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A Galeria dos condenados por Lilia Schwarcz

Com um artigo da historiadora e antropóloga Lilia Moritz Schwarcz, a Brasiliana Fotográfica destaca A Galeria dos condenados, que pertence à Coleção Dona Theresa Christina e está guardada na Divisão de Manuscritos da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, uma das fundadoras do portal. A partir da década de 1870, por iniciativa de Luiz Vianna de Almeida Valle (1827 – 1877), médico e diretor da Casa de Correção da Corte, primeira penitenciária construída no Brasil, os presos da referida instituição passaram a ser fotografados. A partir dessa iniciativa começou a ser formada a Galeria dos condenados,  composta por dois álbuns. Existem dois volumes de cada álbum, um com capa sem decoração e outro com capa decorada com o brasão do Império no centro e com arabescos dourados nas bordas. Cada página traz uma fotografia acompanhada de informações sobre o condenado retratado: seu nome, seu número na Casa de Correção, os delitos dos quais foi acusado, penas e multas, além da data de entrada.  A fotografia era então uma técnica primordial e estratégica para a criminologia e em especial para a antropologia criminal italiana, que pretendia entender o crime a partir de “elementos externos”; os famosos estigmas raciais. 

 

A Galeria dos condenados

 Lilia Moritz Schwarcz*

 

Faz parte do acervo da coleção Dona Theresa Cristina, que hoje se encontra alocada na Divisão de Manuscritos da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, um documento de título no mínimo inusitado: Galeria dos condenados. Medindo cerca de 27 x 20 centímetros, ele inclui dois álbuns, cada qual com dois volumes, ligeiramente diversos: um com uma capa menos vistosa e o outro ricamente adornado por arabescos dourados nas suas bordas e um imponente brasão do Império bem ao centro, o qual confere ao material um ar de oficialidade.

Há também outras especificidades que denotam o cuidado com que a fonte foi produzida. Nos dois volumes mais simples, estão as fotos tiradas em “plano americano” (com os modelos retratados do quadril ou da cintura para cima), bem como imagens que não foram aprovadas por conta de “problemas técnicos”, como o aspecto tremido do modelo, a falta de luz, ou manchas que comprometem o produto final. Essas fotos devem ter passado por algum tipo de censura prévia, uma vez que foram eliminadas daqueles volumes com capas mais caprichadas.

Mas a grande originalidade dessa fonte se encontra no interior da obra. São 320 fotos de presos (sendo 318 homens para apenas duas mulheres) da Casa de Correção da Corte, que foram matriculados na instituição entre os anos de 1859 e 1875. A Galeria é composta por 324 fotos, mas 5 delas aparecem repetidas, uma vez que o condenado retornou duas vezes à Casa de Correção, mas foi utilizado o mesmo registro visual. Todas as fotos encontram-se recortadas em molduras ovais, devidamente coladas nas páginas e adornadas por arabescos feitos à mão. As várias páginas que compõem o álbum, também apresentam arabescos desenhados nas laterais, trazem uma única foto e um texto manuscrito com informações breves, como a data de entrada na instituição, o nome do condenado, seu número registro dentro da Casa, o crime cometido, bem como as penas e multas que lhes foram imputadas. Em alguns casos aparecem, igualmente, comutações de penas, indultos, a data de soltura ou até mesmo referências à morte do condenado.

Por mais que possamos descrever o conteúdo presente neste documento, toda a história que o circunda resta ainda bastante desconhecida. É sabido que d. Pedro II, quando de sua partida para o exílio, em 1889, dividiu toda a sua coleção entre instituições como o Museu Imperial , o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, e, justamente, a Biblioteca Nacional. Mas o motivo e o critério que fizeram com que o monarca entregasse esses álbuns para essa última instituição continua em aberto.

Acessando o link para as fotografias da Galeria de Condenados disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas. 

Vale lembrar que a Casa de Correção da Corte foi a primeira prisão brasileira idealizada com esse fim, e, ao que tudo indica, também a primeira a adquirir uma máquina e construir um laboratório para a produção de fotografias de identificação dos presos. O modelo vinha das penitenciárias europeias, que já usavam a técnica desde os tempos do daguerreótipo, como forma de obter registros mais precisos e objetivos, ademais quando comparadas àqueles obtidos pelos retratos-falados.

A fotografia já tinha se tornado, nesse contexto, uma técnica primordial e estratégica para a criminologia, e em especial para a antropologia criminal italiana, que pretendia entender o crime a partir de “elementos externos”; os famosos estigmas raciais. Até então só se anotavam “signaes” mais superficiais do apenado, o que levava, com grande frequência, a problemas de reconhecimento, tanto em casos de fuga, na prisão de “suspeitos” ou na recondução de convictos.

E talvez d. Pedro II se orgulhasse da nova técnica da fotografia que cada vez mais simbolizava a modernidade. Afinal, ele mesmo era um fotógrafo amador e um adepto da nova técnica. Sendo assim, um álbum como esse poderia representar uma prova cabal da “civilização do Império” e do alto grau de cientificidade que seu soberano imprimia ao “comportamento desviante” em sua jovem nação.

Mas existem outros mistérios em torno da Galeria dos condenados: durante muito tempo não se tinha ideia de quem seria o profissional da Casa responsável por esses serviços. Foi só a partir da descoberta de um relatório do diretor da instituição, datado de maio de 1872, que ficou claro como o técnico era, ele mesmo, um prisioneiro na divisão criminal. Portanto, não apenas um preso foi indicado para fotografar os demais, como seu próprio retrato deve também constar da Galeria. E é preciso concordar que não foi pequeno o empenho que ele teve para se familiarizar não só com uma grande quantidade de substâncias químicas sensíveis, como dominar uma técnica complexa. Excesso ou falta de luz podiam atrapalhar o resultado; o tempo de arranjo da pose, da luz e para a fixação ainda demoravam alguns minutos; sem esquecer a desconfiança que uma máquina como essa deveria causar, ainda mais se os “colegas” tivessem que se submeter a um aparelho, bastante utilizado naquela época, que atava o modelo a uma cadeira e imobilizava o seu pescoço para assim garantir o bom resultado do retrato.

No álbum não aparecem ilustrações acerca do cotidiano da Casa, muito menos das suas instalações. Já “os condenados” estão retratados a partir de alguns ângulos: por vezes surgem contrastados diante de um fundo escuro, por vezes o rosto é tomado de frente, por vezes o modelo vira o rosto para a esquerda, por vezes para a direita. Mas chama atenção a existência de um grande número de negros nesses álbuns, o que é de se esperar num país nesse contexto ainda dominado por uma maioria de escravizados que, não raro, se revoltava contra o sistema. Interessante pensar, pois, como, a despeito do plano americano impor uma espécie de padrão, não raro os modelos apresentam pequenas reações que correspondem a grandes agências diante das lentes. Há aqueles que viram de perfil para destacar suas escarificações e marcas de nação; há aqueles que se enrolam em panos da costa, com seus desenhos geométricos e geralmente bem coloridos, deixando escapar, pelos detalhes, a sua identidade. Alguns retratados também desafiam a “norma” e o aspecto policial que o documento carrega, como no caso de Benedicto Crioulo, condenado à pena de galé, que simplesmente cruza os braços e encara o fotógrafo.

A técnica com certeza seria nova para a maioria deles, senão para todos, mas o profissional devia despertar um sentimento de familiaridade. De toda maneira, tudo colabora para que essas fotos resultem paradoxais. Se o registro pedia seriedade, não é difícil vislumbrar aqueles que cuidam da aparência, e se não sorriem, acabam se impondo pela altivez que apresentam. Esse é o caso de Isabel Jacintha, uma das duas mulheres fotografadas, que lá está para cumprir “pena perpétua”. O que terá feito Jacintha? Matado seu senhor, a exemplo de centenas de escravizadas que com sua rebeldia diziam “não” a um regime de sevícias e humilhações na alcova escravista? Teria envenenado o feitor, como fizeram outras mulheres que conheciam os segredos das ervas e sabiam “amansar” seus capatazes? Não há como responder essas questões, e a frustração do historiador reside no fato do documento se calar e não dizer mais. Entretanto, é possível anotar seu porte elegante, o olhar digno e desafiador, a expressão altiva. Aí estão pequenos sinais, grandes detalhes, daqueles que viveram em regimes de privação e desafiaram o próprio sistema penitenciário feito para que ficassem invisíveis e perdidos no seu silêncio.

A Galeria dos condenados traz em seu nome o arbítrio e o mal-estar que carrega. Mal-estar diante da escravidão, esse sistema que supõe a posse de uma pessoa por outra, e cuja liberdade por vezes, e por mais estranho que pareça, se consegue a partir de um ato, um pequeno movimento ou um gesto no intervalo imprevisto entre a pose exigida e o clique da fotografia.

PS: O historiador Manolo Florentino generosamente disponibilizou um CD com as fotos constantes do álbum. Sandra Sofia Machado Koutsoukos realizou uma pesquisa alentada sobre o material. Destaco seu livro Negros no estúdio do fotógrafo. Campinas, Unicamp, 2010.

 

*Lilia Moritz Schwarcz é antropóloga e historiadora. É autora, entre outros livros, de O espetáculo das raças (1993), As barbas do imperador (1998), O sol do Brasil (2008), Brasil: Uma biografia (com Heloisa Murgel Starling, 2015 ), Lima Barreto: Triste visionário (2017) e organizadora de Dicionário da Escravidão e Liberdade (com Flavio dos Santos Gomes, 2018).

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O médico Luiz Vianna de Almeida Valle (1827 – 1877), diretor da Casa de Correção da Corte de 1868 a 1877 e introdutor da prática de fotografar os presos 

 

Consta nos Relatórios Ministeriais, de março de 1871 (Biblioteca Nacional), referentes ao ano de 1870, que Luiz Vianna de Almeida Valle enviou ao Ministro da Justiça um relatório no qual valorizava sua iniciativa de compra da máquina fotográfica:

” Photographia. Estabeleci na Casa uma machina de photographar, que acha-se já funcionando. V. Ex. compreende perfeitamente as vantagens desta instituição n’uma Penitenciaria qualquer, e que devem ser maiores na da Côrte, onde não existem unicamente condemnados á prisão cellular, mas também a galés e prisão simples”.

 

Notas sobre Luiz Vianna de Almeida Valle na imprensa

Luiz Vianna de Almeida Valle foi acusado de, como subdelegado de polícia, coagir votantes (Diário do Rio de Janeiro, 20 de dezembro de 1860, última coluna).

Pediu como remuneração de seus serviços durante a epidemia de cólera a comenda da Ordem de Cristo ou o oficialato da Ordem da Rosa (Ministério do Império, julho de 1861).

Almeida Valle e o advogado Antônio Ferreira Vianna ofereceram seus serviços aos pobres da Freguesia de Sant´Anna (Arquivo Municipal, 11 de julho de 1861).

Em 1862, era o subdelegado de polícia do 1º distrito da freguesia de Sant´Anna (A Formiga, 19 de julho de 1862, terceira coluna), cargo do qual foi exonerado no ano seguinte (A Actualidade, 22 de junho de 1863, primeira coluna).

Foi nomeado tenente cirurgião do primeiro batalhão de reserva da Guarda Nacional do município da corte (O Constitucional, 26 de março de 1864, terceira coluna).

Tornou-se o diretor da Casa de Correção da Corte substituindo o major Daniel José Thompson (Correio Paulistano, 18 de junho de 1868, segunda coluna). A Casa de Correção do Rio de Janeiro, também chamada Casa de Correção da Corte, teve seu primeiro regulamento aprovado em 6 de julho de 1850 pelo decreto n. 678. Tinha o objetivo de ser uma prisão modelo do Império, onde se executaria a pena de prisão com trabalho, sendo considerada uma das “obras mais úteis e necessárias ao País pela influência do sistema penitenciário sobre os hábitos e a moral dos presos”.

Almeida Valle  foi recebido por d. Pedro II (Correio Mercantil, 13 de julho de 1868, quarta coluna).

Era o secretário de uma comissão presidida pelo Conde da Estrella que tinha a finalidade de celebrar o fim da Guerra do Paraguai e a chegada do Conde d´Eu (1842 – 1922) à corte (Diário do Rio de Janeiro, 7 de abril de 1870).

Era um dos conselheiros da Sociedade Propagadora das Belas-Artes (Diário do Rio de Janeiro, 3 de fevereiro de 1871, quinta coluna).

Em 28 de janeiro de 1871, Almeida Valle foi promovido a oficial da Ordem da Rosa (Diário de São Paulo, 8 de fevereiro de 1871, primeira coluna).

Era um dos fundadores da Associação de Socorros à Invalidez (Diário do Rio de Janeiro, 1º de fevereiro de 1875, última coluna).

Almeida Valle escreveu uma carta ao Diário do Rio de Janeiro explicando as razões da fuga de dois presidiários e elogiando a atuação dos ministros (Diário do Rio de Janeiro, 17 de janeiro de 1876, segunda coluna).

Em 1876, Almeida Valle integrava com José Vieira Couto de Magalhães (1837 -1898) e o brigadeiro Francisco Antônio Raposo (1817 – 1880) uma comissão para a organização de penitenciárias agrícolas, presídios militares e núcleos coloniais (Diário de São Paulo, 28 de setembro de 1876, última coluna).

Foi condecorado com a comenda da Ordem de Nossa Senhora da Conceição (Diário do Rio de Janeiro, 11 de dezembro de 1876, quinta coluna).

No relatório da Comissão das Prisões, Almeida Valle foi elogiado pelo tratamento que dava aos infelizes confiados à sua direção (Diário do Rio de Janeiro, 27 de janeiro de 1877, segunda coluna).

Por estar doente foi afastado da direção do presídio e Bellarmino Braziliense o substituiu. Almeida Valle faleceu em março de 1877 (Diário do Rio de Janeiro, 1º de fevereiro de 1877, sexta coluna e Jornal do Commercio, 16 de abril de 1877, última coluna).

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

BELARMINO, Gonçalo. A Galeria dos condenados e a institucionalização da memória na Casa de Correção da Corte (1859-1876) – Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Memória Social como requisito Parcial para Obtenção do grau de Mestre em Memória Social do Centro de Ciências Humanas da UNIRIO.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOUTSOUKOS, Sandra. No estúdio do fotógrafo.’Representação e auto-representação de negros livres, forros e escravos no Brasil da segunda metade do século XIX. Volume I  – Tese de Doutorado apresentada na pós-graduação em Multimeios, do Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas, para a obtenção do título de Doutor em Multimeios

Site da Câmara dos Deputados

Site do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro

Site do Arquivo Nacional

João Pedro ou João Pedroso?

A Brasiliana Fotográfica publica o artigo “João Pedro ou João Pedroso?”, dos pesquisadores Ricardo Augusto dos Santos e Francisco dos Santos Lourenço, ambos da Fiocruz, instituição parceira do portal. O artigo evidencia a importância das pesquisas realizadas a partir de fotografias. É sobre a identificação correta de dois cientistas, João Pedroso Barreto de Albuquerque (1869 – 1936) e João Pedro de Albuquerque (1874 – 1934), possível a partir da observação de um erro em legendas fotográficas feita pelo pesquisador Francisco Lourenço durante a montagem da exposição permanente de fotografias no 6° andar do prédio que o Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz ocupa. A investigação feita pelos dois autores desse artigo descobriu que esses dois importantes personagens da história da saúde pública brasileira foram constantemente objeto de confusão. “Mesmo na época em que eles viveram, seus nomes e biografias eram substituídos e trocados. Até em documentos oficiais. Inúmeros textos acadêmicos produzidos durante décadas citaram um deles, quando na verdade, era o outro que havia atuado. Ou também aconteceu um amálgama”.

João Pedro ou João Pedroso?

Ricardo Augusto dos Santos & Francisco dos Santos Lourenço*

Durante a montagem da exposição permanente de fotografias no 6° andar do prédio que o Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz ocupa, o pesquisador Francisco Lourenço observou que havia um equívoco nas legendas. Notou que o nome de um dos médicos que acompanharam Carlos Chagas na expedição científica a serviço da Superintendência da Defesa da Borracha, entre 1912 e 1913, estava errado. Daí em diante, resolvemos investigar. Surpreendidos, descobrimos que dois importantes personagens da história da saúde pública brasileira foram constantemente objeto de confusão. Mesmo na época em que eles viveram, seus nomes e biografias eram substituídos e trocados. Até em documentos oficiais. Inúmeros textos acadêmicos produzidos durante décadas citaram um deles, quando na verdade, era o outro que havia atuado. Ou também aconteceu um amálgama. Nomes e fatos eram combinados numa única trajetória!

 

trecho

Trecho retirado do livro “A Escola de Manguinhos” de Olympio da Fonseca Filho, 1974.

 

Quem eram esses homens? João Pedroso Barreto de Albuquerque e João Pedro de Albuquerque. Fortes, altos, usando fartos bigodes, esses médicos tiveram suas vidas ligadas ao projeto de saneamento do Rio de Janeiro e do Brasil. Portanto, possuindo nomes semelhantes, não é inusitado o erro contínuo. Vamos detalhar estas trajetórias.

Acessando o link para as fotografias de João Pedroso Barreto de Albuquerque e João Pedro de Albuquerque disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Filho de João Pedroso Barreto de Albuquerque e de Anna Maciel Pedroso de Albuquerque, João Pedroso Barreto de Albuquerque nasceu a 11 de maio de 1869, no Rio de Janeiro, falecendo em 20 de janeiro de 1936. Formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, apresentou como trabalho final a tese “Resecção do maxilar superior – indicações e processos operatórios”, em 1892. Foi secretário da Diretoria Geral de Saúde Pública (DGSP), sendo escolhido pelo cientista e amigo Oswaldo Cruz em 1903, após Oswaldo não ter aceitado a nomeação de Afrânio Peixoto para o posto. Por opção de Carlos Chagas, exerceria o mesmo cargo a partir de 1920, quando da criação do Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP), do qual Chagas foi seu primeiro diretor. Entre os momentos mais importantes da sua trajetória, Pedroso participou da viagem aos portos nacionais com Oswaldo Cruz (1905), da expedição científica com Carlos Chagas ao Amazonas e Acre (1912), e chefiou a Comissão de Profilaxia da Febre Amarela em Belém (1910).

Por sua vez, cinco anos mais novo, João Pedro de Albuquerque nasceu em 1874, falecendo em 7 de junho de 1934, no Rio de Janeiro. Também se formou pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, quando defendeu a tese “Da paralisia geral dos alienados: seu histórico e suas causa” em 1896. Participou do Serviço de Profilaxia Específica da Febre Amarela no Rio de Janeiro (1905), da expedição científica aos estados do Ceará e Piauí (1912) e da Comissão de Profilaxia da Febre Amarela em Belém (1910). Ainda exerceu a direção do Serviço Marítimo e Fluvial nas décadas de 1920 e 1930.

 

 

A trajetória de ambos esteve estritamente relacionada aos feitos de Oswaldo Cruz no campo da saúde pública nacional. Desde que assumira a direção da DGSP, este, por exemplo, tinha conhecimento das péssimas condições sanitárias dos portos do Brasil. Assim, em 27 de setembro de 1905, Oswaldo e João Pedroso embarcaram no navio República, equipado com um pequeno laboratório, em direção aos portos do Norte. Oswaldo e Pedroso realizaram esta viagem de inspeção passando por Espírito Santo, Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Maranhão e Pará. Visitaram os portos de Vitória, Caravelas, Santa Cruz, Porto Seguro, Salvador, Penedo, Aracajú; Maceió, Tamandaré, Recife, Cabedelo, João Pessoa, Natal, Areia Branca, Macau, Fortaleza, Camorim, Amarração, Belém, Óbidos e Santarém. Em janeiro de 1906 iniciaram uma missão, agora pelos portos do Sul: Santos (São Paulo), Paranaguá (Paraná), São Francisco (Santa Catarina) e Rio Grande (Rio Grande do Sul).

Em 1910, vamos encontrar Oswaldo Cruz, Pedroso e Pedro juntos. Nesta ocasião, Oswaldo estava novamente em viagem, para trabalhar numa consultoria sobre a profilaxia da malária, que matava, segundo dizia-se, um operário para cada dormente assentado na construção da ferrovia Madeira-Mamoré. Durante o mês em que permaneceram em Porto Velho, Oswaldo Cruz e outro personagem importante, Belisário Penna, estudaram as condições sanitárias da região e propuseram um plano de combate à malária que prescrevia o uso diário, compulsório, de quinina pelos trabalhadores, sob pena de não receberem os salários caso não tomassem suas doses. O plano foi posto em prática pela empresa norte-americana ainda com a presença de Cruz e Penna. Após várias tentativas frustradas de construção da ferrovia, ela foi abandonada.

 

 

Antes de retornar ao Rio de Janeiro, na passagem por Belém, Oswaldo Cruz foi contratado pelo governo do Pará para combater a febre amarela na cidade. Implantou a Comissão de Combate à Febre Amarela na capital paraense, no mesmo ano. Convocou vários médicos para a empreitada, entre as quais o próprio Penna. Apesar da crise do ciclo da borracha, que se iniciava, a comissão teve apoio orçamentário do governo do Pará, e ainda em 1910 foi registrado o último caso de febre amarela na capital. Cruz convocou vários médicos para a empreitada, tanto do Rio de Janeiro quanto da própria localidade. Entre eles estavam João Pedroso, João Pedro, Francisco Ottoni Maurício de Abreu, Belisário Penna, Augusto Serafim de Souza, Leocádio Rodrigues Chaves, Caetano da Rocha Cerqueira, Abel Tavares de Lacerda, Ângelo Moreira da Costa Lima e Emygdio José de Mattos. Retornando ao Rio de Janeiro, Cruz indica Pedroso para coordenar os trabalhos.

 

 

Pedro e Pedroso também participaram das Expedições Científicas do Instituto Oswaldo Cruz, entre 1911 e 1913, pelo Instituto Oswaldo Cruz. As cinco viagens científicas realizadas pelo instituto percorreram grandes áreas do país. Essas missões produziram, através de diários, relatórios e fotografias um sólido inventário das condições e modos de vida das regiões visitadas. Em duas dessas missões, nossos personagens estiveram presentes. É neste momento que surgem as principais dúvidas sobre os médicos.

Constantemente, veremos João Pedro de Albuquerque aparecer como participante da viagem de estudos a região amazônica. Na verdade, João Pedro, de março a julho de 1912, em companhia de José Gomes de Faria, atravessou os estados do Ceará e Piauí. Esta expedição percorreu um longo trajeto, que incluiu mais de 20 localidades. E o Pedroso? Entre outubro de 1912 e março de 1913, juntamente com Carlos Chagas e Antônio Pacheco Leão, João Pedroso Barreto de Albuquerque percorreu as bacias hidrográficas do Amazonas e Acre.

Em pelo menos mais uma oportunidade, Pedro e Pedroso estiveram juntos. Na Liga Pró-Saneamento do Brasil, criada por Belisário Penna em 1918, o primeiro foi o 2° vice-presidente e o segundo exerceu o cargo de 3° vice-presidente.

*Ricardo Augusto dos Santos é pesquisador titular da Fundação Oswaldo Cruz e Francisco dos Santos Lourenço é pesquisador do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

 

 

O que fica de fora, por João Moreira Salles

Em sua primeira publicação de 2019, a Brasiliana Fotográfica traz para seus leitores uma reflexão do documentarista João Moreira Salles acerca da fotografia Elvira Leopardi Pastore e sua filha Maria Lúcia, produzida pelo italiano radicado no Brasil Vincenzo Pastore (1865 – 1918), em torno de 1908, na rua da Assembleia, na capital paulista. É um registro da mulher e da filha do fotógrafo. João analisa o que deixa-se de fora do campo visual: “O que organiza a cena não está representado na imagem. De certa forma, o elemento mais importante do flagrante não foi flagrado. O que estarão olhando as duas personagens da foto, mulher e filha do fotógrafo? Pastore elidiu a informação – e, nessa elisão, entramos nós”.

Com sua câmara Pastore capturava tipos e costumes de um cotidiano ainda pacato de São Paulo, uma cidade que logo, com o desenvolvimento econômico, mudaria de perfil. Captava as transformações urbanas e humanas da cidade, que passava a ser a metrópole do café. Com seu olhar sensível, o bem sucedido imigrante italiano flagrava trabalhadores de rua como, por exemplo, feirantes, engraxates, vassoureiros e jornaleiros, além de conversas entre mulheres, brincadeiras de crianças e registros de sua família. Pastore, ao retratar pessoas simples do povo, realizou, na época, um trabalho inédito na história da fotografia paulistana.

O que fica de fora

João Moreira Salles*

Para ir direto ao assunto: gosto do que é incompleto. Por exemplo, tomem este conto famoso do guatemalteco Augusto Monterroso:

                            Quando acordou o dinossauro ainda estava lá.

Acabou. É só isso. Quem acordou?  onde? O dinossauro atacará?

Ou este de Hemingway:

                            Vende-se: sapatinhos de bebê, sem uso.

Uma tragédia contida em menos de 40 caracteres. Soa tão pungente porque quase nada foi dito. O que faltou dizer é por nossa conta. Em ambos os casos a imaginação é forçada a trabalhar, como um reservista convocado para a ação.

No mundo das imagens, essa economia narrativa pode ser materializada pelo que se decide deixar fora do campo visual. Um exemplo notável desse modo de contar histórias é a fotografia Elvira Leopardi Pastore e sua filha Maria Lúcia, do italiano radicado no Brasil Vincenzo Pastore. O que organiza a cena não está representado na imagem. De certa forma, o elemento mais importante do flagrante não foi flagrado. O que estarão olhando as duas personagens da foto, mulher e filha do fotógrafo? Pastore elidiu a informação – e, nessa elisão, entramos nós.

 

 

A nota biográfica que acompanha o acervo digital da Coleção Vincenzo Pastore nos informa que ele perambulava pela São Paulo do início do século XX com uma câmera de pequeno formato na mão. Graças a emulsões fotográficas de maior sensibilidade à luz, havia se libertado do estúdio e do tripé. Podia agora registrar a vida vivida nas ruas, ou, como diria o cineasta soviético Dziga Vertov uns anos depois, a respeito do cinema revolucionário que ele próprio inventaria, a vida pega de surpresa, “não ensaiada”.

Acessando o link para as fotografias de Vincenzo Pastore disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Parte considerável da obra de Pastore se compõe de instantâneos urbanos que deslumbrariam Vertov. Para mim, nenhum deles é mais bonito do que este, mãe e filha no jardim de casa. Uma ação foi interrompida e jamais saberemos a razão. A menina está colhendo verduras (ou flores?) com a mãe. Quer continuar, mas alguma coisa acabou de acontecer lá no alto – na casa? No telhado, na árvore, no quintal vizinho? A mãe fixa sua atenção. O sol forte a faz proteger os olhos. Isso sabemos. O resto, não.

Desconfiamos também que Elvira e Maria Lúcia não se dão conta de que estão sendo fotografadas. Pastore as flagra num momento de inconsciência em relação à câmera, adotando um regime de representação que no futuro se tornaria tema de debates intermináveis sobre a existência ou não de uma realidade espontânea, não contaminada pela presença do observador. Em 1908, data provável da foto, esse modo de flagrar o instante é novo e radical. Alguns dos maiores fotógrafos do século XX, de Walker Evans a Cartier-Bresson, tomariam esse partido.

 

 Imagem

A Virgem Anunciada, de Antonello da Messina, 1475-1476 / Galleria Regionale della Sicilia, Palermo.

Há uns anos escrevi sobre a Virgem Anunciada de Antonello da Messina. Poucas imagens do Quattrocento italiano são tão belas. Vemos apenas a Virgem, e ela nos vê. Diante dela, o Anjo somos nós. Significa que fomos nós que lhe demos a notícia –  e a notícia é terrível. Com a mão direita Maria repele o Anjo, nos repele. Ela agora sabe e não quer companhia. Maria está irremediavelmente só, numa dor que não se compartilha. Com a mão esquerda, fecha o manto, esconde o corpo e nos exclui. Seu filho, ela sabe, um dia morrerá diante dela. Sua tristeza a leva para longe de nós. Talvez seja a personagem mais triste da história da pintura.

Lembrei-me dela ao ver a fotografia de Pastore. Não há tristeza aqui e a imagem tampouco nos implica, ao contrário do que faz a de Antonello. As duas são cenas silenciosas – como se existissem numa suspensão do tempo –, mas também não é isso o que as une na minha imaginação. É o extracampo, a lacuna. O que ficou de fora.

 

O escritor Amós Oz gosta de citar estes versos do poeta Yehuda Amichai:

 

                Ali onde estamos perfeitamente certos

               não crescerão nunca

               flores na primavera.

 

Não ter acesso a tudo diminui esse risco. Sob certo ponto de vista, a flor (ou a verdura?) na cesta de Maria Lúcia dependem dessa limitação.

 

*João Moreira Salles é documentarista e editor da revista piauí.

 

Cronologia do fotógrafo Vincenzo Pastore (1865 – 1918)

 

5 de agosto de 1865 – Nascimento de Vincenzo Pastore, em Casamassima, na região de Puglia, na Itália, filho de Francesco Pastore e Costanza Massara.

1890 – Pastore chegou ao Brasil, em São Paulo, provavelmente no início dessa década, quando houve um grande fluxo de imigração de italianos para a cidade, em busca de novas oportunidades de trabalho. Entre sua chegada ao Brasil e sua morte, em 1918, volta algumas vezes à Itália.

1894 – Iniciou suas atividades de fotógrafo em São Paulo.

1898 – Pastore tem um estabelecimento fotográfico na Itália, em Potenza, na região de Basilicata. Casou-se com Elvira Leopardi Pastore (1876-1972) com quem teve 10 filhos: Costanza (1899-?), Beatriz (1902-?), Maria Lucia (1903-1988), Francisco (1905-1985), Pion Donato (1906-?), Eleonora ( 1908-1992), Olga (1909-?), Carmelita (1910 -?), Dante (1912-?) e Redento (1915-1918).

1899 -  Voltou para São Paulo.

Recebeu uma carta protocolada do município de Potenza, transcrevendo carta do prefeito agradecendo pelo retrato do rei, que seria colocado na sala do Conselho Provincial.

1900 – Possuia um estabelecimento fotográfico na Rua da Assembleia, nº 12 (depois rua Rodrigo Silva), onde também residia. Em nota no Estado de São Paulo, edições de 22 e 23 de outubro de 1900, anunciava: “Dá de presente aos seus clientes seis photographias / novo formato Elena, em elegantíssimos cartõezinhos ornados, só 4$500 e por poucos dias”.

Sua esposa, Elvira, trabalhava no estúdio e era a responsável pelos serviços de fotopintura e acabamento. Era ela, também, que registrava em um caderno de anotações, intitulado “A arte de fotografar e revelar”, o trabalho realizado no laboratório e as técnicas de fotopintura.

1905 – Recebeu uma carta do Consulado Geral da Itália em São Paulo, transmitindo os agradecimentos do Ministro da Casa Real pelo envio de fotos de índios bororos.

1906 - Recebeu uma carta de Giacomo della Chiesa (1854 – 1922), futuro papa Bento XV, agradecendo o envio de fotografias de índios bororós para o papa Pio X.

1907 – Inauguração de um novo estúdio, na Rua Direita nº 24-A. Em notas sobre a abertura do novo estabelecimento, foi anunciada a distribuição de Retratos Mimosos, pequenas fotos com moldura especial de flores e arabescos, a cada visitante. Posteriormente, Pastore abriu um novo estúdio na Praça da República, nº 95.

1908 – Participou da Exposição Nacional, realizada no Rio de Janeiro, em comemoração ao centenário da abertura dos portos no Brasil, com um conjunto de fotopinturas e trabalhos de grandes dimensões.

Realizou também um concurso de beleza infantil, do dia 10 de maio a 10 de julho, em seu ateliê fotográfico de São Paulo (O Paiz, edição de 8 de maio de 1908, última nota da primeira coluna).

1911 – Ganhou a medalha de bronze na Espozione Internazionale delle industrie e dell lavoro, em Turim, na Itália.

1914 – Viajou com a família para a Europa (Correio Paulistano, edição de 10 de fevereiro de 1914, na terceira coluna, sob o título “Hóspedes e Viajantes” ). Em novembro, inaugurou o estabelecimento Fotografia Italo-Americana – ai Due Mondi, na Via Sparano, nº 117, em Bari, na Itália. O nome do estúdio italiano indicava sua condição de imigrante bem sucedido, que pertencia a dois mundos. Realizou uma grande exposição de fotografias.

1915 – Devido à Primeira Guerra Mundial, encerrou as atividades na Itália e voltou a São Paulo.

1916 - Sob os títulos “Bellezas Paulistanas”, “Melancholia”, “Quem é a moça dos óculos pretos? e “Oração”, foram publicadas fotografias de autoria de Pastore, na revista Cigarra, nas edições  de 31 de março 30 de abril  , 17 de agosto14 de setembro e 26 de outubro.

No dia 17 de junho, foi publicada no O Estado de São Paulo, a seguinte nota: “O Sr. Vincenzo Pastore, proprietario da Photographia Pastore, a rua Direita, recebeu communicação official, do sr. Giannetto Cavasola, ministro da Agricultura da Italia, e do prefeito da provincia de Bari, de que, a 4 de maio passado, foi nomeado pelo duque de Genova, principe regente, cavalheiro da Ordem da Corôa da Italia. O sr. Pastore é muito conhecido nesta capital, onde conta com muitas amizades. Em 1914, o sr. Pastore fez, em Bari, uma grande exposição italo-brasileira de photographias, que mereceu francos elogios da imprensa. Os seus esforços acabam de ser merecidamente recompensados”. Em 18 de dezembro, o prêmio foi concedido.

1918 – Em 15 de janeiro, Pastore faleceu, em São Paulo, devido a complicações após uma cirurgia de hérnia. Era alérgico e foi anestesiado com clorofórmio (Correio Paulistano, 19 de janeiro de 1918, na terceira coluna).

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas: centenário da construção da pesquisa clínica em Manguinhos

A Brasiliana Fotográfica publica o terceiro e último artigo da trilogia em comemoração ao centenário do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, com um texto de autoria de Dilene Raimundo do Nascimento, pesquisadora do Departamento de Pesquisa da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, instituição parceira do portal. Da construção de um centro de ciência na Fazenda de Manguinhos – o Castelo Mourisco – surgiu a ideia de um hospital dedicado aos experimentos, resultantes das expedições científicas realizadas pelos cientistas do Instituto Soroterápico Federal, denominado de Instituto Oswaldo Cruz, em 1908. O novo hospital estaria de acordo com os princípios da moderna higiene, com inspiração no Hospital Pasteur de Paris e a assistência ambulatorial, as internações e os cuidados médicos estariam atrelados a finalidades científicas. O projeto inicial foi assinado pelo arquiteto Luiz de Moraes Júnior, também responsável pela construção do Pavilhão Mourisco. O processo de construção foi registrado pelo fotógrafo J. Pinto. Ao longo de sua história, o Hospital de Manguinhos foi denominado Hospital de Doenças Tropicais, Hospital Oswaldo Cruz, Hospital Evandro Chagas, Centro de Pesquisa Clínica Hospital Evandro Chagas, Instituto de Pesquisa Clínica Evandro Chagas (IPEC) e, desde 2010, Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas.

Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas: centenário da construção da pesquisa clínica em Manguinhos

Dilene Raimundo do Nascimento*

 

A ideologia do progresso e da civilização, vigente no início do século XX, no Brasil (Benchimol,1990), fez de Oswaldo Cruz, como diretor geral da Saúde Pública, nomeado em 1903, o responsável por erradicar as epidemias que ocorriam na cidade do Rio de Janeiro – febre amarela, varíola e peste – sobre as quais Rodrigues Alves, eleito presidente da República em 1902, disse no Manifesto à Nação: “Aos interesses da imigração, dos quais depende em máxima parte o nosso desenvolvimento econômico, prende-se a necessidade do saneamento desta capital (…)” (1) .

A campanha de saneamento da capital do país empreendida por Oswaldo Cruz foi exitosa e ele pode capitalizar seu prestígio para o Instituto Soroterápico Federal, do qual era também diretor. Da construção de um centro de ciência na Fazenda de Manguinhos – o Castelo Mourisco – surgiu a ideia de um hospital dedicado aos experimentos, resultantes das expedições científicas realizadas pelos cientistas do Instituto Soroterápico Federal, denominado de Instituto Oswaldo Cruz, em 1908.

Acessando o link para as fotografias relativas ao centenário da construção da pesquisa clínica em Manguinhos disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Essas expedições adentravam o país para colaborar com empreendimentos ferroviários e hidrelétricos, além de obras de infraestrutura, que compunham o cenário de progresso e civilização, realizados tanto por empresas privadas quanto públicas, no sentido de debelar as doenças que acometiam os trabalhadores desses empreendimentos (Benchimol, 1990).

Os cientistas de Manguinhos se deparavam com uma diversidade de doenças, algumas já identificadas e outras totalmente desconhecidas. Foi em uma dessas expedições, realizada em Minas Gerais com o objetivo de combater a malária para facilitar a construção da Estrada de Ferro Central do Brasil até Pirapora/MG, que Carlos Chagas descobriu, em Lassance, a nova tripanossomíase, que ficou conhecida como doença de Chagas.

 

 

 

Os anseios de Oswaldo Cruz de ter um hospital moderno e equipado para estudos clínicos e epidemiológicos dos doentes tomou mais corpo com o desenrolar das pesquisas da doença de Chagas. Sua repercussão possibilitou a obtenção de recursos, em 1912, para equipar um pequeno hospital em Lassance, para continuidade das pesquisas in loco, e para construir um hospital em Manguinhos (Decreto 9.346, de 24 de janeiro de 1912).

 

 

O plano de prover a cidade de um novo hospital de acordo com os princípios da moderna higiene, com inspiração no Hospital Pasteur de Paris, possibilitaria o isolamento individual dos doentes. A assistência ambulatorial, as internações e os cuidados médicos estariam atrelados a finalidades científicas, diferindo, dessa maneira, do modelo de hospitais voltados para a assistência em geral às populações urbanas. Ambicioso, o projeto inicial foi assinado pelo arquiteto Luiz de Moraes Júnior, também responsável pela construção do Pavilhão Mourisco, e previa a construção de seis pavilhões, dos quais só um se concretizou 3 (Cotrim, 2004). As obras foram iniciadas tão logo a verba foi liberada e concluídas em 1918, ano de sua inauguração. Oswaldo Cruz, falecido em 1917, não chegou a ver o hospital concluído. O processo de construção foi registrado pelo fotógrafo J. Pinto, desde a organização do canteiro de obras até a montagem da estrutura primária do edifício, de ferro forjado e em forma de gaiola.

 

 

 

 

Carlos Chagas, que se tornou diretor do Instituto Oswaldo Cruz, com a morte deste, tinha total envolvimento com o Hospital de Manguinhos, porque ali ele acompanhava os seus casos de Doença de Chagas, doentes trazidos do interior.

 

 

Ainda estudante, seu filho Evandro Chagas foi trabalhar no hospital, juntamente com outros pesquisadores como Eurico Vilela, primeiro diretor do hospital de Manguinhos, Lobato Paraense, Nery Guimarães, Emanuel Dias, dentre outros. Evandro Chagas desempenhou toda a sua prática profissional no Hospital de Manguinhos, desenvolvendo a partir dele suas incursões ao interior do Brasil para pesquisar, principalmente, casos de leishmaniose visceral americana. Nessas expedições, deparou-se com as várias endemias existentes no país, que o motivaram a criar o Serviço de
Estudos de Grandes Endemias (SEGE), no âmbito do Instituto Oswaldo Cruz, em 1937.

Sua ideia de expandir institucionalmente os estudos realizados no Hospital de Manguinhos já o havia levado a negociar com o governador do estado do Pará a criar no ano anterior o Instituto de Patologia Experimental do Norte (IPEN). O governador criou o instituto com a condição de ele se dedicar não somente ao calazar, mas também a outras doenças tropicais importantes daquela região, como a malária, a leishmaniose tegumentar, a amebíase, as parasitoses intestinais etc. Mas era natural que o calazar tivesse sido a primeira doença estudada pelo instituto. E foi com o calazar que o Evandro Chagas começou a trabalhar com a sua equipe, da qual faziam parte os irmãos Deane. A primeira viagem foi feita em dezembro de 1936. Leônidas Deane relata, em entrevista concedida à revista História, Ciência e Saúde – Manguinhos:

 “foi nosso primeiro contato com a selva (…), nós que nunca tínhamos saído de Belém, sempre citadinos. E tivemos uma experiência bem especial, porque todos os ruídos — ruídos dos sapos, dos grilos etc. — para nós eram como se fossem feras (…).”
“[Evandro] era um sujeito muito corajoso. Realmente ele dava o exemplo para tudo, porque era um homem muito arrojado, audacioso, inclusive. Fazia questão de mostrar que não tinha medo de coisa nenhuma. Como eu disse, ele ia para essas viagens de bermudas, botas e o chapéu colonial. E naturalmente os outros apetrechos, como a máquina fotográfica e o microscópio de campo, que ele usava a tiracolo também”(2).

Foi em Piratuba que encontraram os primeiros casos de calazar, vivos, da região amazônica. Examinavam as pessoas, pesquisando baço grande; se encontrasse faziam punção para procurar leishmânia. Evandro Chagas voltou a essa cidade várias vezes para dar continuidade à sua pesquisa de leishmânia e discutir e orientar a sua equipe do Pará.

 

 

A morte precoce e repentina de Evandro Chagas, em um acidente aéreo na Baía de Guanabara, aos trinta e cinco anos de idade, em 08 de novembro de 1940, interrompeu suas pesquisas em andamento e deixou sua equipe impactada. Para interromper um clima de instabilidade que se estabeleceu após a morte de Evandro Chagas, o então ministro da Educação e Saúde, Gustavo Capanema, nomeou Carlos Chagas Filho diretor do hospital e chefe do Serviço de Estudos de Grandes Endemias, que aí permaneceu por três anos. Apesar das dificuldades decorrentes da morte repentina de Evandro Chagas, o hospital permaneceu pelas mãos e esforços de seus pesquisadores, médicos e funcionários empenhados em realizar pesquisas clínicas a respeito de doenças infecciosas e parasitárias, em que se destacam a doença de Chagas, a leishmaniose, a malária, a toxoplasmose e a esquistossomose. Em 1942, em homenagem póstuma, o hospital foi nomeado Evandro Chagas, nome que carrega até hoje.

 

 

Ao longo de sua história, o Hospital de Manguinhos foi denominado Hospital de Doenças Tropicais, Hospital Oswaldo Cruz, Hospital Evandro Chagas, Centro de Pesquisa Clínica Hospital Evandro Chagas, Instituto de Pesquisa Clínica Evandro Chagas (IPEC) e, desde 2010, Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas.

Em sua história constam fases de decadência, principalmente, no período da Ditadura Militar, instaurada com o golpe de 1964 e que perdurou por vinte e um anos, e fase de ascensão, com o processo de redemocratização no país.

Nessa ocasião, surgiram os primeiros casos de aids no Brasil, doença infecciosa grave e, na época, fatal, com uma tendência de crescimento. A questão central na defesa da permanência do Hospital Evandro Chagas na Fiocruz foi exatamente a sua vocação no âmbito das doenças infecciosas. O contexto epidêmico da aids contribuiu para impulsionar a reestruturação do
hospital.

Esta teve entre seus princípios a pesquisa clínica ampliada, que não se restringe aos médicos infectologistas, mas se expande a outras especialidades para alargar e aprofundar o conhecimento sobre o doente e sobre a doença, como a enfermagem, serviço social, nutrição, farmácia e psicologia. De acordo com essa concepção, era importante compreender as relações de adoecimento do paciente e o contexto que ele traz para o hospital. A empreitada foi liderada pela Dra. Keyla Marzochi, uma das principais entusiastas da pesquisa clínica ampliada, que elaborou o projeto de reestruturação apresentado e aceito pela presidência da Fiocruz.

Denominado Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI) desde o VI Congresso Interno da Fiocruz, realizado em 2010, o INI hoje se caracteriza pela excelência na pesquisa clínica, na assistência, no ensino e na gestão voltados tanto para a saúde humana como para a saúde animal, a partir dos estudos de zoonoses, além de ser referência no campo das doenças infecciosas. A pesquisa clínica desenvolvida no INI, desde sua reestruturação, como diz sua atual diretora, Valdiléa Veloso, é uma construção coletiva que congrega vários saberes dos diferentes profissionais que trabalham na unidade, com inclusão dos usuários, visando à melhoria da saúde da população.

Ao completar os seus 100 anos, no ano de 2018, a luta pela saúde pública implica para o INI a prática da pesquisa clínica ampliada, a assistência − em especial aos grupos vulneráveis −, o ensino para formar e capacitar novos profissionais na área, uma gestão participativa e parcerias com movimentos sociais e instituições nacionais e internacionais nessas áreas de atividade, e, a partir disso, dá sua inestimável contribuição para o desenvolvimento do SUS – Sistema Único de Saúde.

 

(1) Manifesto Inaugural de Francisco de Paula Rodrigues Alves, presidente eleito para o quadriênio de1902 a 1906. 15 de novembro de 1902. Rio de Janeiro, 1902, p. 11.

(2) História, Ciência e Saúde – Manguinhos. Vol.1, nº1, jul/out., 1994. Seção Depoimento.

 

*Dilene Raimundo do Nascimento é pesquisadora do Departamento de Pesquisa da Casa de Oswaldo Cruz

 

Outros textos sobre o centenário do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas publicados na Brasiliana Fotográfica:

Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas: 100 anos de pesquisa clínica, por Cristiane d´Avila, em 26/10/2018

Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas 100 anos: Carlos e Evandro Chagas em retratos de família, por Aline Lopes de Lacerda, em 27/11/2018

Novos acervos: Museu Histórico Nacional

A Brasiliana Fotográfica apresenta a seus leitores seu nono parceiro, o Museu Histórico Nacional (MHN), com o artigo “Os salesianos, os Bororos e a banda de crianças indígenas que mudou a história”, da historiadora da instituição, Maria Isabel Ribeiro Lenzi, e com a disponibilização das imagens do álbum “Missão em Mato Grosso”que pertence à Coleção Miguel Calmon, ministro da Viação e Obras Públicas no governo do presidente Afonso Pena. Com a adesão desse importante museu, o portal segue cumprindo um de seus objetivos, o de abordar todos os usos e funções da fotografia brasileira. Seus outros parceiros são o Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, o Arquivo Nacional, a Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz, a Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, o Leibniz-Institut fuer Laenderkunde e o Museu da República, além do Instituto Moreira Salles e da Fundação Biblioteca Nacional, criadores da Brasiliana Fotográfica.

Os salesianos, os Bororos e a banda de crianças indígenas que mudou a história

Maria Isabel Ribeiro Lenzi*

 

O álbum “Missão em Mato Grosso”, de 1908, retrata os trabalhos dos salesianos e das irmãs de Nossa Senhora Auxiliadora com os índios Bororos. São 69 fotografias do início do século XX que documentam o trabalho de educação desenvolvido pelos missionários pelo qual ensinavam música, português, matemática, prática agrícola e ciências, além de promoverem a evangelização. Infelizmente, a autoria das fotografias é desconhecida.

Em missão de paz, os irmãos salesianos chegaram à terra dos Bororos, em Mato Grosso, em 1895. Anteriormente, já havia sido tentado contato com os índios, mas o conflito pela terra provocou muitas mortes, resultando na fuga dos índios, que não aceitavam se submeter, nem abandonar seus costumes. O bispo dom Luiz Lasagna foi o responsável pela implantação dos projetos salesianos em Mato Grosso, porém, com o seu falecimento, coube ao padre Antônio Malan dar continuidade às propostas de dom Luiz Lasagna. Padre Malan foi, então, o primeiro Inspetor da Missão Salesiana em Mato Grosso, tendo fundado colégios em Cuiabá e Corumbá, além das missões do Sagrado Coração do Rio Barreiro, da Imaculada no Rio das Garças e de São José no Sangradouro.

O método salesiano se distinguia das outras abordagens de contato por evitar uma postura de repressão, preferindo se basear na razão, na religião e na bondade. Foram criadas a Colônia Sagrado Coração, num local conhecido como Tachos, e a Colônia Imaculada Conceição, próxima ao Rio das Garças. O padre Antônio Malan, percebendo os aspectos de confluência da religiosidade bororo com o cristianismo, não menosprezou o papel que a cultura daqueles índios poderia exercer no processo de evangelização. A aptidão que demonstravam para a música foi canalizada para a formação de uma banda com os meninos bororos, que acabou tendo importância estratégica para a sobrevivência das sociedades indígenas no Brasil(1).

Acessando o link para as fotografias do álbum “Missão em Mato Grosso” do acervo do Museu Histórico Nacional disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Naquele momento, em 1908, cedendo à pressão social, o presidente Afonso Pena estava prestes a assinar um decreto que avalizava o extermínio dos povos indígenas (2). O padre Antônio Malan encontrou uma maneira inédita de mudar a opinião brasileira a respeito dos índios, valendo-se da vocação musical dos Bororos. Ele levou vinte e um Bororos integrantes da banda de música para tocar no Rio de Janeiro, no Pavilhão de São Paulo no âmbito da Exposição Nacional de 1908, que comemorava o centenário da Abertura dos Portos. A banda tocou ainda no Teatro João Caetano, na Câmara dos Deputados, no Senado e, diante do presidente Afonso Pena, no Palácio do Catete, então sede da Presidência da República. Na ocasião, eles interpretaram com primor temas clássicos, inclusive o Hino Nacional. Os jornais de então exaltaram o talento artístico dos Bororos e também abriram suas páginas para o discurso do padre Malan, pedindo a restituição aos índios “de uma pátria que lhes foi roubada em nome de uma falsa civilização conquistadora, liberticida. Pátria, senhores, de que são eles os verdadeiros donos, e que saberão amar, defender e ilustrar, se isso os ensinarmos com nosso esforço e nosso exemplo” (3).

 

 

O presente álbum pertence à Coleção Miguel Calmon, que foi ministro da Viação e Obras Públicas no governo Afonso Pena. De acordo com o jornal O Paiz, o padre Malan projetou fotografias (provavelmente deste álbum) em palestra que proferiu no Museu Comercial (4).

Ainda segundo O Paiz, no dia 10 de outubro de 1908, o padre Malan foi despedir-se do Ministro da Viação (5). Acreditamos que o álbum tenha sido oferecido a Miguel Calmon nesta ocasião, para demonstrar às autoridades os trabalhos que estavam sendo desenvolvidos entre os Bororos, e, sobretudo, comprovar a humanidade dos mesmos. Segundo Nelson Gil Tolentino, “a ação corajosa do padre Malan no Rio de Janeiro foi determinante para a sobrevivência dos índios. Depois disso, o debate sobre o extermínio dos índios, em nível nacional e internacional, foi perdendo a força, e seu respectivo decreto nunca foi promulgado”(6).

 

(1 )TOLENTINO, Nelson Gil.

(2)Idem

(3) NOVAES, Sylvia Caiuby. Jogos de Espelhos. São Paulo: Edusp, 1993. p.171

(4 ) Museu Comercial era uma entidade ligada à propaganda dos produtos, incentivando o comércio entrepaíses. No Brasil, foi criado em 1905 e encampado pelo Departamento Nacional de Comércio em 1931.

(5) O PAIZ. Rio de Janeiro, p. 02, 10/10/1908. Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=178691_03&pasta=ano%20190&pesq=padre%20m
alan. Acesso em 28/09/2017

(6 ) TOLENTINO, Nelson Gil.

 

*Maria Isabel Ribeiro Lenzi é Doutora em História pela UFF e historiadora do Arquivo Histórico do Museu Histórico Nacional (IBRAM/MinC)

 

BIBLIOGRAFIA:

CAVALHEIRO, Elisangela. Exposição conta a história dos Salesianos de Dom Bosco em estados do Centro-Oeste. In Redação A12.

NOVAES, Sylvia Caiuby. Jogos de Espelhos. São Paulo: Edusp, 1993, p. 171

TOLENTINO, Nelson Gil. Ética Bororo: a sobrevivência de um povo. In: Interações, vol. 10, no 2. Campo Grande, jul/dez. 2009.

 

Notícias sobre a participação da banda dos bororos na Exposição Nacional de 1908

 em comemoração ao centenário da Abertura dos Portos às Nações Amigas 

Em 11 de agosto de 1908, foi inaugurada a Exposição Nacional de 1908, na região da Urca, no Rio de Janeiro, em comemoração ao centenário da Abertura dos Portos às Nações Amigas, decretada em 28 de janeiro de 1808, pelo então príncipe regente de Portugal, dom João de Bragança, futuro dom João VI (1767 – 1926)(O Paiz, 11 de agosto de 1908). A exposição exibiu um “inventário” do Brasil através de seus produtos industriais, agrícolas, pastoris e artísticos. Promovida pelo governo federal, apresentou a cidade do Rio de Janeiro, recém urbanizada e saneada pelo então prefeito Francisco Pereira Passos (1936 – 1913) e  pelo cientista Oswaldo Cruz (1872 – 1917), respectivamente. O evento foi encerrado em 15 de novembro de 1908 (O Paiz, 16 de novembro de 1908, sexta coluna).

Iminente embarque do padre Toledo, inspetor das missões salesianas em Mato Grosso, com a banda dos bororos para o Rio de Janeiro, onde a banda tocaria no Pavilhão de São Paulo da Exposição Nacional do Rio de Janeiro. O religioso pretendia apresentar o grupo ao presidente Afonso Pena (1847 – 1909). A banda havia estado em Corumbá, Assunção, Buenos Aires, cidades do sul do Brasil, Santos, São Paulo e Lorena, dentre outras (O Paiz, 24 de setembro de 1908, quarta coluna).

Chegada da banda dos bororos ao Rio de Janeiro (O Paiz, 27 de setembro de 1908, quinta coluna).

Apresentação da banda dos bororos no Palácio do Catete, onde foram recebidos pelo presidente da República, Afonso Pena (Gazeta de Notícias, 23, quarta coluna28 de setembro de 1908, quarta coluna e Matto-Grosso – Revista Mensal de Sciencias, Lettras, Artes e Variedades, outubro de 1908).

Com o padre Toledo, os índios bororos assistiram à inauguração do Pavilhão de São Paulo na Exposição Nacional (Diário de Notícias, 29 de setembro de 1908, segunda coluna). Também fizeram uma visita ao ministro da Viação, Miguel Calmon (O Paiz, 29 de setembro de 1908, última coluna).

A banda dos bororos se apresentou no Colégio São Vicente, em Petrópolis (O Paiz, 1º de outubro de 1908, última coluna).

Publicação do programa que a banda apresentaria na Exposição de 1908 (O Paiz, 3 de outubro de 1908, segunda coluna).

Publicação do programa da apresentação dos bororos no Teatro João Caetano (Jornal do Brasil, 4 de outubro de 1908, terceira coluna).

Anúncio da conferência sobre os bororos que o padre Malan faria no dia seguinte no salão da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro. Antes e depois da conferência, haveria apresentação da banda. A conferência seria ilustrada com projeções luminosas (O Paiz, 5 de outubro de 1908, segunda coluna).

Apresentação da banda dos bororos na Exposição de 1908 com a presença do ministro da Indústria, Miguel Calmon (O Paiz, 5 de outubro de 1908, quinta coluna).

 

Realização de uma festa em benefício dos bororos, no Teatro João Caetano. Foram identificados como recém nascidos na vida civilizada (O Paiz, 8 de outubro de 1908, penúltima coluna).

Notícia da realização da conferência sobre os bororos realizada pelo padre Malan no salão da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro (O Paiz, 8 de outubro de 1908, quinta coluna e Jornal do Brasil, 11 de outubro de 1908, segunda coluna).

Os bororos visitaram a Câmara dos Deputados e o Senado e a frente dos edifícios das duas instituições executou o Hino Nacional (O Paiz, 9 de outubro de 1908, segunda coluna).

Acompanhado por um bororo, o padre Malan foi despedir-se do ministro da Viação, Miguel Calmon. Acredita-se que nessa ocasião o padre teria presenteado o ministro com o álbum “Missão em Mato Grosso” (O Paiz, 10 de outubro de 1908, segunda coluna).

Publicação de uma fotografia da banda dos bororos no Colégio dos Salesianos de Niterói (Fon-Fon, 10 de outubro de 1908).

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Publicação de diversas notícias relativas à temporada dos bororos no Rio de Janeiro (Matto-Grosso – Revista Mensal de Sciencias, Lettras, Artes e Variedades, dezembro de 1908).

 

Andrea Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fonte:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Uma homenagem aos 175 anos de Marc Ferrez (7 de dezembro de 1843 – 12 de janeiro de 1923)

A Brasiliana Fotográfica homenageia os 175 anos de nascimento do brilhante cronista visual Marc Ferrez (1843 – 1923), destacando as publicações do portal relativas ao fotógrafo e disponibilizando um artigo sobre ele de autoria de Sérgio Burgi, Coordenador de Fotografia do Instituto Moreira Salles, uma das instituições fundadoras do portal. A vasta e abrangente obra iconográfica de Ferrez se equipara a dos maiores nomes da fotografia do mundo. Foi o principal fotógrafo das paisagens e dos costumes cariocas da segunda metade do século XIX e do início do século XX.  Outro segmento de sua obra iconográfica registrou as várias regiões do Brasil – ele foi o único fotógrafo do século XIX que percorreu todas as regiões do país, tendo sido, no referido século, o principal responsável pela divulgação da imagem do país no exterior. Em meados dos anos 1870, integrou a Comissão Geológica do Império. Era Fotógrafo da Marinha Imperial. Faleceu em 12 de janeiro de 1923.

 

 

 

Acessando o link para as fotografias de Marc Ferrez disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

MARC FERREZ

Sergio Burgi*

 

Mais conhecido por suas imagens icônicas da cidade do Rio de Janeiro e de seu exuberante entorno, Marc Ferrez foi também o primeiro fotógrafo a percorrer extensivamente o território brasileiro, primeiramente como fotógrafo da Comissão Geológica do Império do Brasil (1875-1878), e posteriormente, como fotógrafo da construção e modernização das principais ferrovias, registrando localidades e paisagens em diversos estados e regiões do país. Permanentemente associado ao campo das artes, da engenharia, da técnica e da ciência e em constante interação com os principais nomes de seu tempo nestas áreas, Marc Ferrez documentou grandes projetos de engenharia, de arquitetura e de urbanismo no Império e na República. Estes diversos trabalhos comissionados realizados ao longo de sua carreira o colocaram em associação direta com as principais inovações tecnológicas e científicas de seu tempo, tendo por conseguinte buscado também expandir as fronteiras de sua própria produção de imagem em fotografia, através, por exemplo, do desenvolvimento de câmeras especiais e do estudo e domínio de novos processos fotográficos.

A partir da sociedade formada com seus filhos, em 1907, Marc Ferrez investiu na expansão de suas atividades nas áreas de comercialização de equipamentos e produtos fotográficos e cinematográficos, na produção e comercialização de impressões fotomecânicas, na distribuição de novos produtos para o mercado amador, como os autocromos e estereoscopias, e, especialmente, na distribuição e exibição de filmes cinematográficos, sendo estes os principais campos que viriam a consolidar, a partir do início do século XX, a era da comunicação visual de massa baseada na circulação intensiva da imagem fotográfica e cinematográfica, profissional e amadora. Este processo foi somente possível pelos avanços tecnológicos originados na interseção da ciência com a técnica e pela intensa atividade de comercialização de processos e produtos, que no Brasil teve em Marc Ferrez seu principal ator e agente. A carreira fotográfica de Marc Ferrez percorre, assim, mais de cinco décadas de profundas transformações no campo da imagem, e, nesse sentido, sua trajetória e seu legado constituem, sem dúvida, uma plataforma única para a compreensão do país e de sua representação ao longo do século XIX e primeiras décadas do século XX.

Por esses motivos, que evidenciam a importância do legado de Marc Ferrez, o Instituto Moreira Salles, que tem sob sua guarda o acervo do fotógrafo, realizará ao longo dos próximos cinco anos um trabalho sistemático de documentação e pesquisa da obra completa de Marc Ferrez, buscando referenciar de maneira abrangente e exaustiva seu trabalho, reunido tanto no IMS como em outras instituições no país e no exterior.

 

*Sergio Burgi é Coordenador de Fotografia do Instituto Moreira Salles

 

Publicações da Brasiliana Fotográfica em torno da obra do fotógrafo Marc Ferrez 

 

O Rio de Janeiro de Marc Ferrez, publicada em 30 de junho de 2015

Obras para o abastecimento no Rio de Janeiro por Marc Ferrez , publicada em 25 de janeiro de 2016

O brilhante cronista visual Marc Ferrez (7/12/1843 – 12/01/1923), publicada em 7 de dezembro de 2016

Do natural ao construído: O Rio de Janeiro na fotografia de Marc Ferrez, de Sérgio Burgi, publicada em 19 de dezembro de 2016

No primeiro dia da primavera, as cores de Marc Ferrez (1843 – 1923), publicada em 22 de setembro de 2017

Marc Ferrez e a Exposição Antropológica Brasileira no Museu Nacional em 1882, publicada em 29 de junho de 2018

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas 100 anos: Carlos e Evandro Chagas em retratos de família

A Brasiliana Fotográfica publica o segundo artigo de uma trilogia em comemoração ao centenário do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, com um texto de autoria de Aline Lopes de Lacerda, chefe do Departamento de Arquivo e Documentação Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, instituição parceira do portal. No artigo, Aline conta a história do arquivo de Carlos Chagas, doado no início dos anos 90 à Casa de Oswaldo Cruz. A classificação atribuída a esse arquivo separou os documentos textuais por séries temáticas e as fotografias foram dispostas em dossiês temáticos num arranjo cronológico e transferidas para a Seção Iconográfica. As imagens que retratam Chagas no ambiente mais pessoal e familiar, quando posa com seus filhos e neta aparentemente no jardim de sua residência e que foram reunidas e classificadas junto à documentação textual no grupo intitulado ‘Vida Pessoal’ estão agora disponíveis no acervo fotográfico do portal.

INI 100 anos: Carlos e Evandro Chagas em retratos de família

Aline Lopes de Lacerda*

O centenário do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI), festejado em 2018, antecipa em um ano outra celebração e conjuga, simbolicamente, o brilhantismo de um pai e seu filho. O primeiro, Carlos Chagas, desvendou o ciclo completo da tripanossomíase americana, doença que levaria o seu nome (cuja descoberta completa 200 anos em 2019). Evandro Chagas, anos depois, pelo protagonismo em articular pesquisa clínica, entomológica, laboratorial e saúde pública, nomearia o Hospital Oswaldo Cruz, fundado em 1918. Uma longa história, acima de tudo afetiva, que se revela em documentos, como as fotografias depositadas no arquivo pessoal de Carlos Chagas.

Sob custódia da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), o arquivo de Carlos Chagas (1878-1934), pela importância histórica que lhe é devida, merece algumas considerações, principalmente no que concerne à produção e acumulação desse arquivo. De início, para que sejam conhecidos os caminhos que a documentação trilhou até o momento de organização e subsequente abertura pública à consulta, vale destacar que durante dois anos uma equipe do Departamento de Arquivo e Documentação da COC reuniu-se em torno dessa documentação para discutir seus contornos, identificar as temáticas nela representadas, entender seus contextos de produção e procurar identificar as conexões entre os distintos documentos e as funções exercidas pelo cientista ao longo de sua vida. Esse esforço culminou na elaboração do inventário do arquivo, instrumento de pesquisa que possibilita o acesso aos usuários em geral.

Acessando o link para as fotografias de família de Carlos e Evandro Chagas disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

O arquivo foi doado à COC, no início dos anos 90, por Carlos Chagas Filho (1910-2000), filho caçula do cientista que, desde a morte do pai e do irmão, Evandro Chagas (1905-1940), tornou-se o guardião da memória familiar, mantendo a documentação reunida e utilizando-se dela em projetos específicos. O conjunto, que continha documentos de Carlos Chagas e também de Evandro Chagas, foi objeto de uma primeira organização como arquivo familiar, por se entender, à época, que assim seriam conferidas a ênfase e a visibilidade que mereciam os documentos daqueles que, além de importantes personagens da história da ciência e da saúde pública, eram membros de uma mesma família.

A classificação atribuída então ao arquivo de Carlos Chagas separou os documentos textuais por séries temáticas. As fotografias foram dispostas em dossiês temáticos num arranjo cronológico e transferidas para a Seção Iconográfica, procedimento de organização amplamente utilizado por instituições que mantêm arquivos. Uma característica desse material diz respeito à esparsa presença de registros de caráter ‘pessoal’ da vida do cientista.

As imagens que representam essa temática perfazem um total de 41 documentos, sendo 13 retratos (portraits) de Chagas, de seus pais, filhos e esposa; 11 fotografias relativas a diversas caçadas com amigos, atividade que mantinha como hobby; e seis de encontros com a turma de formatura da Faculdade de Medicina, por ocasião de aniversários comemorativos à data. Algumas retratam Chagas no ambiente mais pessoal e familiar, quando posa com seus filhos e neta aparentemente no jardim de sua residência. Elas foram reunidas e classificadas junto à documentação textual, no grupo intitulado ‘Vida Pessoal’. Em homenagem aos 100 anos do INI publicamos estas fotografias na Brasiliana Fotográfica.

 

*Aline Lopes de Lacerda  é Chefe do Departamento de Arquivo e Documentação Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz

 

 

Outros textos sobre o centenário do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas publicados na Brasiliana Fotográfica:

Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas: 100 anos de pesquisa clínica, por Cristiane d´Avila, em 26/10/2018

Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas: centenário da construção da pesquisa clínica em Manguinho, por Dilene Raimundo do Nascimento, em 21/12/2018 

Registros raros da participação militar brasileira na I Guerra Mundial

Registros raros da participação militar brasileira na I Guerra Mundial

“Na Coleção Cristóvão Barcellos, do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República, é possível encontrar alguns raros registros fotográficos da participação militar brasileira na I Guerra Mundial. Cristóvão de Castro Barcellos (1883-1946) foi um militar do Exército brasileiro nascido em Campos, norte do estado do Rio de Janeiro. Quando 1º tenente, ele foi chamado a integrar a Comissão Brasileira de Estudos, Operação de Guerra e Compra de Material, criada em dezembro de 1917 e enviada à França em janeiro de 1918″. O cientista político Paulo Celso Corrêa, do Museu da República, uma das instituições parcerias do portal, é o autor do artigo que hoje a Brasiliana Fotográfica publica sobre “A participação militar brasileira na I Guerra Mundial – Comissão Brasileira de Estudos, Operação de Guerra e Compra de Material (1918)”.

A participação militar brasileira na I Guerra Mundial – Comissão Brasileira de Estudos, Operação de Guerra e Compra de Material (1918)

Paulo Celso Corrêa*

No dia 11 de novembro de 2018 se comemora o centenário da assinatura do armistício que deu fim à Primeira Guerra Mundial (1914-1918), com a rendição da Alemanha. Esse foi o primeiro conflito militar em escala global da história da humanidade, envolvendo países de todos os continentes.  Representou o desfecho dramático de um longo período de disputas por territórios, mercados e áreas de influência geopolítica, que dividia as principais potências capitalistas da época (Inglaterra, França, Alemanha e Estados Unidos) desde meados do século XIX. Os avanços tecnológicos da ciência e da indústria dos últimos séculos, que muitos acreditavam levar a humanidade ao progresso e à paz, foram aplicados em armamentos que elevaram a destruição material e as taxas de mortalidade civil e militar a níveis inéditos. Ao todo, estima-se que a guerra matou cerca de 20 milhões de pessoas, entre militares e civis.

Na Coleção Cristóvão Barcellos, do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República, é possível encontrar alguns raros registros fotográficos da participação militar brasileira na I Guerra Mundial. Cristóvão de Castro Barcellos (1883-1946) foi um militar do Exército brasileiro nascido em Campos, norte do estado do Rio de Janeiro. Quando 1º tenente, ele foi chamado a integrar a Comissão Brasileira de Estudos, Operação de Guerra e Compra de Material, criada em dezembro de 1917 e enviada à França em janeiro de 1918.

 

 

O compromisso de criá-la surgiu na reunião da Comissão Interaliada acontecida em Paris, entre 30 de novembro e 3 de dezembro de 1917, na qual o Brasil foi representado pelo seu ministro plenipotenciário (embaixador) na França, Olinto Magalhães. Desde 26 de outubro daquele ano, o Brasil estava em guerra contra a Alemanha, integrando assim o bloco dos países Aliados liderado pela França, Inglaterra e Estados Unidos. Além da Comissão de Estudos e Compras, na mesma reunião interaliada se decidiu que o Brasil enviaria uma missão médica militar para a França, um grupo de aviadores navais para treinamento na Europa e nos EUA  e uma divisão naval para o patrulhamento da costa atlântica da África.

 

Acessando o link para as fotografias relativas à participação do Brasil na I Guerra Mundial disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

A comissão de estudos e compras, conhecida como “Missão Aché” por causa de seu comandante, o general Napoleão Felipe Aché, tinha o objetivo de estudar a doutrina militar francesa e conhecer armamentos franceses que pudessem ser comprados para uso pelo exército brasileiro. Além de visitarem instalações militares, os 24 oficiais brasileiros que a compunham foram arregimentados na primeira linha do Exército francês, que lutava na frente ocidental da guerra (França e Bélgica). Cristóvão Barcellos, por exemplo, comandou um pelotão do 17º regimento de Dragões (infantaria a cavalo) do exército francês, participando da perseguição a tropas alemãs que se retiravam da Bélgica. Ele continuou na França após o fim da guerra, onde cursou a Escola Militar de Saint-Cyr até 1919, ano em que retornou ao Brasil.

 

 

A Missão Aché continuou suas atividades na França após o armistício. Outra função por ela desempenhada foi a de familiarizar os oficiais brasileiros com o exército francês, de modo que eles pudessem trabalhar com a Missão Francesa de treinamento contratada pelo governo brasileiro em 1919. Ficou definido pelo contrato que os franceses comandariam por quatro anos as escolas brasileiras de Estado-Maior, Aperfeiçoamento de Oficiais, Intendência e Veterinária e, em troca, o Brasil daria preferência à compra de armas e equipamentos bélicos franceses. Chefiados pelo marechal Maurice Gamelin, os primeiros oficiais instrutores franceses chegaram ao Brasil em 1919. O contrato da missão foi renovado sucessivas vezes até a extinção da missão militar em 1940, após a capitulação da França na Segunda Guerra Mundial.

 

 

 

*Paulo Celso Corrêa é cientista político do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República

 

Fontes:

ARAUJO, Rodrigo Nabuco de. Missão militar francesa; FAGUNDES, Luciana. Participação brasileira na Primeira Guerra Mundial; LEMOS, Renato. Cristóvão Barcellos. In: ABREU, Alzira Alves de (org.). Dicionário histórico-biográfico da Primeira República (1889-1930). Rio de Janeiro, Editora FGV, 2015.

DARÓZ, Carlos. O Brasil na Primeira Guerra Mundial: a longa travessia. São Paulo, Editora Contexto, 2017.

 

Notícias sobre a Missão Aché na década de 1910

Anúncio da criação de uma missão militar brasileira na Europa chefiada pelo general Napoleão Felipe Aché com o objetivo de colher “in loco” as lições novas que a presente guerra proporciona (O Jornal (MA), 23 de novembro de 1917, quarta coluna).

No anfiteatro da Sorbonne, realização de grande manifestação em honra do Brasil com a presença do general Aché e de membros da missão militar brasileira (O Paiz, 16 de março de 1918, terceira coluna).

O ministro do Brasil em Paris, Olinto de Magalhães (1866 – 1948), apresentou o general Aché a Stephen Pichon (1857 – 1933), ministro das Relações Exteriores da França (O Paiz, 9 de abril de 1918, quarta coluna).

Visita da Missão Aché a Verdun e encontro de Olinto Magalhães e do general Aché com Georges Clemenceau (1841 – 1929), presidente do Conselho da França (A Rua, 1º de maio de 1918, última coluna e O Paiz, 2 de maio de 1918, primeira coluna).

Olinto Magalhães apresentou o general Aché e o chefe da missão naval brasileira, o almirante Francisco de Mattos, ao presidente da França, Raymond Poincaré (1860 – 1934)(O Paiz, 21 de junho de 1918, segunda coluna).

Em 28 de julho, a missão brasileira foi recebida no front de guerra belga pelo general Gillain, chefe do Estado Maior (Fon Fon, 5 de outubro de 1918).

O ministro da Guerra do Brasil, o marechal Caetano de Faria (1855 – 1936) fez um elogio ao general Aché (A Noite, 26 de agosto de 1918, última coluna),

Incorporação de oficiais da Missão Aché a regimentos franceses e condecoração do general Aché com a medalha militar francesa (Correio da Manhã, 3 de setembro de 1918, primeira coluna; O Paiz, 3 de setembro, quarta coluna;  Jornal do Brasil, 5 de setembro de 1918, última coluna; e O Malho, 7 de setembro de 1918, última coluna).

Matéria sobre a participação do Brasil na guerra (O Paiz, 3 de setembro de 1918, última coluna).

Inserção na ata da Câmara de Deputados de uma nota de contentamento relativa à incorporação de oficiais da Missão Aché a regimentos franceses (Gazeta de Notícias, 5 de setembro de 1918, primeira coluna).

Falecimento de um membro da Missão Aché, o tenente Andrade Neves, vítima da gripe espanhola (Gazeta de Notícias, 11 de outubro de 1918, penúltima coluna,  A República, 21 de outubro de 1918, quarta coluna; e O Malho, 9 de novembro de 1918).

Em entrevista, o ministro da Guerra do Brasil, o marechal Caetano de Faria (1855 – 1936), mencionou as missões militares do Brasil na Europa (O Paiz, 11 de outubro de 1918, penúltima coluna).

Pronunciamento do deputado do Pará, Abel Chermont, na Câmara de Deputados, quando afirmou que oficiais brasileiros da Missão Aché estavam chefiando soldados e até mesmo oficias franceses (O Paiz, 13 de outubro de 1918, quarta coluna).

Participação da Missão Aché no front da guerra (A Noite, 15 de outubro de 1918, segunda coluna).

Entrevista com o general Aché (A Época, 30 de outubro de 1918).

Condecoração do 1º tenente José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, integrante da Missão Aché (Gazeta de Notícias, 5 de novembro de 1918, quarta coluna e O Paiz, 13 de novembro de 1918, penúltima coluna).

Citação de dois oficiais da Missão Aché, dentre eles Castro Barcellos, na ordem do dia (Gazeta de Notícias, 25 de novembro de 1918, quarta coluna).

Volta do aviador brasileiro Bento Ribeiro do front da guerra. Ele revelou que os oficias brasileiros da Missão Aché gozam de muitas simpatias na França (Jornal do Commercio (AM), 20 de dezembro de 1918, sexta coluna).

O general Aché visitou o hospital brasileiro em Paris (O Paiz, 27 de dezembro de 1918, segunda coluna).

Condecoração pelo governo francês do coronel Leite de Castro , membro da Missão Aché (A Época, 5 de janeiro de 1919, sétima coluna).

Nomeação do 1º tenente Ildebrando Escobar como membro da Missão Aché (Gazeta de Notícias, 14 de fevereiro de 1919, terceira coluna).

Sobre a participação do tenente Onofre Moniz Gomes de Almeida, professor da Escola de Aperfeiçoamento do Exército, na Missão Aché (O Imparcial, 22 de fevereiro de 1919, primeira coluna).

O ministro da Fazenda, João Ribeiro de Oliveira Souza (1863 – 1933), confirmou a isenção da cobrança de impostos sobre os vencimento dos membros da missão militar na Europa sob o comando do general Aché (O Paiz, 5 e 6 de março de 1919, última coluna).

O capitão Regueira, ex-membro da Missão Aché, foi destacado para acompanhar a visita do general francês Maurice Gamelin (1872 – 1958) ao Brasil (A Razão, 27 de março de 1919, segunda coluna).

Volta de Castro Barcellos ao Brasil, a bordo do paquete Gelria, do Lloyd Royal Hollandez (Pequeno Jornal, 2 de abril de 1919, última coluna).

Notícia do nascimento de um filho do 1° tenente Ildebrando Escobar, membro da Missão Aché (O Paiz, 25 de abril de 1919, quinta coluna).

Sobre a autorização para a participação do major João Clomenes de Siqueira, da Missão Aché, no Congresso da Cruz Vermelha,em Berna, na Suíça (A Noite, 28 de abril de 1919, última coluna).

Polêmica em torno de uma suposta compra de material de artilharia francesa envolvendo membros da Missão Aché( A Noite, 5 de maio de 1919, quarta colunaA Época, 6 de maio de 1919, sexta colunaGazeta de Notícias, 6 de maio de 1919, terceira colunaCorreio da Manhã, 6 de maio de 1919, quarta colunaCorreio Paulistano, 6 de maio de 1919, quarta colunaA Época, 6 de maio de 1919, penúltima coluna; e Jornal do Commercio, 6 de maio de 1919, segunda coluna)

O presidente do Tiro da Imprensa, Miguel Calmon, estava na Missão Aché, assim como seu instrutor, o Segundo Tenente Ildefonso Escobar (O Imparcial, 13 de maio de 1919, última coluna).

Apresentação dos membros da Missão Aché ao novo ministro do Brasil junto ao governo da França (Jornal do Commercio, 11 de junho de 1919, quarta coluna).

O general Aché foi condecorado comendador da Legião de Honra da França (O Paiz, 15 de junho de 1919, penúltima coluna).

Artigo sobre a Missão Aché (Jornal do Commercio, 5 de julho de 1919, terceira coluna).

Sobre o raid entre Rio e Lisboa projetado pelo tenente Alziro Lima, que havia sido membro da Missão Aché (A República, 9 de julho de 1919, primeira coluna; A Noite, 8 de julho de 1919, última colunaA Razão, 9 de julho de 1919, segunda coluna).

Sobre a Missão Médica e a Missão Aché (Correio Paulistano, 7 de setembro de 1919, última coluna).

O general Aché comunicou ao ministro da Guerra do Brasil, Alfredo Pinto Vieira de Melo (1863 – 1923), que o governo francês havia autorizado o envio de uma missão militar para a instrução do Exército brasileiro sob a chefia do general Gamelin (A Época, 11 de setembro de 1919, penúltima coluna).

Sobre a comissão que substituiria a Missão Aché na Europa (Gazeta de Notícias, 3 de outubro de 1919, primeira coluna).

Sobre o fornecimento de material bélico do governo francês ao Exército brasileiro (A Época, 11 de outubro de 1919, quarta coluna).

“O general Gamelin conferencia, em Paris, com o general Napoleão Aché” (O Paiz, 8 de novembro de 1919).

Dissolução da Missão Aché (O Pharol, 23 de novembro de 1919, última coluna).

Regresso ao Brasil e ida para outros países dos oficiais da Missão Aché (A Noite, 19 de dezembro de 1919, primeira coluna; e A Razão, 19 de janeiro de 1920, terceira coluna).

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fonte:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas: 100 anos de pesquisa clínica

A Brasiliana Fotográfica abre as comemorações do centenário do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, com um texto de autoria de Cristiane d’Avila, jornalista do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz, instituição parceira do portal. É o primeiro artigo de uma trilogia sobre o assunto que o portal publicará até dezembro de 2018. Há 100 anos, aliar pesquisa científica e assistência aos doentes acometidos por moléstias infecciosas, no Rio de Janeiro, era a preocupação dos médicos de Manguinhos. Liderados por Oswaldo Cruz aqueles profissionais lidavam com o desafio de combater surtos de peste bubônica, febre amarela e varíola, na capital do país e em diversas regiões do Brasil. O hospital recebeu o nome de seu idealizador, Oswaldo Cruz, e ficou pronto em 1918 no governo do presidente Hermes da Fonseca tornando-se o primeiro hospital de Pesquisa Clínica do Brasil, lócus de construção da pesquisa clínica e epidemiológica sobre doenças tropicais no Brasil. Em 1942 foi nomeado Hospital Evandro Chagas.

Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas: 100 anos de pesquisa clínica

Cristiane d’Avila*

“Do mesmo modo que uma catedral não basta para que haja uma religião (…), e do mesmo modo que uma escola não é simplesmente o edifício que a aloja, o Hospital de Manguinhos, a que mais tarde foi dado o nome de Hospital Evandro Chagas, tem uma história que não é apenas a da casa que por tanto tempo o abrigou (…)”. A citação de Olympio da Fonseca Filho, pesquisador da Fiocruz, no livro A Escola da Manguinhos (1974), é reveladora da motivação que impulsionou a construção do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI), cujo centenário é celebrado em 2018 com uma série de eventos programados para o mês de novembro.

Há 100 anos, aliar pesquisa científica e assistência aos doentes acometidos por moléstias infecciosas, no Rio de Janeiro, era a preocupação dos médicos de Manguinhos. Liderados por Oswaldo Cruz, nomeado Diretor do Instituto Soroterápico Federal (atual Fiocruz), em 1902, e Diretor da Saúde Pública, em 1903, acumulando as duas funções, aqueles profissionais lidavam com o desafio de combater surtos de peste bubônica, febre amarela e varíola, na capital do país e em diversas regiões do Brasil. Trabalho de campo, observação de doentes, identificação de insetos vetores e pesquisas laboratoriais demandavam um ambiente que facilitasse a observação clínica. Sem hospital próprio em Manguinhos, os médicos acorriam às dependências do Hospital São Sebastião e da Santa Casa de Misericórdia, no Rio, para o isolamento e cuidado dos pacientes. Oswaldo Cruz ainda requereu dois prédios no Engenho de Dentro e outro em Niterói – o antigo Hospital Marítimo de Santa Isabel, para atender os infectados, durante a epidemia de varíola em 1908.

Acessando o link para as fotografias da construção do Instituto de Pesquisa Clínica Evandro Chagas disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

O segredo das causas, sintomas e tratamento das principais doenças endêmicas e epidêmicas estava tanto no estudo da interação do homem com o ambiente em que vivia, quanto no estudo sistemático dos indivíduos, isoladamente. Mas a necessidade de um ambiente que facilitasse a observação clínica para o melhor entendimento da história natural das inúmeras doenças endêmicas e epidêmicas, e para seu tratamento foi, certamente, o fator que deflagraria a construção de um hospital vinculado ao Instituto Soroterápico. O hospital foi projetado antes mesmo do castelo-sede de Manguinhos…” (COTRIM, 2009, p.7)

 

 

Luiz Moraes Júnior, o arquiteto português responsável pelos projetos do núcleo arquitetônico histórico de Manguinhos (pavilhões da Peste, Cavalariça e Mourisco; Pombal, Quinino, Aquário de Água Salgada e Hospital Oswaldo Cruz)(1) elaborou as primeiras plantas de um hospital de isolamento para o Instituto, em 1904, um ano antes do início das obras do Pavilhão Mourisco (Castelo). Esse pavilhão fazia parte de um complexo hospitalar projetado inicialmente para funcionar com seis unidades, mas apenas uma foi construída, em função da falta de verbas. O hospital ficou pronto em 1918 no governo do presidente Hermes da Fonseca. Em decorrência da morte de Oswaldo Cruz, em 1917, recebeu o nome do seu idealizador. Somente em 1942, após a morte de Evandro Chagas em um acidente aéreo, em 1940, viria a ser nomeado Hospital Evandro Chagas, tornando-se o primeiro hospital de Pesquisa Clínica do Brasil, lócus de construção da pesquisa clínica e epidemiológica sobre doenças tropicais no país.

 

 

 

Evandro Chagas (1905 – 1940)

Filho mais velho de Íris Logo e Carlos Chagas, nasceu em 10 de agosto de 1905. Formado na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1926, assumiu no mesmo ano a chefia do Serviço de Radiologia e Eletrocardiografia – para o estabelecimento das alterações características da forma cardíaca da Doença de Chagas – e de uma enfermaria do Hospital Oswaldo Cruz. Realizou importantes trabalhos sobre a leishmaniose visceral americana e descobriu os primeiros casos humanos da doença. Organizou no Hospital Oswaldo Cruz o Serviço de Estudo das Grandes Endemias (SEGE), a fim de promover investigação médico-sanitária em diversos estados brasileiros. Em 1940, aos 35 anos, dos quais 14 dedicados ao Hospital Oswaldo Cruz – desde seu ingresso ainda como aluno de medicina – Evandro Chagas faleceu em um acidente em um hidroavião, na Marina da Glória. Em 1942, o hospital foi rebatizado com seu nome.

 

*Cristiane d’Avila é jornalista do Departamento de Arquivo e Documentação DAD/Casa de Oswaldo Cruz

 

Fontes:

GUIMARÃES, Maria Regina Cotrim. Hospital de Manguinhos: 90 anos de pesquisa clínica. Rio de Janeiro: Fiocruz; IPEC, 2009.
IGLESIAS, Fabio; SANTOS, Paulo Roberto Elian; MARTINS, Ruth B. (Org.). Vida, Engenho e Arte. 1ed. Rio de Janeiro: Casa de Oswaldo Cruz, 2014.

 

(1) Para saber mais sobre o complexo arquitetônico de Manguinhos, acesse os artigos publicando anteriormente pela Brasiliana Fotográfica:

100 anos do Castelo da Fiocruz: a ocupação da Fazenda de Manguinhos, por Cristiane d’Avila, 28 de fevereiro de 2018

100 anos do Castelo da Fiocruz: os pedreiros do Castelo da avenida Brasil, por Ricardo Augusto dos Santos, 12 de abril de 2018

100 anos do Castelo da Fiocruz: criador e criatura, por Ricardo Gama-Rosa Costa , 15 de maio de 2018

 

Notícias da inauguração do Hospital Oswaldo Cruz, atual Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas

1918

Foi publicado sobre o Hospital Oswaldo Cruz: “destinado ao estudo das doenças tropicais do Brasil, o novo hospital comportará de 30 a 40 doentes. A sua instalação é a mais moderna possível” (A Noite, 15 de agosto de 1918, quarta coluna).

Publicação de uma matéria sobre a importância da criação do Hospital Oswaldo Cruz (O Imparcial, 17 de agosto de 1918, primeira coluna).

Anúncio da inauguração do Hospital Oswaldo Cruz, na mesma época da realização do VII Congresso Brasileiro de Medicina e da II Conferência Sul-Americana de Higiene, Microbiologia e Patologia. Na matéria, anúncio de conferências dos médicos do Instituto Oswaldo Cruz, Carlos Chagas (1879 – 1934) e Adolfo Lutz (1855 – 1940) (Jornal do Brasil, 5 de outubro de 1918, sexta coluna).

O prefeito do Rio de Janeiro, Amaro Cavalcanti (1849 – 1922), e o presidente da República, Hermes da Fonseca (1855 – 1923), foram convidados pelos médicos Carlos Chagas e Miguel Couto (1865 – 1934) para a inauguração do Hospital Oswaldo Cruz (Jornal do Brasil, 9 de outubro de 1918, última coluna, e O Paiz, 9 de outubro de 1918, terceira coluna).

 1919

O recém empossado prefeito do Rio de Janeiro, Paulo de Frontin (1860 – 1933), visitou o Hospital de Manguinhos (Gazeta de Notícias, 28 de março de 1919).

 

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Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Outros textos sobre o centenário do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas publicados na Brasiliana Fotográfica:

Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas 100 anos: Carlos e Evandro Chagas em retratos de família, por Aline Lopes de Lacerda, em 27 de novembro de 2018

Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas: centenário da construção da pesquisa clínica em Manguinho, por Dilene Raimundo do Nascimento, em 21/12/2018 

A Escola de Aprendizes-Marinheiros do Ceará

No ano de 1864, o Decreto Imperial nº 3.347, de 26 de novembro, criou a Companhia de Aprendizes-Marinheiros do Ceará. Estas companhias surgiram como parte do projeto de reformulação da Marinha Imperial em meados do século XIX e, no decorrer da segunda metade daquele século, foram estabelecidas 17 unidades pelo litoral do Império e uma na província do Mato Grosso.  O objetivo da instituição era recrutar crianças e jovens a fim de formá-los para ingresso no serviço da Armada Imperial, empregando-os no Corpo de Imperiais Marinheiros. É essa história que Wagner Luiz Bueno dos Santos, pesquisador na Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha – DPHDM -, uma das parceiras da Brasiliana Fotográfica, traz hoje para os leitores do portal com o artigo A Escola de Aprendizes-Marinheiros do Ceará na consolidação da educação e formação profissional de marinheiros. As 19 imagens da Escola de Aprendizes-Marinheiros que estão no acervo da Brasiliana Fotográfica podem ser acessadas e magnificadas.

A Escola de Aprendizes-Marinheiros do Ceará na consolidação da educação e formação profissional de marinheiros 

Wagner Luiz Bueno dos Santos*

 

No ano de 1864, o Decreto Imperial nº 3.347, de 26 de novembro, criou a Companhia de Aprendizes-Marinheiros do Ceará. Estas companhias surgiram como parte do projeto de reformulação da Marinha Imperial em meados do século XIX e, no decorrer da segunda metade daquele século, foram estabelecidas 17 unidades pelo litoral do Império e uma na província do Mato Grosso. O objetivo da instituição era recrutar crianças e jovens a fim de formá-los para ingresso no serviço da Armada Imperial, empregando-os no Corpo de Imperiais Marinheiros. A combinação entre aprendizado nas primeiras letras e instrução militar formava a estrutura de ensino nas Companhias de Aprendizes-Marinheiros. Para complementar a formação do aprendiz-marinheiro, o ensino teórico era acompanhado por treinamento prático nos navios de guerra da Armada Imperial, considerado como um estágio importante pela Administração Naval, pois era o momento em que os aprendizes-marinheiros recebiam treinamento prático durante as rotinas dos navios.
Durante a segunda metade do século XIX, os meninos ingressavam na instituição de diversas formas. Alguns eram levados pelos pais e parentes próximos, e outros por tutores ou responsáveis financeiros dos meninos. Porém, boa parte chegava pelas mãos das autoridades locais – delegados de polícia, juízes de paz, presidentes das províncias e inspetores dos arsenais. Em uma perspectiva mais ampla, guardadas suas especificidades, as Companhais de Aprendizes-Marinheiros compuseram os mecanismos de recrutamento da época, surgindo e se consolidando em um período em que a maioria dos marinheiros ingressava na Marinha Imperial por meio do recrutamento forçado. Na tentativa de abandonar esta prática, e solucionar seus problemas inerentes, as companhias deveriam funcionar como espaço de formação de um novo marinheiro. Por isso seu alvo foi a infância e a adolescência o recrutamento era feito nas cidades, nas vilas e nos lugarejos do extenso litoral do Império.

 

 

Acessando o link para as fotografias da Escola de Aprendizes-Marinheiro do Ceará disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Desde sua criação, as Companhias passaram por reformulações e alterações em seu regulamento, mas foi no ano de 1885 que a instituição sofreu sua maior mudança. As companhias passaram a ter a denominação de Escolas de Aprendizes-Marinheiros e uma das mais significativas mudanças foi a redução do número de unidades. Naquele ano, das 18 unidades existentes, 12 continuaram em funcionamento.

Alterações no regulamento das escolas também foram feitas no início do século XX. Um período marcado por constantes reduções e aumento do número de unidades, seja por junção ou extinção, de modo que a quantidade de escolas oscilou à medida que eram traçadas metas para o recrutamento de marinheiros. Ao mesmo tempo que se percebia a incapacidade de completar as vagas que a Marinha necessitava, identificou-se as deficiências na aprendizagem em algumas unidades. Apesar de todas essas alterações e mudanças sofridas pela instituição, onde algumas deixaram de existir, a Escola de Aprendizes do Ceará permaneceu em atividade.

No final de 1917, segundo o relatório do Ministro da Marinha publicado em 1918, das cem vagas disponíveis na escola do Ceará, havia somente 33 meninos matriculados. Naquela época, a instituição já havia deixado sua antiga sede na região do antigo porto da cidade de Fortaleza e se encontrava instalada em Jacareacanga. Para o ingresso nas Escolas, de acordo com o regulamento em vigor, estabelecido pelo Decreto nº 11.479, de 10 de fevereiro de 1915, era necessário ter entre 14 e 16 anos de idade, apresentar documentos que confirmassem a nacionalidade brasileira e passar por avaliações médicas para comprovação de aptidões físicas com laudo sanitário proferido pelo médico da escola. O Regulamento orientava ainda que os candidatos a uma vaga em uma das 20 unidades das Escola de Aprendizes-Marinheiros, dispostas no território brasileiro na época, poderiam ser entregues por seus pais ou tutores. No caso de órfãos, estes deveriam ser apresentados por seus tutores ou juiz competente e, no caso de órfãos asilados, deveriam ser apresentados pela direção dos asilos. Após a matrícula, o menino ficaria em observação por oito dias e só após esse período seria alistado como aprendiz-marinheiro.

O ensino nas Escolas de Aprendizes-Marinheiros compreendia um período de dois anos, dividido cada ano em duas séries. Os aprendizes-marinheiros passariam por um processo de aprendizagem estabelecido em três segmentos: elementar, profissional e acessório. O ensino elementar nas escolas incluía noções de língua portuguesa; ensino de matemática com noções de operações fundamentais, geometria e sistema métrico decimal; geografia e história do Brasil; educação física; educação musical e desenho. O ensino profissional, que era o início da preparação do aprendiz-marinheiro para o exercício das funções a bordo, constituía-se por disciplinas que abordavam noções elementares dos aparelhos dos navios modernos, classificação de navios modernos, sua categoria, noções de navegação, regimento de bandeiras e sinais semafóricos. O objetivo dessas disciplinas, ditas modernas, era acompanhar a evolução da construção naval da época. O ensino acessório tratava-se de um conjunto de atividades para o desenvolvimento físico do aprendiz-marinheiro e sua formação militar, incluindo exercícios de ginástica, de escaleres a remos e a vela, de esgrima, de natação, jogos escolares ao ar livre, execícios de infantaria e de baioneta.

A Escola de Aprendizes-Marinheiros do Ceará teve suas atividades encerradas em 1931 e foi reaberta, em 1940, com instalações novas e ampliadas para proporcionar melhores condições de alojamento e aprendizagem aos alunos. Na ocasião, os jornais da cidade deram destaque para a chegada do futuro comandante da Escola de Aprendizes, o então Capitão-Tenente Clóvis de Oliveira, que visitou as novas instalações para traçar um plano de abertura da antiga escola. Atualmente, a Escola de Aprendizes-Marinheiros do Ceará tem capacidade para formar 500 marinheiros por ano e a forma de ingresso é feita por concurso público para brasileiros entre 18 e 22 anos, que não tenham contraído matrimônio ou outra forma de união.

 

*Wagner Luiz Bueno dos Santos é historiador e pesquisador na Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha – DPHDM.