O fotógrafo português José Ferreira Guimarães (1841 – 30/01/1924)

 

No Arquivo Nacional, o estúdio de José Ferreira Guimarães

Claudia B. Heynemann e Maria do Carmo Rainho*

 

Uma pequena e significativa série de retratos originados no prestigiado estúdio do fotógrafo José Ferreira Guimarães, instalado na rua dos Ourives ou no endereço da rua Gonçalves Dias, integra a coleção Fotografias Avulsas e o fundo Afonso Pena no Arquivo Nacional. O conjunto, resultado acidental da trajetória do ateliê até a incorporação em um arquivo público, é de todo modo significativo em face de outras séries de fotógrafos oitocentistas com número inferior de exemplares no acervo. Significativa também é a galeria de retratados em que figuram juristas, políticos do Império, alguns identificados na década de 1880, outros que passam aos quadros republicanos, e uma representante feminina, ligada ao declínio monárquico e ao exílio da família imperial. Nesse conjunto de imagens, não figuram crianças, tampouco casais. Os retratos etnográficos, como aqueles produzidos por Marc Ferrez, Alberto Henschel e Cristiano Junior, não eram foco de atenção de Guimarães.

 

Acessando o link para as fotografias de autoria de José Ferreira Guimarães que pertencem ao acervo do Arquivo Nacional e estão disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Em formato carte de visite, carte cabinet, as imagens deslizam entre os planos da vida pública e da esfera privada, transferidas de sua singularidade no estúdio do Guimarães até sua organização nos arquivos. Entre as funções cumpridas por esses artefatos, a representação social e os laços pessoais confundem-se em dedicatórias e cartas. Assim o retrato de Maria Amanda de Paranaguá Dória, a baronesa de Loreto, é um indexador do lugar da fotografia no âmbito da vida familiar, tal como descrito no estudo de caso desenvolvido pelos historiadores Ana Maria Mauad e Itan Cruz, no qual as cartas e os retratos trocados entre a dama de companhia da princesa Isabel e a imperatriz Tereza Cristina nos permitem identificar a presença da fotografia nas relações sentimentais do século XIX, sobretudo com o crescimento da produção da modalidade carte de visite, a partir dos anos de 1870, na corte do Rio de Janeiro. No período em que as cartas foram trocadas, fotógrafos estabelecidos nas principais capitais do país eram responsáveis por uma produção significativa de retratos em estúdio voltados para a frequência da aristocracia imperial. [1]

 

 

O retrato de Maria Amanda, que se encontra no artigo citado, pertence à coleção da Fundação Joaquim Nabuco e foi realizado no estúdio de José Ferreira Guimarães no Rio de Janeiro, muito provavelmente na mesma sessão em que o exemplar ora apresentado; diferem pelo ângulo, aqui com a cabeça voltada para o lado, no outro, com o olhar dirigido às lentes, ambos nas características molduras em formato oval e com a mesma roupa e penteado.[2] Formava-se de modo mais ou menos evidente uma trama que passava por esse álbum de família estendido, caso de Domingos Farani, outro retratado por Guimarães, que chegou ao Brasil acompanhando a mudança da futura imperatriz, a napolitana d. Teresa Cristina. Joalheiro da Casa Imperial, ele estava entre os amigos mais próximos dos Ribeiro Avelar, viscondessa e visconde de Ubá, na corte, como evidencia a troca de cartas e retratos que eram parte constitutiva dos vínculos mantidos entre esses atores. Como observa a historiadora Mariana Muaze somente [fotos das] crianças pertencentes ao grupo familiar ou filhos de amigos muitíssimos próximos como Domingos Farani, por exemplo, foram colecionadas pela viscondessa.[3] Farani, como era comum no meio, se fez retratar também no endereço de Guimarães à rua Gonçalves Dias em um busto oval que excluía o cenário do estúdio, concentrando-se na fisionomia e expressão dos indivíduos e de insígnias, como a ostentada na lapela, provavelmente relacionada ao título de comendador, e mesmo o alfinete, que ostentava o ofício de origem.

 

 

No ateliê de Guimarães entraram obrigatoriamente bacharéis e políticos do Império e da República, personagens paradigmáticos da passagem do século XIX ao XX, como Saldanha Marinho, pernambucano formado na Faculdade de Direito de Olinda em 1836 e que, entre muitos cargos, foi deputado federal pelo Rio de Janeiro, presidente de província de Minas Gerais e de São Paulo, um dos fundadores do Clube Republicano no Rio de Janeiro, signatário do Manifesto Republicano, redator de A República, firmando-se como um dos protagonistas dos momentos iniciais do novo regime.[4] Saldanha Marinho, fotografado com barba exuberante, não aparada, seguia a tendência dos homens da segunda metade do oitocentos quando o rosto barbeado era visto com suspeição, denotando pouca seriedade. Conforme Gilda de Mello e Souza, o fim do século XVII e o século XVIII talvez por causa das perucas, foram tempos de cara raspada, mas, no princípio do século XIX os bigodes e suíças se espalham pelos exércitos de Napoleão, e já em 1810 Tkackeray nos apresenta aos sensacionais moustachios de Jos Sedley. A moda, durante algum tempo privilégio dos militares e símbolo de ferocidade, difunde-se rapidamente, e em breve o homem se entrega a uma desenfreada decoração capilar.[5]

 

 

Roupas escuras, barba e bigode também compuseram o retrato de Carlos Augusto de Carvalho: formado na faculdade de Direito de São Paulo em 1873, responsável, como presidente de província no Paraná, pela eclosão da Revolta do Vintém, Carvalho iria se destacar como ministro das Relações Exteriores nos anos 1890 reivindicando a ilha de Trindade aos ingleses, contando então com o apoio de Raul Pompeia e de Joaquim Portela, que, na época, eram diretores da Biblioteca Nacional e do Arquivo Público, provendo-o de informações. Em 1904 volta à cena, arbitrando o conflito entre o Brasil e a Bolívia.[6] Nesse retrato, Carlos de Carvalho não se circunscreve ao oval delimitado: está cercado pela névoa indefinida que é também uma das marcas do período, a volta de um tom crepuscular ao qual se referiu Walter Benjamin, em um artifício utilizado para reviver a aura dos primeiros tempos da fotografia, partilhado nos ateliês fotográficos das grandes capitais, superando distâncias de diferentes ordens.

 

 

Pelo estúdio fotográfico de Guimarães também passaram militares como Henrique Pedro Carlos de Beaurepaire Rohan, o visconde de Beaurepaire, entre outros não identificados, todos com suas fardas e condecorações. Em fotos de busto ou corpo inteiro, nas poses rígidas, como se espera desses retratados, evidencia-se o desejo de registrar para a posteridade o lugar social e, sobretudo, demarcar hierarquias. A fotografia de Beaurepaire, gentil-homem da Imperial Câmara, grã-cruz da Imperial Ordem de Avis, dignitário da Imperial Ordem da Rosa e comendador da Imperial Ordem de Cristo, uniformizado, portando algumas dessas condecorações, como a Imperial Ordem da Rosa e a Ordem de Cristo, nos anos 1890, é exemplar também de alguém que, sob o regime republicano, deixava clara a sua vinculação com o governo imperial.

 

 

 

Ana Mauad, observa que o sucesso do retrato carte-de-visite deve-se justamente à capacidade de adaptar o cliente a moldes preestabelecidos e de possível escolha através de um catálogo de objetos e situações; o estúdio do fotógrafo passa a ser um depósito de complementos escolhidos para caracterizar diferentes papéis sociais que se quer fabricar. […] O próprio cliente se converteu, ele mesmo, num acessório de estúdio, suas poses obedeciam a padrões estabelecidos e já institucionalizados de acordo com a sua posição social.[7] Nas imagens de busto, como a de Beaurapaire ou no “retrato de homem fardado, dos anos 1880, o fotografado posiciona-se mais próximo da câmera; as expressões faciais ganham destaque, o tronco elevado revela mais claramente elementos como insígnias e condecorações. Já nos retratos de corpo inteiro, como a intitulada “fotografia homem fardado”, além das dragonas e das condecorações, da exibição do conjunto do uniforme, da pose altiva, alguns elementos chamam a atenção como a barretina com penacho apoiada em uma banqueta e a espada e seu fiador em uma das mãos. Os elementos cenográficos, comuns aos retratos de meio corpo ou corpo inteiro são acessórios; não roubam a centralidade do retratado.

Outro registro interessante produzido por Guimarães é a de Lúcio de Mendonça, em 1896. Advogado, jornalista, magistrado, escritor, idealizador da Academia Brasileira de Letras, seu retrato, a começar pelas roupas e pose, denota despojamento e uma despreocupação em perenizar a imagem de homem sofisticado. A ausência de elementos decorativos, adornos, a simplicidade mesma do paletó escuro e camisa branca estão sob medida para um republicano, um burguês que, diferente da aristocracia num passado recente, não necessitava fazer da moda um elemento de distinção. E a dedicatória à Ferreira do Araújo, fundador da Gazeta de Notícias, e por quem Lúcio possuía grande admiração, evidencia a inscrição do fotografado no círculo dos intelectuais da segunda metade do século XIX.

 

 

Além das dedicatórias, algumas das imagens aqui apresentadas, trazem, no verso, dados referentes ao estúdio de Guimarães, sua participação em exposições, seus títulos – Fotógrafo da Casa Imperial, Cavaleiro da Ordem da Rosa – seus prêmios. Como era comum a fotógrafos da sua envergadura, essas informações, ao mesmo tempo em que o distinguia dos concorrentes, o aproximava da sua clientela, homens e mulheres da boa sociedade que aumentavam seu capital simbólico justamente por se darem a ver através das suas lentes.

 

[1] MAUAD, Ana Maria, RAMOS, Itan Cruz. Fotografias de família e os itinerários da intimidade na História. Acervo, Rio de Janeiro, v. 30, n. 1, p. 155-178, jan./jun. 2017, p. 159.

[2] Outro retrato da baronesa de Loreto produzido por Insley Pacheco e igualmente parte da coleção do Arquivo Nacional, pode ser visto neste portal. Disponível em http://brasilianafotografica.bn.br/brasiliana/handle/bras/5027

[3] MUAZE, Mariana de Aguiar F. O império do retrato: família, riqueza e representação social no Brasil oitocentista (1840-1889). Tese de doutorado. Programa de Pós graduação em História da Universidade Federal Fluminensse, 2006, p. 296.

[4] Cf. Alzira Alves de ABREU et al (coords.). Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro – Pós-1930. Rio de Janeiro: CPDOC, 2010. In: http://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/MARINHO,%20Saldanha.pdf Acesso em: 20/11/2017.

[5] Ver SOUZA, Gilda de Mello e. O espírito das roupas: a moda no século XIX, São Paulo: Cia. das Letras, 1087, p. 75.

[6] Cf. Alzira Alves de ABREU et al (coords.). Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro – Pós-1930. Rio de Janeiro: CPDOC, 2010. In: http://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/CARVALHO,%20Carlos%20Augusto%20de.pdf Acesso em: 20/11/2017

[7] MAUAD, Ana. Poses e flagrantes: ensaios sobre história e fotografias. Rio de Janeiro: EDUFF, 2008, p. 129-130.

 

*Cláudia Heynemann – Doutora em História | Pesquisadora do Arquivo Nacional

*Maria do Carmo Rainho – Doutora em História | Pesquisadora do Arquivo Nacional

 

 

Pequeno perfil do fotógrafo português José Ferreira Guimarães (1841 – 30/01/1924)

 

 

Um dos fotógrafos preferidos da corte brasileira, amigo do imperador d. Pedro II (1825 – 1891), o português José Ferreira Guimarães (1841 – 1924), nascido em Guimarães, chegou ao Brasil com 11 anos, a bordo de um veleiro carregado de repolhos. Foi lavador de pratos, servente em tascas na beira do porto e vendedor de armarinhos. Começou sua carreira de fotógrafo associando-se a Eduardo Isidoro Van Nyvel, no Rio de Janeiro, em 1862. Quatro anos depois, passou a anunciar-se sozinho no mesmo ateliê na Rua dos Ourives, 40. Em 13 de setembro de 1866, recebeu o título de Fotógrafo da Casa Imperial. Fez, assim como o fotógrafo Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912), fortuna com seus retratos em foto-pintura – retrato ampliado pintado a óleo ou guache ou pastel por um pintor. Guimarães ia frequentemente à Europa e aos Estados Unidos para comprar equipamentos e se atualizar com o que havia de mais moderno no campo da fotografia. Além disso, inventou o Relâmpago Guimarães.

José Ferreira Guimarães foi comendador da Ordem de Cristo e da Ordem da Rosa. Foi premiado com a medalha de prata na Exposição Geral de Belas Artes da Academia Imperial de 1865, 1866 e 1867; e na Exposição Nacional de 1866 e de 1873.  Após uma passagem pela rua do Ourives, 38, inaugurou, em 1886, um novo ateliê que, segundo Gilberto Ferrez, era um verdadeiro palácio da fotografia. Foi a maior casa fotográfica brasileira do século XIX e ficava na rua Gonçalves Dias, nº 2, esquina com a rua da Assembleia.

Passava temporadas na Europa mas, foi durante a década de 1910, que, provavelmente, transferiu-se definitivamente para a França, onde morou em um palacete nos arredores de Paris, na rue de La Paix, 21, em Bois Colombe. A casa enorme, apelidada pela esposa de Guimarães, Virginia Prata Guimarães, de Little Castle, foi construída em um estilo acastelado, que tornou-se moda entre os paulistas endinheirados pela cafeicultura, nas primeiras décadas do século XX.

Acessando o link para as fotografias de autoria de José Ferreira Guimarães disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Nas palavras do fotógrafo Benedito Junqueira Duarte (1910 – 1995), seu discípulo e sobrinho neto de sua esposa, José Ferreira Guimarães era um tipo humano raro e versátil, além de ter uma invejável agilidade mental e ser de uma honestidade a toda prova. Era muito bem relacionado e foi amigo íntimo do fotógrafo francês Félix Nadal (1820 – 1910) e também do peruano Léopold-Émile Reutlinger (1863 – 1937). Segundo Junqueira Duarte, Guimarães era vaidoso e tinha longas barbas branquíssimas, sempre impecavelmente aparadas, era ereto e elegante, apesar da idade, e tinha um riso de tolerância e compreensão a esconder-se por detrás de fartos bigodes.

Sobre a obra de Guimarães e a invenção do Relâmpago Guimarães, Junqueira Duarte escreveu:

…Pela qualidade e refinamento de seu trabalho e rigor profissional que manipulava sua obra, do retoque a bico de lápis à apresentação formal de seus retratos, da viragem a ouro à técnica do esmalte a fogo dos medalhões que produzia – pareciam pequenos camafeus colorido a mão – desfrutou de grande prestígio na aristocracia brasileira e fez uma vultosa fortuna…Com José Ferreira Guimarães, desaparecia um homem de inteligência privilegiada, de espírito criador incomum, a quem deve a fotografia de todos os povos uma de suas grandes invenções – o engenho produtor de luz artificial em ambiente fechado, a partir da combustão instantânea do magnésio, própria para impressionar, em fração mínima de segundo, uma chapa fotográfica. A esse aparelho que encenava em si a luz do sol, deu ele o nome sugestivo e profético de Relâmpago Guimarães, apresentado com grande êxito na famosa Exposição Universal de Paris, em 1900. Muitos anos mais tarde, meio que por volta de 1935 ou 36, aperfeiçoado, miniaturizado e industrializado pelos norte-americanos, o engenho de José Ferreira Guimarães, surgiram no comércio fotográfico as lâmpadas (ou bulbos) em todo o mundo e em breve conhecidas sob o nome de Flash, ou seja, Relâmpago.

Não creio que algum historiador da fotografia, da arte e de sua técnica, tenha mencionado em seus livros, como legítimo inventor do processo flash o nome de José Ferreira Guimarães, o pequeno emigrante português que tronou grande sua arte, criador original da enorme gaiola de vidro, munido de grosso tubo exaustor para a saída da fumaça de magnésio e de um ventilador aspirante, destinado a apressar a evacuação dos pesados rolos de fumo produzidos pela incandescência da mistura química geradora de fortíssimo lampejo azulado…

…Que de benefícios trouxe a engenhosa invenção de José Ferreira Guimarães para a Humanidade, no estudo minucioso da Dinâmica dos corpos, na ilustração de variadas pesquisas científicas realizadas com a fotografia feita em curtíssima exposição, como a documentação endoscópica, ou a do fundo do olho, para apenas citar esses dois exemplos, colhidos por entre a incessante atividade dos documentaristas na Medicina e a Cirurgia!…

 

Cronologia de José Ferreira Guimarães

 

1841 – Nascimento de José Ferreira Guimarães, em Guimarães, na região do Minho, em Portugal.

c. 1852 – Aos 11 anos, emigrou sozinho para o Brasil, a bordo de um veleiro carregado de repolhos.

1860 – Radicou-se no Rio de Janeiro.

1862 – Provavelmente, nesse ano iniciou sua trajetória como fotógrafo, associando-se a Eduardo Isidoro Van Nyvel, na rua do Ouvidor, nº 75. Anunciaram que em seu estabelecimento fotográfico, aberto há poucos dias, executava-se retratos pelos sistemas do ambrótipo e cartões de visita (Jornal do Commercio, 9 de setembro de 1862).

1863 – Publicação de uma propaganda do estabelecimento fotográfico de Van Nyvel e Guimarães no qual anunciaram ter recebido de Alexandre Ken, o primeiro fotógrafo do globo, o processo de cartões de visita, além de uma máquina…para fazer oito retratos em um só vidro e outra que com um único tubo tira quatro posições diferentes em um vidro (Jornal do Commercio, 10 de junho de 1863).

 

 

1864 - Van Nyvel e Guimarães mudaram-se para a rua do Ourives, nº 40 (Jornal do Commercio, 22 de março de 1864, primeira coluna).

1865 – Guimarães ganhou a medalha de prata na Exposição Geral de Belas Artes da Academia Imperial.

1866 – Passou a anunciar-se sozinho no mesmo endereço, rua do Ourives, nº 40. Em outubro de 1866, Van Nyvel abriu um novo estabelecimento na Rua dos Ouvires, 65 (Jornal do Commercio, 2 de outubro de 1866, terceira coluna).

Foi agraciado por d. Pedro II com o título de fotógrafo da Casa Imperial, em 13 de setembro.

Ganhou a medalha de prata na Exposição Geral de Belas Artes da Academia Imperial.

Ganhou a medalha de prata na 2ª Exposição Nacional. Sobre ele, o pintor Victor Meirelles, representando o júri do quarto grupo, onde se incluía a fotografia, escreveu no relatório do evento:

‘1ª Medalha de Prata – José Ferreira Guimarães (1841 – 1924):

Cabe a honra de ser classificado em primeiro lugar, obtendo a medalha de prata, o sr. J. F. Guimarães, estabelecido na rua dos Ourives, nº 40, por seus retratos de cartões de visita, e chapas de diferentes dimensões. Os trabalhos do Sr. Guimarães sobressaem-se pela fineza, nitidez e perfeição dos objetos representados e também pelo vigor dos tons que são bem calculados e de uma cor agradável, posições escolhidas com gosto e naturalidade.’

1867 - Produziu um retrato em tamanho natural no formato de 2 x 1,35 m, a maior fotografia realizada no Brasil até então.

Ganhou a medalha de prata na Exposição Geral de Belas Artes da Academia Imperial.

Informava ter partido para a Europa (Jornal do Commercio, 25 de julho de 1867, sexta coluna).

De volta de Paris, anunciou uma exposição de retratos sobre placas de porcelana na casa do Sr. Bernasconi & Moncada (Jornal do Commercio, 15 de novembro de 1867).

 

 

1869 – Anunciou ter regressado da Europa, aonde havia ido pela terceira vez, e também a abertura de seu novo estabelecimento na rua do Ourives, nº 38, segundo andar (Jornal do Commercio, 10 de outubro de 1869, página 3, Segunda Folha).  

1872 – Fotografou a pintura Combate Naval do Riachuelo, de Victor Meirelles (1832 – 1903), empregando seu sistema de ampliação para fazer reproduções de obras de arte de grande formato. Produziu a fotografia em placa de porcelana pelo processo inalterável…Para execução dessa fotografia serviu-se o habilísssimo fotógrafo José Ferreira Guimarães de placa denominada pelos fotógrafos “negativo”…Foram tirados e distribuídos alguns “positivos” sobre papel albuminado…(Relatório da Repartição dos Negócios do Império, 1882).

1873 – Ganhou a medalha de prata na 3ª Exposição Nacional.

Teria voltado, nesse ano, a sua cidade natal, Guimarães.

1875 - Retratou Marie Caroline Lefebvre (c. 1849 – 1914), mulher do fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923).

Década de 1880 - Durante esta década, o fotógrafo Valério Vieira (1862 – 1941) trabalhou como assistente no estúdio do fotógrafo José Ferreira Guimarães.

1882 - No Almanack Laemmert, foi veiculado um anúncio de Guimarães: Retratos vitrificados fixados a fogo, como as porcelanas de Sèvres. Perpétua duração, constituindo por isso uma verdadeira e imorredoura relíquia de família (Almanaque Laemmert, 1882).

Segundo relatório do diretor da Academia das Belas Artes, a instituição comprou a fotografia produzida por Guimarães da primeira versão da pintura Combate Naval do Riachuelo, de Victor Meirelles, perdida durante a Exposição Internacional da Filadéfia, em 1876 (Relatório da Repartição dos Negócios do Império, 1882).

Segundo consta em um de seus cartões, foi premiado com a medalha de ouro na Exposição Continental de Buenos Aires, inaugurada em 15 de março de 1882 – a seção brasileira foi inaugurada no dia 1º de abril, ocupando uma área de 600 m2 (Diário de Pernambuco, 10 de julho de 1882, terceira coluna).

1884 – Recebeu o título de Comendador da Ordem da Rosa.

Guimarães anunciou que Waldemar Lange executava fotografias de grupos de família pelo sistema americano de John Carbutt, da Filadélfia (Jornal do Commercio, 17 de julho de 1884, na página 8). Segundo Boris Kossoy, Lange havia sido associado na Bahia ao fotógrafo Guilherme Gaensly (1843 – 1928). Na época, seu ateliê ficava na rua dos Ourives, nº 38.

 

 

Participou da Exposição da Academia de Belas Artes com esmaltes, platinotipos e algumas fotografias instantâneas, obtidas pelo processo denominado gelatino bromureto de prata  (Jornal do Commercio, 26 de setembro de 1884, segunda coluna).

A fotografia produzida por Guimarães da turma do sexto ano dos doutorandos de medicina foi exposta na casa de Narciso & Arthur Napoleão. É um trabalho, como todos os deste artista, muito notável (Diario Portuguez, 20 de dezembro de 1884, segunda coluna).

1885 – Foi encomendado à casa Guimarães um retrato a óleo de Francisco de Assis Mascarenhas. Foi realizado por Victor Meirelles e exposto na galeria Moncada. Os dois artistas foram referidos, na nota do jornal, como comendadores (Jornal do Commercio, 2 de agosto de 1885, sexta coluna).

 

 

1886 – A Casa Guimarães, na rua do Ourives, nº 38, foi substituída pela Photographia Americana, passando a pertencer a Roltgen, antigo retocador da Casa Guimarães, e do sr. Silva, antigo sócio-gerente da fotografia Carneiro & Tavares (O Paiz, 31 de julho de 1886, primeira coluna).

 

 

Guimarães inaugurou um verdadeiro palácio da fotografia, a maior casa fotográfica brasileira do século XIX, na rua Gonçalves Dias, nº 2, esquina com a rua da Assembleia. A casa, de 4 andares, foi durante algum tempo o mais alto prédio do Rio de Janeiro e foi construída expressamente para sediar o estabelecimento fotográfico de Guimarães. Os três primeiros pavimentos abrigavam as diversas seções de fotografia e o último servia de moradia do fotógrafo (Revista do Iphan, 1946, p. 199 e O Rio de Janeiro, 8 de agosto de 1886, quarta coluna).

 

 

Uma menina se acidentou quando passou em frente à casa fotográfica de Guimarães e uma tábua que servia de andaime caiu sobre sua cabeça. O fotógrafo prestou assistência à acidentada e responsabilizou-se pelo ocorrido (O Paiz, 18 de agosto de 1886, na última coluna).

1877 – Guimarães participou com fotografias das obras mais importantes da estrada de D. Pedro II da Exposição Internacional de Caminhos de Ferro no Bois de Vincennes, em Paris, em comemoração ao cinquentenário das ferrovias na França. Essas fotografias e também outras, de autoria de Marc Ferrez (1843 – 1923), foram expostas no Liceu de Artes e Ofícios (O Paiz, 18 de julho de 1887, terceira coluna).

Na casa Chameaux, exposição de uma pintura a óleo, de autoria do artista francês Battu, realizado com muita suavidade a partir de uma fotografia produzida pelo distinto fotógrafo Guimarães de uma menina vestida à moda das camponesas do norte de Portugal (Jornal do Commercio, 26 de julho de 1887, sétima coluna).

1888 – No salão do jornal O Paiz, exposição de um retrato do apregoado atirador Bento Moraes, produzido por Guimarães. Moraes era a primeira figura de uma companhia de variedades que se apresentaria no Polytheama (O Paiz, 13 de março de 1888, sétima coluna).

A Casa Guimarães, na rua de Gonçalves Dias, canto da da Assembleia foi enfeitada para participar dos festejos da cidade pelo retorno do imperador Pedro II (1825 – 1891) e da imperatriz Teresa Cristina (1822 – 1889), que ficaram ausentes do Brasil por quase um ano, na terceira viagem do soberano à Europa. Haviam partido em 30 de junho de 1887 (Diário de Notícias, 23 de agosto de 1888, terceira coluna).

 

 

1890 – Antes de cometer suicídio, o português e guarda-livros José Custódio de Oliveira enviou uma carta a Guimarães (Diário de Notícias, 22 de jumho de 1890, segunda coluna).

1891 - A partir de janeiro, José Ferreira Guimarães estaria até o fim da estação, às segundas e terças-feiras, em seu ateliê de Petrópolis (Jornal do Commercio, 11 de janeiro de 1891).

1894 – A Photographia Guimarães funcionava em Petrópolis, aos domingos, segundas e terças-feiras, em um chalé ao lado do Hotel Orleans (Gazeta de Petrópolis, 7 de março de 1894, terceira coluna).

Estava exposto na casa Palais Royal um quadro com os retratos dos doutorandos de 1894, produzido pela Photographia Guimarães (Gazeta de Notícias, 7 de novembro de 1894, na penúltima coluna).

Alguns membros da comissão da República Oriental do Uruguai, em visita ao Brasil, iriam ser fotografados na Photographia Guimarães (A Notícia, 8 e 9 de novembro de 1894, terceira coluna).

1895 – Na primeira página do Jornal do Brasil, era noticiado que a Photographia Guimarães & C continuava a merecer o favor público pela excelência de seus trabalhos artísticos (Jornal do Brasil, 10 de março de 1895, quarta coluna).

 

 

1896 – Na edição 36 de A Bruxa, foi publicada uma fotografia de F. Guimarães, conhecido proprietário da Photographia Guimarães (Commercio de São Paulo, 13 de outubro de 1896, última coluna). A Bruxa foi uma revista dirigida pelo poeta Olavo Bilac  (1865-1918) e pelo ilustrador português Julião Machado (1863 – 1930), entre 1896 e 1897.

Foi noticiado que a Photographia Guimarães produziria fotografias das salas do Club dos Repórteres com convidados por um processo novo de notável sucesso na arte fotográfica cuja primeira experiência foi realizada ontem (A Notícia, 24 e 25 de outubro de 1896, segunda coluna).

Estava exposto na vitrine da casa Colussi, na rua do Ouvidor, uma fotografia do presidente Prudente de Morais (1841 – 1902), produzida pela Photographia Guimarães. De acordo com a notícia, poderia se dizer que a obra é uma nova descoberta da photographia pois que o retrato…é feito em esmalte photográphico vitrificado a fogo, tão inalterável como as pinturas da porcelana de Sèvres e de Limoges… (Jornal do Brasil, 8 de novembro de 1896, quinta coluna).

1897 – O fotógrafo Alfredo Musso, irmão de Luiz Musso, trabalhava na Photographia Guimarães (Jornal do Commercio, 1º de fevereiro de 1897, penúltima coluna).

Luis Musso, sócio da Photographia Guimarães, levou de presente à redação do Jornal do Brasil uma fotografia em platinotipia de um grupo de jornalistas que haviam assistido à inauguração da luz artificial para obter fotografias instantâneas (Jornal do Brasil, 12 de março de 1897, segunda coluna). Luiz Musso havia sido o primeiro operador da Companhia Photographica Brazileira, dirigida pelo fotógrafo Juan Gutierrez (c. 1860 – 1897), desde sua fundação, em 1892, até 31 de março de 1894 (Jornal do Commercio, 13 de fevereiro de 1898, na última coluna). Em 1905, os irmãos Musso estavam estabelecidos na rua Uruguayana sob a razão social L. Musso & C, que também se anunciava como Photographia Brazileira.

Foi encomendada à Photographia Guimarães um retrato do engenheiro e primeiro diretor da Estrada de Ferro Pedro II, Christiano Ottoni (1811 – 1896), que seria ofertado à Escola Naval por seu filho, o industrial Julio Ottoni (Jornal do Brasil, 17 de setembro, sétima coluna).

1898 – Herrero Vargas, empregado da Photographia Guimarães, retratou um grupo da Estudantina do Cassino Espanhol em excursão a Santa Teresa (Gazeta de Notícias, 28 de fevereiro de 1898, primeira coluna).

O presidente da República, Prudente de Morais (1841 – 1902), presenteou o redator-chefe da Cidade do Rio, José do Patrocínio (1854 – 1905), fotografias de sua família produzidas pela Photographia Guimarães (Cidade do Rio, 10 de novembro de 1898, terceira coluna).

Na Casa Merino, estavam expostas três fotografias em platinotipia produzidas pela Photographia Guimarães: do presidente e do vice-presidente da República, Campos Salles (1841 – 1913) e Rosa e Silva (1857 – 1929), respectivamente, e do novo ministério do governo (Jornal do Commercio, 15 de novembro de 1898, sexta coluna).

1899 – O Sr. Musso, da Photografia Guimarães, registraria o cruzador italiano Fieramosca (A Notícia, 5 e 6 de agosto de 1899, segunda coluna).

Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912), Marc Ferrez (1843 – 1923) e José Ferreira Guimarães foram nomeados para formar a comissão de propaganda da classe de fotografia da Exposição do Quarto Centenário do Brasil, em 1900, promovida pela Sociedade Propagadora das Belas Artes (A Imprensa, 31 de outubro de 1899, quarta coluna).

1900 – Horacio Garcia Vidal trabalhava na Photographia Guimarães (Cidade do Rio, 24 de janeiro de 1900, na última coluna).

Publicada na Revista da Semana, de 22 de julho de 1900, um instantâneo do Largo da Carioca, tirado do segundo andar da afamada Photographia Guimarães.

Apresentou na Exposição Universal de Paris o Relâmpago Guimarães, uma espécie de flash que permitia tirar fotografias em ambientes obscurecidos ou no período da noite.

A luz produzida por ele é exatamente a necessária para substituir a claridade do dia, suprindo-a em todo o seu vigor, mas permitindo respeitar as nuances do modelo, por mais delicado que seja.

O acolhimento que foi feito na Europa à invenção de nosso compatriota, proprietário da afamada Photographia Guimarães, deve ser muito lisonjeiro para os fotógrafos nacionais‘ (Revista da Semana, 12 de agosto de 1900).

 

 

1901 – Guimarães era sócio de Luis Musso e Julio D. Roltgen (Almanak Laemmert, 1901).

Julio Roltgen, da Photographia Guimarães, foi o autor do registro do “batismo da Salamina”, festa realizada no club de Regatas Botafogo. A imagem foi publicada na revista quinzenal Brasil Náutico, número 4, e foi considerada a nota elegante da edição (A Notícia, 8 e 9 de maio de 1901, terceira coluna).

Um retrato do senador do Império, Cândido Mendes de Almeida (1818 – 1881), executado pela Photographia Guimarães e emoldurado pela fábrica Martins Seabra & C., foi ofertado ao Jornal do Brasil (Jornal do Brasil, 31 de maio de 1901, sétima coluna).

Foi noticiado que o Relâmpago Guimarães havia obtido a medalha de 1ª classe na Exposição Universal de Paris de 1900. A Photographia Guimarães foi referida como admirável estabelecimento da rua Gonçalves Dias, esquina do largo da Carioca e, devido ao Relâmpago Guimarães estava executando trabalhos de inigualável perfeição. Os retratos produzidos na Casa Guimarães eram verdadeiras maravilhas de arte pela naturalidade da pose e pela incomparável nitidez (Gazeta de Notícias, 4 de julho de 1901, sétima coluna).

Por encomenda do presidente da República, Campos Sales (1841 – 1913), a Photographia Guimarães produziu um quadro medindo 1 metro por 80 centímetros com as fotografias do governo provisório da República organizado em 15 de novembro de 1889. O quadro ficaria no salão de despachos do Palácio do Catete (A Notícia, 26 e 27 de novembro de 1901, segunda coluna).

1902 – Na Igreja da Candelária, foi rezada uma missa pela turma de guardas-marinha de 1879. Nove deles estiveram presentes à cerimônia e depois foram retratados na Photographia Guimarães (Gazeta de Notícias, 9 de março de 1902, sétima coluna).

Luís Musso estava na direção da Photographia Guimarães (Jornal do Brasil, 24 de julho, sexta coluna).

1903 – Em anúncio, a Photographia J.F. Guimarães & C afirmava acreditar que nada devia à praça e pedia que, caso houvesse qualquer reclamação, que fosse levada a seu proprietário até o dia 10 de dezembro de 1903 (Jornal do Brasil, 6 de dezembro de 1903, primeira coluna).

1904 – Tendo deixado de trabalhar na Photographia Guimarães, Alfredo e Luís Musso e Julio D. Beltgen anunciaram a abertura de um novo estabelecimento fotográfico, na rua Uruguaiana, nº 10 (Gazeta de Notícias, 21 de fevereiro de 1904, terceira coluna).

Recém chegado da Europa, Guimarães anunciou a reabertura de seus ateliers modelos onde o high life poderia encontrar o chic da fotografia moderna (Jornal do Brasil, 24 de fevereiro de 1904, quinta coluna e Gazeta de Notícias , 21 de fevereiro, terceira coluna).

 

 

1905 – Estava exposta na Photographia Guimarães uma fotografia de Oswaldo Cruz (1872 – 1917), diretor da Saúde Pública, com um tamanho que nunca se fez entre nós (Gazeta de Notícias, 12 de abril, sexta coluna).

A Photographia Guimarães continuava na rua Gonçalves Dias (A Notícia, 10 e 11 de junho de 1905, quarta coluna).

1906 – A Photographia Guimarães funcionava sob a direção de José Ferreira Guimarães e A. Pinto, na rua da Assembleia, 78 (A Notícia, 25 e 26 de outubro, segunda coluna). Novo anúncio, no mês seguinte, só menciona Guimarães na direção do estabelecimento fotográfico (A Notícia, 6 e 7 de novembro de 1906, quinta coluna).

1907 – A Photographia Guimarães informava não ter nem funcionários ambulantes nem filiais pelo Brasil. As encomendas deveriam ser feitas na rua da Assembleia, 78 (A Notícia, 31 de janeiro e 1º de fevereiro de 1907, segunda coluna).

A turma de formandos em Odontologia e Medicina encomendaram quadros alegóricos na Photographia Guimarães. Seriam feitos em Paris, sob a supervisão do comendador Guimarães, que mais uma vez daria provas de seu bom gosto artístico (A Notícia, 27 e 28 de julho de 1907, quarta coluna).

A Photographia Guimarães anunciou que o funcionário Augusto Cezar Osório não trabalhava mais no estabelecimento (Jornal do Brasil, 14 de setembro de 1907, sétima coluna).

Exposição, na Photographia Guimarães de uma fotografia de Oswaldo Cruz (1872 – 1917), diretor da Saúde Pública (A Notícia, 4 e 5 de novembro de 1907, terceira coluna).

1909 / 1910 / 1911 / 1912 /1913 - A Photographia Guimarães funcionava em um sobrado, na rua da Assembleia, 100 (A Notícia, 22 e 23 de maio de 1909, terceira coluna e Almanak Laemmert, 1911, terceira coluna).

1909 – Publicação na revista Careta, 21 de agosto de 1909, de duas fotografias do escritor Euclides da Cunha (1866 – 1909), produzidas na Photographia Gumarães. Pouco antes de sua morte, o escritor havia oferecido ao jornalista Ernesto Senna (1858-1913) uma fotografia sua produzida na Photographia Guimarães (Correio Paulistano, 17 de agosto de 1909, primeira coluna).

Década de 1910 – Provavelmente, durante essa década, mudou para a França, onde morou em Bois Colombe.

1911 – Publicação de um retrato do cientista Carlos Chagas (1879 – 1934), produzido na Photographia Guimarães (A Noite, 8 de agosto e 9 de agosto de 1911).

1912 – Do terceiro andar da Photographia Guimarães, o comandante Souza Aguiar dirigia o trabalho dos bombeiros para debelar um grande incêndio no coração da cidade (O Paiz, 25 de março de 1912, na última coluna).

Proprietário e empregados de estabelecimentos fotográficos requisitaram que os mesmos não mais abrissem aos domingos. Dois empregados da Photographia Guimarães participaram do abaixo-assinado endereçado aos vereadores da cidade do Rio de Janeiro (A Imprensa, 13 de abril de 1912, segunda coluna).

1913 – Foi roubada uma mercadoria – papel sensibilizado – destinada a José Ferreira Guimarães (Correio da Manhã, 23 de janeiro de 1913, segunda coluna).

Uma dúzia de retratos de Boudoir, última novidade, criação da afamada Photographia Guimarães, seria o 2º Prêmio do Grande Concurso Extraordinário D, promovido pelo semanário O Tico-Tico: Jornal das Crianças (O Tico-Tico, 4 de junho de 1913).

1914 - Pela última vez a Photographia Guimarães foi anunciada no Almanak Laemmert.

Uma dúzia de retratos da Photographia Guimarães foi o 1º prêmio do Grande Concurso Extraordinário K, promovido pelo semanário O Tico-Tico: Jornal das Crianças (O Tico-Tico, 7 de outubro de 1914).

1915 – A capa do Jornal das Moças foi ilustrada com uma imagem de Carolina Pereira dos Santos, filha de um empresário do Rio de Janeiro. O trabalho fotográfico foi da Casa Guimarães e a gravura foi realizada no ateliê de Alois Fabien (Jornal das Moças, 1º de março de 1915).

1916 – Um dos prêmios sorteados pelo semanário O Tico-Tico seriam retratos da Photographia Guimarães (O Tico-Tico, 9 de fevereiro de 1916).

Após longos anos na Europa, José Ferreira Guimarães voltou a dirigir seu estabelecimento fotográfico no
Rio de Janeiro (A Noite, 5 de agosto de 1916, quinta coluna).

 

 

 

1917 – Foi anunciado que o segundo andar da Photographia Guimarães poderia ser alugado para dentista ou negócio de luxo. O prédio, que possuia elevador, foi referido como aristocrático (Jornal do Brasil, 28 de julho de 1917, quarta coluna).

1919 - Neste ano, Maria Aparecida, uma sobrinha neta de sua esposa, foi residir com eles, na França.

1921 – O sobrinho neto de sua mulher, Benedito Junqueira Duarte (1910 – 1995), viajou para Paris, tornando-se discípulo de Guimarães. Posteriormente, Benedito trabalhou na Seção de Fotografia do Departamento de Cultura de São Paulo a convite de Mário de Andrade (1893 – 1945), além de ter sido sócio-fundador do Foto Cine Clube Bandeirante.

1924 – José Ferreira Guimarães faleceu na França, em 30 de janeiro, provavelmente, de infecção pulmonar. Foi enterrado no cemitério de Bois Colombe.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

AULER, Guilherme. sob o pseudônimo de Ricardo Martim, em dois artigos publicados na Tribuna de Petrópolis. Petrópolis, 1º e 8 de abril de 1956.

ERMAKOFF , George. Rio de Janeiro 1840 – 1900 – Uma crônica fotográfica. Rio de Janeiro: G. Ermakoff Casa Editorial, 2006.

DUARTE, Benedito J. José Ferreira Guimarães, fotógrafo da Corte Imperial. O Estado de São Paulo. São Paulo, 4 dez, 1977 (Suplemento Cultural).

FERNANDES JUNIOR, Rubens. B.J. Duarte Invenção e modernidade na fotografia documental.

FERREZ, Gilberto. A fotografia no Brasil: 1840- 1900. Prefácio Pedro Karp Vasquez. 2. ed. Rio de Janeiro: Funarte, 1985. 248 p. (História da fotografia no Brasil, 1).

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

KOSSOY, Boris. Origens e expansão da fotografia no Brasil : século XIX. Prefácio Boris Kossoy. Rio de Janeiro: Funarte, 1980. 128 p.

Site da Enciclopédia Itaú Cultural

VASQUEZ, Pedro Karp. Dom Pedro II e a fotografia no Brasil. Rio de Janeiro: Fundação Roberto Marinho: Companhia Internacional de Seguros: Ed. Index, 1985. 243 p.

VASQUEZ, Pedro Karp. O Brasil na fotografia oitocentista. São Paulo: Metalivros, 2003.

O fotógrafo Joaquim Pinto da Silva, o J. Pinto (1884-1951) e a Fundação Oswaldo Cruz

Ricardo Augusto dos Santos*

 

 

A história da fotografia brasileira possui seus atores emblemáticos, como Marc Ferrez (1843 – 1923) e Augusto Malta (1864 – 1957). Mas, também, tem seus heróis quase desconhecidos ou anônimos que, encantados com a possibilidade de registrar em imagens a realidade, nos deixaram documentos relevantes para a memória e a história do país. Um expressivo número de fotografias do acervo da Fundação Oswaldo Cruz foi produzido por Joaquim Pinto da Silva, o J. Pinto (1884 – 1951), como ficou conhecido. Este fotógrafo produziu milhares de imagens, documentando os trabalhos científicos, os primeiros prédios e as transformações urbanas da região onde seria construído o centro de pesquisa, ensino e produção de medicamentos.

 

Acessando o link para as fotografias de autoria de J. Pinto disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

Acessando o link para as fotografias em que J. Pinto ou sua família aparecem disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Inicialmente, J. Pinto ocupou um acanhado e improvisado chalé, onde o laboratório fotográfico dividia espaço com a biblioteca do recém-criado Instituto Oswaldo Cruz (IOC). Em 1911, quase finalizado o Pavilhão Mourisco, J. Pinto seria instalado no belo castelo. Podemos observar, em seu trabalho, um notável domínio das técnicas fotográficas. Autor de inúmeras imagens, negativos em vidro e microfotografias científicas, J. Pinto, em final de 1928, enviou aos amigos um cartão desejando um feliz ano novo, contendo a imagem de seu rosto reproduzida cinco vezes. Este fato remete à original fotografia conhecida como Os trinta Valérios, realizada por Valério Vieira (1862-1941), em torno de 1901. O registro, um marco na história da fotografia, traz 30 imagens de Valério Vieira.

 

 

Pouco se sabe da vida deste importante personagem do IOC. Em final dos anos 1980, um grupo de pesquisadores da Casa de Oswaldo Cruz entrevistou um dos filhos de J. Pinto, Wilson Pinto, que forneceu algumas informações sobre seu pai. Infelizmente, idoso, sua saúde precária impossibilitava um depoimento fidedigno, assim como sua irmã Edna, que também quase nada dizia com exatidão sobre a vida de Joaquim Pinto. Porém, naquela tarde, obtivemos registros raros do fotógrafo e de sua família. No próprio acervo da Fiocruz, J. Pinto pouco aparece, a não ser em fotos de uma provável caçada em companhia de Carlos Chagas, ou em seu laboratório fotográfico.

 

 

Nascido em Alagoinhas, na Bahia, em 1884, J. Pinto teria vindo para o Rio de Janeiro com 14 anos. Seus pais eram José Camerino Pinto da Silva e Maria da Purificação. Casou-se com Izaura Costa da Silva e tiveram cinco filhos: Wilson, Milton, Elza, Zeni e Ilda. Depois de morar no Centro da cidade, comprou um terreno no Méier, na Rua Jacinto, número 67, construindo ali sua casa.

 

 

Em 1903, contratado por Oswaldo Cruz na fase inicial das atividades em Manguinhos, ele começou a documentar a construção do que viria a ser um dos principais centros de ciência e saúde do Brasil. Foi fotógrafo da instituição até 1946, quando se aposentou em decorrência de problemas de saúde. Mas as imagens produzidas por ele permaneceram como a memória fotográfica da Fundação Oswaldo Cruz. As fotos de sua autoria também mostram um Rio de Janeiro em processo de urbanização. J. Pinto, que se tornou amigo de Oswaldo Cruz (1872 – 1917) e de Carlos Chagas (1879 -1934), fotografou o aspecto rural de Manguinhos, que foi se transformando. Estão registrados a construção do Castelo, da avenida Brasil, os pesquisadores e instalações físicas. Em seus registros também aparecem construções, como o aquário, demolido, que era ligado à Baía de Guanabara por uma tubulação subterrânea, onde se estudavam organismos aquáticos; a cavalariça e a chaminé da antiga usina de incineração do lixo da cidade, também demolida no início da década de 1940.

 

 

 

*Ricardo Augusto dos Santos é Pesquisador Titular da Fundação Oswaldo Cruz

 

 

Pequena cronologia de Joaquim Pinto da Silva  (1884-1951) 

1884 – O fotógrafo Joaquim Pinto da Silva, que ficou conhecido como J. Pinto, nasceu em Alagoinhas, na Bahia, filho de José Camerino Pinto da Silva e Maria da Purificação.

c. 1898 – Com 14 anos, J. Pinto teria vindo para o Rio de Janeiro.

1903 – Foi contratado pelo médico e sanitarista Oswaldo Cruz na fase inicial das atividades em Manguinhos e começou a documentar a construção do que viria a ser um dos principais centros de ciência e saúde do Brasil.

1910 – Segundo o historiador Eduardo Thielen, que escreveu a dissertação Imagens da saúde no Brasil – A fotografia na institucionalização da saúde pública, J. Pinto teria sido possivelmente o autor do primeiro filme científico feito no Brasil, Chagas em Lassance. A obra, com 9 minutos de duração, era sobre a descoberta da doença de Chagas, feita pelo cientista Carlos Chagas, em Lassance, Minas Gerais, em 1909 (Agência Fiocruz, 15 de agosto de 2008).

1911 – Chagas em Lassance foi exibido por Oswaldo Cruz na Exposição Internacional de Higiene e Demografia de Dresden, na Alemanha (Agência Fiocruz, 15 de agosto de 2008). Também foi exibido o filme sobre as ações de combate à febre amarela no Rio de Janeiro. Esses dois filmes constituem o mais antigo acervo audiovisual científico preservado de que se tem notícia no Brasil. O pavilhão do Brasil, único país das Américas a construir um estande próprio no evento, foi inaugurado em 15 de junho (O Paiz, 16 de junho de 1911, quinta coluna).

1946 - J. Pinto aposentou-se devido a problemas de saúde.

1951 – Em outubro, falecimento de Joaquim Pinto da Silva. Sua missa de 30º dia foi realizada na Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro (Diário de Notícias, 25 e 26 de novembro de 1951).

 

2014 – Lançamento do livro Vida, engenho e arte — O acervo histórico da Fundação Oswaldo Cruz, com imagens produzidas por J. Pinto (O Globo, 6 de junho de 2014).

2016 – Realização da exposição Manguinhos Revelado: um Lugar de Ciência, com cerca de 120 fotografias, a maioria de autoria de J. Pinto (Portal Fiocruz, 8 de novembro de 2016).

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Novos acervos: Museu da República

A Reforma Urbana do Rio de Janeiro na Coleção Família Passos

Magaly Cabral*

No município do Rio de Janeiro, o primeiro grande projeto de intervenção na configuração espacial e funcional da cidade, após a instauração da República, em 1889, se deu na gestão de Francisco Pereira Passos (1836-1913) como prefeito do Distrito Federal (1902-1906). Passos era um engenheiro experiente e foi nomeado para este cargo pelo presidente Rodrigues Alves (1848 – 1919), que governou o Brasil de 1902 a 1906. Sua missão como prefeito era bem definida: transformar o Rio em uma cidade moderna, cosmopolita e civilizada, digna de ser a capital da jovem república brasileira e atrair para cá visitantes, mão-de-obra imigrante e negócios.

A reforma urbana executada por Passos aconteceu em associação com as obras de modernização do porto do Rio de Janeiro e da construção da Avenida Central (atual Rio Branco), promovidas pelo governo federal, visando à melhoria na capacidade de escoamento e circulação de produtos, principalmente os importados. Como a capital federal era a principal consumidora desse tipo de produto e como a União tinha competência exclusiva sobre os impostos de importação, as reformas na cidade eram fundamentais para o equilíbrio orçamentário da federação.

Acessando o link para as fotografias do acervo do Museu da República disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Além das alterações no traçado viário, das melhorias de infraestrutura e das novidades urbanísticas e arquitetônicas na cidade, a “Reforma Passos” também alterou costumes do carioca e suas relações com o espaço. Novas posturas municipais buscaram implementar hábitos de higiene e comportamento na população. O centro da cidade, onde até então moravam muitas pessoas de baixa renda, teve seus cortiços e estreitas vielas coloniais arrasados para se transformar num espaço de cultura, comércio, negócios e governo. A falta de moradia, por sua vez, levou ao processo de favelização dos morros. O grave problema das epidemias foi neutralizado através da vacinação obrigatória, resultando na “Revolta da Vacina” de 1904. O caráter modernizador, mas também excludente, da Reforma Passos (lembrada como “bota-abaixo”) gerou questões que até hoje se impõem quando pensamos nos processos de transformação urbana acontecidos ao longo do século XX e das primeiras décadas do XXI.

 

 

Aqui, iremos apresentar um recorte temático de 118 fotografias pertencentes à Coleção Família Pereira Passos, uma das mais importantes sob guarda do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República. Ela é formada por cerca de 5.592 documentos textuais e 1.147 fotografias, produzidos entre 1806 e 1960, pelo titular e seus familiares. A coleção faz parte do acervo do Museu da República desde 1965, quando a primeira e maior leva de documentos foi doada pela família de Pereira Passos. Em 1966, foi acrescida através de novas doações de sua neta, Maria Passos, e pela transferência de fotos até então pertencentes ao Museu Histórico Nacional, já em 1980. Essa nova contribuição do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República ao projeto Brasiliana Fotográfica soma-se à Coleção Canudos, registrada pela Unesco, em 2009, na categoria Memória do Mundo e já disponível ao público.

O autor da maioria das fotos aqui apresentadas é o alagoano Augusto Malta (1864 – 1957), contratado por Pereira Passos para documentar a reforma urbana. Essas fotos mostram as obras de mudança no centro da cidade e também em bairros próximos, como Tijuca, Estácio, Cidade Nova, Glória, Catete, Laranjeiras e Botafogo. As fotografias de Luís Musso, sobre a maquete do Teatro Municipal, e finalização de sua construção, também merecem destaque. Musso prestava serviços de documentação para a firma Antônio Januzzi Irmãos e cia, pertencente ao engenheiro italiano de mesmo nome, responsável pela construção da maioria dos prédios da Avenida Central, símbolo das reformas urbanas dos governos Pereira Passos e Rodrigues Alves.

 

Nesse conjunto de fotos, a maioria dos documentos destaca a região central da cidade, a principal área afetada pelas reformas de Pereira Passos. As imagens mostram uma época de tapumes, andaimes e restos de demolições pelas ruas, resgatam a memória de cenários que tiveram que desaparecer para dar lugar a novas ruas e prédios, como é o caso da Igreja de São Joaquim e do chafariz do Largo da Carioca. São lembrados também os elementos da paisagem urbana surgidos naquele momento, mas que já não existem, parcial ou inteiramente, como é o caso dos prédios neoclássicos da Avenida Central e da Avenida Beira-Mar, antes do Aterro do Flamengo.

Embora ruas e prédios pareçam ser as estrelas das fotos, podemos ver nelas a presença do carioca de então. Os operários, os elegantes passeadores das ruas, os homens que se reúnem num quiosque pra conversar e beber e as pessoas que tentam se proteger do calor com sombrinhas em meio a uma inauguração de início de obras. Por falar em pessoas, o próprio Pereira Passos aparece em várias fotos, cortando fitas, sendo homenageado ou em visita à Câmara Municipal, a mesma que permaneceu fechada nos seis primeiros meses de seu mandato, para que ele pudesse, sem obstáculos legislativos, tomar as medidas para a execução de seu ambicioso projeto.

*Magaly Cabral é diretora do Museu da República

Novos acervos: Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz

Fotografia, Ciência e Saúde Pública 

 

As imagens aqui apresentadas integram o acervo histórico da Fundação Oswaldo Cruz, instituição de referência internacional na área das ciências biomédicas e cuja trajetória encontra-se intrinsecamente relacionada à formulação, planejamento e execução de políticas públicas de saúde no Brasil. Este acervo encontra-se sob a guarda da Casa de Oswaldo Cruz, unidade da Fiocruz e centro de pesquisa e documentação dedicado à memória, à história das ciências biomédicas e da saúde pública e à educação e divulgação em ciência e saúde.

As origens da Fundação Oswaldo Cruz remetem ao Instituto Soroterápico Federal, criado em 1900, no bairro de Manguinhos, no Rio de Janeiro, com o objetivo de produzir soros e vacinas contra a peste bubônica e que, em curto espaço de tempo, já como Instituto Oswaldo Cruz (IOC) em homenagem ao seu primeiro diretor Oswaldo Cruz (1872 – 1917) -, transformou-se no maior centro de medicina experimental da América Latina. O IOC – considerado o primeiro instituto de pesquisa da história do Brasil a trazer contribuições científicas durante um período constante, e o primeiro a dar ao país uma reputação científica internacional -, proporcionou os fundamentos para o desenvolvimento contínuo das ciências biomédicas no Brasil na primeira metade do século XX.

Acessando o link para as fotografias do acervo da Fiocruz disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Desde os primeiros anos de atividade, o IOC já contava com laboratório fotográfico próprio, e integrava em seus quadros funcionais o fotógrafo Joaquim Pinto da Silva, contratado ainda na primeira década do século XX. Desde a origem do Instituto, a produção de registros fotográficos, entre outros suportes de informação tais como plantas arquitetônicas, correspondências, impressos etc, se firmou como uma das mais prolíficas, sendo instituída, formalmente, como um dos setores de produção institucional. A existência de um laboratório próprio no Instituto Oswaldo Cruz denota o interesse e a importância da produção de registros fotográficos para os trabalhos que ali seriam desenvolvidos.

As fotografias foram originadas durante o processo de constituição, institucionalização, crescimento e legitimação do IOC desde sua origem até meados do século passado. Esse período é caracterizado pela expansão e fortalecimento do Instituto Soroterápico Federal a partir de alguns sucessos obtidos. O primeiro deles diz respeito às bem sucedidas campanhas de Oswaldo Cruz contra a febre amarela, a peste bubônica e a varíola na capital da República. Na época, Oswaldo Cruz encontrava-se à frente da Diretoria de Saúde Pública, cargo que acumulou juntamente com a direção do Instituto até 1909. Outra vitória acumulada refere-se ao reconhecimento científico internacional das atividades desenvolvidas no IOC, através da premiação com a medalha de ouro na Exposição de Higiene de Berlim, em 1907, e do anúncio da descoberta de uma nova doença – a doença de Chagas – na Exposição Internacional de Higiene de Dresden, em 1911.

Após a morte de Oswaldo Cruz, seu trabalho à frente do IOC teve continuidade com o médico sanitarista Carlos Chagas (1879 – 1934) que, coincidentemente, também acumulou por um período (1920-1926) a direção do Instituto e da recém-criada Diretoria Nacional de Saúde Pública, restabelecendo mais uma vez uma ligação direta entre aquela instituição e o Estado brasileiro naquilo que se refere à saúde pública. Na gestão de Chagas (1917 – 1934), o IOC já era uma instituição consolidada, com autonomia financeira e administrativa suficientes para garantir uma expansão considerável das atividades de pesquisa, ensino e produção ali desenvolvidas.

 

 

A conformação institucional do IOC nos primeiros anos do século XX teve como consequência uma expansão de seu quadro de funcionários e a contratação de um fotógrafo reforça esse fato. A importância dada aos registros visuais pode ser também aferida pelo espaço que a atividade vai ganhando institucionalmente, seja na ocupação de ambientes considerados “nobres” no principal espaço edificado para abrigar o IOC – o castelo mourisco -, onde ocupou gabinetes específicos destinados à fotografia e à cinematografia, seja pela importância da atividade na hierarquia interna, consubstanciada pela obrigatoriedade de apresentação de um relatório anual de atividades à direção do IOC contendo informações veiculadas na forma de textos e imagens.

Hoje, o acervo fotográfico remanescente desse período inicial de consolidação do Instituto – embora tenha sofrido perdas importantes causadas por crises pelas quais passou o IOC –, é marcante e minucioso na sua potência de registro de uma memória do período. Assim, a série fotográfica ora apresentada diz respeito a três dimensões dos impactos da atuação do IOC no contexto sócio, político e científico do período que compreende as primeiras décadas do século XX: a construção de suas instalações na então pouco conhecida região de Manguinhos e suas articulações com o entorno; a era das expedições científicas ao interior do país visando mapear as condições de vida e saúde da população rural e que originou um importante debate político sobre os males da nova república e seus obstáculos ao “progresso”; e flagrantes do cotidiano da instituição, representados por registros de visitantes ilustres, dos professores e alunos dos cursos que o IOC promovia, de algumas atividades de laboratório e, sobretudo, a vida intramuros da instituição.

 

 

Fontes:

BENCHIMOL, Jaime Larry. Manguinhos, do sonho à vida: a ciência na Belle Epoque. Rio de Janeiro: Fiocruz/COC, 1990.

Fundação Oswaldo Cruz. Casa de Oswaldo Cruz. A ciência a caminho da roça. Imagens das expedições científicas do Instituto Oswaldo Cruz ao interior do Brasil entre 1911 e 1913. Rio de Janeiro: Fiocruz/Casa de Oswaldo Cruz, 1991.

LACERDA, Aline Lopes de; Mello, Maria Teresa Villela Bandeira de. Imágenes de la salud pública: la institucionalización del Instituto Oswaldo Cruz em Brasil. Dymanis. Acta Hispanica ad Medicinae Scientiarumque Historiam Illustrandam. Vol. 25, 2005, p. 179-198.

THIELEN, Eduardo Vilela. Imagens da saúde pública do Brasil: a fotografia na institucionalização da saúde pública. Dissertação de mestrado, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 1992, p.158.

Memória das lutas feministas

Cláudia Heynemann e Maria do Carmo Rainho*

Nas quase 500 fotografias que integram o fundo Federação Brasileira pelo Progresso Feminino – FBPF -, do Arquivo Nacional, evidencia-se a rede formada por mulheres em várias partes do mundo – dos Estados Unidos à Turquia, da Argentina à República Tcheca – na luta por seus direitos, por trabalho, educação, mas, sobretudo, por representatividade política através do voto.

A estas imagens que informam sobre congressos, assembleias, alistamentos, encontros de caráter político e tantas iniciativas voltadas para o universo feminino somam-se retratos daquelas que romperam com os papéis reservados a elas, sobretudo, nos anos 1920 a 1940. São aviadoras: Ruth Rowland Nichols e Jean Gardner Batten; juízas de paz como Mabel Moir-Byres; as cientistas Marie Curie e Bertha Lutz; engenheiras como Carmen Portinho; políticas como Frances Coralie Perkins, secretária do Trabalho nos Estados Unidos, de 1933 a 1945, e a principal arquiteta do New Deal. Entre as brasileiras, destacam-se, ainda, as fotografias das primeiras eleitoras como Esther Caldas, no estado de Alagoas, e das mulheres eleitas, a começar por Alzira Soriano, a primeira prefeita do Brasil e da América do Sul.

Acessando o link para as fotografias de memórias das lutas feministas disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

O registro de Bertha Lutz no avião do qual foram lançados panfletos pelo voto feminino, em 1927, tem em sua composição todos os ingredientes da ousadia: posar junto a um meio de transporte ainda recente, marcado pelo risco, a velocidade, a altitude; um voo pelos direitos das mulheres e em nome da Federação pelo Progresso Feminino que ela havia fundado em 1922. Em 1928, ao homenagear Carrie Chapman Catt, primeira presidente da IWSA – International Woman Suffrage Alliance, criada em 1904, em um impresso em língua inglesa, a organização reconhecia dever sua existência a Chapman, reproduzindo ali o escudo da República brasileira e o avião com os dizeres “voto feminino”.[1]

 

 

O nascimento da FBPF, precedida pela Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher, criada pela cientista Bertha Lutz, em 1919, era declaradamente vinculado ao movimento sufragista internacional, principal tendência do feminismo no início do século XX, entre as demais reivindicações de igualdade e independência. A partir dali, seriam promovidos diversos encontros, seguindo a tendência da belle époque, como o Congresso Internacional Feminista de 1922 no Rio de Janeiro, ao qual compareceu Carrie Chapman, ou o IX Congresso da Aliança Internacional Feminista, no ano seguinte, realizado em Roma.

 

 

O internacionalismo feminista está presente nessas fotografias, em diálogo com os encontros nacionais que, ao final dos anos 1920 e nos anos 1930, se sucedem, incluindo aqueles com o presidente Getúlio Vargas. Este último ocorreu durante o III Congresso Nacional Feminista no Rio de Janeiro quando Bertha Lutz já ocupava a vaga de deputada federal na vaga deixada pelo titular. Vista em retrospecto, a recepção no Catete ordena a marcha dos acontecimentos a partir da Revolução de 1930 de cujos líderes as integrantes da FBPF, sobretudo cariocas, haveriam de se aproximar.

 

 

O grupo sorridente de 1931 é formado pelas delegadas ao II Congresso Internacional Feminista. Reunidas na praia deserta e invernal do Recreio dos Bandeirantes, registra entre suas fileiras Carmem Portinho, uma das fundadoras e vice-presidente da Federação. O evento teve em suas sessões uma representante do governo nomeada por decreto. No ano seguinte o novo código eleitoral estendeu o direito de voto às brasileiras.

 

 

Uma das fotografias mais representativas das lutas feministas e do espaço ocupado pelas mulheres na política nas primeiras décadas do século XX faz parte desta amostra de imagens. Nela, temos Maria José Salgado Lages, primeira deputada eleita pela Assembleia Legislativa do Estado de Alagoas, circundada por deputados, todos eles homens, após a cerimônia de posse em Maceió, em 1935. Elegantemente vestida para os padrões da época – conforme a moda europeia de vestidos mais longos, retos, com pregas até o meio da perna e tecidos encorpados e escuros, adequados à crise econômica dos anos 1930, Maria José não se furta, em meio à austeridade que faz da sua indumentária quase uma versão feminina dos ternos, a escolher bolsa e luvas brancas, cor também utilizada para os detalhes da parte superior do vestido. Frescor e juventude num visual sério, conforme pedia a solenidade da ocasião.

 

 

Àquela época, a deputada, também conhecida como Lily Lages, nascida em Maceió, havia trilhado um caminho bastante rico para uma moça de 28 anos: estudou em Olinda, em escola fundada por beneditinas alemãs; formou-se na Faculdade de Medicina da Bahia (1931), enfrentando a oposição do pai; foi a única mulher a pertencer ao Grêmio Literário Guimarães Passos, onde tomou posse em 1931; fundou a Associação pelo Progresso Feminino, em Alagoas (1932). Antes de se eleger já lutara pela instituição de cursos de puericultura e economia doméstica nos estabelecimentos de ensino secundário, como forma de combater a mortalidade infantil. Longe de uma fragilidade que seu corpo franzino pode expressar, em meio a tantos homens de terno, Maria José e seu sorriso discreto evidenciam que aquele instante era apenas um passo em uma trajetória de conquistas, em meio a batalhas enfrentadas em diferentes campos e há muito tempo.

 

 

 

[1] International Women’s News / Nouvelles Féministes Internationales. Centenary Edition 1904-2004.

 

*Cláudia Heynemann – Doutora em História | Pesquisadora do Arquivo Nacional

* Maria do Carmo Rainho – Doutora em História | Pesquisadora do Arquivo Nacional

“Sete de Setembro: uma ponte entre dois maurícios”, por Pedro Vasquez

Sete de Setembro: uma ponte entre dois maurícios

Pedro Karp Vasquez*

 

Esta magnífica fotografia ilustra a importância de dois maurícios para o Recife, ambos alemães: Moritz Lamberg, que tão bem a focalizou em fins do século XIX, e Johan Maurits van Nassau-Singen, que a fez edificar na primeira metade do século XVII, durante o domínio holandês no Brasil.

Do ponto de vista estritamente fotográfico é uma imagem irretocável, como quase todas aquelas produzidas por Lamberg desde que assumiu o comando da Photographia Allemã pernambucana, criada por seu compatriota Alberto Henschel, em 1867. Atuando de início como assistente de Henschel, Lamberg o sucedeu quando ele seguiu para o Rio de Janeiro, em 1870, para abrir outra casa fotográfica de idêntica denominação, depois de ter feito o mesmo em Salvador. Rivalizando com o mestre na prática do retrato fotográfico, sustentáculo do estúdio, Lamberg o ultrapassou amplamente na fotografia paisagística, demonstrando um talento capaz de ombrear com os melhores cultores do gênero no Brasil oitocentista, tais como Revert Henry Klumb, Augusto Stahl , Marc Ferrez e Juan Gutierrez. Lamberg foi sob todos os aspectos um fotógrafo completo, conforme comprova o imponente álbum de sua autoria conservado na Coleção Dona Thereza Christina Maria, da Biblioteca Nacional. Todavia, por um destes misteriosos caprichos do destino, ainda não mereceu a devida consagração póstuma, como a edição de um moderno livro de fotografia de caráter monográfico.

Acessando o link para as fotografias de autoria de Moritz (Maurício) Lamberg disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

A atribuição de intenções aos fotógrafos oitocentistas é sempre arbitrária, pois com frequência eles eram mobilizados por intenções e preocupações diferentes daquelas de seus colegas da atualidade. É lícito especular, no entanto, que Lamberg tenha optado pelo enquadramento frontal para destacar os lampadários da entrada e os arcos metálicos da ponte, que não ficariam claramente visíveis em uma tomada lateral ou em diagonal, como as empregadas por outros fotógrafos de seu tempo, como João Ferreira Villela, por exemplo. Esta frontalidade – antecipatória daquela que seria preconizada por Walker Evans em meados do século seguinte –, também fez sobressair os trilhos de bonde no primeiro plano, que conduzem o olhar para o ponto de fuga da imagem como se convidassem o observador a atravessar a ponte rumo ao bairro de Santo Antônio, passando sob o arco de mesmo nome visível no centro da composição. Existia outro, à sombra do qual Lamberg deve ter instalado sua câmara, o arco da Conceição, situado no bairro do Recife, no limiar da antiga Cidade Maurícia. Ambos persistiram até o século seguinte, sendo demolidos, respectivamente, em 1913 e 1917, por medida de segurança já que estavam bastante corroídos, apresentando risco de desabamento.

A presença de populares observando a faina de Moritz Lamberg comprova o fato de que ainda na década de 1880 um fotógrafo paisagista era figura rara e merecedora de atenção nas ruas brasileiras.

Toda fotografia de época é um convite para uma viagem no tempo. Portanto, para melhor evocar o Recife retratado por Lamberg vale a pena acompanhar um ilustre visitante paulista, que percorreu a cidade exatamente na época em que o mestre alemão a perenizava com sua técnica requintada. Joaquim de Almeida Leite de Moraes, que foi presidente da província de Goiás, registrou suas impressões no livro Apontamentos de viagem, publicado em 1883 e relançado em 2011, por iniciativa do Prof. Antonio Candido de Mello e Souza. Assim viu a capital pernambucana aquele que viria a ser mais tarde avô de Mário de Andrade:

‘Recife, essa Veneza brasileira, é talvez a segunda cidade do Império, não em sua extensão, senão em beleza e sob o ponto de vista comercial.

Percorri todas as suas linhas de bondes; vi de passagem alguns de seus principais edifícios, palácio do governo, da assembleia, teatro, igrejas, etc. O teatro é um grande edifício e de custosa arquitetura. Ruas largas e estreitas; em geral bem calçadas; cidade nova e cidade velha; becos imundos, casas altas e baixas, mercado animado e sofrível: grande agitação comercial: o fluxo e refluxo popular em todas as ruas: suas pontes magníficas ligando as duas cidades, separadas pelo rio, coalhado de navios’.[1]

Por trás do véu argênteo 

Somente o esteta impenitente pode apreciar uma fotografia de época apenas pelo prisma de sua beleza, sem se preocupar em erguer o véu argênteo para contemplar o que se esconde sob a fina e ofuscante superfície dos sais de prata. Isto porque uma imagem antiga esconde mais do que desvela, concentrando numerosas informações a respeito do tema retratado ao mesmo tempo em que antecipa sua vida futura, de modo que só é plenamente compreendida quando a ela são adicionadas as informações invisíveis que mascara.

Cumpre lembrar, portanto, ter sido esta a primeira grande ponte do Brasil, nascida com o nome de Ponte do Recife, interligando os bairros do Recife e de Santo Antonio por sobre o rio Capibaribe. Distingue-se hoje como a mais antiga ponte em funcionamento contínuo do país, sob a denominação de ponte Maurício de Nassau. Isto porque foi Nassau quem a mandou construir e a inaugurou em 28 de fevereiro de 1644 com uma festa que pode ser considerada a fundadora da propaganda política no Brasil. Com efeito, o sagaz administrador do Brasil holandês havia prometido à população pernambucana que faria um boi voar para festejar a abertura da ponte ao tráfego. Prometeu e cumpriu! De tal forma que a multidão acumulada na ponte de fato viu, com deslumbre e estupor, um boi cruzar os céus sobre suas cabeças. Este episódio entrou na história como o caso do “Boi voador”, consolidado no folclore recifense e cantado em prosa e verso até hoje por repentistas e cordelistas. O príncipe Johan Maurits van Nassau-Singen foi, inegavelmente, um dos mais competentes administradores a atuar no Brasil colonial e um homem verdadeiramente prodigioso, mas não era mágico nem feiticeiro, de modo que seu boi celeste tem explicação bem terra-a-terra: era um animal empalhado suspenso em cabos que, graças a um engenhoso sistema de roldanas, parecia voar de moto próprio.

Pernambuco recuperado pelos portugueses, o período colonial encerrado, assim como o Primeiro Império, a ponte do Recife permaneceu em plena atividade, sofrendo naturalmente ao longo do tempo reparos e melhorias, até que em 7 de setembro de 1865 adquiriu a nova denominação de ponte Sete de Setembro, evocadora da Independência do Brasil.

Os trilhos e os lampiões visíveis na imagem sublinham o fato de o Recife ser uma das mais modernas e importantes cidades brasileiras ao ser fotografada por Maurício Lamberg na década de 1880, quando sua população de mais de 100 mil habitantes era superada apenas por Salvador e Rio de Janeiro. Os lampadários a gás carbônico, percebidos no primeiro plano, foram implantados na década de 1860, destronando progressivamente os velhos lampiões que funcionavam desde 1822 com azeite de carrapateira e de cachalote e, a partir de 1856, com óleo de peixe. Pernambuco conheceu a estrada de ferro quatro anos apenas após a sede da Corte Imperial, com a implantação da ferrovia ligando as cidades de Recife e do Cabo, a Recife and S. Francisco Railway, documentada por Augusto Stahl, em 1858. Ao passo que a Brazilian Street Railway Limited instalou o serviço de trens urbanos em 1867. Não tardou para que suas locomotivas fossem apelidadas de Maxambombas, corruptela de machinepump. Para reiterar a modernidade recifense, este foi o primeiro serviço de trens urbanos da América Latina.

(1) MORAES, Joaquim de Almeida Leite Moraes. Apontamentos de viagem. São Paulo: Penguin/Companhia das Letras, 2011, pp. 225-226.

* Pedro Karp Vasquez é escritor, fotógrafo e membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Pequeno perfil de Moritz (Maurício) Lamberg

Em 1880, o gerente da Photographia Allemã de Recife, Constantino Barza, anunciou a chegada do fotógrafo europeu Moritz (Mauricio) Lamberg(1), para cuidar da parte técnica e artística do ateliê do berlinense Alberto Henschel (1827 – 1882). Lamberg foi apresentado como celebridade europeia e insigne artista, que havia dirigido estabelecimentos em Berlim e em Viena e obtido prêmios em Paris e em Viena nas exposições de 1868 e 1873. Porém, como um de seus  filhos, o pianista Emilio Lamberg, nasceu em Pernambuco, em torno de 1863, e teria ido para para Viena, com a família, aos 3 anos, é provável que Lamberg tenha estado no Brasil, nessa época, antes de trabalhar para Henschel.

Em 1885, foi concedida a ele a carta de naturalização. Ora identificado como austríaco ora como alemão, em artigo escrito por ele, em 1899, declarou-se teuto-brasileiro. Além de fotógrafo, foi referido pela imprensa como homem de ciência, professor de alemão, ilustre explorador e sócio correspondente de várias agremiações e revistas de ciência do estrangeiro.

 

 

Provavelmente nesse período, entre 1880 e 1885, produziu diversos registros de Recife, capital de Pernambuco. Vinte dessas fotografias foram reunidas no  álbum Ansichten Pernambuco’ s Recife Photographia Allemã, dedicado a d. Pedro II, que faz parte do acervo da Biblioteca Nacional. Outras 48 imagens estão no álbum Vistas de Pernambuco, pertencente ao acervo do Instituto Moreira Salles.

Lamberg produziu também imagens de núcleos coloniais, tipos populares, casas coloniais, espécies do reino vegetal e das principais cidades do Brasil. Fotografou a família imperial no Palácio Itamaraty, no Rio de Janeiro, em 1887.  Em suas fotografias, Lamberg já usava as placas secas de gelatina, inventadas em 1871, o que conferia a elas, segundo Pedro Vasquez, uma invulgar mobilidade.

 

 

Sobre seu talento para a realização de fotografias do mar e de embarcações, Pedro Vasquez comentou que ele poderia ser classificado sem dúvida alguma como um fotógrafo de marinhas, com tanto talento para o gênero quanto Marc Ferrez (1843 – 1923), o único no Brasil a se ter especializado nesse campo, a ponto de se tornar Fotógrafo da Marinha Imperial.

 

 

Provavelmente Lamberg foi morar no Rio de Janeiro em 1887 e, em 1890, tornou-se professor de alemão do Instituto Nacional de Instrução Secundária, atual Colégio Pedro II. Em 1892, Maurício Lamberg embarcou para a Europa, a bordo do paquete inglês Clyde, rumo a Southampton e outras escalas. Em 1894, já se encontrava no Rio de Janeiro. Em 1902, Lamberg estava na Áustria comissionado em propaganda de imigração.

Entusiasta da imigração de europeus para o Brasil, Maurício Lamberg publicou, em 1896, o livro O Brazil, sobre o qual o historiador Sacramento Blake (1827 – 1903) comentou:  “[…] trata da natureza do Brazil e das diversas raças que contém; de sua lavoura, do solo, da imigração e colonização; de suas florestas…”. Para escrever o livro, Lamberg viajou durante anos pelo norte e por parte do sul do país. Escrita originariamente em alemão, a obra, que abrange assuntos como história, geografia, fontes de renda e costumes, foi vertida para o português pelo jornalista e crítico musical Luiz de Castro (1863 – 1920), editado pela Casa Lombaerts e impresso na Tipografia Nunes, com 381 páginas distribuídos em 15 capítulos.

 

 

indice

 

Possuía heliografias executadas e impressas por Dontor F. Albert & Cia, em Munique, e por Verlag von Hermann Zieger, em Leipzig, na Alemanha, além de registros produzidos por ele e por fotógrafos como Marc Ferrez (1843 – 1923), dentre outros. As duas imagens abaixo estão na obra.

 

 

 

Segundo Lamberg, por se preocuparem em demasia com a África e com a Ásia, os países europeus negligenciavam as vantagens econômicas e climáticas que o Brasil oferecia para os europeus do norte. Aconselhava que os recém-chegados ao Brasil evitassem o consumo de frutas em excesso e também tivessem cuidado com a exposição ao sol. Mencionava também o perigo da febre amarela.

Seu filho, o pianista e organista Emilio Lamberg (c.1863 – 1919), fez bastante sucesso, tendo se apresentado com os mais destacados músicos de sua época. Porém, morreu paupérrimo (Correio da Manhã, 18 de agosto de 1919, na sexta coluna). Seu outro filho, Manfredo Carlos Lamberg (18? – 1921), que ele chamava de Fred e o acompanhou em algumas de suas viagens ao norte do Brasil, foi major, professor de alemão, telegrafista, agrimensor e engenheiro (O Cearense, 25 de dezembro de 1890, na primeira colunaJornal do Brasil, 15 de junho de 1891, na segunda colunaDiário de Notícias, 5 de janeiro de 1895, na sexta coluna, O Pará, 31 de março de 1900, na primeira coluna, A Época, 23 de dezembro de 1912O Paiz, 24 de julho de 1914, na primeira coluna).

 

 Cronologia de Moritz (Maurício) Lamberg

 

1863 – De acordo com a dissertação de Regina Beatriz Quariguasy Schlochauer, A presença do piano na vida carioca no século passadoapresentada ao Departamento de Música da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, sob orientação do Prof. Dr. Amilcar Zani Netto, o pianista Emílio Lamberg, filho de Maurício Lamberg, teria nascido em Pernambuco, em 1863, e ido para para Viena, com a família, aos 3 anos. Segundo noticiado pelo jornal O Paiz, de 18 de agosto de 1919, ele teria falecido com 52 anos em 1919, ou seja, teria nascido em 1867 ou 1868. Com essas informações, pode-se deduzir que, possivelmente, nessa época Maurício Lamberg estava vivendo no Brasil.

1880 – O gerente da Photographia Allemã de Recife, Constantino Barza, anunciou a chegada do fotógrafo europeu Maurício Lamberg para cuidar da parte técnica e artística do ateliê do berlinense Alberto Henschel (1827 – 1882). Lamberg foi apresentado como celebridade europeia e insigne artista, que havia dirigido estabelecimentos em Berlim e Viena e obtido prêmios em Paris e em Viena nas exposições de 1868 e 1873 (Diário de Pernambuco, 30 de janeiro de 1880).

O Instituto Moreira Salles possui o álbum Vistas de Pernambuco, com 48 fotografias da cidade de Recife, produzidas por Lamberg em torno desse ano.

 

 

1880 – 1885 – O álbum de sua autoria, Ansichten Pernambuco’ s Recife Photographia Allemã, foi provavelmente produzido nesse período. Dedicado a d. Pedro II, faz parte do acervo da Biblioteca Nacional, e possui 2o fotografias de Recife.

 

 

1881 – Lamberg fez uma petição à Associação Comercial da cidade do Recife para que se ordenasse o registro da escritura da compra que fez do estabelecimento denominado Photographia Allemã, que era de propriedade de Alberto Henschel (1827 – 1882) (Diário de Pernambuco, 19 de setembro de 1881, na quarta coluna).

Alberto Henschel e Lamberg convidavam o público para apreciar os trabalhos de nossa casa, que vão ser exibidos na próxima exposição que terá lugar no Rio de Janeiro (Diário de Pernambuco, 14 de novembro de 1881).

 

 

1884 – Após uma longa temporada de estudo na Europa, o filho de Lamberg, o pianista e organista Emilio Lamberg (1860 – 1919), chegou ao Brasil, no vapor Niger, que havia partido da França (Diário de Pernambuco, 6 de março de 1884, na primeira coluna; e Diário de Pernambuco, de 13 de março de 1884, na primeira coluna). Dias depois, Emilio fez uma apresentação no primeiro andar do sobrado onde ficava a Photographia Allemã, na rua Barão da Vitória, nº 52 (Diário de Pernambuco, 29 de março de 1884, na penúltima coluna). Maurício Lamberg convidou o público para a apresentação de seu filho, no Teatro Santa Isabel, inicialmente agendada para o dia 19 de abril e depois transferida para o dia 24 do mesmo mês. O recital foi um sucesso e Emilio se apresentou várias outras vezes (Diário de Pernambuco, 9 de abril de 1884, na quarta colunaDiário de Pernambuco, 18 de abril de 1884, na segunda coluna; e Diário de Pernambuco, 27 de abril de 1884, na quinta coluna).

1885 – Foi concedida a Maurício Lamberg, identificado como um súdito austríaco, a carta de naturalização (Diário de Pernambuco, 12 de abril de 1885, na primeira coluna e 29 de abril, na quarta coluna).

Em uma notícia sobre o suicídio de um empregado no estabelecimento Photographia Allemã, localizada na rua Barão da Vitória, em Recife, Lamberg foi identificado como proprietário da casa fotográfica (Jornal do Commercio, 27 de maio de 1885, na quarta coluna; e Diário de Pernambuco, 15 de maio de 1885, na primeira coluna).

1887 – Representando a casa fotográfica Alberto Henschel, seu sócio viajante Lamberg esteve de janeiro a março de 1887, em Vitória, no estabelecimento fotográfico de Ayres, provavelmente Joaquim Ayres, que iniciou sua carreira como funcionário do fotógrafo Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912), no Rio de Janeiro. O estabelecimento seria a Photographia Artística Vitoriense (O Espírito-Santense, 1º de janeiro de 1887, e A Província do Espírito Santo, 26 de fevereiro de 1887, na última coluna, e O Espírito Santense, 2 de março de 1887, na última coluna). Dias depois, Lamberg anunciou a exposição das fotografias produzidas em sua estadia em Vitória (A Província do Espírito Santo, 13 de março de 1887, na primeira coluna). Na época, a Photographia Artística Vitoriense ficava no Largo do dr. João Clímaco, nº 6.

No estabelecimento fotográfico de Alberto Henschel, a Photographia Allemã, na rua dos Ourives, nº 40, atual rua Miguel Couto, no Rio de Janeiro, foi inaugurada uma exposição de vistas fotográficas de pontos do norte do país, produzidas por Lamberg, na época, um dos sócios do ateliê (The Rio News, 5 de maio de 1887, na primeira colunaDiário de Notícias, 20 de maio de 1887, na penúltima coluna sob o título “Vistas fotográficas”; e Novidades, 21 de maio de 1887, na segunda coluna). As fotografias serviriam de modelos para as gravuras em madeira que viriam a ilustrar o livro, na época intitulado “Esquissos sobre o norte do Brasil em relação à colonização”, que estava sendo escrito, em alemão, por Lamberg. Eram imagens de núcleos coloniais, tipos populares, casas coloniais, espécies do reino vegetal, entre outras. Sobre o conjunto de imagens, escreveu-se: é uma coleção curiosa mesmo para quem a vir desacompanhada de texto explicativo (Jornal do Commercio, 22 de maio de 1887, na sexta colunaO Cearense, 20 de julho de 1887, na quarta coluna).

 

 

Em 1º de junho, Lamberg fotografou a família imperial no Palácio Itamaraty. Ficou assim o grupo: ao centro o imperador e a imperatriz; à direita do imperador, a princesa imperial com seu filho o príncipe d. Luiz e junto a si o príncipe d. Antonio e o príncipe do Grão-Pará, o conde d´Eu e o príncipe d. Augusto, ficando estes no segundo plano. À esquerda da imperatriz, figurou sentado o príncipe d. Pedro (O Paiz, 20 de junho de 1887, na quarta coluna, sob o título “Noticiário” e A Federação, 28 de junho de 1887, na primeira coluna).

Na reunião da diretoria da Sociedade Central de Imigração, presidida pelo senador Escragnolle Taunay, após a leitura do expediente, apresentou-se Lamberg, austríaco, que faz sentir a facilidade com que poderiam instalar-se no Brasil vários compatriotas seus, trabalhadores de primeira ordem que na Europa já não podem conseguir certas condições de bem estar. Devido à complexidade da questão, foi pedido para que Lamberg comparecesse na reunião seguinte da diretoria, no dia 5 de maio (A Immigração, 30 de junho de 1887, na segunda coluna).

A visita que Lamberg fez à redação do Correio Paulistano foi registrada pelo jornal com a publicação da matéria “Um estrangeiro amigo no Brasil”(Correio Paulistano, 29 de julho de 1887, na primeira coluna).

 

 

Foi veiculada uma propaganda da Photographia Allemã: Alberto Henschel & Co – Retratos em fotografia e a óleo, sendo estes feitos pelo artista E. Paft e aqueles pelo artista sr. Lamberg. Rua dos Ourives, 40, das 9 horas da manhã às 4 da tarde (Jornal do Commercio, 2 de outubro de 1887, na segunda coluna).

Seu filho, o pianista Emilio Lamberg chegou ao Rio de Janeiro.

1888 – Lamberg e seu filho, o pianista e organista Emilio Lamberg, visitaram a redação do jornal Diário de Notícias. Foi anunciado que Emilio se apresentaria no dia 19 de junho no Club Beethoven, inaugurado em 1882, que abrigava saraus com os principais nomes da música clássica. De acordo com o jornal, Emilio Lamberg havia estudado na Academia de Música de Berlim e nos conservatórios de Viena e de Paris, tendo sido aluno do músico francês Camille Saint-Saens (1835 – 1921). Nesta matéria Lamberg foi identificado como escritor e viajante austríaco (Diário de Notícias, 9 de novembro de 1888, na última coluna, sob o título “Echos e Notas”).

1889 – Seu filho, Manfredo Carlos Lamberg, prestou exames para a Escola Normal, no Rio de Janeiro (Jornal do Commercio, 28 de janeiro e 12 de fevereiro de 1889, ambos na segunda coluna).

1890 – Mauricio Lamberg foi nomeado professor substituto da cadeira de alemão do Instituto Nacional de Instrução Secundária, atual Colégio Pedro II (Diário de Notícias, 7 de fevereiro de 1890, na penúltima coluna). Inscreveu-se para a vaga de professor efetivo (Jornal do Commercio, 15 de junho de 1890, na terceira coluna).

Foi noticiado que um parecer sobre a obra de Lamberg, um estudo sobre o Brasil sob uma ótica econômica e social, seria apresentado ao presidente do Brasil, marechal Deodoro da Fonseca (1827 – 1892). Para escrever o livro, Lamberg teria viajado durante anos pelo norte e por parte do sul do país (Diário de Notícias, 5 de março de 1890, na penúltima coluna). Uma curiosidade: quando esteve em Santa Catarina, conheceu o fotógrafo e agente consular Albert Richard Dietze (1839 – 1906), que o hospedou. Na ocasião, houve um sarau com dança na casa do anfitrião (O Brazil, pág. 256).

Emilio Lamberg era professor de piano da Academia de Música, fundada em 1885 pelo Club Beethoven. Funcionava na Escola de São José (Gazeta de Notícias, 26 de abril de 1890, no centro da página). Foi admitido como professor de órgão no Instituto Nacional de Música (Jornal do Commercio, 30 de agosto de 1890, na última coluna). Pouco depois viajou para a Europa onde foi acompanhar a construção do órgão encomendado pelo Instituto à casa Wilhelm Sauer, em Frankfurt, na Alemanha (Jornal do Commercio, 17 de novembro de 1890, na sétima coluna). Ficou na Europa até 9 de junho de 1894 (Jornal do Commercio , 20 de agosto de 1904, na sexta coluna).

1892 – Maurício Lamberg embarcou no dia 19 de abril para a Europa a bordo do paquete inglês Clyde, rumo a Southampton e outras escalas (O Paiz, 20 de abril de 1892, na penúltima coluna).

Emilio Lamberg foi demitido do cargo de professor de órgão no Instituto Nacional de Música, a bem do serviço público. Posteriormente, tornou-se um professor particular de sucesso (Diário de Notícias, 26 de agosto de 1892, na terceira coluna e Jornal do Brasil, 26 de agosto de 1892, na primeira coluna).

1894 – Maurício Lamberg estava inscrito para o concurso para amanuense da Diretoria do Interior e Estatísticas, da Prefeitura do Rio de Janeiro (O Paiz, 16 de setembro de 1894, na quinta coluna). Amanuense era o funcionário de repartições públicas que faziam cópias, registros e cuidavam da correspondência.

Foi anunciado que Moritz Lamberg, depois de ter viajado pelo nosso país oito anos, escreveu um importante trabalho – O Brazil, que vai ser editado pela casa H. Lombaerts & C, desta capital. O livro, que será luxuosamente impresso, contém um estudo sobre a nossa história, geografia, fontes de renda, costumes, caráter do povo e 50 fotografias representando trechos de nossas matas virgens e seculares e vistas das cidades mais importantes (O Paiz, 30 de dezembro de 1894, na sexta coluna).

1895 – Transcrição do capítulo  “As classes baixas do Brasil –  caboclos, mulatos, cabras, negros e antigos escravos”, do livro de Lamberg, O Brasil, que ainda não havia sido lançado. O trecho foi traduzido pelo professor Cândido Jucá (1865 – 1929) (Diário de Pernambuco, 13 de fevereiro de 1895, na primeira coluna).

Notícia sobre o livro O Brazil, identificado como um estudo completo da história sociológica do país (A Semana, 16 de fevereiro de 1895, na segunda coluna).

Maurício Lamberg estava relacionado em uma lista da Secretaria do Interior e Justiça do Estado do Rio de Janeiro para completar o sello dos respectivos requerimentos (Jornal do Commercio, 20 de junho de 1895, na terceira coluna).

Na Câmara dos Deputados, era pleiteada uma verba para ajudar a publicação do livro de Lamberg em quatro línguas, como reforço do fomento que o Governo fazia à imigração, estabelecendo superintendências na Europa (O Paiz, 8 de junho de 1895, na quinta coluna, e Jornal do Commercio, 9 de novembro de 1895, na terceira coluna).

1896 – Emilio Lamberg e sua mulher, professores de música, comunicaram sua mudança para Petrópolis (Jornal do Commercio, 2 de fevereiro de 1896, na penúltima coluna).

Maurício Lamberg apresentou à Câmara de Deputados uma petição pedindo isenção de direito para as gravuras e capas que ilustrariam o livro sobre o Brasil que ele estava prestes a publicar (Jornal do Commercio, 4 de dezembro de 1896, na segunda coluna, e The Rio News, 8 de dezembro de 1896, na terceira coluna). O pedido foi indeferido (Liberdade, 2 de dezembro de 1896, na última coluna).

Foi publicado seu livro, O Brazil, editado pela Casa Lombaerts e impresso na Tipografia Nunes, com 381 páginas (Diário do Rio, 2 de abril de 1897, na quarta coluna).

1897 – Maurício Lamberg, identificado como professor, tinha estado no Palácio Itamaraty (O Paiz, 19 de janeiro de 1897, na quinta coluna).

Foi enviado um exemplar do livro O Brazil para a redação do Jornal do Brasil (Jornal do Brasil, 31 de março de 1897, na terceira coluna).

Foi publicado um comentário sobre O Brazil, referido como um importantíssimo livro, cuja edição era primorosa e as gravuras admiráveis de nitidez (Revista Illustrada, abril de 1897, na segunda coluna).

Publicação de uma crítica ao livro O Brazil (A Notícia, 8 de abril de 1897, na penúltima coluna, na coluna “Semana Literária”). Outra crítica foi publicada descrevendo os temas do livro, com a transcrição do trecho em que se refere aos jornalistas atuais (Gazeta de Notícias, 27 de abril de 1897, na primeira coluna). O livro estava à venda na Livraria Laemmert, na rua do Ouvidor, 66 (A Notícia, 26 e 27 de abril, na última coluna).

Em comentário do dr. Figueiredo Magalhães, transcrição de um trecho do livro O Brazil, de autoria de Moritz Lamberg, sobre a pretensa descoberta da vacina amarela pelo dr. Domingos Freire (1849 – 1899), professor da Academia de Medicina no Brasil. Lamberg afirmava que conhecidos dele haviam morrido de febre amarela depois de terem sido vacinados (Jornal do Commercio, 11 de abril de 1897, na primeira coluna). Devido a esse trecho de seu livro, Lamberg foi convidado a comparecer ao Instituto Bacteriológico dr. Domingos Freire a fim de dar esclarecimentos, certo de que se não o fizer no espaço de oito dias sua afirmação será tida como falsa e aleivosa (O Paiz, 13 de abril de 1897, na quinta coluna).

 

 

A Casa Garraux, na rua Quinze de Novembro, em São Paulo, onde estava à venda o livro O Brasil , enviou um exemplar para a redação do Correio Paulistano (Correio Paulistano, 29 de maio de 1897, na terceira coluna).

1898 – O livro O Brasil estava à venda na Livraria A. Lavignasse Filho & C, na rua dos Ourives, 7 (A Notícia, 12 e 13 de agosto de 1898, na última coluna).

Publicação do texto “Viagem ao Pará”, de 12 de outubro de 1898, de autoria de Lamberg. Ele descreveu sua viagem de 14 dias, a bordo do paquete Alagoas, do Lloyd Brasileiro, que partiu do Rio de Janeiro em 24 de setembro de 1898, até o Pará. Tive ocasião de ver de novo as capitais do Norte, que eu havia visitado 13 anos atrás e que descrevi no meu livro Bresilien.  Antes de chegar em Belém, o navio parou nos portos de Vitória, Salvador, Maceió, Recife, João Pessoa, Natal, Fortaleza e São Luis. Ele exaltou a opulência do Pará: O Pará! Que diferença de todas as outras cidades do Brasil – Aqui não há indústria, toda a riqueza vem da natureza (Jornal do Brasil, 25 de setembro de 1898, na primeira coluna e Gazeta de Petrópolis, 10 de novembro de 1898, na terceira coluna). Em sua passagem por São Luís, no Maranhão, e Belém, no Pará, foi identificado como engenheiro (O Pará, 9 de outubro de 1898, na penúltima coluna, e Diário do Maranhão, 15 de novembro de 1898, na terceira coluna).

Após uma longa estada no rio Acará, retornou a Belém o ilustre explorador Moritz Lamberg (O Pará, 11 de dezembro de 1898, na primeira coluna). Escreveu o artigo “Excursão ao rio Acará (O Pará, 13 de dezembro de 1898, na quarta coluna15 de dezembro de 1898, na última coluna17 de dezembro, na segunda coluna).

1899 – Lamberg regressou ao rio Acará, onde chefiava a discriminação de lotes para a fundação de um núcleo colonial ali (O Pará, 2 de janeiro de 1899, na última coluna).

Lamberg, identificado como ilustre homem de ciência, embarcou no vapor Brasil para Manaus, no Amazonas (República, 18 de maio de 1899, na última coluna).

Lamberg escreveu o artigo “Brasil-Alemanha”, publicado com a assinatura de Julio Lamberg. No dia seguinte, o jornal corrigiu o erro (A República19 de maio de 1899, na segunda coluna, e 20 de maio de 1899, na quinta coluna). O artigo foi uma resposta a uma matéria publicada no jornal A Província do Pará, publicada alguns dias antes, em dia 14 de maio, sobre uma publicação de um jornal de Bremen, na Alemanha, aconselhando o governo alemão a hastear sua bandeira n’um estado do sul do Brasil.

Seu livro, O Brasil, já estava traduzido para o italiano, para o francês e para o inglês. Embarcou para o rio Madeira no vapor Porto de Moz. Ele era sócio correspondente de várias agremiações e revistas de ciência do estrangeiro (Commercio do Amazonas, 8 de julho de 1899, na penúltima coluna).

1900 – No início de fevereiro, estava em Belém (O Pará, 5 de fevereiro de 1900, na penúltima coluna). No paquete Pernambuco, Lamberg regressou do Amazonas para o Rio de Janeiro. Esteve também na Bolívia e no Peru. Trouxe grande cópia de informações geográficas e etnográficas, notas sobre a vida prática e comercial de todas aquelas regiões, uma monografia sobre a borracha e descrição das duas capitais brasileira e da de Iquitos, no Peru, tratando nela da vida social, política e cultural, e grande quantidade de fotografias interessantíssimas dos diversos pontos que percorreu (Jornal do Commercio, 20 de março de 1900, na última coluna)

O livro O Brasil estava no catálogo do leilão da livraria de A. Pinheiro (Jornal do Commercio, 23 de novembro de 1900, na primeira coluna).

1901 – No artigo Por que me ufano de meu país, do poeta mineiro Affonso Celso (1860-1938), foi mencionado que Lamberg afirmava que o céu do Brasil era mais bonito do que o da Europa (A Cidade, 20 de julho de 1901, na primeira coluna).

1902 – Lamberg estava na Áustria comissionado em propaganda de imigração e para ele foi enviado uma via de letra em florins para Viena (O Commercio de São Paulo, 18 de maio de 1902, na sexta coluna).

Na edição de 20 de setembro de 1902 da publicação Relatórios dos Presidentes dos Estados Brasileiros foi transcrito um trecho do livro O Brasil sobre a inferioridade educacional dos fazendeiros do país: O fazendeiro possuía apenas alguns conhecimentos empíricos sobre a lavoura e era por demais fidalgo para se ocupar seriamente com ela…

Sobre a indiferença dos governos em relação à indústria agrícola, foram transcritas algumas palavras de Lamberg, na edição de 20 de setembro da publicação Mensagens do governador do Rio de Janeiro para a AssembleiaA situação lamentável da lavoura teria materialmente falando arruinado qualquer outro país; mas o Brasil assemelha-se ao gigante de Anteu que assim que tocava a terra adquiria novas forças.

1903 – Em um vibrante opúsculo escrito para a colônia italiana que emigra por Pasquale Vincenti e publicado em Nápoles, a obra O Brazil foi mencionada (Gazeta de Notícias, 3 de dezembro de 1903, na terceira coluna).

1904 – No concerto realizado em 14 de agosto, no salão do Instituto Nacional de Música, Emilio Lamberg não pode usar o órgão porque o conservador do mesmo não havia executado os consertos necessários ao instrumento. Devido à reação que teve diante do problema, foi proibido pelo ministro das Belas Artes a alugar o mesmo salão para futuros concertos. Dias depois, Emilio Lamberg afirmou, em uma nota assinada, que sua demissão do Instituto Nacional de Música, quando se encontrava na Europa, em 1892, havia sido o resultado da ação de seus desafetos. Esclareceu que, na verdade, a demissão foi declarada sem efeito, já que o contrato celebrado para que ele fosse o titular do órgão do Instituto havia sido celebrado em 18 de setembro de 1890 e só duraria um ano. Afirmou também já ter quitado sua dívida com o Tesouro Federal. Terminou a nota declarando: Depois disso – creio que posso esperar me deixem em paz os infatigáveis zoilos que tão desumana e covardemente me perseguem. Nada mais direi ainda mesmo provocado. Teve negado seu pedido de reintegração ao cargo de professor da cadeira de órgão do Instituto Nacional de Música (Correio da Manhã, 16 de agosto de 1904, na penúltima colunaJornal do Commercio , 20 de agosto de 1904, na sexta colunaCorreio da Manhã, 28 de agosto de 1904, na quinta coluna e Relatórios do Ministério da Justiça, março de 1905).

1905 – O professor Emilio Lamberg dirigiu um concerto de sucesso, no Club dos Diários, no Rio de Janeiro. Apresentou-se com Annunziata Palermini e Leopoldo Duque-Estrada Júnior (Gazeta Fluminense, 12 de abril de 1905, na terceira coluna).

1906 – Emilio Lamberg, protegido pelo pianista compositor alemão de origem polaca Moritz Moszkowski (1854 – 1925) estabeleceu-se em Paris. Foi assistente do célebre professor de canto polonês Jean Reszké (1850 – 1925). Viajou à Alemanha e à Áustria para conhecer os novos processos da arte pianística (Jornal do Commercio, 8 de dezembro de 1914, na quarta coluna).

1907 – Em abril, Emilio Lamberg deu um concerto na Sala Erard, em Paris (Jornal do Commercio, 8 de dezembro de 1914, na quarta coluna).

1908 – Em março, Emilio Lamberg deu um outro concerto na Sala Erard, em Paris, dessa vez com a participação do violoncelista catalão Pablo Casals (1876 – 1973). Repetiu a apresentação em Londres, o que lhe valeu um convite para tocar, no ano seguinte, na Sociedade Filarmônica, sob a regência de Mr Woord. (Jornal do Commercio, 8 de dezembro de 1914, na quarta coluna).

1909 – Numa apreciação do seu livro O Brasil, Lamberg foi identificado como alemão (A Província, 5 de outubro de 1909, na quarta coluna).

Em Londres, Emílio Lamberg  esteve em um recital do pianista português Vianna da Motta (1868 – 1948) (Jornal do Commercio, 8 de dezembro de 1914, na quarta coluna).

Foi publicada uma notícia sobre um drama histórico escrito por M. Lamberg, provavelmente Maurício Lamberg, identificado como alemão, sobre a proclamação da República no Brasil. O livro, Dom Pedro II von Bragança und sein Paladon, estava sendo impresso em Viena pelo editor F.B. Zelanoroski. Segundo a notícia, o autor referia-se com carinho a Saldanha da Gama (1846 – 1895) e enaltecia o Visconde de Ouro Preto (1836 – 1912) (O Commercio de São Paulo, 13 de novembro de 1909, na penúltima coluna e Diário da Tarde, Paraná, 15 de novembro de 1909, na última coluna). No ano seguinte, 1910, o Jornal do Brasil noticiou ter recebido possivelmente o mesmo drama histórico mencionado, de autoria de Moniz Lamberg, de origem polaca (Jornal do Brasil, 6 de fevereiro de 1910, na terceira coluna).

1910 – Emilio Lamberg fez uma turnê pela Europa com a violoncelista portuguesa Guilhermina Suggia (1885 – 1950), primeira mulher de Pablo Casals.

1911 e 1912 – Com Pablo Casals, Emilio fez turnês pela Áustria, Alemanha, Holanda, Hungria e Rússia.

1912 – O livro O Brazil foi identificado como uma importantíssima obra sobre o Brasil (Jornal do Commercio, 15 de abril de 1912, na quarta coluna).

1914 – Após uma permanência de oito anos na Europa, Emilio Lamberg retornou ao Brasil e comunicou que voltaria a dar aulas de piano. Nessa matéria, ele descreveu sua vida nesse período europeu (Jornal do Commercio, 8 de dezembro de 1914, na quarta coluna).

1915 – Emilio Lamberg chegou a Curitiba, onde hospedou-se na casa de Raul dos Guimarães Bonjean (Diário da Tarde, Paraná, 5 de janeiro de 1915, na última coluna). Apresentou-se no salão do Ginásio Paraná (Diário da Tarde, Paraná, 19 de janeiro de 1915, na quinta coluna).

Uma propaganda anunciava que Emilio Lamberg havia chegado recentemente da Europa e oferecia aulas de piano no Rio de Janeiro e em Petrópolis (A Notícia, 30 / 31 de janeiro de 1915, na última coluna).

1918 – Emilio Lamberg estava gravemente doente. Em seu benefício, foi realizado um concerto no salão nobre do Jornal do Commercio (O Paiz, 28 de dezembro de 1918, na primeira coluna).

1919 – Emilio Lamberg faleceu, em 16 de agosto, no Hospital Nacional de Alienados, devido a uma arteriosclerose generalizada e foi enterrado no Cemitério São João Batista. Foi rezada uma missa em sua memória na Igreja da Glória (Última Hora, 17 de agosto de 1919, na segunda colunaCorreio da Manhã, 18 de agosto de 1919, na sexta colunaO Paiz, 18 de agosto de 1919, na terceira colunaJornal do Commercio, 5 de setembro de 1919, na segunda coluna). No convite para a missa constava como sua mulher Lily Lamberg, que na ocasião estava em Paris, e, como seu irmão, Manfredo Carlos Lamberg (18? – 1921). Osmar, Olga, Elza, Oscar e José Carlos, citados no anúncio, seriam netos de Moritz (Correio da Manhã, 26 de agosto de 1919, na última coluna e O Paiz, 16 de junho de 1926, na quarta coluna).

1921 – Em Minas Gerais, falecimento do engenheiro Manfredo Carlos Lamberg, o outro filho de Moritz. Foi realizada, em sua homenagem, uma missa da igreja da Glória, no Largo do Machado (Correio da Manhã, 7 de março de 1921, na segunda coluna). Sobre ele, Lamberg escreveu no capítulo VIII de seu livro O Brazil: …tinha uma estatura de gigante, a quem a natureza dera ossos duplamente fortes e a força quíntupla de um homem comum. Não era uma grande ilustração mas todos os seus gestos indicavam coragem e energia e seus nos seus olhos refletia-se a  intrepidez.

1957 – Em seu livro, Ordem e Progresso, sobre a transição do regime monarquista ao republicano no Brasil, da abolição da escravatura à Primeira Guerra Mundial, o pernambucano Gilberto Freyre (1900 – 1987), considerado um dos mais importantes sociólogos do século XX, cita e discorda de uma passagem no capítulo “Pernambuco” do livro Brazil, de Lamberg, a quem se refere como teuto-sergipano do Recife: … A causa de não contribuírem os brasileiros do Norte e do Sul do Império com nenhum trabalho de “importância universal” para as ciências e o saber, julgou encontrá-la Lamberg – esquecido de todo de um José Bonifácio, de um Teixeira de Freitas, de um José Vieira – não “na falta de inteligência e boa vontade” mas “na natureza do habitante do trópico, incapaz de consagrar toda a sua existência ao exame de um problema científico, sacrificando muitos gozos da vida, como faz o sábio das zonas temperadas e frias…” . Lamberg fazia uma exceção a Tobias Barreto (1839 – 1889). Freyre achava significativo Lamberg reconhecer que tanto o Pará como Pernambuco estavam procurando “recuperar o tempo perdido” em relação às artes e às ciências. Em outro trecho, Freyre citou o conselho que Lamberg dava àqueles que contraíssem febre amarela: preferir se consultar com médicos brasileiros, em sua opinião, mais preparados do que os europeus para o tratamento da doença.

 

Alguns trechos do livro O Brazil, de Moritz (Maurício) Lamberg

No Preâmbulo

Sabemos, por experiência, que a grande República sul-americana é, em geral, sobre o ponto de vista de sua vida íntima, pouco ou nada conhecida e até mesmo goza injustamente de uma reputação duvidosa.

Considerando, pois, que a revolução social e política que seu deu nesse país fez com que ele tomasse parte mais saliente nos interesses cronológicos do mundo civilizado e que, além disso, a América do Norte em consequência dos embaraços que opôs ultimamente à imigração, parece querer ceder tacitamente ao Brasil o primeiro lugar nesse sentido, resolvemos reunir as notas que tomamos durante os dezesseis anos de permanência neste país e os oito anos de viagem pelo interior e oferecê-las ao público.

Na Introdução

Não se pode bem precisar qual o verdadeiro descobridor do Brasil. As primeiras notícias dessa região da América foram enviadas ao seu soberano, El-Rey d. Manoel de Portugal, pelo almirante Pedro Alvares Cabral que em derrota para as Índias ali aportara por acaso.

No capítulo I “Pernambuco”

Sobre a pouca tendência dos brasileiros à dedicação às ciências:

A causa não está na falta de inteligência ou de boa vontade, mas na natureza do habitante dos trópicos incapaz de consagrar toda a sua existência ao exame de um problema científico, sacrificando muitos gozos da vida, como faz o sábio das zonas temperadas e frias(pág. 12).

No capítulo III  “As classes baixas do Brasil –  caboclos, mulatos, cabras, negros e antigos escravos”

Quanto às baixas classes cultas do país convenceram-se longos anos de minuciosa e exata observação que os homens dessa classe acima são os mais felizes desse mundo sub-lunar. Necessidade e miséria são para eles coisas quase inteiramente desconhecidas e só em sentido científico pode-e-lhe aplicar a teoria da luta pela vida.

O que se lhes torna a vida tão leve não é pobreza de espírito ou falta de suscetibilidade e sentimento, é. ao contrário, uma qualidade ingênita, um estoicismo inato, que os faz atravessar a vida alegres e satisfeitos, e não se alteram com as paixões humanas como a cobiça, a inveja e a ambição. Somente o amor agita de vez em quando essas existências tranquilas (pág. 36).

No capítulo IV “As classes médias e altas no Brasil”

Sobre caráter, moralidade, hipocrisia e relação entre homens e mulheres brasileiros:

O caráter do brasileiro é bom, agradável, obsequiador e, no todo, amável. Falta-lhe, porém em geral uma base moral sólida. Substituem frequentemente a moralidade por dogmas sociais, elevado à altura de uma lei moral. Esses dogmas, com que se cobrem abusos, contêm muitos pontos que restringem a liberdade na vida social e proíbem a franqueza nas palavras e nos atos, mais do que em qualquer parte do mundo civilizado, resultando daí, a hipocrisia.

Este defeito torna-se sobretudo saliente nas relações entre o homem e a mulher. Ostenta-se um puritanismo como raras vezes se se nota alhures. As aparências degeneram não raro nas mulheres em afetação. Por exemplo, a nenhuma moça é permitida caminhar na rua sem ir acompanhada por um parente muito próximo. Não a pode acompanhar o próprio noivo, que, aliás, não se atreve a tomar com a noiva nenhuma das acostumadas familiaridades ou carinhos.

Se formos a considerar os fenômenos que se dão diariamente nas relações entre os dois sexos, encontraremos desde logo uma diferença capital entre os costumes brasileiros e os alemães. Enquanto na Alemanha, como aliás nos países anglo-saxônicos, o noivado dura às vezes anos, estabelecendo-se entre o rapaz e a rapariga relações que têm por base o amor ideal, aqui, pelo contrário, o noivado é a bem dizer curto, e o amor, que chega por vezes às raias da loucura, parece vir mais do sangue do que da alma. Isto observa-se, aliás, na raça latina, em geral, cujo temperamento é diverso do nosso; e para isso influi, e não pouco, o clima, particularmente no Brasil (pág. 54).

Sobre mulheres e sobre  a relação entre pais e filhos:

No Brasil, com efeito, a mulher não é considerada como um ser independente, que possui o direito de dispor de seu destino tal qual um homem qualquer, mas como um brinquedo mais ou menos brilhante, mais ou menos precioso e agradável, delicioso e frágil…A essas mulheres não falta inteligência, mas essa inteligência não é de natureza forte, sadia; degenera muitas vezes em meditações fantásticas que as impossibilitam de serem donas de casa ativas. Onde reina, ou antes, onde passa a vida em sonhos uma jovem dona de casa como essa, não é possível haver ordem, e quem mais sofre com isso é a educação das crianças.

O pai, que é quem mais gosta de lidar com elas, está todo dia fora de casa, por causa dos negócios. Em um casal assim, é também o dono de casa quem sempre toma a si, durante a noite, o papel de ama-seca e quem até certo ponto consegue por ordem na casa. O carinhos dos pais pelos filhos, enquanto pequenos, chega a não ter limites, e é principalmente o pai quem se ocupa com eles, quando têm um minuto livre. ama-os, até a fraqueza e, até certa idade, atura as suas malcriações. Não há nada que mais o moleste do que ver alguém corrigir seu filho. Quando marido e mulher saem de casa, seja para visitarem uma família, seja para irem a alguma festa, levam consigo todos os filhos, com as suas respectivas amas, e é ainda o pai quem carrega todo o trabalho, agarrando-se-lhe os pequenos ao pescoço, às mãos, às abas do casaco: enquanto a mãe raras vezes olha pra eles, e , a passos largos, coberta de jóias, caminhando orgulhosamente na frente, deixa com toda calma ao marido os cuidados da família (pág 55).

Sobre relações familiares e hospitalidade:

O filho, embora barbado, só raras vezes toma a liberdade de acender um cigarro na presença do pai, sem que este dê licença. Os pais tratam sempre os filhos e a si próprios na terceira pessoa e às vezes até por senhor e senhora e isso em todas as classes sociais, o que não impede que o sentimento de família se ache neles desenvolvido em alto grau. Quando um parente está na miséria, todos os membros da família acodem em seu auxílio…Às vezes, até o parentesco não está provado genealogicamente; isso porém, não influi sobre a hospitalidade, que é, sem dúvida alguma, a maior virtude dos brasileiros (pág.57).

Sobre a educação da mulher brasileira:

As filhas das classes médias aprendem a ler e a escrever ou em alguma escola pública, ou em algum colégio, onde se acostumam também a fazer alguns trabalhos manuais fino. (È singular que no Brasil não saibam fazer meias!) A arte culinária e os trabalhos domésticos comuns não são aqui objeto de ensino. Assim que conseguem pronunciar algumas frases em francês e arranhar piano, está terminada a sua educação. Saem da escola e são moças, que os pais, com o máximo cuidado, preservam de qualquer contato com os homens.

É verdade que, no Rio, como nas outras cidades do país, há escolas normais cujo intuito é continuarem o ensino superior; mas são, em geral, pouco frequentadas, e isso mesmo unicamente pelas filhas das famílias menos favorecidas, as quais se preparam para professoras de escola, etc (pág. 59).

No capítulo VII  “O solo, Imigração, Colonização, Agricultura, Comércio, Indústria, os relativos estabelecimentos estaduais e particulares e Finanças”

Sobre a situação da lavoura e a força vital do Brasil:

A situação lamentável da lavoura no Norte teria, materialmente falando, arruinado qualquer outro país, mas o Brasil assemelha-se ao gigante Anteu que, assim que tocava na terra, adquiria novas forças. Um país cuja fonte material de vida reside única e exclusivamente na cultura do solo, de que, porém, a parte baixa do povo se descuida por indolência, e que as classes elevadas em parte não compreendem, em parte não possuem os meios e auxílios materiais necessários para isso, fechando de mais a mais o Governo olhos e ouvidos para viver apenas segundo seus interesses políticos; um país que apesar de tudo isso satisfaz, sem dificuldades especiais, todas as necessidades que exigem uma situação política muito dispendiosa e o progresso da civilização deve possuir grandes riquezas naturais e indestrutível força vital. E aí está porque é com razão que se tem esperança no seu futuro (pág. 81).

O gigante Anteu é um personagem da mitologia grega que era extremamente forte quando estava em contato com a Terra e que ficava extremamente fraco se fosse levantado ao ar.

No capítulo XIII “Rio de Janeiro”

Sobre a beleza do Rio de Janeiro:

O Rio de Janeiro é uma cidade que não posso comparar a nenhuma outra do continente europeu. Logo ao sairmos do centro da capital, cerca-nos a mai opulenta e mais pujante natureza. Em frente dela – joga essa natureza o mar com suas reentrâncias, com suas ilhas e ilhotas, esquisitamente conformadas, com suas montanhas e rochas cônicas, entre as quais se distingue e se assinala o Pão de Açúcar, que me parece mais semelhante a um barrete de dormir quando engomado, e que serve de barômetro aos habitantes da cidade. Pela parte posterior, é ela circundada de montes e vales não menos admiravelmente configurados e soberbos de uma luxuriante e imponente vegetação (pág 259).

Sobre a febre amarela e sua suposta cura pela vacina do dr. Domingos Freire (1849 – 1899):

O professor da Academia de Medicina, dr, Freire, julgou ter descoberto, há anos, uma vacina que devia ser excelente preservativo contra a febre amarela. Abstraindo mesmo que esta ainda não foi reconhecida por nenhuma corporação científica do exterior, eu mesmo tive infelizmente ocasião de observar a influência duvidosa desse preservativo em cinco amigos meus que, apesar de vacinados, morreram todos de febre amarela. Todavia, deve-se confessar que esse sábio é um dos poucos que aqui fazem muito para o desenvolvimento e popularização da ciência em prol da higiene pública. (pág. 294)

Sobre o Observatório Astronômico do Rio de Janeiro:

O Observatório, sob direção do astrônomo belga Kruls, tornou-se vantajosamente conhecido na Europa e tem prestado bons serviços(pág. 295)

O nome completo de Kruls é Louis (Luis) Ferdinand Cruls (1848 – 1908). Dirigiu o Observatório de 1881 a 1908.

Sobre o Colégio Pedro II e sobre a mocidade brasileira:

O colégio mais importante e mais bem dirigido de todo o Brasil é o o Ginásio Nacional, outrora Colégio Pedro II, no Rio. Parece-se a um ginásio real alemão, com um internato e um externato, tendo ambos mais ou menos 40 professores. Exteriormente, ambas essas instituições têm bela aparência, mas o interior deixa ainda a desejar. Não há dúvida que ali se aprende tudo que faz parte do ensino secundário, e que o curso dura 7 anos, mas os alunos ao deixarem essa instituição não possuem os conhecimentos que têm os bacharéis das escolas austríacas, alemães e suíças; embora a mocidade brasileira não seja, como inteligência e talento, de forma alguma inferior à Europa. Posso afirmá-lo com segurança como antigo professor desse colégio. (pág. 296)

 

(1) – Todas as vezes que aparecer somente o sobrenome Lamberg, sem ser antecedido pelo prenome, o texto estará se referindo a Moritz (Maurício) Lamberg.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

FERREZ, Gilberto. Velhas Fotografias Pernambucanas 1851 – 1890. Rio de Janeiro: Campo Visual, 1988.

FREYRE, Gilberto. Ordem e Progresso (recurso eletrônico). São Paulo: Global 2013.

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

LAMBERG, Moritz. O Brazil. Rio de Janeiro: Casa Lombaerts, 1896.

LEITE, Míriam Lifchitz Moreira (org.). A condição feminina no Rio de Janeiro, século XIX: antologia de textos de viajantes estrangeiros. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1993.

LISBOA, Karen Macknow. Insalubridade, doenças e imigração: visões alemãs sobre o Brasil in História, ciência, saú de-Manguinhos vol.20 no.1 Rio de Janeiro Jan./Mar. 2013.

Site da Brasiliana da USP

Site do Colégio Pedro II

Site do Senado Federal

VASQUEZ, Pedro. Fotógrafos alemães no Brasil. São Paulo: Metalivros, 2000.

WOLFF, Gregor (ed). Explorers andEntrepreneursbehindtheCamera. Berlin: Ibero-AmerikanischesInstitut, 2015, 168 pp.

Além das fontes mencionadas acima, a Brasiliana Fotográfica fez uma extensa pesquisa na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

A via elevada da Perimetral

A via elevada da Perimetral

Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro

Beatriz Kushnir*

É com muito prazer que mais uma vez o Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (AGCRJ) integra a Brasiliana Fotográfica. Para comemorar os dois anos do portal, escolhemos o processo de construção do Elevado da Perimetral e as transformações urbanas em consequência dessa via expressa no Rio de Janeiro. O AGCRJ selecionou dentro do seu acervo, em diferentes fundos e coleções, 53 imagens que mapeiam as etapas dessa obra monumental em escala, tempo, alteração da paisagem e das relações de locomoção na cidade.

Acessando o link para as novas fotografias do acervo do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro que passam a integrar a Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

O primeiro delineamento da Perimetral, em 1946, foi elaborado pelo Departamento de Urbanismo da Prefeitura do Distrito Federal, na administração de Hildebrando de Araújo Góis (1946-7), e previa a inauguração de uma via sem qualquer elevação. À sua concepção acompanhou a execução de outros planos que projetavam o Rio para a volumosa circulação de veículos automotores. Assim, a partir da implantação de um complexo viário que afirmava o predomínio do carro e do ônibus como meios de transporte da cidade, desprezava-se a escala do pedestre.

Par e passo à construção da Perimetral, diversos traçados para esta cidade dos carros foram implementados como as vias expressas do Aterro do Flamengo – inauguradas nos festejos do 4oº Centenário, em 1965, e cuja construção advém do desmonte do morro de Santo Antônio, iniciada, em 1955. Resultou também na abertura da avenida Chile, que cruzando o Centro, prolonga-se pelas avenidas Almirante Barroso e Alfredo Agache, em sentido perpendicular à Perimetral.

 

 

 

 

Essas intervenções incluíram a abertura dos túneis Santa Bárbara, inaugurado em 1963, e Rebouças, concluído em 1967, que redefiniram a ligação da Zona Sul e Zona Norte. A partir destas duas obras, ergueram-se vias expressas elevadas atravessando os bairros do Catumbi e do Rio Comprido, respectivamente. Em outra frente, se implementou a Radial Oeste – que conduz da Praça da Bandeira à Zona Norte –, e se construiu o complexo do Trevo dos Estudantes e do Viaduto dos Marinheiros– que organiza o fluxo contínuo das avenidas Presidente Vargas e Radial Oeste, na região do Canal do Mangue. Concomitantemente, o alargamento das avenidas Suburbana (atual Dom Helder Câmara), Automóvel Clube e Brasil aumentaram a capacidade de fluxo de veículos pela Zona Norte. É da mesma época o planejamento das quatro Linhas, onde a Vermelha só seria construída na década de 1990, cobrindo a tradicional rua Bela, no bairro de São Cristóvão, com um elevado duplo.

 

 

 

 

A Perimetral, para muitos urbanistas e engenheiros do período, era a solução para o avanço do tráfego de veículos na cidade e seguia uma tendência internacional, especialmente dos Estados Unidos, que valorizava o rodoviarismo nas vias urbanas. Iniciada efetivamente em 1957, na gestão do então prefeito do Distrito Federal, Negrão de Lima (1956-58), a administração seguinte, de José Joaquim Sá Freire Alvim (1958-60), deu prosseguimento às obras do período anterior da qual ele havia sido Secretário de Administração. Assim, em 1960, o primeiro trecho da Perimetral, interligando as avenidas General Justo e Presidente Vargas, que se estendia do aeroporto Santo Dumont à Candelária, foi inaugurado pelo presidente Juscelino Kubitscheck.

A segunda etapa que alcançava a Praça Mauá, contornando o Mosteiro de São Bento e passando por cima do Distrito Naval, foi executada na gestão de Negrão de Lima como governador do Estado da Guanabara (1966-71). A última fase da construção, já na década de 1970, chegou à região do Gasômetro e da Rodoviária Novo Rio, junto à avenida Francisco Bicalho, cruzando por cima da Avenida Rodrigues Alves, margeando os armazéns do porto do Rio e cortando os bairros da Saúde e Gamboa, garantindo a ligação com avenida Brasil e a Ponte Rio-Niterói. Inaugurada em 31 de maio de 1978, pelo general-presidente Ernesto Geisel, a manchete do Jornal do Brasil resumia a trajetória: “Obra prioritária chega ao fim após 25 anos”.

 

 

A conclusão do primeiro trecho da Perimetral enfrentou a necessidade da derrubada do antigo Mercado Público, inaugurado em 1907. Foi necessária intervenção judicial para viabilizá-lo até a Candelária. Da grande estrutura de ferro e vidro construída no início do século XX foi preservado um dos seus torreões, onde se manteve sempre um restaurante. Já a construção do viaduto pôs abaixo o edifício histórico do Hotel Pharoux, um dos mais emblemáticos do conjunto da Praça XV.

O segundo intervalo da Perimetral deparou-se com influentes setores de Estado: a Companhia de Navegação Lloyd Brasileiro, que pretendia erguer sua nova sede justamente num trecho da via expressa projetada, e a resistência da Marinha do Brasil, que via risco a passagem viária sobre o terreno junto ao Gabinete do Ministro e o Distrito Naval. Felizmente, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional considerou que a alternativa de um túnel sob o morro que abriga o Mosteiro de São Bento podia ameaçar uma das construções coloniais mais importantes da cidade. Com a concordância da Marinha, a solução implicou na demolição de alguns prédios, entre eles o da Capitania dos Portos.

O terceiro trecho previa não apenas abrir caminho para o fluxo de veículos em direção à avenida Brasil e o acesso à Baixada Fluminense, mas igualmente a perspectiva de construção da Ponte Rio-Niterói. Concluída em 1974, substituiria definitivamente as balsas de carro na praça XV, no coração do Centro da cidade. Neste trecho do elevado, a estrutura de concreto foi substituída por metálica, produzida pela Companhia Siderúrgica Nacional.

A finalização das três etapas da Perimetral ocorreu no segundo choque do petróleo, que colocou em xeque o modelo de desenvolvimento urbano definido a partir dos anos de 1950, no Brasil. A crítica a esse modelo de desenvolvimento urbano conduziu a novas soluções urbanísticas integrando a vida urbana ao meio-ambiente, revalorizando a escala do pedestre e reforçando espaços públicos de encontro e interação. A demolição do Elevado da Perimetral, com os seus sete quilômetros de extensão, começou a ser discutida a partir da gestão do prefeito Luiz Paulo Conde (1997-2000), voltando à baila na última administração do prefeito Cesar Maia (2005-8). As advertências do caos no trânsito, assim como o alto custo da iniciativa, frearam o projeto.

 

 

Na gestão do prefeito Eduardo Paes, iniciada em 2009, no contexto dos projetos de preparação da cidade do Rio de Janeiro para as Olimpíadas de 2016, o projeto de revitalização da Zona Portuária encontrou condições de viabilidade, favorecendo a constituição de alternativas viárias para a promoção do bairro como um novo centro de expansão de atividades profissionais e de moradia na cidade. A demolição da grande estrutura de engenharia viária se definiu em favor de uma ampla frente marítima da cidade para o passeio pedestre contemplativo da paisagem.

No tempo de seu erguimento, o gigantismo e a visibilidade da Perimetral fizeram da obra um monumento da engenharia urbana carioca, mais vinculado a funcionalidade do que a estética. A trajetória de sua construção envolveu uma geração de engenheiros e arquitetos, muitos deles funcionários da Prefeitura da cidade e que reúne nomes, como Emílio Ibrahim, Jorge Bandeira de Melo, Ronald Young, Afonso Canedo, Gilberto Morand Paixão, Armando Abreu, Walter Pinto Costa, entre outros, cuja memória se preserva numa coleção de entrevistas existente no Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, numa parceria com a Seaerj – Sociedade dos Engenheiros e Arquitetos do Estado do Rio de Janeiro. Em seus depoimentos, destacam os vários desafios de engenharia e de política que representou a Perimetral, como também a centralidade do papel governamental executado pela SURSAN – Superintendência de Urbanização e Saneamento –, órgão instituído na administração Negrão de Lima como governador da Guanabara, e cujo presidente foi Raymundo de Paula Soares, também secretário de Obras Públicas. As entrevistas poderão ser conferidas no livro Com régua e compasso, os traços da cidade. Engenheiros e arquitetos do Rio, sua trajetória na administração pública (2017, no prelo).

* Beatriz Kushnir é Doutora em História (Unicamp) e Diretora do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro.

Versões desse texto foram apresentadas no Seminário Internacional “Ponta do Calabouço e Adjacências: história, memória e patrimônio nos 450 anos da cidade do Rio de Janeiro” (Museu Histórico Nacional, 06/10/2015), e compõe um dos verbetes do livro organizado por Paulo Knauss, “Objetos do Rio: 450 anos de história nos acervos públicos da cidade” (no prelo).

 

Data Magna da Marinha do Brasil

Batalha Naval do Riachuelo – A Data Magna da Marinha do Brasil

Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha

A Batalha Naval do Riachuelo, ocorrida em 11 de junho de 1865, assinalou um momento capital na Guerra da Tríplice Aliança contra o Governo do Paraguai (1864-1870), o maior conflito entre Estados ocorrido na América. O controle dos rios Paraná e Paraguai, conquistado após a vitória sobre a Marinha paraguaia em Riachuelo, inviabilizou a ofensiva adversária sobre os territórios brasileiro e argentino, e também impediu que o Governo de Solano López ( 1827 – 1870) recebesse armamentos comprados no exterior.

Desde o início do conflito, com a invasão do Mato Grosso pelo Exército paraguaio, em dezembro de 1864, o Brasil e a Argentina sofriam seguidas derrotas no campo de batalha. O território de ambas as Nações foi invadido e algumas de suas cidades fronteiriças foram pilhadas pelas tropas adversárias, como Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, e Corrientes, na Argentina. A vitória brasileira na Batalha Naval do Riachuelo foi o primeiro triunfo aliado em quase sete meses de confronto e provocou uma grande onda de entusiasmo na população dos centros urbanos do País, antes apreensiva com os rumos da guerra.

O êxito da Força Naval, comandada pelo Chefe de Divisão Francisco Manoel Barroso da Silva (1804 – 1882), alcançado a quase 1.700 quilômetros da Capital do Império, continuou a ser celebrado nos anos posteriores à Guerra e deixou marcas profundas nas tradições da Marinha do Brasil. Tradições que não apenas cultuam a vitória através da figura do Almirante Barroso, mas os que tombaram em combate. Mesmo que muitos tenham perecido no bombardeio mútuo entre navios, foi na luta corpo a corpo que tomou conta do convés da Corveta brasileira Parnaíba, quando abordada por tripulações de três navios paraguaios, que emergiram os heróis que permanecem sendo celebrados pelos nossos marinheiros após um século e meio: o Guarda-Marinha João Guilherme Greenhalgh (1845 – 1865) e o Marinheiro de 1ª Classe Marcílio Dias (1838 – 1865).

 

 

Na imagem acima, registrada em 1917, ano que o Brasil entrava na Grande Guerra (1914-1918), a primeira guerra externa que o país se envolvia desde a travada no Paraguai, se vê uma das salas de aula da Escola de Aprendizes-Marinheiros do Ceará, instituição dedicada à formação militar dos novos tripulantes dos navios de guerra da Marinha do Brasil. O espaço, nomeado “Salão Riachuelo”, foi todo dedicado à celebração da Batalha. Na parede à direita dos alunos foram destacados os nove navios brasileiros que combateram naquele 11 de junho de 1865, expondo sua organização tática em duas divisões e o nome de cada um dos seus comandantes. À frente, onde todos os olhos se fixam, coroa o tablado designado ao professor o retrato do Almirante Barroso, ladeado pelas bandeiras do Regimento de Sinais que representaram os chamamentos daquele líder às tripulações durante os períodos mais adversos da Batalha: “Sustentar o fogo que a vitória é nossa” e “O Brasil espera que cada um cumpra o seu dever”. Encerrando aquela composição, à esquerda dos alunos há o retrato do Guarda-Marinha Greenhalgh e à direita o do Marinheiro Marcílio Dias, expostos como exemplos a serem perseguidos por aqueles jovens na busca por se tornarem combatentes na Marinha do Brasil.

Acessando o link para as fotografias do acervo da Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

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As fotografias do acervo da DPHDM disponibilizadas no portal são de autoria de Boute, H&J Tourte Éditeurs, Jorge Kfuri (1892/3 – 1965), um dos primeiros especialistas na fotografia aérea; Marc Ferrez (1843 – 1923) e de fotógrafos ainda não identificados. São imagens da visita do rei Alberto I da Bélgica ao Brasil em 1920, da Escola de Aprendizes Marinheiros do Ceará, do navio-escola Benjamin Constant, do cruzador Tamandaré e fotografias aéreas do Rio de Janeiro, além de outras.

 

 

Novos acervos: Arquivo Nacional

 

O Arquivo Nacional e a Brasiliana Fotográfica: primeiro encontro

 Cláudia Heynemann e Maria do Carmo Rainho*

Participar da Brasiliana Fotográfica representa para o Arquivo Nacional sua integração em rede a grandes acervos públicos ou privados, com os quais necessariamente sempre dialogou no campo da história da fotografia e das instituições de guarda.

 

 

Em diferentes mídias, a imagem fotográfica conservada pela instituição atingiu um público vasto e variado por meio da pesquisa realizada por seus usuários e pelos projetos de difusão como livros, mostras, exposições virtuais, sites e peças gráficas. Transformadas pelo uso e pelas intervenções realizadas existe, por outro lado, algo que é próprio a cada fotografia ou às séries, sempre sujeitas a renovadas interpretações.

Com alguns poucos daguerreótipos provenientes dos fundos Família Werneck e Família Bicalho, a fotografia oitocentista no Arquivo Nacional adquire vulto com os retratos de estúdio que inundaram o mundo todo, produzidos no Brasil por nomes como Joaquim Insley Pacheco, Joaquim Feliciano Alves Carneiro, Alberto Henschel, Guilherme Gaensly e Rodolfo Lindemann reunidos em diversos arquivos privados e na coleção Fotografias Avulsas. Esta inclui formatos como panorama, carte de visite, carte cabinet e estereogramas, numa cronologia que se estende de 1860 a 1964. Encontramos também, nesse conjunto, vistas e cenas urbanas do Brasil, como as paisagens do Rio de Janeiro por Juan Gutierrez, Marc Ferrez, Bippus e Lopes; ruas e prédios históricos da cidade de Ouro Preto, em fotos de J. Brandi; Salvador por Antônio da Silva Lopes Cardoso; e Santa Catarina por Augusto Schmidt. Somam-se ainda álbuns referentes às missões religiosas e à participação brasileira na Exposição Internacional de Filadélfia, em 1876; na Exposição Continental de 1882, em Buenos Aires; e na Exposição Universal de Paris, de 1889, aqui apresentadas.

Acessando o link para as fotografias do acervo do Arquivo Nacional disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Se os próprios álbuns eram dispositivos óticos que integravam o fenômeno das exposições universais, nas últimas décadas do século XIX, evidencia-se a estreita conexão entre os estereogramas e esses eventos, quando a estereoscopia se torna um dos principais meios de propagação da fotografia: em 1851, a técnica cai no gosto popular ao ser apresentada na Exposição Universal de Londres. O estereograma proporcionava ao espectador uma experiência em três dimensões, aproximando-o do real. Vidro e ferro, vitrines, produtos, países, culturas, uma sincronia que alinhava fenômenos análogos em seu esforço de síntese, como os catálogos, enciclopédias, e mesmo as viagens.

As mais antigas estereoscopias a circular no país são da década de 1850, de autoria de Revert Henrique Klumb. Depois de um período de declínio em quase todos os países, entre 1870 e 1880, ela voltou a despertar grande interesse, conhecendo seu apogeu na virada do século XIX para o XX. No Brasil este fomento teve como responsável, entre outros, o conde de Agrolongo que montou, no Rio de Janeiro, a Grande Manufatura de Fumos e Cigarros Marca Veado que distribuía figurinhas com fotografias estereoscópicas de tamanho reduzido (2,5 x 7 cm) em seus maços.

A série de estereogramas selecionadas inclui vistas do Rio de Janeiro retomando perspectivas consagradas em gravuras e aquarelas, mas que comportavam novas tomadas que começavam a desenhar outra cidade. Lembrando o caráter de grande circulação deste gênero de imagem, temos as séries produzidas para difundir a reforma do centro do Rio de Janeiro, particularmente a abertura da Avenida Central e, finalmente, retornando a uma dada origem, os estereogramas da Exposição Nacional de 1908 que destacavam o progresso dos transportes, da iluminação, dos grandes pavilhões e do elegante público afluente.

 

 

Entre os arquivos privados de homens públicos, apresentamos parte do fundo Afonso Pena que contém 445 imagens, dentre elas vistas de localidades brasileiras, em álbuns ou molduras, como Santa Bárbara, em Minas Gerais; Maceió, em Alagoas e Floresta dos Leões, em Pernambuco, estradas de ferro, obras federais, áreas assistidas pela Comissão de Açudes e Irrigação e registros de Afonso Pena com autoridades e em visita a estados brasileiros, como o Amazonas.

Um outro país, que se desenhava nos anos 1920 e 1930 com as lutas femininas pelos direitos civis, se dá a ver no acervo da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, fundada em 1922, por Berta Lutz, no Rio de Janeiro. Seus documentos fotográficos registram as ações para a conquista do voto e da emancipação das mulheres; eventos, congressos, assembleias e conferências feministas nacionais e internacionais; a atuação de Berta Lutz na defesa dos direitos da mulher; seu trabalho como pesquisadora do Museu Nacional; as sufragistas brasileiras e estrangeiras, além de homens públicos envolvidos com a causa do movimento.

Com a inserção das fotografias do Arquivo Nacional, esperamos contribuir para uma nova configuração do universo de pesquisa que a Brasiliana Fotográfica proporciona, permitindo o estabelecimento de conexões entre diferentes acervos e a análise das ocorrências de temas, fotógrafos e técnicas, entre tantos aspectos que permitem uma escrita da história da fotografia.

*Cláudia Heynemann – Doutora em História | Supervisora de Pesquisa do Arquivo Nacional

* Maria do Carmo Rainho – Doutora em História | Pesquisadora do Arquivo Nacional

O Navio-Escola Benjamim Constant

A Brasiliana Fotográfica selecionou registros do Navio-Escola Benjamim Constant que pertencem ao acervo da Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, um dos integrantes do portal. As fotografias foram produzidas por H & J Tourte Éditeurs, em 1906. Com um artigo do pesquisador da DPHDM, o Capitão de Corveta (T) Carlos André Lopes da Silva, os leitores poderão conhecer a história do navio.

 

 

Navio-Escola Benjamim Constant

 * CARLOS ANDRÉ LOPES DA SILVA

O recrutamento de pessoal para as marinhas de guerra sempre foi mais difícil do que para os exércitos. Enquanto o treinamento básico para as tropas de terra, durante muito tempo, se limitou ao uso das armas individuais e às marchas coletivas, o emprego do navio como plataforma de armas obrigava não apenas a instrução com armamento, mas o aprendizado de uma variada gama de tarefas especializadas necessárias às viagens oceânicas, passando até pela adaptação fisiológica do homem ao jogo da embarcação no alto-mar.

No tempo das marinhas a vela, a solução difundida entre as marinhas de guerra era o recrutamento do pessoal que já labutava no mar, marinheiros dos navios mercantes e pescadores, que adestravam, durante as próprias viagens, os novatos que completavam as tripulações. Em uma época que a guerra no mar era algo pouco complexo, onde a vitória vinha pela abordagem, combates corpo-a-corpo nos conveses de navios inimigos emparelhados, o aprendizado se dava pela prática. Mesmo na formação dos oficiais, os homens que comandavam as equipes de um navio de guerra, o aprendizado vinha essencialmente pela convivência com os oficiais mais experientes durantes as travessias oceânicas.

Acessando o link para as fotografias do cruzador Benjamim Constant disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

O gradual aperfeiçoamento da guerra no mar e a aplicação cada vez maior de ciências como a matemática na navegação, induziu diversas marinhas a criarem escolas para formação profissional de oficiais e, algum tempo depois, de marinheiros. Contudo, o emprego do navio como ferramenta   para a formação profissional nunca foi abandonado.

Durante o século XIX, diversos navios de guerra foram eventualmente utilizados para instrução de futuros oficiais, os guardas-marinha, e marinheiros. Desde pequenos navios que realizavam cruzeiros de poucos dias no litoral brasileiro, como o Patacho Aprendiz-Marinheiro, até grandes veleiros equipados com máquinas a vapor que chegaram a realizar viagens de circunavegação instruindo guardas-marinha, como a Corveta Vital de Oliveira, em 1879, e o Cruzador Almirante Barroso, em 1888. O primeiro pensado desde o início como um navio-escola foi o Cruzador Benjamim Constant, um navio equipado como ferramenta de ensino prático para realizar longas viagens oceânicas com os guardas-marinha que terminavam o aprendizado teórico na Escola Naval.

 

 

 

Construído pelo estaleiro francês Société Nouvelle des Forges et Chantiers de la Méditerranée entre 1891 e 1894, o navio foi batizado em homenagem a Benjamim Constant Botelho de Magalhães, militar do Exército Brasileiro e professor da Escola Militar da Praia Vermelha, um dos principais líderes do movimento republicano de 1889. Ainda inacabado, o Benjamim Constant recebeu em seus alojamentos a tripulação do Cruzador Almirante Barroso, naufragado no Mar Vermelho, em 1893, no meio de uma viagem de instrução com guardas-marinha. No ano seguinte, quando foi entregue ao governo brasileiro, recebeu uma tripulação heterogênea, em grande parte formada pelo Exército, pois parte dos militares da Marinha tinham se sublevado contra Floriano Peixoto no evento que ficou demarcado na história como a Revolta da Armada.

Esse grande veleiro de três mastros, com 74 metros de comprimento e quase três mil toneladas de deslocamento, conduziu inúmeras turmas de guardas-marinha e aprendizes-marinheiros em cruzeiros de instrução pelo litoral brasileiro e por águas internacionais. Em 1908, realizou a terceira viagem de circunavegação de um navio da Marinha do Brasil, durante a qual  salvou um grupo de 20 náufragos do navio japonês Toyoshima Maru que tinham se asilado na desabitada Ilha Wake, no Pacífico Sul. Dez anos antes, durante outra viagem de instrução com guardas-marinha, foi o Benjamim Constant que formalizou a incorporação ao território brasileiro da Ilha da Trindade, com a instalação de um marco de posse naquele que é o ponto insular principal de um arquipélago, então disputado com a Grã-Bretanha, situado à 1.200 quilômetros do nosso litoral. Já na viagem de instrução de guardas-marinha realizada em 1917, que transcorreu logo após a entrada do Brasil na Primeira Guerra, a sua tripulação apresou o navio mercante alemão Blucher no porto de Recife.

 

 

 

O imponente navio recebeu de suas tripulações o afetuoso apelido de Garça Branca. Além de todos os compartimentos e equipamentos próprios a um navio de guerra do período, contava com uma biblioteca, alojamentos e banheiros reservados para os alunos e instrutores e uma sala de estudos. Desgastado pelo intenso emprego nas viagens de instrução e tornado obsoleto pelo rápido progresso tecnológico que atingiu os navios de guerra entre o início do século XX e o fim da Primeira Guerra Mundial, foi “aposentado” em 1926.

 

* CARLOS ANDRÉ LOPES DA SILVA

Pesquisador da Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha