Category Archives: Efemérides

A cidade como Arquivo, o Arquivo da Cidade

Seguindo a diretriz das Ordenações Manuelinas  (1512-1603), manifestação da vontade do rei de Portugal, dom Manuel I (1469-1521) de homogeneizar e controlar a administração do crescente Império Português, firmou-se no Rio de Janeiro  uma “arca grande e boa” para a guarda dos documentos públicos, que deram origem ao acervo em depósito no Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (AGCRJ), uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica. É essa história, escrita pela diretora da AGCRJ, Beatriz Kushnir, que o portal publica hoje em homenagem aos 454 anos da fundação do Rio de Janeiro, instituída por Estácio de Sá (1520 – 1567) em um terreno plano entre os morros Cara de Cão e Pão de Açúcar.

 

A cidade como Arquivo, o Arquivo da Cidade

Beatriz Kushnir*

 

Somos uma cidade que nasceu lusa. A República se esforçou para apagar os traços de nossa tradição ibérica e teve algum êxito. Mas a forma como nos relacionamos com a burocracia, esta é portuguesa. Aprendemos com eles a circularidade das informações, com cópias, autenticações, três vias, etc.

No processo de expansão ultramarino, a implementação da imprensa permitiu que das manuscritas Ordenações Afonsinas, a lei tipograficamente formatada alcançasse os quatro cantos do Reino na compilação conhecida como Ordenações Manuelinas (1512-1603). Incluso no modus vivendi desta revisão legislativa, há a vontade do rei D. Manuel I (1469-1521), que assumiu a Coroa aos 26 anos, de homogeneizar e controlar a administração do crescente Império Português.

Acessando o link para as fotografias relacionadas a essa publicação e disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Certamente, a letra impressa permitiu a divulgação e assegurou o conhecimento da legislação. E pela compilação das normas no regulamento, a tentativa de unificação do território. D. Manuel I, o nosso 1º governante, instituiu esse corpo legislativo, que aqui conheceu efetiva vigência no primeiro século das Terras de Santa Cruz. Embora as Ordenações Manuelinas tenham sido revogadas pelas Filipinas, em 1603, acabaram perdurando no tempo. Grande parte de seu conteúdo estava incluso na legislação subsequente e inúmeras de suas disposições continuaram em vigor. Tais normas atravessaram a Independência do Brasil, o 2º Império e a República. Mais de três séculos depois é que o Código Civil de 1917 foi promulgado.

Refletir sobre as Ordenações é mapear o processo de estabelecimento do direito português, monárquico e centralizador, onde a Corte era tida como a “última instância de recurso” no Reino e o Rei, a “última instância de justiça”. O primeiro livro das Ordenações Manuelinas, editado em dezembro de 1512, abarcava os regimentos, os cargos e as atribuições da administração judiciária. É nele que se arrolam as categorias de chanceleres-mor, desembargadores, corregedores, ouvidores, meirinhos, porteiros, carcereiros, entre outros. Há igualmente, as cláusulas quanto a administração e as pontuações quanto aos deveres dos vereadores, almotacés, alcaides, tabeliães. De tal modo, se define e alicerça a máquina administrativa e burocrática do Estado.
No Título 46, “Dos Vereadores das Cidades, Villas, e cousas que a seus Officios pertencem”, se lê no item II que os vereadores farão guardar em uma arca grande e boa, todos os Forais, Tombos, Privilégios e quaisquer outra Escritura que pertençam ao Conselho. Esta área terá duas fechaduras, das quais uma chave terá o Escrivão da Câmara e outra, um dos vereadores. Assim, D. Manuel designou que em todo e qualquer espaço de povoamento do Império Ultramarino fosse instituído um lugar de guarda dos documentos públicos, um arquivo. Não esqueceu igualmente, de regrar pela segurança das informações ali contidas e sabia que sem estas, direitos e deveres não seriam resguardados em uma sociedade escravocrata e pouco letrada.

Quando Estácio de Sá, sobrinho do Governador Geral do Brasil (1557-72), Mem de Sá, desembarcou em Salvador, Bahia, em 1563, tinha como missão fundar uma cidade nas terras da Guanabara e expulsar os franceses que aqui estavam. A família Sá era de fidalgos do Rei. Mem de Sá licenciou-se em Direito e serviu à Coroa por 39 anos. Foi o 1º jurista nomeado para um governo no além-mar e o garantidor dos interesses do Estado português no Brasil. Tendo em mãos as Ordenações Manuelinas, o apoio da Companhia de Jesus e o poder da guerra, investiu na unidade politico-administrativa, no povoamento e na produção de riqueza.

 

 

Em 1º de março de 1565, a Muy leal e heroica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro foi instituída por Estácio de Sá em um terreno plano entre os morros Cara de Cão e Pão de Açúcar. Neste acampamento militar estavam as bases para a luta que expulsaria os franceses dois anos depois, em 20 de janeiro de 1567. Num desenho tipicamente fantástico, Estácio de Sá foi flechado e morreu, tal e qual o santo que nomeia a cidade e que tem naquela data o seu dia.

 

 

O Governador Geral, ao desfazer o cenário da guerra, deslocou os assentamentos que demarcavam a fundação da cidade para o morro do Castelo, no interior da baía da Guanabara. E ali ergueu uma sólida fortaleza. O Rio de Janeiro, por seu lugar estratégico no âmbito geográfico e político, desde o inicio foi instituído como uma urbe.

 

 

Seguindo a diretriz Manuelinas, aqui também se firmou uma “arca grande e boa” para a guarda dos documentos públicos. Origem do acervo em deposito atualmente no Arquivo Geral da Cidade do RJ (AGCRJ), há no conjunto documental da Câmara Municipal e posteriormente, do Senado da Câmara, o Códice “Legislativo Municipal – Correição dos Ouvidores”.

Inscrito na nota de abertura do livro, toma-se ciência que este tomo é uma “cópia do Livro das Provisões e Correição do ano de 1624 até 1747”. Tal duplicidade foi autorizada pela Vereança em janeiro de 1807. Isto porque, o original achava-se bastante danificado. O manuscrito tem às folhas 23, a inscrição:

“Mil seiscentos e trinta e oito = Correição feita pelo Ouvidor Geral Diogo de Sá da Rocha = Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e trinta e oito anos, aos três dias do mês de Março nesta Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, veio a esta Câmara o Ouvidor Geral Diogo de Sá da Rocha em Correição segundo o costume de que fiz este termo, Diogo Lopes Ramos, Escrivão da Correição, e Ouvidoria Geral desta República, digo, desta Repartição do Sul, que o escrevi”.

