueles profissionais lidavam com o desafio de combater surtos de peste bubônica, febre amarela e varíola, na capital do país e em diversas regiões do Brasil. O hospital recebeu o nome de seu idealizador, Oswaldo Cruz, e ficou pronto em 1918 no governo do presidente Hermes da Fonseca tornando-se o primeiro hospital de Pesquisa Clínica do Brasil, lócus de construção da pesquisa clínica e epidemiológica sobre doenças tropicais no Brasil. Em 1942 foi nomeado Hospital Evandro Chagas.

Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas: 100 anos de pesquisa clínica

Cristiane d’Avila*

“Do mesmo modo que uma catedral não basta para que haja uma religião (…), e do mesmo modo que uma escola não é simplesmente o edifício que a aloja, o Hospital de Manguinhos, a que mais tarde foi dado o nome de Hospital Evandro Chagas, tem uma história que não é apenas a da casa que por tanto tempo o abrigou (…)”. A citação de Olympio da Fonseca Filho, pesquisador da Fiocruz, no livro A Escola da Manguinhos (1974), é reveladora da motivação que impulsionou a construção do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI), cujo centenário é celebrado em 2018 com uma série de eventos programados para o mês de novembro.

Há 100 anos, aliar pesquisa científica e assistência aos doentes acometidos por moléstias infecciosas, no Rio de Janeiro, era a preocupação dos médicos de Manguinhos. Liderados por Oswaldo Cruz, nomeado Diretor do Instituto Soroterápico Federal (atual Fiocruz), em 1902, e Diretor da Saúde Pública, em 1903, acumulando as duas funções, aqueles profissionais lidavam com o desafio de combater surtos de peste bubônica, febre amarela e varíola, na capital do país e em diversas regiões do Brasil. Trabalho de campo, observação de doentes, identificação de insetos vetores e pesquisas laboratoriais demandavam um ambiente que facilitasse a observação clínica. Sem hospital próprio em Manguinhos, os médicos acorriam às dependências do Hospital São Sebastião e da Santa Casa de Misericórdia, no Rio, para o isolamento e cuidado dos pacientes. Oswaldo Cruz ainda requereu dois prédios no Engenho de Dentro e outro em Niterói – o antigo Hospital Marítimo de Santa Isabel, para atender os infectados, durante a epidemia de varíola em 1908.

Acessando o link para as fotografias da construção do Instituto de Pesquisa Clínica Evandro Chagas disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

O segredo das causas, sintomas e tratamento das principais doenças endêmicas e epidêmicas estava tanto no estudo da interação do homem com o ambiente em que vivia, quanto no estudo sistemático dos indivíduos, isoladamente. Mas a necessidade de um ambiente que facilitasse a observação clínica para o melhor entendimento da história natural das inúmeras doenças endêmicas e epidêmicas, e para seu tratamento foi, certamente, o fator que deflagraria a construção de um hospital vinculado ao Instituto Soroterápico. O hospital foi projetado antes mesmo do castelo-sede de Manguinhos…” (COTRIM, 2009, p.7)

 

 

Luiz Moraes Júnior, o arquiteto português responsável pelos projetos do núcleo arquitetônico histórico de Manguinhos (pavilhões da Peste, Cavalariça e Mourisco; Pombal, Quinino, Aquário de Água Salgada e Hospital Oswaldo Cruz)(1) elaborou as primeiras plantas de um hospital de isolamento para o Instituto, em 1904, um ano antes do início das obras do Pavilhão Mourisco (Castelo). Esse pavilhão fazia parte de um complexo hospitalar projetado inicialmente para funcionar com seis unidades, mas apenas uma foi construída, em função da falta de verbas. O hospital ficou pronto em 1918 no governo do presidente Hermes da Fonseca. Em decorrência da morte de Oswaldo Cruz, em 1917, recebeu o nome do seu idealizador. Somente em 1942, após a morte de Evandro Chagas em um acidente aéreo, em 1940, viria a ser nomeado Hospital Evandro Chagas, tornando-se o primeiro hospital de Pesquisa Clínica do Brasil, lócus de construção da pesquisa clínica e epidemiológica sobre doenças tropicais no país.

 

 

 

Evandro Chagas (1905 – 1940)

Filho mais velho de Íris Logo e Carlos Chagas, nasceu em 10 de agosto de 1905. Formado na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1926, assumiu no mesmo ano a chefia do Serviço de Radiologia e Eletrocardiografia – para o estabelecimento das alterações características da forma cardíaca da Doença de Chagas – e de uma enfermaria do Hospital Oswaldo Cruz. Realizou importantes trabalhos sobre a leishmaniose visceral americana e descobriu os primeiros casos humanos da doença. Organizou no Hospital Oswaldo Cruz o Serviço de Estudo das Grandes Endemias (SEGE), a fim de promover investigação médico-sanitária em diversos estados brasileiros. Em 1940, aos 35 anos, dos quais 14 dedicados ao Hospital Oswaldo Cruz – desde seu ingresso ainda como aluno de medicina – Evandro Chagas faleceu em um acidente em um hidroavião, na Marina da Glória. Em 1942, o hospital foi rebatizado com seu nome.

 

*Cristiane d’Avila é jornalista do Departamento de Arquivo e Documentação DAD/Casa de Oswaldo Cruz

 

Fontes:

GUIMARÃES, Maria Regina Cotrim. Hospital de Manguinhos: 90 anos de pesquisa clínica. Rio de Janeiro: Fiocruz; IPEC, 2009.
IGLESIAS, Fabio; SANTOS, Paulo Roberto Elian; MARTINS, Ruth B. (Org.). Vida, Engenho e Arte. 1ed. Rio de Janeiro: Casa de Oswaldo Cruz, 2014.

 

(1) Para saber mais sobre o complexo arquitetônico de Manguinhos, acesse os artigos publicando anteriormente pela Brasiliana Fotográfica:

100 anos do Castelo da Fiocruz: a ocupação da Fazenda de Manguinhos, por Cristiane d’Avila, 28 de fevereiro de 2018

100 anos do Castelo da Fiocruz: os pedreiros do Castelo da avenida Brasil, por Ricardo Augusto dos Santos, 12 de abril de 2018

100 anos do Castelo da Fiocruz: criador e criatura, por Ricardo Gama-Rosa Costa , 15 de maio de 2018

 

Notícias da inauguração do Hospital Oswaldo Cruz, atual Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas

1918

Foi publicado sobre o Hospital Oswaldo Cruz: “destinado ao estudo das doenças tropicais do Brasil, o novo hospital comportará de 30 a 40 doentes. A sua instalação é a mais moderna possível” (A Noite, 15 de agosto de 1918, quarta coluna).

Publicação de uma matéria sobre a importância da criação do Hospital Oswaldo Cruz (O Imparcial, 17 de agosto de 1918, primeira coluna).

Anúncio da inauguração do Hospital Oswaldo Cruz, na mesma época da realização do VII Congresso Brasileiro de Medicina e da II Conferência Sul-Americana de Higiene, Microbiologia e Patologia. Na matéria, anúncio de conferências dos médicos do Instituto Oswaldo Cruz, Carlos Chagas (1879 – 1934) e Adolfo Lutz (1855 – 1940) (Jornal do Brasil, 5 de outubro de 1918, sexta coluna).

O prefeito do Rio de Janeiro, Amaro Cavalcanti (1849 – 1922), e o presidente da República, Hermes da Fonseca (1855 – 1923), foram convidados pelos médicos Carlos Chagas e Miguel Couto (1865 – 1934) para a inauguração do Hospital Oswaldo Cruz (Jornal do Brasil, 9 de outubro de 1918, última coluna, e O Paiz, 9 de outubro de 1918, terceira coluna).

 1919

O recém empossado prefeito do Rio de Janeiro, Paulo de Frontin (1860 – 1933), visitou o Hospital de Manguinhos (Gazeta de Notícias, 28 de março de 1919).

 

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Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

A prisão do fotógrafo e aviador britânico S.H. Holland (1883 – 1936) no Rio de Janeiro, em 1930

Até o momento, as informações sobre o fotógrafo e piloto britânico Sidney Henry Holland (1883 – 1936) são esparsas. Conforme anunciado, a Brasiliana Fotográfica, a partir de uma pesquisa realizada, principalmente, na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, importante ferramente de difusão de conhecimento, conta um pouco da trajetória de Holland no período em que atuou no Brasil, entre 1928 e 1932. Pilotando seu avião, era constantemente visto nos céus do Rio de Janeiro fazendo propaganda de peças teatrais, de lojas, de filmes cinematográficos e de candidaturas políticas. Além disso, comercializava imagens aéreas que produzia de paisagens e de aspectos da cidade, principalmente, no formato de cartões-postais, e também lecionava aviação. Combateu como piloto na Primeira Guerra Mundial e esteve na Argentina antes de chegar ao Brasil, em 1928, como chefe da seção de aviação da Aircraft Operating Co, contratada para fazer o levantamento da planta cadastral do Rio de Janeiro. No período em que morou no Brasil, produziu fotos aéreas de ilhas, de diversos bairros cariocas, dentre eles Botafogo, Copacabana, Ipanema, Leblon, Leme, Urca. Também fotografou outras cidades como Petrópolis e Friburgo.

 

 

Acessando o link para as fotografias de autoria do fotógrafo britânico S.H. Holland disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Em 1930, Holland tinha uma empresa de reclames comerciais no Edifício Portella, na rua Rio Branco, 111, sala 511, e tinha dois representantes comerciais, os irmãos James Cecil Cotton e Cecil Howard Cotton. Seu ateliê fotográfico ficava na rua Capitão Salomão, anexo à Empresa Brasileira de Aviação Limitada. A partir de uma denúncia de que S.H. Holland havia produzido fotografias de pontos estratégicos da cidade e por requisição dos ministros da Guerra e da Marinha, a 4ª Delegacia Auxiliar do Rio de Janeiro prendeu Holland e os Cotton em seu escritório. Foram apreendidos seus arquivos de escrituração e fotografias e, em seu ateliê na rua Capitão Salomão, 30, anexo à Empresa Brasileira de Aviação Limitada, de sua propriedade, foi apreendido cerca de 40 contos de material fotográfico. A prisão e as apreensões foram baseadas nas determinações do Decreto 16983, de 22 de julho de 1925, que proibia fotografar pontos estratégicos da cidade, fortalezas e quartéis. A ação integrava a forte ação de repressão que a polícia estava realizando contra a fotografia aérea. Além disso, o avião de Holland não estava registrado na Aeronáutica. Holland e seus funcionários foram soltos pouco depois (Diário Carioca, 20 de abril de 1930, primeira coluna; Correio da Manhã, 20 de abril de 1930, penúltima coluna; Diário da Noite, 22 de abril de 1930, quinta coluna; O Jornal, 22 de abril de 1930 e Jornal do Brasil, 23 de abril de 1930, quinta coluna).

 

Transcrição da declaração de S.H. Holland em matéria de capa de O Jornal, 26 de abril de 1930, onde identificado foi como antigo capitão-aviador do Exército Britânico:

 

‘_ Fui preso por quatro agentes de polícia às 14h e meia do sábado passado – disse-nos o aviador quando jogava uma partida de “golf” no Gávea Golf Club. Levado para a 4ª delegacia auxiliar, fui recolhido incomunicável ao xadrez, onde hora depois entretanto, foram também recolhidos os srs. Cotton, meus agentes comerciais. À meia-noite daquele dia, chamado à presença do dr. Pedro de Oliveira Sobrinho, 4º delegado auxiliar, fui cientificado das razões de nossas prisões. Disse-me o delegado que, por denúncia recebida, sabia que eu, possuindo dois aviões, empregava-os para obter fotografias dos pontos estratégicos e por consequência incorria em grande crime. A propósito dos aviões, provei-lhe que só possuía um da marca “De Havilland Moth”, guardado no hangar existente em Manguinhos, onde também está depositado um outro do mesmo tipo e que vendi logo depois de minha chegada ao Rio há um ano ao dr. Raphael d´Chysosthomo de Oliveira, conhecido usineiro de Campos. Com relação às fotografias, prosseguiu o capitão – afirmei que a denúncia também não era verdadeira. Sempre empreguei o meu avião com finalidades comerciais, não só para anúncios como também para fotografar aspectos da cidade. É certo que em um panorama parcial do Rio, aparece, a um canto, a Fortaleza de Santa Cruz, mas ainda tão ao longe e tão reduzida que não passa de mero acidente da paisagem, sem relevo de mínima importância.

AS APREENSÕES

_ E perguntamos, as apreensões que a polícia efetuou em sua residência e aqui no escritório?

_ Foram as de papéis que nos guia e do arquivo de “negativos” que tinha em parte aqui  e em parte no meu laboratório, à rua Capitão Salomão, nº 30, onde, aliás, resido. Foi por ele examinando-o rigorosamente que a polícia verificou não haver eu dado motivos para a denúncia recebida. O número de “negativos” que possuo é superior a três mil e disso tiro a renda de que vivo. As diligências da polícia, apreendendo esse arquivo e levando-o para a 4ª delegacia, dão-me um prejuízo superior a cinquenta contos devido às “chapas” inutilizadas e à paralisação dos meus trabalhos. Felizmente estou de novo em liberdade, após cinco dias e duas hors de prisão juntamente com os meus companheiros srs. Cotton e assim poderemos recomeçar os trabalhos’.

 

 

 

Em uma matéria publicada sobre sua morte, no Correio da Manhã, 16 de dezembro de 1936, foi mencionado que S.H. Holland havia deixado o Brasil logo depois da Revolução de 1932, na qual teria se envolvido. Teria também se envolvido na Revolução de 30. O piloto faleceu quando combatia na Guerra Civil Espanhola em um avião vermelho de bombardeio ao lado das tropas governamentais da Espanha. Na primeira patrulha contra os americanos, Holland foi abatido dentro das linhas do general Franco. Integrava a primeira esquadrilha yankee, formada por 4 aviadores norte-americanos e por diversos pilotos voluntários ingleses, cuja base ficava perto da cidade espanhola de Bilbao (O Jornal, 20 de dezembro de 1936, sexta coluna).

 

 

Pequena cronologia do fotógrafo e aviador britânico S.H. Holland

 

1883 – Em Petworth, na Inglaterra, em 17 de março de 1883, nascimento de Sydney Henry Holland, filho de Arthur Charles Holland (1850 – 1936) e Amy Louisa Katherine Stratton (1857 – 1936).

1914 – 1918 – Combateu como piloto na Primeira Guerra Mundial.

1920 - Na Argentina, Holland sofreu um desastre de avião e ficou gravemente ferido. Ele estava pilotando um avião Avro, pertencente ao Aeroclube de Buenos Aires. Estava com o presidente da entidade, Nicanor Posse, e com o instrutor Gregorio Sandoval (O Paiz, 15 de abril de 1920, na penúltima coluna).

Holland sofreu outro acidente de avião, também na Argentina, e fraturou a perna (O Paiz, 26 de maio de 1920, penúltima coluna).

1923 - Ficou em terceiro lugar na Copa Wilbur Wright organizada pelo Aeroclube Argentino, em 5 de agosto de 1923, no circuito San Isidor, San Fernando e el Palomar com a participação de quinze pilotos.

 

 

 

Também na Argentina, em 9 de dezembro, Holland ficou em 2º lugar na Copa 19 de Novembro, competição de regularidade conhecida como Carrera Aérea de la Plata. Vinte e quatro pilotos participaram da prova.

 

 

1928 – Chegada de S. H. Holland ao Rio de Janeiro vindo da Europa no paquete Arandora. Veio com os engenheiros contratados pela prefeitura do Rio de Janeiro para fazer o levantamento da planta cadastral da cidade. Holland era o chefe da seção de aviação da comissão e o chefe da delegação da Aircraft Operating era o coronel do corpo de engenharia do exército inglês, T.T. Behrens Foi noticiado que Holland já conhecia o Rio de Janeiro de passagem e que dessa vez teria que ficar na cidade por pelo menos 3 anos para concluir o trabalho para o qual havia sido contatado (A Noite, 21 de junho de 1928, segunda colunaO Paiz, 22 de junho de 1928, segunda coluna e Correio da Manhã, 22 de junho de 1928, sétima coluna).

Foi aprovado no exame para motorista (Correio da Manhã, 7 de julho de 1928, primeira coluna).

O ministro da Viação, Vítor Konder (1886 – 1941), autorizou a revalidação da carta de piloto de Holland (Correio Paulistano, 18 de julho de 1928, na sexta coluna).

1929 – Na Exposição Ferroviária, os pilotos Charles Astor e S.H. Holland fizeram uma exibição de acrobacia aérea (Jornal do Brasil, 17 de agosto de 1929, terceira coluna).

1930 – Foi noticiado que as famosas artistas Margarida Max (c. 1890 – c.1960), estrela do teatro de revista, e Josephine Baker (1906 – 1975) já haviam voado com o capitão Holland.

A partir de uma denúncia de que S.H. Holland havia produzido fotografias de pontos estratégicos da cidade e por requisição dos ministros da Guerra e da Marinha, a 4ª Delegacia Auxiliar do Rio de Janeiro o prendeu em seu escritório no Edifício Portella, na avenida Rio Branco, nº 111., onde localizava-se sua empresa de reclames aéreos. Seus representante comerciais James Cecil Cotton e Cecil Howard Cotton também foram presos. No escritório, foram apreendidos seus arquivos de escrituração e fotografias. Em seu ateliê na rua Capitão Salomão, 30, anexo à Empresa Brasileira de Aviação Limitada, foi apreendido cerca de 40 contas de material fotográfico. A prisão e as apreensões foram baseadas nas determinações do Decreto 16983, de 22 de julho de 1925, que proibia fotografar pontos estratégicos da cidade, fortalezas e quartéis. A ação integrava a forte ação de repressão que a polícia estava realizando contra a fotografia aérea. Além disso, o avião de Holland não estava registrado na Aeronáutica (Diário Carioca, 20 de abril de 1930, primeira coluna; Diário da Noite, 22 de abril de 1930, quinta coluna; O Jornal, 22 de abril de 1930). e Jornal do Brasil, 23 de abril de 1930, quinta coluna). Pouco depois, foi apreendido na Alfândega uma aeroplano procedente do exterior para Holland (Correio da Manhã, 24 de abril de 1930, última coluna). Holland foi solto e seus funcionários foram soltos em 24 de abril (Correio da Manhã, 25 de abril de 1930).

Publicação de uma fotografia aérea de Petrópolis, a linda cidade de verão, de autoria de Holland e produzida especialmente para a revista O Cruzeiro (O Cruzeiro, 26 de abril de 1930).

Publicação de fotografias aéreas produzidas por Holland de diversos bairros do Rio de Janeiro, dentre eles Leme, Copacabana, Ipanema e Leblon, todos dentro da zona da recém instalada estação de telefonia automática “7”, localizada na rua Visconde de Pirajá, 44, em Ipanema (Sino Azul, junho de 1930).

O capitão Holland envolveu-se na Revolução de 30.

1931 – Na Feira Internacional de Amostras, o paraquedista Genaro Maddalun pulou de paraquedas de um avião cedido por Holland (A Esquerda, 14 de agosto de 1931, segunda colunaDiário de Notícias, 14 de agosto de 1931, última coluna, e Jornal do Commercio, 23 de agosto de 1931, quarta coluna).

Na página central da edição de O Cruzeiro, de 10 de outubro de 1931, publicação de uma fotografia aérea do Cristo Redentor, pouco antes de sua inauguração oficial, em 12 de outubro, produzida por Holland especialmente para a revista.

1932-  Holland envolveu-se na Revolução de 1932 e pouco depois deixou o Brasil.

1936 – Holland faleceu, em dezembro, quando combatia na Guerra Civil Espanhola em um avião vermelho de bombardeio ao lado das tropas governamentais da Espanha. Na primeira patrulha contra os americanos, Holland foi abatido dentro das linhas do general Franco. Também morreram os dois outros tripulantes do avião: um russo que o pilotava e um observador espanhol. Com Holland foram encontradas duas cartas, um cheque de 15 libras e duas notas de 100 pesetas. Em uma das cartas, escrita na véspera de sua morte, o aviador comentou que pilotava um aparelho não muito bom, e reclamou da desorganização vermelha, do atraso de seu pagamento, que havia sido acertado com o embaixador da Espanha em Londres na ocasião de seu alistamento; e também da falta de aquecimento no campo de aviação em que servia. Os documentos do piloto foram remetidos para a sua esposa em Londres inclusive as promessas dos vermelhos espanhóis de pagar aos seus herdeiros a importância de 1.500 libras, no caso em que ele morresse. Holland integrava a primeira esquadrilha yankee, formada por 4 aviadores norte-americanos e por diversos pilotos voluntários ingleses, cuja base ficava perto da cidade espanhola de Bilbao (Correio da Manhã, 16 de dezembro de 1936, terceira coluna; e O Jornal, 20 de dezembro de 1936 )

‘O chefe de três ataques simultâneos estava no setor de Bondilla, noroeste de Madri. Mouros e recém chegados alemães atacaram com tanques e aviões. Os legalistas venceram após 5 horas, matando 200 e ferindo vários. Sydney Henry Holland, que recentemente havia ido para a Espanha com outros aviadores britânicos, foi morto no front Vittoria quando os rebeldes revidaram um ataque no aeródromo contra 11 máquinas legalistas. O avião de Holland, pilotado por um russo, com um observador espanhol, foi derrubado por rajadas de metralhadoras. Os ocupantes morreram queimados. O correspondente do Daily Mail de Salamanca revelou que os documentos encontrados com Holland mostravam que o governo o havia empregado em 27 de novembro de 1936 com um salário de 220 libras por mês, subsídios de 24 libras, passagem de primeira-classe, um prêmio de 300 libras por cada máquina rebelde abatida, compensação por incapacitação por ferimentos, e 1500 libras para seu parente mais próximo em caso de morte… (Trove Advocate, 18 de dezembro de 1936).

 

 

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Dicionário Cravo Albim

ERMAKOFF , George. Rio de Janeiro 1900 – 1930 – Uma crônica fotográfica. Rio de Janeiro: G. Ermakoff Casa Editorial, 2006.

Ernst Udet y sus aviones en Argentina

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Site Air History

Site The Kings Candlesticks – families trees

O fotógrafo açoriano Christiano Junior (1832 – 1902) e sua importante atuação no Brasil e na Argentina

 

O fotógrafo açoriano José Christiano de Freitas Henriques Júnior nasceu na Ilha das Flores, em 1832. Foi um dos maiores e mais versáteis fotógrafos dos oitocentos, além de empresário atuante em diversos ramos. Chegou ao Brasil, em 1855, com sua esposa, Maria Jacinta Fraga, e com os dois filhos do casal: os futuros fotógrafos José Virgílio e Frederico Augusto. Na década de 1860, quando a fotografia se popularizou no país e passou a ser comercializada em ateliês, Christiano dedicou-se aos retratos de estúdio e tornou-se famoso por seus registros de tipos negros, tendorealizado imagens exclusivamente de escravizados, vendidas, em geral, no formato de cartes de visite. Eram geralmente vendidas para estrangeiros que voltavam à Europa.

Christiano Junior trouxe os escravizados para dentro do estúdio e em seus registros há closes e retratos deles em uma situação de simulação de suas atividades profissionais mostrando, sobretudo, carregadores e os chamados negros de ganho, que trabalhavam como vendedores nas ruas da cidade e entregavam o lucro para seus proprietários. Os escravizados eram identificados como tipos negros e eram fotografados normalmente de frente ou de perfil e enquadrados no centro, deixando bem evidentes suas características físicas, suas vestimentas e instrumentos de trabalho. Às vêzes, Christiano os retratava diante de fundos pintados com paisagens europeias.

Também produziu no Brasil e na Argentina uma significativa produção de retratos de tipos locais. Também foi o autor de uma série de fotografias médicas.

 

 

A primeira notícia que se tem até hoje do início da atuação de Christiano Junior na fotografia no Brasil é de 1862, quando anunciou, em Maceió, Alagoas, seus retratos fotográficos sobre vidro, papel, pano e encerado. No mesmo ano, chegou ao Rio de Janeiro e em anúncio ofereceu seus serviços de fotógrafo.

Dois anos depois, era um dos proprietários da Photographia do Commercio, na rua São Pedro, 69 e seu sócio era Fernando Antônio de Miranda. Mudou-se sozinho para a rua da Quitanda, 45, em 1965. A partir do dia 1º de dezembro de 1866, seu amigo Bernardo José Pacheco tornou-se seu sócio em seu estabelecimento fotográfico, que passaria a funcionar com a razão Christiano Junior & Pacheco.

Em 1867, abriu um ateliê fotográfico, em Mercedes, no Uruguai e, no mesmo ano, em 1º de dezembro, inaugurou em Buenos Aires, um bem sucedido estúdio de fotografia, na rua Florida, nº 159. Na Argentina, celebrizou-se por fotografar tipos locais e paisagens, tendo realizado uma significativa produção de retratos. É considerado um dos mais importantes fotógrafos que atuaram na Argentina durante o século XIX. Em 1878, vendeu seu estúdio em Buenos Aires para Witcomb & Mackern, tendo deixado no arquivo do ateliê um acervo de mais de 170 vistas. Entre 1879 e 1883, viajou pelo interior da Argentina, fotografando várias províncias do país.

Em 1883, Christiano Junior desvinculou-se de seu último ateliê, em Corrientes. Abandonou temporariamente a fotografia, dedicando-se à produção e comércio de vinhos e licores, os quais vendia ao Brasil, à Argentina e ao Paraguai.

 

Faleceu em 19 de novembro, em Assunção, no Paraguai, e seu necrológio foi publicado na revista argentina Caras Y Caretas de 13 de dezembro de 1902, na página 28.

 

Em Assunção do Paraguai, onde vivia retirado há muitos anos pintando fotografias, faleceu na semana passada o velho fotógrafo don Christiano Junior, cuja arte para retratar a antiga família portenha era famosa em seu tempo. Junior foi o antecessor de Witcomb e diante de sua objetiva desfilaram as mais conhecidas damas e cavalheiros daquela época. Morreu pobre, privado quase por completo de sua visão, e deixa uma lembrança agradável em todos os que conheceram.’

Acessando o link para as fotografias de Christiano Júnior disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Grande parte da obra de Christiano Junior está sob a guarda da Biblioteca Nacional, do Museu Histórico Nacional, do Arquivo Nacional, do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e do Instituto Moreira Salles.

 

  Cronologia de Christiano Júnior 

Retrato de Christiano Junior, c. 1895

1832 – O português José Christiano de Freitas Henriques Junior nasceu na Ilha das Flores, no Arquipélago dos Açores, em 21 de julho de 1832.

1855 - Chegou ao Brasil com sua esposa, Maria Jacinta Fraga, e com os dois filhos do casal: os futuros fotógrafos José Virgílio (1851 -?) e Frederico Augusto (1853-?).

1862 – Christiano Junior anunciava, em Maceió, em Alagoas, seus retratos fotográficos sobre vidro, papel, pano e encerado.

Chegou no Rio de Janeiro e em anúncio ofereceu seus serviços de fotógrafo. Seus trabalhos estariam expostos na casa do sr. Bernasconi e chamados escritos deveriam ser enviados para o Hotel Brysson, na rua d´Ajuda, 57 B. Também aceitava pedidos de quadros e cestas de flores e frutas de cera, imitando perfeitamente o natural (Correio Mercantil, e Instrutivo, Político, Universal, 2 de dezembro de 1862, quinta coluna).

1864 - Era um dos proprietários da Photographia do Commercio, na rua São Pedro, 69. Seu sócio era Fernando Antônio de Miranda (Jornal do Commercio, 17 de julho de 1864).

 

1865 - O endereço do estabelecimento fotográfico de Christiano e Miranda mudou para rua da Quitanda, 53 (Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1865).

Christiano mudou-se sozinho para a rua da Quitanda, 45. Anunciou que em seu estabelecimento, a Photographia e Pintura, fazia cartões de visita, ambrótipos, cenótipos, fotografias coloridas a óleo, aquarela ou pastel, além de retratos para broches e medalhas. Também anunciou a venda de coleções dos costumes dos pretos nessa corte e no interior da província, em cartões para álbuns, coisa muito própria para quem se retira para a Europa  (Jornal do Commercio, 2 de abril de 1865 e Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1866).

Exposição na Casa Bernasconi de quatro molduras contendo 48 fotografias de autoria de Christiano. Delas 12 costumes de pretos de ganho, vendilhões e outras 12 representam tipos de diferentes nações da raça africana. Essas 24 imagens foram oferecidas a d. Pedro II (1825 – 1891). Seriam enviadas à exposição do Porto (Correio Mercantil, 22 de julho de 1865, penúltima coluna).

Participou da Exposição Internacional do Porto e suas obras, assim como as do fotógrafo Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912), foram expostas na seção de Belas-Artes (Jornal do Commercio, de 1865, terceira coluna).

Christiano Jr, identificado como fotógrafo bastante conhecido pelos excelentes trabalhos executados em sua oficina, doou 400 fotografias do falecido cônsul de Portugal, Antonio Emilio Machado Reis, para ajudar à família do diplomata. Houve uma exposição das fotos na sociedade Madrepora, instituída por Machado Reis (Correio Mercantil, 1º de novembro de 1865, terceira coluna).

1866 - Publicação de anúncio da Galeria Photographica e de Pintura na seção de “Notabilidades” do Almanaque Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro. Christiano Junior anunciava que havia reaberto seu estabelecimento fotográfico após uma reforma e oferecia timbres-postes, fotografias em diversas dimensões – até a natural -, podendo ser coloridas por várias técnicas, retratos em cenótipos, fotografias de homens célebres, além de uma variada coleção de costumes e tipos de pretos, coisa muito própria para quem se retira para a Europa.

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Estabelecido na rua da Quitanda, 45, Christiano fez uma exibição de retratos para cartas, uma nova e interessante aplicação da fotografia, realizada a partir de um instrumento que em 15 segundos dá 12 e 24 retratos, pequenos, mas nem por isso menos parecidos. Os retratos seriam usados para marcar o papel de carta, o que anteriormente era feito com a iniciais do remetente (Diário de São Paulo, 4 de fevereiro de 1866, segunda coluna).

 

No verso de uma de suas cartas de visita oferecia retratos em lenço, costumes e tipos de índios, cópias de gravuras de Morgado de Mateus reproduzidas de uma rara edição de Os Lusíadas, retratos em porcelana, e em marfim, retratos em vidro para ver por transparências, vistas para estereoscópios, retratos de homens célebres, monarcas, guerreiros, literatos, etc.

Participou da II Exposição Nacional e o que apresentou foi saudado como excelentes retratos e perfeitíssimas reproduções de uma dúzia de gravuras. Conquistou a medalha de bronze (Semana Ilustrada, 18 de novembro de 1866, segunda coluna e Diário do Rio de Janeiro, 1º de fevereiro de 1867, última coluna).

Christiano Pacheco participou que, a partir do dia 1º de dezembro de 1866, seu amigo Bernardo José Pacheco passaria a ser seu sócio em seu estabelecimento fotográfico, na rua da Quitanda, 45, que passaria a funcionar com a razão Christiano Junior & Pacheco (Jornal do Commercio, 3 de dezembro de 1866, quarta coluna e Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1867).

 

 

 

Em torno desse ano, realizou uma série de fotografias médicas.

 

1867 – Christiano Junior estava em Desterro, atual Florianópolis, e abriu um ateliê fotografico na rua Augusta, 26. Anunciou sua pretensão de fazer algumas vistas da cidade e também de vistas para estereoscopos, além de informar que pretendia ficar apenas por um mês na cidade porque estaria de passagem para o rio da Prata (O Despertador, 1º de fevereiro de 1867O Mercantil, 28 de fevereiro de 1867).

 

 

 

 

Abriu um ateliê fotográfico, em Mercedes, no Uruguai.

Christiano Junior começou a tentar expandir suas atividades na Argentina. Em 1º de dezembro, em Buenos Aires, inaugurou um bem sucedido estúdio de fotografia, na rua Florida, nº 159. Iniciou uma significativa produção de retratos e, segundo os pesquisadores argentinos Abel Alexander e Luis Priano, que examinaram os álbuns relativos ao seu trabalho que estão depositados no Archivo General de la Nación, estima-se que foram produzidos por ele mais de 4 mil retratos entre 1873 e 1875.

No censo de 1869 de Buenos Aires, constavam os nomes de Christiano e de seus dois filhos. O de sua esposa não, o que indica que provavelmente estavam separados ou ele tinha enviuvado.

1870 - Em um anúncio, Christiano Junior & Pacheco avisavam que à vista dos mesquinhos preços a que alguns de nossos colegas têm reduzido a fotografia, vemo-nos também obrigados a baixar nossos preços. Informava ainda que Christiano Junior havia trazido de sua casa, em Buenos Aires, um novo sistema, a imitação porcelana, por ele introduzida lá e aqui (Jornal da Tarde, 18 de agosto de 1870).

 

 

Em francês, anúncio da venda de um produto de combate à umidade na Maison Christiano Junior & Cia. O produto teria sido descoberto por um associado de Christiano em Paris, o pintor químico M. Regnault. A propaganda foi publicada outras vezes (Ba-Ta-clan, 27 de agosto de 1870).

Christiano Junior & Pacheco anunciavam uma novidade fotográfica, a imitação da porcelana – unicamente se fazem na rua da Quitanda, 45 (Jornal do Commercio, 28 de agosto de 1870, terceira coluna).

Christiano Junior montou um estúdio fotográfico voltado ao público infantil, a Fotografia de la Infancia, na rua de Las Artes, n. 118, em Buenos Aires.

Em torno desse ano, fotografou o Conde d´Eu(1842 – 1922), marido da princesa Isabel (1846 – 1921).

 

 

1871 – Recebeu a medalha de ouro na primeira Exposição Nacional da Argentina, na cidade de Córdoba, com a série de fotos Vistas y costumbres de la Republica Argentina. 

1873 - Publicação de um anúncio da Photographia de Christiano Junior & Pacheco no Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1873 .

 

 

1874 – Christiano Junior & Pacheco eram réus em uma ação movida por Olímpio Militão Vieira na Primeira Vara Cível (Diário do Rio de Janeiro, 10 de dezembro de 1874, primeira coluna).

1875 – O estabelecimento fotográfico de Christiano Junior & Pacheco foi anunciado pela última vez no Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1875, no endereço rua da Quitanda, 39 a 41.

Seu ateliê fotográfico voltado ao público infantil, a Fotografia de La Infância, era, segundo anúncio publicado no jornal La Prensa de 04 de fevereiro de 1875, possuidor de máquinas instantâneas que permitem tirar retratos de criaturas inquietas e travessas. O ateliê foi destruído por um incêndio em março de 1875, e foi reaberto pouco depois, à rua Victoria 296, agora gerenciado por seu filho José Virgílio, que havia sido seu ajudante.

Manoel Garcia Vidal, ex-sócio de Christiano Junior & Pacheco, anunciou a abertura de um estabelecimento fotográfico na rua Sete de Setembro, 76, esquina com Gonçalves Dias (Jornal do Commercio, 17 de março de 1875, sexta coluna).

Um incêndio destruiu o prédio número 41 da rua da Quitanda, de propriedade da Santa Casa de Misericórdia. No segundo andar ficava o estabelecimento Christiano Junior & Pacheco (Jornal de Recife, 29 de março de 1875, segunda coluna). Eles passaram a atender no ateliê do renomado fotógrafo português José Ferreira Guimarães (1841 – 1924), na rua do Ourives, 38 (Jornal do Commercio, 21 de março de 1875).

A Photographia de Pacheco, Menezes e Irmão era anunciada como sucessora de Christiano Junior & Pacheco, na rua da Quitanda, 39 (Gazeta de Notícias, 10 de agosto de 1875, terceira coluna).

 

 

Christiano tornou-se fotógrafo oficial da Sociedade Rural Argentina e realizou sua primeira exposição pela entidade, da qual se desligaria em 1878.

1876 – Lançou o primeiro volume da coleção intitulada Album de Vistas e Costumes de La Argentina, que trazia 16 imagens de Buenos Aires acompanhadas por textos explicativos em quatro idiomas. Primeiro trabalho com essas características produzido na Argentina, o material foi, em parte, formado pelo aproveitamento de vistas anteriormente colocadas à venda em seu ateliê. Christiano Júnior nesse trabalho mesclou imagens da Argentina colonial e pastoril com as de uma nova nação, representada sobretudo pelas novas construções.

Para introduzir o álbum afirmou: ‘Meu plano é vasto e quando estiver completo a República Argentina não haverá nem pedra nem árvore histórica, do Atlântico até os Andes, que não tenha sido submetido ao foco vivificador da câmara escura.’

Ganhou a medalha de ouro na segunda exposição anual da Sociedade Científica Argentina.

Participou da Exposição Universal da Filadélfia de 1876.

1877 - Foi lançado o segundo volume de seu trabalho, contando com doze retratos de tipos populares urbanos e com vistas de construções modernas e históricas.

Produziu uma série que retratava a nova penitenciária de Buenos Aires, trabalho que foi vendido de forma avulsa e em álbum encadernado.

No catálogo da primeira exposição do Club Industrial de Buenos Aires, em 1877, na qual participou, Christiano Junior escreveu acerca de suas fotos médicas, realizadas no Brasil, que segundo o parecer dos médicos nacionais e estrangeiros, nenhum fotógrafo, até aquela data [1866] havia tirado do natural um trabalho semelhante.

1878 - Vendeu seu estúdio em Buenos Aires para Witcomb & Mackern. Deixou no arquivo do ateliê um acervo de mais de 170 vistas.

Participou da Exposição Universal de Paris de 1878.

1879 a 1883 – Viajou pelo interior da Argentina, fotografando várias províncias do país, continuando a série de álbuns de Vistas e Costumes da República Argentina. Passou pelas cidades de Rosário, Córdoba, Río Cuarto, Mendoza, San Juan, San Luis, Catamarca, Tucumán, Salta e Jujuy. Antes de chegar às cidades, anuncia nos jornais locais que ali prestará seus serviços. Monta seu estúdio associado a um fotógrafo local e, em alguns casos, acompanhado de seu  filho. Uma vez instalado na localidade, dá início ao trabalho no ateliê e, paralelamente, desenvolve seu projeto maior: os álbuns de vistas.

1882 – Participou da Exposição Continental de Buenos Aires em 1882.

1883 – Anúncio do estabelecimento fotográfico de Menezes & Irmão, sucessores de Christiano Junior & Pacheco (Gazeta da Tarde, 5 de junho de 1883, última coluna).

Christiano Junior desvinculou-se de seu último ateliê, localizado na cidade de Corrientes. Abandonou temporariamente a fotografia, dedicando-se à produção e comércio de vinhos e licores, os quais vendia ao Brasil, à Argentina e ao Paraguai.

1890 – De Buenos Aires, Christiano Junior importou 382 fardos feno, que chegaram no vapor francês Bearn (Jornal do Commercio, 28 de janeiro de 1890, penúltima coluna).

De Buenos Aires, Christiano Junior importou quatro sacos de alpiste, 10 de cevada, 10 de linhaça, seis de milho e 40 caixas de passas e nove de vinho que chegaram no vapor francês Bretagne (Jornal do Commercio, 23 de abril de 1890, quarta coluna).

1892 – Pelo decreto de 21 de dezembro de 1892, foi concedida, por 15 anos, a Christiano Junior, a patente da invenção do processo aperfeiçoado de fabricar vinho de cana (Minas Gerais, Órgão Oficial dos Poderes do Estado, 24 de dezembro de 1992, terceira colunaJornal do Brasil, 26 de dezembro de 1892, quarta coluna, e Relatório do Ministério da Agricultura de 1993).

1901/1902 – Entre esses anos, Christiano Júnior escreveu ainda oito textos autobiográficos publicados no jornal La Provincia: Sueños raros (14/12/1901); Recuerdos de mi tierra, dedicado a seu neto Augusto (1/1/1902), Tempora mutantur (Buenos Aires de 1866 a 1900), dedicado a sua neta Telma (15, 18, 21, 25/1/1902); Un carnaval en mi tierra, dedicado a Pedro Benjamín Serrano ( 8/2/1902); En los Andes, dedicado a Félix M Gómez (1/3/1902); Informalidad y mentira, dedicado a Manuel V. Figuerero (26/3/1902); Brasil de 1855 a 1870, dedicado a Guillermo Rojas ( 5/4/1902), e De Corrientes (17/5/1902) (Recordando Christiano).

1902 – Christiano Junior faleceu em 19 de novembro, em Assunção, no Paraguai. Seu necrológio foi publicado, em 13 de dezembro de 1902, na revista argentina Caras Y Caretas, página 28 :

Em Assunção do Paraguai, onde vivia retirado há muitos anos pintando fotografias, faleceu na semana passada o velho fotógrafo don Christiano Junior, cuja arte para retratar a antiga família portenha era famosa em seu tempo. Junior foi o antecessor de Witcomb e diante de sua objetiva desfilaram as mais conhecidas damas e cavalheiros daquela época. Morreu pobre, privado quase por completo de sua visão, e deixa uma lembrança agradável em todos os que conheceram.’

 

anuncio12 Caras y Caretas, 13 de dezembro de 1902

 

Posteriormente, seus restos mortais foram levados para Buenos Aires e sepultados no cemitério de Olivos.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ALEXANDER, Abel & PRIAMO, Luis. Recordando a Christiano: un país en transición – fotografías de Buenos Aires, cuyo y el Noroeste. Christiano Júnior 1867 – 1883. Buenos Aires: Ediciones Fundación Antorchas, 2002.

AZEVEDO, Paulo César de & LISSOVSKY, Maurício. Escravos brasileiros do século XIX na fotografia de Christiano Jr. (1864-1866) [et ali.]. São Paulo: Ex. Libris, 1988.

BEAUGÉ, Gilbert. A fotografia argentina no século XIX. In: SAMAIN, Etienne (Org.). O fotográfico. São Paulo: HUCITEC, 1998.

ERMAKOFF , George. Rio de Janeiro 1840 – 1900 – Uma crônica fotográfica. Rio de Janeiro: G. Ermakoff Casa Editorial, 2006.

FERREZ, Gilberto. A fotografia no Brasil. Rio de Janeiro: Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, 1953.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

HIRSZMAN, Maria Lafayette Aureliano. Entre o tipo e o sujeito – Os retratos de escravos de Christiano Junior. Disseração apresentada na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, sob a orientação de Domingos Tadeu Chiarelli.

Jornal Açoriano Oriental, 20 de novembro de 2014

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

KOSSOY, Boris. Origens e expansão da fotografia no Brasil : século XIX. Prefácio Boris Kossoy. Rio de Janeiro: Funarte, 1980. 128 p.

KOUTSOUKOS, Sandra Sofia Machado. No estúdio do fotógrafo: um estudo da (auto) representação de negros livres e escravos no Brasil da segunda metade do século XIX. Campinas, Instituto de Artes da Unicamp, 2002

LEITE, Marcelo EduardoOs múltiplos olhares de Christiano Junior – Revista Studium,- Unicamp, edição 39.

Revista La Nacion, 21 de abril de 2002

Site da Enciclopédia Itaú Cultural

SOARES, Carlos Eugênio Libano. Christiano Junior e a face escrava do Brasil. Biblioteca Nacional Digital.

TELL, Veronica. Autor fotográfico y obrero del progreso: notas sobre el trabajo de Christiano Junior en la Argentina. Critica Cultural, junho 2009.

 

 

 

Lunara (1864 – 1937), um fotógrafo amador e fotoclubista de Porto Alegre

A Brasiliana Fotográfica apresenta o álbum Vistas de Porto Alegre – Fotografias Artísticas, com 20 imagens assinadas pelo fotógrafo amador gaúcho Lunara (1864 – 1937), e produzido pelos Editores Krahe & Cia. As fotografias nos revelam uma Porto Alegre bucólica de fins do século XIX, início do século XX.  Lunara era um dos pseudônimos do comerciante Luiz do Nascimento Ramos (1864 – 1937). Foi composto a partir das primeiras sílabas de seus três nomes e ele o usava para expor suas fotos e também para participar de concursos fotográficos. Mas Lunara não foi seu único pseudônimo: quando escrevia crônicas para O Athleta (1883 – 1889), semanário do Clube Caixeiral Porto Alegrense, assinava com os pseudônimos Bitu ou Sancho.  Em torno de 1899, como fotógrafo amador passou a integrar a associação Sploro Photo-Club, em Porto Alegre, um dos fotoclubes pioneiros do Brasil.

 

 

Segundo Denise Burges Stumvoll, mestre em Artes Visuais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e autora da dissertação Fotografia e aproximações com a arte no início do século xx : um olhar para as narrativas visuais de Lunara, o álbum Vistas de Porto Alegre “…propõe um percurso realizado pelo fotógrafo, em que somos conduzidos pelas bordas e margens da cidade, bem como aos lugares e às pessoas que ali viveram, como se interessasse, ao autor das imagens, produzir uma metáfora da marginalidade, social e cultural, revelando o que geralmente ficava à sombra da memória visual sobre a modernidade na paisagem urbana.”

Participante ativo da vida cultural e econômica da cidade, adotou a fotografia como um hobby. Aos domingos, Lunara costumava sair com sua máquina fotográfica, um tripé e várias chapas de vidro 13 x 18cm. Uma de suas companhias mais constantes nesses passeios por Porto Alegre era seu amigo, o pintor Pedro Weingartner (1853 – 1929), um dos mais importantes artistas do sul do Brasil. Seus destinos favoritos eram as margens do rio Guaíba ou dos arroios Cascatinha e Dilúvio. A convivência entre Weingartner e Lunara é um exemplo de uma relação estreita entre fotógrafos e pintores, o que ajudou a sedimentar “o papel de vanguarda dos estúdios fotográficos na disseminação da arte moderna” (1).  Ainda sobre a a proximidade dos dois: “Suas pinceladas minuciosas e cheias de detalhes assemelham-se , em seu estilo, à precisão realista das imagens de Lunara, que reitera as qualidades miméticas da linguagem fotográfica para constituir um registro histórico de grande relevância para sua cidade”. Outros exemplos da interação entre fotógrafos e pintores são o apoio do fotógrafo francês Félix Nadar (1820 – 1910) à exposição dos pintores impressionistas em 1874, em Paris; e o trabalho do fotógrafo norte-americano Alfred Stieglitz (1864 – 1946) na realização das mostras de artistas como o espanhol Pablo Picasso (1881 – 1973) e o francês Georges Braque (1882 – 1966), em Nova York

Alguns dos temas mais abordados nas fotografias de Lunara foram os ex-escravizados, cenas de família, os carreteiros, as aguadeiras e os viajantes. Seus registros eram influenciados pelo movimento pictorialista internacional, movimento que se desenvolveu a partir do surgimento dos fotoclubes e que caracterizava-se pelo resultado da fotografia, que se aproximava da pintura. Em suas imagens, Lunara, com um olhar artístico que acentuava aspectos bucólicos, mostrava seu universo familiar com sensibilidade e humor. Suas fotografias revelavam também a incipiente modernização da capital gaúcha.

 

 

Na Gazeta do Comércio de 25 de março de 1903, o jornalista Artur Pinto da Rocha (1864 – 1930) escreveu sobre o fotógrafo:

“Lunara é outro incorrigível amador da fotografia, que trata simultaneamente de açúcar e de tudo quanto passa… na Praça. Laureado nos concursos a que tem comparecido, é um artista que faz honra ao nosso meio. Tem sobre todos os seus brilhantes colegas a qualidade superior de descobrir na natureza os melhores assuntos e de saber vê-los através da objetiva com uma perfeição inexcedível de arte. E, vistos os motivos e interpretadas as cenas e observada a perspectiva e encantadoramente preparado o conjunto com uma empolgante sobriedade de elementos, Lunara tem ainda o soberbo dom de aplicar a seus trabalhos o título preciso e flagrante, com verve, com verdade e com justeza de conceito”.

Nas fotografias selecionadas pela Brasiliana Fotográfica, alguns desses títulos inspirados que ajudam a exprimir a visão e o objetivo do fotógrafo podem ser apreciados, dentre eles “Nhô João deixa disso“, “As cantigas do vovô” e “Mourejando“.

Acessando o link para as fotografias de Lunara disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas. 

 

 

Outro amigo de Lunara, Geraldino Silveira, publicou no O Athleta , em 1886, um pequeno perfil de Lunara, no qual fica evidente seu bom temperamento e gosto pelas mulheres. Revela também que ele tinha um problema de vista:

“Luiz Ramos. Acanho-me em tratar deste bom amigo. Eu quisera dizer aqui tudo que sei a seu respeito; descobrir-lhe os segredos que povoam-lhe o coração. Um coração afeito a todas as doçuras do amor, moldado para a conquista dos sorrisos castos. Mas para quê?; prefirom guardar comigo a história de nossas confidências, a história de suas aventuras, como ele guarda consigo a ventura de seus afetos, o juramento de suas belas. É o fraco do Luiz; morre por um olhar de mulher, que é para ele o supremo ideal da vida. Se depois de um jejum de oito dias pusessem diante do Ramos um bife ensanguentado e uma mulher formosa, ele jamais olharia para o bife enquanto a deusa olhasse para ele.

Alimenta-se do belo; arrebatasse ante a plástica de uns contornos lânguidos e abundantes de carne. Jesus foi sacrificado sobre o Calvário; o Luiz também há de ter um dia o seu Calvário sobre a montanha azul de um amor imenso. Seria esse o ponto mais saliente da vida do Ramos, se ela não gostasse de literatura; se ele também já não tivesse produzido belas páginas de prosa; uma prosa temperada de verve e de elegância. Quem não tgerá aí lido o Bitu ou o Sancho?

Tem talento; mas um talento abandonado à fantasia dos diálogos romanescos dos salões de baile. Pouco estuda; um incômodo de olhos privou-o dos livros e o vidro azul dos óculos que traz sobre o nariz, enche-lhe a imaginação de volúpia e a alma de ternura. Tem facilidade admirável para o estudo das línguas; poderia vir a ser um filólogo se não estivesse diariamente debruçado sobre a escrivaninha de um escritório comercial. Gosta de preferência de falar o italiano; pudera, se o italiano é a língua dos amores, da música e das paixões enormes.

Nunca vi o Ramos incomodado; é um todo de bondade e de indulgênica. Se alguma vez o spleen o assoberba, embriaga-se à fumaça de um caporal e pouco fala. Nesse estado finge sorrir, mas nem mesmo ri. O céu do coração também tem suas tormentas…

É este o Luiz de que vos falo, e que agora desfruta a primavera de seus vinte e dois anos. No mais, um bom amigo, sincero, delicado e simpático.”

 

 

Cronologia do fotógrafo Luiz do Nascimento Ramos, conhecido como Lunara (1864 – 1937)

1864 - Luiz do Nascimento Ramos nasceu, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, em 1864.

1883 - Passou a integrar a comissão editorial do jornal O Athleta (1883-1889), vinculado ao Club Caixeiral Porto Alegrense . No período de existência do jornal, escrevia e publicava crônicas bem-humoradas  sob os pseudônimos Bitu ou Sancho. O Club Caixeiral Porto Alegrense foi fundado, em 1882, por imigrantes alemães vinculados ao comércio.

1886 – Era um dos integrantes do Club Caixeral que seria homenageado com um espetáculo de gala em honra da simpática e brisosa classe caixeiral, no Theatro São Pedro (A Federação, Orgam do partido Republicano, 17 de maio de 1886).

1888 – De novo os comerciários foram homenageados com um espetáculo de ópera no Theatro São Pedro e os integrantes do Club Caixeral, dentre eles Lunara, representaram a classe (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 10 de março de 1888).

década de 1890 – Em fins dessa década, sua fotografia intitulada Aguadeira foi publicada na revista francesa Photo-Gazette .

 

 

1891 – Trabalhava na firma Caetano Pinto & Franco (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 17 de fevereiro de 1891).

1894 - Contratou casamento com Maria Isabel Borges Ramos (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 10 de maio de 1894, segunda coluna).

1896 - Associou-se a Adwaldo Franco e abriu a firma de importações Franco, Ramos & Cia. Também trabalhava como contador contábil em outras empresas.

c. 1899- Registrava a periferia da cidade aos domingos e utilizava o pseudônimo Lunara para expor suas imagens.

Como fotógrafo amador passou a integrar a associação Sploro Photo-Club, em Porto Alegre, um dos fotoclubes pioneiros do Brasil. Funcionava na Drogaria Ingleza , que pertencia a Sépia, também fotógrafo amador.

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Acervo de Imprensa da Museu de Comunicação Hipólito José da Costa, 1901

1899 –  Ele fotografou as festas da inauguração do velódromo da União Velocipédica e algumas ficaram expostas nas vitrines da Drogaria Ingleza, em Porto Alegre. Seu amigo, o fotógrafo Virgílio Callegari (1868 – 1937) faria as ampliações (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 23 de novembro de 1899, segunda coluna).

Lunara participou de um evento promovido pela associação Sploto Photo-Club, na Drogaria Ingleza. O júri do evento era formado por Augusto Daisson, Miguel Weingartner e Virgilio Callegari.

Década de 1900 - Foi editado e publicado o álbum Vistas de Porto Alegre – Fotografias Artísticas, com 20 imagens assinadas pelo fotógrafo amador gaúcho Lunara (1864 – 1937), e produzido pelos Editores Krahe & Cia, cuja loja e livraria ficavam na rua dos Andradas, em Porto Alegre.

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Acervo de Imprensa da Museu de Comunicação Hipólito José da Costa, 1901

1900 - Endereçou à Repartição Central da Secretaria de Estado de Negócios do interior e exterior em Porto Alegre uma carta sugerindo a adoção de um novo método marcas e sinais para gado (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 27 de agosto de 1900).

Nascimento de seu filho, Áureo.

1901 – Lunara já era um próspero comerciante e membro da diretoria da Associação Comercial de Porto Alegre.

Recebeu a medalha de bronze no segundo concurso para amadores da fotografia realizado nos salões da fotografia Leterre, na rua da Carioca, com um registro do busto de perfil da filha de um amigo. Fazia parte do júri o fotógrafo Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912), além do escultor Rodolfo Bernardelli (1852 – 1931) e do pintor Hilarião Teixeira (1860 – 1952). Nos dois primeiros lugares ficaram o carioca Narciso Braga e o gaúcho Luiz Manuel de Souza Filho (Jornal do Brasil, de 2 de março de 1901, sexta coluna e A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 9 de março de 1901, segunda coluna).

Realização da Exposição Estadual no Campo da Redenção, quando foi exibido o desenvolvimento da indústria e do comércio do Rio Grande do Sul. Luiz do Nascimento Ramos foi membro do júri do concurso de fotografias que integrava o evento. Os outros membros do júri foram Balduíno Rohrig e Luiz Manuel de Souza Filho (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 10 de março de 1901, quinta coluna). Na ocasião, fotografou todos os pavilhões da exposição. Forneceu as fotografias publicadas na  Revista da Semana, 5 de maio de 1901, uma edição especial comemorativa da Exposição Estadual Riograndense.

1902 – Publicação do artigo intitulado “Artigo Infamante – Aos Amadores de Fotografia no Brasil – Aos profissionais e a meus clientes e amigos “, de autoria de A. Laterre  em resposta a uma publicação de 5 de abril d e 1902 na Gazeta do Commercio, em Porto Alegre, que relatava que durante uma reunião do Sploro Photo-Club, da qual Lunara participou, haviam sido feitos protestos contra um artigo publicado pela revista parisiense Photographie Française, de janeiro de 1902, e também protestos contra o fotógrafo sr. A. Leterre, acusado de prejudicar os fotógrafos amadores do Rio Grande nos concursos que promovia. Nele o fotógrafo Joaquim Insley Pacheco, um dos juízes dos concursos, era mencionado (Jornal do Brasil, 20 de abril de 1902).

Publicação da fotografia “Sono Pesado”, de sua autoria, na Revista da Semana de 16 de novembro de 1902.

1903 - Conquistou medalha de ouro na Mostra Grupal de Artes Plásticas, promovida pelo jornal Gazeta do Comércio. Concorreu com diversas fotografias, dentre elas Águas correntes, Dois Filósofos e Nhô João, deixa disso…, que fazem parte do álbum Vistas de Porto Alegre.

Nascimento de sua filha, Zaida (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 28 de julho de 1901, terceira coluna).

1904 – Foi eleito para integrar o conselho fiscal da companhia de seguros marítimos e terrestre Phenix de Porto Alegre (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 11 de março de 1904, terceira coluna).

Foi eleito em 9 de outubro, conselheiro fiscal do Club Caixeiral Porto Alegrense (Almanak Laemert, 1905).

Recebeu 1 voto na eleição municipal para intendente e conselheiro (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 11 de outubro de 1904, terceira coluna).

1904 /1905 – Foram publicados cartões-postais colorizados de Lunara. A maioria pelos Editores Krahe &  Cia.

1905 – Foi eleito diretor da Praça do Comércio de Porto Alegre (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 1 de janeiro de 1905, quinta coluna).

1908 – Foi noticiada a chegada do negociante Luiz Nascimento Ramos ao Rio de Janeiro (O Século, 19 de setembro de 1908, quarta coluna).

Década de 10 – Publicava regularmente seu trabalho na revista Máscara.

1910 – Fotografou uma excursão automobilística (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 14 de novembro de 1910, primeira coluna).

1913 – Lunara foi o testamenteiro do pintor Pedro Weingartner (1853 – 1929).

1922 -Recebeu o prêmio da publicação La Revue de Photographie, de Paris, pela fotografia O Lago (Illustração Brasileira, 24 de junho de 1922).

Publicação da fotografia Sono pesado, de autoria de Lunara (Illustração Brasileira, 15 de agosto de 1922).

1937 – Faleceu em Porto Alegre e, durante décadas, sua obra permaneceu guardada por familiares.

1976 – A jornalista e fotógrafa gaúcha Eneida Serrano (1952 – ) entrou em contato com o filho de Lunara, Áureo, de 76 anos, que mostrou a ela o acervo de seu pai: uma máquina fotográfica, recortes de jornais, 15 chapas de vidro, 13 x 18cm, e dois álbuns com 60 fotografias de sua autoria.

1979 – Eneida Serrano realizou a exposição Lunara – Amador 1900, no Museu de Comunicação Hypólito José da Costa, em Porto Alegre.

2001 – Em homenagem ao fotógrafo, foi inaugurado no centro cultural Usina do Gasômetro, na capital gaúcha, a Galeria Lunara, espaço especializado em fotografias.

Suas fotos foram reunidas no livro Lunara Amador 1900, de Eneida Serrano.

2018 – Exposição, no Museu de Arte do Rio Grande do Sul, de 20 fotografias de autoria de Lunara na 11ª Bienal de Artes Visuais do Mercosul, realizada em Porto Alegre e Pelotas. As imagens fazem parte do álbum Vistas de Porto Alegre – Photographias Artísticas, do acervo fotográfico do Museu da Comunicação Hipólito José da Costa.

 Duas crônicas de Lunara com os pseudônimos Bitu e Sancho

(transcritas do livro Lunara Amador 1900, de Eneida Serrano)

É moda 

Tudo é moda, até dizer-se o que não se sente e sentir-se o que não se diz.

Não sei quem disse isto; mas quem disse tinha razão.

Uma moça conversando com um rapaz bem desempenado, de fácil verbiagem, dizia-lhe com o ar todo afetado:

- Sr. F… pelo o que o sr. acaba de dizer-me, detesta a maneira exagerada de usarem as modas hoje em dia?…

- Na verdade, minha senhora: e mil vezes bem digo a sorte por ter nascido homem, quando vejo passar-me pela frente essas moças, todas cheia de barbatanas, polvilhos, tintas, algodões e de tantas outras composições, que as francesas têm inventado para fazer do feio belo, do gordo magro, do pardo branco…

- Pois pensa inteiramente como eu… são coisas estas, que não só aborreço como também detesto.

- Pois então somos dois a pensar da mesma forma?!…

- Oh! naturalmente…

-Pois creia minha senhora…

Nisto entra o moleque da casa com um embrulho, e depositando-o sobre uma cadeira, diz todo vitorioso: “nhnhãsinha, o seu Juca deu a anquinha por um patacão, e mandou dizer prá nhanhãsinha que recebeu daqueles pós que nhanhãsinha…

- Minha senhora, sente-se incomodada? está vermelha…o que tem…

- Não é nada, costumo… sim… a enxaqueca…

- Queira receber as minhas despedidas e permita-me vir amanhã, saber de sua apreciável saúde…

- Pois não…quero dizer, queira não incomodar-se…

Saiu o homem… atravessou a rua… quis fazer um cumprimento ainda à moça da anquinha e teve a decepção de ver a sua cabeleira descolar-se do seu caco nu e descrever um semicírculo na sua frente…

Oh! malditas anquinhas!…

Impagabilíssimos chinós!…

Publicado no O Athleta de 14 de julho de 1886 e assinado Sancho (um dos pseudônimos de Luiz Nascimento Santos)

No baile do recreio

 Vi-a pela primeira vez, ainda me lembro bem, foi numa quinta-feira. Ela negociava uma caixinha de pós de arroz, com o Gama, na loja do Felizardo. Pisquei-lhe um olho, ela compreendeu.

A negrita que acompanhava a família estava à porta. Dei-lhe um níquel e fiquei logo ciente que Iaiá ia ao baile do Recreio.

Chegara o sábado. O Cosmopolita estava repleto das mais esplêndidas flores do nosso jardim.

Magnífica soirée.

Dançava-se com frenesi.

Fazia as honras da sala o simpático diretor, o roliço Guilherme.

Iaiá lá estava. Cumprimentei-a e tirei-a para uma valsa.

Ressoaram no salão as notas brilhantes de uma composição de Strauss. Cingindo aquela cinturinha breve, quis falar-lhe do meu amor. Pela primeira vez achei-me acanhado e senti que a amava deveras.

Guardaria-me para a quinta quadrilha. Armaria-me de coragem e estabeleceríamos as bases do nosso casamento.

Passeávamos na sala acalentando eu essa ideia, que me viera tirar de uma crítica posição.

Chega-se a nós, choramingas a morder um esquecido, uma encantadora criancinha. Agarra-se ao vestido da Iaiá, e com a mão esquerda a coçar-lhe o canto da vista repete-lhe três vezes:

– Eu quero ir pra casa, eu tô cum sono.

– Que belo irmãozinho

– Não tenho irmãos. Este é o meu filhinho mais velho.

Fiquei enfiado e viria para casa sem chapéu se o marido de Iaiá não me dissesse a chacotear.

– O Sr, vai sem cabeça?!…

Publicado no O Athleta de 24 de outubro de 1886 e assinado Bitu (um dos pseudônimos de Luiz Nascimento Santos)

A fotografia abaixo, Nhô João, deixa disso!,  inspirou o texto homônimo de Elvia Bezerra, coordenadora de Literatura do IMS, que foi publicado na Brasiliana Fotográfica, no Dia dos Namorados, 12 de junho de 2018.

 

Links para artigos já publicados na Brasiliana Fotográfica sobre fotógrafos amadores:

Ipanema, que completa 122 anos, pelas lentes de José Baptista Barreira Vianna (1860 – 1925), publicado em 26 de abril de 2016

O fotógrafo amador Guilherme Santos (1871 – 1966), publicado em 28 de julho de 2016

 

(1)  PEREGRINO, Nadja Fonseca; MAGALHÃES, Ângela. Fotoclubismo no Brasil: o legado da Sociedade Fluminense de Fotografia, pág. 119.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Hemeretoteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário Histórico-Fotográfico Brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

PEREGRINO, Nadja Fonseca; MAGALHÃES, Ângela. Fotoclubismo no Brasil: o legado da Sociedade Fluminense de Fotografia. Rio de Janeiro: Senac Nacional, 2012, 336 p.II.

SANTOS, Alexandre. O gabinete do Dr. Cellegari: considerações sobre um bem-sucedido fabricante de imagens. In: ACHUTTI, Luiz (org). Ensaios sobre o fotográfico. Porto Alegre: Unidade Editorial, 1998.

SERRANO, Eneida. Lunara amador 1900. Porto Alegre: E.S..,2002.

Site Enciclopédia Itaú Cultural

Site GaúchaZH Artes

Site Metropolitan Museum of New York

Site UFRGS Ciência

STUMVOLL, Denise Bujes. Fotografia e aproximações com a arte no início do século xx : um olhar para as narrativas visuais de Lunara. Dissertação de mestrado, 2014. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Instituto de Artes. Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais.

 

lunara1

Virgilio Calegari. Retrato de Luis do Nascimento Santos, c. 1900. Porto Alegre, Rio Grande do Sul / Fototeca Sioma Breitman / Museu Joaquim Felizardo

A Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro por Cássio Loredano

A Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro é uma das obras-primas da arquitetura portuguesa do período do Brasil colonial. Sabendo que a edificação é a preferida do caricaturista Cássio Loredano no Rio de Janeiro, inclusive tendo sido desenhada por ele para o livro “Rio, papel e lápis” (2015), a Brasiliana Fotográfica selecionou duas fotos do prédio, uma de Augusto Stahl (1828 – 1877) e outra de Georges Leuzinger (1813 – 1892), ambas produzidas em torno de 1865, e as mostrou para ele que, inspirado pelas imagens e por sua predileção, escreveu o texto que o portal publica no mês da festa de Nossa Senhora da Glória, que se comemora no dia 15 de agosto.

 

A Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro por Cássio Loredano

Cássio Loredano*

 

Antes de mais nada, uma pergunta em dois tempos. E um registro de protesto provindo de altíssima esfera. A pergunta: que necessidade terão tido os católicos cariocas de erigir, a poucas centenas de metros um do outro, dois templos em louvor da mesma virgem, Nossa Senhora da Glória? Por que a igreja do Largo do Machado se, desde pelo menos 1739, já pairava maravilhosa a outra, no alto do Outeiro, pequenina jóia incrustada no cenário prodigioso da baía?

 

 

Talvez outra irmandade devota da mesma virgem, talvez a necessidade de mais espaço e para fiéis que não desejassem sofrer subidas… E o protesto, de ninguém menos do que de Joaquim Maria Machado de Assis. O ‘bruxo’ simplesmente arrenegava daquele “templo grego imitado da Madeleine, com uma torre no meio imitada de coisa nenhuma” e desviava daquilo os olhos e o pensamento toda vez que passava pelo Largo, escreveu, para evitar o pecado de mandar templo e torre aos diabos. E tinha que fazê-lo pelo menos duas vezes ao dia, no bonde que o trazia do Cosme Velho à repartição e no que o levava de volta a casa. Mas chega. Não percamos mais tempo com a fealdade da Glória da praça, desviemos por nossa vez o pensamento e dirijamos o olhar para o Outeiro.

Acessando o link para as fotografias da Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas. 

Ótimo ponto de vista é a esquina da rua da Glória com Cândido Mendes, pelo vão que a folhagem dos plátanos abre ali. É agosto, é meio-dia e é domingo, suponhamos, dia da feira da Augusto Severo, a mais simpática da cidade. Os sinos se esganiçam e puxam-nos o olhar para o alto. Céu de inverno, nuvem nenhuma, o azul profundo que um jato estraga com uma risca de giz. Como é agosto, a igrejinha está toda engalanada para a festa do dia 15. A dez de seus dezoito coruchéus foram fixados os mastros das bandeiras, duas de cada, do Brasil, de Portugal, a branca e a amarela do Vaticano e as do Rio, estado e cidade. Aí, nesse domingo ideal, vinha uma brisa empurrar de leve os panos coloridos, só para sublinhar a sempre repetida leveza da construção. Banhada de sol, a cal da fachada brilha que ofusca contra aquele fundo de cobalto.
Não foram justos com a Glória os pintores viajantes que a retrataram dezenas de vezes nas vistas que fizeram da baía de Guanabara. Ou porque de muito longe não lhe vissem com clareza os detalhes ou pelo que fosse, nunca acertaram com sua forma, com sua elegância, com sua sobriedade, com sua graça. Menos o grande Thomas Ender, aquarelista que a princesa Leopoldina trouxe consigo e que voltou para Viena com o tesouro do Rio e um pouco do Brasil da segunda década do Oitocentos em seus desenhos e aquarelas. Ender e depois, é claro, a fotografia.

 

Fotografias antigas mostram então como foi se enchendo de ruído a placidez em que a Glória está nos óleos e aquarelas. Entre o sopé do outeiro e o monumento a Cabral e Pero Vaz, foi-se aglomerando um casario desordenado, houve depois um mercado e até uma chaminé. Manuel Bandeira levou a vida se lamentando de tudo o que vinha estorvar aquele silêncio antigo, coroando com a competição desonesta que a mole do Hotel Glória veio fazer à igreja na paisagem. (Agora, temos a mole – e depenada pelo infeliz que soltaram e cuja dívida fica para ser paga no Hades.) Ao menos nos vimos livres daquele certo mafuá que tinha se formado no entorno imediato do outeiro. E veio Lúcio Costa com seu tino certeiro para assuntos de patrimônio e construiu aquelas belas rampas de acesso ao adro da igreja com as pedras retiradas do cais do Flamengo com a construção do Aterro.

 

As rampas e seus patamares, quando o portão verde está aberto, são a subida mais bonita. Pelo lado da rua do Russel, existe para constar um plano inclinado que nunca está funcionando. Então, é subir pela Ladeira da Glória, que arranca do início da rua do Catete. A partir da praça de Nossa Senhora da Glória, lá em cima, a rua muda de nome e desce mais comprida, portanto menos íngreme, como Ladeira de Nossa Senhora, para desaguar no exosqueleto do Hotel Glória. É outra opção de subida.

 

Chegados à praça, damos, no centro do muro de arrimo do adro, com uma imagem sem interesse da virgem dentro de uma vitrine. De cada lado da vitrine estão os portões das escadas que convergem para a entrada do adro. Aberto está sempre só o da esquerda. O adro da Glória do Outeiro, um retângulo com os ângulos chanfrados, não é imenso mas é amplo em relação ao diminuto templo. É um dos espaços arquitetônico-urbanísticos mais generosos e felizes da cidade e a sensação de ali estar é das mais agradáveis possíveis, sensação de plenitude, de comunhão com a maravilhosa vista que dali se tem. (Neste espaço, José de Alencar imaginou a primeira cena de Lucíola, num entardecer de 15 de agosto, a festa da Glória. Em meio ao povaréu que está no adro, duas personagens masculinas põem-se a falar de linda dama desacompanhada que observam e que só um deles conhece. E mais não digo, para não bancar o spoiler.)

 

Eis a igreja, em suas delicadas proporções. A torre única, central, de base quadrada, se eleva a partir de um pórtico em cantaria de pedra com uma abertura frontal e duas laterais, todas em arcos plenos. A partir da altura do coro, a torre sobe em pilastras de pedra e alvenaria caiada até a cimalha e daí sai a sineira de alvenaria entre cunhais de pedra, tudo arrematado por quatro coruchéus e um bulbo de base octogonal com seu galo e sua cruz. Este bulbo foi a principal pedra no sapato daqueles pintores viajantes. Mas não acertaram mesmo. Só o austríaco.

 

A portada principal, a do pórtico, e as duas laterais de acesso à nave da igreja só se abrem em dias de serviço, casamentos, batismos, encomenda de almas. Em dias normais, a entrada é por trás, por uma das portas da sacristia. É preciso contornar a igreja. E mesmo que assim não fosse, a generosidade do adro nos convida, quase que nos obriga a essa volta em torno da construção. O espaço e a própria forma da igreja. Sua planta a partir do quadrado do pórtico/torre são dois octógonos irregulares, oblongos, um maior, o da nave, e outro menor, o da sacristia, interligados por uma cintura entre eles. O da nave é mais alto, contém o térreo e o nível do coro e das galerias que levam às tribunas, enquanto o da sacristia só tem térreo. Esses catorze ângulos externos dão ao corpo da igreja um dinamismo único e de cada um sobe uma pilastra de cantaria até a cimalha e seus catorze coruchéus ou pináculos.

 

Mas entremos pela sacristia. Mosaico xadrez preto e branco no chão; o grande aparador de madeira castanha escura com seus gavetões; os paramentos; a alfaia rebrilhando. A toda a volta, nas paredes, uma barra de azulejos de onze quadrados de altura – na nave, a altura da barra sobe para dezesseis azulejos -, que o BNDES fez restaurar há alguns anos. Mandou vir a equipe que fizera a restauração da azulejaria de São Francisco da Penitência da Bahia. Para os níveis mais baixos dos painéis, o pessoal tinha que trabalhar deitado no chão. “Não foram baianos”, alguém brincou. Quando na verdade a posição era extremamente desconfortável e dolorosa para braços e pescoços.

 

Dois corredores, que saem da sacristia um para cada lado e envolvem por fora a capela-mor lá dentro, conduzem às passagens que dão ingresso à nave. Muito do que aqui se fez até agora foi repetir as lições magistrais da professora Sandra Alvim em seus três volumes da Arquitetura religiosa colonial no Rio de Janeiro (Editora da UFRJ/IPHAN/Prefeitura do Rio/Faperj,1997/1999/2014). Uma vez dentro da igreja, é melhor darmos-lhe diretamente a palavra para que nos guie o olhar e nos ensine a ver a beleza daquela austeridade inaugural, na contramão da tendência do século ao luxo da talha e do ouro, dos forros coloridos, do ornamento em suma.

 

“A Igreja da Glória é uma das poucas do Rio de Janeiro na qual o espaço interno é definido pela construção propriamente dita. Não é a talha que organiza o espaço, e sim as superfícies das paredes estruturais e os elementos arquitetônicos de cantaria. O aspecto de obra acabada do seu interior foi tão forte e excepcional que não necessitou do preenchimento posterior com ornamentação em talha. Esta se restringiu aos altares e elementos complementares como os púlpitos, o coro e as sanefas. Até mesmo os nichos para os retábulos laterais foram definidos por arcos de cantaria, posteriormente encobertos pela talha dos altares. Outra importante característica da Igreja da Glória é a sua abundante iluminação natural, fato inédito entre as igrejas locais. Esse fato define uma mudança radical em relação às igrejas escuras da primeira fase [da arquitetura religiosa no Brasil] e revela também o apuro técnico de sua construção. Isso porque as grandes janelas laterais da nave foram abertas nas altas paredes que sustentam o empuxo exercido pela abóbada, sem comprometer suas funções estáticas.”

 

Tal domínio técnico e a qualidade formal da construção tornaram desnecessário o “uso de talha contínua para esconder as incorreções construtivas e a deficiência compositiva, como ocorria nas igrejas que então se realizavam”. À madeira, ao ouro, às cores, preferiu-se e se decidiu por deixar nuas a pureza de linhas e a perfeição estrutural do projeto atribuído ao tenente-coronel engenheiro José Cardoso Ramalho.
Um pouco de história e uma fofoca. Imagine-se a esquadra que trazia a família real em 1808 entrando na barra, entre a fortaleza de Santa Cruz e o Pão de Açúcar. O outeiro e a pequenina Glória são a primeira coisa da velha cidade que dali se avista, na época ainda diretamente debruçados sobre a baía, sem nenhum dos vários aterros que agora os mantêm tão apartados da água. Só pouco depois aparecem as igrejas do Castelo: São Sebastião e o Colégio dos Jesuitas.
Pedro, filho do regente d. João, que também vem embarcado, tem nove para dez anos. Vai se casar dali a nove anos com Leopoldina, a princesa austríaca que trará consigo aquele nosso Thomas Ender. O novel casal, certamente encantado com a mimosa igrejinha, elegerá a Glória para batizar todas as primeiras crianças brasileiras das casas de Bragança e Habsburgo, esta a linhagem dos ‘Áustrias’.

 

Parêntese, para tentar acabar com essa história de nossas matas, nosso ouro. Quem desenhou a bandeira do Brasil independente, depois de 1822, foi Debret, um daqueles artistas napoleônicos que ficaram desempregados depois de Waterloo e vieram bater às portas de palácios brasileiros, – e para quem arranjaram o eufemismo de “missão” francesa. Inspirado talvez nos estandartes dos regimentos napoleônicos, Debret botou um losango na bandeira, losango amarelo, cor dos Habsburgo, dentro do campo verde da casa de Bragança, sendo ainda o losango em heráldica a forma em que tradicionalmente se inscrevem os brasões das damas. Diz João Guilherme C. Ribeiro, em Bandeiras que contam histórias (ed. Zit, 2003), que “provavelmente a brasileira foi a primeira bandeira nacional a honrar uma mulher”.

 

Mas voltando. Na Glória foi batizado por exemplo o menino Pedro, futuro segundo imperador, mas antes dele a primogênita de Pedro e Leopoldina, Maria da Glória. Esta brasileirinha terá grande importância na história de Portugal. Quando d. João VI morreu em Lisboa em 1826, d. Pedro, que tinha sobre a cabeça a coroa brasileira, abdicou do trono português em favor de Maria da Glória, que tinha só sete anos. Propôs o casamento da garota com seu tio Miguel, irmão mais novo dele, Pedro, e determinou que o consorte fosse o regente da futura esposa até a maioridade desta. Mas Miguel se auto-coroou rei ele mesmo e Pedro ficou fulo do lado de cá do Atlântico. Abdicou de novo, dessa vez do trono brasileiro e partiu para guerrear o irmão. Ganhou – e o nosso Pedro I é o Pedro IV de lá. Oficialmente, foi uma guerra civil portuguesa de três anos entre absolutistas, os miguelistas, e liberais, os partidários de Pedro. Mas Evaldo Cabral de Melo bota pimenta no assunto. Diz que Miguel era só meio-irmão de Pedro. E não era por parte de pai, mas sim só da espanhola. Ora, não sendo filho do rei morto… Vá saber.

 

O fato é que Maria da Glória foi d. Maria II de Portugal. (Maria I foi sua bisavó, a louca, que morreu no Brasil.) D. Pedro IV é o nome oficial do Rossio, praça-umbigo de Lisboa. Está ele no centro da praça, de pé sobre altíssima coluna, olhando para a fachada do Teatro D. Maria II, o ‘municipal’ lá deles.

 

Irmão mais novo da brasileira rainha de Portugal, nosso Pedro II também batizou a filharada toda no Outeiro, inclusive a Redentora. E concedeu à irmandade dona da igreja o direito de usar ‘imperial': Imperial Irmandade de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, oficialmente. O brasão da família imperial está entalhado em madeira com detalhes em dourado no alto do arco-cruzeiro da igreja.

 

*Cássio Loredano é caricaturista.

 

Pequena cronologia da Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro

Cássio Loredano. A Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, 2015. Do livro “Rio, papel e lápis”(2015)

 

1608 – Segundo o site oficial da Imperial Irmandade de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, “alguns anos após a fundação da cidade, quando no ano de 1608, um certo Ayres colocou uma pequena imagem da Virgem numa gruta natural existente no morro”. Assim começava no Rio de Janeiro a devoção à Nossa Senhora da Glória.

1671 - Ainda segundo o site oficial,  as origens históricas remontam a a esse ano quando o “ermitão Antonio Caminha, natural do Aveiro, esculpiu a imagem da Virgem em madeira e ergueu uma pequena ermida no “Morro do Leripe”, onde já existia a gruta, formando-se em torno um círculo de devotos”.

1699 – Em 20 de junho, as terras com o nome de Chácara do Oriente, que compreendiam o outeiro, e que pertenciam a Cláudio Gurgel do Amaral, irmão da Ordem 3ª da Penitência e da Santa Casa de Misericórida, foram doadas à confraria de Nossa Senhora em escritura pública com a condição de que se fosse construída uma capela permanente e que nela fossem sepultados o doador e seus descendentes.

1701 – O padre João Caminha, filho de Antônio, foi designado em documento de 1º de abril capelão do coro da ermida.

1714 –  Segundo o Santuário Mariano, a Irmandade para cultuar Nossa Senhora da Glória possuía, nesse ano, quando foi iniciada a construção da Igreja da Glória, “quantidade de dinheiro para dar princípio a uma nova e grande igreja de pedra e cal, porque a primeira que se fez foi de madeira e barro.”

1739 – Conclusão da contrução da Igreja da Glória. Seu projeto é atribuído ao tenente-coronel José Cardoso Ramalho.

Instituição canônica da Irmandade de Nossa Senhora da Glória, em 10 de outubro, por ato do bispo do Rio de Janeiro, Frei Antonio de Guadalupe.

1808 – Chegada da família real portuguesa ao Rio de Janeiro, em 8 de maio. A predileção da Corte Portuguesa pela Igreja da Glória deu a ela muito prestígio.

1819 – A neta de D. João VI (1767 – 1826), filha de d. Pedro I (1798 – 1934), a princesa Maria da Glória (1819 – 1853), foi consagrada à Virgem da Glória e a partir de então os membros da família Bragança, nascidos no Brasil, são consagrados a ela.

1849 –  D. Pedro II outorgou o título de “Imperial” à Irmandade Nossa Senhora da Glória, em 27 de dezembro. Após esta data todos seus descendentes nascidos no Brasil são membros da mesma.

1937 – A Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro foi, durante o governo de Getúlio Vargas (1882 – 1954), declarada Monumento Nacional.

1938 – O tombamento definitivo da Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro está inscrito no Livro Tombo do Ministério de Educação, de 4 de maio de 1938, assinado por Rodrigo de Franco de Andrade (1898 – 1969), então presidente do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN, atual IPHAN).

1939 - Comemoração dos 200 anos da Irmandade de Nossa Senhora da Glória (Jornal do Brasil, 4 de outubro de 1939, segunda coluna, e Jornal do Brasil, 11 de outubro de 1939, quinta coluna).

1950 – Em 1° de novembro de 1950, o Papa Pio XII (1876 – 1958) proclamou o Dogma da Assunção da Virgem Maria e conferiu à Igreja da Glória o título de Basílica Nacional da Assunção (Correio da Manhã, 2 de novembro de 1950).

1965 - Dentro da programação de celebração do 4º Centenário da Fundação do Rio de Janeiro, foi construída pela administração estadual uma nova rampa de acesso à Igreja da Glória intercalada por terraços, um projeto do arquiteto Lúcio Costa (1902 – 1998), defensor da obra desde a década de 40.

Uma curiosidade: na revista O Cruzeiro de 27 de maio de 1961, foi publicada a matéria Um aquarelista inglês no Rio Imperial, sobre o pintor Emerica Essex Vidal (1791 – 1861), ilustrada com o trabalho Igreja da Glória em 1937.

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Fontes:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Outeiro da Glória: marco na história da cidade do Rio de Janeiro…[et al]: organizado por [Roberto Padilla]: fotografias de [Zeca Pinheiro Guimarães…et al]. – João Pessoa: Artepadilla, 2015.

Portal do IPHAN

Site Infopatrimônio

Site oficial da Imperial Irmandade Imperial de Nossa Senhora da Glória do Outeiro

SUZUKI, Marcelo. As rampas do Outeiro da Glória. Artigo da revista ArqTexto, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

TELLES, Augusto C. da Silva. Nossa Senhora da Glória do Outeiro. Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora, 1969.

Paris, 1889: o álbum do Brasil na exposição universal

Segundo a historiadora e pesquisadora Claudia Beatriz Heynemann, o álbum “Exposição Universal de Paris 1889 – Exposição Brasileira “, conservado pelo Arquivo Nacional, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, “é um acontecimento em si, o da difusão da linguagem fotográfica, instaurando a visualidade de uma época, não apenas pelo que escolhe mostrar, mas lançando sobre esses cenários a aura de modernidadede que se revestiam aquelas sociedades”. Composto de sessenta e uma fotografias, o álbum é dedicado à participação do Brasil no evento, que celebrou o centenário da Revolução Francesa e da República e atraiu 32 milhões de visitantes. As exposições universais disseminavam os avanços da indústria, do comércio e o cosmopolitismo.

 

Paris, 1889: o álbum da exposição universal

Claudia Beatriz Heynemann*

A vista obtida entre os diferentes pilares da Torre Eiffel, em vários ângulos, com a estrutura nem sempre visível, pontua boa parte do álbum da participação brasileira na exposição universal de Paris em 1889. Referência até de tomadas internas do pavilhão nacional segundo as legendas, a Torre era o que havia de moderno na engenharia, na arquitetura do ferro, enfrentando críticas de alguns e a admiração de muitos. Distribuídos sobre uma superfície de 96 hectares envolvendo o Campo de Marte, e as regiões do Trocadero e da Esplanada dos Inválidos – 35 países participaram da festa que reuniu 61.722 expositores, atraindo 32 milhões de visitantes. [1]

 

 

Entre 6 de maio e 31 de outubro, a quarta exposição universal organizada pela França celebrou o centenário da Revolução Francesa e da República, e era também demonstrativa do lugar conquistado pela França e seu império colonial naquele fim de século. A expressão corresponde ao intervalo entre 1870 e 1914: marcado por agitações políticas compreende outras balizas tradicionais, como a conclusão dos processos de unificação alemã e italiana até a 1ª Guerra Mundial. A belle époque, outra delimitação aplicada à virada do século XIX ao XX, ficaria assim conhecida dados os signos de progresso de que se imbui o século XIX, uma perspectiva otimista como adverte Francisco Falcon e que contrasta com a “face sombria e trágica” da época. Uma nova compreensão desses anos leva a que se fixe o princípio da época contemporânea a partir dos 1900, uma fronteira deslocada do marco da Revolução Francesa. De todo modo, lembra o autor, “a passagem de um século a outro é importante por tudo que ela antecipa de ameaçador no século que se inicia, em contraste com certa imagem literária de paz, prazer de viver, domesticação dos conflitos e dos sentidos”.[2]

Poucas décadas antes, o poeta Charles Baudelaire (1821-1867) relacionaria a modernidade com o transitório, a moda, a decoração, a representação do presente, e o espetáculo das multidões que aspiravam a poeira das fábricas. E também com a fotografia que logo assumirá uma escala industrial, linguagem moderna, presente, por excelência. Assim, o moderno será relacionado, no Oitocentos, à mecanização e à indústria, ao progresso da ciência, ao progresso enfim, antes que se impusesse o discurso da modernidade na economia, substituindo-o pelo termo do desenvolvimento. O século XIX se constitui sob esse aspecto por inovações até ali impensáveis, que se dão de modo cada vez mais acelerado, ritmo que se imprime à própria percepção do tempo histórico.

Acessando o link para as fotografias da exposição brasileira na Exposição Unversal de Paris de 1889 disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas. 

As exposições universais ultrapassaram o objetivo primeiro de disseminar os avanços da indústria, do comércio entre as nações, de um padrão de comportamento, e de impor uma pedagogia do progresso às massas para se tornarem “manifestações de todo um pensamento” sendo preciso, assinala Helena Barbuy, que se entenda as exposições universais como algo muito maior do que meras feiras comerciais, a despeito de seu caráter industrial. Eram antes salões de arte que privilegiavam as manifestações intelectuais, mais do que o comércio ou as atividades produtivas, o que se poderia constatar na própria premiação por meio de medalhas e honras, e não por valores em dinheiro. [3] Para Nelson Sanjad, no entanto o que prevalece afinal é um sistema ditado pela classificação dos objetos. Ao avaliar a historiografia das exposições o autor destaca a importância de se reconhecer essa lógica de organização, que se voltará não para uma apreciação intelectual que considerasse a matéria prima e as técnicas utilizadas, mas para a valorização de objetos, da produção, de atividades industriais. Apesar das críticas, o principal esquema aplicado guiava-se pela utilidade dos itens expostos, obedecendo a um princípio pragmático. [4] A adoção desse método conduz a outras escolhas como edificações, circuito obedecido, arquitetura dos pavilhões, no âmbito de “uma cultura das exposições” a que se refere o autor.

 

A exposição brasileira

Composto de sessenta e uma fotografias, [5]o exemplar do álbum “Exposição Universal de Paris 1889 – Exposição Brasileira” conservado pelo Arquivo Nacional [6] é dedicado à participação do país no evento, o que inclui as tomadas externas em que vemos parte da circulação do público, quiosques e a Torre Eiffel, algumas fachadas de outros pavilhões latino-americanos como México e Argentina, os três pavimentos da edificação e as áreas internas formadas pelo jardim, lago, estufa e as galerias de ligação.

 

O público e o staff envolvidos na organização da exposição brasileira aparecem sempre ao ar livre, enquanto as salas reservadas aos produtos permanecem vazias, possibilitando uma melhor apreciação. A série chama a atenção pela própria intenção do registro, como o “estudo do arco”, dedicado à claraboia e à decoração acima do arco, explorando o efeito de luz da iluminação natural no ambiente. Outros exemplos são a “vista longitudinal” e um “estudo de perspectiva” sobre a sala do Conselho.

 

 

Além da tarefa de documentar a montagem da exposição brasileira pelos pavimentos, posaram para o fotógrafo não identificado, grupos de zeladores, jardineiros, empregados no quiosque de degustação de café[7], membros da Comissão Brasileira de Estudos, além dos integrantes do Comitê Franco-Brasileiro que organizou o evento. Formado por jornalistas e escritores, com o apoio do governo imperial, foi responsável pela participação de uma das poucas monarquias presentes ao evento comemorativo de uma república, o império do Brasil. A demora em confirmar a participação do país, iniciada somente em junho, a exemplo de outros governos latino-americanos, fez com que as respectivas representações ocupassem o terreno antes reservado a jardins e restaurantes, aos pés da Torre Eiffel, na “aleia do sol”, conforme Helena Barbuy. [8]

 

 

Reunidos na sala da rua Lafayette, cinco membros do Comitê se debruçam atarefados sobre a mesa enquanto uma criada permanece à porta. Roupas e decoração, armários e vitrines constituem mais um motivo de interesse para os que se dedicarem a essas imagens, signos de uma civilização que então se celebrava e a qual a classe dirigente brasileira pretendia se integrar. Nesse sentido, uma das principais abordagens sobre a participação de nações como o Brasil nas exposições universais refere-se ao descompasso com o centro evidenciado nas vitrines dos exportadores de matérias-primas.

 

 

 

Entendidas de modo geral como espetáculos da ordem burguesa no âmbito de uma cartografia estabelecida pela expansão do capitalismo e do imperialismo, essas exposições contaram em sua maioria com expositores brasileiros e se estruturaram a partir de 1876, em Filadélfia, com pavilhões edificados, quando se adotou esse modelo para as exposições internacionais. Em torno da exibição nos Estados Unidos construiu-se uma interpretação do lugar do Brasil nesse cenário, na qual se admite a predominância de produtos agrícolas, minerais, da flora e da fauna brasileiras, além da exploração de um “exotismo” das populações indígenas, o que, no entanto, não é paradoxal. Isso porque o Império e suas vitrines eram parte de uma mesma lógica: “não se tratava, portanto, de um antagonismo entre invenções/tecnologia versus recursos naturais, mas pensá-los dentro de um mesmo plano de análise ligado a diferentes projetos de modernidade que cabiam a cada uma das nações no capitalismo internacional naquele momento”.[9]

Ainda sob esse aspecto, jornalistas e outros observadores teriam percorrido o pavilhão brasileiro com a atenção voltada para os produtos primários que lideravam a pauta de exportações do Império. Tendo entre os membros da Comissão, o célebre paisagista Auguste Glaziou (1833 – 1906), responsável, entre muitas obras, pela reforma do Passeio Público e do Campo de Santana no Rio de Janeiro, o Pavilhão brasileiro incluía um jardim com plantas exóticas, o lago da Vitoria Régia e uma estufa, o que teria dado a alguns críticos franceses contemporâneos a impressão do Brasil como “uma grande plantação”. [10]

 

 

Esse veredito contrariava em muito a provável expectativados expositores, pois considerando a valorização de jardins e florestas pelo Império, pode-se enxergar nessa composição o discurso científico contraposto à ideia de barbárie e destruição da natureza, além do consagrado papel distintivo que as riquezas naturais tiveram entre os letrados brasileiros do século XIX.

Das inúmeras narrativas que o álbum oferece impõe-se aquela que organiza a trama da derrocada do Império e da Proclamação da República, ocorrida quinze dias após o final da exposição. É então que se olha para as tomadas do primeiro e segundo andar do pavilhão de onde se vê a bandeira imperial. Na parede da sala do Conselho o retrato do Imperador encimando a entrada soa já como anacrônico naquele momento, diante do desfecho político iminente. Tampouco se pode esquecer a abolição do trabalho escravo, ocorrida menos de um ano antes e que tem como um de seus indícios na exposição brasileira, o incentivo à imigração europeia, alardeada não apenas como um substituto da mão de obra, mas como um meio para o “branqueamento” da população. Não deixa de ser interessante do ponto de vista da historiografia sobre a inserção brasileira em suas potenciais contradições que nesse caso já se vivesse um momento pós-abolição. Não era mais a “monarquia escravista”, mesmo que permaneça válido o quadro embaraçoso de uma população miserável, desprovida de educação, assolada por epidemias que desestabilizava o outro quadro, o da sociedade moderna, das aquisições tecnológicas, da alta cultura, como escreve Nelson Sanjad.

 

 

Outro sintoma desse desajuste estaria na exposição de artefatos indígenas, como os instrumentos de pesca e cestaria, além de outros itens extraídos da cultura material desses grupos, lembrando que um pavilhão amazônico foi construído e figura em algumas fotografias. Ainda para Sanjad, “havia constrangimento, tanto no sentido de condensação, redução quanto no de embaraço provocado por situação moralmente desconfortável, em apresentar a diversidade social e cultural desses países em um contexto imperialista, colonialista, racista e eurocêntrico, o que levava à idealização das populações locais em chave positiva ou negativa, mas sempre representadas de maneira a-histórica, homogeneizadas, desterritorializadas, às vezes propositalmente invisibilizadas”. [11]

 

 

O álbum é um acontecimento em si, o da difusão da linguagem fotográfica, instaurando a visualidade de uma época, não apenas pelo que escolhe mostrar, mas lançando sobre esses cenários a aura de modernidadede que se revestiam aquelas sociedades. As belas imagens do Pavilhão das máquinas, [12] dos armários e bancadas repletos de panos de algodão, mate, café, perfumes e quadros documentam a Exposição de Paris também por sua definição como imagem técnica: imbuídas de um pressuposto de confiabilidade, registro do real, objetos de exibição nas exposições universais, experimentadas como suvenir, arquivo, memória.

 

 

[1]L’ExpositionUniverselle de Paris 1889 | Un Jour de plus à Paris. Disponível em <http://www.unjourdeplusaparis.com/paris-reportage/exposition-universelle-1889> Acesso em 8 de maio de 2018

[2]Cf. FALCON, Francisco José Calazans. De um século a outro: uma nova época ou um novo mundo? Acervo, [S.l.], v. 22, n. 1 jan-Jun, p. 7-18, nov. 2011. ISSN 22378723. Disponível em: <http://revista.arquivonacional.gov.br/index.php/revistaacervo/article/view/97>. Acesso em: 03 Jul. 2018.

[3]BARBUY, Heloisa. O Brasil vai a Paris em 1889: um lugar na Exposição Universal. Anais do Museu Paulista. São Paulo. N. Sér. v.4 p.211-61 jan./dez. 1996. Disponível em <http://www.revistas.usp.br/anaismp/article/viewFile/5342/6872> Acesso em 20 de junho de 2018

[4]SANJAD, Nelson. Exposições internacionais: uma abordagem historiográfica a partir da América Latina. Hist. cienc. saude-Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 24, n. 3, p. 785-826, set. 2017. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702017000300785&lng=pt&nrm=iso> Acessos em 03 jul. 2018, p. 790.

[5]A edição em francês permitia atingir autoridades e empresários na França e demais nações

[6]Agradecemos a Mauro Domingues que tratou e formatou esse álbum, além de muitos outros registros da coleção Arquivo Nacional inseridos na Brasiliana Fotográfica, permitindo assim a sua difusão.

[7] A degustação de café já fora promovida na Exposição Continental de Buenos Aires. Conferir “A festa do progresso: o Brasil na Exposição Continental, Buenos Aires, 1882”, de Maria do Carmo Rainho. Disponível em http://brasilianafotografica.bn.br/?p=11486

[8] Cf. BARBUY, H. Op. cit.

[9] MACHADO, Marina Monteiro; MARTINS, Monica de Souza Nunes. A modernidade nas teias da floresta: o Brasil na exposição Universal da Filadélfia de 1876. Geosul, Florianópolis, v. 32, n. 65, p. 68-86, nov. 2017. ISSN 2177-5230. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/geosul/article/view/2177-5230.2017v32n65p68>. Acesso em: 04 jul. 2018. Para essas autoras deve-se igualmente atentar para a transformação que se opera ao longo do tempo nas exposições, sua dimensão do ponto de vista da cultura de massas e a entrada em cena de artigos consumidos pelas classes trabalhadoras, indicando uma popularização desses eventos.

[10] Cf. BARBUY, H. Op. cit.

[11]SANJAD, N. Op. cit

[12] O Brasil foi representado nesse espaço, em que ficavam agrupados equipamentos e eram efetuadas as demonstrações, pelas máquinas de Alfredo Michel, dentre elas “um novo systema de alambique para a destillação no vácuo”. Cf. DANTAS, Regina Maria M. Costa. A participação do Museu Nacional na Exposição Universal Internacional de 1889. Tese (Doutorado em História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia) – Programa de Pós-graduação em História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia/Universidade Federal do Rio de Janeiroem Paris. Disponível em http://www.museunacional.ufrj.br/semear/docs/Teses_dissertacoes_tcc/Tese_DANTASREGINA.pdf Acesso em 5 de julho de 2018.

*Claudia Beatriz Heynemann é Doutora em História e Pesquisadora do Arquivo Nacional

 

 

 

A festa do progresso: o Brasil na Exposição Continental, Buenos Aires, 1882

 

Uma das marcas do período compreendido entre meados do século XIX e o início do século XX é a realização de exposições internacionais. Embora mais modesta do que outras mostras internacionais, no que se referia às dimensões e ao número de países participantes, a realização da Exposição Continental de Buenos Aires inseria-se nessa tendência. A historiadora Maria do Carmo Rainho, do Arquivo Nacional, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, é a autora do artigo A festa do progresso: o Brasil na Exposição Continental, Buenos Aires, 1882, que o portal publica hoje para seus leitores.

 

A festa do progresso: o Brasil na Exposição Continental, Buenos Aires, 1882

Maria do Carmo Rainho*

 

Uma das marcas do período compreendido entre meados do século XIX e o início do século XX é a realização de exposições internacionais, que podem ser sintetizadas como espaços de fruição e exibição das mudanças nas técnicas, na ciência, na cultura, nos modos de produzir e consumir uma ampla gama de artigos, nas artes, na educação, bem como nas relações internacionais. Estas exposições evidenciam ainda, a tentativa de estabelecer uma espécie de ordem visual, cultural e política para o mundo. Inez Turazzi ressalta, também, para a grandiosidade dos números que cercam estes eventos.

“se incluirmos a primeira Grande Exposição Internacional de Londres de 1851 e a Exposição Universal de Paris de 1900, chegaram a ser realizadas dez grandes exposições internacionais e universais, com um público que atingiu a cifra impressionante de 172 milhões de visitantes, aproximadamente.”[1]

Estruturada em torno de pavilhões de países e regiões, as exposições exibiam, numa disposição particular, objetos que visavam representar economias e culturas. Nestes espaços criava-se uma atmosfera de progresso contínuo das nações, embora estas estivessem ali submetidas a uma hierarquia: cabiam às mais desenvolvidas os espaços centrais. Para Dussel, as nações eram elas próprias, commodities, prontas para serem consumidas.[2] Cada espaço expositivo – com seus arranjos – criava narrativas nacionais reforçadas pela obtenção de medalhas e menções honrosas; a conquista desses prêmios concedidos aos governos, instituições públicas e empresas privadas, era devidamente capitalizada em matérias e anúncios publicados pela imprensa, nos rótulos e marcas dos produtos, nos versos das carte de visite e carte cabinet.

Embora mais modesta do que as mostras internacionais, no que se referia às dimensões e ao número de países participantes, a realização da Exposição Continental de Buenos Aires[3] era uma tentativa do governo argentino de difundir ideias como a superação da Guerra da Tríplice Aliança envolvendo Argentina, Brasil e Uruguai contra o Paraguai e finalizada há pouco mais de um decênio; a aposta na paz interna e externa; o desenvolvimento das suas indústrias, para o qual concorria a presença maciça de imigrantes, com destaque para a produção do açúcar e do trigo. A própria instalação do pavilhão, um prédio em estilo art-déco, no lugar de um antigo mercado de frutas na Praça Onze de Setembro, situado no que era, até então, um subúrbio miserável, se insere no projeto de vender a imagem de uma nação moderna, desenvolvida e com uma capital que, desde o início da administração de Torcuato de Alvear (1868 – 1942), em 1880, primava pela intervenção urbana, com a expropriação de lojas, abertura de largas avenidas, e expulsão dos moradores de cortiços das áreas centrais de Buenos Aires.

Acessando o link para as fotografias da Exposição Continental de Buenos Aires de 1882 que estão disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Inaugurada em 15 de março de 1882, no Palácio da Exposição,[4] o evento contou com a presença do presidente da República Argentina, Julio Roca (1843 – 1914), de ministros, do presidente da municipalidade da capital e de um grande contingente de visitantes,[5] ensejando um feriado, decoração com bandeiras e galhardetes e uma iluminação especial nas ruas do entorno, além da realização de parada militar. Lojas e estabelecimentos públicos e privados não funcionaram e coube à orquestra do Teatro Colón executar o hino nacional. Até 23 de julho daquele ano, cerca de 50 mil pessoas tiveram acesso a cem mil objetos, exibidos por 2 mil expositores estrangeiros e 1.200 argentinos. Do total de 27,370 m2, 18,240m2 eram ocupados por galerias cobertas e 3,680 m2 por quiosques. Quanto à utilização dos espaços pelos expositores, à cidade de Buenos Aires, por exemplo, cabiam 2.800m2, ao Uruguai, 1.500m2, ao Brasil, 500m2, ao Chile 300 m2, ao Paraguai 300m2, à Venezuela 100m2, e ao México 50 m2.

Com relação à afluência do público, dados publicados pela Gazeta de Notícias apontam que entre 2.000 e 4.000 pessoas visitaram a exposição nos dias de semana e de 8 a 9 mil aos domingos; quase 50% eram crianças em passeios promovidos pelas escolas.

A participação brasileira na Exposição ficou a cargo da Associação Industrial, órgão criado em 1880 e que teve como primeiro presidente o médico e empresário do setor têxtil Antônio Felício dos Santos (1843 – 1931). Dentre as primeiras pautas defendidas pela entidade estavam: a defesa de uma política alfandegária protecionista, a atração de mão de obra e capitais estrangeiros, o estímulo à criação de empregos, a necessidade de livrar o Brasil da dependência da economia agrícola e a busca pelo equilíbrio da balança comercial.

Com vistas a escolher os produtos a serem exibidos em Buenos Aires, a Associação organizou uma exposição preparatória[6], no Rio de Janeiro, em dezembro de 1881, no edifício do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas. Para tanto, concedeu aos interessados das outras províncias o transporte gratuito do material bem como o espaço expositivo. Outra iniciativa do órgão, divulgada continuadamente no jornal O Industrial, era um chamado às “senhoras” para que concorressem com trabalhos que fossem “dignos de ser expostos” tanto na Exposição da Indústria Nacional, quanto na Exposição Continental de Buenos Aires.[7]

O diretor da Academia de Belas Artes, Antonio Nicolau Tolentino (1810 – 1888), e o diretor da Escola Politécnica,  Inácio da Cunha Galvão (1921 – 1906), também foram convocados a colaborar com os eventos, encaminhando a produção de alunos e professores nas áreas de pintura, estatuária e das ciências. No mesmo sentido, correspondências foram encaminhadas aos dirigentes de instituições como o Museu Nacional, a Imperial Academia de Medicina, o Instituto da Ordem dos Advogados, a Imperial Sociedade Tipográfica Fluminense, dentre outras.

Em 1º de abril de 1882, foi inaugurada a seção brasileira na Exposição de Buenos Aires. No discurso de abertura, um dos membros da Comissão Nacional, Manoel Diego dos Santos, ressaltou que, diferente da participação em exposições anteriores, pautada pela exibição de suas riquezas naturais, naquela ocasião, o Brasil visava a exibir a sua indústria.[8]

Nessa direção, os registros do fotógrafo Samuel Boote (1844-1921)[9] sobre a participação brasileira são interessantes porque constituem uma espécie de síntese daquilo que os organizadores brasileiros – industriais – intentavam mostrar na Argentina, os modos como os produtos, máquinas e equipamentos, trabalhos manuais e fotografias foram expostos, mas, sobretudo, a memória que se desejou conformar. Embora não tenham sido localizados documentos acerca da contratação de Boote para a realização do trabalho, entende-se que ele foi comissionado para registrar as seções brasileiras, posto que organizou um álbum com 25 fotografias que foi entregue a autoridades brasileiras e estrangeiras; onze dessas imagens podem ser encontradas no Arquivo Nacional.[10] O primeiro aspecto que chama a atenção é o fato das fotografias terem sido produzidas, em sua maioria, sem os visitantes ou expositores. Do mesmo modo, não são registradas as autoridades brasileiras nem os representantes das empresas e instituições participantes. Uma exceção é a fotografia dos Jardins onde se acha a Coleção de Plantas de Lourenço Hoyer. Nela, homens em grupos ou sozinhos – apenas homens – posam portando a indumentária típica daquela época e dos sujeitos das camadas médias e altas: casaca, cartola, coletes, cores, em sua maioria, escuras, o indefectível relógio de bolso. Barbas e bigodes complementam o parecer masculino tido como elegante.

 

 

Se a exuberante natureza brasileira parece subsumida nas outras seções, face ao destaque dado à indústria, o jardim postado em frente ao quiosque de distribuição gratuita de café[11]  em estilo mourisco é, ao mesmo tempo, moldura, cenário para a entrada nas salas do evento e também prova de uma natureza domesticada. Não à toa, a organização desse espaço coube a Lourenço Hoyer, experiente horticultor, premiado em 1876, com a medalha de ouro, por suas plantas ornamentais em exposição realizada em Petrópolis no local que daria origem ao Palácio de Cristal.

 

 

Alguns outros espaços expositivos receberam vasos de plantas como o Troféu de cerâmica, com suas estatuetas, vasos, telhas, tijolos e um volume com o título de Bom Jardim.

 

 

A expectativa em torno daquilo que as indústrias brasileiras apresentariam, alimentada pela imprensa local, ganhou fôlego com o fato de o Brasil ter demorado a inaugurar sua participação. Com os itens em expostos, o periódico La Patria Argentina, por exemplo, ressaltava aqueles em ferro, madeira, além dos tecidos e produtos de higiene e farmacêuticos. Sabões, vidros com preparações e medicamentos ganharam destaque na imagem intitulada Vista do primeiro compartimento da esquerda. A qualidade das chamadas “elaborações químicas” brasileiras, como a Flora Brasileira, de Eugenio Marques de Holanda, aliás, mereceu a atenção dos jornalistas.[12]

 

 

Sobre a produção industrial, as imagens registram tanto uma miscelânea de produtos como deixa claro o título de Compartimento geral – Várias indústrias, na qual são vistos de ferros de passar roupa a ferraduras, até os espaços integralmente dedicados aos transportes e a uma empresa específica, como a Companhia de Carris Urbanos,[13] na legenda identificada como Companhia de Carros Urbanos.

 

 

 

O espaço concedido ao fumo, ao café e aos tecidos, evidencia alguns dos mais relevantes produtos nacionais. Sobre os tecidos, em especial, é importante lembrar que, naquele ano de 1882, existiam, no Brasil, cerca de 50 fábricas, produzindo 20 milhões de metros anualmente.  Apesar disso, soa quase como uma ironia, que o Brasil dedicasse um lugar especial aos tecidos de lã justamente no país que era o seu principal produtor na América do Sul, embora possuísse apenas uma fábrica de lanifícios, que, aliás, nem integrava o evento.

 

 

Conforme prometido pela direção da Associação Industrial, na Exposição Continental de Buenos Aires, montou-se também uma seção específica para os trabalhos de senhoras, na qual se viam, entre outros, almofadas bordadas, lenços e toalhas com monogramas, arranjos florais expostos em caixas, fotografias emolduradas. Os sentidos do que se entendia por “trabalhos de senhoras” pode ser depreendido no texto publicado no jornal O Industrial sobre a Exposição do Rio de Janeiro: o termo aparece associado a adjetivos como “mimo de delicadeza, perícia e bom gosto, como só os sabem ter as senhoras”; “são a delicadeza dando mão à força, a graça mesclando-se aos artefatos da indústria. Tal o seu direito de presença na nossa Exposição.”[14] O “direito de presença” dos artefatos produzidos e escolhidos pelas senhoras da boa sociedade, ao mesmo tempo em que evidenciava que o trabalho para essas mulheres era sinônimo de lazer, sempre associado às atividades manuais e às habilidades que delas se esperavam, deixava claro o papel desempenhado por esses produtos nas exposições: eram enfeites, uma espécie de respiro face à seriedade dos aparelhos, máquinas, produtos agrícolas e a tudo o que relacionava ao universo masculino. Da mesma forma, deixava invisíveis as mulheres que efetivamente trabalhavam, desde as empregadas nas indústrias de calçados e ateliês de modas até os contingentes maciços nas indústrias têxteis, aquelas que forneciam para as senhoras, os linhos e algodões a serem bordados e expostos.

 

 

A exposição se encerra com a concessão de 268 prêmios ao Brasil: 28 medalhas de ouro; 76 de prata; 94 de bronze; 70 menções honrosas: das fotografias registradas por Marc Ferrez e Guimarães às casacas da Imperial Alfaiataria Águia de Ouro; do Brasil Industrial, por seus tecidos de algodão ao Arsenal de Marinha da Corte pelos trabalhos de serraria; da cama de ferro da Casa de Correção aos fumos em pacotinhos de José Francisco Correa.

Como lembra Andermann, “frente às alegorias monumentais montadas nas exposições universais, nas quais Argentina e Brasil eram celebrados como depósitos exóticos de riqueza em um estado de disponibilidade pura e imaculada, as exposições nacionais inventaram uma linguagem material de revelações profanas que permitiam vislumbrar um modo de inserção diferente na emergente economia mundial capitalista.”[15] Nas palavras de Henrique Hargreaves, referindo-se à Exposição Continental de 1882, aquela era a “festa do progresso”, que colocava o Brasil num lugar de destaque na economia do continente e que, ainda segundo ele, valeu mais do que vinte anos de notas diplomáticas.[16]

 

*Maria do Carmo Rainho é Doutora em História (UFF) | Pesquisadora do Arquivo Nacional e do Museu Histórico Nacional

 

[1] TURAZZI, Maria Inez. Poses e trejeitos: a fotografia e as exposições na era do espetáculo (1839-1889). Rio de Janeiro: Funarte/Rocco, 1995, p. 37.

[2]  DUSSEL, Inés. The spetacle of schooling and the construction of the nation in Argentina´s participation in world exhibitions (1867-1889). In: Modelling the future: exhibitions and the materiality of education, Martin Lawn (ed.). Oxford: Symposium Books, 2009, p. 130.

[3] Esta exposição foi a segunda realizada na Argentina – antes dela, apenas a de Córdoba, em 1871 – e a quarta da América do Sul, após a mencionada de Córdoba, a de Lima (Peru, 1872) e a de Santiago (Chile, 1875).

[4] Demolido imediatamente após o término da Exposição, como era comum aos edifícios construídos para os eventos desta natureza.

[5] Conforme a Gazeta de Notícias, de 15 a 20 mil pessoas teriam participado do evento de abertura da exposição, circundando o Palácio da Exposição para assistir à parada militar. Gazeta de Notícias, 26 de março de 1882. Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=103730_02&pasta=ano%20188&pesq=Exposi%C3%A7%C3%A3o%20Continental Acesso em 14 de março de 2018.

[6] Jorge Henrique Leuzinger, filho do fotógrafo e editor George Leuzinger, na qualidade de secretário da Associação e organizador da exposição, chegou a trabalhar com recursos próprios para o sucesso da iniciativa. Uma de suas iniciativas foi a manutenção do jornal O Industrial, bancado pela Casa Leuzinger. TURAZZI, Maria Inez, op. cit., p. 149.

[7] Para a escolha destes itens foi constituída uma Comissão integrada pela condessa da Estrela, a baronesa de Canindé, Maria Amanda Paranaguá Dória, Maria Ambrosina da Mota Resende e Ana Machado Pena O Industrial, órgão da Associação Industrial, ano 1, nº 18, 15 de setembro de 1881. Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=308129&PagFis=33&Pesq=Exposi%C3%A7%C3%A3o%20Continental Acesso em 16 de março de 2018.

[8] Gazeta de Notícias, 10 de abril de 1882. Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=103730_02&pasta=ano%20188&pesq=Exposi%C3%A7%C3%A3o%20Continental Acesso em 12 de março de 2018.

[9] A escolha de Boote, aliás, merece atenção, pelo que ele viria a significar na história da fotografia na Argentina. Juntamente com seu irmão mais novo, Arturo (1861-1936), Samuel Boote (1844-1921) foi o proprietário do maior estúdio fotográfico de Buenos Aires e fez registros para álbuns e postais no período compreendido entre as últimas décadas do século XIX e o início do século XX. Seu trabalho era especialmente requerido por indústrias inglesas (do ramo das ferrovias) e agências governamentais. Ele foi também um dos maiores editores de álbuns fotográficos daquele país, com registros de paisagens, tipos e costumes, eventos, construção de estradas de ferro e investimentos em infraestrutura. Em 1884 Samuel Boote organizou o álbum fotográfico Vistas de Buenos Aires; entre 1885 e 1888, documentou as linhas férreas nas províncias de Santa Fé e Buenos Aires; posteriormente, em 1888, o Conselho Nacional de Educação contratou-o para registrar as escolas públicas recém-criadas em Buenos Aires com o objetivo de exibir as imagens em Paris, na Exposição Universal de 1889. Além do equipamento fotográfico, o ateliê de Boote possuía uma oficina de impressão onde eram produzidos os álbuns.

[10] Uma análise mais acurada do álbum deve levar em consideração, além dos elementos formais da produção das imagens, a escolha daquelas que o compõem e a hierarquia a que obedecem, em outras palavras, a ordem em que são apresentadas. Um estudo sobre a circulação mesma dessas imagens também se mostra fundamental. Contudo, as fotografias que se encontram no Arquivo Nacional não estão encadernadas, impossibilitando este tipo de abordagem.

[11] O Brasil era, então, o maior produtor mundial de café.  A iniciativa de oferecê-lo aos visitantes gratuitamente em um espaço especial teve início na Exposição de Buenos Aires e continuou nas exposições seguintes.

[12] Na edição de 4 de junho de 1882 a Gazeta de Notícias transcreve matéria de A Patria Argentina sobre  o farmacêutico que aponta quatro aspectos relevantes de sua seção na Exposição: a exibição de matérias primas do Brasil;  sua elaboração como indústria; sua aplicação à medicina e, a importação de um produto novo para aquele país. A empresa acabaria sendo agraciada com a Medalha de Honra pela exibição de seus produtos farmacêuticos no evento. Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=103730_02&pasta=ano%20188&pesq=Exposi%C3%A7%C3%A3o%20Continental Acesso em 16 de março de 2018.

[13] A Companhia ligava a área central do Rio de Janeiro aos terminais de barca e ferrovias, ponto de embarque e desembarque de mercadorias. Atuava mais no serviço de cargas do que no de passageiros. WEID, Elizabeth von der. O bonde como elemento de expansão urbana no Rio de Janeiro.  Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa. Disponível em http://www.casaruibarbosa.gov.br/dados/DOC/artigos/o-z/FCRB_ElisabethvonderWeid_Bonde_elemento_expansao_RiodeJaneiro.pdf  Acesso em 19 de março de 2018.

[14] O Industrial, órgão da Associação Industrial, ano 1, nº 31, 15 de dezembro de 1881. Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=308129&pasta=ano%20188&pesq=se%C3%A7%C3%A3o%20de%20trabalhos%20de%20senhoras  Acesso em 14 de março de 2018.

[15] ANDERMANN, Jens. Contienda de valores: Argentina y Brasil em la edad de las exposiciones. Cadernos de Literatura, Bogotá, nº 13, jul-dez., 2008, (190-224) p. 220.

[16] Discurso proferido por Hargreaves, membro da Associação Industrial em homenagem a Nicolau Avellaneda, presidente honorário da Exposição Continental de Buenos Aires, em evento realizado na mencionada Associação, no Rio de Janeiro, em 11 de agosto de 1882. Gazeta de Notícias, 12 de agosto de 1882. Disponível em  http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=103730_02&pasta=ano%20188&pesq=Exposi%C3%A7%C3%A3o%20Continental Acesso em 12 de março de 2018.

 

 Pequena cronologia da Exposição Continental de Buenos Aires

 

 

1881

Setembro – Transcrição de uma carta do naturalista e diretor do Museu Nacional do Brasil, Ladislau Neto (1838 – 1894), sobre a realização da Exposição Continental de Buenos Aires (Gazeta de Notícias, 13 de setembro de 1881, primeira coluna).

Uma comissão de senhoras brasileiras, dentre elas a baronesa de Loreto, Maria Amanda Paranaguá Dória (1849 – 1931), uma das maiores amigas da princesa Isabel (1846 – 1921), envolvem-se na organização da exposição (Gazeta de Notícias, 24 de setembro de 1881, primeira coluna).

Dezembro – Visando a escolher os produtos a serem exibidos em Buenos Aires, a Associação organizou uma exposição preparatória no edifício do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas. Para tanto, concedeu aos interessados das outras províncias o transporte gratuito do material bem como o espaço expositivo.

1882

Março – Notícia da inauguração da Exposição Continental de Buenos Aires, ocorrida em 15 de março. Na ocasião, discursaram o presidente da República, Julio Roca (1843 – 1914), e o presidente do Club Industrial, o ex-presidente da Argentina Nicolau Avellaneda (1837 – 1885). Foi decretado feriado nacional no país. A seção brasileira ainda não estava concluída (Gazeta de Notícias, 16 de março de 1882, quarta coluna, 26 de março de 1882, segunda coluna, 27 de março de 1882, última coluna, 29 de março de 1882 e 6 de abril de 1882, última coluna).

Abril – A seção brasileira foi inaugurada em 1º de abril. Manoel Diego dos Santos, presidente da comissão brasileira fez o discurso de abertura:

‘Os industriais do Brasil abrem as portas de sua seção que conservaram até hoje fechada por causas estranhas à sua vontade. Não encontrareis entre nossos produtos galas deslumbrantes, mas sim a expressão exata de nossa produção ordinária. Até agora o Brasil apareceu em todas as exposições ostentando suas riquezas naturais, hoje é a indústria brasileira que aparece com seus modestos produtos a submeter-se ao julgamento de seus irmão da América…’ (Gazeta de Notícias, 10 de abril de 1882, sexta coluna). O hino argentino foi tocado e o presidente da Exposição, sr. Urien, proferiu um discurso declarando aberta a seção brasileira e o hino brasileiro foi executado.

Houve um princípio de incêndio na seção brasileira (Gazeta de Notícias, 15 de abril de 1882, primeira coluna).

O presidente da comissão brasileira, Manoel Diego dos Santos, voltou ao Brasil (Gazeta de Notícias, 26 de abril de 1882, quinta coluna).

Foi noticiado que a indústria brasileira havia ficado em primeiro lugar na Exposição Continental de Buenos Aires (Revista Illustrada, abril de 1882).

Junho – Destaque na Casa Hollanda, de Eugênio Marques de Holanda, que exibiu matérias-primas do Brasil, sua elaboração industrial e sua aplicação à medicina (Gazeta de Notícias, 4 de junho d 1882, primeira coluna). Ganhou a medalha de honra (Gazeta de Notícias, 19 de julho de 1882, primeira coluna).

Julho – Notícia sobre os prêmios conquistados por estabelecimentos brasileiros: medalha de prata para a Tipografia Nacional e prêmios de honra para o sr. Braga, pelos seus chapéus; para o Laboratório Pirotécnico, para a Imperial Fábrica de Ipanema, para a Brazil Imperial, por seus tecidos de algodão; para o Arsenal de Marinha no Rio de Janeiro, para Guimarães por suas fotografias esmaltadas; e para a Repartição dos Telégrafos (Gazeta de Notícias, 10 de julho de 1882, segunda coluna). Foram anunciados mais prêmios para estabelecimentos brasileiros (Gazeta de Notícias, 15 de julho de 1882, sexta coluna20 de julho de 1882, sexta coluna23 de julho de 1882, primeira coluna).

Além do fotógrafo português José Ferreira Guimarães (1841 – 1924), foram premiados, segundo informações dada em anúncio, o retratista português Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912)  e Marc Ferrez (1843 – 1923). Este último participou com as fotografias apresentadas na Exposição da Indústria Nacional do ano anterior (1881) e foi agraciado com uma medalha de prata e com um prêmio ao mérito.

A Casa Leuzinger participou do evento.

Em 23 de julho de 1882, a Exposição Continental foi encerrada. Foi vista por cerca de 50 mil visitantes (Gazeta de Notícias, 24 de julho de 1882, segunda coluna). Ao Brasil foram concedidos 268 prêmios: 28 medalhas de ouro; 76 de prata; 94 de bronze; e 70 menções honrosas.

Em sinal de gratidão por seu empenho na realização da Exposição Continental, o cônsul do Brasil na capital argentina, João Adrião Chaves (18? – 1890), recebeu da comissão brasileira do evento, cujo presidente era José Pereira Rego Filho, um álbum com 25 fotografias das seções da mostra (Gazeta de Notícias, 13 de outubro de 1882, terceira coluna).

Henrique Leuzinger (1845 -1908), filho de Georges Leuzinger (1813 – 1892) e secretário da Associação Industrial, enviou à redação da Revista Illustrada, a coleção de fotografias da seção brasileira da exposição continental de Buenos Aires dentro de uma rica pasta (Revista Illustrada, julho de 1882),

 

Obs: Na Biblioteca Nacional, há o livro Exposição Continental de Buenos Aires 1882 – Seção Brasileira, com 24 fotografias de Samuel Boote (1844 – 1921).

 

samuel

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ANDERMANN, Jens. The History Show at the Continental Exhibition of 1882 and the National History Museum at Buenos Aires

El arcon de la historia argentina

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

TURAZZI, Maria Inez. Poses e trejeitos: a fotografia e as exposições na era do espetáculo: 1839/1889. Prefácio Pedro Karp Vasquez. Rio de Janeiro: Funarte. Rocco, 1995. 309 p., il. p&b. (Coleção Luz & Reflexão, 4). ISBN 85-85781-08-4.

O francês Hercule Florence (1804 – 1877), inventor de um dos primeiros métodos de fotografia do mundo

O fotógrafo, desenhista, tipógrafo e naturalista francês Antoine Hercule Romuald Florence (1904 – 1879) já foi tema da Brasiliana Fotográfica no texto Florence, autor do mais antigo registro fotográfico existente nas Américas, publicado em 17 de junho de 2015. Agora, além de destacar esse fato tão importante na história da fotografia, o portal oferece a seus leitores um perfil e uma cronologia de Florence, desde seu nascimento, em Nice, em 29 de fevereiro de 1804, até sua morte, em Campinas, em 27 de março de 1879. Inventor de um dos primeiros métodos de fotografia do mundo, Florence foi, certamente, um dos mais interessantes e notáveis estrangeiros que se estabeleceu no Brasil, no século XIX. Viveu no país entre 1824 e 1879, quando faleceu. Segundo seu biógrafo Estevão Leão Bourroul (1859 – 1914), a vida de Florence é a narração singela e comovente das peripécias, das descobertas, das viagens, que constituem uma das páginas mais interessantes dos anais contemporâneos. 

De fato, o companheiro de Langsdorff e de Adriano Taunay, o continuador de Lacerda e Almeida, o êmulo dos bandeirantes paulistas, o inventor da poligrafia, do papel inimitável, da stereopintura, o descobridor, antes de Niépce e de Daguerre, da fotografia, o artista genial da zoofonia, e da nória hidropneumática ou hidrostática, é um desses vultos surpreendentes cuja originalidade, lhanesa e múltipla capacidade prendem e fixam de modo vivíssimo a atenção do historiador, despertando o entusiasmo do filósofo e do patriota, e são destinados , vencendo o mercantilismo da atualidade, a transpor os umbrais da severa e justa posteridade’ (Bourroul, 1900)

Retrato de Hércules Florence

Anônimo. Hercule Florence, c. 1875. Campinas, São Paulo / Coleção de Arnaldo Machado Florence.

Florence participou de 1825 a 1829 da Expedição Langsdorff e seus desenhos são considerados excelentes. Registrou a natureza e os índios das regiões que atravessou. O diário minucioso que realizou da viagem traz algumas das mais importantes informações da expedição. A Expedição Langsdorff foi uma expedição russa, chefiada e organizada pelo barão Georg Heinrich von Langsdorff (1774 – 1852). Artistas e cientistas, percorreram, entre 1821 e 1829, mais de 17 mil quilômetros pelo interior do Brasil e realizaram um importante inventário do país.

O método fotográfico de Florence foi comprovado cientificamente pelo pesquisador brasileiro e emérito historiador da fotografia brasileira Boris Kossoy, entre 1972 e 1976. Em meados de 1976, foi testado, com sucesso, nos laboratórios do Rochester Institute of Technology, nos Estados Unidos, sob a chefia do professor Thomas Hill. Em outubro do mesmo ano, a pesquisa de Kossoy foi apresentada no III Simpósio da História da Fotografia, na George Eastman House, em Rochester. Foi a partir da pesquisa e do teste realizados por Kossoy, aos quais se seguiu a publicação, pelo pesquisador brasileiro, do livro “1833: a Descoberta Isolada da Fotografia no Brasil” (1980), que Hercule Florence tornou-se internacionalmente conhecido.

 

A imagem acima, dos rótulos de farmácia, pertencente ao acervo do Instituto Moreira Salles, integra uma pequena série de desenhos impressos fotograficamente produzida por Florence, que são os mais antigos registros fotográficos nas Américas.

Acessando o link para as imagens de Hercule Florence disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Cronologia de Antoine Hercule Romuald Florence

File:Oscar Pereira da Silva - Hércules Florence, Acervo do Museu Paulista da USP.jpg

Hercule Florence, de Oscar Pereira da Silva / Acervo do Museu Paulista da USP

1804 - Antoine Hercule Romuald Florence nasceu, em Nice, na França, em 29 de fevereiro, quinto filho de um médico militar nascido em Toulouse, Arnaud Florence (1749 – 1807), e de Augustine de Vegnalys (1768 – 1857), de Mônaco. Eles se casaram em 2 de março de 1793 e tiveram seis filhos: Claudine-Herculine (1794 – 1796), Jean-Baptiste (1796 – 1799), Antoine Fortuné (1799 – 1865), Emmanuel (1802 – ?), Antoine Hercule (1804 – 1879) e Célestine (1805 – ?). Com exceção de Claudine-Herculine, que nasceu em Mônaco, todos os filhos do casal nasceram em Nice.

1807 - Mudou-se com a família para Mônaco.

c. 1818 - Trabalhou como desenhista e calígrafo, recebendo encomendas das autoridades de Mônaco.

1820 – Dedicou-se ao estudo de matemática e física

1821 – Idealizou uma bomba para puxar água que denominou de nória hidrostática.

1822 - Foi para Nice, onde apresentou-se ao cônsul francês com o intuito de alistar-se na Marinha Real Francesa. Embarcou na galeota francesa La Torche que seguiu para a cidade de Toulon.

1823 A bordo do navio Marie Thérèze, trabalhou a bordo como copista de plantas das fortificações espanholas.

A fragata permaneceu ancorada por aproximadamente quatro meses em Toulon. Durante este período, Florence realizou exercícios de desenho e alguns retratos.

Em 31 de julho, foi expedido seu passaporte pelo Principado de Mônaco.

1824 - Chegou ao Rio de Janeiro, em abril, a bordo do Marie Thérèze sob o comando do capitão Claude du Camp de Rosamel. O navio partiu do Rio de Janeiro em 1º de maio de 1824 (Império do Brasil – Diário do Governo, 5 de maio de 1824, segunda coluna).

Começou a trabalhar como caixeiro numa casa comercial especializada em roupas, do francês Pierre Dillon, antigo secretário da Missão Artística de Joachim Le Breton (1760 – 1819).

1825 - Trabalhou por cerca de quatro meses na livraria e tipografia do francês Pierre Plancher (1764 – 1844) sendo responsável pela execução de diversas litografias. A tipografia ficava na rua do Cano, nº 113 (Spectador Brasileiro, 4 de julho de 1825).

Como segundo desenhista, Florence integrou-se à expedição científica de Georg Heinrich von Langsdorff (1774 – 1852). O primeiro desenhista era Adrien Taunay (1803 – 1828) que, durante a expedição, morreu afogado quando tentava atravessar a cavalo o rio Guaporé, em Mato Grosso – ele havia substituído Johan Moritz Rugendas (1802 – 1858), que havia participado da expedição entre 1821 e 1824.

Em 3 de setembro, partiu a bordo da sumaca Aurora, juntamente com Langsdorff, Adrien Taunay , o astrônomo e oficial da marinha russa Nester Gavrilovich Rubtsov (1799 – 1874), o zoólogo Christian Hasse e Lüdwig Riedel (1791 – 1861), tendo como destino a Vila de Santos. Depois de permanecer por aproximadamente 20 dias na cidade separou-se dos demais membros da expedição e seguiu numa piroga para Cubatão. Durante a viagem executou desenhos do litoral paulista (Império do Brasil: Diário Fluminense, 1825).

Em Itu, conheceu as obras do frei Jesuíno do Monte Carmelo (1764 – 1819) e também as decorações feitas por José Patrício da Silva Manso (c. 1753 – 1801).

1826 – Passou cinco meses na casa do médico e político Francisco Álvares Machado e Vasconcellos (1791 – 1846), em Porto Feliz, quando conheceu sua filha, Maria Angélica (1815 – 1850), com quem viria a se casar, em 1830.

Em 22 de junho, partida da Expedição Langsdorff do porto no Rio Tietê, em Porto Feliz, para o norte do Brasil. Um dos organizadores da viagem foi Francisco Álvares Machado e Vasconcellos.  Percorreu os rios Tietê, Paraná, Pardo, Coxim, Taquari, Paraguai, São Lourenço, Cuiabá, preto, Arinos, Juruena, Tapajós e Amazonas. Retornou de Belém, pela costa brasileira, até chegar ao Rio de Janeiro, em 10 de março de 1829. O diário de bordo feito por Florence, Esboço da Viagem feita pelo Sr. Langsdorff ao interior do Brasil, desde setembro de 1825 até março de 1829, foi  traduzido pelo visconde de Taunay (1843 – 1899) e publicado em 1875, pelo Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro, sendo que posteriormente, com o título Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas – 1825- 1829, teve várias edições comerciais.

1829 - De volta ao Rio de Janeiro, como parte de suas Memórias, escreveu os manuscritos de seu tratado intitulado Zoophonia. 

Deu à família de Adrien Taunay, o diário que escreveu durante a expedição Langsdorff.

 

 

 

Convidado por seu amigo, o médico e político Francisco Álvares Machado e Vasconcellos (1791 – 1846), fixou residência na Vila de São Carlos, atual Campinas.

1830 - Passou a dedicar-se aos estudos de impressão com o intuito de publicar seu tratado sobre Zoophonia e cerca de 200 desenhos executados durante a expedição. Nesse processo, descobriu uma nova maneira de obter a impressão, que recebeu o título de Polygraphie – Poligrafia.

No dia 04 de janeiro de 1830, na Igreja da Sé em São Paulo, casou-se com Maria Angélica Vasconcellos, natural de Itu, filha de Francisco Alvares Machado e Vasconcellos. O casal teve 13 filhos, todos nascidos em Campinas: Amador Bueno (1831 – ?), Celestina (1832-?), Adelaide (1834 – 1834), Francisco (1835 – 1836), Francisco, que nasceu e faleceu em 25 de novembro de 1836; Francisco (1837 – 1904), Cândida (1839- 1901), Antônio Hércules (1841 – 1916), Arnaldo (1843 – 1845), Angélica (1844 – ?), Arnaldo (1846 – 1872), Paulo (1847 – ?) e Ataliba (1849 – 1849).

Florence, identificado como pintor retratista, residia na rua das Flores, 53. Anunciou aulas de pintura em sua casa ou nas casaas das alunas. Também anunciou a venda de retratos de alguns deputados e de vistas de Itu e do Salto de Itu por preços cômodos (O Farol Paulistano, 8 de junho de 1830, na segunda coluna).

Redigiu entre os meses de julho e outubro o manuscrito Etudes de Ciels, À L’usage des jeunes paysagistes.

1831 – A tipografia R. Orgier, no Rio de Janeiro, publicou o manuscrito do tratado de Zoophonia, Recherche sur la voix des animaux, ou essai d’un nouveau suject d’ètudes, offert aux amis de la nature.

‘Mineralogia é estudo da natureza passiva.
Zoologia é estudo da natureza ativa.
Zoofonia é estudo da natureza falante’.

1832 – Do Rio de Janeiro, enviou à França, através de Edouard Pontois (Encarregado de negócios de França), o manuscrito onde detalhava os processos da poligrafia, acompanhado por duas provas poligrafadas.

De volta à Vila de São Carlos, executou trabalhos de pintura, que ele intitulou Tableaux Transparents de Jour. A inovação técnica deste trabalho consistiu na execução de um grande número de furos de minúsculo diâmetro sobre o desenho original nas áreas que representariam luzes ou reflexos na imagem pictórica. Apreciados em um local escuro com a luz solar incidindo através de um foco dirigido, apenas sobre a pintura, resulta numa projeção exata da imagem pictórica original.

Foi noticiado: Hercules Florence, inventor de um novo processo Autográfico, participa às pessoas que quiserem ter um certo número de exemplares do seu retratos para repartir entre parentes e amigos, que ele faz o original pelo preço de 3$200 e e imprime os exemplares a 320 rs cada um (O Novo Farol Paulistano, 11 de janeiro de 1832, segunda coluna).

1833 -  Obteve no início do ano, através do uso de uma câmera escura, a primeira fixação de imagem em papel, utilizando o nitrato de prata.

Não teria eu iniciado a arte mais do que maravilhosa de desenhar qualquer objeto, sem dar-me ao trabalho de o fazer com a própria mão?, indagou Florence, em 24 de junho de 1833, em seu diário Livre d’annotations et de premiers matériaux, referindo-se a suas pesquisas e experimentos no campo da fotografia, que o haviam levado a inventar, ele também e no Brasil, um processo de criação fotográfica.

1834 –  Também em seu Livre d´annotations et les premiers matériaux, em 1834, Florence usou pela primeira vez o verbo photographier –  cinco anos antes da palavra ser utilizada na Inglaterra, em 1839, por John Frederick William Herschel (1792-1871). Florence deixou uma descrição do procedimento adotado por ele para obter o registro fotográfico, em 1833.

1836 – Em viagem ao Rio de Janeiro, Florence adquiriu uma tipografia para conseguir executar o grande número de encomendas impressas que recebia.

Começou suas pesquisas em direção à descoberta do papel inimitável (Correio Mercantil, Instrutivo, Político, Universal, 5 de novembro de 1857, terceira coluna).

1837 -  Executou, a pedido do governo, um mapa itinerário da província de São Paulo, impresso através do sistema de poligrafia.

Entre esse ano e 1859, redigiu sua biografia, intitulada L’Ami des Arts livre à lui-même ou Recherches et découvertes sur différents sujets nouveaux. O texto trazia informações biográficas, notas e ilustrações de seus inventos. O manuscrito, de 423 páginas, foi redigido quase todo em francês e é um compêndio ilustrado da vida e da obra de Florence. Traz a descrição de suas experiências e os fatos principais de sua vida, incluindo a versão mais completa do relato da viagem fluvial empreendida pela Expedição Langsdorff.

1838 -  Instalou no Largo da Matriz a primeira tipografia da Vila de São Carlos.

1839 - Redigiu em março o manuscrito De La Compression du Gaz Hydrogéne, apliquée à la direction des aérostats

A velocidade com que a notícia do invento do daguerreótipo chegou ao Brasil é curiosa: cerca de 4 meses depois do anúncio da descoberta – em 7 de janeiro de 1839 -, foi publicado no Jornal do Commercio, de 1º de maio de 1839, sob o título “Miscellanea”, na segunda coluna, um artigo sobre o assunto – apenas 10 dias após de ter sido assunto de uma carta do inventor norte-americano Samuel F. B. Morse (1791 – 1872), escrita em Paris em 9 de março de 1839 para o editor do New York Observer, que a publicou em 20 de abril de 1839. Foi lendo o artigo do Jornal do Commercio que Florence tomou conhecimento da descoberta da fotografia realizada pelo francês Louis Jacques Mandé Daguerre (1787 – 1851).

Florence redigiu, em maio, o manuscrito Sur L’impression des tableaux à huile, ou estampes coloriées. Em junho, redigiu o manuscrito  Fabrication au Métier des Chapeaux du Chili, et toute espèce de chapeaux de paille

Os periódicos Phoenix , 26 de outubro de 1939, e o Observador Paulistano, publicaram um artigo onde Hercule se posicionou diante da descoberta da fotografia na Europa e reafirmou o caráter inventivo de seus trabalhos referentes à poligrafia e à fotografia.  O Jornal do Comércio, 29 de dezembro de 1839, publicou a transcrição do artigo (Jornal do Commercio, 29 de dezembro de 1839, primeira coluna).

1840 – Publicação de uma carta escrita por Hercule Florence onde ele comunicou a descoberta da poligrafia e mencionou a possibilidade de ter sido um dos descobridores da fotografia (Jornal do Commercio, 10 de fevereiro de 1840, na terceira coluna).

Foi anunciada a possível publicação de um ensaio sobre a impressão do papel moeda por um processo totalmente inimitável, de autoria de Florence (O Despertador, 29 de fevereiro de 1840, terceira coluna).

Florence convidou os artistas do Rio de Janeiro e todos os amigos das artes que quisessem se certificar da realidade da descoberta da poligrafia para que fossem examinar uma coleção de 23 impressos poligráficos realizados desde o ano de 1831, em exposição na tipografia do Jornal do Commercio. Florence também descreveu o processo e termina afirmando:

Nisto consiste o segredo da importante descoberta da poligrafia: não se sabe qual deve admirar-se mas, se a simplicidade do meio que se emprega, se a grandeza do resultado que se obtém(Jornal do Commercio, 16 de março de 1840, na terceira coluna)

1841 - A tipografia Costa Silveira publicou Ensaio sobre a impressão das Notas de Banco por um processo totalmente inimitável.

1842 - Identificado como italiano, partiu do Rio de Janeiro a bordo do navio Bom Fim, com destino a Santos (Jornal do Commercio, 12 de fevereiro de 1842, na última coluna).

Fundou, em Sorocaba, juntamente com o padre Diogo Antonio Feijó (1784 – 1843), o jornal revolucionário O Paulista. Teve curta duração, tendo sido publicado em 27 e 31 de maio e em 8 e 16 de junho.

1843 – A Academia de Ciências e Artes de Turim, declarou em sessão realizada em 8 de janeiro, que o processo de impressão de notas bancárias inimitáveis merecia a proteção do governo da Sardenha.

A Academia Imperial de Belas Artes, no Rio de Janeiro, em sessão realizada em 22 de novembro, através de uma comissão estabelecida pela Congregação de Lentes da instituição, se pronunciou favoravelmente à descoberta do novo processo de impressão de notas inimitáveis. Compunham esta comissão Auguste-Henri-Victor Grandjean Montigny (1776 – 1880), Zepherino Ferrez (1797 – 1851), pai do fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923); e seu aluno José da Silva Santos.

1844 – Há informações que o periódico O Anuário era impresso nas oficinas de Florence.

Obteve os primeiros ensaios sofríveis do papel inimitável e os remeteu à Academia Brasileira de Belas-Artes, que nomeou uma comissão cujo parecer foi muito animador para Florence (Correio Mercantil, Instrutivo, Político, Universal, 5 de novembro de 1857, terceira coluna).

1848 Desenvolveu um processo de simplificação do trabalho de composição tipográfica, intitulado Typos-syllabas, que se constitui a partir da união de cada uma das consoantes com uma vogal, formando sílabas em um único tipo.

Publicou em sua tipografia um memorial intitulado Emprego dos Typos-syllabas.

Realizou uma impressão que foi um verdadeiro adiantamento no processo do desenvolvimento do papel inimitável (Correio Mercantil, Instrutivo, Político, Universal, 5 de novembro de 1857, terceira coluna).

1849 -  O Ministério do Império remeteu ao visconde de Goyana, inspetor da Caixa de Amortização, 8 exemplares de um papel descoberto ou inventado por Hercules Florence, morador em Campinas, na província de S. Paulo, para que, depois de examinado o dito papel na caixa de amortização, informe se o acha próprio para os usos a que é destinado, mormente para dele se fazerem notas (Correio Mercantil Instrutivo, Político,Universal, 31 de janeiro de 1849, primeira coluna). A Caixa de Amortização, criada pela Lei Imperial de 15 de novembro de 1827, administrava a dívida interna fundada, emitindo apólices de pagamento de juros da dívida.

No expediente do Ministério do Império foi avisado que havia sido enviado ao ministro da Fazenda para tomar na consideração que merecer o ofício do presidente da província de S. Paulo, de 13 de janeiro último, não só com 8 exemplares de um papel inimitável que Herculano Florence diz ser sua invenção, e julga ao abrigo de toda falsificação, como também diversos ofícios relativos a este objeto (Correio Mercantil, Instrutivo, Político, Universal, 19 de abril de 1849, segunda coluna).

Anunciou a venda de sua parte na sesmaria de seu falecido sogro, Francisco Alvares Machado. Quem quiser comprar pode dirigir-se aos srs Eduardo e Henrique Laemmert, no Rio de Janeiro, ou escrever ao anunciante (Correio Mercantil Instrutivo, Politico, Universal, 30 de novembro de 1849).

 

 

1850 – Falecimento de sua esposa, Maria Angélica.

1851 – Florence enviou ao à sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional algumas amostras de papel e letras inimitáveis tiradas de chapas abertas ao acaso, cujas tintas são pelo autor afiançadas como indeléveis. Elas param em mãos da comissão de ensaio e análise química, e a serem reais os resultados que espera seu autor, é uma descoberta digna da atenção, pela segurança de que seu emprego pode vir ao papel moeda, bilhetes e letras dos bancos, e títulos de segurança empregados nos diversos ramos comerciais (O Auxiliador da Indústria Nacional, 1851).

Florence era o agente, em Campinas, do medicamento Salsaparrilha Bristol (Gazeta Mercantil, 28 de agosto de 1851).

1852 - Idealizou uma sexta forma de arquitetura a qual deu o título de Ordem Brasileira ou Palmiana, baseada na utilização das palmeiras brasileiras, cuja aplicação, de acordo com o tipo da palmeira, se daria na constituição de colunas, capitéis, arcadas e abóbodas.

Era assinante do Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro (Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1852).

Era, em Campinas, o agente da Fábrica de Produtos Químicos e Farmacêuticos de Matacavallos (Jornal do Commercio, 6 de setembro de 1852).

1853 – Publicou um folheto poligrafado composto de 16 páginas intitulado Descoberta da Poligrafiadatado de 1º de agosto de 1853.

1854

Casou-se, em 4 de janeiro, com a alemã Carolina Krug (1828 – 1913), nascida na cidade de Cassel, em 21 de março de 1828. Seu nome de solteira era Caroline Mary Catherine. Carolina estudou Pedagogia na Suíça, no Instituto de Madame Niederer, esposa de um antigo colaborador e amigo de Johann Heinrich Pestalozzi (1746 – 1827), já considerado, na época, um grande pedagogo moderno. Ela migrou para o Brasil, em 1852, acompanhada de pai, mãe e dos irmãos Francisco Guilherme, Henrique e Anna. Saíram de Hamburgo em um navio à vela, pois nesse tempo não havia ainda navios a vapor para o Brasil, e a viagem durou cerca de dois meses. O irmão mais velho de Carolina, o farmacêutico Jorge Krug (? – 1875), amigo de Florence, estava, desde 1846, muito bem estabelecido em Campinas, o que atraiu o restante da família. Jorge Krug foi durante muito tempo de Vice-Cônsul da Suíça em toda a Província de São Paulo.

Minha mãe, eu vos escrevi uma vez que eu me casaria novamente, mas que não deveria ser logo. No dia quatro de janeiro do ano corrente eu me casei com MIle. Caroline Krug, irmã de meu amigo Jorge Krug, farmacêutico estabelecido há oito anos em Campinas. Ela chegou de CasseI, com seu pai sua mãe e seus irmãos e irmã, e eu fui absorvido por suas qualidades, seu talento e suas maneiras distintas. Tendo feito sua educação durante três anos em um Instituto de jovens moças em Genebra, ela adquiriu um perfeito conhecimento de Francês. Ela sabe a história, a geografia, os elementos de matemática, a pintura e a música. Todas as ocupações de seu sexo. Ela saiu do instituto e foi ser professora em Altona, na Suíça-Holstein. Seu objetivo era de se ocupar do ensino e soube aproveitar disso em alto grau (Carta de Hércules Florence para sua mãe, residente em Nice, Campinas, 10/6/1854)

Florence e Caroline tiveram  7 filhos, todos nascidos em Campinas: Ataliba (1855 -?), futuro cônsul do Brasil em Dresden; Jorge (1857 – ?), que formou-se em farmácia em Heidelberg na Alemanha; Augusta (1859 – ?), Henrique (1861 -?), que se formou em Engenharia na Alemanha, os gêmeos Guilherme e Paulo Florence (1864 – ?); e Isabel (1867 – ?).

1855 - Pela primeira vez desde sua chegada à América, Florence retornou à Mônaco para rever a família. Entre esse ano e 1856, adquiriu a Fazenda Soledade, onde foi viver com Carolina Krug. Fundou, em fevereiro de 1856, a colônia Florence. Passou a se dedicar à agricultura (Repartição dos Negócio do Império, 1859).

1857 – Publicação de um pequeno perfil da Colônia Florence, que funcionava em sistema de parceria (Jornal do Commercio, 30 de janeiro de 1857, terceira coluna).

Publicação de uma carta de Florence intitulada “Papel Inimitável”, na qual conta a história de sua descoberta do referido papel e explica os quatro sistemas pelo qual poderia ser produzido. Termina a carta afirmando: Limito-me por agora a estas explicações, que não são mais do que alguns dados sobre uma arte que é tão exata c0omo as ciências matemáticas (Correio Mercantil, Instrutivo, Político, Universal, 5 de novembro de 1857, terceira coluna).

1858 - Estava listado como empresário e possuidor de 18 colonos na província de São Paulo, no Mapa Demonstrativo das Colônias do Existentes do Império, publicada no relatório da Repartição dos Negócio do Império, 1858. A colônia Florence funcionava em sistema de parceria regulada pela casa Vergueiro (Jornal do Commercio, 22 de março de 1858, última coluna).

A Thipographia Commercial, G. Delius, publicou um pequeno folheto composto por 10 páginas, intitulado Invenção da Polygraphia, por Hercules Florence.

Conseguiu aprimorar seu invento de impressões inimitáveis através da adição de um sistema que permitia a fusão de cores. As novas impressões inimitáveis foram expostas ao público durante um ano, no Banco Mauá & C., em Campinas.

Imprimiu em sua litografia o Aurora Campineira, primeiro jornal de Campinas.

1859 - Desenvolveu a Estereopintura, processo através do qual se pode obter maior fidelidade luminosa da execução de pinturas a óleo ou aquarela.

No relatório do comissário do governo, Sebastião Machado Nunes, sobre as províncias de São Paulo, publicada na Repartição dos Negócio do Império, 1859, foi feito um comentário a respeito de colonos suíços da fazenda de Florence.

A colônia Florence tinha 19 colonos, de duas famílias suíças. Cada família cuidava de 5 mil pés de café (Repartição dos Negócio do Império, 1859).

Os filhos de Florence, os empresários Amador Bueno e Francisco, pretendiam estabelecer uma linha de carros de quatro rodas para o transporte de café de Campinas a Santos (A Actualidade, 31 de dezembro de 1859, terceira coluna).

1860 - Desenvolveu a Pulvografia, processo que consiste na reprodução de imagens através da ação da poeira, sem a necessidade do emprego de prensa.

 

 

Redigiu o manuscrito Cellographie.

1861 –  Aprimorou a poligrafia criando a possibilidade da sua realização sem a necessidade do emprego de uma prensa.

1862 - Redigiu o manuscrito Les Intérêtes materiéles. 

Foi noticiado no terceiro volume do Année Scientifique, de Louis Figuier, a invenção da neografia, mesmo invento descoberto por Florence anos antes, que ele batizou de poligrafia (Diário do Rio de Janeiro, 16 de abril de 1862, terceira coluna).

 

 

1863 - Em Campinas, fundou, em novembro, juntamente com sua esposa Carolina Krug Florence, o Colégio Florence, situado na Rua José Paulino e dedicado à educação feminina. Hercule executou um desenho retratando o prédio do colégio. Foi professor de desenho da instituição.

1865 Conheceu, em São Paulo, Alfredo D’Escragnole Taunay (1843 – 1899), que o cognominou de “Patriarca da Iconografia Paulista”.

Redigiu o manuscrito Aquarrélographie.

1866 -Redigiu o manuscrito Probléme Poly-Photographique.

1867 – O presidente da província de São Paulo, o conselheiro Joaquim Saldanha Marinho (1816 – 1895) visitou o Colégio Florence, dirigido por Carolina Florence (O Ypiranga, 21 de dezembro de 1867, segunda coluna).

1868 – Foi anunciada a venda de bandeiras brasileiras, na loja dos srs. Pompeu Pacheco C., em Campinas, impressas em ambos os lados pela poligrafia de Hercule Florence, sem prensa, sem pressão alguma, como na fotografia (O Ypiranga, 25 de setembro de 1868, terceira coluna).

1869 – Redigiu o manuscrito Lavis Capillaire. 

Florence foi indicado como um dos procuradores de Otto Rodolfo Kupfer, que partia para a Europa. Ele era marido de Anna Kupfer, irmã de Carolina, esposa de Florence (Correio Paulistano, 21 de abril de 1869, primeira coluna).

Foi anunciada a impressão de papel inimitável na residência de Hercule Florence, na rua das Flores, n. 7, em Campinas (Correio Paulistano, 23 de julho de 1869, primeira coluna).

Em setembro, escreveu uma carta ao poeta Castro Alves (1847 – 1871):

Moro a metade do tempo na roça, e quisera morar sempre, porque aprecio os matos virgens, o ar livre, o nascer e o por do sol. Descobri em 1829 uma ciência nova que chamei Zoofonia. Fiz algumas publicações em francês a este respeito; mas creio que não deixaram mais vestígios que uma pedra que cai num tanque de água.Com as belezas da natureza, eu lia os vossos versos, onde acho a mesma verdade que na criação.’ 

1870 – Escreveu um texto sobre seus trabalhos artísticos e científicos, a pedido do advogado de Campinas, Campos Sales (1841 – 1913), futuro presidente do estado de São Paulo, de 1896 a 1897, e o quarto presidente da República, entre 1898 e 1902.

 

 

 

 

 

1871 - Florence garantia a superior qualidade do café vendido na loja do srs. Monteiro & Filho. Para isso, cada bote de libra era revestido por uma marca inimitável (Gazeta de Campinas, 2 de março de 1871, primeira coluna).

No relatório realizado por João Pedro Carvalho de Moraes para o Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, foi feita uma descrição da Fazenda Soledade, de Florence. Foi destacada a lealdade de Florence com seus colonos (Jornal do Pará, 13 de maio de 1871, segunda coluna).

Foi anunciado que Florence havia achado o meio de de tornar o óleo de rícino secativo a ponto de se poder empregar na pintura a óleo, em quadros históricos, retratos e paisagens (Correio Paulistano, 15 de dezembro de 1871, primeira coluna).

1872 – Matéria sobre os Typos-syllabas, afirmando a autoria do invento por Florence, em 1848 (Correio do Brazil, 14 de maio de 1872, segunda coluna).

Florence foi listado como lavrador de 1ª classe e deveria contribuir com 30$000 para a construção da matriz nova de Campinas (Gazeta de Campinas, 31 de outubro de 1872, primeira coluna).

1873 –  Em reunião do Conselho Administrativo da Sociedade Auxiliadora da Indústria, um de seus membros, o sr. Pinto Junior, apresentou algumas mostras do papel inimitável produzido por Hercule Florence, a quem se referiu como um homem muito distinto pelo seu reconhecido e provado talento e gênio investigador... (O Auxiliador da Indústria Nacional, 1873).

Estava na lista de lavradores do estado de São Paulo (Almanak da Província de São Paulo, 1873).

O sítio de Florence & Filhos estava contratando colhedores de café. Também foi anunciado que no sítio ensinava-se a juntar as folhas com a ajuda de um ancinho (Gazeta de Campinas, 10 de julho de 1873, e Gazeta de Campinas, 31 de julho de 1873, primeira coluna).

Florence pedia dispensa do pagamento de uma multa por não ter varrido a frente de sua casa do largo da Matriz de Santa Cruz. Alegava que ignorava essa obrigação por residir em um sítio e não na casa (Gazeta de Campinas, 19 de outubro de 1873, primeira coluna).

1875 – Florence foi listado como lavrador de 2ª classe e deveria contribuir com 80$000 para a construção da matriz nova de Campinas (Constitucional, 13 de fevereiro de 1875, última coluna).

Alfredo d’Escragnolle Taunay traduziu o diário de Florence, Esboço da Viagem feita pelo Sr. Langsdorff ao interior do Brasil, desde setembro de 1825 até março de 1829, originariamente escrito em francês, publicando-o na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro. Taunay encontrou o diário por acaso, entre papeis de sua família. Na verdade, Florence, em 1829, havia dado de presente à família Taunay suas anotações. Adrien Taunay, tio de Alfredo Taunay, havia feito parte da expedição como primeiro desenhista e morrido afogado, em 1828 (Diário de São Paulo, 10 de outubro de 1875, quinta coluna).

Florence deveria pagar imposto predial referente a um imóvel na rua Direita, em Campinas (Constitucional, 15 de dezembro de 1875, segunda coluna).

1876 – Florence foi visitado, em Campinas, por d. Pedro II (1825 – 1891).

O aparecimento de notas falsas motivou Florence a reapresentar seu invento de papéis inimitáveis (Diário do Rio de Janeiro, 23 de junho de 1876, primeira coluna).

1877 - Foi admitido como sócio do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, no Rio de Janeiro, tendo apresentado trabalho intitulado Esboço da viagem feita pelo Sr. De Langsdorff no interior do Brasil, desde setembro de 1825 até março de 1829.

1879 – Morreu, acometido por uma cruel enfermidade, em 27 de março, em Campinas. Hercule Florence era o tipo completo do homem probo e devotado à religião do trabalho (Correio Paulistano, 29 de março de 1879, terceira coluna, e Gazeta de Notícias, 30 de março de 1879, última coluna).

1908 – No artigo A litografia no Brasil, publicado na Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, vol. XIII, de 1908, seu autor, o jornalista Estevão Leão Bourroul (1859 – 1914), atribuiu a Florence a fundação do primeiro estabelecimento litográfico no Brasil, em 1825 (Revista Brasileira, dezembro de 1943).

1972 / 1976 –  O método fotográfico de Florence foi comprovado cientificamente pelo pesquisador brasileiro e emérito historiador da fotografia brasileira Boris Kossoy, entre 1972 e 1976. Em meados de 1976, foi testado, com sucesso, nos laboratórios do Rochester Institute of Technology, nos Estados Unidos, sob a chefia do professor Thomas Hill. Em outubro do mesmo ano, a pesquisa de Kossoy foi apresentada no III Simpósio da História da Fotografia, na George Eastman House, em Rochester. Foi a partir da pesquisa e do teste realizados por Kossoy, aos quais se seguiu a publicação, pelo pesquisador brasileiro, do livro “1833: a Descoberta Isolada da Fotografia no Brasil” (1980), que Hercule Florence tornou-se internacionalmente conhecido.

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

BOURROUL, Estevam Leão. Hercules Florence (1804-1879): ensaio histórico-literário. São Paulo : Typ. Andrade, Mello, 1900.

BURGI, Sergio. A descoberta de Florence. Rio de Janeiro: IMS, 2014.

FERREIRA, Dirceu Franco. Narrando viagens e invenções. Hercule Florence: amigo das artes na periferia do capitalismo. São Paulo: Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material, vol 2, julho/dezenbro de 2014.

FERREIRA, Dirceu Franco; CANTARINO, Nelson Mendes. Um humanista nos trópicos: a singular trajetória de Hercule Florence no Brasil. In: VIDAL, Laurent; LUCA, Tânia Regina de (org.). Franceses no Brasil: séculos XIX-XX. São Paulo: Ed.Unesp, 2009, p.397-420.

FLORENCE, Antoine Hercule Romuald. Livre d’annotations et de premiers matériaux, Vila de São Carlos, 1829. Manuscrito.

FLORENCE, Antoine Hercule Romuald. L’Ami des arts livré a lui même ou Recherches et decouvertes sur différents sujets nouveax, Vila de São Carlos, 1837. Manuscrito

FLORENCE, Antoine Hercule Romuald. Correspondance et Piéces Scientifiques, Vila de São Carlos, s.d. Manuscrito.

FLORENCE, Antoine Hercule Romuald, Decouverte de la Polygraphie Vila de São Carlos, 1853. Impresso em poligrafia.

FLORENCE, Arnaldo Machado. Hercules Florence – o pioneiro da Fotografia. São Paulo: Foto-cine clube Bandeirante, julho de 1948.

FLORENCE, Leila (org.). Hercule Florence e o Brasil. O percurso de um artista-inventor. São Paulo: Pinacoteca do Estado de São Paulo, 2009.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002. 408 p., il. p&b.

KOSSOY, Boris. Hercule Florence: 1833, a descoberta isolada da fotografia no Brasil. 2ª edição. São Paulo: Duas Cidades, 1980.

LAGO, Pedro Correa do Lago. Iconografia Paulistana do século XIX. São paulo: Capivara, 2003.

MARQUESE, Rafael de Bivar. Exílio escravista: Hercule Florence e as fronteiras do açúcar e do café no Oeste paulista (1830-1879). Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material, São Paulo, ago.2016.

RIBEIRO, Arilda Ines Miranda. A educação das mulheres no século XIX: o colégio de Carolina e Hércules Florence de Campinas (1863-1889) .

SCARPELINI, Rosaelena. O nascimento da imprensa em Campinas. Campinas: Revista Sarao, maio de 2004.

Site da Enciclopédia Itaú Cultural

Site do Instituto Moreira Salles

Site Hercule Florence – L´ami des arts

Site Hércules Florence – o inventor da fotografia no Brasil

SODRÉ, Nelson Werneck. A história da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: MAUAD Editora, 1998

 

O fotógrafo, botânico e naturalista alemão George Huebner (1862 – 1935)

 

O fotógrafo, botânico e naturalista alemão George Huebner (1862 – 1935) foi um dos estrangeiros atraídos a Manaus quando a cidade, com o ciclo da borracha, tornou-se um importante pólo econômico. Estabeleceu-se comercialmente em Belém, onde, em 1897, colaborou com o fotógrafo português Felipe Augusto Fidanza (c. 1847 – 1903). Em novembro do mesmo ano, apresentando-se como membro correspondente da Sociedade Geográfica de Dresden, informava a abertura de um ateliê fotográfico em Manaus, a Photographia Allemã, no antigo Hotel Cassina, junto ao palácio do governo. O ateliê mudou algumas vezes de endereço. Como fotógrafo registrou a chegada da modernidade em Belém e em Manaus, etnias indígenas, retratos de personalidades importantes de sua época, a sociedade que surgiu a partir do apogeu da economia da borracha e paisagens da floresta amazônica.

Acessando o link para as fotografias de George Huebner disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Ao longo de vinte anos, entre 1903 e 1924, Huebner manteve um relacionamento de trabalho e de amizade com o etnólogo alemão Theodor Koch-Grünberg (1872 – 1924). Essa parceria refletiu-se na produção profissional – fotográfica e etnográfica – de ambos. Fotografias e traduções de vocabulários indígenas colhidos por Huebner foram usados por Koch-Grünberg  na ilustração e composição de vários de seus artigos.

Em 1906, Huebner e o professor de Belas-Artes  (? – 1920), com quem já estava associado desde 1902, adquiriram, em Belém, o ateliê fotográfico Fidanza, que havia sido o mais tradicional do Pará. Dois anos depois, em 1908, Huebner foi pela primeira vez ao Rio de Janeiro, onde ele e Libânio do Amaral ganharam a medalha de prata e a medalha de ouro pelo Amazonas e o Grande Prêmio pelo Pará, na Exposição Nacional de 1908 (Almanak Laemmert, 1909). Em 1911, foi publicada uma propaganda da Photografia G. Huebner & Amaral informando que seria aberta e estaria à disposição do público para executar qualquer trabalho fotográfico a partir do dia 1º de janeiro de 1911, no Rio de Janeiro. Situava-se no edifício de O Paiz, na esquina da avenida Central com Sete de Setembro (A Notícia, 2 de janeiro de 1911, última coluna).

 

 

Antes, na década de 1880, Huebner veio pela primeira vez para a América do Sul e, em 1888, estabeleceu-se no Peru, onde conheceu o fotógrafo alemão Charles Kroehle (c. 1876 – c. 1902). Durante cerca de três anos e meio, percorreram o território peruano, desde os altiplanos andinos até a costa do Pacífico e a região amazônica. Nessa expedição foram registradas centenas de fotos assinadas pelos dois. Essas imagens são as primeiras de etnias peruanas como os campa, caxibo, cunivo, mayonisha, pito, xipibo, muitas já extintas, de que se tem notícia.

Retornou a Dresden e, em 1894, voltou à Amazônia e fez duas expedições: a primeira, à nascente do rio Orinoco, já na Venezuela, e a outra por um longo trecho do rio Branco, afluente do rio Negro. Nos oito meses em que permaneceu na floresta amazônica, Huebner também aprofundou seus conhecimentos de botânica amazônica, ao coletar e documentar espécimes da flora, especialmente de orquídeas. Dois anos depois, em 1896, ele e o fotógrafo José Gomes Leite (18? – 19?) seguiram no vapor Tabatinga para o Rio Madeira, comissionados pela casa artística do sr, Antonio Luciani, a serviço de suas profissões (Diário Oficial(AM), 25 de janeiro de 1896, última coluna).

 

 

Sobre os registros de indígenas produzidos por Huebner, segundo o site O índio na fotografia brasileira, o fotógrafo tinha uma preocupação em manter preservadas em suas imagens tanto as características que os tornavam indígenas “exóticos” quanto fotografá-los em situações e posições diferentes das habituais. Nos retratos realizados durante suas expedições, o fotógrafo primava pelas expressões de descontração e espontaneidade que extraía de seus retratos, em técnicas e linguagens que evoluíram junto com seu desenvolvimento profissional. Foi dessa forma que, ao fotografar índios Apurinã, Wapixana, Makuxi, Taurepang (ou Menon), Marqueritare e Bindiapá, entre outras, Huebner extraía semblantes que transpareciam as relações de negociação que permeavam os bastidores da captura de imagens de seus modelos.

Além do Instituto Moreira Salles, também possuem fotografias de George Huener em seus acervos o Museu Histórico Nacional, o Musée d´Ethnographie, o Museum Völkerkunde, o Verein für Erdkunde, a Oliveira Lima Library e Boris Kossoy.

 

Pequena cronologia do fotógrafo George Huebner

George Huebner (na cabeceira) com amigos / Site da Revista Studium da Unicamp.

1862 – Nascimento de Georg Hübner, em Dresden, na época, uma das mais importantes cidades da Alemanha. , Posteriormente o nome foi latinizado para George Huebner.

1885 – Huebner realizou sua primeira viagem à América do Sul. Já mantinha contato com sociedades científicas, para as quais iria coletar dados e imagens sobre os povos nativos da região.

1888 - Huebner fez viagens pelo Peru e, estabelecido em Lima, conheceu Charles Kroehle, um fotógrafo alemão. Durante cerca de três anos e meio, percorreram o território peruano, desde os altiplanos andinos até a costa do Pacífico e a região amazônica.

1892 – Huebner retornou a Dresden, publicou textos ilustrados em revistas de ciência popular e  de viagens como Globus e Deutsche Rundschau für Geographie und Statistik. Fez palestras em sociedades científicas e forneceu imagens para artigos científicos. Foi sua primeira incursão no meio científico.

1894 – Voltou à Amazônia e fez duas expedições: a primeira, à nascente do Orinoco, já na Venezuela, e a outra por um longo trecho do rio Branco, afluente do rio Negro. Nos oito meses em que permaneceu na floresta amazônica, Huebner também aprofundou seus conhecimentos de botânica amazônica, ao coletar e documentar espécimes da flora, especialmente de orquídeas.

1894/1895 / 1896 – Ao longo desses anos, retornou a Dresden e voltou para o Brasil.

c. 1895 - Coletou o holótipo do lagarto do verme do rio Inirida, que foi posteriormente batizado em sua homenagem como Mesobaena huebneri .

1896 - Foi admitido como “naturalista, sócio-correspondente” do Verein für Erdkunde (Sociedade de Geografia) de Dresden.

Huebner e o também fotógrafo Gomes Leite seguiram no vapor Tabatinga para o Rio Madeira, comissionados pela casa artística do sr, Antonio Luciani, a serviço de suas profissões (Diário Oficial(AM), 25 de janeiro de 1896, última coluna).

1897 – Em Belém, colaborou com o fotográfo português Felipe Augusto Fidanza (c. 1847 – 1903).

Em novembro, George Huebner, apresentando-se como membro correspondente da Sociedade Geográfica de Dresden, informava a abertura de um ateliê fotográfico em Manaus, a Photographia Allemã, no antigo Hotel Cassina, junto ao palácio do governo (Jornal do Rio Negro, 7 de novembro de 1897).

1899 – Huebner anunciou que seguiria para o rio Juruá e que, durante sua ausência, a Photographia Allemã seria gerenciada por José Gomes Leite (Commercio do Amazonas, 4 de fevereiro de 1899, sexta coluna).

1900 – Huebner anunciou seu estabelecimento fotográfico na rua São Vicente, 23, onde fazia retratos de todos os gêneros e em platinotipia e crayon, diversas vezes ao longo de 1900 (Commercio do Amazonas, 25 de abril de 1900).

Huebner fotografou a sessão extraordinária do Congresso do Estado do Amazonas (A Federação, orgam do Partido Republicano Federal (AM), 10 de julho de 1900, terceira coluna).

Foi noticiado uma grande afluência de curiosos ao escritório da redação do Commercio do Amazonas para apreciarem as fotografias do sahimento do dr. Eduardo Ribeiro, trabalho do conceituado “atelier” do sr George Huebner . Sahimento é a procissãode condução do cadáver (Commercio do Amazonas, 23 de outubro de 1900, sexta coluna).

1902 – Associou-se a Libânio do Amaral (? – 1920), professor de Belas Artes. A Photographia Allemã ficava na rua Eduardo Ribeiro (O Palito, 1º de junho de 1902).

Lindos leques em que se aprecia o primor artístico do exímio desenhista Libânio Amaral da acreditada Photographia Allemã de Huebner & Amaral seriam os mimos para a barraca amazonense(Quo vadis?, 21 de novembro de 1902, última coluna).

Huebner & Amaral fizeram vistas da festa de Natal de 1902 e realizaram uma estereotipia da festa do Christo, em Manaus (Quo vadis?, 28 de dezembro de 1902, quinta coluna).

Huebner forneceu 8 retratos para o Ginásio Amazonense (Mensagens do governador do amazonas para a Assembleia, 1902).

1903 – A delegacia fiscal do Amazonas comprou um retrato do presidente da República, Rodrigues Alves, realizado por Huebner & Amaral (Quo vadis?, 28 de janeiro de 1903, quinta coluna).

O etnólogo alemão Theodor Koch-Grünberg chegou a Manaus para iniciar sua expedição ao alto Rio Negro, patrocinado pelo Museu de Berlim. Dois anos antes havia se apresentado como voluntário do Museu Etnográfico de Berlim e, em 1902, foi contratado como pesquisador assistente trabalhando sob a tutela do pesquisador Karl von den Steinen. Nesse mesmo ano, obteve seu doutoramento na Universidade de Würzburg.

Theodor conheceu Huebner, com quem estabeleceu laços de amizade e uma colaboração profissional de quase 22 anos, que só terminaria com sua morte prematura por malária, em 1924, em Vista Alegre, no atual estado de Roraima. Segundo Andreas Valentin, a parceria entre os dois já se transformara em cumplicidade, que transparecia nas suas cartas. É importante, no entanto, lembrar que Huebner não tivera formação superior de qualquer espécie. Era de se esperar que um homem das ciências, para ser reconhecido como tal, fosse treinado e passasse por todos os trajetos e rituais da Academia. Não foi este o caso de Huebner. A confiança que ele conquistou não só de Koch Grünberg como também de outros cientistas e instituições, principalmente após abandonar o negócio fotográfico, se deve aos seus próprios méritos, como profissional dedicado não apenas à sua atividade-fim, mas também como investigador meticuloso, preciso e sempre em busca do desconhecido. Acrescenta-se, ainda, a postura humanista que eles compartilhavam em sua preocupação com a rápida extinção dos índios.

1904 – O folheto Kautschukgewinnung am Amazonen – Strome, de 15 páginas, sem data, fazia parte da bibliografia do artigo “Chelonios do Brasil”. Foi publicado como texto explicativo de 8 grandes fotografias publicadas pelos srs. G. Huebner & Amaral, de Manaus. Contém uma breve resenha da indústria de borracha no amazonas, com indicações originais sobre as árvores de borracha, os seringais, os processos de extração e preparação e a exportação (Boletim do Museu Paraense de História Natural e Etnografia, 1904 )

Huebner e Amaral ofereceram  à redação do jornal Quo Vadis? duas lindas coleções de bilhetes postais, com fotografias de Manaus e do interior do Amazonas (Quo vadis?, 11 de fevereiro de 1904, segunda coluna). Ao Jornal do Commercio(AM), ofereceram fotografias do edifício do jornal onde funcionavam seus escritórios e oficinas (Jornal do Commercio (AM), 13 de abril de 1904, segunda coluna).

Huebner & Amaral realizaram quadros de 110 cm sobre 86, ampliações de fotografias, em moldura de madeira da terra, das diversas fases do cultivo e do beneficiamento da borracha (Jornal do Commercio, 17 de abril de 1904, segunda coluna).

Huebner chegou em Manaus, vindo de Belém, no vapor Campos Salles (Jornal do Commercio (AM), 14 de junho de 1904, quarta coluna).

O monsenhor Luis Gonzaga de Oliveira e um grupo de seus ex-discípulos foram fotografados no ateliê de Huebner & Amaral. Durante a reunião, o compositor Caetano Briones executou ao piano a música Rio Negro, de sua autoria (Jornal do Commercio (AM), 19 de junho de 1904, quarta coluna).

Huebner estava em Dresden, na Alemanha (Jornal do Commercio (AM), 23 de setembro de 1904, terceira coluna). Em 29 de outubro, já estava de volta em Manaus (Jornal do Commercio (AM), 29 de outubro de 1904, segunda coluna).

O governador do Amazonas, coronel  Constantino Neri (1859 – 1926), foi presenteado com uma fotografia dele produzida por Huebner & Amaral (Jornal do Commercio (AM), 9 de dezembro de 1904, segunda coluna).

O ateliê de Huebner & Amaral é elogiado como o preferido do público devido às incontestáveis provas de competência (Jornal do Commercio (AM), 15 de dezembro de 1904, quarta coluna).

1905 - Exposição de retratos produzidos por Huebner & Amaral dos 5 presidentes do Brasil até então: Deodoro da Fonseca (1827 – 1892), Floriano Peixoto (1839 – 1895), Prudente de Morais (1841 – 1902), Campos Salles (1841 – 1913) e Rodrigues Alves (1848 – 1919) (Jornal do Commercio (AM), 11 de fevereiro de 1905, segunda coluna).

Huebner foi um dos fiscais do carnaval realizado na primeira avenida de Manaus (Jornal do Commercio (AM), 7 de março de 1905, primeira coluna).

Huebner importou artigos fotográficos da Europa (Jornal do Commercio (AM), 9 de junho de 1905, quarta coluna).

Durante uma sessção na Academia de Letras, em Manaus, Huebner teve uma discussão com o fotógrafo italiano Panigal. Amobos fotografavam a ocasião (Jornal do Commercio, 6 de agosto de 1905, última coluna).

1906 – Huebner e Libânio do Amaral adquiriram, em Belém, o ateliê fotográfico Fidanza, que havia sido o mais tradicional do Pará – pertencia ao fotógrafo português Felipe Augusto Fidanza (c. 1847 – 1903), que havia se suicidado três anos antes. O ateliê ficava na rua Conselheiro João Alfredo, 23.

Huebner encontrava-se em Funchal, cidade portuguesa na Ilha da Madeira (Jornal do Commercio, 5 de junho de 1906, quarta coluna). Seguiu paa Hamburgo (Jornal do Commercio (AM), 21 de junho de 1906, quarta coluna).

Foi editado durante o governo do coronel Constantino Neri (1859 – 1926) no Amazonas, o álbum Vale do Rio Branco com fotografias de Huebner. Foi coordenado pelo engenheiro militar Alfredo Ernesto Jacques Ourique (1848 – 1932). Ele e Huebner faziam parte da comitiva da viagem que o governador Neri fez pelo rio Branco, em 1904, a  bordo do Vapor Mararyr. Eles documentaram a vida ribeirinha, as paisagens, as fazendas, as ruínas do Forte São Joaquim, a fronteira do Brasil com a Guiana Inglesa e a população indígena. O álbum Vale do Rio Branco foi editado em Dresden, na Alemanha, ficou pronto, em 1906. Só foi divulgado na Exposição Nacional de 1908, no Rio de Janeiro: todas as gravuras são magníficas, sendo o trabalho do álbum verdadeiramente artístico, feito no estrangeiro (Jornal do Brasil, 24 de junho de 1908, segunda coluna).

Huebner & Amaral fotografaram os assassinos da família Pacoty (Jornal do Commercio (AM), 22 de setembro de 1906, quarta coluna).

1907 – Ao longo desse ano, Huebner importou material fotográfico da Europa.

Na opulenta vitrine da acreditada fotografia de Huebner & Amaral, exposição de retratos do governador Constantino Neri e dos coronéis Antonio Bittencourt e Afonso de Carvalho (Jornal do Commercio (AM), 15 de dezembro de 1907, terceira coluna).

1908 – Um funcionário da Photographia Allemã foi preso, acusado de roubar dinheiro de Huebner (Jornal do Commercio (AM), 10 de janeiro de 1908, última coluna).

A Photographia Allemã inaugurou uma exposição de quadros do artista plástico Ernest Vollbehr (1876 – 1960) (Jornal do Commercio (AM), 18 de fevereiro de 1908, última coluna).

Huebner fotografou o grupo Club Cabocolin, de foliões que se fantasiavam de índios (Jornal do Commercio (AM), 3 de março de 1908, terceira coluna).

Exposição de um retrato da sra. Zuleide de Barros, executado por Huebner, que seria mostrado na Exposição Nacional de 1908, no Rio de Janeiro (Jornal do Commercio (AM), 5 de março de 1908, quinta coluna).

Pela primeira vez, Huebner viajou para o Rio de Janeiro, onde ele e Libânio do Amaral ganharam a medalha de prata e a medalha de ouro pelo Amazonas e o Grande Prêmio pelo Pará, na Exposição Nacional de 1908 (Almanak Laemmert, 1909).

Na gerência do Jornal do Commercio de Manaus, exposição de fotografias de autoria de Huebner realizadas na seção amazonense da Exposição Nacional (Jornal do Commercio (AM), 10 de setembro de 1908, primeira coluna).

Realização de um trabalho sobre os índios Macuchi e Wapishana, por Huebner e pelo etnologista e explorador alemão Theodor Koch Grumberg (1872 – 1924) sobre aspectos dessas tribos, por exemplo, seus vocabulários (Boletim do Museu Paranaense de História Natural e de Etnografia, 1909).

1909 – Exposição de uma fotografia produzida pela casa Huebner & Amaral da passeata da Sociedade do Tiro Brasileiro do Amazonas (Jornal do Commercio (AM), 7 de janeiro de 1909, primeira coluna).

Huebner & Amaral ofereceram ao Jornal do Commercio fotografias da inauguração do Cristo no Tribunal do Juri (Jornal do Commercio (AM), 23 de junho de 1909, segunda coluna)

Huebner participou da expedição para prestar socorro às vítimas da enchente do rio Amazonas. As fotografias foram expostas mostrando a desolação causada pela enchente (Jornal do Commercio (AM), 4 de julho de 1909, quinta coluna, e 5 de julho, quarta coluna).

1910 – Huebner e Libânio do Amaral eram credores do estado do Amazonas pela realização de trabalhos fotográficos para a Comissão de Saneamento e para a Polícia, e também pela publicação da obra Vale do Rio Branco (Relatório dos presidentes dos estados brasileiros (AM), 1910, página 525, página 559 e página 580).

No salão nobre da Photographia Allemã, exposição de um excelente retrato em nítida fotogravura do fundador do Jornal do Commercio de Manaus, o português Joaquim Rocha dos Santos (Jornal do Commercio (AM), 4 de janeiro de 1910, última coluna).

George Huebner e Libânio Amaral estão na Alemanha (Jornal do Commercio (AM), 15 de agosto de 1910, quinta coluna).

1911 – Foi publicada uma propaganda da Photografia G. Huebner & Amaral que estaria à disposição do público para executar qualquer trabalho fotográfico a partir do dia 1º de janeiro de 1911, no Rio de Janeiro. Ficava no edifício de O Paiz, com entrada pela rua Sete de Setembro. O prédio ficava na esquina da avenida Central com Sete de Setembro (A Notícia, 2 de janeiro de 1911, última coluna e  Jornal do Commercio (AM), 27 de janeiro de 1911, penúltima coluna).

Fotografias da extração da borracha e de seu beneficiamento realizadas por Huebner & Amaral ganharam a medalha de ouro na exposição de borracha anexa ao Congresso Comercial, Industrial e Agrícola realizada em Manaus em fevereiro de 1911 (Jornal do Commercio (AM), 18 de março de 1911, terceira coluna e 19 de março de 1911, última coluna).

A revista Fon Fon publica uma matéria elogiando o ateliê de Huebner & Amaral. A fotografia junta patenteará aos nosso leitores o conforto e a sóbria elegância desse atelier, cujos trabalhos são verdadeiras maravilhas (Fon-Fon, 22 de abril de 1911).

Reputado estabelecimento de arte, a Photographia Allemã passou por várias reformas (Jornal do Commercio (AM), 24 de dezembro de 1911, segunda coluna e 25 de dezembro, primeira coluna).

1912 – Huebner e Libânio do Amaral ofereceram ao Centro Cívico Sete de Setembro uma fotografia do barão do Rio Branco (A Imprensa, 20 de março de 1912, terceira coluna).

O endereço do estabelecimento dos fotógrafos passa a ser avenida Rio Branco, 128 – com a morte do barão do Rio Branco, a avenida Central passou a se chamar avenida Rio Branco.

Huebner chegou ao Maranhão, proveniente do Rio de Janeiro (Jornal do Commercio (AM), 20 de abril de 1912, pen~ultima coluna).

Huebner e Libânio do Amaral e outros proprietários e empregados de estabelecimentos fotográficos requerem que o governo decrete uma lei que determine o fechamento de suas casas comerciais aos domingos (A Imprensa, 13 de abril de 1912, primeira coluna). O pedido foi indeferido (A Imprensa, 8 de junho de 1912, última coluna).

Notícia de que Huebner e dona Maria Ângela pagaram imposto de transmissão de propriedade. Será ela esposa de Huebner? (Jornal do Commercio (AM), 30 de junho de 1912, segunda coluna).

Huebner & Amaral cobram do senhor Carlos Simas, empregado do Banco do Brasil, o pagamento de uma encomenda de fotografias (Jornal do Commercio (AM), 8 de julho de 1912, penúltima coluna).

Publicação de uma carta enviada do rio Orinoco do etnólogo alemão Theodor Koch-Grünberg (1872 – 1924) a Huebner na qual ele narra seu encontro com indígenas em dezembro de 1911 (Jornal do Commercio (AM), 11 de julho de 1912, quinta coluna). Denúncia de tráfico de índios no interior do Amazonas feita Koch-Grünberg, que encaminhou dois indígenas escravizados para a residência de Huebner e Amaral (Jornal do Commercio (AM), 17 de julho de 1912, terceira coluna).

A Photographia Huebner & Amaral reabriu em 11 de setembro, na rua da Assembleia, 100, antigo endereço da Photographia Guimarães, do fotógrafo português José Ferreira Guimarães (1841 – 1924) (Jornal do Commercio, 9 de setembro de 1917).

 

 

 

1917 – A Photographia Huebner & Amaral reabriu em 11 de setembro, na rua da Assembleia, 100, antigo endereço da Photographia Guimarães, do fotógrafo português José Ferreira Guimarães (1841 – 1924) (Jornal do Commercio, 9 de setembro de 1917).

A Photographia Huebner & Amaral foi apedrejada por populares em revolta contra a pirataria alemã. Os mostruários do estabelecimento fotográfico foram destruídos (Diário de Pernambuco, 15 de novembro de 1917, quinta coluna).

 

 

1918 – O Almanak Laemmert anunciou o estabelecimento fotográfico G. Huebner, Amaral & Cia, na rua da Assembleia, 100, no Rio de Janeiro.

O estabelecimento fotográfico G. Huebner & Amaral, em Manaus, na avenida Eduardo Ribeiro, foi anunciado pela última vez no Almanak Laemmert.

1919 – O estabelecimento fotográfico G. Huebner & Amaral, de Belém, na rua Conselheiro João Alfredo, foi anunciado pela última vez no Almanak Laemmert.

Foi anunciada a dissolução da sociedade entre George Huebner, Libânio do Amaral e Paulo Erbe, sócio-gerente da fima desde 1912, que passa a ser o único dono do estabelecimento fotográfico G. Huebner, Amaral & Cia (Jornal do Commercio, 23 de novembro de 1919, oitava coluna). Erber se estabeleceu, posteriormente, na rua República do Peru, nº 100.

 

 

1928 - Foi introduzida no Jardim Botânico do Rio de Janeiro a palmeira Leopoldinia piassaba Wallace, da região do rio Negro, no Amazonas, adquirida de George Huebner, em Manaus (Rodriguésia, junho / setembro de 1936).

1929 – O estabelecimento fotográfico G. Huebner & Amaral, do Rio de Janeiro, na rua República do Peru, 100, foi anunciado pela última vez no Almanak Laemmert.

1930 -  Huebner é identificado como um incansável estudioso, abrigado infelizmente na mais severa, verídica modéstia, quem primeiramente (da sua chácara perdida num obscuro arrabalde de Manaus) revelou aos meios científicos esse bizarro exemplar da família das palmaceas…a sohnregia excelsa… (Eu sei tudo, maio de 1930).

1935 – George Huebner, que em seus últimos anos de vida, vivia em um sítio nos arredores de Manaus coletando espécies vegetais, sobretudo orquídeas, faleceu.

1944 – Apesar de ter sido rebatizado com o nome de Fotografia Artística, o estúdio Photographia Allemã foi depredado devido aos acontecimentos relacionados à Segunda Guerra Mundial, destruindo parte do acervo fotográfico de Huebner.

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Beolens, Bo; GRAYSON, Michael; WATKINS, Michael. The Eponym Dictionary of Reptil. Baltimore: The John Hopkins University Press, 2011.

ERMAKOFF , George. Rio de Janeiro 1900 – 1930 – Uma crônica fotográfica. Rio de Janeiro: G. Ermakoff Casa Editorial, 2006.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

SCHOEPF, Daniel. George Huebner 1862-1935: um fotógrafo em Manaus. São Paulo: Metalivros, 2005.

Site O índio na fotografia brasileira

TACCA, Fernando de. O índio na fotografia brasileira: incursões sobre a imagem e o meio. História, ciências, saúde – Manguinhos – Vol. 18, nº 1, p.191-223. Rio de Janeiro., 2011.

VALENTIM, Andreas. A fotografia amazônica de George Huebner. Rio de Janeiro: Nau Editora, 2012.

VALENTIM, Andreas. George Huebner e Theodor Koch-Grünberg: diálogos na Amazônia, 1905-1924. Trabalho apresentado na 26ª. Reunião Brasileira de Antropologia, realizada entre os dias 1 e 4 de junho de 2008, Porto Seguro, Bahia, Brasil. 

VALENTIM, Andreas. O índio na fotografia de George Huebner.

O cientista Oswaldo Cruz (1872 – 1917), prefeito de Petrópolis

 

 

*Cristiane d’Avila com a colaboração de Ana Luce Girão

 

 

Em 2017, por ocasião do centenário de morte de Oswaldo Cruz (1872 – 1917), a Fiocruz instituiu o Ano Oswaldo Cruz, com o objetivo de divulgar para a sociedade a história do cientista e daquele que pode ser considerado seu maior legado: firmar uma instituição científica em um país recém-saído da escravidão, economicamente dependente e com profundas desigualdades sociais e regionais[1]. Para lembrar a data, contamos alguns detalhes sobre os últimos dias de vida de Oswaldo Cruz, que, mesmo gravemente doente, aceitou o desafio de realizar um projeto ambicioso: um extenso plano de urbanização e organização do serviço sanitário na cidade de Petrópolis, considerada refúgio de boa parte da elite do Rio de Janeiro, capital da República, no início do século XX.

Não era qualquer cidade. Quando o presidente do Estado do Rio de Janeiro, Nilo Peçanha (1867 – 1924), convidou Oswaldo Cruz para assumir a recém-criada prefeitura de Petrópolis, em 1916, dava a ele um cargo à altura do cientista. Residência de todo o corpo diplomático durante o ano e da elite política, financeira e intelectual da capital na estação calmosa, o verão – quando o presidente da República se deslocava do Rio para o pomposo Palácio Rio Negro –, Petrópolis vivia um momento político conturbado.

Na imprensa carioca e petropolitana os articulistas não se cansavam de denunciar a “politicagem”, atrelada ao maquinismo político-eleitoral, que impedia o progresso da “princesa do Piabanha”, entre as inúmeras alcunhas atribuídas à bela cidade serrana. Acusado de nada fazer pela população além de cobrar-lhe impostos, o grupo majoritário, organizado na Câmara Municipal, não via com bons olhos a decisão unilateral do governo fluminense, que impusera a criação da prefeitura e oferecera o cargo ao ilustre higienista.

Em contrapartida, Oswaldo Cruz, consagrado nacional e internacionalmente pela campanha empreendida contra a febre amarela, varíola e peste bubônica, iria somar à urbe, célebre pela beleza e salubridade, mais que o reconhecimento como destino privilegiado para o lazer da elite carioca. Escolhera-a como alvo de um novo e ambicioso projeto de trabalho, que incluía ações de saneamento, urbanização e educação pública.

Bastante debilitado pela nefrite que o acometera ainda jovem, o cientista decidiu acatar a recomendação do médico Salles Guerra e, mesmo contrariado, se afasta da dura rotina no Instituto Soroterápico Federal, nessa época já denominado Instituto Oswaldo Cruz. Nilo Peçanha o havia indicado para assumir a prefeitura de Petrópolis e o filho Bento (1895 – 1941) reforçava o coro, insistindo para que o pai se mudasse para a residência de veraneio da família na cidade, na rua Montecaseros, em busca do tão necessário repouso. Para não arrefecer os ânimos do cientista, ofereciam a ele não apenas o cargo político, mas uma nova frente de trabalho, um novo desafio, tão ao gosto de seu temperamento.

Imbuído da missão, Oswaldo, com o filho Bento e Salles Guerra, toma um barco a vapor no cais Pharoux, atual Praça XV, e em pouco mais de uma hora chega ao porto localizado no fundo da Baía de Guanabara. De lá embarca nos vagões da Estrada de Ferro Mauá, que conduziam os passageiros até a Raiz da Serra. Daquele ponto em diante, o trem subia a serra pelo moderno sistema de cremalheira até o lugar denominado Alto da Serra, onde atualmente fica a Rua Teresa.

O percurso completo, que no passado recente levava quatro horas, naquele ano já era percorrido em cerca de duas. Sem perder tempo, no dia 17 de agosto Cruz toma posse e, no dia 18, apresenta seu plano de ação para a prefeitura. Em carta ao colega Cândido Martins, chefe interino do executivo municipal que o convidara para o cargo, pede discrição e nenhuma pompa na ocasião da posse:

‘Meu ilustrado colega Dr. Candido Martins,

Aqui me acho à sua disposição pronto assumir o cargo de Prefeito. Se me fosse permitido esperar de sua gentileza um obsequio eu rogaria a meu simpático e generoso colega o favor especialíssimo de me dar posse da mais absoluta intimidade e sem a menor solenidade. Se for possível, hoje e nesse caso rogo o obsequio de comunicar ao portador deste – meu filho e nosso colega Bento Cruz – a hora em que deverei comparecer a Prefeitura para receber suas ordens. Estou certo que não me negará o solicitado aqui e aguardando ancioso (sic) sua resposta afirmativa peço aceitar os protestos da mais viva simpatia e distinta consideração do colega muito grato.

Ass. Gonçalves Cruz’

O articulista do jornal petropolitano Diário da Manhã, em edição de 6 de agosto de 1916, assim definiu a indicação de Cruz ao posto: “… para restituir a ordem e a moralidade administrativa, que de Petrópolis foram desgraçadamente expulsas… e arrancar a gestão dos negócios da municipalidade à faminta voracidade e à ingenuidade inepta de seus gestores”. Nomeado, Oswaldo Cruz apresenta seu amplo projeto, contendo 26 objetivos, com propostas de intervenção em inúmeras frentes, do embelezamento da cidade ao saneamento financeiro das contas públicas, da urbanização à gestão da saúde e da educação infantil.

As medidas propostas, no entanto, causaram imenso reboliço em parte da Câmara Municipal, que passou a organizar manifestações em frente à casa do prefeito, cujo estado de saúde se agravava progressivamente. Em janeiro, Oswaldo Cruz afasta-se por tempo indeterminado do trabalho, mas sua licença médica não atenua as manifestações. “Latas de querosene e gritos da ralé, que num ofertório de gentilezas de hienas excitadas vinha trazer ao ex-prefeito o testemunho do seu regozijo pela provável restituição do governo municipal à camarilha que o explorava”, relata o médico e contemporâneo de Cruz, Ezequiel Dias.

Após intenso processo de sofrimento causado pela moléstia, Oswaldo Cruz entra em coma, vindo a falecer no mesmo dia, em 11 de fevereiro de 1917, aos 44 anos, em sua casa de Petrópolis. Suas “Ideias e Projetos”, como definiu o plano para a gestão da cidade, não chegaram a sair do papel, ao menos exatamente como programou. São eles:

Ideias e Projetos

Petrópolis – 18 de agosto de 1916

- Encampação do Banco Construtor

- Encampação da Fazenda Imperial e resgate dos foros pelos proprietários

- Imposto (2$000 por metro) sobre terrenos devolutos

- Desenhista de jardins

- Preparo de gás pobre com lixo e produção de energia elétrica para os britadores e oficinas

- Aquisição e manutenção de condução para o Prefeito e Inspetor de Obras

- Rede de esgotos

- Substituição na prefeitura das carroças de tração animal por automóveis

 – Regulamentação e fiscalização da venda do leite

- Organização do serviço sanitário

- Barragem dos rios e revestimento do alvéo com seção ovoide – formação de quedas d´água em degraus

- Formação dum lago à feição do Bois em Serpentina

- Construção de um edifício de Diversões

- Bondes – linha circular Castelânea Alto da Serra

- Rosário

- Plantio de flores nas margens dos rios

- Organização do ensino primário

- Fiscalização do ensino de Português nas escolas estrangeiras

- Museu histórico do Império e Jardim Botânico no Palácio Imperial

- Parque para ginástica das escolas e educação física obrigatória para todos colégios

- Calçamento de macadame asfaltado e interlinha dos bondes a paralelepípedos

- Estatística da população e índice de analfabetismo

- Revisão do imposto predial

- Repressão da mendicância e criação de asilos para mendigos

- Matadouro e laboratório

 

Reprodução da carta enviada por Oswaldo Cruz ao sr. Cândido Martins, em 17 de agosto de 1916:

fiocruz

 

Saiba mais sobre Oswaldo Cruz acessando a Biblioteca Virtual Oswaldo Cruz.

 

* Cristiane  d’Avila é jornalista e Ana Luce Girão é historiadora do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz)

 

Fontes:

 

Casa de Oswaldo Cruz. Carta de Oswaldo Cruz para Cândido Martins. Dossiê BR RJCOC OC-PET-01, Fundo Oswaldo Cruz, 1916.

___________________. Diário da Manhã, Petrópolis, 6 de agosto de 1916. Dossiê BR RJCOC OC-PET-01, Fundo Oswaldo Cruz, 1916.

___________________. Ideias e projetos. Dossiê BR RJCOC OC-PET-01, Fundo Oswaldo Cruz, 1916.

D’AVILA. Cristiane. Fantasia na serra: representações de Petrópolis na mídia impressa. 2005. 120 f. Dissertação (Mestrado em Comunicação Social) – Departamento de Comunicação, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, PUC-RIO. Rio de Janeiro.

GUERRA, E. Salles. Oswaldo Cruz. Rio de Janeiro: Casa Editora Vecchi Limitada, 1940.

 

[1] Texto extraído do cartaz digital de divulgação da palestra “Ciência, saúde e projeto nacional: o legado de Oswaldo Cruz”, promovida e realizada em 9 de novembro de 2017 pela Fundação Casa de Rui Barbosa, pelo centenário de morte de Oswaldo Cruz.

 

Pequena cronologia de Oswaldo Cruz desde sua nomeação à prefeitura de Petrópolis até sua morte

1916

julho 

Oswaldo Cruz foi nomeado prefeito de Petrópolis por Nilo Peçanha. Foi pelo jornal O Paiz  como um homem de ciência em que a cultura brasileira se orgulha, saneador benemérito do Rio de Janeiro, criador de Manguinhos, membro da Academia Brasileira e uma das mais altas, complexas e belas figuras nacionais (O Paiz, 31 de julho de 1916, quinta coluna). No mesmo dia e no mesmo jornal, sua nomeação à prefeitura de Petrópolis foi o tema da coluna “Pall-Mall-Rio”, escrita por José Antônio José, o João do Rio (1881 – 1921) (O Paiz, 31 de julho de 1916, última coluna).

agosto

A nomeação de Oswaldo Cruz para a prefeitura de Petrópolis é elogiada e saudada em coluna semanal da revista O Malho como um ato que o povo recebe com um sorriso de satisfação, só por ver a cara com que ficam os inventores de negociatas e os politiqueiros contumazes (O Malho, 5 de agosto de 1916, segunda coluna).

Oswaldo Cruz esteve no gabinete do ministro da Justiça, Carlos Maximiliano Pereira dos Santos (1873 – 1960) (O Paiz, 2 de agosto, quinta coluna).

Oswaldo Cruz e o governador do Rio de Janeiro, Nilo Peçanha, estiveram em Petrópolis (O Paiz, 2 de agosto de 1916, última coluna).

Oswaldo Cruz telegrafou ao senador José Leopoldo de Bulhões Jardim (1856 – 1928) informando que não poderia tomar posse na prefeitura de Petrópolis em 8 de agosto por estar enfermo (O Paiz, 7 de agosto de 1916, última coluna). Foi o senador Bulhões que sucedeu Oswaldo Cruz na prefeitura de Petrópolis, em fevereiro do ano seguinte.

Devido ao impedimento de Oswaldo Cruz, o sr. Cândido José Ferreira Martins, na época vice-presidente da Câmara Municipal de Petrópolis, assumiu a prefeitura da cidade (O Paiz, 10 de agosto de 1916, terceira coluna).

Em nome de Venceslau Brás (1868 – 1966), presidente da República, Helio Lobo, secretário da presidência, fez uma visita a Oswaldo Cruz, que continuava doente (O Paiz, 11 de agosto de 1916, segunda coluna). No dia seguinte, Oswaldo Cruz recebeu a visita de Arthur Obino em nome do ministro da Justiça (O Paiz, 12 de agosto de 1916, segunda coluna). Quatro dias depois, Cruz visitou o ministro da Justiça em agradecimento à visita de Obino (O Paiz, 17 de agosto de 1916, primeira coluna).

Oswaldo Cruz foi eleito vice-presidente da recém criada Academia Brasileira de Ciências, presidida por Henrique Morize (1860 – 1930) (O Paiz, 17 de agosto de 1916, última coluna). O francês naturalizado brasileiro Henri Charles Morize ou Henrique Morize era engenheiro e astrônomo. Além de ter sido o primeiro presidente da Academia Brasileira de Ciências, de 1916 a 1926, , foi também diretor do Observatório Nacional entre 1908 e 1929. Em torno de 1897, realizou experiências cinematográficas com o fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923) e com Tasso Fragoso (1869 – 1945), na época aluno da Escola Militar e posteriormente general.

Foi publicada a notícia de que Oswaldo Cruz já estava completamente restabelecido da enfermidade que o acometera (O Paiz, 18 de agosto de 1916, quarta coluna).

Finalmente, em 18 de agosto, Oswaldo Cruz assumiu a prefeitura de Petrópolis. Cândido José Ferreira Martins expôs a ele a situação financeira do município e os trabalhos que havia executado. Foi então feito um balanço no cofre da tesouraria e um termo foi assinado por Oswaldo Cruz, Cândido Martins, Arthur Barbosa e por mais três funcionários. A posse de Oswaldo Cruz não se revestiu de solenidade como era desejo da maioria dos vereadores por ter o mesmo solicitado a mais absoluta intimidade em carta dirigida ao prefeito interino, Cândido Martins. Acompanhado por ele e por Arthur Barbosa, Cruz visitou todas as seções da administração municipal e depois telegrafou a Nilo Peçanha, informando ter assumido a prefeitura de Petrópolis. Foi apresentado a todo o funcionalismo da cidade pelo coronel José Land. Também recebeu vários telegramas, cartas e visitas pessoais (O Paiz, 20 de agosto de 1916, segunda coluna e Gazeta de Notícias, 20 de agosto de 1916, última coluna).

Oswaldo Cruz convocou o conselho de vereadores de Petrópolis para uma reunião extraordinária em 1º de setembro. Entre as medidas da convocação, encontram-se a criação do imposto de testada, autorização para contrair um empréstimo e para fazer operações de crédito(O Paiz, 26 de agosto de 1916, última coluna).

setembro

Oswaldo Cruz foi visitado pelos vereadores Cândido Martins e Arthur Barbosa ficando combinada a instalação do Conselho na próxima semana (O Paiz, 3 de setembro de 1916, segunda coluna).

Foi convocado para comparecer à primeira reunião do diretório central da Liga da Defesa Nacional. Ele era um dos 50 membros do diretório (O Paiz, 7 de setembro de 1916, quarta coluna). A Liga da Defesa Nacional foi fundada em 7 de setembro de 1916 por um grupo de intelectuais, dentre eles Rui Barbosa (1849 – 1923), Pedro Lessa (1859 – 1921) e Olavo Bilac I(1865 – 1918), que sintetizava a ação da associação como um apostolado de civismo e patriotismo.

Foi instalada a Câmara Municipal de Petrópolis convocada por Oswaldo Cruz. O sr. Roldão Barbosa, como secretário da sessão, leu a mensagem do prefeito, datada de 4 de setembro de 1916, abordando a contração de empréstimos, a criação de impostos e a execução de operações de crédito. O vereador Joaquim Moreira ocupou a tribuna e declarou que o Partido Municipal, que presidia, aceitou o ato do governo em criar a prefeitura de Petrópolis porque foi nomeado um homem superior para ocupá-la, Oswaldo Cruz. O vereador Sá Earp declarou-se contrário à criação da prefeitura de Petrópolis, cuja justificativa teria sido a restauração da estrada União e Indústria (O Paiz, 12 de setembro de 1916, primeira coluna).

Na coluna “Sorrisos e frivolidades”, da Revista da Semana, um veranista de Petrópolis mostrou-se entusiasmado com as propostas de mudanças feitas por Oswaldo Cruz para a cidade (Revista da Semana, 30 de setembro de 2016, primeira coluna).

outubro

Oswaldo Cruz foi receber os médicos Carlos Chagas (1879 – 1934) e Figueiredo Rodrigues, delegados do Brasil no Congresso Médico e na Conferência de Microbiologia e Parasitologia realizadas em Buenos Aires, que chegaram ao Rio de Janeiro a bordo do paquete “Voltaire” (O Paiz, 11 de outubro de 1916, segunda coluna).

Ocupando um lugar de honra, Oswaldo Cruz participou do banquete oferecido pela classe médica a Carlos Chagas  (1879 – 1934), no Salão Assyrius do Teatro Municipal do Rio de Janeiro (O Paiz, 22 de outubro de 1916, primeira coluna).

novembro

Foi noticiado que Oswaldo Cruz iria à festa em benefício da Associação da Mulher Brasileira, realizada no Teatro Municipal (O Paiz, 2 de novembro de 1916, segunda coluna).

Na Câmara Municipal de Petrópolis, Oswaldo Cruz leu uma mensagem sobre a proposta de orçamento para o ano de 1917 acompanhada de ligeira exposição sobre o estado de diversos serviços (Jornal do Commercio, 17 de novembro de 1916, sexta coluna).

Presidiu o banquete oferecido ao cientista Arthur Neiva (1880 – 1943), no Salão Assyrius do Teatro Municipal do Rio de Janeiro (Gazeta de Notícias, 19 de novembro de 1916, sexta coluna). A revista Fon-Fon, de 2 de dezembro de 1916, publicou uma fotografia do evento.

Por falta de quórum não houve sessão na Câmara Municipal de Petrópolis, mas as comissões de Fazenda e Justiça se reuniram e discutiram os assuntos abordados na mensagem do prefeito Oswaldo Cruz. Participaram dos debates Sá Earp, Arthur Barbosa, Modesto Guimarães e Domingos Nogueira. Pediram mais informações ao prefeito. Dentre algumas decisões, resolveram negar a criação do imposto de testada (O Paiz, 19 de novembro de 1916, segunda coluna).

 

 

Por proposta do professor Miguel Couto (1865 – 1934), presidente da Academia Nacional de Medicina, foi criada uma comissão para estudar medidas profiláticas no combate de algumas doenças e Oswaldo Cruz foi um dos nomeados para integrar o grupo, Os outros integrantes seriam Afrânio Peixoto (1876 – 1947), Carlos Chagas (1879 – 1934), Carlos Seidl (1867 – 1929) e Miguel Pereira (1871 – 1918) (Jornal do Commercio, 1º de dezembro de 1916, quinta coluna).

Oswaldo Cruz sancionou e promulgou a Deliberação nº 6 sobre averbação de prédios e transferências de comerciais e industriais em Petrópolis (Jornal do Commercio, 12 de dezembro de 1916, penúltima coluna).

 

 

De acordo com o prefeito Oswaldo Cruz, seria levantado um monumento em homenagem ao fundador da cidade de Petrópolis, Julio Frederico Koeler (1804 – 1847), na Praça da Liberdade. Informou, também, que brevemente seria lançada a pedra fundamental do monumento (Gazeta de Notícias, 19 de dezembro de 1916, última coluna).

 

1917 

janeiro

Oswaldo Cruz agradeceu ao governo do estado do Rio de Janeiro o material e o serviço do Corpo de Bombeiro com que a administração fluminense acaba de dotar Petrópolis (A Época, 6 de janeiro de 1917, terceira coluna).

Foi noticiado um boato sobre o estado de saúde e a iminente saída de Oswaldo Cruz da prefeitura de Petrópolis (A Época, 25 de janeiro de 1917, terceira coluna).

Oswaldo Cruz está doente. Tasso Fragoso (1869 – 1945), chefe da Casa Militar da Presidência foi visitá-lo a mando do presidente da República, Venceslau Brás (O Paiz, 27 de janeiro de 1917, quinta coluna). E João Pedroso de Albuquerque, secretário do Dr. Cruz foi visitar o presidente, no Palácio do Rio Negro, em Petrópolis (A Época, 27 de janeiro de 1917, terceira coluna).

Em 31 de janeiro, devido a seu estado de saúde, Oswaldo Cruz solicitou uma licença da prefeitura de Petrópolis  ao governo do Rio de Janeiro. Foi deferida. Segundo consta, o Dr, Oswaldo Cruz fará uma viagem, a fim de iniciar um rigoroso tratamento de sua saúde profundamente abalada (O Paiz, 1º de fevereiro de 1917, quarta coluna).

fevereiro

O senador Leopoldo de Bulhões (1856 – 1928) assumiu a prefeitura de Petrópolis (O Paiz, 2 de fevereiro de 1917, quarta coluna).

Foi noticiada uma piora no estado de saúde de Oswaldo Cruz (O Paiz, 7 de fevereiro de 1917, sexta coluna). Outras notícias sobre a doença de Oswaldo Cruz foram publicadas (A Época, 7 de fevereiro de 1917, quinta coluna da primeira página e segunda coluna da página 4).

Aos 44 anos, Oswaldo Cruz faleceu de nefrite, em Petrópolis. O Brasil não pode aquilatar devidamente o infortúnio que é para a Nação, para a América e para a humanidade inteira a morte do grande sábio Oswaldo Cruz (O Paiz, 12 de fevereiro de 1917). Na edição de A Época, também do dia 12 de fevereiro, ele foi saudado como um facho de farol, que rasga a escuridão da noite. E fulgiu. Iluminou logo.

 

 

Segundo a Revista da Semana, tanto a guerra, que priva o corpo diplomático de associar-se às festas, como a morte recente do Dr. Oswaldo Cruz, prefeito de Petrópolis, contribuem para que decline a animação do carnaval (Revista da Semana, 17 de fevereiro de 1917).

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica