O pintor Rodolfo Amoedo (1857 – 1941) no Álbum de artistas, doado à Biblioteca Nacional por M. Nogueira da Silva

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Anônimo. Rodolpho Amoedo, pint. : (Auto-retrato) : [pintura], 190?. Acervo FBN

A Brasiliana Fotográfica destaca uma imagem do pintor Rodolfo Amoedo (1857 – 1941), nascido há exatos 160 anos, publicada no Álbum de artistas, do acervo da Fundação Biblioteca Nacional, uma das criadoras do portal. O álbum foi doado à Seção de Estampas da instituição, em 22 de abril de 1932, pelo escritor, jornalista, cronista literário e crítico de arte maranhense M. Nogueira da Silva (1880 – 1943), um dos retratados na obra (Gazeta de Notícias, 16 de novembro de 1943, terceira coluna). Nogueira da Silva foi o autor do livro Pequenos Estudos Sobre Arte, Pintura, Escultura (1926) e era considerado um dos melhores comentadores da obra do escritor Gonçalves Dias (Gazeta de Notícias, 28 de janeiro de 1940, terceira coluna). Ocupou a cadeira 23 da Academia Carioca de Letras e trabalhou nos jornais Gazeta de Notícias e A Notícia.

Estão disponíveis no acervo da Brasiliana Fotográfica imagens de Angelina Agostini (1888 – 1973)Antônio Parreiras (1860 -1937)Pedro Weingartner (1853 – 1929) e Menotti del Picchia (1892 – 1988), dentre outros registros do Álbum de artistas.

 

Na fotografia destacada abaixo, o doador do Álbum de artistas, M. Nogueira da Silva, encontra-se entre os artistas Dakir (1894 – 1967) e Antônio Parreiras (1860 – 1937).

 

 

 

Acessando o link para as fotografias do Álbum de Artistas disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Pequeno perfil de Rodolfo Amoedo

Rodolfo Amoedo, o poeta da tela (Diário de Notícias, 5 de dezembro de 1888, quinta coluna), nasceu em 11 de dezembro de 1857, na rua do Fogo, atual rua dos Andradas, no Rio de Janeiro, e viveu parte de sua infância na Bahia. Sua obra foi, desde o início, marcada por sua excelência técnica e, segundo o professor Flexa Ribeiro, por seu caráter poético (Illustração Brasileira, maio de 1935). Foi também professor e alguns de seus alunos na Escola Nacional de Belas Artes foram João Baptista da Costa (1865 – 1926), Eliseu Visconti (1866 – 1944) e Cândido Portinari (1903 – 1962). Amoedo criou painéis  para a Biblioteca Nacional, para o Conselho Municipal do Rio de Janeiro, para o Teatro Municipal e para o Supremo Tribunal Federal. Realizou trabalhos de decoração no Palácio Itamaraty e no Supremo Tribunal Militar, no Rio de Janeiro; no Museu do Ipiranga – atual Museu Paulista da Universidade de São Paulo, em São Paulo; e no Teatro José de Alencar, em Fortaleza. Faleceu, pobremente, em 31 de maio de 1941, no Rio de Janeiro (Jornal do Commercio, 1º de junho de 1941, primeira coluna).

O início

Viveu dos seis aos 11 anos na Bahia, onde estudou no Colégio Sebrão. Veio para o Rio de Janeiro, em 1868, onde frequentou os colégios Vitório e Pedro II. Estudou, em 1873, no Liceu de Artes e Ofícios, no Rio de Janeiro, onde foi aluno de  Victor Meirelles (1832 – 1903). No ano seguinte, foi para a Academia Imperial de Belas Artes (Aiba). Com o quadro O sacrifício de Abel, Rodolfo, identificado como o filho dos conhecidos artistas Luiz Carlos de Amoedo e D. Leolinda – eram atores -, venceu, em 1878, um concurso da Aiba (Gazeta de Notícias, 1º de novembro de 1878, quinta coluna, e O Monitor Campista, 6 de novembro de 1878, na última coluna). Seus concorrentes foram Henrique Bernardelli (1857 – 1936) e Antônio Firmino Monteiro (1855 -1888). Após o empate com Bernardelli, Amoedo venceu pelo voto de qualidade do diretor da Aiba, Antonio Nicolau Tolentino (1810 – 1888). O relatório da Repartição dos Negócios do Império de 1878 confirmou o prêmio e Amoedo viveu na Europa como pensionista da Aiba, entre 1879 e 1887. Também no relatório foi lamentado o fato do artista Bernardelli não ter também recebido como prêmio a viagem. Por sua vitória, Rodolfo foi capa e recebeu uma crítica muito favorável no periódico O Mequetrefe, de 5 de novembro de 1878.

 

 

Depois de uma passagem por Roma, Amoedo chegou em Paris em maio de 1879. Frequentou o ateliê de Gustave Boulanger (1824 – 1888) e de Charles-Edouard Lefébvre (1843 – 1917). Matriculou-se, em 1880, na Academia de Belas Artes de Paris, onde foi aluno dos pintores Alexandre Cabanel (1823 – 1889) e Pierre Puvis de Chavannes (1824 – 1898) (Gazeta de Notícias, 3 de agosto de 1879, sexta coluna e Gazeta de Notícias, 28 de dezembro de 1879, sexta coluna). Enquanto estava em Paris, foi publicado na revista A Illustração: Revista Universal, de 5 de agosto de 1884, o desenho Mercado das Flores, de autoria de Amoedo. Na mesma revista, em 5 de dezembro de 1884, foi publicada uma reprodução do quadro Indígenas do Amazonas.

Participação de Rodolfo Amoedo nos Salões de Belas Artes de Paris nos anos que passou na França

1882 – Exposição na Academia de Belas Artes, no Rio de Janeiro, do quadro Marabá, de Amoedo, que havia participado com sucesso no último Salão Anual de Belas Artes de Paris. A pintura foi inspirada pelos versos do poeta Gonçalves Dias (1823-1864) (Gazeta de Notícias, 28 de outubro de 1882, quarta coluna).

1883 – Amoedo e Vitor Meirelles participaram do Salão Anual de Belas Artes de Paris com os quadros O último dos tamoios e A Batalha Naval do Riachuelo, respectivamente. A crítica saudou Amoedo como um artista de futuro (Gazeta de Notícias, 8 de junho de 1883, na última coluna).

1884 – Exposição na Academia de Belas Artes de dois quadros de Amoedo, A Partida de Jacob, que havia participado do Salão Anual de Belas Artes de Paris, e o Estudo de mulher Recebeu uma crítica favorável de Lulu Sênior, pseudônimo de José Ferreira de Araújo (1848 – 1900), um dos fundadores e proprietários da Gazeta de Notícias (Gazeta de Notícias, 29 de agosto de 1884, na quinta coluna e Gazeta de Notícias, 4 de setembro de 1884, quarta coluna).

1887 - Amoedo participou do Salão Anual de Belas Artes de Paris com o quadro Narração de Filetas (Gazeta de Notícias, 27 de maio de 1887, terceira coluna).

De volta ao Brasil

Amoedo recebeu ajuda financeira do império brasileiro para suas despesas de regresso ao país (Gazeta de Notícias, 2 de junho de 1887, quarta coluna). Chegou ao Rio de Janeiro, vindo da Bahia, no paquete Ville de Pernambuco, em 23 de dezembro de 1887 (Jornal do Commercio, 24 de dezembro de 1887, quinta coluna). Em 27 de janeiro 1888, inaugurou sua primeira exposição individual no Rio de Janeiro, na Academia de Belas Artes, com a presença da princesa Isabel. Expôs Jesus em CafarnaumNarração de Filetas, dentre outras pinturas (Diário de Notícias, 29 de janeiro de 1888, primeira colunaGazeta de Notícias, 29 de janeiro de 1888, primeira coluna e Gazeta de Notícias, 3 de fevereiro de 1888, penúltima coluna). Houve uma polêmica em torno do tema do quadro Jesus em Cafarnaum (Jornal do Commercio, 5 de fevereiro de 1888, quinta coluna). A mostra foi um sucesso de público e crítica, e terminou em 10 de fevereiro de 1888.

Ainda em 1888, Amoedo foi agraciado como oficial da Ordem da Rosa (A Época, 9 de fevereiro de 1888, terceira coluna) e tornou-se professor honorário de pintura histórica na Aiba (Cidade do Rio, 1º de março de 1888, terceira coluna,Diário de Notícias, 2 de março de 1888, quarta coluna). Expôs o retrato que pintou do escritor e crítico de arte Luiz Gonzaga Duque Estrada (1863 – 1911), na casa Moncada (Diário de Notícias, 2 de agosto de 1888, última coluna). Uma curiosidade: nesse mesmo ano, inscreveu-se no Club de Esgrima e Tiro (Diário de Notícias, 23 de abril de 1888, segunda coluna).

Em 1889, pintou o estandarte da sociedade carnavalesca Tenentes do Diabo (Gazeta de Notícias, 24 de fevereiro de 1889, quinta coluna). Faria parte da comissão da Academia de Belas Artes que foi prestar solidariedade ao imperador Pedro II (1825 – 1891), contra o qual havia sido praticado um atentado, no dia 15 de julho de 1889, no saguão do Teatro Sant´Anna (Diário de Notícias, 18 de julho de 1889, quarta coluna). Amoedo foi nomeado interinamente professor de trabalhos gráficos do curso de ciências físicas e naturais da Escola Politécnica, no lugar de João Maximiano Mafra (1823 – 1908) (Cidade do Rio, 31 de dezembro de 1889, terceira coluna).

Pediu demissão da Academia, em 1890 (Diário de Notícias, 30 de maio de 1890, quinta coluna e Diário de Notícias, 4 de maio de 1890, segunda coluna). Ele, Rodolfo Bernardelli (1852 – 1931) e Décio Villares (1851 – 1931), dentre vários outros artistas, reuniram-se no Derby Club e assinaram uma petição pelo progresso das belas artes no Brasil que seria entregue ao ministro da Instrução Pública, Benjamin Constant (1836 – 1891) (Diário de Notícias, 22 de junho de 1890, segunda coluna, e Diário de Notícias, 26 de junho de 1890, sexta coluna). Com sua mãe, foi para a Europa, em 1890. Lá, casou-se no consulado brasileiro de Lisboa com a filha do cônsul de Luanda em Portugal. Em 1891, quando ainda estava na Europa, foi nomeado professor de pintura da Escola de Belas Artes – Enba (Diário de Notícias, 28 de setembro de 1890, última coluna, e Diário de Notícias, 22 de janeiro de 1891, sexta coluna). Foi o responsável, com Rodolfo Bernardelli (1852 – 1931) e Ernesto Gomes Moreira Maia (1889-1915), do projeto de reforma do ensino da Escola Nacional de Belas Artes. Elaborou o regimento das exposições gerais da instituição, iniciadas em 1893 (Revista Americana, agosto e setembro de 1917). Participou de inúmeras exposições gerais da Enba entre 1893 e 1930.

Em 1893, foi nomeado vice-presidente da Escola Nacional de Belas Artes (Diário de Notícias, 12 de fevereiro de 1893, terceira coluna). Participou e foi premiado na Exposição Internacional Colombiana de Chicago, que aconteceu entre 1º de maio e 30 de outubro de 1893 para celebrar os 400 anos da chegada do navegador genovês Cristóvão Colombo (1451 – 1506) ao Novo Mundo, em 1492. Outros artistas brasileiros laureados foram Almeida Junior (1850 – 1899), Eliseu Visconti (1866 – 1944), Henrique Bernardelli,  M. Broesse, Pedro Weingartner e Rodolfo Bernardelli, (A Republica: organ do Partido Republicano, 14 de outubro de 1893, quarta coluna).

Participou da Segunda Exposição Geral de Belas Artes, em 1895, com o quadro Más Notícias (Cidade do Rio, 2 de setembro de 1895, terceira coluna). Integrava a Comissão da Exposição Retrospectiva Brasileira das comemorações pelos 400 anos do descobrimento do Brasil (Cidade do Rio, 16 de agosto de 1898, segunda coluna).

O livro Flora de Maio, de Osório Duque Estrada (1870 – 1927), foi ilustrado com uma aquarela de Amoedo (Cidade do Rio, 30 de agosto de 1901, segunda coluna). Também ilustrou o Livro de Emma, de Alberto de Oliveira (1857 – 1937) (Cidade do Rio, 18 de setembro de 1901, terceira coluna).

Em 1903, em uma reunião de artistas, promovida por Amoedo, na Escola de Belas Artes, foi fundada a Associação de Aquarelistas e o fotógrafo e pintor português Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912) foi eleito para presidi-la. A primeira exposição da associação foi inaugurada em 1º de julho e Insley participou com oito marinhas (A Notícia, 24 e 25 de abril de 1903, na terceira coluna e Jornal do Brasil, 2 de julho de 1903, na oitava coluna).

A revista Kosmos de janeiro de 1905, publicou uma reportagem, assinada pelo escritor e crítico de arte Luiz Gonzaga Duque Estrada (1863 – 1911), sobre Rodolfo Amoedo com diversas ilustrações de sua obra e uma do próprio pintor.

 

 

Recebeu a medalha de ouro na Exposição Nacional de 1908, realizada entre agosto e novembro de 1908, no Rio de Janeiro, em comemoração ao primeiro centenário da Abertura dos Portos do Brasil. Seu ateliê ficava no segundo andar de um enorme prédio da avenida Sete de Setembro, separado da Catedral apenas por uma travessa, que é a rua do Carmo (Gazeta de Notícias, 5 de janeiro de 1908, primeira coluna)Ganhou a Medalha de Honra no salão da Escola Nacional de Belas Artes de 1917 pelo quadro Eros e a noite (imagem do centro, à direita) (Revista da Semana, 18 de agosto de 1917 e Revista Americana, agosto e setembro de 1917). Em 1918, afastado da Escola desde 1906, foi contratado pela instituição para ocupar a cadeira de pintura por 5 anos. Na ocasião, relatou o processo de criação de sua última pintura, Jesus descendo o monte das oliveiras (Gazeta de Notícias, 29 de janeiro de 1918, sexta coluna e Gazeta de Notícias, 30 de janeiro, primeira coluna). Foi, posteriormente, recontratado e tornado interino. Em 1928, foi nomeado professor temporário (O Paiz, 30 de setembro de 1928, sexta coluna, e O Paiz, 29 e 30 de outubro, última coluna) e, um ano depois, passou a ser professor catedrático honoris causa da Escola de Belas Artes. Fez parte do juri que elegeu Olga Bergamini de Sá, representante do Rio de Janeiro, a Miss Brasil de 1929. Os outros membros do juri eram o escritor Coelho Netto (1864 – 1934), o então professor de anatomia Raul Leitão da Cunha (1881 – 1947), o pintor Carlos Chambelland (1884 – 1950), o escultor Cunha e Mello (1879 – 1949) e o jornalista Manuel Paulo Filho (1890 – 1969), presidente da Associação Brasileira de Imprensa (Correio da Manhã, 14 de abril de 1929, oitava coluna, e Correio da Manhã, 17 de abril de 1929).

Os últimos anos

Aposentou-se em 1935 e foi tema de um artigo do professor catedrático da Escola Nacional de Belas Artes, Flexa Ribeiro, intitulado A Bíblia e a mitologia na pintura de Rodolfo Amoedo, publicado na Illustração Brasileira, maio de 1935:

‘…Com a aposentação que agora lhe foi conferida, não que ele a requeresse, mas atingido pela compulsória, priva-se a Escola Nacional de Belas Artes de um mestre que largamente honrou e dignificou a educação brasileira, e que é decerto o mais completo que aquele instituto já teve: pela paixão viva de sua arte, pela erudição na sua especialidade, pela férrea intransigência na atividade crítica e pelo exercício infatigável na nobre e generosa missão de dar aos outros tudo quanto sabe.’

Foi o entrevistado da reportagem Como vivem nossos artistas, da Revista da Semana, de 6 de julho de 1940. Na ocasião, vivia nas cercanias do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Poucos meses depois, foi inaugurado, por iniciativa da Sociedade Brasileira de Belas Artes, um busto em sua homenagem, na Praia do Russel (Illustração Brasileira, dezembro de 1940 e A Noite, 17 de novembro de 1940, quinta coluna).

No Correio da Manhã, de 6 de fevereiro de 1941, foi publicada uma matéria sobre a obra e a vida de Amoedo, intitulada O Crepúsculo de um Gênio. Rodolfo Amoedo faleceu, pobremente, em 31 de maio de 1941, na Fundação Gaffrée Guinle, no Rio de Janeiro (Correio da Manhã, 1º de junho de 1941, primeira coluna ). Poucos dias antes, o presidente da República, para amparar o velho artista, resolveu que o governo compraria seus quadros.  Após sua morte, parte de sua obra foi doada ao Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro.

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Leia também:

Cartas na pintura (13) – por Priscila Sacchetin, publicado no Correio IMS – ensaio sobre a pintura Más notícias, de Rodolfo Amoedo.

 

Más notícias, 1895, por Rodolfo Amoedo. Óleo sobre tela, 100 x 74 cm. Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro

Más notícias (1895), óleo sobre tela de Rodolfo Amoedo / Acervo do Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro

 

Fontes:

COSTA, Richard Santiago. Marabá e O Ultimo Tamoio na exposição geral de belas artes de 1884: crí- tica e recepção da obra de Rodolfo Amoedo. VIII EHA – Encontro de História da Arte, 2012.

GOMES, Adryana Diniz. Rodolfo Amoedo e a Exposição de 1888. 19&20, Rio de Janeiro, v. VIII, n. 2, jul/dez. 2013.

CAVALCANTI, Ana Maria Tavares. O Último Tamoyo e o ultimo romântico. Rio de Janeiro: Revista de História, 07/11/2007.

Enciclopédia Itaú Cultural

GOMES, Adryana Diniz. Rodolfo Amoedo e a Exposição de 1888. 19&20, Rio de Janeiro, v. VIII, n. 2, jul/dez. 2013.

GONZAGA, Duque. A Arte Brasileira / Luiz Gonzaga Duque Estrada; introdução e notas de Tadeu Chiarelli. Campinas: Mercado das Letras, 1995.

JORGE, Marcelo Gonczarowska. As Pinturas Indianistas de Rodolfo Amoedo. 19&20, Rio de Janeiro, v. V, n° 2, abril 2008.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

LEVY, Carlos Roberto Maciel. Exposições Gerais da Academia Imperial e da Escola Nacional de Belas Artes. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1990.

MIGLIACCIO, Luciano. Rodolfo Amoedo. O mestre deveríamos acrescentar. In: 30 Mestres da pintura no Brasil: 30 anos Credicard. São Paulo: MASP, 2001.

PONTUAL, Roberto. Dicionário das artes plásticas no Brasil. Texto Mário Barata, Lourival Gomes Machado, Carlos Cavalcanti et al. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969.

RUBENS, Carlos. Pequena história das artes plásticas no Brasil. São Paulo: Editora Nacional, 1941

O fotógrafo português José Ferreira Guimarães (1841 – 30/01/1924)

 

No Arquivo Nacional, o estúdio de José Ferreira Guimarães

Claudia B. Heynemann e Maria do Carmo Rainho*

 

Uma pequena e significativa série de retratos originados no prestigiado estúdio do fotógrafo José Ferreira Guimarães, instalado na rua dos Ourives ou no endereço da rua Gonçalves Dias, integra a coleção Fotografias Avulsas e o fundo Afonso Pena no Arquivo Nacional. O conjunto, resultado acidental da trajetória do ateliê até a incorporação em um arquivo público, é de todo modo significativo em face de outras séries de fotógrafos oitocentistas com número inferior de exemplares no acervo. Significativa também é a galeria de retratados em que figuram juristas, políticos do Império, alguns identificados na década de 1880, outros que passam aos quadros republicanos, e uma representante feminina, ligada ao declínio monárquico e ao exílio da família imperial. Nesse conjunto de imagens, não figuram crianças, tampouco casais. Os retratos etnográficos, como aqueles produzidos por Marc Ferrez, Alberto Henschel e Cristiano Junior, não eram foco de atenção de Guimarães.

 

Acessando o link para as fotografias de autoria de José Ferreira Guimarães que pertencem ao acervo do Arquivo Nacional e estão disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Em formato carte de visite, carte cabinet, as imagens deslizam entre os planos da vida pública e da esfera privada, transferidas de sua singularidade no estúdio do Guimarães até sua organização nos arquivos. Entre as funções cumpridas por esses artefatos, a representação social e os laços pessoais confundem-se em dedicatórias e cartas. Assim o retrato de Maria Amanda de Paranaguá Dória, a baronesa de Loreto, é um indexador do lugar da fotografia no âmbito da vida familiar, tal como descrito no estudo de caso desenvolvido pelos historiadores Ana Maria Mauad e Itan Cruz, no qual as cartas e os retratos trocados entre a dama de companhia da princesa Isabel e a imperatriz Tereza Cristina nos permitem identificar a presença da fotografia nas relações sentimentais do século XIX, sobretudo com o crescimento da produção da modalidade carte de visite, a partir dos anos de 1870, na corte do Rio de Janeiro. No período em que as cartas foram trocadas, fotógrafos estabelecidos nas principais capitais do país eram responsáveis por uma produção significativa de retratos em estúdio voltados para a frequência da aristocracia imperial. [1]

 

 

O retrato de Maria Amanda, que se encontra no artigo citado, pertence à coleção da Fundação Joaquim Nabuco e foi realizado no estúdio de José Ferreira Guimarães no Rio de Janeiro, muito provavelmente na mesma sessão em que o exemplar ora apresentado; diferem pelo ângulo, aqui com a cabeça voltada para o lado, no outro, com o olhar dirigido às lentes, ambos nas características molduras em formato oval e com a mesma roupa e penteado.[2] Formava-se de modo mais ou menos evidente uma trama que passava por esse álbum de família estendido, caso de Domingos Farani, outro retratado por Guimarães, que chegou ao Brasil acompanhando a mudança da futura imperatriz, a napolitana d. Teresa Cristina. Joalheiro da Casa Imperial, ele estava entre os amigos mais próximos dos Ribeiro Avelar, viscondessa e visconde de Ubá, na corte, como evidencia a troca de cartas e retratos que eram parte constitutiva dos vínculos mantidos entre esses atores. Como observa a historiadora Mariana Muaze somente [fotos das] crianças pertencentes ao grupo familiar ou filhos de amigos muitíssimos próximos como Domingos Farani, por exemplo, foram colecionadas pela viscondessa.[3] Farani, como era comum no meio, se fez retratar também no endereço de Guimarães à rua Gonçalves Dias em um busto oval que excluía o cenário do estúdio, concentrando-se na fisionomia e expressão dos indivíduos e de insígnias, como a ostentada na lapela, provavelmente relacionada ao título de comendador, e mesmo o alfinete, que ostentava o ofício de origem.

 

 

No ateliê de Guimarães entraram obrigatoriamente bacharéis e políticos do Império e da República, personagens paradigmáticos da passagem do século XIX ao XX, como Saldanha Marinho, pernambucano formado na Faculdade de Direito de Olinda em 1836 e que, entre muitos cargos, foi deputado federal pelo Rio de Janeiro, presidente de província de Minas Gerais e de São Paulo, um dos fundadores do Clube Republicano no Rio de Janeiro, signatário do Manifesto Republicano, redator de A República, firmando-se como um dos protagonistas dos momentos iniciais do novo regime.[4] Saldanha Marinho, fotografado com barba exuberante, não aparada, seguia a tendência dos homens da segunda metade do oitocentos quando o rosto barbeado era visto com suspeição, denotando pouca seriedade. Conforme Gilda de Mello e Souza, o fim do século XVII e o século XVIII talvez por causa das perucas, foram tempos de cara raspada, mas, no princípio do século XIX os bigodes e suíças se espalham pelos exércitos de Napoleão, e já em 1810 Tkackeray nos apresenta aos sensacionais moustachios de Jos Sedley. A moda, durante algum tempo privilégio dos militares e símbolo de ferocidade, difunde-se rapidamente, e em breve o homem se entrega a uma desenfreada decoração capilar.[5]

 

 

Roupas escuras, barba e bigode também compuseram o retrato de Carlos Augusto de Carvalho: formado na faculdade de Direito de São Paulo em 1873, responsável, como presidente de província no Paraná, pela eclosão da Revolta do Vintém, Carvalho iria se destacar como ministro das Relações Exteriores nos anos 1890 reivindicando a ilha de Trindade aos ingleses, contando então com o apoio de Raul Pompeia e de Joaquim Portela, que, na época, eram diretores da Biblioteca Nacional e do Arquivo Público, provendo-o de informações. Em 1904 volta à cena, arbitrando o conflito entre o Brasil e a Bolívia.[6] Nesse retrato, Carlos de Carvalho não se circunscreve ao oval delimitado: está cercado pela névoa indefinida que é também uma das marcas do período, a volta de um tom crepuscular ao qual se referiu Walter Benjamin, em um artifício utilizado para reviver a aura dos primeiros tempos da fotografia, partilhado nos ateliês fotográficos das grandes capitais, superando distâncias de diferentes ordens.

 

 

Pelo estúdio fotográfico de Guimarães também passaram militares como Henrique Pedro Carlos de Beaurepaire Rohan, o visconde de Beaurepaire, entre outros não identificados, todos com suas fardas e condecorações. Em fotos de busto ou corpo inteiro, nas poses rígidas, como se espera desses retratados, evidencia-se o desejo de registrar para a posteridade o lugar social e, sobretudo, demarcar hierarquias. A fotografia de Beaurepaire, gentil-homem da Imperial Câmara, grã-cruz da Imperial Ordem de Avis, dignitário da Imperial Ordem da Rosa e comendador da Imperial Ordem de Cristo, uniformizado, portando algumas dessas condecorações, como a Imperial Ordem da Rosa e a Ordem de Cristo, nos anos 1890, é exemplar também de alguém que, sob o regime republicano, deixava clara a sua vinculação com o governo imperial.

 

 

 

Ana Mauad, observa que o sucesso do retrato carte-de-visite deve-se justamente à capacidade de adaptar o cliente a moldes preestabelecidos e de possível escolha através de um catálogo de objetos e situações; o estúdio do fotógrafo passa a ser um depósito de complementos escolhidos para caracterizar diferentes papéis sociais que se quer fabricar. […] O próprio cliente se converteu, ele mesmo, num acessório de estúdio, suas poses obedeciam a padrões estabelecidos e já institucionalizados de acordo com a sua posição social.[7] Nas imagens de busto, como a de Beaurapaire ou no “retrato de homem fardado, dos anos 1880, o fotografado posiciona-se mais próximo da câmera; as expressões faciais ganham destaque, o tronco elevado revela mais claramente elementos como insígnias e condecorações. Já nos retratos de corpo inteiro, como a intitulada “fotografia homem fardado”, além das dragonas e das condecorações, da exibição do conjunto do uniforme, da pose altiva, alguns elementos chamam a atenção como a barretina com penacho apoiada em uma banqueta e a espada e seu fiador em uma das mãos. Os elementos cenográficos, comuns aos retratos de meio corpo ou corpo inteiro são acessórios; não roubam a centralidade do retratado.

Outro registro interessante produzido por Guimarães é a de Lúcio de Mendonça, em 1896. Advogado, jornalista, magistrado, escritor, idealizador da Academia Brasileira de Letras, seu retrato, a começar pelas roupas e pose, denota despojamento e uma despreocupação em perenizar a imagem de homem sofisticado. A ausência de elementos decorativos, adornos, a simplicidade mesma do paletó escuro e camisa branca estão sob medida para um republicano, um burguês que, diferente da aristocracia num passado recente, não necessitava fazer da moda um elemento de distinção. E a dedicatória à Ferreira do Araújo, fundador da Gazeta de Notícias, e por quem Lúcio possuía grande admiração, evidencia a inscrição do fotografado no círculo dos intelectuais da segunda metade do século XIX.

 

 

Além das dedicatórias, algumas das imagens aqui apresentadas, trazem, no verso, dados referentes ao estúdio de Guimarães, sua participação em exposições, seus títulos – Fotógrafo da Casa Imperial, Cavaleiro da Ordem da Rosa – seus prêmios. Como era comum a fotógrafos da sua envergadura, essas informações, ao mesmo tempo em que o distinguia dos concorrentes, o aproximava da sua clientela, homens e mulheres da boa sociedade que aumentavam seu capital simbólico justamente por se darem a ver através das suas lentes.

 

[1] MAUAD, Ana Maria, RAMOS, Itan Cruz. Fotografias de família e os itinerários da intimidade na História. Acervo, Rio de Janeiro, v. 30, n. 1, p. 155-178, jan./jun. 2017, p. 159.

[2] Outro retrato da baronesa de Loreto produzido por Insley Pacheco e igualmente parte da coleção do Arquivo Nacional, pode ser visto neste portal. Disponível em http://brasilianafotografica.bn.br/brasiliana/handle/bras/5027

[3] MUAZE, Mariana de Aguiar F. O império do retrato: família, riqueza e representação social no Brasil oitocentista (1840-1889). Tese de doutorado. Programa de Pós graduação em História da Universidade Federal Fluminensse, 2006, p. 296.

[4] Cf. Alzira Alves de ABREU et al (coords.). Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro – Pós-1930. Rio de Janeiro: CPDOC, 2010. In: http://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/MARINHO,%20Saldanha.pdf Acesso em: 20/11/2017.

[5] Ver SOUZA, Gilda de Mello e. O espírito das roupas: a moda no século XIX, São Paulo: Cia. das Letras, 1087, p. 75.

[6] Cf. Alzira Alves de ABREU et al (coords.). Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro – Pós-1930. Rio de Janeiro: CPDOC, 2010. In: http://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/CARVALHO,%20Carlos%20Augusto%20de.pdf Acesso em: 20/11/2017

[7] MAUAD, Ana. Poses e flagrantes: ensaios sobre história e fotografias. Rio de Janeiro: EDUFF, 2008, p. 129-130.

 

*Cláudia Heynemann – Doutora em História | Pesquisadora do Arquivo Nacional

*Maria do Carmo Rainho – Doutora em História | Pesquisadora do Arquivo Nacional

 

 

Pequeno perfil do fotógrafo português José Ferreira Guimarães (1841 – 30/01/1924)

 

 

Um dos fotógrafos preferidos da corte brasileira, amigo do imperador d. Pedro II (1825 – 1891), o português José Ferreira Guimarães (1841 – 1924), nascido em Guimarães, chegou ao Brasil com 11 anos, a bordo de um veleiro carregado de repolhos. Foi lavador de pratos, servente em tascas na beira do porto e vendedor de armarinhos. Começou sua carreira de fotógrafo associando-se a Eduardo Isidoro Van Nyvel, no Rio de Janeiro, em 1862. Quatro anos depois, passou a anunciar-se sozinho no mesmo ateliê na Rua dos Ourives, 40. Em 13 de setembro de 1866, recebeu o título de Fotógrafo da Casa Imperial. Fez, assim como o fotógrafo Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912), fortuna com seus retratos em foto-pintura – retrato ampliado pintado a óleo ou guache ou pastel por um pintor. Guimarães ia frequentemente à Europa e aos Estados Unidos para comprar equipamentos e se atualizar com o que havia de mais moderno no campo da fotografia. Além disso, inventou o Relâmpago Guimarães.

José Ferreira Guimarães foi comendador da Ordem de Cristo e da Ordem da Rosa. Foi premiado com a medalha de prata na Exposição Geral de Belas Artes da Academia Imperial de 1865, 1866 e 1867; e na Exposição Nacional de 1866 e de 1873.  Após uma passagem pela rua do Ourives, 38, inaugurou, em 1886, um novo ateliê que, segundo Gilberto Ferrez, era um verdadeiro palácio da fotografia. Foi a maior casa fotográfica brasileira do século XIX e ficava na rua Gonçalves Dias, nº 2, esquina com a rua da Assembleia.

Passava temporadas na Europa mas, foi durante a década de 1910, que, provavelmente, transferiu-se definitivamente para a França, onde morou em um palacete nos arredores de Paris, na rue de La Paix, 21, em Bois Colombe. A casa enorme, apelidada pela esposa de Guimarães, Virginia Prata Guimarães, de Little Castle, foi construída em um estilo acastelado, que tornou-se moda entre os paulistas endinheirados pela cafeicultura, nas primeiras décadas do século XX.

Acessando o link para as fotografias de autoria de José Ferreira Guimarães disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Nas palavras do fotógrafo Benedito Junqueira Duarte (1910 – 1995), seu discípulo e sobrinho neto de sua esposa, José Ferreira Guimarães era um tipo humano raro e versátil, além de ter uma invejável agilidade mental e ser de uma honestidade a toda prova. Era muito bem relacionado e foi amigo íntimo do fotógrafo francês Félix Nadal (1820 – 1910) e também do peruano Léopold-Émile Reutlinger (1863 – 1937). Segundo Junqueira Duarte, Guimarães era vaidoso e tinha longas barbas branquíssimas, sempre impecavelmente aparadas, era ereto e elegante, apesar da idade, e tinha um riso de tolerância e compreensão a esconder-se por detrás de fartos bigodes.

Sobre a obra de Guimarães e a invenção do Relâmpago Guimarães, Junqueira Duarte escreveu:

…Pela qualidade e refinamento de seu trabalho e rigor profissional que manipulava sua obra, do retoque a bico de lápis à apresentação formal de seus retratos, da viragem a ouro à técnica do esmalte a fogo dos medalhões que produzia – pareciam pequenos camafeus colorido a mão – desfrutou de grande prestígio na aristocracia brasileira e fez uma vultosa fortuna…Com José Ferreira Guimarães, desaparecia um homem de inteligência privilegiada, de espírito criador incomum, a quem deve a fotografia de todos os povos uma de suas grandes invenções – o engenho produtor de luz artificial em ambiente fechado, a partir da combustão instantânea do magnésio, própria para impressionar, em fração mínima de segundo, uma chapa fotográfica. A esse aparelho que encenava em si a luz do sol, deu ele o nome sugestivo e profético de Relâmpago Guimarães, apresentado com grande êxito na famosa Exposição Universal de Paris, em 1900. Muitos anos mais tarde, meio que por volta de 1935 ou 36, aperfeiçoado, miniaturizado e industrializado pelos norte-americanos, o engenho de José Ferreira Guimarães, surgiram no comércio fotográfico as lâmpadas (ou bulbos) em todo o mundo e em breve conhecidas sob o nome de Flash, ou seja, Relâmpago.

Não creio que algum historiador da fotografia, da arte e de sua técnica, tenha mencionado em seus livros, como legítimo inventor do processo flash o nome de José Ferreira Guimarães, o pequeno emigrante português que tronou grande sua arte, criador original da enorme gaiola de vidro, munido de grosso tubo exaustor para a saída da fumaça de magnésio e de um ventilador aspirante, destinado a apressar a evacuação dos pesados rolos de fumo produzidos pela incandescência da mistura química geradora de fortíssimo lampejo azulado…

…Que de benefícios trouxe a engenhosa invenção de José Ferreira Guimarães para a Humanidade, no estudo minucioso da Dinâmica dos corpos, na ilustração de variadas pesquisas científicas realizadas com a fotografia feita em curtíssima exposição, como a documentação endoscópica, ou a do fundo do olho, para apenas citar esses dois exemplos, colhidos por entre a incessante atividade dos documentaristas na Medicina e a Cirurgia!…

 

Cronologia de José Ferreira Guimarães

 

1841 – Nascimento de José Ferreira Guimarães, em Guimarães, na região do Minho, em Portugal.

c. 1852 – Aos 11 anos, emigrou sozinho para o Brasil, a bordo de um veleiro carregado de repolhos.

1860 – Radicou-se no Rio de Janeiro.

1862 – Provavelmente, nesse ano iniciou sua trajetória como fotógrafo, associando-se a Eduardo Isidoro Van Nyvel, na rua do Ouvidor, nº 75. Anunciaram que em seu estabelecimento fotográfico, aberto há poucos dias, executava-se retratos pelos sistemas do ambrótipo e cartões de visita (Jornal do Commercio, 9 de setembro de 1862).

1863 – Publicação de uma propaganda do estabelecimento fotográfico de Van Nyvel e Guimarães no qual anunciaram ter recebido de Alexandre Ken, o primeiro fotógrafo do globo, o processo de cartões de visita, além de uma máquina…para fazer oito retratos em um só vidro e outra que com um único tubo tira quatro posições diferentes em um vidro (Jornal do Commercio, 10 de junho de 1863).

 

 

1864 - Van Nyvel e Guimarães mudaram-se para a rua do Ourives, nº 40 (Jornal do Commercio, 22 de março de 1864, primeira coluna).

1865 – Guimarães ganhou a medalha de prata na Exposição Geral de Belas Artes da Academia Imperial.

1866 – Passou a anunciar-se sozinho no mesmo endereço, rua do Ourives, nº 40. Em outubro de 1866, Van Nyvel abriu um novo estabelecimento na Rua dos Ouvires, 65 (Jornal do Commercio, 2 de outubro de 1866, terceira coluna).

Foi agraciado por d. Pedro II com o título de fotógrafo da Casa Imperial, em 13 de setembro.

Ganhou a medalha de prata na Exposição Geral de Belas Artes da Academia Imperial.

Ganhou a medalha de prata na 2ª Exposição Nacional. Sobre ele, o pintor Victor Meirelles, representando o júri do quarto grupo, onde se incluía a fotografia, escreveu no relatório do evento:

‘1ª Medalha de Prata – José Ferreira Guimarães (1841 – 1924):

Cabe a honra de ser classificado em primeiro lugar, obtendo a medalha de prata, o sr. J. F. Guimarães, estabelecido na rua dos Ourives, nº 40, por seus retratos de cartões de visita, e chapas de diferentes dimensões. Os trabalhos do Sr. Guimarães sobressaem-se pela fineza, nitidez e perfeição dos objetos representados e também pelo vigor dos tons que são bem calculados e de uma cor agradável, posições escolhidas com gosto e naturalidade.’

1867 - Produziu um retrato em tamanho natural no formato de 2 x 1,35 m, a maior fotografia realizada no Brasil até então.

Ganhou a medalha de prata na Exposição Geral de Belas Artes da Academia Imperial.

Informava ter partido para a Europa (Jornal do Commercio, 25 de julho de 1867, sexta coluna).

De volta de Paris, anunciou uma exposição de retratos sobre placas de porcelana na casa do Sr. Bernasconi & Moncada (Jornal do Commercio, 15 de novembro de 1867).

 

 

1869 – Anunciou ter regressado da Europa, aonde havia ido pela terceira vez, e também a abertura de seu novo estabelecimento na rua do Ourives, nº 38, segundo andar (Jornal do Commercio, 10 de outubro de 1869, página 3, Segunda Folha).  

1872 – Fotografou a pintura Combate Naval do Riachuelo, de Victor Meirelles (1832 – 1903), empregando seu sistema de ampliação para fazer reproduções de obras de arte de grande formato. Produziu a fotografia em placa de porcelana pelo processo inalterável…Para execução dessa fotografia serviu-se o habilísssimo fotógrafo José Ferreira Guimarães de placa denominada pelos fotógrafos “negativo”…Foram tirados e distribuídos alguns “positivos” sobre papel albuminado…(Relatório da Repartição dos Negócios do Império, 1882).

1873 – Ganhou a medalha de prata na 3ª Exposição Nacional.

Teria voltado, nesse ano, a sua cidade natal, Guimarães.

1875 - Retratou Marie Caroline Lefebvre (c. 1849 – 1914), mulher do fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923).

Década de 1880 - Durante esta década, o fotógrafo Valério Vieira (1862 – 1941) trabalhou como assistente no estúdio do fotógrafo José Ferreira Guimarães.

1882 - No Almanack Laemmert, foi veiculado um anúncio de Guimarães: Retratos vitrificados fixados a fogo, como as porcelanas de Sèvres. Perpétua duração, constituindo por isso uma verdadeira e imorredoura relíquia de família (Almanaque Laemmert, 1882).

Segundo relatório do diretor da Academia das Belas Artes, a instituição comprou a fotografia produzida por Guimarães da primeira versão da pintura Combate Naval do Riachuelo, de Victor Meirelles, perdida durante a Exposição Internacional da Filadéfia, em 1876 (Relatório da Repartição dos Negócios do Império, 1882).

Segundo consta em um de seus cartões, foi premiado com a medalha de ouro na Exposição Continental de Buenos Aires, inaugurada em 15 de março de 1882 – a seção brasileira foi inaugurada no dia 1º de abril, ocupando uma área de 600 m2 (Diário de Pernambuco, 10 de julho de 1882, terceira coluna).

1884 – Recebeu o título de Comendador da Ordem da Rosa.

Guimarães anunciou que Waldemar Lange executava fotografias de grupos de família pelo sistema americano de John Carbutt, da Filadélfia (Jornal do Commercio, 17 de julho de 1884, na página 8). Segundo Boris Kossoy, Lange havia sido associado na Bahia ao fotógrafo Guilherme Gaensly (1843 – 1928). Na época, seu ateliê ficava na rua dos Ourives, nº 38.

 

 

Participou da Exposição da Academia de Belas Artes com esmaltes, platinotipos e algumas fotografias instantâneas, obtidas pelo processo denominado gelatino bromureto de prata  (Jornal do Commercio, 26 de setembro de 1884, segunda coluna).

A fotografia produzida por Guimarães da turma do sexto ano dos doutorandos de medicina foi exposta na casa de Narciso & Arthur Napoleão. É um trabalho, como todos os deste artista, muito notável (Diario Portuguez, 20 de dezembro de 1884, segunda coluna).

1885 – Foi encomendado à casa Guimarães um retrato a óleo de Francisco de Assis Mascarenhas. Foi realizado por Victor Meirelles e exposto na galeria Moncada. Os dois artistas foram referidos, na nota do jornal, como comendadores (Jornal do Commercio, 2 de agosto de 1885, sexta coluna).

 

 

1886 – A Casa Guimarães, na rua do Ourives, nº 38, foi substituída pela Photographia Americana, passando a pertencer a Roltgen, antigo retocador da Casa Guimarães, e do sr. Silva, antigo sócio-gerente da fotografia Carneiro & Tavares (O Paiz, 31 de julho de 1886, primeira coluna).

 

 

Guimarães inaugurou um verdadeiro palácio da fotografia, a maior casa fotográfica brasileira do século XIX, na rua Gonçalves Dias, nº 2, esquina com a rua da Assembleia. A casa, de 4 andares, foi durante algum tempo o mais alto prédio do Rio de Janeiro e foi construída expressamente para sediar o estabelecimento fotográfico de Guimarães. Os três primeiros pavimentos abrigavam as diversas seções de fotografia e o último servia de moradia do fotógrafo (Revista do Iphan, 1946, p. 199 e O Rio de Janeiro, 8 de agosto de 1886, quarta coluna).

 

 

Uma menina se acidentou quando passou em frente à casa fotográfica de Guimarães e uma tábua que servia de andaime caiu sobre sua cabeça. O fotógrafo prestou assistência à acidentada e responsabilizou-se pelo ocorrido (O Paiz, 18 de agosto de 1886, na última coluna).

1877 – Guimarães participou com fotografias das obras mais importantes da estrada de D. Pedro II da Exposição Internacional de Caminhos de Ferro no Bois de Vincennes, em Paris, em comemoração ao cinquentenário das ferrovias na França. Essas fotografias e também outras, de autoria de Marc Ferrez (1843 – 1923), foram expostas no Liceu de Artes e Ofícios (O Paiz, 18 de julho de 1887, terceira coluna).

Na casa Chameaux, exposição de uma pintura a óleo, de autoria do artista francês Battu, realizado com muita suavidade a partir de uma fotografia produzida pelo distinto fotógrafo Guimarães de uma menina vestida à moda das camponesas do norte de Portugal (Jornal do Commercio, 26 de julho de 1887, sétima coluna).

1888 – No salão do jornal O Paiz, exposição de um retrato do apregoado atirador Bento Moraes, produzido por Guimarães. Moraes era a primeira figura de uma companhia de variedades que se apresentaria no Polytheama (O Paiz, 13 de março de 1888, sétima coluna).

A Casa Guimarães, na rua de Gonçalves Dias, canto da da Assembleia foi enfeitada para participar dos festejos da cidade pelo retorno do imperador Pedro II (1825 – 1891) e da imperatriz Teresa Cristina (1822 – 1889), que ficaram ausentes do Brasil por quase um ano, na terceira viagem do soberano à Europa. Haviam partido em 30 de junho de 1887 (Diário de Notícias, 23 de agosto de 1888, terceira coluna).

 

 

1890 – Antes de cometer suicídio, o português e guarda-livros José Custódio de Oliveira enviou uma carta a Guimarães (Diário de Notícias, 22 de jumho de 1890, segunda coluna).

1891 - A partir de janeiro, José Ferreira Guimarães estaria até o fim da estação, às segundas e terças-feiras, em seu ateliê de Petrópolis (Jornal do Commercio, 11 de janeiro de 1891).

1894 – A Photographia Guimarães funcionava em Petrópolis, aos domingos, segundas e terças-feiras, em um chalé ao lado do Hotel Orleans (Gazeta de Petrópolis, 7 de março de 1894, terceira coluna).

Estava exposto na casa Palais Royal um quadro com os retratos dos doutorandos de 1894, produzido pela Photographia Guimarães (Gazeta de Notícias, 7 de novembro de 1894, na penúltima coluna).

Alguns membros da comissão da República Oriental do Uruguai, em visita ao Brasil, iriam ser fotografados na Photographia Guimarães (A Notícia, 8 e 9 de novembro de 1894, terceira coluna).

1895 – Na primeira página do Jornal do Brasil, era noticiado que a Photographia Guimarães & C continuava a merecer o favor público pela excelência de seus trabalhos artísticos (Jornal do Brasil, 10 de março de 1895, quarta coluna).

 

 

1896 – Na edição 36 de A Bruxa, foi publicada uma fotografia de F. Guimarães, conhecido proprietário da Photographia Guimarães (Commercio de São Paulo, 13 de outubro de 1896, última coluna). A Bruxa foi uma revista dirigida pelo poeta Olavo Bilac  (1865-1918) e pelo ilustrador português Julião Machado (1863 – 1930), entre 1896 e 1897.

Foi noticiado que a Photographia Guimarães produziria fotografias das salas do Club dos Repórteres com convidados por um processo novo de notável sucesso na arte fotográfica cuja primeira experiência foi realizada ontem (A Notícia, 24 e 25 de outubro de 1896, segunda coluna).

Estava exposto na vitrine da casa Colussi, na rua do Ouvidor, uma fotografia do presidente Prudente de Morais (1841 – 1902), produzida pela Photographia Guimarães. De acordo com a notícia, poderia se dizer que a obra é uma nova descoberta da photographia pois que o retrato…é feito em esmalte photográphico vitrificado a fogo, tão inalterável como as pinturas da porcelana de Sèvres e de Limoges… (Jornal do Brasil, 8 de novembro de 1896, quinta coluna).

1897 – O fotógrafo Alfredo Musso, irmão de Luiz Musso, trabalhava na Photographia Guimarães (Jornal do Commercio, 1º de fevereiro de 1897, penúltima coluna).

Luis Musso, sócio da Photographia Guimarães, levou de presente à redação do Jornal do Brasil uma fotografia em platinotipia de um grupo de jornalistas que haviam assistido à inauguração da luz artificial para obter fotografias instantâneas (Jornal do Brasil, 12 de março de 1897, segunda coluna). Luiz Musso havia sido o primeiro operador da Companhia Photographica Brazileira, dirigida pelo fotógrafo Juan Gutierrez (c. 1860 – 1897), desde sua fundação, em 1892, até 31 de março de 1894 (Jornal do Commercio, 13 de fevereiro de 1898, na última coluna). Em 1905, os irmãos Musso estavam estabelecidos na rua Uruguayana sob a razão social L. Musso & C, que também se anunciava como Photographia Brazileira.

Foi encomendada à Photographia Guimarães um retrato do engenheiro e primeiro diretor da Estrada de Ferro Pedro II, Christiano Ottoni (1811 – 1896), que seria ofertado à Escola Naval por seu filho, o industrial Julio Ottoni (Jornal do Brasil, 17 de setembro, sétima coluna).

1898 – Herrero Vargas, empregado da Photographia Guimarães, retratou um grupo da Estudantina do Cassino Espanhol em excursão a Santa Teresa (Gazeta de Notícias, 28 de fevereiro de 1898, primeira coluna).

O presidente da República, Prudente de Morais (1841 – 1902), presenteou o redator-chefe da Cidade do Rio, José do Patrocínio (1854 – 1905), fotografias de sua família produzidas pela Photographia Guimarães (Cidade do Rio, 10 de novembro de 1898, terceira coluna).

Na Casa Merino, estavam expostas três fotografias em platinotipia produzidas pela Photographia Guimarães: do presidente e do vice-presidente da República, Campos Salles (1841 – 1913) e Rosa e Silva (1857 – 1929), respectivamente, e do novo ministério do governo (Jornal do Commercio, 15 de novembro de 1898, sexta coluna).

1899 – O Sr. Musso, da Photografia Guimarães, registraria o cruzador italiano Fieramosca (A Notícia, 5 e 6 de agosto de 1899, segunda coluna).

Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912), Marc Ferrez (1843 – 1923) e José Ferreira Guimarães foram nomeados para formar a comissão de propaganda da classe de fotografia da Exposição do Quarto Centenário do Brasil, em 1900, promovida pela Sociedade Propagadora das Belas Artes (A Imprensa, 31 de outubro de 1899, quarta coluna).

1900 – Horacio Garcia Vidal trabalhava na Photographia Guimarães (Cidade do Rio, 24 de janeiro de 1900, na última coluna).

Publicada na Revista da Semana, de 22 de julho de 1900, um instantâneo do Largo da Carioca, tirado do segundo andar da afamada Photographia Guimarães.

Apresentou na Exposição Universal de Paris o Relâmpago Guimarães, uma espécie de flash que permitia tirar fotografias em ambientes obscurecidos ou no período da noite.

A luz produzida por ele é exatamente a necessária para substituir a claridade do dia, suprindo-a em todo o seu vigor, mas permitindo respeitar as nuances do modelo, por mais delicado que seja.

O acolhimento que foi feito na Europa à invenção de nosso compatriota, proprietário da afamada Photographia Guimarães, deve ser muito lisonjeiro para os fotógrafos nacionais‘ (Revista da Semana, 12 de agosto de 1900).

 

 

1901 – Guimarães era sócio de Luis Musso e Julio D. Roltgen (Almanak Laemmert, 1901).

Julio Roltgen, da Photographia Guimarães, foi o autor do registro do “batismo da Salamina”, festa realizada no club de Regatas Botafogo. A imagem foi publicada na revista quinzenal Brasil Náutico, número 4, e foi considerada a nota elegante da edição (A Notícia, 8 e 9 de maio de 1901, terceira coluna).

Um retrato do senador do Império, Cândido Mendes de Almeida (1818 – 1881), executado pela Photographia Guimarães e emoldurado pela fábrica Martins Seabra & C., foi ofertado ao Jornal do Brasil (Jornal do Brasil, 31 de maio de 1901, sétima coluna).

Foi noticiado que o Relâmpago Guimarães havia obtido a medalha de 1ª classe na Exposição Universal de Paris de 1900. A Photographia Guimarães foi referida como admirável estabelecimento da rua Gonçalves Dias, esquina do largo da Carioca e, devido ao Relâmpago Guimarães estava executando trabalhos de inigualável perfeição. Os retratos produzidos na Casa Guimarães eram verdadeiras maravilhas de arte pela naturalidade da pose e pela incomparável nitidez (Gazeta de Notícias, 4 de julho de 1901, sétima coluna).

Por encomenda do presidente da República, Campos Sales (1841 – 1913), a Photographia Guimarães produziu um quadro medindo 1 metro por 80 centímetros com as fotografias do governo provisório da República organizado em 15 de novembro de 1889. O quadro ficaria no salão de despachos do Palácio do Catete (A Notícia, 26 e 27 de novembro de 1901, segunda coluna).

1902 – Na Igreja da Candelária, foi rezada uma missa pela turma de guardas-marinha de 1879. Nove deles estiveram presentes à cerimônia e depois foram retratados na Photographia Guimarães (Gazeta de Notícias, 9 de março de 1902, sétima coluna).

Luís Musso estava na direção da Photographia Guimarães (Jornal do Brasil, 24 de julho, sexta coluna).

1903 – Em anúncio, a Photographia J.F. Guimarães & C afirmava acreditar que nada devia à praça e pedia que, caso houvesse qualquer reclamação, que fosse levada a seu proprietário até o dia 10 de dezembro de 1903 (Jornal do Brasil, 6 de dezembro de 1903, primeira coluna).

1904 – Tendo deixado de trabalhar na Photographia Guimarães, Alfredo e Luís Musso e Julio D. Beltgen anunciaram a abertura de um novo estabelecimento fotográfico, na rua Uruguaiana, nº 10 (Gazeta de Notícias, 21 de fevereiro de 1904, terceira coluna).

Recém chegado da Europa, Guimarães anunciou a reabertura de seus ateliers modelos onde o high life poderia encontrar o chic da fotografia moderna (Jornal do Brasil, 24 de fevereiro de 1904, quinta coluna e Gazeta de Notícias , 21 de fevereiro, terceira coluna).

 

 

1905 – Estava exposta na Photographia Guimarães uma fotografia de Oswaldo Cruz (1872 – 1917), diretor da Saúde Pública, com um tamanho que nunca se fez entre nós (Gazeta de Notícias, 12 de abril, sexta coluna).

A Photographia Guimarães continuava na rua Gonçalves Dias (A Notícia, 10 e 11 de junho de 1905, quarta coluna).

1906 – A Photographia Guimarães funcionava sob a direção de José Ferreira Guimarães e A. Pinto, na rua da Assembleia, 78 (A Notícia, 25 e 26 de outubro, segunda coluna). Novo anúncio, no mês seguinte, só menciona Guimarães na direção do estabelecimento fotográfico (A Notícia, 6 e 7 de novembro de 1906, quinta coluna).

1907 – A Photographia Guimarães informava não ter nem funcionários ambulantes nem filiais pelo Brasil. As encomendas deveriam ser feitas na rua da Assembleia, 78 (A Notícia, 31 de janeiro e 1º de fevereiro de 1907, segunda coluna).

A turma de formandos em Odontologia e Medicina encomendaram quadros alegóricos na Photographia Guimarães. Seriam feitos em Paris, sob a supervisão do comendador Guimarães, que mais uma vez daria provas de seu bom gosto artístico (A Notícia, 27 e 28 de julho de 1907, quarta coluna).

A Photographia Guimarães anunciou que o funcionário Augusto Cezar Osório não trabalhava mais no estabelecimento (Jornal do Brasil, 14 de setembro de 1907, sétima coluna).

Exposição, na Photographia Guimarães de uma fotografia de Oswaldo Cruz (1872 – 1917), diretor da Saúde Pública (A Notícia, 4 e 5 de novembro de 1907, terceira coluna).

1909 / 1910 / 1911 / 1912 /1913 - A Photographia Guimarães funcionava em um sobrado, na rua da Assembleia, 100 (A Notícia, 22 e 23 de maio de 1909, terceira coluna e Almanak Laemmert, 1911, terceira coluna).

1909 – Publicação na revista Careta, 21 de agosto de 1909, de duas fotografias do escritor Euclides da Cunha (1866 – 1909), produzidas na Photographia Gumarães. Pouco antes de sua morte, o escritor havia oferecido ao jornalista Ernesto Senna (1858-1913) uma fotografia sua produzida na Photographia Guimarães (Correio Paulistano, 17 de agosto de 1909, primeira coluna).

Década de 1910 – Provavelmente, durante essa década, mudou para a França, onde morou em Bois Colombe.

1911 – Publicação de um retrato do cientista Carlos Chagas (1879 – 1934), produzido na Photographia Guimarães (A Noite, 8 de agosto e 9 de agosto de 1911).

1912 – Do terceiro andar da Photographia Guimarães, o comandante Souza Aguiar dirigia o trabalho dos bombeiros para debelar um grande incêndio no coração da cidade (O Paiz, 25 de março de 1912, na última coluna).

Proprietário e empregados de estabelecimentos fotográficos requisitaram que os mesmos não mais abrissem aos domingos. Dois empregados da Photographia Guimarães participaram do abaixo-assinado endereçado aos vereadores da cidade do Rio de Janeiro (A Imprensa, 13 de abril de 1912, segunda coluna).

1913 – Foi roubada uma mercadoria – papel sensibilizado – destinada a José Ferreira Guimarães (Correio da Manhã, 23 de janeiro de 1913, segunda coluna).

Uma dúzia de retratos de Boudoir, última novidade, criação da afamada Photographia Guimarães, seria o 2º Prêmio do Grande Concurso Extraordinário D, promovido pelo semanário O Tico-Tico: Jornal das Crianças (O Tico-Tico, 4 de junho de 1913).

1914 - Pela última vez a Photographia Guimarães foi anunciada no Almanak Laemmert.

Uma dúzia de retratos da Photographia Guimarães foi o 1º prêmio do Grande Concurso Extraordinário K, promovido pelo semanário O Tico-Tico: Jornal das Crianças (O Tico-Tico, 7 de outubro de 1914).

1915 – A capa do Jornal das Moças foi ilustrada com uma imagem de Carolina Pereira dos Santos, filha de um empresário do Rio de Janeiro. O trabalho fotográfico foi da Casa Guimarães e a gravura foi realizada no ateliê de Alois Fabien (Jornal das Moças, 1º de março de 1915).

1916 – Um dos prêmios sorteados pelo semanário O Tico-Tico seriam retratos da Photographia Guimarães (O Tico-Tico, 9 de fevereiro de 1916).

Após longos anos na Europa, José Ferreira Guimarães voltou a dirigir seu estabelecimento fotográfico no
Rio de Janeiro (A Noite, 5 de agosto de 1916, quinta coluna).

 

 

 

1917 – Foi anunciado que o segundo andar da Photographia Guimarães poderia ser alugado para dentista ou negócio de luxo. O prédio, que possuia elevador, foi referido como aristocrático (Jornal do Brasil, 28 de julho de 1917, quarta coluna).

1919 - Neste ano, Maria Aparecida, uma sobrinha neta de sua esposa, foi residir com eles, na França.

1921 – O sobrinho neto de sua mulher, Benedito Junqueira Duarte (1910 – 1995), viajou para Paris, tornando-se discípulo de Guimarães. Posteriormente, Benedito trabalhou na Seção de Fotografia do Departamento de Cultura de São Paulo a convite de Mário de Andrade (1893 – 1945), além de ter sido sócio-fundador do Foto Cine Clube Bandeirante.

1924 – José Ferreira Guimarães faleceu na França, em 30 de janeiro, provavelmente, de infecção pulmonar. Foi enterrado no cemitério de Bois Colombe.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

AULER, Guilherme. sob o pseudônimo de Ricardo Martim, em dois artigos publicados na Tribuna de Petrópolis. Petrópolis, 1º e 8 de abril de 1956.

ERMAKOFF , George. Rio de Janeiro 1840 – 1900 – Uma crônica fotográfica. Rio de Janeiro: G. Ermakoff Casa Editorial, 2006.

DUARTE, Benedito J. José Ferreira Guimarães, fotógrafo da Corte Imperial. O Estado de São Paulo. São Paulo, 4 dez, 1977 (Suplemento Cultural).

FERNANDES JUNIOR, Rubens. B.J. Duarte Invenção e modernidade na fotografia documental.

FERREZ, Gilberto. A fotografia no Brasil: 1840- 1900. Prefácio Pedro Karp Vasquez. 2. ed. Rio de Janeiro: Funarte, 1985. 248 p. (História da fotografia no Brasil, 1).

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

KOSSOY, Boris. Origens e expansão da fotografia no Brasil : século XIX. Prefácio Boris Kossoy. Rio de Janeiro: Funarte, 1980. 128 p.

Site da Enciclopédia Itaú Cultural

VASQUEZ, Pedro Karp. Dom Pedro II e a fotografia no Brasil. Rio de Janeiro: Fundação Roberto Marinho: Companhia Internacional de Seguros: Ed. Index, 1985. 243 p.

VASQUEZ, Pedro Karp. O Brasil na fotografia oitocentista. São Paulo: Metalivros, 2003.

O fotógrafo Joaquim Pinto da Silva, o J. Pinto (1884-1951) e a Fundação Oswaldo Cruz

Ricardo Augusto dos Santos*

 

 

A história da fotografia brasileira possui seus atores emblemáticos, como Marc Ferrez (1843 – 1923) e Augusto Malta (1864 – 1957). Mas, também, tem seus heróis quase desconhecidos ou anônimos que, encantados com a possibilidade de registrar em imagens a realidade, nos deixaram documentos relevantes para a memória e a história do país. Um expressivo número de fotografias do acervo da Fundação Oswaldo Cruz foi produzido por Joaquim Pinto da Silva, o J. Pinto (1884 – 1951), como ficou conhecido. Este fotógrafo produziu milhares de imagens, documentando os trabalhos científicos, os primeiros prédios e as transformações urbanas da região onde seria construído o centro de pesquisa, ensino e produção de medicamentos.

 

Acessando o link para as fotografias de autoria de J. Pinto disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

Acessando o link para as fotografias em que J. Pinto ou sua família aparecem disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Inicialmente, J. Pinto ocupou um acanhado e improvisado chalé, onde o laboratório fotográfico dividia espaço com a biblioteca do recém-criado Instituto Oswaldo Cruz (IOC). Em 1911, quase finalizado o Pavilhão Mourisco, J. Pinto seria instalado no belo castelo. Podemos observar, em seu trabalho, um notável domínio das técnicas fotográficas. Autor de inúmeras imagens, negativos em vidro e microfotografias científicas, J. Pinto, em final de 1928, enviou aos amigos um cartão desejando um feliz ano novo, contendo a imagem de seu rosto reproduzida cinco vezes. Este fato remete à original fotografia conhecida como Os trinta Valérios, realizada por Valério Vieira (1862-1941), em torno de 1901. O registro, um marco na história da fotografia, traz 30 imagens de Valério Vieira.

 

 

Pouco se sabe da vida deste importante personagem do IOC. Em final dos anos 1980, um grupo de pesquisadores da Casa de Oswaldo Cruz entrevistou um dos filhos de J. Pinto, Wilson Pinto, que forneceu algumas informações sobre seu pai. Infelizmente, idoso, sua saúde precária impossibilitava um depoimento fidedigno, assim como sua irmã Edna, que também quase nada dizia com exatidão sobre a vida de Joaquim Pinto. Porém, naquela tarde, obtivemos registros raros do fotógrafo e de sua família. No próprio acervo da Fiocruz, J. Pinto pouco aparece, a não ser em fotos de uma provável caçada em companhia de Carlos Chagas, ou em seu laboratório fotográfico.

 

 

Nascido em Alagoinhas, na Bahia, em 1884, J. Pinto teria vindo para o Rio de Janeiro com 14 anos. Seus pais eram José Camerino Pinto da Silva e Maria da Purificação. Casou-se com Izaura Costa da Silva e tiveram cinco filhos: Wilson, Milton, Elza, Zeni e Ilda. Depois de morar no Centro da cidade, comprou um terreno no Méier, na Rua Jacinto, número 67, construindo ali sua casa.

 

 

Em 1903, contratado por Oswaldo Cruz na fase inicial das atividades em Manguinhos, ele começou a documentar a construção do que viria a ser um dos principais centros de ciência e saúde do Brasil. Foi fotógrafo da instituição até 1946, quando se aposentou em decorrência de problemas de saúde. Mas as imagens produzidas por ele permaneceram como a memória fotográfica da Fundação Oswaldo Cruz. As fotos de sua autoria também mostram um Rio de Janeiro em processo de urbanização. J. Pinto, que se tornou amigo de Oswaldo Cruz (1872 – 1917) e de Carlos Chagas (1879 -1934), fotografou o aspecto rural de Manguinhos, que foi se transformando. Estão registrados a construção do Castelo, da avenida Brasil, os pesquisadores e instalações físicas. Em seus registros também aparecem construções, como o aquário, demolido, que era ligado à Baía de Guanabara por uma tubulação subterrânea, onde se estudavam organismos aquáticos; a cavalariça e a chaminé da antiga usina de incineração do lixo da cidade, também demolida no início da década de 1940.

 

 

 

*Ricardo Augusto dos Santos é Pesquisador Titular da Fundação Oswaldo Cruz

 

 

Pequena cronologia de Joaquim Pinto da Silva  (1884-1951) 

1884 – O fotógrafo Joaquim Pinto da Silva, que ficou conhecido como J. Pinto, nasceu em Alagoinhas, na Bahia, filho de José Camerino Pinto da Silva e Maria da Purificação.

c. 1898 – Com 14 anos, J. Pinto teria vindo para o Rio de Janeiro.

1903 – Foi contratado pelo médico e sanitarista Oswaldo Cruz na fase inicial das atividades em Manguinhos e começou a documentar a construção do que viria a ser um dos principais centros de ciência e saúde do Brasil.

1910 – Segundo o historiador Eduardo Thielen, que escreveu a dissertação Imagens da saúde no Brasil – A fotografia na institucionalização da saúde pública, J. Pinto teria sido possivelmente o autor do primeiro filme científico feito no Brasil, Chagas em Lassance. A obra, com 9 minutos de duração, era sobre a descoberta da doença de Chagas, feita pelo cientista Carlos Chagas, em Lassance, Minas Gerais, em 1909 (Agência Fiocruz, 15 de agosto de 2008).

1911 – Chagas em Lassance foi exibido por Oswaldo Cruz na Exposição Internacional de Higiene e Demografia de Dresden, na Alemanha (Agência Fiocruz, 15 de agosto de 2008). Também foi exibido o filme sobre as ações de combate à febre amarela no Rio de Janeiro. Esses dois filmes constituem o mais antigo acervo audiovisual científico preservado de que se tem notícia no Brasil. O pavilhão do Brasil, único país das Américas a construir um estande próprio no evento, foi inaugurado em 15 de junho (O Paiz, 16 de junho de 1911, quinta coluna).

1946 - J. Pinto aposentou-se devido a problemas de saúde.

1951 – Em outubro, falecimento de Joaquim Pinto da Silva. Sua missa de 30º dia foi realizada na Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro (Diário de Notícias, 25 e 26 de novembro de 1951).

 

2014 – Lançamento do livro Vida, engenho e arte — O acervo histórico da Fundação Oswaldo Cruz, com imagens produzidas por J. Pinto (O Globo, 6 de junho de 2014).

2016 – Realização da exposição Manguinhos Revelado: um Lugar de Ciência, com cerca de 120 fotografias, a maioria de autoria de J. Pinto (Portal Fiocruz, 8 de novembro de 2016).

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

O fotógrafo Francisco du Bocage (18? – 22/10/1919)

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Francisco du Bocage em primeiro plano. Fotografia de 1907 publicada na página 224 do livro Railways of Brazil in Postcards and Souvenir Albums (2005).

 

Considerado o mais importante fotógrafo que atuava em Pernambuco na virada do século XIX para o XX, pouco se conhece da biografia de Francisco du Bocage (18? – 1919), que intitulava-se fotógrafo artista, evidenciando sua preocupação com o valor estético de sua produção. Foi autor de uma importante documentação de Olinda e também do Recife. Seus registros, muitos dos quais foram editados como cartões-postais, revelaram a capital pernambucana, a Veneza brasileira, no auge de sua beleza. Documentou, também, obras do porto do Recife durante as administrações dos governadores Herculano Bandeira de Melo (1850 – 1916), Emídio Dantas Barreto (1850 – 1931) e Manuel Borba (1864 – 1928), no período entre 1908 e 1919. Sua obra fotográfica registrou o processo de modernização da cidade. 

 

 

Acessando o link para as fotografias de Francisco du Bocage disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Até hoje, não se sabe ao certo nem sua data de nascimento nem sua nacionalidade. Foi saudado no Jornal do Recife como hábil fotógrafo português (Jornal do Recife, 14 de março de 1895, na quarta coluna), mas algumas publicações se referem a ele como francês. Bocage foi correspondente, no Recife, do Jornal do Brasil e da Revista da Semana. Foi também dono de uma oficina de chapéus para senhoras e crianças e, em um período, ofereceu serviços de massagem e de ginástica médica sueca em seu estabelecimento na rua da Imperatriz, nº 31.

Baseado no anúncio de seu falecimento, ocorrido e m 22 de outubro de 1919, na cidade de Bezerros, no interior de Pernambuco, sabe-se que, além de ter sido casado com a alemã Anna du Bocage, na ocasião de sua morte, tinha dois filhos com ela: Daniel e George. Em um artigo do Jornal do Recife, de 4 de junho de 1896, na quarta coluna, foi mencionado que ele tinha uma filha, que havia posado para uma fotografia.

 

Cronologia de Francisco du Bocage

 

1889 – Francisco du Bocage seria o diretor do curso noturno de Escrituração Mercantil e Línguas, em Salvador, na rua Conselheiro Pedro Luis, n. 38 (Diário do Povo, 15 de maio de 1889, na última coluna). Nesse ano, foi publicado no Almanach Literário um poema , de sua autoria de Francisco Bocage, intitulado “Chromo”. Seria o próprio fotógrafo ou um homônimo?

1892 – Francisco du Bocage chegou no Recife a bordo do vapor nacional Olinda, vindo do sul do Brasil (Diário de Pernambuco, 17 de fevereiro de 1892, na segunda coluna)

No ateliê do fotógrafo, pintor, escultor, músico, colecionador e antiquário Alfredo Ducasble (18? – ?), localizado na rua Barão da Vitória, nº 65, no Recife, Bocage expôs chapéus e capotas (Diário de Pernambuco, 24 de fevereiro de 1892, quarta coluna e Jornal do Recife, 24 de fevereiro de 1892, terceira coluna).

 

 

1894 – Francisco du Bocage declarou, em 11 de janeiro de 1894, a compra da oficina de chapéus para senhoras e crianças do sr. A. Damour, localizada na rua da Imperatriz, 31, que passaria a ser dirigida  pela modista A. du Bocage, sua esposa, Anna. Qualquer reclamação a fazer sobre venda e compra da dita oficina deverá ser dirigida ao signatário deste até o dia 20 do corrente mês, sob pena de nenhum efeito (Diário de Pernambuco, 14 de janeiro de 1894, na terceira coluna).

Produziu uma fotografia do cruzador Benjamin Constant, quando o navio esteve no Recife (Jornal do Recife, 13 de setembro de 1894, na sexta coluna).

O Diário de Pernambuco agradeceu o oferecimento feito por Bocage de três esplêndidas fotografias de sua autoria (Diário de Pernambuco, 29 de setembro de 1894, quarta coluna).

 

 

Bocage, do Centro Fotográfico Pernambucano, voltou a presentear o Diário de Pernambuco, dessa vez com duas belíssimas fotografias com cenas movimentadas, tomadas rapidamente, instantaneamente. São ambas de admirável perfeição e dão a exata medida não só da excelência do aparelho fotográfico empregado, mas também da habilidade do operador (Diário de Pernambuco, 17 de outubro de 1894, na quarta coluna).

1895 – Ofereceu ao Jornal do Recife uma fotografia de sua autoria. No agradecimento do jornal, foi saudado como um hábil fotógrafo português (Jornal do Recife, 14 de março de 1895, na quarta coluna).

Bocage colocou à venda retratos de Manoel Ferreira de Assumpção, assassino de Maria Joaquina, personagem de um crime de esquartejamento ocorrido em Pernambuco.

Ofereceu ao Jornal do Recife, fotografias da parte externa do Colégio Salesiano (Jornal do Recife, 4 de julho de 1895, na quinta coluna).

Fotografou a Estrada de Ferro Central de Pernambuco, durante uma visita que várias autoridades e engenheiros fizeram a Caruaru quando os trilhos chegaram à referida cidade (Jornal do Recife, 3 de agosto de 1895, na sétima coluna).

1896 – Foi anunciada a conclusão e a abertura ao público do ateliê da Empresa Centro Artístico Fotográfico, na rua da Imperatriz, 31, sob a direção técnica de Bocage (Jornal do Recife, 5 de janeiro de 1896, na sétima coluna).

 

 

A Recebedoria do Estado de Pernambuco deferiu um pedido de Bocage (Diário de Pernambuco, 21 de abril de 1896,  primeira coluna).

Bocage fotografou sua filha com um chapéu formado pelo Jornal do Recife. O registro foi classificado pelo periódico como um esplêndido reclame (Jornal do Recife, 4 de junho de 1896, quarta coluna).

No mesmo endereço do ateliê da Empresa Centro Artístico Fotográfico, na rua da Imperatriz, 31, Anna du Bocage continuava a modernizar chapéus e capotas, cingindo-se às prescrições dos mais rigorosos figurinos (Jornal do Recife, de outubro de 1896, última coluna). O anúncio é publicado outras vezes ao longo do ano e também em janeiro do ano seguinte.

1898 – Bocage havia importado da França envelopes, cartões, chaminés de vidro e obras de cobre (Jornal do Recife, 21 de abril de 1898, segunda colunaDiário de Pernambuco, 30 de abril de 1898, última coluna).

1899 – Bocage estava listado como um dos devedores do imposto das casas comerciais do Recife, no endereço rua da Imperatriz, 31 (Diário de Pernambuco, 3 de julho de 1899, segunda coluna).

1901 – Bocage estava listado como um dos devedores do imposto de bombeiros das casas comerciais do Recife. Seu endereço era ainda rua da Imperatriz, 31 (Jornal do Recife, 3 de janeiro de 1901, quinta coluna).

1904 – O British Colony Photo Club anunciou que tinha uma carta endereçada a Francisco du Bocage, na rua do Apolo, n. 42 (A Província, 12 de março de 1904, primeira coluna).

Bocage fotografou a inauguração do Asilo Magalhães Bastos, na Várzea, no Recife (Jornal Pequeno, 27 de junho de 1904, segunda coluna).

Em Igarassu, Bocage fotografou a inauguração de uma fábrica de cimento da firma Cunha & C. Segundo a notícia, era a primeira fábrica do gênero a funcionar no Brasil (A Província, 17 de novembro de 1904, última coluna).

Foi noticiado que Bocage deu de presente ao jornal A Província uma fotografia da fábrica de cimento São José, em Maria Farinha, e outra da construção do quarto fio telegráfico para Olinda. Na época, o fotógrafo residia na rua Hospital Pedro II, n.5 (A Província, 29 de novembro de 1905, sexta coluna).

1905 – Fotografou a visita de oficiais da canhoneira portuguesa Pátria ao Recife (Diário de Pernambuco, 29 de agosto de 1905, última colunaDiário de Pernambuco, 30 de agosto de 1905, sexta coluna e Jornal do Recife, 30 de agosto de 1905,  última coluna).

Bocage retratou os convidados para o piquenique dos alunos do Colégio 7 de setembro, realizado no engenho Valha-me Deus. Na ocasião, o futuro magnata das comunicações no Brasil, Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello (1892 – 1968), e seu irmão, Oswaldo, recitaram poesias. Seu pai, o sr. Francisco José Chateaubriand Bandeira de Mello, presentou o Jornal do Recife com uma das fotografias do piquenique produzida por Bocage (Jornal do Recife, 10 de setembro de 1905, primeira coluna e Jornal do Recife, 28 de outubro de 1905, última coluna).

1906 - Bocage fotografou a visita do presidente da República eleito Afonso Pena (1847 – 1909) a Carpina, em Pernambuco (A Província, 8 de junho de 1906, sexta coluna).

Era o correspondente em Pernambuco do periódico Jornal do Brasil e da Revista da Semana, ambos do Rio de Janeiro.

Ofertou ao jornal A Província duas fotografias de sua autoria da chegada de Joaquim Nabuco (1849 – 1910) no Recife (A Província, 19 de julho de 1906, quarta coluna).

 

 

Anna Luiza Bocage, esposa de Francisco, foi distinguida com a carta de assistente pelo Hospital Pedro II por ter sido aprovada no curso de obstetrícia (A Província, 26 de novembro de 1906, quinta coluna).

O postal abaixo, publicado no site www.delcampe.net, tem sua produção atribuída a Francisco du Bocage, em 1906. Traz uma imagem do próprio no ato de fotografar.

 

cartao postal

 

1907 – Foram anunciados os serviços da parteira alemã, Mme. A. Luise Hurst du Bocage. Pouco depois, foi anunciada a transferência de sua residência para a rua da Imperatriz, 31. Antes, residia na rua Hospital Pedro II, n. 5 (A Província , 27 de novembro de 1906, segunda coluna). Ainda em 1907, foi anunciada sua nova residência na rua do Dr. Rosa e Silva, 31.  A. Luise Hurst du Bocage é Anna du Bocage, mulher de Francisco (Jornal do Recife, 26 de janeiro de 1907, sexta coluna, Jornal do Recife, 8 de março de 1907, quinta coluna e Jornal do Recife, 12 de março, primeira coluna).

Bocage anunciou seus serviços de massagem e de ginástica médica sueca diversas vezes ao longo de 1907 (Jornal do Recife, 5 de abril de 1907, terceira coluna).

 

 

No anúncio veiculado pelo Jornal do Recife, 4 de julho de 1907, terceira coluna, Bocage explicava seu trabalho como massagista e dos métodos que utilizava em seus exercícios físicos, além de apresentar Mme du Bocage como parteira e massagista.

 

 

 

1908 – Chegou à Alfândega do Recife, proveniente de Hamburgo, na Alemanha, no vapor alemão San Nicola, aparelhos fotográficos importados por Bocage (Diário de Pernambuco, 31 de março de 1908, terceira coluna).

No vapor brasileiro Bahia, chegaram, de novo de Hamburgo, artigos fotográficos para Bocage (Diário de Pernambuco, 26 de julho de 1908, terceira coluna).

Bocage possuía produtos em armazéns da Alfândega do Recife (Jornal do Recife, 8 de agosto de 1908, terceira coluna).

No Recife, Bocage registrou o plantio de aglaias na rua Camarão, obedecendo ao plano traçado pelo ilustre doutor Archimedes de Oliveira, prefeito desta capital  para o embelezamento desta cidade (Diário de Pernambuco, 19 de setembro de 1908, quarta coluna).

1909 – Bocage fotografou a festa realizada pelo Instituto de Proteção à Infância (A Província, 26 de janeiro de 1909,  quinta coluna).

Chegaram ao porto do Recife, a bordo do vapor alemão Corrientes, proveniente de Nova York, placas fotográficas importadas por Bocage (Diário de Pernambuco, 4 de fevereiro de 1908, quinta coluna).

O escriturário Lacerda de Almeida, da Recebedoria do Estado, cientificou ao sr. F. du Bocage, a rua do dr. Rosa e Silva n. 31 a coleta de um imposto no valor de 200$000 (Diário de Pernambuco, 26 de fevereiro de 1909, sexta coluna).

Chegaram ao porto do Recife, provenientes de Hamburgo, na Alemanha, a bordo do vapor alemão Etruria, quatro caixas de artigo para farmácia importadas por Bocage (Diário de Pernambuco, 7 de abril de 1909, terceira coluna).

No vapor alemão Petrópolis, vindo de Hamburgo, na Alemanha, chegaram no porto de Recife 4 caixas de material fotográfico importados por Bocage (Diário de Pernambuco, 24 de julho de 1909, quinta coluna).

Bocage foi um dos autores do serviço fotográfico do Álbum de Pernambuco, organizado pelo jornalista Manuel Monteiro, cuja impressão ficou a cargo da casa do comendador Francisco Pastor. Os outros fotógrafos foram Manuel Tondela, Fernando Piereck, João José de Oliveira, Umbelino Silva, Mario Ribeiro e Luiz Santiago (Diário de Pernambuco, 24 de agosto de 1909, última coluna e Jornal Pequeno, 24 de agosto de 1909, última coluna).

 

 

No vapor alemão São Paulo, chegada de material fotográfico, importado de Hamburgo por Bocage (Diário de Pernambuco, 4 de novembro de 1909, quarta coluna).

Foram enterradas no Cemitério de Santo Amaro, com um intervalo de 9 dias, Beatriz Bocage, de 15 anos, e Carmen du Bocage, de 16 anos. A Brasiliana Fotográfica acredita que, provavelmente, elas eram filhas de Anna e Francisco du Bocage (A Província, 25 de novembro de 1909, segunda coluna A Província, 30 de novembro de 1909, segunda coluna).

1910 – Bocage continuava a importar artigos fotográficos (Diário de Pernambuco, 19 de fevereiro de 1910, quarta coluna;  10 de março de 1910, na quinta coluna; 7 de maio, quinta coluna; 5 de junho, quarta coluna;17 de setembro, quarta coluna; 5 de outubro, sexta coluna).

1911 – A administração dos Correios publicou que Anna e Francisco du Bocage estavam na relação de pessoas que haviam autorizado a entrega de suas correspondências registradas (Jornal do Recife, 21 de julho de 1911, terceira coluna).

Durante o ano, Bocage seguiu fazendo importações de artigos fotográficos (Diário de Pernambuco, 28 de maio de 1911, quarta coluna; 7 de julho, sétima coluna; 8 de junho, terceira coluna; 8 de agosto, quinta coluna; 22 de agosto, quarta coluna; e 20 de outubro, quarta coluna).

Bocage utilizava em seu estabelecimento, a Photographia Industrial e Artística, os filmes Ensign, considerado por ele como superior a qualquer outro (A Província, 14 de setembro de 1911, quarta coluna).

Bocage fotografou a chegada do general Emidio Dantas Barreto (1850 – 1931), futuro governador de Pernambuco, no Recife (A Província, 14 de outubro de 1911, terceira coluna).

1912 – Embarcou no vapor Ilheus rumo a Aracaju, de onde retornou, no vapor Canavieiras (Jornal do Recife, 11 de março de 1912, última coluna, e Jornal do Recife, 23 de março de 1912, última coluna).

A família Porto Carrero fez uma agradecimento a algumas pessoas, dentre elas, Anna du Bocage, pelos cuidados, dedicação e carinho que havia tido com Maria Emilia Uchoa Porto Carrero  (Jornal do Recife, 5 de maio de 1912, quinta coluna).

Francisco du Bocage ofereceu à Biblioteca da Escola Regimental da Força Pública do Estado um grande número de obras de subido valor (Jornal do Recife, 3 de setembro de 1912, sexta coluna).

Chegaram no Recife, a bordo do vapor alemão Queen Eleonora, vindo de Hamburgo, três caixas de material fotográfico importados por Bocage (Jornal do Recife, 20 de novembro de 1912, terceira coluna). Uma caixa de papel fotográfico chegou para ele em um vapor alemão, vindo de Nova York (Jornal do Recife, 9 de dezembro de 1912, quarta coluna).

Bocage fotografou a festa de encerramento das aulas da Escola de Aprendizes Marinheiros (Jornal do Recife, 19 de dezembro de 1912, oitava coluna)

1913 – Seguiam as importações de artigos fotográficos feitas por Bocage (Diário de Pernambuco, 30 de março, quinta coluna).

Embarcou no vapor Pará, rumo a Natal (Diário de Pernambuco, 29 de abril de 1913, última coluna).

Bocage fez o brinde ao dr. Gouveia de Barros, diretor de Higiene do Recife, após uma visita às obras do Matadouro de Peixinhos (Jornal do Recife, 2 de novembro de 1913, segunda coluna).

Seu nome constava em um despacho da prefeitura do Recife (Jornal do Recife, 5 de novembro de 1913, quarta  coluna).

1914 - Bocage foi contratado pelo Jockey Club para registrar as chegadas dos cavalos no fim de cada páreo e, no caso de dúvidas sobre algum resultado, revelar a chapa imediatamente (Jornal do Recife, 19 de abril de 1914, na última coluna).

Anna du Bocage e George, filho do casal Bocage, embarcaram para Bremen, na Alemanha, no vapor alemão Erlangen (Jornal do Recife, 12 de julho de 1914, segunda coluna).

O outro filho do casal Bocage, Daniel, tornou-se conselheiro do recém fundado Riachuelo Football Club (Diário de Pernambuco, 26 de julho de 1914, terceira coluna). Ele estudava no Ginásio Ayres Gama (Diário de Pernambuco, 22 de novembro de 1914, quinta coluna).

1915 – Chegou no Recife, a bordo do vapor inglês Justin, vindo de Nova York, artigos fotográficos, envelopes e produtos químicos para fotografia, importados por Bocage (Jornal do Recife, 2 de julho de 1915, sexta coluna). Dias depois, chegada de papel fotográfico, também importado por ele, vindo de Liverpool, a bordo do vapor inglês Southampton (Jornal do Recife, 25 de julho de 1915, quinta coluna).

Bocage foi convidado a comparecer na 1ª seção dos Correios (Diário de Pernambuco, 24 de novembro, quarta coluna).

Bocage partiu para a Bahia no vapor Olinda e retornou para o Recife no vapor Itapura (A Província, 4 de novembro de 2015, quarta coluna; e Jornal do Recife, 13 de dezembro de 1915, quarta coluna).

1916 - Bocage foi e voltou à Bahia, no vapor Itatinga (A Província, 15 de maio de 1916, primeira coluna; e Jornal do Recife, 28 de agosto de 1916, quarta coluna).

O ministro da Fazenda negou provimento ao recurso ex-oficio interposto pelo Delegado Fiscal de Pernambuco, do seu ato, julgando improcedente o auto lavrado contra Francisco du Bocage, por infração do regulamento dos impostos de consumo (Jornal do Commercio, 6 de junho de 1916, sétima coluna).

1917 – George, filho de Bocage e Anna,  voltou da Europa, a bordo do vapor holandês Hollandia (Jornal do Recife, 5 de janeiro de 1917, primeira coluna).

De volta de uma viagem a Bezerros, Bocage foi saudado como distinto fotógrafo (Diário de Pernambuco, 20 de maio de 1917, primeira coluna).

Acessórios fotográficos e medicamentos importados por Bocage chegaram no Recife a bordo do vapor brasileiro Tapajós, vindo de Nova York (Diário de Pernambuco, 14 de março, terceira coluna e Jornal do Recife, 17 de março de 1917, quarta coluna).

Foi anunciado pela Casa du Bocage, na rua Imperatriz, n. 31, a produção de retratos pelo sistema fotomecânico, perfeitos e inalteráveis…únicos e a preços baratíssimos. O anúncio foi repetido diversas vezes ao longo do ano, mas a partir de julho, o endereço passou a ser rua Imperatriz, n. 13 (Jornal Pequeno, 7 de abril de 1917, primeira coluna e Jornal Pequeno, 5 de julho de 1917, quarta coluna).

Bocage fez uma exposição fotográfica muito elogiada com o tema Maternidade: Pernambuco pode apresentar  Bocage como um grande artista e seus belos trabalhos fotográficos honram qualquer galeria e podem figurar em qualquer certame artístico (A Província, 27 de julho de 1917, primeira coluna).

 

 

1918 – Com o título “Photographia Industrial”, Bocage anunciou não autorizar ninguém a fazer dívidas em seu nome (Diário de Pernambuco, 21 de janeiro de 1918, primeira coluna).

Bocage chegou do Maranhão a bordo do vapor Cururupu (Diário de Pernambuco, 24 de agosto de 1918, segunda coluna).

Após uma viagem ao norte do Brasil, Bocage anunciou o recomeço de seus trabalhos fotográficos, na rua da Imperatriz, 121 (Jornal do Recife, 1º de setembro de 1918, terceira coluna). Dias depois, veiculou uma propaganda de seu estúdio fotográfico (Jornal do Recife de 6 de setembro de 1918).

 

 

1919 – Chegada de material fotográfico importado por Bocage, no vapor inglês Somme, vindo de Londres (Jornal do Recife, 4 de outubro de 1919, terceira coluna).

George du Bocage, filho de Francisco e Anna, estava na relação dos alistados para o serviço militar da cidade do Recife (Diário de Pernambuco, 8 de outubro de 1919, terceira coluna).

Francisco du Bocage faleceu, em 22 de outubro de 1919, na cidade de Bezerros, onde se achava em tratamento de grave enfermidade e onde foi enterrado. Sua esposa, Anna du Bocage, declarou que continuava no mesmo ramo de negócios de seu falecido marido, Francisco du Bocage, à rua da Imperatriz, 121, dedicando-se especialmente ao serviço de amadores postais, vistas, etc, esperando a mesma confiança e boa vontade da parte de seus estimado fregueses ( Jornal Pequeno, 24 de outubro de 1919, terceira coluna; A Rua, 25 de outubro de 1919, quinta coluna; e Jornal do Recife, 26 de outubro de 1919, quarta e sexta colunas).

 

 

 

 

A Casa Bocage anunciou a venda de iluminação à gasolina e de material fotográfico (Diário de Pernambuco, 30 de outubro, na terceira coluna; e 31 de outubro, primeira coluna).

Seu filho, George, tornou-se o proprietário da Casa Bocage (Jornal do Recife, 28 de dezembro de 1919, terceira coluna).

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

GERODETTI, João Emilio; CORNEJO, Carlos. Railways of Brazil in Postcards and Souvenir Albums. São Paulo: Solaris Edições Culturais, 2015.

KOSSOY, Boris. Dicionário Histórico Fotográfico Brasileiro. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

O Brasil na máquina do tempo: coleção referencial da história da fotografia brasileira / [Organizadores] Imager – Centro de Estudos da Imagem Fotográfica e Eduardo Castanho. São Paulo: Instituto Cultural  Itaú, 1997.

Site da Enciclopédia Itaú Cultural

Site da Fundação Joaquim Nabuco

Site do IMS

VASQUEZ, Pedro. Três mestres da fotografia brasileira no século XIXAcervo, Revista do Arquivo Nacional, Rio de Janeiro, v. 6, n 1-2, jan./dez. 1993, p. 3.

O fotógrafo austríaco Otto Rudolf Quaas e o construtor Ramos de Azevedo

 

O fotógrafo austríaco Otto Rudolf Quaas (c. 1862 – c. 1930) registrou diversas obras projetadas ou executadas pelo Escritório Técnico Ramos de Azevedo, cujo proprietário, o paulista Francisco de Paula Ramos de Azevedo (1851–  1928) era, entre a virada do século XIX e as primeiras décadas do século XX, o grande construtor de São Paulo. Nesse período, a cidade passou por grandes transformações devido à riqueza gerada pela cafeicultura e pela chegada de levas de imigrantes. As construções de traços coloniais davam lugar às com influência europeia, modernas. A Brasiliana Fotográfica destaca algumas imagens da documentação das obras desse construtor, um dos trabalhos mais importantes produzidos por Quaas, reunidos no Álbum Escritório Técnico do Engenheiro e Arquiteto F. P. Ramos d’Azevedo – São Paulo – Álbum de Construções. Quaas fotografou, dentre vários projetos, palacetes, o portal do Cemitério da Consolação, o Quartel de Polícia, o Hospício dos Alienados e a Escola Politécnica. Sua obra registrou também diversos aspectos da capital e do interior do estado de São Paulo. Quaas foi muito bem sucedido em sua profissão e residia na rua das Palmeiras com sua esposa, Emma Quaas, e três filhos.

 

 

Acessando o link para as fotografias de  Otto Rudolf Quaas disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Cronologia de Otto Rudolph Quaas

c. 1862 – Segundo Boris Kossoy, Otto Rudolph Quaas nasceu na Áustria por volta desse ano.

1895 – Quaas chegou em São Paulo, vindo da Europa, nos primeiros dias de 1895 e estabeleceu seu ateliê fotográfico na rua do Gasômetro, n. 20 (O Commercio de São Paulo, 16 de janeiro de 1895, na quarta coluna).

Chegou num dos últimos dias a essa capital e tomou a direção do atelier fotográfico da rua do Gazometro n. 20, o sr. Otto Rudolf Quaas, que nos dizem ser um artista de muitíssimo merecimento. O público vai ter ocasião de avaliar dos progressos daquela casa, em virtude de tão excelente aquisição (Estado de São Paulo, 16 de janeiro de 1895).

 

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Propaganda da Photographia Artistica, de Otto Rudolf Quaas, no O Estado de São Paulo, 28 de janeiro de 1895

 

Em maio, transferiu-se para o Largo Sete de Setembro, nº 11, casa onde esteve por muito tempo o estabelecimento dos srs. Victor Steidel & C. Neste novo prédio o atelier do sr. Otto, enriquecido como foi ultimamente com novos aparelhos ficará sendo, senão o primeiro, pelo menos um dos primeiros estabelecimentos fotográficos de S. Paulo (Estado de São Paulo, 8 de maio de 1895)

1896 – Mudou-se para a rua de São Bento, n. 30, e inaugurou a nova Photographia Artística, em 26 de fevereiro de 1896 (O Commercio de São Paulo, 26 de fevereiro de 1896, quarta coluna). Ficava defronte do Grande Hotel e estava montada com todo o capricho e com os aperfeiçoamentos mais modernos (Estado de São Paulo, 26 de fevereiro de 1896).

 

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Anúncio da Photographia Artística, na rua de São Bento nº 30, no Estado de São Paulo, 19 de março de 1896

 

1898 – A Photographia Artística transferiu-se para o número 46 da rua de São Bento, em frente a Rotisserie Sportsman.

 

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Anúncio da mudança da Photographia Artística, no O Estado de São Paulo, 2 de julho de 1898

 

No último dia de 1898, foi anunciada uma Grande Inauguração no ateliê de Quaas com a apresentação de um grande repertório de óperas, músicas e cantos. Anunciava como a última novidade a Photographia de Voz. Avisamos especialmente o distinto público que todas as pessoas que tirarem uma dúzia de retratos Imperiais, no atelier fotográfico, têm direito de falar na máquina, podendo ouvir e levar logo depois o cilindro com a sua própria voz gravada eternamente para mandar aos seus afeiçoados.

 

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O Estado de São Paulo, 31 de dezembro de 1898

 

1899 – Gustavo Figner, depositário da casa Inana, no Rio de Janeiro, e futuro fundador da Casa Edison, anunciou a venda de um fonógrafo de corda na fotografia O. R. Quaas e Cia (Estado de São Paulo, 6 de janeiro de 1899).

Nesse mesmo ano, o atelier de Quaas, foi uma das lojas que sofreram danos consideráveis causados pelo estampido e pela água, devido a um incêndio na Loja do Japão, na rua de São Bento (O Estado de São Paulo, 6 de julho de 1899). Dias depois, Quaas enviou à redação do jornal Estado de São Paulo uma vista de um trecho da rua S. Bento na ocasião do incêndio (Estado de São Paulo, 11 de julho de 1899).

 

 

1900 – A Photographia Artística enviou à redação do O Estado de São Paulo uma coleção de 15 magníficas fotografias com vistas de diversos pontos da exposição universal de Paris. Essas vistas são reproduzidas no atelier do sr. Quaas e constituem um trabalho que acredita o conhecido estabelecimento artístico (O Estado de São Paulo, 23 de novembro de 1900).

1901 –  Estava exposto em seu ateliê um retrato em grande formato da rainha Vitória (1819 – 1901), do Reino Unido, que havia falecido em 22 de janeiro (O Estado de São Paulo, 24 de janeiro de 1901).

Quaas registrou a visita que o ministro plenipotenciário da Áustria-Hungria, Eugen Kuezyuski, fez à Sociedade Auxiliadora Austro-Húngara (O Estado de São Paulo, 27 de abril de 1901).

Era um dos membros da comissão da Sociedade Auxiliadora Austro-Húngara (O Estado de São Paulo, 24 de setembro de 1901).

Trabalhou para a Companhia Paulista de Estradas de Ferro, tendo fotografado a inauguração do ramal de Rincão a Martinho Prado, em 30 de dezembro de 1901 (Correio Paulistano, 4 de janeiro de 1902, na quarta coluna).

1902 – Quaas presenteou o governador do estado de São Paulo, Rodrigues Alves (1848 – 1919), e outras autoridades com uma coleção de pequenas fotografias da inauguração do ramal ferroviário do Rincão (O Estado de São Paulo, 14 de janeiro de 1902).

Quaas foi eleito vice-presidente da Instituição Imperador Francisco José I (O Estado de São Paulo, 12 de julho de 1902).

No salão de honra da Santa Casa da Misericórdia de São Paulo, Quaas registrou a entrega, realizada pelo cônsul da França, Numa Antigeon, do diploma de Oficial da Academia à superiora da instituição, Maria Arsênia, nome religioso de Anna Berthet (O Estado de São Paulo, 19 de julho de 1902)

Uma comissão de redatoras do periódico Educação escolheu as mais interessantes fotografias tiradas de crianças entre 1 e 7 anos durante o ano de 1902 dos seguintes estúdios fotográficos do centro de São Paulo: o de Quaas & Cia, o de José Vollsack, o de Rodolfo Neuhaus, o de Giovanni Sarracino e o de Valério Vieira (O Commercio de São Paulo, 22 de dezembro de 1902, na segunda coluna).

Quaas foi de novo eleito vice-presidente da instituição Imperador Francisco José I (O Estado de São Paulo, 24 de dezembro de 1902).

1903 – Quaas ofereceu à redação do O Estado de São Paulo uma magnífica fotografia de Santos Dumont (O Estado de São Paulo, 19 de setembro de 1903).

1904 – Na Revista Ilustração Brasileira, de dezembro de 1904, seu trabalho foi elogiado por sua nitidez e fidelidade incríveis. A casa Quass é a única que está habilitada em S. Paulo a trabalhar à noite.

1905 – A Secretaria de Agricultura de São paulo requisitou um pagamento a Otto Quaas (O Estado de São Paulo, 4 de março de 1905).

Estava envolvido na criação de um Club de Retratos em Cores e anunciou no O Estado de São Paulo de 19 de maio de 1905, o adiamento do club até segundo aviso.

Os credores da falência de Otto Quaas reuniram-se na segunda vara comercial de São Paulo (O Estado de São Paulo, 13 de julho de 1905).

1907 Quaas fotografou a Villa Penteado iluminada, na ocasião em que hospedou o ex-presidente da Argentina, general Julio Argentino Roca (1843 – 1914), que havia participado da Guerra do Paraguai (O Estado de São Paulo, 23 de março de 1907).

Fotografou o eclipse solar ocorrido em 10 de julho (O Estado de São Paulo, 12 de julho de 1907).

Foi um dos premiados no concurso de fotógrafos promovido pela Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo (O Estado de São Paulo, 18 de agosto de 1907).

1908 – Seu estabelecimento, a Photographia Quaas, ficava na rua Barra Funda, 149 (O Estado de São Paulo, 25 de novembro de 1908).

Participou da Exposição Nacional, com 24 quadros com fotografias, pinturas a pastel, sepiotipias, aumentos, platinotipia e fotografia em alto relevo, tendo recebido uma das medalhas de ouro da seção de fotografias. Outro fotógrafo agraciado com uma medalha de ouro foi Guilherme Gaensly (1843 – 1928). Os grandes prêmios foram conquistados por Valério Vieira (1862 – 1941) e Giovanni Sarracino (O Estado de São Paulo, 23 de novembro de 1908 e Catálogo da Exposição, 1908).

 

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Anúncio da Photographia Quaas, no O Estado de São Paulo, 18 de dezembro de 1908

 

1910 - Quaas participou da comemoração pelo octagésimo aniversário de Francisco José I, rei da Áustria-Hungria, realizada no consulado do país, em São Paulo (O Estado de São Paulo, 19 de agosto de 1910).

1911 – A Photographia Quaas publicou um anúncio para a contratação de um bom impressor com prática de atelier, de um ajudante com bastante prática e de um aprendiz de fotógrafo. Ainda se localizava na rua Barra funda, 149 (O Estado de São Paulo, 19 de março, 3 de de junho e 25 de setembro de 1911).

Participou da Exposição de Turim.

1912 – A Photographia Quaas publicou um anúncio para a contratação de um bom impressor e retocador (O Estado de São Paulo, 6 de janeiro de 1912).

1913 – Seu estabelecimento ficava na rua das Palmeiras, 59, onde residia com sua família.

1920 – Em uma matéria sobre a história da Casa Edison, cujo proprietário era Gustavo Figner, foi relembrado que em fins do século XIX, um fonógrafo do empresário esteve em exposição no estabelecimento de Quaas, na época localizado na rua São Bento (O Estado de São Paulo, 13 de junho de 1920).

1922 – Promovia seus trabalhos modernos e um serviço especial para senhoritas e crianças (A Cigarra, 15 de dezembro de 1922).

1926 – Fotografou a inauguração da pista de atletismo do Sport Club Germânia, atual Esporte Clube Pinheiros (Revista do Esporte Clube Pinheiros, março de 2014). Também do Germânia, fotografou, no fim da década de 20, panoramas do rio com os cochos, a casa de barcos e a figueira de tronco duplo, além das festas ao ar livre e também no salão da Rua Dom José de Barros (Site do Esporte Clube Pinheiros).

1929 / 1930 – Segundo Boris Kossoy, Quaas faleceu por volta de 1929 e 1930, com cerca de 68 anos.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Acervo de O Estado de São Paulo

Acessa SP

Efedeportes.com

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

NASCIMENTO, Ana Paula. Engenharia e sociabilidade – a trajetória de Samuel das Neves no Rio de Janeiro. 19&20, Rio de Janeiro, v. XII, n. 1, jan./jun. 2017.

SÃO PAULO 450 Anos: a imagem e a memória da cidade no acervo do Instituto Moreira Salles. São Paulo: Bei Editora,agosto 2004.

Site da Secretaria da Administração Penitenciária de São Paulo

Site do Esporte Clube Pinheiros

Site Enciclopedia Itaú Cultural

 

O cronista visual de Diamantina: Chichico Alkmim, fotógrafo (1886 – 1978)

O ateliê é o mundo

Eucanaã Ferraz*

As fotografias de Chichico Alkmim (1886 – 1978) são, antes de tudo emocionantes. Mas já o primeiro olhar reconhece o domínio dos recursos técnicos. Aprende a fotografar ainda muito jovem e, em Diamantina, abre seu primeiro estúdio em 1912. Depois de passar por outros endereços, muda-se em 1919 para o beco João Pinto, 86, na parte alta da cidade. Ali, monta seu ateliê definitivo, cujo funcionamento se estenderá até meados de 1950. O pavimento ao nível da rua é destinado ao laboratório fotográfico. Outro cômodo, na parte superior, é adaptado para estúdio, conforme o padrão da época: ampla janela envidraçada em uma das paredes e claraboia; sobre ambas, um cortinado leve, deslizante graças a um sistema de cordas, compondo um mecanismo de controle da luz natural; na parede ao fundo, uma viga de madeira serve como suporte para os painéis pintados com paisagens viçosas e motivos arquitetônicos de gosto classicizante; algum mobiliário – cadeiras, pequenas mesas, apoios para jarros, tapetes, cortina – ajuda a compor os cenários. Vivia-se ainda há pouco na escravidão de homens e mulheres roubados à África. Nas casas de família, tocam-se pianos juvenis. Lá fora, portugueses pobres cantam violões tristíssimos. Os negros fazem festas, vão à igreja. Procissões desfilam em latim enquanto nos cafés os chapéus falam francês. Há muitos padres e carnavais. Há meninos negros de terno em pés descalços. Tudo tão antigo e tão recente esta gente de papel convida a esquecer o tempo – até que a voz de um galo nos acorde.

*Eucanaã Ferraz é poeta e consultor de literatura do Instituto Moreira Salles.

Acessando o link para as fotografias de autoria de Chichico Alkmim disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Pequeno perfil de Chichico Alkmim

O mineiro Chichico Alkmim (1886 – 1978), autodidata, pioneiro da fotografia de estúdio em Diamantina, e primeiro cronista visual da cidade, atuou na profissão, que adotou em 1907, até 1955. Seu primeiro ateliê foi inaugurado em 1912. A obra de Chichico, que compreende imagens da arquitetura diamantinense, sua religiosidade, costumes, ritos e retratos de seus habitantes, é uma das principais referências da memória visual de Minas Gerais. Foi o mestre do fotógrafo Assis Horta(1918-), mineiro de Diamantina, que se tornou conhecido por registrar a classe trabalhadora na era Vargas. Uma curiosidade: a fotografia predileta de Assis Horta foi produzida por Chichico no dia de seu casamento: Eu mesmo levei a máquina para o Chichico fazer o retrato.

Chichico retratou a burguesia e também os trabalhadores ligados ao pequeno garimpo, ao comércio e à indústria. Produziu imagens de casamentos, batizados, funerais, festas populares e religiosas, paisagens e cenas de rua. De 1955, quando parou de  fotografar, até 1978, ano de sua morte, continuou cuidando de seu acervo, que guardava no porão de sua casa.

A gestão do acervo de Chichico Alkmim, de 5.549 negativos de vidro, foi transferida para o Instituto Moreira Salles (IMS), em 2015. Além dos negativos em vidro existem no acervo alguns poucos negativos flexíveis, documentos, objetos e materiais e dezenas de fotografias de época.

Foi inaugurada em 13 de maio de 2017, na sede do IMS, no Rio de Janeiro, a exposição “Chichico Alkmim, fotógrafo”, cuja curadoria é do poeta Eucanaã Ferraz (1961-). Será encerrada em 1º de outubro de 2017. Segundo Eucanaã, “Chichico é daqueles fotógrafos que parecem ter o poder de fazer vir ao primeiro plano a vida de seus modelos. E é patente a densidade existencial que se expressa no conjunto de características físicas que chamamos fisionomia, compreendida como a realização momentânea de um destino”.

 

 Cronologia de Chichico Alkmim

 

1886 – Filho de Herculano Augusto d’Alkmim e Luiza Gomes d’Alkmim, Francisco Augusto de Alkmim, o Chichico Alkmim, nasceu em 28 de março, na fazenda do Sítio, município de Bocaiuva.

1890 – 1900 – Em 7 de abril de 1890, falecimento de sua mãe, em Bocaiuva. Chichico e sua irmã Carmina foram levados para a fazenda do Caeté Mirim, localizada próximo ao distrito de São João da Chapada, das suas tias Tereza de Jesus Gomes Ribeiro e Maria Amélia de Jesus Ribeiro. A irmã mais velha, Amanda, permaneceu em Bocaiuva. Nessa década, na fazenda, foi educado pelas tias, com quem aprendeu a ler e escrever.

1900-1910 – Nesse período, Chichico ajudou nos negócios da fazenda e nos trabalhos de mineração de diamantes empreendidos por suas tias. Realizou várias viagens, a maioria delas em companhia de seu pai, que comercializava gado. Os deslocamentos em tropa davam-se entre Caeté Mirim, São João da Chapada, Diamantina, Bocaiuva, Montes Claros, Buenópolis, Coração de Jesus, Januária, Carinhanha (Bahia) e várias outras localidades do vale do São Francisco, chegando algumas vezes até a Vila de Posse, atual cidade de Posse, em Goiás. Nessas viagens, Chichico vendia jóias e, possivelmente, foi em uma delas que, entre 1900 e 1902, conheceu a fotografia.

1907 – Adotou a profissão de fotógrafo.

1912 - No fim do ano, passou a residir em Diamantina. Sua casa e seu primeiro ateliê ocupavam parte do sobrado situado à praça Francisco Sá, 53, largo do Bonfim (atual sede da Casa da Cultura). Nos anos seguintes, mudou de endereço várias vezes, tendo permanecido por mais tempo em um sobrado localizado no alto da rua da Romana, 37.

1913 – Em 14 de junho, casou-se com Maria Josephina Netto, a Miquita.

1914 – No fim do ano, seu irmão por parte de pai, José Maria Alkmim (1901 – 1974), futuro político e vice-presidente do Brasil, entre 1964 e 1967, passou a residir em sua casa, até completar os estudos em 1921.

1916 - Em 30 de junho, nasceu sua primeira filha, Maria de Jesus Alkmim, que faleceu poucos meses depois.

1917 – Em 20 de agosto, nasceu a segunda filha, Maria Bernadette.

1919 – Em 17 de abril, nasceu a filha Déa Maria. Em 9 de outubro, Chichico mudou-se para o beco João Pinto, 86, na parte alta da cidade, onde montou seu ateliê definitivo.

1920 – Em 20 de outubro, nasceu a filha Luíza Marilac.

1923 – Em 13 de outubro, nasceu a filha Maria Ruth.

1924 – Em 12 de novembro, nasceu o filho José Antônio.

1955 – Encerrou a carreira de fotógrafo.

1978 – Faleceu em consequência de um colapso cardíaco, em 22 de agosto.

1980 – Na inauguração do Centro de Documentação e Pesquisa da Casa da Cultura de Diamantina, durante o 16º Festival de Inverno da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), realizou-se a primeira exposição de fotografias de Chichico, no Museu do Diamante/Ibram/MinC.

1998 – O acervo fotográfico de Chichico, constituído por aproximadamente 5.500 negativos, começou a ser higienizado, indexado e catalogado na Faculdade de Filosofia e Letras da Fundação Educacional do Vale do Jequitinhonha (Fevale), em projeto financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de Minas Gerais (Fapemig) e apoio da UFMG.

1999 – Chichico Alkmim foi apresentado como um artista do circuito fotográfico brasileiro na mostra Minas: minas memorial e contemporânea, realizada no MIS-SP, com curadoria do fotógrafo Bernardo Magalhães.

2002 – O acervo fotográfico de Chichico foi doado pelos seus herdeiros à Fevale.

2005 – Foi lançado o livro O olhar eterno de Chichico Alkmim, pela Editora B, organizado por Flander de Sousa e Verônica Alkmim França.

2008 – Foi realizada a exposição Chichico Alkmim, na galeria da Escola Guignard, Universidade Estadual de Minas Gerais (Uemg), em Belo Horizonte.

2010 – Com a extinção da Fevale, o acervo fotográfico retornou aos herdeiros.

2013 - Foi realizada a exposição Paisagens humanas — Paisagens urbanas, no Memorial Minas Gerais Vale, em Belo Horizonte.

2015 – O acervo de Chichico Alkmim passou a integrar em regime de comodato o acervo de fotografias do Instituto Moreira Salles.

2017 – Foi aberta a exposição Chichico Alkmim, fotógrafo, no Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro, em 13 de maio, com curadoria de Eucanaã Ferraz.

 

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Essa pesquisa contou com a colaboração de Gabriella Vieira Moyle, da equipe do IMS.

 

Publicações relacionadas a Chichico Alkmim:

Diamantina, Chichico Alkmim (1886 – 1978) e Carlos Drummond de Andrade (1902 – 1987)

Elegância brasileira, por Carolina Casarin

Família, por Silviano Santiago sobre uma fotografia de autoria de Chichico Alkmim

O anfitrião de Chichico, por Elvia Bezerra.

O retratista de Diamantina, por Manya Millen

Fontes:

Chichico Aklmim, fotógrafo. IMS, 2017.

FRANÇA, Verônica Alkmim; SOUZA, Flander de (orgs). O olhar eterno de Chichico Alkmim. Belo Horizonte: Editora B, 2005.

HARAZIM, Dorrit. O instante certo. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

Site do Instituto Moreira Salles

Lampião e outros cangaceiros sob as lentes de Benjamin Abrahão

Com registros do fotógrafo sírio Benjamin Abrahão Calil Botto (1901 – 1938), a Brasiliana Fotográfica lembra Lampião, Virgolino Ferreira da Silva (c. 1898 – 1938), o rei do cangaço, e seu bando. A iconografia produzida por Benjamin – registros fotográficos e filme – não é a única sobre o cangaço, mas por sua extensão contribuiu enormemente para o conhecimento da história dos cangaceiros no Brasil. É uma comprovação visual da marcante estética dos bandoleiros da caatinga e os trouxe para os jornais e à imaginação popular. Logo os personagens do cangaço passaram a protagonizar lendas do sertão, canções e cordéis populares e, apesar de sua violência, Lampião tornou-se, para muitos, uma espécie de mártir dos oprimidos. As notícias chamavam atenção ou para a crueldade dos cangaceiros ou a sua bravura. Seriam bandidos ou heróis?

 

 

Outros fotógrafos registraram os cangaceiros e as volantes – forças especiais criadas para combater o cangaço. Foram eles Alcides Fraga, Chico Ribeiro, Eronildes de Carvalho, Lauro Cabral e Pedro Maia, todos na década de 1920. Há também imagens de autoria desconhecida.

 

Acessando o link para as fotografias do cangaço disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Cerca de um ano após a morte do Padre Cícero, de quem Benjamin havia sido secretário particular, ocorrida em 20 de julho de 1934, Benjamin levou a Adhemar Bezerra de Albuquerque (1892 – 1975) sua ideia de fotografar e filmar Lampião e seus cangaceiros. Adhemar, pai do fotógrafo Chico Albuquerque (1917 – 2000), havia fundado, em 1934, a Aba Film, em Fortaleza, para a qual, trabalhando como cinematografista, Benjamin produziu entre 1936 e 1937 fotografias e um filme sobre o rei do cangaço e seu bando. Adhemar forneceu a Benjamin equipamentos cinematográficos e fotográficos, além de filmes. Também passou a Benjamin noções básicas de como utilizá-los.

No primeiro encontro, Benjamin foi levado pelos cangaceiros Juriti e Marreca a Lampião, que o recebeu oferecendo comida e conhaque, dizendo: Não sei como você veio bater aqui com vida, bicho velho. Só mesmo obra de Marreca que é muito camarada. Benjamin, então, armou a máquina e quando ia bater as fotografias, foi impedido por Lampião, que examinou o equipamento e ordenou: Primeiro a gente tira o seu retrato. Depois disso, Benjamin pode fazer seus registros, até ser interrompido por Lampião. Uma observação: na matéria do Diário de Pernambuco acima citada, um dos cangaceiros mencionados como tendo levado Benjamin a Lampião, foi Mergulhão. Em janeiro de 1937, Benjamin esclareceu que tratava-se de Marreca.

Quatro meses depois, teve um novo encontro com Lampião e seu bando. Nessa ocasião, passou três dias com o grupo e pode registrar vários de seus hábitos como a reza da missa de domingo, celebrada pelo próprio Lampião, o almoço e a maneira de se vestirem e se comportarem. Revelou também que Maria Bonita, devido a uma promessa não trabalhava aos sábados, domingos e segundas-feiras.

Ao longo de 1937, várias fotos de Lampião e de seu bando produzidas por Benjamin foram publicadas pelos Diários Associados.

 

 

Tanto as fotografias como o documentário de Benjamin Abrahão foram considerados uma afronta ao governo federal. Todo o material foi apreendido após uma exibição do filme em sessão fechada para autoridades locais no Cine Moderno, em 10 de abril de 1937, em Fortaleza. Segundo o fotógrafo Chico Albuquerque, quando, em 1941, os sócios da empresa tentaram reaver o filme apreendido, receberam apenas 20 contos como indenização (Novidades Fotoptica, 1970).

Segundo Angelo Osmiro Barreto, muitos anos depois, os negativos do filme e das fotos foram encontrados empoeirados e jogados em um canto qualquer de uma sala de repartição pública. Foram recuperados por Alexandre Wulfes (1901 – 1974) e Al Ghiu (1925 – ) e montados em 1955. Posteriormente, a Cinemateca Brasileira recuperou as imagens e encontrou aproximadamente mais cinco minutos do filme original. Segundo Ricardo Albuquerque, filho de Chico Albuquerque e neto de Adhemar, depois o material foi reavaliado e novamente montado seguindo um critério estritamente documental do filme.

Nas palavras de Elise Jasmin, Lampião era manipulador, estrategista, dotado de um senso inato de comunicação – soube como poucos se utilizar do poder da fotografia, em especial quando estampada nas páginas da imprensa, que ajudavam a torná-lo onipresente. E mesmo perto do fim de sua “carreira”, quando – depois de aterrorizar sete estados nordestinos – optou por uma vida sedentária, sua imagem circulava em grande parte do sertão, como um corpo figurado que vinha substituir simbolicamente o corpo real do guerreiro que antes percorria a região (Joaquim Marçal de Andrade in Cangaceiros, 2014).

Segundo o historiador Frederico Pernambucano de Mello, autor do livro Guerreiros do Sol (1985), um clássico sobre a história do cangaço, não há dúvidas de que Lampião foi derrotado e morto pelas forças policiais em julho de 1938. Porém sua derrota não teria sido completa: se perdeu militarmente, o rei do cangaço foi vitorioso esteticamente. Seu chapéu e uniforme cheio de ouro e detalhes bordados estão entre os principais símbolos do nordeste brasileiro; e, não por acaso, seja em uma visão romantizada ou através do repúdio, Lampião continua sendo alvo de fascínio (Jornal do Comércio, 20 de outubro de 2015).

As cenas filmadas por Benjamin do cotidiano do bando de Lampião, das quais restaram aproximadamente 15 minutos, inspiraram os filmes O Cangaceiro, de 1953, dirigido por Victor Lima Barreto (1906 – 1982), e O Baile Perfumado, de 1997, de Paulo Caldas e Lírio Ferreira.

Em 2013, o Instituto Moreira Salles adquiriu junto ao Instituto Cultural Chico Albuquerque o direito de uso dessas imagens para fins culturais.

 

Um pouco sobre o cangaço e sobre a morte de Lampião

 

O cangaço, segundo Moacir Assunção, é um fenômeno social característico da sociedade rural brasileira.  No nordeste, existiu desde o século XVIII, quando José Gomes, o Cabeleira aterrorizava populações rurais de Pernambuco. O movimento atravessou o século XIX, só terminando em 25 de maio 1940, com a morte de Corisco (1907 – 1940), sucessor de Lampião e seu principal lugar-tenente, pela volante de Zé Rufino (Diário de Pernambuco, 1º de junho de 1940, na sexta coluna).

Os homens do cangaço espalhavam fama, violência e aplicavam um conceito muito particular de justiça em sete estados do Nordeste. Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia sofriam não apenas nas mãos desses grupos nômades, mas também com a seca, com a fome e com uma sociedade desigual e injusta, que perpetuava um modelo pérfido de exploração do trabalho.'(Ângelo Osmiro Barreto in Iconografia do Cangaço, 2012)

Em 28 de julho de 1938, na grota de Angico, em Sergipe, perto da divisa com o estado de Alagoas, o bando de Lampião foi cercado por uma força volante comandada pelo tenente João Bezerra da Silva (1898 – 1970), pelo aspirante Ferreira Mello e pelo sargento Aniceto da Silva. Além de Lampião, foram mortos sua mulher, Maria Gomes de Oliveira (c. 1911 – 1938), conhecida como Maria Bonita, e os cangaceiros Alecrim, Colchete, Elétrico, Enedina, Luiz Pedro, Macela, Mergulhão, Moeda e Quinta-feira. Foram todos decapitados. No combate, foi morto o soldado Adrião Pedro de Souza. João Bezerra e outro militar ficaram feridos (Jornal do Brasil, 30 de julho de 1938, na primeira coluna, Diário de Pernambuco, 30 de julho de 1938, com uma fotografia de autoria de BenjaminDiário de Pernambuco, 31 de julho de 1938, 3 de agosto de 1938 25 de agosto de 1968). Quando Lampião foi morto o, o fotógrafo Benjamin Abrahão havia sido assassinado há cerca de dois meses.

 

 

No dia seguinte à morte de Lampião, foi publicada uma entrevista dada por Chico Albuquerque (1917 – 2000), filho do proprietário da Aba Film, na primeira página do Diário da Noite, onde contou a história da produção do filme sobre Lampião produzido por Benjamin (Diário da Noite, 29 de julho de 1938).

 

 

As cabeças decapitadas dos cangaceiros, após exposição nas escadarias da prefeitura de Piranhas em Alagoas, seguiram para a capital do estado, Maceió. De lá, seguiram para Salvador, onde ficaram no Museu Nina Rodrigues, também conhecido como Museu Antropológico Estácio de Lima. Em 1969, as cabeças de Lampião e Maria Bonita foram enterradas no cemitério Quinta dos Lázaros, na mesma cidade (Correio da Manhã, 13 de fevereiro de 1969, na última coluna).

 

 

Uma curiosidade a respeito do apelido de Lampião, segundo publicado no Diário da Noite de 8 de fevereiro de 1937, na primeira coluna:

 ‘Lampião é um cabra desconfiado e perverso. O apelido que usa é o seu maior orgulho. Foi lhe dado num combate no início de sua carreira criminosa quando se filiou ao cangaço do famoso Luiz Padre. Na peleja, travada ao descambar da tarde, Virgolino atirava com tanta rapidez que da boca do seu rifle saia verdadeira faixa de fogo, iluminando o chão.

_ “Nós não precisa mais de sol porque já temos um lampião!”, gritavam os cangaceiros.

E desde aí ficou ele com o seu nome de guerra consagrado’.

 

Pequeno perfil do fotógrafo Benjamin Abrahão Calil Botto (1901 – 1938)

Segundo seus familiares, Benjamin Abrahão Calil Botto nasceu, em 1901, em Zahle, na época uma cidade da Síria e atualmente do Líbano, e veio para o Brasil, na década de 1910, provavelmente, fugindo da Primeira Guerra Mundial. Segundo o próprio, havia nascido em Belém, mesma cidade natal de Jesus Cristo. Tinha parentes no Recife. Trabalhou como mascate na cidade e no interior nordestino. Foi durante algum tempo secretário particular do venerado padre Cícero Romão Batista (1844 – 1834), na cidade de Juazeiro do Norte, no Ceará. O reverendo havia ficado impressionado pelo fato de Benjamin ter nascido em Belém.

Foi em 1926 que Benjamin provavelmente conheceu Lampião, que havia ido fazer uma visita ao Padre Cícero, organizada por Floro Bartolomeu (1876 – 1926), deputado federal e coronel poderoso da região do Cariri (Jornal do Recife, 10 de abril de 1926).  Na ocasião, Lampião e seu bando foram convencidos a entrar para o Batalhão Patriótico, uma milícia para combater a Coluna Prestes, e Lampião recebeu a patente de capitão, armamentos e uniformes do Exército. Pouco tempo depois, o acordo foi desfeito.

Cerca de um ano após a morte do Padre Cícero, ocorrida em 1934, Benjamin levou a Adhemar Bezerra de Albuquerque (1892 – 1975), proprietário da Aba Fim, em Fortaleza, um projeto para fotografar e filmar Lampião e seu bando. Adhemar forneceu a Benjamin equipamentos cinematográficos e fotográficos, além de filmes e, entre 1936 e 1937, Benjamin produziu fotografias e um filme sobre o rei do cangaço.

Em matéria publicada no Diário de Pernambuco de 27 de dezembro de 1936, Benjamin foi apresentado como sírio naturalizado brasileiro e como fundador do periódico Cariri, em Juazeiro do Norte. Segundo a mesma reportagem, em meados de 1935 ele havia tido a ideia de documentar a vida de Lampião. Meteu-se numa roupa de brim azulão, sacudiu a tiracolo sua máquina fotográfica e se internou nas caatingas. Ao longo de 18 meses, viajou pelo sertão de Alagoas, Bahia, Paraíba, Pernambuco e Sergipe, e encontrou-se duas vezes com Lampião.

Ao longo de 1937, várias fotos de Lampião e de seu bando produzidas por Benjamin foram publicadas pelos Diários Associados. Foi também divulgado um bilhete escrito por Lampião atestando a autenticidade dos registros de Benjamin (Diário de Pernambuco, 18 de fevereiro de 1937).

‘Illmo Sr. Bejamim Abrahão
Saudações
Venho lhe afirmar que foi a primeira pessoa que conseguiu filmar eu com todos os meus pessoal cangaceiros, filmando assim todos os movimentos da nossa vida nas caatingas dos sertões nordestinos.
Outra pessoa não conseguiu nem conseguirá nem mesmo eu consentirei mais.
Sem mais do amigo
Capm Virgulino Ferreira da Silva
Vulgo Capm Lampião’

Benjamin Abrahão foi assassinado com 42 facadas, em Águas Belas, hoje Itaíba, no interior de Pernambuco, em maio de 1938 (Diário da Noite, 9 de maio de 1938, na quarta coluna,  Diário de Pernambuco, 10 de maio de 1938, na quarta coluna e Diário de Pernambuco, 19 de maio de 1938, na quinta coluna). Os motivos de sua morte ainda não estão esclarecidos. As hipóteses vão desde crime passional até queima de arquivo, já que ele sabia do envolvimento de autoridades com Lampião.

 

Pequena cronologia de Benjamin Abrahão Calil Botto (1901 – 1938)

1901 – Segundo sua família, Benjamin Abrahão Calil Botto nasceu em Zahle (na época, cidade na Síria e, atualmente, do Líbano). Segundo o próprio, havia nascido em Belém, local de nascimento de Jesus Cristo.

c. 1910 – Por volta desse ano, todo fim de mês ia para Damasco, na Síria, com um tio que armava caravanas para a venda de utensílios aos beduínos.

1915 – Benjamin desembarcou no porto de Recife, fugindo ao alistamento militar obrigatório devido à Primeira Guerra Mundial. Aqui fez contato com parentes distantes, os Elihimas, que trabalhavam no comércio da cidade, no ramo de miudezas por atacado, das ferragens, de equipamentos de caça e da pesca, na Rua Visconde de Inhaúma, nº 83-91, com filiais em João Pessoa e em Campina Grande, Paraíba.

c. 1915 – Fugiu do colégio onde os seus primos Elihimas o matricularam e foi para Rio Branco, atual Arcoverde. Devolvido aos parentes, passou a trabalhar como mascate.

1916 – Em São Bento do Una, ficou amigo do fazendeiro José Ferreira de Morais é foi acolhido na casa-grande.

1916 / 1917 – Em Arcoverde, toma conhecimento da existência do Padre Cícero Romão Batista (1844 – 1834), o Padim Ciço, por romeiros que partiriam para Juazeiro do Norte, no Ceará, onde morava o sacerdote, considerado virtuoso e místico, que havia se ordenado no Seminário de Fortaleza, em 1870. O religioso obteve sua aura de santidade ao transformar a hóstia em sangue na boca da beata Maria de Araújo, em 6 de março de 1889. O fato teria se repetido diversas vezes durante cerca de dois anos.

Benjamin, soube que milhares de nordestinos iam a Juazeiro do Norte para receber a bênção do padre pelo menos uma vez por ano, o que tornara a cidade um excelente local para negócios. Decide então ir para Juazeiro do Norte.

Todos os dias, o Padim Ciço dava uma bênção, de sua casa, a seus fiéis. A mensagem costumeira era: Meus amiguinhos, quem matou, não mate mais! Quem roubou, não roube mais! Quem pecou, não peque mais! Os amancebados se casem! Um dia, Benjamin conseguiu ser avistado pelo sacerdote, que perguntou a ele sua origem. Benjamin identificou-se como natural de Belém, a terra de Jesus, e pediu para ficar na cidade, sob a proteção do religioso. O padre então respondeu: Fique meu filho. Seja bom e pode sentir-se aqui como se fosse a sua própria casa.

Benjamin foi morar na casa de Pelúsio Correia de Macedo (1867 – 1955), pessoa da inteira confiança do Padre Cícero. Pelúsio foi dono da primeira oficina mecânica da cidade e também fundou a primeira escola de música, onde surgiu a primeira banda de Juazeiro do Norte, que animava desfiles e festas sob sua regência. Foi também proprietário do Cine Iracema, primeiro telegrafista da Estação Telegráfica de Juazeiro do Norte, além de fabricante de quase todos os relógios públicos da região.

Padre Cícero mandou matricular Benjamin no Colégio São Miguel, do professor Manuel Pereira Diniz (1887 – 1949).

Foi incumbido de fotografar a primeira visita feita por um governador do Ceará, José Tomé de Sabóia e Silva (1870 – 1945), a Juazeiro do Norte.

Retomou o ofício de ourives, tentando aprimorar os rudimentos que havia trazido da casa de seus pais. Estudou no Crato com o mestre Teofisto Abath.

c. 1920 – Como ourives, viajou por Cajazeiras, Crato, Jardim e Barbalha. Teve a notícia da morte de sua mãe e recebeu uma herança, enviada por seus primos de Recife.

Abriu um armazém de artigos religiosos e fixou-se em Juazeiro do Norte, em 1920.

Benjamin tornou-se secretário particular do Padre Cícero e passou a morar na casa paroquial. Pouco tempo depois, recebeu as chaves da casa. Como assistente pessoal do sacerdote passou a ter muito poder e a exercer diversas atribuições públicas e privadas. Conheceu personalidades de destaque nacional, clérigos, políticos, militares e educadores.

Benjamin começou a prosperar com a venda aos romeiros de objetos supostamente abençoados pelo Padre Cícero.

Participou também de jogatinas e do desvio de valores doados à igreja, o que decepcionou Joana Tertulina de Jesus, a beata Mocinha, que mais prestígio tinha com o Padre Cícero.

1924 – Benjamin, que dizia-se jornalista, no periódico O Ideal, envolveu-se na denúncia feita pelo farmacêutico José Geraldo da Cruz com o auxílio de Manuel Diniz sobre o fuzilamento sumário de presos tirados da cadeia pública pelo médico e político baiano Floro Bartolomeu da Costa (1876 – 1926), velho amigo do Padre Cícero. Foi Floro que, em 1914, liderou o episódio que ficou conhecido como a Sedição de Juazeiro, um confronto entre as oligarquias cearenses e o governo federal, quando um exército de jagunços derrotou as forças do governo federal e Marcos Franco Rabelo (1851 – 1940) foi deposto do governo do Ceará. Além disso, Floro havia sido importante na ocasião da emancipação de Juazeiro do Norte, em 1911, quando o Padre Cícero tornou-se o primeiro prefeito da cidade.

1925 - Na festa de descerramento da estátua de bronze do Padre Cícero, em 11 de janeiro, ocasião em que a cidade atraiu cerca de 40 mil romeiros, no intervalo dos discursos, Benjamim tentou falar algumas palavras, mas foi interrompido por Floro Bartolomeu, que abriu seu paletó e gritou Desça daí! Seguiu-se a fala do Padre Cícero.

O padre Manuel Correia de Macedo, filho de Pelúsio de Macedo, acusou Floro Bartolomeu de déspota, de subjugador do Padre Cícero e de corrupto no livro Juazeiro em foco, publicado em Fortaleza pela Editora de Autores Católicos.

Em junho, José Landim, compadre de Floro e escrivão da Coletoria, agrediu Benjamin, durante os festejos de recepção ao padre Macedo, em Juazeiro.

Em agosto, Floro alegou ter sido alvejado à bala pelo turco Benjamin Abrahão quando participava de uma reunião na casa de Francisco Alencar. Benjamin foi preso. Segundo telegrama enviado por Floro ao advogado Raimundo Gomes de Matos, em Fortaleza: Não podendo ser provado que o turco Benjamin Abrahão realmente quisesse cometer um atentado, por isso que não chegeui a lançar mão da arma, e mais ainda porque escreveu carta, para ser publicada, declarando querer morar aqui e outreas coisas, foi solto completamente encabulado.

1926 - Nesse ano, Benjamin já vivia com Josefa Araújo Alves, com quem teve dois filhos: Atallah e Abdallah. O primeiro foi criado como filho por seu amigo, Gonçalo Mundó.

De 4 a 7 de março, Lampião e seu bando ficaram em Juazeiro do Norte em visita organizada por Floro Bartolomeu (1876 – 1926), que faleceu em 8 de março, no Rio de Janeiro. Foi na ocasião dessa visita que Benjamin provavelmente conheceu Lampião. Foram realizados saraus dançantes em homenagens a Lampião, que participou de conferências com autoridades públicas. Encontrou-se com o Padre Cícero e com o coronel Pedro Silvino, comandante do Batalhão Patriótico, uma milícia para combater a Coluna Prestes. Lampião e seu bando entraram para o citado batalhão e Lampião recebeu a patente de capitão honorário das Forças Legais de Combate aos Revoltosos, manuscrita por Pedro de Albuquerque Uchoa, ajudante de inspetor agrícola federal. Ele e seu bando receberam armamentos, munição e uniformes do Exército. Pouco tempo depois, o acordo foi desfeito. Em Juazeiro, os cangaceiros foram fotografados por Lauro Cabral de Oliveira Leite e por Pedro Maia (Jornal do Recife, 10 de abril de 1926).

Durante sua estada em Juazeiro do Norte, quando já estava hospedado no sobrado de João Mendes de Oliveira, Lampião foi visitado pelos ourives da região, levados por Benjamin Abrahão.

1927 – Benjamin prestava serviços a jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo.

1929 – Benjamin residia na casa do Padre Cícero (A Razão, 17 de outubro de 1929, na terceira coluna).

Benjamin despachou para todo o sertão emissários com a notícia, falsa, de que o Padre Cícero daria uma bênção de despedida aos romeiros. Juazeiro foi invadida por romeiros e Benjamin, que havia reforçado o estoque de sua loja, lucra muito.

Benjamim foi confirmado como colaborador especial do jornal O Globo, no Cariri.

1930 – Em 4 de janeiro, Benjamin fundou o jornal O Cariri, dirigido pelo advogado do Padre Cícero, Antônio Alencar Araripe, e editado pelos professores Manuel Diniz e J. Rocha. Teve pelo menos doze edições até março de 1931, quando teve seu título arrematado por editores do Crato.

Benjamin foi recebido pelo presidente do estado do Ceará, Manuel Fernandes Távora (1877 – 1977) (A Razão, 18 de outubro de 1930, na terceira coluna).

1932 – Era uma das pessoas mais influentes do círculo do Padre Cícero (O Jornal, 19 de maio de 1932, na segunda coluna).

1933 – Após uma viagem a Juazeiro do Norte, Otacílio Alecrim publicou no Diário de Pernambuco o artigo “O desencanto de Macunaíma”, em que estranhou dois fatos quando visitou a casa paroquial do Padre Cícero: uma vitrola de corda e a onipresença de um secretário turco: Francamente, com um turco e uma vitrola, não há messias que possa ser levado a sério…(Diário de Pernambuco, 12 de fevereiro de 1933, na penúltima e última colunas).

 

Benjamin concluiu ao lado de dezessete rapazes de Juazeiro do Norte e de cidades ao redor, a primeira turma do Tiro de Guerra 48, implantado no Juazeiro em 1931.  A instrução havia sido suspensa, em 1932, devido ao movimento constitucionalista de São Paulo. Benjamin tornou-se, assim, reservista do Exército.

1934 - Falecimento do Padre Cícero, em 20 de julho. Segundo o escritor Otacílio Anselmo, em meio às dezenas de repórteres , um deles chama a atenção de todos, tanto pela mobilidade como pelo modo de manejar sua máquina, provida de pequena manivela…o tal cinegrafista era o sírio Benjamin Abrahão, antigo leão de chácara do sacerdote, aproveitando o acontecimento para concluir um filme sobre a vida do famoso líder sertanejo.

Benjamin fotografou o morto de diversos modos e cortou uma mecha de seu cabelo, que vendeu a diversos devotos até que um deles se seu conta que o padre não tinha tanto cabelo…

Fundação da Aba Film por Adhemar Bezerra de Albuquerque (1892 – 1975), funcionário do Bank of London & South America Limited em Fortaleza. A empresa era de material fotográfico e de produção de imagens, inclusive cinematográficas. Adhemar era pai do fotógrafo Chico Albuquerque (1917 – 2000) e de Antônio Albuquerque.

Adhemar foi para Juazeiro do Norte realizar o documentário Funerais de Padre Cícero. Provavelmente, nessa ocasião, conheceu Benjamin Abrahão.

1935 – Abrahão apresentou seu projeto de fotografar e filmar Lampião e seu bando à Aba Film. Adhemar forneceu a Benjamin equipamentos cinematográficos e fotográficos, além de filmes. Também passou a Benjamin noções básicas de como utilizá-los.

Benjamin meteu-se numa roupa de brim azulão, sacudiu a tiracolo sua máquina fotográfica e se internou nas caatingas. Ao longo de 18 meses, viajou pelo sertão de Alagoas, Bahia, Paraíba, Pernambuco e Sergipe, e encontrou-se mais duas vezes com Lampião (Diário de Pernambuco de 27 de dezembro de 1936).

Segundo anotações em sua caderneta de campo, esse foi o início de seu trajeto:

10 de maio – partiu de Fortaleza para a missão/ 12 de maio – está em Missão Velha / 13 de maio – Brejo Santo / 14 de maio – Jati / 15 de maio – Belmonte, e Fazenda Boqueirão, em Pernambuco / 16 a 21 de maio – Vila Bela, atual Serra Talhada / 22 e 23 de maio – Custódia e Rio Branco, atual Arcoverde / 24 de maio – Pedra de Buíque / dian25 de maio – de Negras a Jaburu, quando deixa Pernambuco e chega a Alagoas / dia 26 de maio – de Caititu a Mata Grande / 27 de maio – de Manuel Gomes ao Capiá / 28 de maio – Olho d´Água do Chicão/ 3 de junho – Maravilha.

Benjamin radicou-se na vila do Pau Ferro, município de Águas Belas, em Pernambuco, tomando o lugar como sua base de operações. Inaugurou a parte terrestre de sua busca em Maravilha, no estado de Alagoas. Assim começava a aventura de Benjamin em busca de Lampião e seu bando.

No segundo semestre, perambulou pelos sertões de Alagoas e de Pernambuco. Em Pau Ferro, hospedava-se na casa de Antônio Paranhos, motorista de Audálio Tenório de Albuquerque , chefe do lugar, e protetor de Lampião.

1936 - Em 20 de janeiro, Benjamin autorretratou-se contra uma cerca com seu equipamento trançado em xis sobre os ombros. Naquela altura, ainda não havia encontrado os cangaceiros.

Ao longo do ano, encontrou-se duas vezes com Lampião e seu bando.

 

 

O historiador Frederico Pernambucano de Mello estima que o primeiro encontro tenha acontecido em fins de março, nas caatingas alagoanas da ribeira do Capiá, soltas bravias do Canapi, então do município de Mata Grande, no limite entre as fazendas Lajeiro Alto e Poço do Boi. A localização do encontro foi revelada em entrevista por Aristeia, mulher do cangaceiro Catingueira, em depoimento de 2004. Benjamin foi levado até Lampião pelos cangaceiros Juriti e Marreca. Almoçaram bode assado com farinha de mandioca e beberam conhaque Macieira. Segundo matéria publicada no jornal O Povo, de 12 de janeiro de 1937, Benjamin ficou com o grupo central, o de Lampião, por cinco dias.

Benjamin viajou para Fortaleza, em 17 de maio para, na Aba Film, situada na rua Major Fecundo, iniciar a revelação dos negativos realizados de Lampião e seu bando.

Em meados de julho, voltou a encontrar Lampião, com quem passou três dias.

…Lampião estava pronto para confirmar sua presença na História através da linguagem moderna do cinema. Benjamin passava de solicitante a solicitado, revalando para a garupa do projeto, a ser tocado doravante pelo próprio cangaceiro. Pior seria ficar a pé…

Somente a ocorrência dessa troca de postos, soprada pelo sírio a Antônio Paranhos no segundo regresso ao Pau Ferro, explica o número de cenas que se irá obter nos cerca de quinze minutos de película e cerca de noventa fotografias que se salvaram para a história, a variedade das revelações desveladas a cada segundo – algumas pungentes, como a do bando a rezar, todos descobertos, momentaneamente desarmados, joelhos fincados na poeira – e a docilidade dos “atores”, a tudo se prestando diante das câmeras. Não somente da Ica, cinematográfica, mas da Universal, de fotografia, uma “caixão” de objetiva dupla, também da Zeiss, negativos de 6 x 6 cm’ (Frederico Pernambucano de Mello in Benjamin Abrahão – entre anjos e cangaceiros).

Em 28 de setembro, os cangaceiros atacaram a cidade de Piranhas, em Alagoas, para libertar Inhacinha, a mulher do cangaceiro Gato, que havia sido baleada e presa pela volante do tenente João Bezerra da Silva (1898 – 1970). Porém, ela estava presa na cadeia da Pedra de Delmiro Gouveia. Foram recebidos por uma resistência feita apenas por civis, homens e mulheres. Uma das mulheres era dona Cira de Brito Bezerra, mulher do tenente João Bezerra. Os cangaceiros espalharam que a prenderiam caso Inhacinha não fosse encontrada ou morresse durante a ação. Sobre o ocorrido, Benjamin comentou:

Atravessava o rio quando se travou o combate. Encontrava-me a uma distância de meia légua da cidade. Corrio ansioso para lá. Era uma oportunidade que não devia deixar escapar. Infelizmente, cheguei tarde. Os bandidos já se retiravam. Bem junto a mim, em um sofá, ferido, passou Gato, chefe do grupo. Quando entrava na cidade, tomaram-me por bandido e, por um triz, não me bateram‘.

Até outubro, Benjamin fez diversas incursões a cada um dos chefes de subgrupos de Lampião. Produziu mais fotografias e um filme.

 

 

No Recife, deu uma entrevista, publicada no Diário de Pernambuco de 27 de dezembro de 1936, quando anunciou a realização de um filme e a produção de diversas fotografias de Lampião e seu bando. Foi apresentado como sírio naturalizado brasileiro e como fundador do periódico Cariri, em Juazeiro.

 

 

Benjamin apresentou-se na Aba Film, em Fortaleza, no dia 28 de dezembro, mesma data em que João Jacques publicou no jornal O Povo, matéria intitulada Carta ao Leota, na qual questionava o fato de Lampião e seu bando ter sido filmado e fotografado e continuar solto. Leota é Leonardo Mota, autor do livro No tempo de Lampião, de 1930.

Que acha desse furo? Que me diz sobre o caso? Será possível, meu amigo, que se possa ainda, por esses tempos tão mudados, filmar um bandoleiro, um gangster, um assassino mil vezes assassino e não se tenha meios de apanhá-lo?

No dia seguinte, dia 29, foi publicada na primeira página do jornal O Povo a matéria intitulada Sensacional vitória da Aba Film: uma das mais importantes reportagens fotográficas dos últimos tempos, Lampião, sua mulher e seus sequazes filmados em pleno sertão, ilustrada por fotografias de Benjamin ao lado de Lampião, de Maria Bonita, e da guarda pessoal do cangaceiro. A tiragem do jornal foi duplicada e totalmente esgotada.

No dia 31 de dezembro, o jornal O Povo publicou uma fotografia inédita de Maria Bonita sentada com os cachorros Ligeiro e Guarani.

1937 – No dia 10 de janeiro, Benjamin, que havia estado no sertão, retornou a Fortaleza.

No jornal O Povo, de 12 de janeiro de 1937, Benjamin revelou que Maria Bonita escolheu ser mulher de Lampião por livre e espontânea vontade, contrariando a versão de que ela havia sido raptada e estuprada pelo cangaceiro.

Foi publicada pelos Diários Associados, uma fotografia onde Benjamin aparecia ao lado do casal Lampião e Maria Bonita (Diário de Pernambuco, 16 de janeiro de 1937). Dias antes, o Diário da Noite, havia publicado uma notícia sobre o encontro de Benjamin com Lampião. Benjamin revelou que havia trazido também, além de imagens, a primeira entrevista escrita e assinada pelo bandido (Diário da Noite, 8 de janeiro de 1938, na última coluna). Outras fotografias de Lampião foram publicadas, uma delas mostrando o cangaceiro lendo um romance policial. Segundo Benjamin, Lampião gostava muito dos livros do belga Georges Simenon (1903 – 1989) e do inglês Edgard Wallace (1875 – 1932) (Diário de Pernambuco20 de janeiro de 193712 de fevereiro de 193714 de fevereiro de 1937, 17 de fevereiro, 19 de fevereiro20 de fevereiro de 1937, 21 de fevereiro 30 de julho de 1938Diário da Noite8 de fevereiro de 193729 de julho de 1938 e  30 de julho de 1938). Foram também publicadas fotografias das volantes (Diário de Pernambuco, 27 de abril de 1937).

Segundo o comerciante Farid Aon, amigo de Benjamin, dias depois do carnaval, terminado em 10 de fevereiro, Benjamin foi ao quartel da Sétima Região Militar, no Recife, para tentar obter uma licença do general para exibir o filme sobre Lampião em cinemas públicos. A oficialidade exigiu o exame do filme e, ao assistir à projeção, achou que o documentário era vergonhoso para o Brasil, ficou irritada, rebentou o filme e o projetor, e Benjamin foi maltratado e detido por uma semana.

Lampião escreveu um bilhete atestando a autenticidade dos registros de Benjamin (Diário de Pernambuco, 18 de fevereiro de 1937).

Na revista O Cruzeiro, de 6 de março de 1937, publicação de uma página com cinco fotografias de Lampião, de autoria de Benjamin, com o título Filmando Lampeão! Na matéria, mais uma vez, foi questionado o fato do bando de cangaceiros ainda estar solto.

 

 

As fotografias dos cangaceiros em poses que transmitiam orgulho e segurança irritaram o presidente Getúlio Vargas, fato que impulsionou o definitivo esforço de repressão que exterminaria os bandoleiros do sertão. Além disso, o documentário sobre Lampião foi apreendido.

Não poderá ser exibido o filme de Lampião! Com essa manchete na primeira página do jornal O Povo, de 3 de abril de 1937, ilustrada com uma fotografia de Benjamin ladeando Lampião e Maria Bonita, era informado que o documentário sobre o cangaceiro deveria ser apreendido, por ordem do dr. Lourival Fontes (1899 – 1967), diretor do Departamento de Imprensa e Propaganda, durante o governo de Getúlio Vargas (1882 – 1954). O filme não poderia ser exibido nos cinemas do país, por atentar contra os créditos da nacionalidade.

Foi publicada no Correio do Ceará, 7 de abril de 1937, a transcrição da ordem dada por Lourival Fontes, que por telegrama determinou a apreensão do filme Lampião, que se exibia em Fortaleza:

‘Secretário Segurança Pública Estado do Ceará – Fortaleza.
Tendo chegado ao conhecimento do Departamento Nacional de Propaganda, estar sendo annunciado ou exhibido na capital ou cidades desse Estado, um filme sobre Lampeão, de propriedade de “Aba Film”, com sede á rua Major Facundo, solicito vos digneis providenciar no sentido de ser apprehendido immediatamente o referido filme, com todas suas copias, e respectivo negativo, e remettel-os a esta repartição, devendo ser evitado seja o mesmo negociado com terceiros e enviado para fora do paiz.
Attenciosos cumprimentos. Lourival Fontes, director do Departamento Nacional de Propaganda do Ministério da Justiça.’

Em 10 de abril, houve uma exibição especial do filme, às 17h, no Cinema Moderno, em Fortaleza, para o chefe de Polícia, o capitão Manuel Cordeiro Neto (1901 – 1992), assistido também pelo secretário do Interior do Ceará, pelo juiz federal de Fortaleza,pelos delegados de polícia da capital, pelos comandantes do 23º Batalhão de Caçadores do Exército e da Força Pública do Estado, por representantes de jornais e de empresas telegráficas. Em 22 de junho de 1979, o então já reformado general do Exército Brasileiro, Cordeiro Guerra, declarou sobre o filme apreendido: Se nada do conteúdo do filme ficou na minha lembrança de maneira viva, é porque as cenas a que assisti, em exibição especial que solicitei, ao lado de um conjunto de autoridades, eram triviais, coisas domésticas.

Foi publicado o artigo O reduto do “Caldeirão” do beato José Lourenço, de autoria de Benjamin Abrahão (Diário de Pernambuco, 2 de junho de 1937). Fiel seguidor do Padre Cícero, José Lourenço (1872 – 1946) foi o líder da comunidade Caldeirão de Santa Cruz do Deserto, localizada na zona rural do Crato, extinta em 9 de maio de 1937. Segundo revelou a seu sobrinho Aziz, escreveu o artigo para sobreviver publicamente e regressar à imprensa.

Na edição de 7 de agosto do Diário de Pernambuco, o poeta e folclorista Ascenso Ferreira (1895 – 1965) convidava para a vaquejada de Surubim, em Pernambuco, evento de maior destaque dos esportes regionais do estado. Benjamin, que estava hospedado, no Recife, na casa de dona Wadia, matriarca da família Elihimas, viu na convocação para as vaquejadas uma oportunidade de trabalho. Como uma das vaquejadas mais tradicionais acontecia na fazenda Barra Formosa, no Pau Ferro de Águas Belas, Benjamin foi para lá a tempo de se engajar nos preparativos da festa, que aconteceria em novembro. A fazenda era de propriedade do coronel Audálio Tenório de Albuquerque (1906 – ?), grande amigo de Lampião. O coronel Audálio deixou que Benjamin explorasse a jogatina durante o evento, além de instalar tendas de bebidas e aperitivos.

Chegou em Pau Ferro um carregamento da Aba Film, de Fortaleza, para Benjamin: centenas de fotografias em diferentes tamanhos, com predominância do formato de cartão-postal, de cangaceiros dos vários grupos de Lampião. Começaria, então, a distribuir seu produto, barato e muitíssimo vendável, pelas feiras livres e pelo comércio fixo de Pernambuco. Começaria, assim, a tentar recuperar parte do prejuízo causado pela apreensão do filme que repercutiu sobre o patrimônio da Aba Film e da Benjamin & Cia, do Juazeiro.

Em meados de outubro, as fotografias estavam espalhadas por todo o sertão. O major Lucena Maranhão, comandante da unidade sertaneja da polícia de Alagoas, homem temido em todo o nordeste e perseguidor ferrenho de Lampião, mandou recolher as imagens. Benjamin, então, tocou fogo nas fotografias estocadas. Benjamin foi a Recife obter do Diário de Pernambuco uma declaração de que está em Pau Ferro como colaborador do jornal.

Em 5 de novembro, foi aberta a vaquejada do Pau Ferro, com a presença do major Lucena Maranhão. Benjamin fotografou o evento e quatro imagens produzidas por ele foram publicadas no Diário de Pernambuco de 13 de novembro de 1937. Também realizou um filme documental do acontecimento, fazendo com que a vaquejada do Pau Ferro se tornasse a primeira a ser filmada em Pernambuco. Fotografou uma cena inédita: o coronel Audálio Tenório, maior amigo de Lampião em Pernambuco passeando de braços dados com Lucena Maranhão, maior inimigo do cangaceiro em Alagoas, ladeados pelos coronéis Gerson Maranhão e João Nunes.

Em 10 de novembro, foi estabelecido o Estado Novo, regime político fundado pelo presidente Getúlio Vargas (1882 – 1954). Vigorou até 31 de janeiro de 1946.

No Diário de Pernambuco, de 13 de novembro de 1937, foram publicadas quatro fotografias da vaquejada da fazenda Barra Formosa, em Águas Belas, produzidas por Benjamin Abrahão.

Em 23 de novembro, Benjamin filmou a vaquejada da fazenda Lagoa Queimada e, em 25 de novembro, a da fazenda Riachão, ambas no município de Quebrangulo, em Alagoas.

O tenente Luís Mariano da Cruz, sertanejo de São José de Belmonte, oficial a serviço da volante de Pernambuco revelou em entrevista dada ao Diário de Pernambuco, de 24 de novembro de 1937, que Lampião fazia uso de seus retratos com salvo-condutos autenticados com suas assinaturas. Esse retratos foram confeccionados pela Aba Film, em operação intermediada por Benjamin. Na entrevista, o tenente traçou os roteiros de Lampião, descreve o poderio bélico de seu bando e acusa alguns militares de omissão ou cumplicidade. Sobre a confecção dos cartões para Lampião, foi feito um relato por Chico Albuquerque, na Gazeta de Alagoas, de 2 de agosto de 1938.

1938 - O lucro das bancas de vaquejada foi desastroso. Benjamin discutiu com um de seus auxiliares, tendo chamado um deles de ladrão.

O coronel Audálio Tenório, com quem Benjamin tinha negócios, cobrou o que havia sido previsto na comercialização de tudo o que fornecera a Benjamin, que prometeu levantar a quantia com seus familiares no Recife. Emitiu promissórias que venceriam em 18 de fevereiro.

No Recife, hospedou-se com dona Wadia, a matriarca dos Elihimas, e com o primo Francisco, na casa nº 579, da avenida Rui Barbosa, no bairro das Graças. Solicitou a Francisco três contos de réis e teve seu pedido negado.

De 5 a 9 de fevereiro, brincou o carnaval e foi todas as noites aos bailes do Clube Internacional. Na Quarta-Feira de Cinzas, embriagado, quase foi atropelado por um bonde da rua Nova.

Em 18 de fevereiro, Benjamin nem resgatou as promissórias nem deu satisfações. Seguiu tentando conseguir empréstimos entre Recife e Juazeiro.

No início de maio, Benjamin voltou a Pau Ferro, município de Águas Belas, dizendo que pagaria tudo o que devia. Alguns atribuíram a ousadia de seu retorno ao fato de estar apaixonado por Alaíde Rodrigues de Siqueira. Ao amigo Antônio Paranhos, confessou não ter nem a metade do que devia e que estava pensando em vender seu silêncio, já que com seu convívio com Lampião e seu bando em 1936 teria tido acesso a várias informações que seriam incômodas para a elite sertaneja.

Segundo o ex-cangaceiro Manuel Dantas Loiola, conhecido como Candeeiro, em 6 de maio, véspera do assassinato de Benjamin, Lampião e seu bando estavam acampados perto do riacho do Mel, a menos de duas léguas do Pau Ferro.

Benjamin Abrahão foi assassinado com 42 facadas, em Águas Belas, hoje Itaíba, no interior de Pernambuco, em 7 de maio de 1938. Saiu do bar rumo à pensão onde se hospedava quando as ruas principais da cidade ficaram às escuras. Foi atacado, gritou por socorro e seu amigo Antônio Paranhos foi ao seu encontro, mas foi detido pela voz de um desconhecido que o avisou Arreda, cabra, que é encrenca. (Diário da Noite, 9 de maio de 1938, na quarta coluna,  Diário de Pernambuco, 10 de maio de 1938, na quarta coluna e Diário de Pernambuco, 19 de maio de 1938, na quinta coluna). Seu assassino confesso foi Zé da Rita, marido de Alaíde Rodrigues de Siqueira, por quem Benjamin estaria apaixonado. Mas o fato dele ser franzino e paralisado da cintura para baixo gerou dúvidas quanto a sua capacidade de dominar Benjamin, que era um homem corpulento. Sendo assim, os motivos de sua morte ainda são misteriosos. As hipóteses vão desde a possibilidade de um crime passional até a de queima de arquivo, já que ele sabia do envolvimento de autoridades com Lampião. Em sua missa de sétimo dia, só estava presente o padre celebrante, Nelson de Barros Carvalho.

Em 28 de julho, na grota de Angico, em Sergipe, o bando de Lampião foi cercado por uma força volante comandada pelo tenente João Bezerra da Silva (1898 – 1970), pelo aspirante Ferreira Mello e pelo sargento Aniceto da Silva. Além de Lampião, foram mortos sua mulher, Maria Gomes de Oliveira (c. 1911 – 1938), conhecida como Maria Bonita, e os cangaceiros Alecrim, Colchete, Elétrico, Enedina, Luiz Pedro, Macela, Mergulhão, Moeda e Quinta-feira. Foram todos decapitados (Jornal do Brasil, 30 de julho de 1938, na primeira colunaDiário de Pernambuco, 30 de julho de 1938, com uma fotografia de autoria de BenjaminDiário de Pernambuco, 31 de julho de 19383 de agosto de 1938 ).

 

 

Para a elaboração dessa cronologia, a pesquisa da Brasiliana Fotográfica valeu-se, principalmente, dos livros Iconografia do Cangaço, organizado por Ricardo Albuquerque, e Benjamin Abrahão – Entre anjos e cangaceiros, de Frederico Pernambucano de Mello, além de inúmeras consultas à Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Links para outras publicações da Brasiliana Fotográfica sobre conflitos:

A Revolta da Armada

Guerra de Canudos pelo fotógrafo Flavio de Barros

Registros da Guerra do Paraguai (1864 – 1870)

 

Fontes:

AON, Farid. Do cedro ao mandacaru. Recife, 1979.

ALBUQUERQUE, Ricardo (org). Iconografia do Cangaço. São Paulo: Editora Terceiro Nome, 2012.

ANDRADE, Joaquim Marçal de. Os cangaceiros in Revista de História da Biblioteca Naciona, 6 de abril de 2014.

CASCUDO, Luiz da Câmara. Vaqueiros e cantadores para jovens. Minas Gerais: Editora Itatiaia, 1984.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

JASMIN, Élise. Cangaceiros. Apresentação de Frederico Pernambucano de Mello. São Paulo : Editora Terceiro Nome, 2006.

LUSTOSA, Isabel. De olho em Lampião: violência e esperteza. São Paulo: Claro Enigma, 2011.

MELLO, Frederico Pernambucano de. Benjamin Abrahão: entre anjos e cangaceiros. São Paulo: Escrituras, 2012.

MELLO, Frederico Pernambucano de. Guerreiros do Sol. São Paulo: Girafa, 2003.

MELLO, Frederico Pernambucano de. Estrelas de couro: a estética do cangaço. São Paulo: Escrituras, 2010.

MELLO, Frederico Pernambucano de. Quem foi Lampião. Recife: Stahli, 1993.

Site Cinema Cearense

Site História do Cinema Brasileiro

Site Miséria

O inventor Alberto Santos Dumont (1873 – 1932) pelo fotógrafo Jorge Kfuri (1893 – 1965)

 

 

O fotógrafo Jorge Kfuri (1893 – 1965), autor das primeiras fotografias aéreas do Rio de Janeiro, registrou a visita que o então presidente do Brasil, Wenceslau Braz (1868 – 1966), e Alberto Santos Dumont (1873 – 1932), conhecido como o “Pai da Aviação”, fizeram, em novembro de 1918, à Escola de Aviação Naval, na Ilha das Enxadas, localizada na Baía de Guanabara. O inventor e o presidente conversaram sobre os progressos da aviação e foram recebidos pelo então ministro da Marinha, o almirante Alexandrino de Alencar (1848 – 1926), que participou da Guerra do Paraguai e da Revolta da Armada, e que também foi ministro da Marinha dos presidentes Affonso Pena (1847 – 1909), Nilo Peçanha (1867 – 1924), Hermes da Fonseca (1855 – 1923),  e Arthur Bernardes (1875 – 1955). O almirante mostrou a seus convidados o serviço de aviação naval por ele organizado: uma flotilha de cerca de 30 aparelhos modernos, oficina para reparos e construção de aviões, quatro hangares e a Escola de Aviação. Na época, o capitão de fragata Henrique Aristides Guilhem (1875 – 1949), futuro ministro da Marinha entre 1935 e 1945, comandava a flotilha dos aviões de guerra.

Acessando o link para as fotografias de autoria de Jorge Kfuri disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Durante a visita, foram feitos vários experimentos com o explosivo Brazilita, invento do químico brasileiro Álvaro Alberto da Silva desenvolvido por seu filho, o então 1º tenente Álvaro Alberto da Mota e Silva (1889 – 1976) e futuro presidente do CNPq, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, entre 1951 e 1955. (O Paiz, 13 de novembro de 1918, na última coluna e Gazeta de Notícias, 13 de novembro de 1918, na primeira coluna).

Desde 1945, a Ilha das Enxadas sedia o Centro de Instrução Almirante Wandenkolk, destinado à formação de oficiais da Marinha da área de Saúde, Engenharia, dos Quadros Técnico, Complementar e de Capelães Navais. Anteriormente, abrigou depósito de carvão, depósito de construção naval, a Escola de Aviação Naval, a Escola Naval, e a Escola de Educação Física.

Uma curiosidade: foi nas proximidades da Ilha da Enxada que, em 1960, Americo Santarelli (1925 – 1987), pioneiro do mergulho livre, campeão de caça submarina e um dos maiores “apneístas”, superou o recorde mundial de mergulho livre (Jornal do Brasil, 1º de junho de 1960).

 

Acessando o link para as fotografias de Alberto Santos Dumont disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas

 

 

Pequeno perfil de Alberto Santos Dumont

 

Alberto Santos Dumont nasceu em 20 de julho de 1873, na fazenda Cabangu, paróquia de Palmira, em Minas Gerais. Sua cidade natal tem hoje o seu nome. Em 1906, em Paris, no campo de Bagatelle, Santos Dumont conseguiu voar em um aparelho – o 14 Bis – mais pesado do que o ar, que se elevou no ar sem ajuda externa. O feito foi realizado diante de uma comissão oficial e na presença de centenas de pessoas (A Gazeta de Notícias, 26 de outubro de 1906, na segunda coluna e Gazeta de Notícias, 14 de novembro de 1906, na quarta coluna). Santos Dumont faleceu em 23 de julho de 1932, no Guarujá, estado de São Paulo (A Noite, 25 de julho de 1932). Pela lei 165, de 5 de dezembro de 1947, passou a figurar permanentemente no quadro de oficiais-aviadores da Aeronáutica militar brasileira, com o posto de tenente-brigadeiro (Correio da Manhã, 6 de dezembro de 1947, na sexta coluna). A lei 3.636, de 22 de setembro de 1959, atribuiu-lhe o posto honorífico de marechal-do-ar. Pela lei 7.243, de 4 de novembro de 1984, tornou-se patrono da Aeronáutica e da Força Aérea Brasileira. No ano do centenário do voo do 14 Bis, 2006, Santos Dumont teve seu nome inserido no Livro dos Heróis da Pátria (Correio Braziliense, 5 de maio de 2006 e 27 de julho de 2006).

 

   Pequeno perfil e cronologia do fotógrafo Jorge Kfuri (1893 – 1965)

O fotógrafo aviador Jorge Kfuri nasceu em 3 de setembro de 1893, na Síria, e naturalizou-se brasileiro, em 19 de março de 1921 (O Paiz, 5 de maio de 1921, na terceira colunaRelatório da Marinha de 1922 e Relatório do Ministério da Justiça de 1922). Foi o autor das primeiras fotografias aéreas do Rio de Janeiro, em 1916, quando voou com o piloto naval Virginius de Lamare, futuro major-brigadeiro, no C-1, uma das três aeronaves Curtiss Flying Boats. Foram encomendadas pelo então ministro da Marinha, almirante Alexandrino de Alencar (1848 – 1926), e chegaram ao Brasil em 9 de julho de 1916 (A Noite, 24 de outubro de 1953, na quarta coluna).

 

1893 – Nascimento de Jorge Kfuri, na Síria, em 3 de setembro.

1916 –  Kfuri já trabalhava como fotógrafo do jornal A Noite, quando passou mal, com sintomas de intoxicação, após tomar um chocolate em um café do Largo da Carioca. Foi noticiado que esses casos de envenenamento aconteciam porque os donos dos estabelecimentos usavam vasilhames de cobre, o que era proibido pela Saúde Pública e, para isso, contavam com a desonestidade dos fiscais (A Noite, 2 de abril de 1916, na última coluna).

Um falso advogado foi preso e no caminho para a delegacia tentou agredir Kfuri (A Razão, 12 de junho de 1917, na terceira coluna).

Kfuri foi o autor das primeiras fotografias aéreas do Rio de Janeiro, em 1916, quando voou com o piloto naval Virginius de Lamare, futuro major-brigadeiro, no C-1, uma das três aeronaves Curtiss Flying Boats. Foram encomendadas pelo então ministro da Marinha, almirante Alexandrino de Alencar (1848 – 1926), e chegaram ao Brasil em 9 de julho de 1916 (A Noite, 24 de outubro de 1953, na quarta coluna).

1918 – Kfuri presenteou a Associação Brasileira de Imprensa com uma fotografia produzida por ele do sr.presidente da República em companhia dos ministros do Estado num dos maiores momentos históricos da vida nacional – assinando a declaração de guerra do Brasil à Alemanha (O Imparcial, 8 de outubro de 1918, na última coluna). O presidente era Wenceslau Braz (1868 – 1966) e a assinatura aconteceu em 26 de outubro de 1917.

1919 –  Fez parte do time de futebol de fotógrafos que jogou na festa do Audax Club (O Paiz, 16 de janeiro de 1919, na primeira coluna) e, ainda trabalhando no jornal A Noite, foi arrolado como testemunha de irregularidades praticadas em uma casa de saúde ( Jornal, 7 de outubro de 1919, na penúltima coluna). Participou da cobertura jornalística da prisão de um criminoso envolvido no tráfico de cocaína (A Noite, 23 de outubro de 1919, na terceira coluna).

1920 – Trabalhando como fotógrafo do jornal A Noite, Kfuri sofreu queimaduras de primeiro grau no dorso da mão direita pela explosão de magnésio quando se preparava para tirar uma chapa no edifício do Senado Federal. Na época, ele residia na rua Senador Dantas, nº 14, e foi identificado como sírio com a idade de 27 anos (O Jornal, 4 de maio de 1920, na última coluna).

Kfuri foi aceito como associado na Associação Brasileira de Imprensa (Jornal do Brasil, 23 de junho de 1920, na penúltima coluna).

1921 – O sírio Kfuri naturalizou-se brasileiro, em 19 de março (O Paiz, 5 de maio de 1921, na terceira coluna e Relatórios do Ministério da Justiça de 1922).

Kfuri foi contratado como encarregado técnico do serviço de fotografia aérea da Aviação Naval (O Paiz, 21 de dezembro de 1921, na primeira coluna, e O Relatório do Ministério da Marinha de 1922).

 

Sofreu um pequeno acidente aéreo com o piloto Epaminondas Santos, no aeromarino 40 (O Paiz, 28 de dezembro de 1921, na quarta coluna).

1922 – Kfuri estava no avião Avro nº 2, pilotado pelo tenente Luiz Leal Netto dos Reis, que sobrevoou a casa de Santos Dumont (1873 – 1932), em Petrópolis, onde deixaram cair um para-quedas com uma mensagem de saudações a ele, que a recolheu (O Paiz, 16 de março de 1922, na terceira coluna).

1923 – Para servir como encarregado técnico do serviço de fotografia aérea da Aviação Naval, o Ministério da Marinha contratou o sr. Jorge Kfuri, servindo também como operador cinematográfico em qualquer dos departamentos da Marinha para que seja requisitado (Jornal do Commercio, 14 de maio de 1923, na segunda coluna).

O ministro da enviou ao presidente do Tribunal de Contas uma cópia do contrato celebrado com Jorge Kfuri para servir como fotógrafo da Marinha (Última Hora, 15 de junho de 1923, na terceira coluna e O Paiz, 16 de junho de 1923, na última coluna).

Kfuri integrou como segundo tenente honorário da Marinha a esquadrilha de quatro hidroaviões que foi para a Bahia, sob o comando do capitão de mar e guerra e futuro ministro da Marinha Protógenes Pereira Guimarães (1876 – 1938) (Gazeta de Notícias, 26 de junho de 1923, na quinta colunaA Rua, 2 de julho de 1923, na penúltima coluna). A esquadrilha voltou para o Rio de Janeiro e foi muito homenageada (O Paiz, 9 de agosto de 1923). Kfuri foi um dos convidados para o banquete oferecido no Palace Hotel pelo Aero Club Brasileiro a Protógenes e a seus comandados no raid de aviação entre Rio e Aracaju (O Imparcial, 30 de agosto de 1923, na segunda coluna).

Foi um dos tripulantes dos três hidroaviões que regressaram de Santos para o Rio de Janeiro (Jornal do Commercio, 12 de setembro de 1923, na quarta coluna).

1926 - Fez parte da tripulação de um dos aviões que recepcionou a chegada, no Rio de Janeiro, do avião Plus Ultra, que havia partido da Europa, pilotado por Ramon Franco (1896 – 1938), um dos pioneiros da aviação espanhola (A Manhã, 3 de fevereiro de 1926 e Jornal do Brasil, 10 de fevereiro de 1926, na terceira coluna).

Participou do segundo voo do avião 322 no serviço postal (O Paiz, 4 de abril de 1926, na sexta coluna).

Houve uma tentativa de assalto na casa de Kfuri na rua Taylor, nº 80 (Gazeta de Notícias, 21 de abril de 1926, na quarta coluna).

Kfuri fez parte da tripulação dos aviões que receberam o hidroavião Buenos Aires, pilotado pelos aviadores argentinos Duggan e Olivero (O Paiz, 19 e 20 de julho de 1926).

Integrava a equipe da esquadrilha da Marinha de Guerra, de três aviões, que partiu para pela primeira vez voar entre o Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Estava no avião, pilotado pelo capitão-tenente Luiz Leal Netto dos Reis, que sofreu uma pane e caiu nos arredores de Petrópolis (O Brasil, 4 de agosto de 1926, O Paiz, 4 de agosto de 1926, na sexta coluna e O Jornal, 4 de agosto de 1926).

1927 – Sua participação na documentação fotográfica das pesquisas sobre os explosivos super-rupturita foi elogiada em um ofício encaminhado pelo diretor da comissão dos estudos desse tipo de explosivo ao diretor-geral da Aeronáutica (O Brasil, 11 de novembro de 1927, na última coluna).

1928 – Jorge Kfuri foi elogiado por seu trabalho à disposição do comando da esquadra no segundo período dos exercícios gerais, em dezembro de 1927, e que satisfazendo os desejos do referido comando, conseguiu organizar para o Diretório da Aeronáutica da Armada, valioso documento cinematográfico demonstrativo das fainas e exercícios naquela ocasião (O Paiz, 10 de agosto de 1928, na quinta coluna).

Kfuri foi um dos oficiais escalados para velar o corpo do aviador italiano Carlo del Prete (1897 – 1928), na Embaixada da Itália, no Rio de Janeiro. O italiano havia sofrido um acidente na Ponta do Galeão (Jornal do Commercio, 17 de agosto de 1928, na segunda coluna).

Na Escola de Grumetes de Angra dos Reis, Kfuri foi um dos três oficiais feridos com a explosão de uma bomba que deveria ser utilizada pelos aviadores navais durante os exercícios da Armada. Dois oficiais morreram (A Noite, 27 de novembro de 1928O Estado, 28 de novembro de 1928 e Careta, 1º de dezembro de 1928).

1929 - Foi ferido em um acidente no avião MF 4, pilotado por Raul Bandeira (Diário Nacional, 12 de junho de 1929, na última colunaJornal do Brasil, 12 de junho de 1929 e O Paiz, 13 de junho de 1929, na segunda coluna).

No Almanak Laemmert de 1929 e de 1931, Jorge Kfuri foi listado como o encarregado do serviço fotográfico da Escola de Aviação Naval.

1931 – Falecimento da mãe de Kfuri, dona Amélia Kfuri, no Rio de Janeiro (Diário da Noite, 16 de março de 1931, na primeira coluna).

A família de Kfuri mandou rezar uma missa em Ação de Graças por seu restabelecimento após o acidente de 1929 (Diáro da Noite, 11 de junho de 1931, na segunda coluna).

1932 – O ministro da Marinha, Protógenes Pereira Guimarães (1876 – 1938), elogiou a conduta de Kfuri no navio Belmonte, como auxiliar do aviador João Correia Dias Costa (Correio da Manhã, 21 de fevereiro de 1932, na terceira coluna).

Por decreto do Ministério da Marinha, Kfuri foi efetivado no lugar de encarregado técnico dos serviços fotográficos dos Centros e Escola de Aviação Naval com as honras e vantagens do posto de 1° tenente da Armada (Correio da Manhã, 14 de maio de 1932, na sétima coluna).

1933 – A reportagem Aspectos de Belém foi ilustrada com fotografias produzidas por Jorge Kfuri (A Noite Ilustrada, 19 de julho de 1933)

Kfuri foi um dos oficiais integrantes da 4ª Divisão de Esclarecimento e Bombardeio Aéreo que atuou no Alto Solimões na vigilância da neutralidade do Brasil no conflito entre a Colômbia e o Peru. A divisão foi comandada pelo capitão de corveta aviador Álvaro de Araújo (Jornal da Noite, 28 de junho de 1933, na terceira coluna, e Correio da Manhã, 21 de junho de 1933, na terceira coluna).

Entrevista com Kfuri sobre suas impressões da região do Alto Solimões nos 45 dias que passou lá (Jornal da Noite, 3 de julho de 1933).

Kfuri produziu a primeira fotografia aérea de Belo Horizonte, durante uma viagem do ministro da Marinha, Protógenes Pereira Guimarães (1876 – 1938), a Minas Gerais. Kfuri voou em um avião Fairey pilotado pelo capitão de corveta Álvaro de Araújo (Diário da Noite, 19 de julho de 1933, na quinta coluna).

Kfuri ficou ferido em um acidente aéreo perto de Petrópolis, quando voava em um avião da Marinha em exercício no território fluminense, pilotado pelo capitão de corveta Álvaro Araújo. O terceiro tripulante era o aviador civil Raphael Chrisóstomo de Oliveira. Esses dois últimos sofreram pequenas escoriações. A aeronave, Fairey 55, ficou inutilizada. Kfuri foi referido como um dos nossos aviadores navais mais arrojados…Fotógrafo, talvez, o mais hábil da nossa aviação naval… (Pequeno Jornal, 3 de outubro de 1933, na quarta coluna, Jornal da Noite, 3 de outubro de 1933, e Jornal do Brasil, 4 de outubro de 1933). Segundo a matéria do Jornal da Noite, foi a sétima vez que Kfuri estava em uma avião que caiu (Jornal da Noite, 3 de outubro de 1933, na penúltima coluna).

1934 – Foi um dos filhos de libaneses homenageados pela Missão Libanesa Maronita do Rio de Janeiro (Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1934).

Kfuri iria integrar como responsável pelo serviço aerofotográfico o grupo da Marinha que faria o levantamento aerotopográfico do litoral nortista (Jornal da Noite, 27 de abril de 1934, na sétima coluna).

1935 – O ministro da Marinha, Protógenes Pereira Guimarães (1876 – 1938), solicitou ao consultor geral da República a extensão do abono salarial a três oficiais honorários da Armada brasileira e Kfuri era um deles (Jornal do Brasil, 2 de outubro de 1935, na segunda coluna).

1936 – Terrenos da aviação naval no campo de São Bento, na Ilha do Governador, estavam ameaçados de despejo pela Companhia Indústria e Comércio. Kfuri era um dos oficiais da Armada que possuía um dos lotes (O Imparcial, 27 de junho de 1936 e 28 de junho de 1936, na última coluna).

1939 - Participou de um cruzeiro aéreo entre o Rio de Janeiro e São Paulo (Correio Paulistano, 18 de julho de 1939, na última coluna).

1941 – Kfuri estava presente na posse do coronel Dias Costa como presidente do Aeroclube do Brasil (Jornal do Brasil, 1º de agosto de 1941, na quinta coluna).

1942 – O ministro da Aeronáutica, Joaquim Pedro Salgado Filho (1888 – 1950), tornou sem efeito a transferência e nomeação de Jorge Kfuri para monitor de fotografia aérea da Escola de Especialistas da Aeronáutica (Diário de Notícias, 23 de maio de 1942, na segunda coluna, e A Manhã, 7 de julho de 1942, na quarta coluna).

1954 – Kfuri servia no gabinete do ministro da Aeronáutica (Correio da Manhã, 1º de setembro de 1954, na sétima coluna).

1956 – Em uma coluna sobre reportagens antigas do jornal A Noite,  o jornalista Bento Malafaia relatou que o fotógrafo Kfuri havia participado de uma reportagem onde ele se fez passar como secretário de um suposto faquir, na verdade, o redator Eustachio Alves. O “consultório” fez muito sucesso na cidade. Depois de revelada a verdade, foram tomadas medidas contra a exploração de faquires e cartomantes abrandando a crendice popular (A Noite, 24 de julho de 1956, na penúltima coluna).

1957 – Em cerimônia realizada na praça Salgado Filho, com a presença do presidente da República, Juscelino Kubitschek (1902 – 1976), e de Thomas White, Chefe do Estado Maior da Força Aérea dos Estados Unidos, Kfuri foi condecorado com o grau de Cavaleiro da Ordem do Mérito Aeronáutico. Foi publicada uma fotografia de Kfuri sendo condecorado (Correio da Manhã, 24 de outubro de 1957Jornal do Brasil, 24 de outubro de 1957, na primeira coluna).

1959 – O presidente da República, Juscelino Kubitschek (1902 – 1976), assinou um decreto suprimindo o cargo de chefe do Serviço Fotográfico da Aeronáutica, vago em virtude da aposentadoria de Jorge Kfuri (Jornal do Dia, 15 de setembro de 1959, na quarta coluna).

1965 – Falecimento de Jorge Kfuri, em 21 de janeiro, no Hospital Central da Aeronáutica. Sua esposa, Hilda Carelli Kfuri, publicou um anúncio do enterro, realizado no cemitério São João Batista (Correio da Manhã, 22 de janeiro de 1965, na primeira coluna).

1999 – No Espaço Cultural da Marinha, no Rio de Janeiro, foi realizada entre dezembro de 1999 e abril de 2000 a exposição Imagens da Aviação Naval com fotografias pertencentes ao acervo do Serviço de Documentação da Marinha, que fazem parte de um álbum de 555 imagens produzidas por Kfuri com registros da aviação naval desde seu início, de vistas aéreas do Rio de Janeiro e de acontecimentos importantes na cidade.

 

Colaborou para esta pesquisa a bibliotecária Marcia Prestes Taft, Encarregada da Divisão de Documentos Especiais da Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha.

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ANDRADE, Joaquim Marçal Ferreira. Milan Alram. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2015.

Arquivo Nacional

Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha

Hemeroteca da Biblioteca Nacional

Site da Biblioteca da Presidência da República

Site da Câmara dos Deputados

Site da Secretaria de Estado de Cultura do Distrito Federal

Site da Presidência da República – Casa Civil

Site do CPDOC

Site do Senado Federal

Site do Superior Tribunal Militar

“Sete de Setembro: uma ponte entre dois maurícios”, por Pedro Vasquez

Sete de Setembro: uma ponte entre dois maurícios

Pedro Karp Vasquez*

 

Esta magnífica fotografia ilustra a importância de dois maurícios para o Recife, ambos alemães: Moritz Lamberg, que tão bem a focalizou em fins do século XIX, e Johan Maurits van Nassau-Singen, que a fez edificar na primeira metade do século XVII, durante o domínio holandês no Brasil.

Do ponto de vista estritamente fotográfico é uma imagem irretocável, como quase todas aquelas produzidas por Lamberg desde que assumiu o comando da Photographia Allemã pernambucana, criada por seu compatriota Alberto Henschel, em 1867. Atuando de início como assistente de Henschel, Lamberg o sucedeu quando ele seguiu para o Rio de Janeiro, em 1870, para abrir outra casa fotográfica de idêntica denominação, depois de ter feito o mesmo em Salvador. Rivalizando com o mestre na prática do retrato fotográfico, sustentáculo do estúdio, Lamberg o ultrapassou amplamente na fotografia paisagística, demonstrando um talento capaz de ombrear com os melhores cultores do gênero no Brasil oitocentista, tais como Revert Henry Klumb, Augusto Stahl , Marc Ferrez e Juan Gutierrez. Lamberg foi sob todos os aspectos um fotógrafo completo, conforme comprova o imponente álbum de sua autoria conservado na Coleção Dona Thereza Christina Maria, da Biblioteca Nacional. Todavia, por um destes misteriosos caprichos do destino, ainda não mereceu a devida consagração póstuma, como a edição de um moderno livro de fotografia de caráter monográfico.

Acessando o link para as fotografias de autoria de Moritz (Maurício) Lamberg disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

A atribuição de intenções aos fotógrafos oitocentistas é sempre arbitrária, pois com frequência eles eram mobilizados por intenções e preocupações diferentes daquelas de seus colegas da atualidade. É lícito especular, no entanto, que Lamberg tenha optado pelo enquadramento frontal para destacar os lampadários da entrada e os arcos metálicos da ponte, que não ficariam claramente visíveis em uma tomada lateral ou em diagonal, como as empregadas por outros fotógrafos de seu tempo, como João Ferreira Villela, por exemplo. Esta frontalidade – antecipatória daquela que seria preconizada por Walker Evans em meados do século seguinte –, também fez sobressair os trilhos de bonde no primeiro plano, que conduzem o olhar para o ponto de fuga da imagem como se convidassem o observador a atravessar a ponte rumo ao bairro de Santo Antônio, passando sob o arco de mesmo nome visível no centro da composição. Existia outro, à sombra do qual Lamberg deve ter instalado sua câmara, o arco da Conceição, situado no bairro do Recife, no limiar da antiga Cidade Maurícia. Ambos persistiram até o século seguinte, sendo demolidos, respectivamente, em 1913 e 1917, por medida de segurança já que estavam bastante corroídos, apresentando risco de desabamento.

A presença de populares observando a faina de Moritz Lamberg comprova o fato de que ainda na década de 1880 um fotógrafo paisagista era figura rara e merecedora de atenção nas ruas brasileiras.

Toda fotografia de época é um convite para uma viagem no tempo. Portanto, para melhor evocar o Recife retratado por Lamberg vale a pena acompanhar um ilustre visitante paulista, que percorreu a cidade exatamente na época em que o mestre alemão a perenizava com sua técnica requintada. Joaquim de Almeida Leite de Moraes, que foi presidente da província de Goiás, registrou suas impressões no livro Apontamentos de viagem, publicado em 1883 e relançado em 2011, por iniciativa do Prof. Antonio Candido de Mello e Souza. Assim viu a capital pernambucana aquele que viria a ser mais tarde avô de Mário de Andrade:

‘Recife, essa Veneza brasileira, é talvez a segunda cidade do Império, não em sua extensão, senão em beleza e sob o ponto de vista comercial.

Percorri todas as suas linhas de bondes; vi de passagem alguns de seus principais edifícios, palácio do governo, da assembleia, teatro, igrejas, etc. O teatro é um grande edifício e de custosa arquitetura. Ruas largas e estreitas; em geral bem calçadas; cidade nova e cidade velha; becos imundos, casas altas e baixas, mercado animado e sofrível: grande agitação comercial: o fluxo e refluxo popular em todas as ruas: suas pontes magníficas ligando as duas cidades, separadas pelo rio, coalhado de navios’.[1]

Por trás do véu argênteo 

Somente o esteta impenitente pode apreciar uma fotografia de época apenas pelo prisma de sua beleza, sem se preocupar em erguer o véu argênteo para contemplar o que se esconde sob a fina e ofuscante superfície dos sais de prata. Isto porque uma imagem antiga esconde mais do que desvela, concentrando numerosas informações a respeito do tema retratado ao mesmo tempo em que antecipa sua vida futura, de modo que só é plenamente compreendida quando a ela são adicionadas as informações invisíveis que mascara.

Cumpre lembrar, portanto, ter sido esta a primeira grande ponte do Brasil, nascida com o nome de Ponte do Recife, interligando os bairros do Recife e de Santo Antonio por sobre o rio Capibaribe. Distingue-se hoje como a mais antiga ponte em funcionamento contínuo do país, sob a denominação de ponte Maurício de Nassau. Isto porque foi Nassau quem a mandou construir e a inaugurou em 28 de fevereiro de 1644 com uma festa que pode ser considerada a fundadora da propaganda política no Brasil. Com efeito, o sagaz administrador do Brasil holandês havia prometido à população pernambucana que faria um boi voar para festejar a abertura da ponte ao tráfego. Prometeu e cumpriu! De tal forma que a multidão acumulada na ponte de fato viu, com deslumbre e estupor, um boi cruzar os céus sobre suas cabeças. Este episódio entrou na história como o caso do “Boi voador”, consolidado no folclore recifense e cantado em prosa e verso até hoje por repentistas e cordelistas. O príncipe Johan Maurits van Nassau-Singen foi, inegavelmente, um dos mais competentes administradores a atuar no Brasil colonial e um homem verdadeiramente prodigioso, mas não era mágico nem feiticeiro, de modo que seu boi celeste tem explicação bem terra-a-terra: era um animal empalhado suspenso em cabos que, graças a um engenhoso sistema de roldanas, parecia voar de moto próprio.

Pernambuco recuperado pelos portugueses, o período colonial encerrado, assim como o Primeiro Império, a ponte do Recife permaneceu em plena atividade, sofrendo naturalmente ao longo do tempo reparos e melhorias, até que em 7 de setembro de 1865 adquiriu a nova denominação de ponte Sete de Setembro, evocadora da Independência do Brasil.

Os trilhos e os lampiões visíveis na imagem sublinham o fato de o Recife ser uma das mais modernas e importantes cidades brasileiras ao ser fotografada por Maurício Lamberg na década de 1880, quando sua população de mais de 100 mil habitantes era superada apenas por Salvador e Rio de Janeiro. Os lampadários a gás carbônico, percebidos no primeiro plano, foram implantados na década de 1860, destronando progressivamente os velhos lampiões que funcionavam desde 1822 com azeite de carrapateira e de cachalote e, a partir de 1856, com óleo de peixe. Pernambuco conheceu a estrada de ferro quatro anos apenas após a sede da Corte Imperial, com a implantação da ferrovia ligando as cidades de Recife e do Cabo, a Recife and S. Francisco Railway, documentada por Augusto Stahl, em 1858. Ao passo que a Brazilian Street Railway Limited instalou o serviço de trens urbanos em 1867. Não tardou para que suas locomotivas fossem apelidadas de Maxambombas, corruptela de machinepump. Para reiterar a modernidade recifense, este foi o primeiro serviço de trens urbanos da América Latina.

(1) MORAES, Joaquim de Almeida Leite Moraes. Apontamentos de viagem. São Paulo: Penguin/Companhia das Letras, 2011, pp. 225-226.

* Pedro Karp Vasquez é escritor, fotógrafo e membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Pequeno perfil de Moritz (Maurício) Lamberg

Em 1880, o gerente da Photographia Allemã de Recife, Constantino Barza, anunciou a chegada do fotógrafo europeu Moritz (Mauricio) Lamberg(1), para cuidar da parte técnica e artística do ateliê do berlinense Alberto Henschel (1827 – 1882). Lamberg foi apresentado como celebridade europeia e insigne artista, que havia dirigido estabelecimentos em Berlim e em Viena e obtido prêmios em Paris e em Viena nas exposições de 1868 e 1873. Porém, como um de seus  filhos, o pianista Emilio Lamberg, nasceu em Pernambuco, em torno de 1863, e teria ido para para Viena, com a família, aos 3 anos, é provável que Lamberg tenha estado no Brasil, nessa época, antes de trabalhar para Henschel.

Em 1885, foi concedida a ele a carta de naturalização. Ora identificado como austríaco ora como alemão, em artigo escrito por ele, em 1899, declarou-se teuto-brasileiro. Além de fotógrafo, foi referido pela imprensa como homem de ciência, professor de alemão, ilustre explorador e sócio correspondente de várias agremiações e revistas de ciência do estrangeiro.

 

 

Provavelmente nesse período, entre 1880 e 1885, produziu diversos registros de Recife, capital de Pernambuco. Vinte dessas fotografias foram reunidas no  álbum Ansichten Pernambuco’ s Recife Photographia Allemã, dedicado a d. Pedro II, que faz parte do acervo da Biblioteca Nacional. Outras 48 imagens estão no álbum Vistas de Pernambuco, pertencente ao acervo do Instituto Moreira Salles.

Lamberg produziu também imagens de núcleos coloniais, tipos populares, casas coloniais, espécies do reino vegetal e das principais cidades do Brasil. Fotografou a família imperial no Palácio Itamaraty, no Rio de Janeiro, em 1887.  Em suas fotografias, Lamberg já usava as placas secas de gelatina, inventadas em 1871, o que conferia a elas, segundo Pedro Vasquez, uma invulgar mobilidade.

 

 

Sobre seu talento para a realização de fotografias do mar e de embarcações, Pedro Vasquez comentou que ele poderia ser classificado sem dúvida alguma como um fotógrafo de marinhas, com tanto talento para o gênero quanto Marc Ferrez (1843 – 1923), o único no Brasil a se ter especializado nesse campo, a ponto de se tornar Fotógrafo da Marinha Imperial.

 

 

Provavelmente Lamberg foi morar no Rio de Janeiro em 1887 e, em 1890, tornou-se professor de alemão do Instituto Nacional de Instrução Secundária, atual Colégio Pedro II. Em 1892, Maurício Lamberg embarcou para a Europa, a bordo do paquete inglês Clyde, rumo a Southampton e outras escalas. Em 1894, já se encontrava no Rio de Janeiro. Em 1902, Lamberg estava na Áustria comissionado em propaganda de imigração.

Entusiasta da imigração de europeus para o Brasil, Maurício Lamberg publicou, em 1896, o livro O Brazil, sobre o qual o historiador Sacramento Blake (1827 – 1903) comentou:  “[…] trata da natureza do Brazil e das diversas raças que contém; de sua lavoura, do solo, da imigração e colonização; de suas florestas…”. Para escrever o livro, Lamberg viajou durante anos pelo norte e por parte do sul do país. Escrita originariamente em alemão, a obra, que abrange assuntos como história, geografia, fontes de renda e costumes, foi vertida para o português pelo jornalista e crítico musical Luiz de Castro (1863 – 1920), editado pela Casa Lombaerts e impresso na Tipografia Nunes, com 381 páginas distribuídos em 15 capítulos.

 

 

indice

 

Possuía heliografias executadas e impressas por Dontor F. Albert & Cia, em Munique, e por Verlag von Hermann Zieger, em Leipzig, na Alemanha, além de registros produzidos por ele e por fotógrafos como Marc Ferrez (1843 – 1923), dentre outros. As duas imagens abaixo estão na obra.

 

 

 

Segundo Lamberg, por se preocuparem em demasia com a África e com a Ásia, os países europeus negligenciavam as vantagens econômicas e climáticas que o Brasil oferecia para os europeus do norte. Aconselhava que os recém-chegados ao Brasil evitassem o consumo de frutas em excesso e também tivessem cuidado com a exposição ao sol. Mencionava também o perigo da febre amarela.

Seu filho, o pianista e organista Emilio Lamberg (c.1863 – 1919), fez bastante sucesso, tendo se apresentado com os mais destacados músicos de sua época. Porém, morreu paupérrimo (Correio da Manhã, 18 de agosto de 1919, na sexta coluna). Seu outro filho, Manfredo Carlos Lamberg (18? – 1921), que ele chamava de Fred e o acompanhou em algumas de suas viagens ao norte do Brasil, foi major, professor de alemão, telegrafista, agrimensor e engenheiro (O Cearense, 25 de dezembro de 1890, na primeira colunaJornal do Brasil, 15 de junho de 1891, na segunda colunaDiário de Notícias, 5 de janeiro de 1895, na sexta coluna, O Pará, 31 de março de 1900, na primeira coluna, A Época, 23 de dezembro de 1912O Paiz, 24 de julho de 1914, na primeira coluna).

 

 Cronologia de Moritz (Maurício) Lamberg

 

1863 – De acordo com a dissertação de Regina Beatriz Quariguasy Schlochauer, A presença do piano na vida carioca no século passadoapresentada ao Departamento de Música da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, sob orientação do Prof. Dr. Amilcar Zani Netto, o pianista Emílio Lamberg, filho de Maurício Lamberg, teria nascido em Pernambuco, em 1863, e ido para para Viena, com a família, aos 3 anos. Segundo noticiado pelo jornal O Paiz, de 18 de agosto de 1919, ele teria falecido com 52 anos em 1919, ou seja, teria nascido em 1867 ou 1868. Com essas informações, pode-se deduzir que, possivelmente, nessa época Maurício Lamberg estava vivendo no Brasil.

1880 – O gerente da Photographia Allemã de Recife, Constantino Barza, anunciou a chegada do fotógrafo europeu Maurício Lamberg para cuidar da parte técnica e artística do ateliê do berlinense Alberto Henschel (1827 – 1882). Lamberg foi apresentado como celebridade europeia e insigne artista, que havia dirigido estabelecimentos em Berlim e Viena e obtido prêmios em Paris e em Viena nas exposições de 1868 e 1873 (Diário de Pernambuco, 30 de janeiro de 1880).

O Instituto Moreira Salles possui o álbum Vistas de Pernambuco, com 48 fotografias da cidade de Recife, produzidas por Lamberg em torno desse ano.

 

 

1880 – 1885 – O álbum de sua autoria, Ansichten Pernambuco’ s Recife Photographia Allemã, foi provavelmente produzido nesse período. Dedicado a d. Pedro II, faz parte do acervo da Biblioteca Nacional, e possui 2o fotografias de Recife.

 

 

1881 – Lamberg fez uma petição à Associação Comercial da cidade do Recife para que se ordenasse o registro da escritura da compra que fez do estabelecimento denominado Photographia Allemã, que era de propriedade de Alberto Henschel (1827 – 1882) (Diário de Pernambuco, 19 de setembro de 1881, na quarta coluna).

Alberto Henschel e Lamberg convidavam o público para apreciar os trabalhos de nossa casa, que vão ser exibidos na próxima exposição que terá lugar no Rio de Janeiro (Diário de Pernambuco, 14 de novembro de 1881).

 

 

1884 – Após uma longa temporada de estudo na Europa, o filho de Lamberg, o pianista e organista Emilio Lamberg (1860 – 1919), chegou ao Brasil, no vapor Niger, que havia partido da França (Diário de Pernambuco, 6 de março de 1884, na primeira coluna; e Diário de Pernambuco, de 13 de março de 1884, na primeira coluna). Dias depois, Emilio fez uma apresentação no primeiro andar do sobrado onde ficava a Photographia Allemã, na rua Barão da Vitória, nº 52 (Diário de Pernambuco, 29 de março de 1884, na penúltima coluna). Maurício Lamberg convidou o público para a apresentação de seu filho, no Teatro Santa Isabel, inicialmente agendada para o dia 19 de abril e depois transferida para o dia 24 do mesmo mês. O recital foi um sucesso e Emilio se apresentou várias outras vezes (Diário de Pernambuco, 9 de abril de 1884, na quarta colunaDiário de Pernambuco, 18 de abril de 1884, na segunda coluna; e Diário de Pernambuco, 27 de abril de 1884, na quinta coluna).

1885 – Foi concedida a Maurício Lamberg, identificado como um súdito austríaco, a carta de naturalização (Diário de Pernambuco, 12 de abril de 1885, na primeira coluna e 29 de abril, na quarta coluna).

Em uma notícia sobre o suicídio de um empregado no estabelecimento Photographia Allemã, localizada na rua Barão da Vitória, em Recife, Lamberg foi identificado como proprietário da casa fotográfica (Jornal do Commercio, 27 de maio de 1885, na quarta coluna; e Diário de Pernambuco, 15 de maio de 1885, na primeira coluna).

1887 – Representando a casa fotográfica Alberto Henschel, seu sócio viajante Lamberg esteve de janeiro a março de 1887, em Vitória, no estabelecimento fotográfico de Ayres, provavelmente Joaquim Ayres, que iniciou sua carreira como funcionário do fotógrafo Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912), no Rio de Janeiro. O estabelecimento seria a Photographia Artística Vitoriense (O Espírito-Santense, 1º de janeiro de 1887, e A Província do Espírito Santo, 26 de fevereiro de 1887, na última coluna, e O Espírito Santense, 2 de março de 1887, na última coluna). Dias depois, Lamberg anunciou a exposição das fotografias produzidas em sua estadia em Vitória (A Província do Espírito Santo, 13 de março de 1887, na primeira coluna). Na época, a Photographia Artística Vitoriense ficava no Largo do dr. João Clímaco, nº 6.

No estabelecimento fotográfico de Alberto Henschel, a Photographia Allemã, na rua dos Ourives, nº 40, atual rua Miguel Couto, no Rio de Janeiro, foi inaugurada uma exposição de vistas fotográficas de pontos do norte do país, produzidas por Lamberg, na época, um dos sócios do ateliê (The Rio News, 5 de maio de 1887, na primeira colunaDiário de Notícias, 20 de maio de 1887, na penúltima coluna sob o título “Vistas fotográficas”; e Novidades, 21 de maio de 1887, na segunda coluna). As fotografias serviriam de modelos para as gravuras em madeira que viriam a ilustrar o livro, na época intitulado “Esquissos sobre o norte do Brasil em relação à colonização”, que estava sendo escrito, em alemão, por Lamberg. Eram imagens de núcleos coloniais, tipos populares, casas coloniais, espécies do reino vegetal, entre outras. Sobre o conjunto de imagens, escreveu-se: é uma coleção curiosa mesmo para quem a vir desacompanhada de texto explicativo (Jornal do Commercio, 22 de maio de 1887, na sexta colunaO Cearense, 20 de julho de 1887, na quarta coluna).

 

 

Em 1º de junho, Lamberg fotografou a família imperial no Palácio Itamaraty. Ficou assim o grupo: ao centro o imperador e a imperatriz; à direita do imperador, a princesa imperial com seu filho o príncipe d. Luiz e junto a si o príncipe d. Antonio e o príncipe do Grão-Pará, o conde d´Eu e o príncipe d. Augusto, ficando estes no segundo plano. À esquerda da imperatriz, figurou sentado o príncipe d. Pedro (O Paiz, 20 de junho de 1887, na quarta coluna, sob o título “Noticiário” e A Federação, 28 de junho de 1887, na primeira coluna).

Na reunião da diretoria da Sociedade Central de Imigração, presidida pelo senador Escragnolle Taunay, após a leitura do expediente, apresentou-se Lamberg, austríaco, que faz sentir a facilidade com que poderiam instalar-se no Brasil vários compatriotas seus, trabalhadores de primeira ordem que na Europa já não podem conseguir certas condições de bem estar. Devido à complexidade da questão, foi pedido para que Lamberg comparecesse na reunião seguinte da diretoria, no dia 5 de maio (A Immigração, 30 de junho de 1887, na segunda coluna).

A visita que Lamberg fez à redação do Correio Paulistano foi registrada pelo jornal com a publicação da matéria “Um estrangeiro amigo no Brasil”(Correio Paulistano, 29 de julho de 1887, na primeira coluna).

 

 

Foi veiculada uma propaganda da Photographia Allemã: Alberto Henschel & Co – Retratos em fotografia e a óleo, sendo estes feitos pelo artista E. Paft e aqueles pelo artista sr. Lamberg. Rua dos Ourives, 40, das 9 horas da manhã às 4 da tarde (Jornal do Commercio, 2 de outubro de 1887, na segunda coluna).

Seu filho, o pianista Emilio Lamberg chegou ao Rio de Janeiro.

1888 – Lamberg e seu filho, o pianista e organista Emilio Lamberg, visitaram a redação do jornal Diário de Notícias. Foi anunciado que Emilio se apresentaria no dia 19 de junho no Club Beethoven, inaugurado em 1882, que abrigava saraus com os principais nomes da música clássica. De acordo com o jornal, Emilio Lamberg havia estudado na Academia de Música de Berlim e nos conservatórios de Viena e de Paris, tendo sido aluno do músico francês Camille Saint-Saens (1835 – 1921). Nesta matéria Lamberg foi identificado como escritor e viajante austríaco (Diário de Notícias, 9 de novembro de 1888, na última coluna, sob o título “Echos e Notas”).

1889 – Seu filho, Manfredo Carlos Lamberg, prestou exames para a Escola Normal, no Rio de Janeiro (Jornal do Commercio, 28 de janeiro e 12 de fevereiro de 1889, ambos na segunda coluna).

1890 – Mauricio Lamberg foi nomeado professor substituto da cadeira de alemão do Instituto Nacional de Instrução Secundária, atual Colégio Pedro II (Diário de Notícias, 7 de fevereiro de 1890, na penúltima coluna). Inscreveu-se para a vaga de professor efetivo (Jornal do Commercio, 15 de junho de 1890, na terceira coluna).

Foi noticiado que um parecer sobre a obra de Lamberg, um estudo sobre o Brasil sob uma ótica econômica e social, seria apresentado ao presidente do Brasil, marechal Deodoro da Fonseca (1827 – 1892). Para escrever o livro, Lamberg teria viajado durante anos pelo norte e por parte do sul do país (Diário de Notícias, 5 de março de 1890, na penúltima coluna). Uma curiosidade: quando esteve em Santa Catarina, conheceu o fotógrafo e agente consular Albert Richard Dietze (1839 – 1906), que o hospedou. Na ocasião, houve um sarau com dança na casa do anfitrião (O Brazil, pág. 256).

Emilio Lamberg era professor de piano da Academia de Música, fundada em 1885 pelo Club Beethoven. Funcionava na Escola de São José (Gazeta de Notícias, 26 de abril de 1890, no centro da página). Foi admitido como professor de órgão no Instituto Nacional de Música (Jornal do Commercio, 30 de agosto de 1890, na última coluna). Pouco depois viajou para a Europa onde foi acompanhar a construção do órgão encomendado pelo Instituto à casa Wilhelm Sauer, em Frankfurt, na Alemanha (Jornal do Commercio, 17 de novembro de 1890, na sétima coluna). Ficou na Europa até 9 de junho de 1894 (Jornal do Commercio , 20 de agosto de 1904, na sexta coluna).

1892 – Maurício Lamberg embarcou no dia 19 de abril para a Europa a bordo do paquete inglês Clyde, rumo a Southampton e outras escalas (O Paiz, 20 de abril de 1892, na penúltima coluna).

Emilio Lamberg foi demitido do cargo de professor de órgão no Instituto Nacional de Música, a bem do serviço público. Posteriormente, tornou-se um professor particular de sucesso (Diário de Notícias, 26 de agosto de 1892, na terceira coluna e Jornal do Brasil, 26 de agosto de 1892, na primeira coluna).

1894 – Maurício Lamberg estava inscrito para o concurso para amanuense da Diretoria do Interior e Estatísticas, da Prefeitura do Rio de Janeiro (O Paiz, 16 de setembro de 1894, na quinta coluna). Amanuense era o funcionário de repartições públicas que faziam cópias, registros e cuidavam da correspondência.

Foi anunciado que Moritz Lamberg, depois de ter viajado pelo nosso país oito anos, escreveu um importante trabalho – O Brazil, que vai ser editado pela casa H. Lombaerts & C, desta capital. O livro, que será luxuosamente impresso, contém um estudo sobre a nossa história, geografia, fontes de renda, costumes, caráter do povo e 50 fotografias representando trechos de nossas matas virgens e seculares e vistas das cidades mais importantes (O Paiz, 30 de dezembro de 1894, na sexta coluna).

1895 – Transcrição do capítulo  “As classes baixas do Brasil –  caboclos, mulatos, cabras, negros e antigos escravos”, do livro de Lamberg, O Brasil, que ainda não havia sido lançado. O trecho foi traduzido pelo professor Cândido Jucá (1865 – 1929) (Diário de Pernambuco, 13 de fevereiro de 1895, na primeira coluna).

Notícia sobre o livro O Brazil, identificado como um estudo completo da história sociológica do país (A Semana, 16 de fevereiro de 1895, na segunda coluna).

Maurício Lamberg estava relacionado em uma lista da Secretaria do Interior e Justiça do Estado do Rio de Janeiro para completar o sello dos respectivos requerimentos (Jornal do Commercio, 20 de junho de 1895, na terceira coluna).

Na Câmara dos Deputados, era pleiteada uma verba para ajudar a publicação do livro de Lamberg em quatro línguas, como reforço do fomento que o Governo fazia à imigração, estabelecendo superintendências na Europa (O Paiz, 8 de junho de 1895, na quinta coluna, e Jornal do Commercio, 9 de novembro de 1895, na terceira coluna).

1896 – Emilio Lamberg e sua mulher, professores de música, comunicaram sua mudança para Petrópolis (Jornal do Commercio, 2 de fevereiro de 1896, na penúltima coluna).

Maurício Lamberg apresentou à Câmara de Deputados uma petição pedindo isenção de direito para as gravuras e capas que ilustrariam o livro sobre o Brasil que ele estava prestes a publicar (Jornal do Commercio, 4 de dezembro de 1896, na segunda coluna, e The Rio News, 8 de dezembro de 1896, na terceira coluna). O pedido foi indeferido (Liberdade, 2 de dezembro de 1896, na última coluna).

Foi publicado seu livro, O Brazil, editado pela Casa Lombaerts e impresso na Tipografia Nunes, com 381 páginas (Diário do Rio, 2 de abril de 1897, na quarta coluna).

1897 – Maurício Lamberg, identificado como professor, tinha estado no Palácio Itamaraty (O Paiz, 19 de janeiro de 1897, na quinta coluna).

Foi enviado um exemplar do livro O Brazil para a redação do Jornal do Brasil (Jornal do Brasil, 31 de março de 1897, na terceira coluna).

Foi publicado um comentário sobre O Brazil, referido como um importantíssimo livro, cuja edição era primorosa e as gravuras admiráveis de nitidez (Revista Illustrada, abril de 1897, na segunda coluna).

Publicação de uma crítica ao livro O Brazil (A Notícia, 8 de abril de 1897, na penúltima coluna, na coluna “Semana Literária”). Outra crítica foi publicada descrevendo os temas do livro, com a transcrição do trecho em que se refere aos jornalistas atuais (Gazeta de Notícias, 27 de abril de 1897, na primeira coluna). O livro estava à venda na Livraria Laemmert, na rua do Ouvidor, 66 (A Notícia, 26 e 27 de abril, na última coluna).

Em comentário do dr. Figueiredo Magalhães, transcrição de um trecho do livro O Brazil, de autoria de Moritz Lamberg, sobre a pretensa descoberta da vacina amarela pelo dr. Domingos Freire (1849 – 1899), professor da Academia de Medicina no Brasil. Lamberg afirmava que conhecidos dele haviam morrido de febre amarela depois de terem sido vacinados (Jornal do Commercio, 11 de abril de 1897, na primeira coluna). Devido a esse trecho de seu livro, Lamberg foi convidado a comparecer ao Instituto Bacteriológico dr. Domingos Freire a fim de dar esclarecimentos, certo de que se não o fizer no espaço de oito dias sua afirmação será tida como falsa e aleivosa (O Paiz, 13 de abril de 1897, na quinta coluna).

 

 

A Casa Garraux, na rua Quinze de Novembro, em São Paulo, onde estava à venda o livro O Brasil , enviou um exemplar para a redação do Correio Paulistano (Correio Paulistano, 29 de maio de 1897, na terceira coluna).

1898 – O livro O Brasil estava à venda na Livraria A. Lavignasse Filho & C, na rua dos Ourives, 7 (A Notícia, 12 e 13 de agosto de 1898, na última coluna).

Publicação do texto “Viagem ao Pará”, de 12 de outubro de 1898, de autoria de Lamberg. Ele descreveu sua viagem de 14 dias, a bordo do paquete Alagoas, do Lloyd Brasileiro, que partiu do Rio de Janeiro em 24 de setembro de 1898, até o Pará. Tive ocasião de ver de novo as capitais do Norte, que eu havia visitado 13 anos atrás e que descrevi no meu livro Bresilien.  Antes de chegar em Belém, o navio parou nos portos de Vitória, Salvador, Maceió, Recife, João Pessoa, Natal, Fortaleza e São Luis. Ele exaltou a opulência do Pará: O Pará! Que diferença de todas as outras cidades do Brasil – Aqui não há indústria, toda a riqueza vem da natureza (Jornal do Brasil, 25 de setembro de 1898, na primeira coluna e Gazeta de Petrópolis, 10 de novembro de 1898, na terceira coluna). Em sua passagem por São Luís, no Maranhão, e Belém, no Pará, foi identificado como engenheiro (O Pará, 9 de outubro de 1898, na penúltima coluna, e Diário do Maranhão, 15 de novembro de 1898, na terceira coluna).

Após uma longa estada no rio Acará, retornou a Belém o ilustre explorador Moritz Lamberg (O Pará, 11 de dezembro de 1898, na primeira coluna). Escreveu o artigo “Excursão ao rio Acará (O Pará, 13 de dezembro de 1898, na quarta coluna15 de dezembro de 1898, na última coluna17 de dezembro, na segunda coluna).

1899 – Lamberg regressou ao rio Acará, onde chefiava a discriminação de lotes para a fundação de um núcleo colonial ali (O Pará, 2 de janeiro de 1899, na última coluna).

Lamberg, identificado como ilustre homem de ciência, embarcou no vapor Brasil para Manaus, no Amazonas (República, 18 de maio de 1899, na última coluna).

Lamberg escreveu o artigo “Brasil-Alemanha”, publicado com a assinatura de Julio Lamberg. No dia seguinte, o jornal corrigiu o erro (A República19 de maio de 1899, na segunda coluna, e 20 de maio de 1899, na quinta coluna). O artigo foi uma resposta a uma matéria publicada no jornal A Província do Pará, publicada alguns dias antes, em dia 14 de maio, sobre uma publicação de um jornal de Bremen, na Alemanha, aconselhando o governo alemão a hastear sua bandeira n’um estado do sul do Brasil.

Seu livro, O Brasil, já estava traduzido para o italiano, para o francês e para o inglês. Embarcou para o rio Madeira no vapor Porto de Moz. Ele era sócio correspondente de várias agremiações e revistas de ciência do estrangeiro (Commercio do Amazonas, 8 de julho de 1899, na penúltima coluna).

1900 – No início de fevereiro, estava em Belém (O Pará, 5 de fevereiro de 1900, na penúltima coluna). No paquete Pernambuco, Lamberg regressou do Amazonas para o Rio de Janeiro. Esteve também na Bolívia e no Peru. Trouxe grande cópia de informações geográficas e etnográficas, notas sobre a vida prática e comercial de todas aquelas regiões, uma monografia sobre a borracha e descrição das duas capitais brasileira e da de Iquitos, no Peru, tratando nela da vida social, política e cultural, e grande quantidade de fotografias interessantíssimas dos diversos pontos que percorreu (Jornal do Commercio, 20 de março de 1900, na última coluna)

O livro O Brasil estava no catálogo do leilão da livraria de A. Pinheiro (Jornal do Commercio, 23 de novembro de 1900, na primeira coluna).

1901 – No artigo Por que me ufano de meu país, do poeta mineiro Affonso Celso (1860-1938), foi mencionado que Lamberg afirmava que o céu do Brasil era mais bonito do que o da Europa (A Cidade, 20 de julho de 1901, na primeira coluna).

1902 – Lamberg estava na Áustria comissionado em propaganda de imigração e para ele foi enviado uma via de letra em florins para Viena (O Commercio de São Paulo, 18 de maio de 1902, na sexta coluna).

Na edição de 20 de setembro de 1902 da publicação Relatórios dos Presidentes dos Estados Brasileiros foi transcrito um trecho do livro O Brasil sobre a inferioridade educacional dos fazendeiros do país: O fazendeiro possuía apenas alguns conhecimentos empíricos sobre a lavoura e era por demais fidalgo para se ocupar seriamente com ela…

Sobre a indiferença dos governos em relação à indústria agrícola, foram transcritas algumas palavras de Lamberg, na edição de 20 de setembro da publicação Mensagens do governador do Rio de Janeiro para a AssembleiaA situação lamentável da lavoura teria materialmente falando arruinado qualquer outro país; mas o Brasil assemelha-se ao gigante de Anteu que assim que tocava a terra adquiria novas forças.

1903 – Em um vibrante opúsculo escrito para a colônia italiana que emigra por Pasquale Vincenti e publicado em Nápoles, a obra O Brazil foi mencionada (Gazeta de Notícias, 3 de dezembro de 1903, na terceira coluna).

1904 – No concerto realizado em 14 de agosto, no salão do Instituto Nacional de Música, Emilio Lamberg não pode usar o órgão porque o conservador do mesmo não havia executado os consertos necessários ao instrumento. Devido à reação que teve diante do problema, foi proibido pelo ministro das Belas Artes a alugar o mesmo salão para futuros concertos. Dias depois, Emilio Lamberg afirmou, em uma nota assinada, que sua demissão do Instituto Nacional de Música, quando se encontrava na Europa, em 1892, havia sido o resultado da ação de seus desafetos. Esclareceu que, na verdade, a demissão foi declarada sem efeito, já que o contrato celebrado para que ele fosse o titular do órgão do Instituto havia sido celebrado em 18 de setembro de 1890 e só duraria um ano. Afirmou também já ter quitado sua dívida com o Tesouro Federal. Terminou a nota declarando: Depois disso – creio que posso esperar me deixem em paz os infatigáveis zoilos que tão desumana e covardemente me perseguem. Nada mais direi ainda mesmo provocado. Teve negado seu pedido de reintegração ao cargo de professor da cadeira de órgão do Instituto Nacional de Música (Correio da Manhã, 16 de agosto de 1904, na penúltima colunaJornal do Commercio , 20 de agosto de 1904, na sexta colunaCorreio da Manhã, 28 de agosto de 1904, na quinta coluna e Relatórios do Ministério da Justiça, março de 1905).

1905 – O professor Emilio Lamberg dirigiu um concerto de sucesso, no Club dos Diários, no Rio de Janeiro. Apresentou-se com Annunziata Palermini e Leopoldo Duque-Estrada Júnior (Gazeta Fluminense, 12 de abril de 1905, na terceira coluna).

1906 – Emilio Lamberg, protegido pelo pianista compositor alemão de origem polaca Moritz Moszkowski (1854 – 1925) estabeleceu-se em Paris. Foi assistente do célebre professor de canto polonês Jean Reszké (1850 – 1925). Viajou à Alemanha e à Áustria para conhecer os novos processos da arte pianística (Jornal do Commercio, 8 de dezembro de 1914, na quarta coluna).

1907 – Em abril, Emilio Lamberg deu um concerto na Sala Erard, em Paris (Jornal do Commercio, 8 de dezembro de 1914, na quarta coluna).

1908 – Em março, Emilio Lamberg deu um outro concerto na Sala Erard, em Paris, dessa vez com a participação do violoncelista catalão Pablo Casals (1876 – 1973). Repetiu a apresentação em Londres, o que lhe valeu um convite para tocar, no ano seguinte, na Sociedade Filarmônica, sob a regência de Mr Woord. (Jornal do Commercio, 8 de dezembro de 1914, na quarta coluna).

1909 – Numa apreciação do seu livro O Brasil, Lamberg foi identificado como alemão (A Província, 5 de outubro de 1909, na quarta coluna).

Em Londres, Emílio Lamberg  esteve em um recital do pianista português Vianna da Motta (1868 – 1948) (Jornal do Commercio, 8 de dezembro de 1914, na quarta coluna).

Foi publicada uma notícia sobre um drama histórico escrito por M. Lamberg, provavelmente Maurício Lamberg, identificado como alemão, sobre a proclamação da República no Brasil. O livro, Dom Pedro II von Bragança und sein Paladon, estava sendo impresso em Viena pelo editor F.B. Zelanoroski. Segundo a notícia, o autor referia-se com carinho a Saldanha da Gama (1846 – 1895) e enaltecia o Visconde de Ouro Preto (1836 – 1912) (O Commercio de São Paulo, 13 de novembro de 1909, na penúltima coluna e Diário da Tarde, Paraná, 15 de novembro de 1909, na última coluna). No ano seguinte, 1910, o Jornal do Brasil noticiou ter recebido possivelmente o mesmo drama histórico mencionado, de autoria de Moniz Lamberg, de origem polaca (Jornal do Brasil, 6 de fevereiro de 1910, na terceira coluna).

1910 – Emilio Lamberg fez uma turnê pela Europa com a violoncelista portuguesa Guilhermina Suggia (1885 – 1950), primeira mulher de Pablo Casals.

1911 e 1912 – Com Pablo Casals, Emilio fez turnês pela Áustria, Alemanha, Holanda, Hungria e Rússia.

1912 – O livro O Brazil foi identificado como uma importantíssima obra sobre o Brasil (Jornal do Commercio, 15 de abril de 1912, na quarta coluna).

1914 – Após uma permanência de oito anos na Europa, Emilio Lamberg retornou ao Brasil e comunicou que voltaria a dar aulas de piano. Nessa matéria, ele descreveu sua vida nesse período europeu (Jornal do Commercio, 8 de dezembro de 1914, na quarta coluna).

1915 – Emilio Lamberg chegou a Curitiba, onde hospedou-se na casa de Raul dos Guimarães Bonjean (Diário da Tarde, Paraná, 5 de janeiro de 1915, na última coluna). Apresentou-se no salão do Ginásio Paraná (Diário da Tarde, Paraná, 19 de janeiro de 1915, na quinta coluna).

Uma propaganda anunciava que Emilio Lamberg havia chegado recentemente da Europa e oferecia aulas de piano no Rio de Janeiro e em Petrópolis (A Notícia, 30 / 31 de janeiro de 1915, na última coluna).

1918 – Emilio Lamberg estava gravemente doente. Em seu benefício, foi realizado um concerto no salão nobre do Jornal do Commercio (O Paiz, 28 de dezembro de 1918, na primeira coluna).

1919 – Emilio Lamberg faleceu, em 16 de agosto, no Hospital Nacional de Alienados, devido a uma arteriosclerose generalizada e foi enterrado no Cemitério São João Batista. Foi rezada uma missa em sua memória na Igreja da Glória (Última Hora, 17 de agosto de 1919, na segunda colunaCorreio da Manhã, 18 de agosto de 1919, na sexta colunaO Paiz, 18 de agosto de 1919, na terceira colunaJornal do Commercio, 5 de setembro de 1919, na segunda coluna). No convite para a missa constava como sua mulher Lily Lamberg, que na ocasião estava em Paris, e, como seu irmão, Manfredo Carlos Lamberg (18? – 1921). Osmar, Olga, Elza, Oscar e José Carlos, citados no anúncio, seriam netos de Moritz (Correio da Manhã, 26 de agosto de 1919, na última coluna e O Paiz, 16 de junho de 1926, na quarta coluna).

1921 – Em Minas Gerais, falecimento do engenheiro Manfredo Carlos Lamberg, o outro filho de Moritz. Foi realizada, em sua homenagem, uma missa da igreja da Glória, no Largo do Machado (Correio da Manhã, 7 de março de 1921, na segunda coluna). Sobre ele, Lamberg escreveu no capítulo VIII de seu livro O Brazil: …tinha uma estatura de gigante, a quem a natureza dera ossos duplamente fortes e a força quíntupla de um homem comum. Não era uma grande ilustração mas todos os seus gestos indicavam coragem e energia e seus nos seus olhos refletia-se a  intrepidez.

1957 – Em seu livro, Ordem e Progresso, sobre a transição do regime monarquista ao republicano no Brasil, da abolição da escravatura à Primeira Guerra Mundial, o pernambucano Gilberto Freyre (1900 – 1987), considerado um dos mais importantes sociólogos do século XX, cita e discorda de uma passagem no capítulo “Pernambuco” do livro Brazil, de Lamberg, a quem se refere como teuto-sergipano do Recife: … A causa de não contribuírem os brasileiros do Norte e do Sul do Império com nenhum trabalho de “importância universal” para as ciências e o saber, julgou encontrá-la Lamberg – esquecido de todo de um José Bonifácio, de um Teixeira de Freitas, de um José Vieira – não “na falta de inteligência e boa vontade” mas “na natureza do habitante do trópico, incapaz de consagrar toda a sua existência ao exame de um problema científico, sacrificando muitos gozos da vida, como faz o sábio das zonas temperadas e frias…” . Lamberg fazia uma exceção a Tobias Barreto (1839 – 1889). Freyre achava significativo Lamberg reconhecer que tanto o Pará como Pernambuco estavam procurando “recuperar o tempo perdido” em relação às artes e às ciências. Em outro trecho, Freyre citou o conselho que Lamberg dava àqueles que contraíssem febre amarela: preferir se consultar com médicos brasileiros, em sua opinião, mais preparados do que os europeus para o tratamento da doença.

 

Alguns trechos do livro O Brazil, de Moritz (Maurício) Lamberg

No Preâmbulo

Sabemos, por experiência, que a grande República sul-americana é, em geral, sobre o ponto de vista de sua vida íntima, pouco ou nada conhecida e até mesmo goza injustamente de uma reputação duvidosa.

Considerando, pois, que a revolução social e política que seu deu nesse país fez com que ele tomasse parte mais saliente nos interesses cronológicos do mundo civilizado e que, além disso, a América do Norte em consequência dos embaraços que opôs ultimamente à imigração, parece querer ceder tacitamente ao Brasil o primeiro lugar nesse sentido, resolvemos reunir as notas que tomamos durante os dezesseis anos de permanência neste país e os oito anos de viagem pelo interior e oferecê-las ao público.

Na Introdução

Não se pode bem precisar qual o verdadeiro descobridor do Brasil. As primeiras notícias dessa região da América foram enviadas ao seu soberano, El-Rey d. Manoel de Portugal, pelo almirante Pedro Alvares Cabral que em derrota para as Índias ali aportara por acaso.

No capítulo I “Pernambuco”

Sobre a pouca tendência dos brasileiros à dedicação às ciências:

A causa não está na falta de inteligência ou de boa vontade, mas na natureza do habitante dos trópicos incapaz de consagrar toda a sua existência ao exame de um problema científico, sacrificando muitos gozos da vida, como faz o sábio das zonas temperadas e frias(pág. 12).

No capítulo III  “As classes baixas do Brasil –  caboclos, mulatos, cabras, negros e antigos escravos”

Quanto às baixas classes cultas do país convenceram-se longos anos de minuciosa e exata observação que os homens dessa classe acima são os mais felizes desse mundo sub-lunar. Necessidade e miséria são para eles coisas quase inteiramente desconhecidas e só em sentido científico pode-e-lhe aplicar a teoria da luta pela vida.

O que se lhes torna a vida tão leve não é pobreza de espírito ou falta de suscetibilidade e sentimento, é. ao contrário, uma qualidade ingênita, um estoicismo inato, que os faz atravessar a vida alegres e satisfeitos, e não se alteram com as paixões humanas como a cobiça, a inveja e a ambição. Somente o amor agita de vez em quando essas existências tranquilas (pág. 36).

No capítulo IV “As classes médias e altas no Brasil”

Sobre caráter, moralidade, hipocrisia e relação entre homens e mulheres brasileiros:

O caráter do brasileiro é bom, agradável, obsequiador e, no todo, amável. Falta-lhe, porém em geral uma base moral sólida. Substituem frequentemente a moralidade por dogmas sociais, elevado à altura de uma lei moral. Esses dogmas, com que se cobrem abusos, contêm muitos pontos que restringem a liberdade na vida social e proíbem a franqueza nas palavras e nos atos, mais do que em qualquer parte do mundo civilizado, resultando daí, a hipocrisia.

Este defeito torna-se sobretudo saliente nas relações entre o homem e a mulher. Ostenta-se um puritanismo como raras vezes se se nota alhures. As aparências degeneram não raro nas mulheres em afetação. Por exemplo, a nenhuma moça é permitida caminhar na rua sem ir acompanhada por um parente muito próximo. Não a pode acompanhar o próprio noivo, que, aliás, não se atreve a tomar com a noiva nenhuma das acostumadas familiaridades ou carinhos.

Se formos a considerar os fenômenos que se dão diariamente nas relações entre os dois sexos, encontraremos desde logo uma diferença capital entre os costumes brasileiros e os alemães. Enquanto na Alemanha, como aliás nos países anglo-saxônicos, o noivado dura às vezes anos, estabelecendo-se entre o rapaz e a rapariga relações que têm por base o amor ideal, aqui, pelo contrário, o noivado é a bem dizer curto, e o amor, que chega por vezes às raias da loucura, parece vir mais do sangue do que da alma. Isto observa-se, aliás, na raça latina, em geral, cujo temperamento é diverso do nosso; e para isso influi, e não pouco, o clima, particularmente no Brasil (pág. 54).

Sobre mulheres e sobre  a relação entre pais e filhos:

No Brasil, com efeito, a mulher não é considerada como um ser independente, que possui o direito de dispor de seu destino tal qual um homem qualquer, mas como um brinquedo mais ou menos brilhante, mais ou menos precioso e agradável, delicioso e frágil…A essas mulheres não falta inteligência, mas essa inteligência não é de natureza forte, sadia; degenera muitas vezes em meditações fantásticas que as impossibilitam de serem donas de casa ativas. Onde reina, ou antes, onde passa a vida em sonhos uma jovem dona de casa como essa, não é possível haver ordem, e quem mais sofre com isso é a educação das crianças.

O pai, que é quem mais gosta de lidar com elas, está todo dia fora de casa, por causa dos negócios. Em um casal assim, é também o dono de casa quem sempre toma a si, durante a noite, o papel de ama-seca e quem até certo ponto consegue por ordem na casa. O carinhos dos pais pelos filhos, enquanto pequenos, chega a não ter limites, e é principalmente o pai quem se ocupa com eles, quando têm um minuto livre. ama-os, até a fraqueza e, até certa idade, atura as suas malcriações. Não há nada que mais o moleste do que ver alguém corrigir seu filho. Quando marido e mulher saem de casa, seja para visitarem uma família, seja para irem a alguma festa, levam consigo todos os filhos, com as suas respectivas amas, e é ainda o pai quem carrega todo o trabalho, agarrando-se-lhe os pequenos ao pescoço, às mãos, às abas do casaco: enquanto a mãe raras vezes olha pra eles, e , a passos largos, coberta de jóias, caminhando orgulhosamente na frente, deixa com toda calma ao marido os cuidados da família (pág 55).

Sobre relações familiares e hospitalidade:

O filho, embora barbado, só raras vezes toma a liberdade de acender um cigarro na presença do pai, sem que este dê licença. Os pais tratam sempre os filhos e a si próprios na terceira pessoa e às vezes até por senhor e senhora e isso em todas as classes sociais, o que não impede que o sentimento de família se ache neles desenvolvido em alto grau. Quando um parente está na miséria, todos os membros da família acodem em seu auxílio…Às vezes, até o parentesco não está provado genealogicamente; isso porém, não influi sobre a hospitalidade, que é, sem dúvida alguma, a maior virtude dos brasileiros (pág.57).

Sobre a educação da mulher brasileira:

As filhas das classes médias aprendem a ler e a escrever ou em alguma escola pública, ou em algum colégio, onde se acostumam também a fazer alguns trabalhos manuais fino. (È singular que no Brasil não saibam fazer meias!) A arte culinária e os trabalhos domésticos comuns não são aqui objeto de ensino. Assim que conseguem pronunciar algumas frases em francês e arranhar piano, está terminada a sua educação. Saem da escola e são moças, que os pais, com o máximo cuidado, preservam de qualquer contato com os homens.

É verdade que, no Rio, como nas outras cidades do país, há escolas normais cujo intuito é continuarem o ensino superior; mas são, em geral, pouco frequentadas, e isso mesmo unicamente pelas filhas das famílias menos favorecidas, as quais se preparam para professoras de escola, etc (pág. 59).

No capítulo VII  “O solo, Imigração, Colonização, Agricultura, Comércio, Indústria, os relativos estabelecimentos estaduais e particulares e Finanças”

Sobre a situação da lavoura e a força vital do Brasil:

A situação lamentável da lavoura no Norte teria, materialmente falando, arruinado qualquer outro país, mas o Brasil assemelha-se ao gigante Anteu que, assim que tocava na terra, adquiria novas forças. Um país cuja fonte material de vida reside única e exclusivamente na cultura do solo, de que, porém, a parte baixa do povo se descuida por indolência, e que as classes elevadas em parte não compreendem, em parte não possuem os meios e auxílios materiais necessários para isso, fechando de mais a mais o Governo olhos e ouvidos para viver apenas segundo seus interesses políticos; um país que apesar de tudo isso satisfaz, sem dificuldades especiais, todas as necessidades que exigem uma situação política muito dispendiosa e o progresso da civilização deve possuir grandes riquezas naturais e indestrutível força vital. E aí está porque é com razão que se tem esperança no seu futuro (pág. 81).

O gigante Anteu é um personagem da mitologia grega que era extremamente forte quando estava em contato com a Terra e que ficava extremamente fraco se fosse levantado ao ar.

No capítulo XIII “Rio de Janeiro”

Sobre a beleza do Rio de Janeiro:

O Rio de Janeiro é uma cidade que não posso comparar a nenhuma outra do continente europeu. Logo ao sairmos do centro da capital, cerca-nos a mai opulenta e mais pujante natureza. Em frente dela – joga essa natureza o mar com suas reentrâncias, com suas ilhas e ilhotas, esquisitamente conformadas, com suas montanhas e rochas cônicas, entre as quais se distingue e se assinala o Pão de Açúcar, que me parece mais semelhante a um barrete de dormir quando engomado, e que serve de barômetro aos habitantes da cidade. Pela parte posterior, é ela circundada de montes e vales não menos admiravelmente configurados e soberbos de uma luxuriante e imponente vegetação (pág 259).

Sobre a febre amarela e sua suposta cura pela vacina do dr. Domingos Freire (1849 – 1899):

O professor da Academia de Medicina, dr, Freire, julgou ter descoberto, há anos, uma vacina que devia ser excelente preservativo contra a febre amarela. Abstraindo mesmo que esta ainda não foi reconhecida por nenhuma corporação científica do exterior, eu mesmo tive infelizmente ocasião de observar a influência duvidosa desse preservativo em cinco amigos meus que, apesar de vacinados, morreram todos de febre amarela. Todavia, deve-se confessar que esse sábio é um dos poucos que aqui fazem muito para o desenvolvimento e popularização da ciência em prol da higiene pública. (pág. 294)

Sobre o Observatório Astronômico do Rio de Janeiro:

O Observatório, sob direção do astrônomo belga Kruls, tornou-se vantajosamente conhecido na Europa e tem prestado bons serviços(pág. 295)

O nome completo de Kruls é Louis (Luis) Ferdinand Cruls (1848 – 1908). Dirigiu o Observatório de 1881 a 1908.

Sobre o Colégio Pedro II e sobre a mocidade brasileira:

O colégio mais importante e mais bem dirigido de todo o Brasil é o o Ginásio Nacional, outrora Colégio Pedro II, no Rio. Parece-se a um ginásio real alemão, com um internato e um externato, tendo ambos mais ou menos 40 professores. Exteriormente, ambas essas instituições têm bela aparência, mas o interior deixa ainda a desejar. Não há dúvida que ali se aprende tudo que faz parte do ensino secundário, e que o curso dura 7 anos, mas os alunos ao deixarem essa instituição não possuem os conhecimentos que têm os bacharéis das escolas austríacas, alemães e suíças; embora a mocidade brasileira não seja, como inteligência e talento, de forma alguma inferior à Europa. Posso afirmá-lo com segurança como antigo professor desse colégio. (pág. 296)

 

(1) – Todas as vezes que aparecer somente o sobrenome Lamberg, sem ser antecedido pelo prenome, o texto estará se referindo a Moritz (Maurício) Lamberg.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

FERREZ, Gilberto. Velhas Fotografias Pernambucanas 1851 – 1890. Rio de Janeiro: Campo Visual, 1988.

FREYRE, Gilberto. Ordem e Progresso (recurso eletrônico). São Paulo: Global 2013.

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

LAMBERG, Moritz. O Brazil. Rio de Janeiro: Casa Lombaerts, 1896.

LEITE, Míriam Lifchitz Moreira (org.). A condição feminina no Rio de Janeiro, século XIX: antologia de textos de viajantes estrangeiros. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1993.

LISBOA, Karen Macknow. Insalubridade, doenças e imigração: visões alemãs sobre o Brasil in História, ciência, saú de-Manguinhos vol.20 no.1 Rio de Janeiro Jan./Mar. 2013.

Site da Brasiliana da USP

Site do Colégio Pedro II

Site do Senado Federal

VASQUEZ, Pedro. Fotógrafos alemães no Brasil. São Paulo: Metalivros, 2000.

WOLFF, Gregor (ed). Explorers andEntrepreneursbehindtheCamera. Berlin: Ibero-AmerikanischesInstitut, 2015, 168 pp.

Além das fontes mencionadas acima, a Brasiliana Fotográfica fez uma extensa pesquisa na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

Um fotógrafo inglês na Bahia: Benjamin Robert Mulock (18/06/1829 – 17/06/1863)

 

Entre 1º de novembro de 1859, quando chegou ao Brasil, e abril de 1862, quando voltou à Inglaterra, o fotógrafo e engenheiro inglês Benjamin Robert Mulock (1829 – 1863) documentou a construção da estrada de ferro Bahia a São Francisco, uma das primeiras do Brasil, cuja primeira seção foi inaugurada em 28 de junho de 1860. Vinte e sete dessas fotografias, que narram a história da construção da ferrovia, e também 32 imagens da cidade de Salvador e do interior da Bahia, atribuídas a Mulock, foram presenteadas a d. Pedro II pelo empreiteiro da obra, o engenheiro civil inglês John Watson (1816-1890), por volta de 1861.

Mulock é considerado um dos mais interessantes e expressivos paisagistas urbanos da fotografia oitocentista no Brasil, onde trabalhou, na Bahia. Um grande panorama fotográfico de Salvador, produzido por ele, a partir do Forte do Mar, entre 1859 e 1861, é uma das mais importantes fotografias da cidade no século XIX. Com muita nitidez, veem-se os principais prédios da capital baiana, cuja série de vistas de sua autoria é um importante e excelente registro de imagens de Salvador. A produção de Mulock é marcada por um caráter racional decorrente, talvez, de sua formação de engenheiro. Seus conhecimentos nessa área o habilitavam, em suas fotografias relativas à estrada de ferro, a escolher as melhores perspectivas e a reconhecer os elementos indispensáveis para uma documentação fotográfica útil para futuras construções ferroviárias.

Segundo Pedro Vasquez, seu estilo antecipou a abordagem direta que viria a ser adotada no século XX, a straight photography (a fotografia direta)(1), levada ao paroxismo da depuração e impacto pelo norte-americano Walker Evans (1903 – 1975).

Ainda sobre o estilo de Mulock, Weston J. Naef e Gilberto Ferrez comentaram no livro Pioneer photographers of Brazil: 1840-1920:

“Em suas cenas urbanas, Mulock cultivava um estilo totalmente desprovido de artifícios derivados das convenções artísticas tradicionais. Ele gostava de posicionar sua câmara bem no meio da rua, como se qualquer ponto de vista fosse bom o bastante, mas ainda assim sua composição possui uma intensa coerência visual baseada numa construção estritamente fotográfica, de tal forma que seria difícil produzir a mesma imagem a partir de qualquer outro meio de expressão”.

 

 

Acessando o link para as fotografias de autoria de Benjamin Robert Mulock disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Pouco antes da chegada de Mulock ao Brasil, o italiano de origem alsaciana Augusto Stahl (1828 – 1877) realizou uma série de registros da construção de outra estrada de ferro, a Recife-São Francisco, em 1858. O fotógrafo suíço Guilherme Gaensly (1843 – 1928) foi contemporâneo de Mulock e muitas das vistas produzidas pelos dois da capital baiana eram parecidas.

 

Pequeno perfil e cronologia de Benjamin Robert Mulock

A vida familiar de Benjamin Mulock foi bastante conturbada devido à insanidade de seu pai, o irlandês Thomas Samuel Mulock (1789 -1868), que se casou com Dinah Mellard (1794-1845), em 7 de junho de 1825. Seus irmãos foram Thomas Mellard Mulock (1827 – 1847), que estudou pintura com William Holman Hunt (1827 – 1910), fundador, em 1848, juntamente com Dante Gabriel Rossetti (1828 – 1882) e John Everett Millais (1829 – 1896), do grupo artístico Irmandade Pré-Rafaelita; e Dinah Maria Mulock Craik (20/04/1826 – 12/10/1887), que se tornaria uma famosa poeta e romancista. Durante sua vida, Benjamin trabalhou como fotógrafo e engenheiro, tendo morado em diferentes cidades da Inglaterra, na Austrália, no País de Gales, no Brasil e na Rússia. Tentou casar-se e também buscou obter uma estabilidade financeira, o que nunca conseguiu. Em 1863, foi internado por suas tendências suicidas, fugiu do hospital, foi atropelado e faleceu em 17 de junho do mesmo ano.

Benjamin Robert Mulock, em 1858 / Publicado no site Benjamin R. Mulock Photographer.

 1829 – Benjamin Robert Mulock nasceu em 18 de junho, no condado de Staffordshire, na Inglaterra, filho do pregador evangélico dublinense Thomas Samuel Mulock (1789 – 1869), um fanático religioso de origem humilde, e da inglesa Dinah Mellard (1794-1845), órfã de um próspero industrial do ramo de curtumes. Eles haviam se casado em 7 de junho de 1825. Benjamin foi o mais novo entre seus irmãos Thomas Mellard Mulock (1827 – 1847) e Dinah Maria Mulock Craik (20/04/1826 – 12/10/1887).

1830 - Seu pai, Thomas Samuel Mulock foi, pela primeira vez, internado no Stafford County Lunatic Asylum, hospital para doentes mentais, onde ficou do dia 1º ao dia 10 de maio.

1831 - Thomas Samuel Mulock perdeu sua paróquia e a família foi viver em Newcastle-under-Lyme.

1832 - Em 2 de dezembro, o pai de Benjamin, que devido a seu temperamento era conhecido como Moloch Sangrento, uma alusão a um demônio da tradição cristã e cabalística, foi internado de novo no Stafford County Lunatic Asylum, onde permaneceu sete anos

Nos últimos anos dessa década, Dinah Mellard, mãe de Benjamin, fundou, com a ajuda de sua filha, uma pequena escola em Newcastle-under-Lyme.

1839 –  Com a morte da avó materna de Benjamin, a família Mulock herdou algum dinheiro.

Em 31 de dezembro, seu pai deixou o Stafford County Lunatic Asylum.

1840 - A família foi para Londres, onde passou a ter uma vida mais confortável. Moravam em Earls Court Terrace. Benjamin começou a estudar piano e concertina. Entre esse ano e por volta de 1845, quando Dinah, a mãe, faleceu, os Mulock tiveram uma vida cultural interessante. Thomas Samuel tornou-se amigo de Charles Mathews, gerente do Covent Garden, que convidava constantemente os Mulock para ocuparem uma frisa no teatro. Conviveram com atores, comediantes, e escritores, como George e Maria Lovell, a poeta Eliza Leslie (1787 – 1858), e o editor Samuel Carter Hall (1800 – 1889).

1842 – Sua mãe começou a apresentar problemas de saúde.

1843 – Benjamin começou a se interessar por Engenharia Civil.

1844 – Sua mãe e irmã voltaram temporariamente para o condado de Staffordshire, provavelmente na esperança de que a saúde da mãe melhorasse.

 

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O pai de Benjamin, Thomas Samuel Mulock, c. 1823. Fotografia publicada no livro The Mellards and Their Descendants, 1915.

 

1845 – Em Londres, Benjamin, seus irmãos e mãe foram abandonados pelo pai, em 21 de março de 1845, Sexta-Feira da Paixão.

Sua mãe, Dinah Mellard Mulock, faleceu em 3 de outubro. Thomas Samuel tentou se reaproximar da filha Dinah.

1846 – Por motivos financeiros, seu irmão Thomas teve que abandonar seus estudos de pintura e passou a trabalhar como capitão de navios. Ele havia estudado pintura com William Holman Hunt (1827 – 1910), que fundou, em 1848, juntamente com Dante Gabriel Rossetti (1828 – 1882) e John Everett Millais (1829 – 1896), o grupo artístico Irmandade Pré-Rafaelita.

1847/ 1848 /1849 - Em Londres, morte de seu irmão, Thomas, em 12 de fevereiro de 1847, após uma queda do navio em que faria sua segunda viagem como capitão da Marinha mercante.

Benjamin vivia com sua irmã, Dinah, em alojamentos nas cercanias de Tottenham Court Road, e estudava no University College London latim, matemática e filosofia natural como preparação para a Engenharia. No século XIX, a filosofia natural englobava o estudo da astronomia, cosmologia, geologia, física e quimíca.

Dinah completou 21 anos e recebeu sua parte do trust de sua mãe. Ela escrevia contos e poemas que vendia para revistas, jornais e para os anuários de moda de Lady Blessington, além de percorrer editoras fazendo contatos. Em 1849, Dinah, publicou seu primeiro romance, The Ogilvies.

1850 – Benjamim completou 21 anos, recebeu sua parte do trust de sua mãe e foi para a Austrália. Desse ano até 1853, estabeleceu uma criação de ovinos e participou da corrida ao ouro no país.

1854 – Entre esse ano e 1855, Mulock retornou à Europa para tratar um problemas nos olhos, na Suíça e em Marienberg, na Alemanha.

1855 - Alistou-se na Army Works Corps e serviu como engenheiro em uma ferrovia durante a guerra da Criméia, conflito que ocorreu entre 1853 e 1856, na península da Criméia, no mar Negro, ao sul da Rússia e nos Bálcãs.

1856 – Retornou à Inglaterra, em julho, e entrou para o Liverpool Public Offices Engineers Department. Como engenheiro, trabalhou para os Correios de Liverpool. Em torno dessa época, Mulock tornou-se um fotógrafo autodidata.

Nesse ano, sua irmã publicou John Halifax. No período em que escreveu o livro, foi sustentada por Benjamin.

Seu pai voltou a ser internado no asilo de doentes mentais do condado de Stafford, onde permaneceu até 1860.

1857 - Em 31 de março, foi lançada a pedra fundamental da ferrovia da Bahia ao São Francisco, que ligava Salvador a Alagoinhas, a primeira da Bahia. Os planos da obra foram levantados pelos engenheiros civis ingleses Henrique Law e John Blount e sua execução contratada a John Watson (1816-1890), que dela encarregou o engenheiro H. Vignoles (1793 – 1875) (Diário de Pernambuco, 14 de abril de 1857, na segunda coluna sob o título “Bahia”, e Jornal do Commercio, 11 de março de 1858, na quarta coluna). Na época, o presidente da província da Bahia era o desembargador João Lins Vieira Cansansão de Sinimbú (1810 – 1906), presente na cerimônia do lançamento da pedra fundamental da obra.

1858 – Benjamim vivia em Liverpool e sua irmã, Dinah, foi morar com ele.

 

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Os irmãos Dinah e Benjamin Mulock, em 1858, no Jardim de Linacre Grange, em Bootle, cidade próxima a Liverpool. Fotografia publicada no livro The Mellards and Their Descendants, 1915.

 

1859 – Dinah e Benjamin mudaram-se para Londres e foram viver em Wildwood Cottage, perto de Hampstead, uma área rural da cidade. Entre fins de 1858 e 1859, Benjamin trabalhou como fotógrafo para John Jabez Edwin Paisley Mayall (1813 -1901), profissional famoso por sua produção de fotografias no formato cartões de visita da rainha Victoria (1819 – 1901). No período que se dedicou à fotografia, provavelmente entre 1858 e 1862, Benjamin sofreu doenças de pele decorrentes do uso de produtos químicos no processo fotográfico.

Benjamin embarcou no paquete inglês Oneida, que partiu de Southampton, e chegou ao Brasil em 1º de novembro, onde ficou até 1862. Teria sido contratado na França, onde aprimorava seus conhecimentos de fotografia, pela firma empreiteira do engenheiro civil inglês John Watson (1816-1890), para documentar a construção da estrada de ferro da Bahia ao São Francisco. Segundo o site Salvador Antiga, teria escrito sobre a Bahia: Eu nunca vi um lugar que me agradasse tanto à primeira vista. A Cidade alonga-se pela Baía, de forma crescente. A orla é alta e as casas erguem-se umas sobre as outras, misturando-se com a vegetação dominada por bananeiras e coqueiros, tudo tão verde.

 

1860 - Duas fotografias de sua autoria produzidas na Bahia foram publicadas na Illustrated London News, fundado em 1842 e primeiro jornal ilustrado semanal do mundo.

Em uma carta enviada por sua irmã, Dinah, a ele, em 4 de setembro, ficava evidenciada sua tendência à melancolia: Você trabalhar de modo silencioso e constante apesar das dificuldades, tenho orgulho disso, mas quando você se esfalfa de modo descuidado e inútil, e então fica irritado e vê as coisas de modo melancólico, bem, isto me preocupa bastante, eu admito.

c. 1861 – Em torno desse ano, vinte e sete fotografias da construção da ferrovia e também 32 imagens da cidade de Salvador e do interior da Bahia foram presenteadas a d. Pedro II pelo empreiteiro John Watson.

1862 – Em abril, deixou o Brasil e voltou para a Inglaterra, onde passou a viver com sua irmã, Dinah Craik, em Hampstead.

1863 –  Em janeiro e fevereiro, trabalhou em Swansen, cidade no País de Gales, como engenheiro. Em abril, Benjamin retornou à Inglaterra e voltou a morar com sua irmã em Hampstead, em Londres.

Benjamin começou a dar sinais de melancolia. Sua irmã, que cuidou dele, tinha medo que ele cometesse suicídio. Em 7 de junho, foi internado na clínica para doentes mentais do Dr. Harrington Tukes, em Hammersmith, Londres. Fugiu cinco dias depois e foi atropelado, tendo morrido dos ferimentos em 17 de junho (Weekly Freeman’s Journal, 27 de junho de 1863).

Segundo o artigo Mrs. Craik, da escritora escocesa Margaret Oliphant (1828 – 1887), publicado em 1887,  na Macmillan’s Magazine, seria impossível penetrar suficientemente nas linhas da reticência vitoriana para descobrir se o problema de Benjamin era com o álcool, com o ópio ou instabilidade mental; ele aparecia e desaparecia, era muito falado, ternamente recebido pela irmã, causando nela ansiedade; rejeitado pelos amigos dela, mas nunca por ela.

1869 – Morte de seu pai, Thomas Samuel Mulock.

1887 – Morte de Dinah Maria Mulock Craik, em 12 de outubro.

 

 

(1) Fotografia direta – Straight photography – O conceito foi  usado para caracterizar uma vertente da fotografia moderna surgida nos Estados Unidos nos anos 1910. O termo foi definido, no texto Um Apelo em Favor da Fotografia Direta, do poeta e crítico de arte Sadakichi Hartmann (1867 – 1944), publicado na revista American Amateur Photographer, em março de 1904. Refere-se a imagens feitas pelo contato direto da câmera com a realidade, sem intervenções no laboratório ou na cópia, enfatizando a noção de fotografia como expressão subjetiva. Alguns dos expoentes da fotografia direta foram Alfred Stieglitz (1864 – 1946), Anselm Adams (1902 – 184), Edward Weston (1886 – 1958)  e Paul Strand (1890 – 1976).

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

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