No verso da folha, compreende-se que o Ouvidor Geral Diogo de Sá da Rocha vem se certificar da inclusão dos Livros de Registros e das Cartas no Arquivo da Câmara. Da mesma forma, cuidou para que quando se entregassem as chaves do Arquivo e cofres da Câmara, as mesmas se fizesse com a segurança de um registro a quem se entrega. Isto porque,
“para se saber as pessoas que as tem as ditas Chaves; não fiarão os Oficiais um dos outros isto, com pena de cinquenta cruzados aplicados para as obras do Concelho, em que os há por condenados todas as vezes que o contrário fizerem, e o Escrivão será obrigado a notificar aos Oficiais presentes, e ao que ao diante forem este Capítulo”.

Abaixo a reprodução das folhas 23 e 24  do Códice “Legislativo Municipal – Correição dos Ouvidores”, “cópia do Livro das Provisões e Correição do ano de 1624 até 1747” **

documento 1

documento 2

 

No ano de 1638, mesmo sob a regência das Ordenações Filipinas, o controle apontado por D. Manuel garantiu que estes subsídios e muitos outros, chegassem até nós e sublinhassem a instituição desta cidade, neste 1º de março, registrada nos detalhes da segurança aos dados públicos.

 

 

*Beatriz Kushnir é  a Diretora-Geral do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro.

**Acervo AGCRJ, fundo Câmara Municipal, Série: Legislativo Municipal. Códice: BR RJAGCRJ.CM.LGM.16.4.10, Folha 23V.

Dia Nacional do Imigrante Italiano

Para celebrar o Dia Nacional do Imigrante Italiano, a Brasiliana Fotográfica homenageia essa comunidade e seus descendentes destacando a obra de dois talentosos fotógrafos de origem italiana que atuaram no Brasil no século XIX e nas primeiras décadas do século XX: Camillo Vedani (18? – c. 1888) e Vincenzo Pastore (1865 – 1918) – eles já foram temas de publicações do portal. Pela importância que a comunidade italiana tem na história do Brasil, a lei nº 11.687, de 2 de junho de 2008 instituiu oficialmente o Dia Nacional do Imigrante Italiano no calendário de todo o território nacional. O dia 21 de fevereiro foi escolhido devido à expedição que Pietro Tabacchi fez ao Espírito Santo, em 1874, marco do início do processo da migração em massa dos italianos para o Brasil. Estima-se que atualmente aproximadamente 30 milhões de descendentes de italianos vivam em terras brasileiras.

Camillo Vedani foi o desenhista da comissão encarregada do estudo do traçado da ferrovia Madeira-Mamoré, em 1883. Identificava-se como “Photographo Paizagista” e era também professor de desenho e da língua italiana, tendo se estabelecido no Rio de Janeiro em torno de 1853. Produziu excelentes registros da cidade e também da Bahia, onde residiu entre 1860 e 1865. Na ocasião, trabalhou para a Bahia and São Francisco Railway.  Voltou para o Rio de Janeiro e morou durante um período em Campos.

 

 

Acessando o link para as fotografias de Camillo Vedani disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

A obra do bem sucedido imigrante italiano, o fotógrafo italiano Vincenzo Pastore, importante cronista visual de São Paulo da segunda metade do século XIX e do início do século XX, ficou, durante décadas, em uma caixa de charutos, sem negativos. O segredo de família chegou ao fim quando as fotografias foram herdadas por seu neto, o pianista e professor Flávio Varani, que as doou – 137 imagens – para o Instituto Moreira Salles, em 1997. Com sua câmara, Pastore capturava tipos e costumes de um cotidiano ainda pacato de São Paulo e com seu olhar sensível flagrava trabalhadores de rua. Ao retratar pessoas simples do povo, Pastore realizou, na época, um trabalho inédito na história da fotografia paulistana.

 

 

Acessando o link para as fotografias de Vincenzo Pastore disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

Para mais informações sobre Camillo Vedani e Vincenzo Pastore acessar as publicações:

O fotógrafo paisagista Camillo Vedani (18?, Itália – c. 1888, Brasil)

Vincenzo Pastore (Casamassima, Itália 5 de agosto de 1865 – São Paulo, Brasil 15 de janeiro de 1918)

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

 

Os aeronautas portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral no Brasil, em 1922

Cartão postal

Mais uma vez a Brasiliana Fotográfica pede ajuda a seus leitores. Agora para a identificação da única mulher presente ao almoço oferecido pela Marinha do Brasil, no Rio de Janeiro, aos aeronautas portugueses Carlos Viegas Gago Coutinho (1869 -1959) e Artur de Sacadura Freire Cabral (1881 – 1924), que realizaram a primeira travessia aérea do Atlântico Sul, em 1922, ano em que se comemorava o centenário da independência do Brasil. Iniciaram a viagem no dia 30 de março de 1922, partindo de Lisboa, a bordo do hidroavião Lusitânia, com destino ao Rio de Janeiro (O Paiz, 31 de março de 1922). Após alguns contratempos e acidentes e escalas na Europa e em algumas cidades do Brasil, chegaram ao destino final, em 17 de junho de 1922, completando a travessia. A população da cidade fez a apoteose magnífica do heroismo, aclamando Gago Coutinho e Sacadura Cabral na mais espontânea, na mais eloquente, na mais grandiosa manifestação popular em que há memória no Brasil (O Paiz, 18 de junho de 1922). Foram recepcionados com vários eventos, um deles a visita à Escola de Aviação Naval, na Ilha das Enxadas, em 26 de março de 1922. São fotografias dessa homenagem e uma imagem produzida por Augusto Malta (1864 – 1957), alguns dias depois, que a Brasiliana Fotográfica traz hoje para seus leitores. Os registros pertencem à Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, uma das parceiras do portal.

 

 

Acessando o link para as fotografias de Gago Coutinho e Sacadura Cabral disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas. 

 

 

 

Nas duas fotografias abaixo há a presença de uma única mulher no almoço na Escola de Aviação Naval. Seria a aviadora Thereza de Marzo (1903 – 1986), pioneira da aviação no Brasil que participou das homenagens aos pilotos (Jornal do Brasil, 21 de junho de 1922, quinta coluna; Jornal do Brasil, 22 de junho de 1922, quinta coluna; Jornal do Brasil, 23 de junho de 1922)? A aviadora francesa Adrienne Bolland (1895 – 1975), primeira mulher que sobrevoou a Cordilheira dos Andes, que estava, na época, no Rio de Janeiro, tendo participado de eventos com os aviadores (O Paiz, 25 de junho de 1922, terceira coluna; Jornal do Brasil, 23 de junho de 1922)? Ou será a mulher de algum dos oficiais? Infelizmente nos registros do almoço na Escola de Aviação Naval não é mencionada nenhuma presença feminina (Jornal do Brasil, 27 de junho de 1922).

 

 

Etapas e resumo da Travessia

 

resumo

 

 

Uma curiosidade: O repórter e fotógrafo de O Cruzeiro, Luciano Carneiro (1926 – 1959), cujo acervo fotográfico está sob a guarda do Instituto Moreira Salles, uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica, foi premiado, em 1948, na Segunda Convenção dos Aviadores Civis, em Poços de Caldas, do qual também participou o aviador Gago Coutinho (1869 – 1959). O acontecimento foi documentado na reportagem O encontro das gerações, com texto de Ibiapaba de Oliveira Martins e fotos de Norberto Esteves (O Cruzeiro, 12 de junho de 1948).

 

 

 

selo

 

 

Cartão postal

 

 

gago-coutinho-e-sacadura-cabral

 

A Brasiliana Fotográfica faz um agradecimento especial à bibliotecária Marcia Prestes Taft, Encarregada da Divisão de Documentos Especiais da Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, e ao arquiteto Bruno Buccalon, da equipe do IMS.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Fontes:

A primeira travessia aérea do Atlântico Sul – Texto apresentado pela delegação brasileira que compareceu ao XI Congresso Ibero-Americano de História Aeronáutica e Espacial realizado em Lisboa em outubro de 2008

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Travessia aérea do Atlântico Sul – Filme da Ensina RTP

Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas: centenário da construção da pesquisa clínica em Manguinhos

A Brasiliana Fotográfica publica o terceiro e último artigo da trilogia em comemoração ao centenário do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, com um texto de autoria de Dilene Raimundo do Nascimento, pesquisadora do Departamento de Pesquisa da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, instituição parceira do portal. Da construção de um centro de ciência na Fazenda de Manguinhos – o Castelo Mourisco – surgiu a ideia de um hospital dedicado aos experimentos, resultantes das expedições científicas realizadas pelos cientistas do Instituto Soroterápico Federal, denominado de Instituto Oswaldo Cruz, em 1908. O novo hospital estaria de acordo com os princípios da moderna higiene, com inspiração no Hospital Pasteur de Paris e a assistência ambulatorial, as internações e os cuidados médicos estariam atrelados a finalidades científicas. O projeto inicial foi assinado pelo arquiteto Luiz de Moraes Júnior, também responsável pela construção do Pavilhão Mourisco. O processo de construção foi registrado pelo fotógrafo J. Pinto. Ao longo de sua história, o Hospital de Manguinhos foi denominado Hospital de Doenças Tropicais, Hospital Oswaldo Cruz, Hospital Evandro Chagas, Centro de Pesquisa Clínica Hospital Evandro Chagas, Instituto de Pesquisa Clínica Evandro Chagas (IPEC) e, desde 2010, Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas.

Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas: centenário da construção da pesquisa clínica em Manguinhos

Dilene Raimundo do Nascimento*

 

A ideologia do progresso e da civilização, vigente no início do século XX, no Brasil (Benchimol,1990), fez de Oswaldo Cruz, como diretor geral da Saúde Pública, nomeado em 1903, o responsável por erradicar as epidemias que ocorriam na cidade do Rio de Janeiro – febre amarela, varíola e peste – sobre as quais Rodrigues Alves, eleito presidente da República em 1902, disse no Manifesto à Nação: “Aos interesses da imigração, dos quais depende em máxima parte o nosso desenvolvimento econômico, prende-se a necessidade do saneamento desta capital (…)” (1) .

A campanha de saneamento da capital do país empreendida por Oswaldo Cruz foi exitosa e ele pode capitalizar seu prestígio para o Instituto Soroterápico Federal, do qual era também diretor. Da construção de um centro de ciência na Fazenda de Manguinhos – o Castelo Mourisco – surgiu a ideia de um hospital dedicado aos experimentos, resultantes das expedições científicas realizadas pelos cientistas do Instituto Soroterápico Federal, denominado de Instituto Oswaldo Cruz, em 1908.

Acessando o link para as fotografias relativas ao centenário da construção da pesquisa clínica em Manguinhos disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Essas expedições adentravam o país para colaborar com empreendimentos ferroviários e hidrelétricos, além de obras de infraestrutura, que compunham o cenário de progresso e civilização, realizados tanto por empresas privadas quanto públicas, no sentido de debelar as doenças que acometiam os trabalhadores desses empreendimentos (Benchimol, 1990).

Os cientistas de Manguinhos se deparavam com uma diversidade de doenças, algumas já identificadas e outras totalmente desconhecidas. Foi em uma dessas expedições, realizada em Minas Gerais com o objetivo de combater a malária para facilitar a construção da Estrada de Ferro Central do Brasil até Pirapora/MG, que Carlos Chagas descobriu, em Lassance, a nova tripanossomíase, que ficou conhecida como doença de Chagas.

 

 

 

Os anseios de Oswaldo Cruz de ter um hospital moderno e equipado para estudos clínicos e epidemiológicos dos doentes tomou mais corpo com o desenrolar das pesquisas da doença de Chagas. Sua repercussão possibilitou a obtenção de recursos, em 1912, para equipar um pequeno hospital em Lassance, para continuidade das pesquisas in loco, e para construir um hospital em Manguinhos (Decreto 9.346, de 24 de janeiro de 1912).

 

 

O plano de prover a cidade de um novo hospital de acordo com os princípios da moderna higiene, com inspiração no Hospital Pasteur de Paris, possibilitaria o isolamento individual dos doentes. A assistência ambulatorial, as internações e os cuidados médicos estariam atrelados a finalidades científicas, diferindo, dessa maneira, do modelo de hospitais voltados para a assistência em geral às populações urbanas. Ambicioso, o projeto inicial foi assinado pelo arquiteto Luiz de Moraes Júnior, também responsável pela construção do Pavilhão Mourisco, e previa a construção de seis pavilhões, dos quais só um se concretizou 3 (Cotrim, 2004). As obras foram iniciadas tão logo a verba foi liberada e concluídas em 1918, ano de sua inauguração. Oswaldo Cruz, falecido em 1917, não chegou a ver o hospital concluído. O processo de construção foi registrado pelo fotógrafo J. Pinto, desde a organização do canteiro de obras até a montagem da estrutura primária do edifício, de ferro forjado e em forma de gaiola.

 

 

 

 

Carlos Chagas, que se tornou diretor do Instituto Oswaldo Cruz, com a morte deste, tinha total envolvimento com o Hospital de Manguinhos, porque ali ele acompanhava os seus casos de Doença de Chagas, doentes trazidos do interior.

 

 

Ainda estudante, seu filho Evandro Chagas foi trabalhar no hospital, juntamente com outros pesquisadores como Eurico Vilela, primeiro diretor do hospital de Manguinhos, Lobato Paraense, Nery Guimarães, Emanuel Dias, dentre outros. Evandro Chagas desempenhou toda a sua prática profissional no Hospital de Manguinhos, desenvolvendo a partir dele suas incursões ao interior do Brasil para pesquisar, principalmente, casos de leishmaniose visceral americana. Nessas expedições, deparou-se com as várias endemias existentes no país, que o motivaram a criar o Serviço de
Estudos de Grandes Endemias (SEGE), no âmbito do Instituto Oswaldo Cruz, em 1937.

Sua ideia de expandir institucionalmente os estudos realizados no Hospital de Manguinhos já o havia levado a negociar com o governador do estado do Pará a criar no ano anterior o Instituto de Patologia Experimental do Norte (IPEN). O governador criou o instituto com a condição de ele se dedicar não somente ao calazar, mas também a outras doenças tropicais importantes daquela região, como a malária, a leishmaniose tegumentar, a amebíase, as parasitoses intestinais etc. Mas era natural que o calazar tivesse sido a primeira doença estudada pelo instituto. E foi com o calazar que o Evandro Chagas começou a trabalhar com a sua equipe, da qual faziam parte os irmãos Deane. A primeira viagem foi feita em dezembro de 1936. Leônidas Deane relata, em entrevista concedida à revista História, Ciência e Saúde – Manguinhos:

 “foi nosso primeiro contato com a selva (…), nós que nunca tínhamos saído de Belém, sempre citadinos. E tivemos uma experiência bem especial, porque todos os ruídos — ruídos dos sapos, dos grilos etc. — para nós eram como se fossem feras (…).”
“[Evandro] era um sujeito muito corajoso. Realmente ele dava o exemplo para tudo, porque era um homem muito arrojado, audacioso, inclusive. Fazia questão de mostrar que não tinha medo de coisa nenhuma. Como eu disse, ele ia para essas viagens de bermudas, botas e o chapéu colonial. E naturalmente os outros apetrechos, como a máquina fotográfica e o microscópio de campo, que ele usava a tiracolo também”(2).

Foi em Piratuba que encontraram os primeiros casos de calazar, vivos, da região amazônica. Examinavam as pessoas, pesquisando baço grande; se encontrasse faziam punção para procurar leishmânia. Evandro Chagas voltou a essa cidade várias vezes para dar continuidade à sua pesquisa de leishmânia e discutir e orientar a sua equipe do Pará.

 

 

A morte precoce e repentina de Evandro Chagas, em um acidente aéreo na Baía de Guanabara, aos trinta e cinco anos de idade, em 08 de novembro de 1940, interrompeu suas pesquisas em andamento e deixou sua equipe impactada. Para interromper um clima de instabilidade que se estabeleceu após a morte de Evandro Chagas, o então ministro da Educação e Saúde, Gustavo Capanema, nomeou Carlos Chagas Filho diretor do hospital e chefe do Serviço de Estudos de Grandes Endemias, que aí permaneceu por três anos. Apesar das dificuldades decorrentes da morte repentina de Evandro Chagas, o hospital permaneceu pelas mãos e esforços de seus pesquisadores, médicos e funcionários empenhados em realizar pesquisas clínicas a respeito de doenças infecciosas e parasitárias, em que se destacam a doença de Chagas, a leishmaniose, a malária, a toxoplasmose e a esquistossomose. Em 1942, em homenagem póstuma, o hospital foi nomeado Evandro Chagas, nome que carrega até hoje.

 

 

Ao longo de sua história, o Hospital de Manguinhos foi denominado Hospital de Doenças Tropicais, Hospital Oswaldo Cruz, Hospital Evandro Chagas, Centro de Pesquisa Clínica Hospital Evandro Chagas, Instituto de Pesquisa Clínica Evandro Chagas (IPEC) e, desde 2010, Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas.

Em sua história constam fases de decadência, principalmente, no período da Ditadura Militar, instaurada com o golpe de 1964 e que perdurou por vinte e um anos, e fase de ascensão, com o processo de redemocratização no país.

Nessa ocasião, surgiram os primeiros casos de aids no Brasil, doença infecciosa grave e, na época, fatal, com uma tendência de crescimento. A questão central na defesa da permanência do Hospital Evandro Chagas na Fiocruz foi exatamente a sua vocação no âmbito das doenças infecciosas. O contexto epidêmico da aids contribuiu para impulsionar a reestruturação do
hospital.

Esta teve entre seus princípios a pesquisa clínica ampliada, que não se restringe aos médicos infectologistas, mas se expande a outras especialidades para alargar e aprofundar o conhecimento sobre o doente e sobre a doença, como a enfermagem, serviço social, nutrição, farmácia e psicologia. De acordo com essa concepção, era importante compreender as relações de adoecimento do paciente e o contexto que ele traz para o hospital. A empreitada foi liderada pela Dra. Keyla Marzochi, uma das principais entusiastas da pesquisa clínica ampliada, que elaborou o projeto de reestruturação apresentado e aceito pela presidência da Fiocruz.

Denominado Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI) desde o VI Congresso Interno da Fiocruz, realizado em 2010, o INI hoje se caracteriza pela excelência na pesquisa clínica, na assistência, no ensino e na gestão voltados tanto para a saúde humana como para a saúde animal, a partir dos estudos de zoonoses, além de ser referência no campo das doenças infecciosas. A pesquisa clínica desenvolvida no INI, desde sua reestruturação, como diz sua atual diretora, Valdiléa Veloso, é uma construção coletiva que congrega vários saberes dos diferentes profissionais que trabalham na unidade, com inclusão dos usuários, visando à melhoria da saúde da população.

Ao completar os seus 100 anos, no ano de 2018, a luta pela saúde pública implica para o INI a prática da pesquisa clínica ampliada, a assistência − em especial aos grupos vulneráveis −, o ensino para formar e capacitar novos profissionais na área, uma gestão participativa e parcerias com movimentos sociais e instituições nacionais e internacionais nessas áreas de atividade, e, a partir disso, dá sua inestimável contribuição para o desenvolvimento do SUS – Sistema Único de Saúde.

 

(1) Manifesto Inaugural de Francisco de Paula Rodrigues Alves, presidente eleito para o quadriênio de1902 a 1906. 15 de novembro de 1902. Rio de Janeiro, 1902, p. 11.

(2) História, Ciência e Saúde – Manguinhos. Vol.1, nº1, jul/out., 1994. Seção Depoimento.

 

*Dilene Raimundo do Nascimento é pesquisadora do Departamento de Pesquisa da Casa de Oswaldo Cruz

 

Outros textos sobre o centenário do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas publicados na Brasiliana Fotográfica:

Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas: 100 anos de pesquisa clínica, por Cristiane d´Avila, em 26/10/2018

Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas 100 anos: Carlos e Evandro Chagas em retratos de família, por Aline Lopes de Lacerda, em 27/11/2018

Novos acervos: Museu Histórico Nacional

A Brasiliana Fotográfica apresenta a seus leitores seu nono parceiro, o Museu Histórico Nacional (MHN), com o artigo “Os salesianos, os Bororos e a banda de crianças indígenas que mudou a história”, da historiadora da instituição, Maria Isabel Ribeiro Lenzi, e com a disponibilização das imagens do álbum “Missão em Mato Grosso”que pertence à Coleção Miguel Calmon, ministro da Viação e Obras Públicas no governo do presidente Afonso Pena. Com a adesão desse importante museu, o portal segue cumprindo um de seus objetivos, o de abordar todos os usos e funções da fotografia brasileira. Seus outros parceiros são o Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, o Arquivo Nacional, a Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz, a Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, o Leibniz-Institut fuer Laenderkunde e o Museu da República, além do Instituto Moreira Salles e da Fundação Biblioteca Nacional, criadores da Brasiliana Fotográfica.

Os salesianos, os Bororos e a banda de crianças indígenas que mudou a história

Maria Isabel Ribeiro Lenzi*

 

O álbum “Missão em Mato Grosso”, de 1908, retrata os trabalhos dos salesianos e das irmãs de Nossa Senhora Auxiliadora com os índios Bororos. São 69 fotografias do início do século XX que documentam o trabalho de educação desenvolvido pelos missionários pelo qual ensinavam música, português, matemática, prática agrícola e ciências, além de promoverem a evangelização. Infelizmente, a autoria das fotografias é desconhecida.

Em missão de paz, os irmãos salesianos chegaram à terra dos Bororos, em Mato Grosso, em 1895. Anteriormente, já havia sido tentado contato com os índios, mas o conflito pela terra provocou muitas mortes, resultando na fuga dos índios, que não aceitavam se submeter, nem abandonar seus costumes. O bispo dom Luiz Lasagna foi o responsável pela implantação dos projetos salesianos em Mato Grosso, porém, com o seu falecimento, coube ao padre Antônio Malan dar continuidade às propostas de dom Luiz Lasagna. Padre Malan foi, então, o primeiro Inspetor da Missão Salesiana em Mato Grosso, tendo fundado colégios em Cuiabá e Corumbá, além das missões do Sagrado Coração do Rio Barreiro, da Imaculada no Rio das Garças e de São José no Sangradouro.

O método salesiano se distinguia das outras abordagens de contato por evitar uma postura de repressão, preferindo se basear na razão, na religião e na bondade. Foram criadas a Colônia Sagrado Coração, num local conhecido como Tachos, e a Colônia Imaculada Conceição, próxima ao Rio das Garças. O padre Antônio Malan, percebendo os aspectos de confluência da religiosidade bororo com o cristianismo, não menosprezou o papel que a cultura daqueles índios poderia exercer no processo de evangelização. A aptidão que demonstravam para a música foi canalizada para a formação de uma banda com os meninos bororos, que acabou tendo importância estratégica para a sobrevivência das sociedades indígenas no Brasil(1).

Acessando o link para as fotografias do álbum “Missão em Mato Grosso” do acervo do Museu Histórico Nacional disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Naquele momento, em 1908, cedendo à pressão social, o presidente Afonso Pena estava prestes a assinar um decreto que avalizava o extermínio dos povos indígenas (2). O padre Antônio Malan encontrou uma maneira inédita de mudar a opinião brasileira a respeito dos índios, valendo-se da vocação musical dos Bororos. Ele levou vinte e um Bororos integrantes da banda de música para tocar no Rio de Janeiro, no Pavilhão de São Paulo no âmbito da Exposição Nacional de 1908, que comemorava o centenário da Abertura dos Portos. A banda tocou ainda no Teatro João Caetano, na Câmara dos Deputados, no Senado e, diante do presidente Afonso Pena, no Palácio do Catete, então sede da Presidência da República. Na ocasião, eles interpretaram com primor temas clássicos, inclusive o Hino Nacional. Os jornais de então exaltaram o talento artístico dos Bororos e também abriram suas páginas para o discurso do padre Malan, pedindo a restituição aos índios “de uma pátria que lhes foi roubada em nome de uma falsa civilização conquistadora, liberticida. Pátria, senhores, de que são eles os verdadeiros donos, e que saberão amar, defender e ilustrar, se isso os ensinarmos com nosso esforço e nosso exemplo” (3).

 

 

O presente álbum pertence à Coleção Miguel Calmon, que foi ministro da Viação e Obras Públicas no governo Afonso Pena. De acordo com o jornal O Paiz, o padre Malan projetou fotografias (provavelmente deste álbum) em palestra que proferiu no Museu Comercial (4).

Ainda segundo O Paiz, no dia 10 de outubro de 1908, o padre Malan foi despedir-se do Ministro da Viação (5). Acreditamos que o álbum tenha sido oferecido a Miguel Calmon nesta ocasião, para demonstrar às autoridades os trabalhos que estavam sendo desenvolvidos entre os Bororos, e, sobretudo, comprovar a humanidade dos mesmos. Segundo Nelson Gil Tolentino, “a ação corajosa do padre Malan no Rio de Janeiro foi determinante para a sobrevivência dos índios. Depois disso, o debate sobre o extermínio dos índios, em nível nacional e internacional, foi perdendo a força, e seu respectivo decreto nunca foi promulgado”(6).

 

(1 )TOLENTINO, Nelson Gil.

(2)Idem

(3) NOVAES, Sylvia Caiuby. Jogos de Espelhos. São Paulo: Edusp, 1993. p.171

(4 ) Museu Comercial era uma entidade ligada à propaganda dos produtos, incentivando o comércio entrepaíses. No Brasil, foi criado em 1905 e encampado pelo Departamento Nacional de Comércio em 1931.

(5) O PAIZ. Rio de Janeiro, p. 02, 10/10/1908. Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=178691_03&pasta=ano%20190&pesq=padre%20m
alan. Acesso em 28/09/2017

(6 ) TOLENTINO, Nelson Gil.

 

*Maria Isabel Ribeiro Lenzi é Doutora em História pela UFF e historiadora do Arquivo Histórico do Museu Histórico Nacional (IBRAM/MinC)

 

BIBLIOGRAFIA:

CAVALHEIRO, Elisangela. Exposição conta a história dos Salesianos de Dom Bosco em estados do Centro-Oeste. In Redação A12.

NOVAES, Sylvia Caiuby. Jogos de Espelhos. São Paulo: Edusp, 1993, p. 171

TOLENTINO, Nelson Gil. Ética Bororo: a sobrevivência de um povo. In: Interações, vol. 10, no 2. Campo Grande, jul/dez. 2009.

 

Notícias sobre a participação da banda dos bororos na Exposição Nacional de 1908

 em comemoração ao centenário da Abertura dos Portos às Nações Amigas 

Em 11 de agosto de 1908, foi inaugurada a Exposição Nacional de 1908, na região da Urca, no Rio de Janeiro, em comemoração ao centenário da Abertura dos Portos às Nações Amigas, decretada em 28 de janeiro de 1808, pelo então príncipe regente de Portugal, dom João de Bragança, futuro dom João VI (1767 – 1926)(O Paiz, 11 de agosto de 1908). A exposição exibiu um “inventário” do Brasil através de seus produtos industriais, agrícolas, pastoris e artísticos. Promovida pelo governo federal, apresentou a cidade do Rio de Janeiro, recém urbanizada e saneada pelo então prefeito Francisco Pereira Passos (1936 – 1913) e  pelo cientista Oswaldo Cruz (1872 – 1917), respectivamente. O evento foi encerrado em 15 de novembro de 1908 (O Paiz, 16 de novembro de 1908, sexta coluna).

Iminente embarque do padre Toledo, inspetor das missões salesianas em Mato Grosso, com a banda dos bororos para o Rio de Janeiro, onde a banda tocaria no Pavilhão de São Paulo da Exposição Nacional do Rio de Janeiro. O religioso pretendia apresentar o grupo ao presidente Afonso Pena (1847 – 1909). A banda havia estado em Corumbá, Assunção, Buenos Aires, cidades do sul do Brasil, Santos, São Paulo e Lorena, dentre outras (O Paiz, 24 de setembro de 1908, quarta coluna).

Chegada da banda dos bororos ao Rio de Janeiro (O Paiz, 27 de setembro de 1908, quinta coluna).

Apresentação da banda dos bororos no Palácio do Catete, onde foram recebidos pelo presidente da República, Afonso Pena (Gazeta de Notícias, 23, quarta coluna28 de setembro de 1908, quarta coluna e Matto-Grosso – Revista Mensal de Sciencias, Lettras, Artes e Variedades, outubro de 1908).

Com o padre Toledo, os índios bororos assistiram à inauguração do Pavilhão de São Paulo na Exposição Nacional (Diário de Notícias, 29 de setembro de 1908, segunda coluna). Também fizeram uma visita ao ministro da Viação, Miguel Calmon (O Paiz, 29 de setembro de 1908, última coluna).

A banda dos bororos se apresentou no Colégio São Vicente, em Petrópolis (O Paiz, 1º de outubro de 1908, última coluna).

Publicação do programa que a banda apresentaria na Exposição de 1908 (O Paiz, 3 de outubro de 1908, segunda coluna).

Publicação do programa da apresentação dos bororos no Teatro João Caetano (Jornal do Brasil, 4 de outubro de 1908, terceira coluna).

Anúncio da conferência sobre os bororos que o padre Malan faria no dia seguinte no salão da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro. Antes e depois da conferência, haveria apresentação da banda. A conferência seria ilustrada com projeções luminosas (O Paiz, 5 de outubro de 1908, segunda coluna).

Apresentação da banda dos bororos na Exposição de 1908 com a presença do ministro da Indústria, Miguel Calmon (O Paiz, 5 de outubro de 1908, quinta coluna).

 

Realização de uma festa em benefício dos bororos, no Teatro João Caetano. Foram identificados como recém nascidos na vida civilizada (O Paiz, 8 de outubro de 1908, penúltima coluna).

Notícia da realização da conferência sobre os bororos realizada pelo padre Malan no salão da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro (O Paiz, 8 de outubro de 1908, quinta coluna e Jornal do Brasil, 11 de outubro de 1908, segunda coluna).

Os bororos visitaram a Câmara dos Deputados e o Senado e a frente dos edifícios das duas instituições executou o Hino Nacional (O Paiz, 9 de outubro de 1908, segunda coluna).

Acompanhado por um bororo, o padre Malan foi despedir-se do ministro da Viação, Miguel Calmon. Acredita-se que nessa ocasião o padre teria presenteado o ministro com o álbum “Missão em Mato Grosso” (O Paiz, 10 de outubro de 1908, segunda coluna).

Publicação de uma fotografia da banda dos bororos no Colégio dos Salesianos de Niterói (Fon-Fon, 10 de outubro de 1908).

bandaniteroi

 

Publicação de diversas notícias relativas à temporada dos bororos no Rio de Janeiro (Matto-Grosso – Revista Mensal de Sciencias, Lettras, Artes e Variedades, dezembro de 1908).

 

Andrea Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fonte:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Uma homenagem aos 175 anos de Marc Ferrez (7 de dezembro de 1843 – 12 de janeiro de 1923)

A Brasiliana Fotográfica homenageia os 175 anos de nascimento do brilhante cronista visual Marc Ferrez (1843 – 1923), destacando as publicações do portal relativas ao fotógrafo e disponibilizando um artigo sobre ele de autoria de Sérgio Burgi, Coordenador de Fotografia do Instituto Moreira Salles, uma das instituições fundadoras do portal. A vasta e abrangente obra iconográfica de Ferrez se equipara a dos maiores nomes da fotografia do mundo. Foi o principal fotógrafo das paisagens e dos costumes cariocas da segunda metade do século XIX e do início do século XX.  Outro segmento de sua obra iconográfica registrou as várias regiões do Brasil – ele foi o único fotógrafo do século XIX que percorreu todas as regiões do país, tendo sido, no referido século, o principal responsável pela divulgação da imagem do país no exterior. Em meados dos anos 1870, integrou a Comissão Geológica do Império. Era Fotógrafo da Marinha Imperial. Faleceu em 12 de janeiro de 1923.

 

 

 

Acessando o link para as fotografias de Marc Ferrez disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

MARC FERREZ

Sergio Burgi*

 

Mais conhecido por suas imagens icônicas da cidade do Rio de Janeiro e de seu exuberante entorno, Marc Ferrez foi também o primeiro fotógrafo a percorrer extensivamente o território brasileiro, primeiramente como fotógrafo da Comissão Geológica do Império do Brasil (1875-1878), e posteriormente, como fotógrafo da construção e modernização das principais ferrovias, registrando localidades e paisagens em diversos estados e regiões do país. Permanentemente associado ao campo das artes, da engenharia, da técnica e da ciência e em constante interação com os principais nomes de seu tempo nestas áreas, Marc Ferrez documentou grandes projetos de engenharia, de arquitetura e de urbanismo no Império e na República. Estes diversos trabalhos comissionados realizados ao longo de sua carreira o colocaram em associação direta com as principais inovações tecnológicas e científicas de seu tempo, tendo por conseguinte buscado também expandir as fronteiras de sua própria produção de imagem em fotografia, através, por exemplo, do desenvolvimento de câmeras especiais e do estudo e domínio de novos processos fotográficos.

A partir da sociedade formada com seus filhos, em 1907, Marc Ferrez investiu na expansão de suas atividades nas áreas de comercialização de equipamentos e produtos fotográficos e cinematográficos, na produção e comercialização de impressões fotomecânicas, na distribuição de novos produtos para o mercado amador, como os autocromos e estereoscopias, e, especialmente, na distribuição e exibição de filmes cinematográficos, sendo estes os principais campos que viriam a consolidar, a partir do início do século XX, a era da comunicação visual de massa baseada na circulação intensiva da imagem fotográfica e cinematográfica, profissional e amadora. Este processo foi somente possível pelos avanços tecnológicos originados na interseção da ciência com a técnica e pela intensa atividade de comercialização de processos e produtos, que no Brasil teve em Marc Ferrez seu principal ator e agente. A carreira fotográfica de Marc Ferrez percorre, assim, mais de cinco décadas de profundas transformações no campo da imagem, e, nesse sentido, sua trajetória e seu legado constituem, sem dúvida, uma plataforma única para a compreensão do país e de sua representação ao longo do século XIX e primeiras décadas do século XX.

Por esses motivos, que evidenciam a importância do legado de Marc Ferrez, o Instituto Moreira Salles, que tem sob sua guarda o acervo do fotógrafo, realizará ao longo dos próximos cinco anos um trabalho sistemático de documentação e pesquisa da obra completa de Marc Ferrez, buscando referenciar de maneira abrangente e exaustiva seu trabalho, reunido tanto no IMS como em outras instituições no país e no exterior.

 

*Sergio Burgi é Coordenador de Fotografia do Instituto Moreira Salles

 

Publicações da Brasiliana Fotográfica em torno da obra do fotógrafo Marc Ferrez 

 

O Rio de Janeiro de Marc Ferrez, publicada em 30 de junho de 2015

Obras para o abastecimento no Rio de Janeiro por Marc Ferrez , publicada em 25 de janeiro de 2016

O brilhante cronista visual Marc Ferrez (7/12/1843 – 12/01/1923), publicada em 7 de dezembro de 2016

Do natural ao construído: O Rio de Janeiro na fotografia de Marc Ferrez, de Sérgio Burgi, publicada em 19 de dezembro de 2016

No primeiro dia da primavera, as cores de Marc Ferrez (1843 – 1923), publicada em 22 de setembro de 2017

Marc Ferrez e a Exposição Antropológica Brasileira no Museu Nacional em 1882, publicada em 29 de junho de 2018

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas 100 anos: Carlos e Evandro Chagas em retratos de família

A Brasiliana Fotográfica publica o segundo artigo de uma trilogia em comemoração ao centenário do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, com um texto de autoria de Aline Lopes de Lacerda, chefe do Departamento de Arquivo e Documentação Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, instituição parceira do portal. No artigo, Aline conta a história do arquivo de Carlos Chagas, doado no início dos anos 90 à Casa de Oswaldo Cruz. A classificação atribuída a esse arquivo separou os documentos textuais por séries temáticas e as fotografias foram dispostas em dossiês temáticos num arranjo cronológico e transferidas para a Seção Iconográfica. As imagens que retratam Chagas no ambiente mais pessoal e familiar, quando posa com seus filhos e neta aparentemente no jardim de sua residência e que foram reunidas e classificadas junto à documentação textual no grupo intitulado ‘Vida Pessoal’ estão agora disponíveis no acervo fotográfico do portal.

INI 100 anos: Carlos e Evandro Chagas em retratos de família

Aline Lopes de Lacerda*

O centenário do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI), festejado em 2018, antecipa em um ano outra celebração e conjuga, simbolicamente, o brilhantismo de um pai e seu filho. O primeiro, Carlos Chagas, desvendou o ciclo completo da tripanossomíase americana, doença que levaria o seu nome (cuja descoberta completa 200 anos em 2019). Evandro Chagas, anos depois, pelo protagonismo em articular pesquisa clínica, entomológica, laboratorial e saúde pública, nomearia o Hospital Oswaldo Cruz, fundado em 1918. Uma longa história, acima de tudo afetiva, que se revela em documentos, como as fotografias depositadas no arquivo pessoal de Carlos Chagas.

Sob custódia da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), o arquivo de Carlos Chagas (1878-1934), pela importância histórica que lhe é devida, merece algumas considerações, principalmente no que concerne à produção e acumulação desse arquivo. De início, para que sejam conhecidos os caminhos que a documentação trilhou até o momento de organização e subsequente abertura pública à consulta, vale destacar que durante dois anos uma equipe do Departamento de Arquivo e Documentação da COC reuniu-se em torno dessa documentação para discutir seus contornos, identificar as temáticas nela representadas, entender seus contextos de produção e procurar identificar as conexões entre os distintos documentos e as funções exercidas pelo cientista ao longo de sua vida. Esse esforço culminou na elaboração do inventário do arquivo, instrumento de pesquisa que possibilita o acesso aos usuários em geral.

Acessando o link para as fotografias de família de Carlos e Evandro Chagas disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

O arquivo foi doado à COC, no início dos anos 90, por Carlos Chagas Filho (1910-2000), filho caçula do cientista que, desde a morte do pai e do irmão, Evandro Chagas (1905-1940), tornou-se o guardião da memória familiar, mantendo a documentação reunida e utilizando-se dela em projetos específicos. O conjunto, que continha documentos de Carlos Chagas e também de Evandro Chagas, foi objeto de uma primeira organização como arquivo familiar, por se entender, à época, que assim seriam conferidas a ênfase e a visibilidade que mereciam os documentos daqueles que, além de importantes personagens da história da ciência e da saúde pública, eram membros de uma mesma família.

A classificação atribuída então ao arquivo de Carlos Chagas separou os documentos textuais por séries temáticas. As fotografias foram dispostas em dossiês temáticos num arranjo cronológico e transferidas para a Seção Iconográfica, procedimento de organização amplamente utilizado por instituições que mantêm arquivos. Uma característica desse material diz respeito à esparsa presença de registros de caráter ‘pessoal’ da vida do cientista.

As imagens que representam essa temática perfazem um total de 41 documentos, sendo 13 retratos (portraits) de Chagas, de seus pais, filhos e esposa; 11 fotografias relativas a diversas caçadas com amigos, atividade que mantinha como hobby; e seis de encontros com a turma de formatura da Faculdade de Medicina, por ocasião de aniversários comemorativos à data. Algumas retratam Chagas no ambiente mais pessoal e familiar, quando posa com seus filhos e neta aparentemente no jardim de sua residência. Elas foram reunidas e classificadas junto à documentação textual, no grupo intitulado ‘Vida Pessoal’. Em homenagem aos 100 anos do INI publicamos estas fotografias na Brasiliana Fotográfica.

 

*Aline Lopes de Lacerda  é Chefe do Departamento de Arquivo e Documentação Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz

 

 

Outros textos sobre o centenário do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas publicados na Brasiliana Fotográfica:

Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas: 100 anos de pesquisa clínica, por Cristiane d´Avila, em 26/10/2018

Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas: centenário da construção da pesquisa clínica em Manguinho, por Dilene Raimundo do Nascimento, em 21/12/2018 

Registros raros da participação militar brasileira na I Guerra Mundial

Registros raros da participação militar brasileira na I Guerra Mundial

“Na Coleção Cristóvão Barcellos, do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República, é possível encontrar alguns raros registros fotográficos da participação militar brasileira na I Guerra Mundial. Cristóvão de Castro Barcellos (1883-1946) foi um militar do Exército brasileiro nascido em Campos, norte do estado do Rio de Janeiro. Quando 1º tenente, ele foi chamado a integrar a Comissão Brasileira de Estudos, Operação de Guerra e Compra de Material, criada em dezembro de 1917 e enviada à França em janeiro de 1918″. O cientista político Paulo Celso Corrêa, do Museu da República, uma das instituições parcerias do portal, é o autor do artigo que hoje a Brasiliana Fotográfica publica sobre “A participação militar brasileira na I Guerra Mundial – Comissão Brasileira de Estudos, Operação de Guerra e Compra de Material (1918)”.

A participação militar brasileira na I Guerra Mundial – Comissão Brasileira de Estudos, Operação de Guerra e Compra de Material (1918)

Paulo Celso Corrêa*

No dia 11 de novembro de 2018 se comemora o centenário da assinatura do armistício que deu fim à Primeira Guerra Mundial (1914-1918), com a rendição da Alemanha. Esse foi o primeiro conflito militar em escala global da história da humanidade, envolvendo países de todos os continentes.  Representou o desfecho dramático de um longo período de disputas por territórios, mercados e áreas de influência geopolítica, que dividia as principais potências capitalistas da época (Inglaterra, França, Alemanha e Estados Unidos) desde meados do século XIX. Os avanços tecnológicos da ciência e da indústria dos últimos séculos, que muitos acreditavam levar a humanidade ao progresso e à paz, foram aplicados em armamentos que elevaram a destruição material e as taxas de mortalidade civil e militar a níveis inéditos. Ao todo, estima-se que a guerra matou cerca de 20 milhões de pessoas, entre militares e civis.

Na Coleção Cristóvão Barcellos, do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República, é possível encontrar alguns raros registros fotográficos da participação militar brasileira na I Guerra Mundial. Cristóvão de Castro Barcellos (1883-1946) foi um militar do Exército brasileiro nascido em Campos, norte do estado do Rio de Janeiro. Quando 1º tenente, ele foi chamado a integrar a Comissão Brasileira de Estudos, Operação de Guerra e Compra de Material, criada em dezembro de 1917 e enviada à França em janeiro de 1918.

 

 

O compromisso de criá-la surgiu na reunião da Comissão Interaliada acontecida em Paris, entre 30 de novembro e 3 de dezembro de 1917, na qual o Brasil foi representado pelo seu ministro plenipotenciário (embaixador) na França, Olinto Magalhães. Desde 26 de outubro daquele ano, o Brasil estava em guerra contra a Alemanha, integrando assim o bloco dos países Aliados liderado pela França, Inglaterra e Estados Unidos. Além da Comissão de Estudos e Compras, na mesma reunião interaliada se decidiu que o Brasil enviaria uma missão médica militar para a França, um grupo de aviadores navais para treinamento na Europa e nos EUA  e uma divisão naval para o patrulhamento da costa atlântica da África.

 

Acessando o link para as fotografias relativas à participação do Brasil na I Guerra Mundial disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

A comissão de estudos e compras, conhecida como “Missão Aché” por causa de seu comandante, o general Napoleão Felipe Aché, tinha o objetivo de estudar a doutrina militar francesa e conhecer armamentos franceses que pudessem ser comprados para uso pelo exército brasileiro. Além de visitarem instalações militares, os 24 oficiais brasileiros que a compunham foram arregimentados na primeira linha do Exército francês, que lutava na frente ocidental da guerra (França e Bélgica). Cristóvão Barcellos, por exemplo, comandou um pelotão do 17º regimento de Dragões (infantaria a cavalo) do exército francês, participando da perseguição a tropas alemãs que se retiravam da Bélgica. Ele continuou na França após o fim da guerra, onde cursou a Escola Militar de Saint-Cyr até 1919, ano em que retornou ao Brasil.

 

 

A Missão Aché continuou suas atividades na França após o armistício. Outra função por ela desempenhada foi a de familiarizar os oficiais brasileiros com o exército francês, de modo que eles pudessem trabalhar com a Missão Francesa de treinamento contratada pelo governo brasileiro em 1919. Ficou definido pelo contrato que os franceses comandariam por quatro anos as escolas brasileiras de Estado-Maior, Aperfeiçoamento de Oficiais, Intendência e Veterinária e, em troca, o Brasil daria preferência à compra de armas e equipamentos bélicos franceses. Chefiados pelo marechal Maurice Gamelin, os primeiros oficiais instrutores franceses chegaram ao Brasil em 1919. O contrato da missão foi renovado sucessivas vezes até a extinção da missão militar em 1940, após a capitulação da França na Segunda Guerra Mundial.

 

 

 

*Paulo Celso Corrêa é cientista político do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República

 

Fontes:

ARAUJO, Rodrigo Nabuco de. Missão militar francesa; FAGUNDES, Luciana. Participação brasileira na Primeira Guerra Mundial; LEMOS, Renato. Cristóvão Barcellos. In: ABREU, Alzira Alves de (org.). Dicionário histórico-biográfico da Primeira República (1889-1930). Rio de Janeiro, Editora FGV, 2015.

DARÓZ, Carlos. O Brasil na Primeira Guerra Mundial: a longa travessia. São Paulo, Editora Contexto, 2017.

 

Notícias sobre a Missão Aché na década de 1910

Anúncio da criação de uma missão militar brasileira na Europa chefiada pelo general Napoleão Felipe Aché com o objetivo de colher “in loco” as lições novas que a presente guerra proporciona (O Jornal (MA), 23 de novembro de 1917, quarta coluna).

No anfiteatro da Sorbonne, realização de grande manifestação em honra do Brasil com a presença do general Aché e de membros da missão militar brasileira (O Paiz, 16 de março de 1918, terceira coluna).

O ministro do Brasil em Paris, Olinto de Magalhães (1866 – 1948), apresentou o general Aché a Stephen Pichon (1857 – 1933), ministro das Relações Exteriores da França (O Paiz, 9 de abril de 1918, quarta coluna).

Visita da Missão Aché a Verdun e encontro de Olinto Magalhães e do general Aché com Georges Clemenceau (1841 – 1929), presidente do Conselho da França (A Rua, 1º de maio de 1918, última coluna e O Paiz, 2 de maio de 1918, primeira coluna).

Olinto Magalhães apresentou o general Aché e o chefe da missão naval brasileira, o almirante Francisco de Mattos, ao presidente da França, Raymond Poincaré (1860 – 1934)(O Paiz, 21 de junho de 1918, segunda coluna).

Em 28 de julho, a missão brasileira foi recebida no front de guerra belga pelo general Gillain, chefe do Estado Maior (Fon Fon, 5 de outubro de 1918).

O ministro da Guerra do Brasil, o marechal Caetano de Faria (1855 – 1936) fez um elogio ao general Aché (A Noite, 26 de agosto de 1918, última coluna),

Incorporação de oficiais da Missão Aché a regimentos franceses e condecoração do general Aché com a medalha militar francesa (Correio da Manhã, 3 de setembro de 1918, primeira coluna; O Paiz, 3 de setembro, quarta coluna;  Jornal do Brasil, 5 de setembro de 1918, última coluna; e O Malho, 7 de setembro de 1918, última coluna).

Matéria sobre a participação do Brasil na guerra (O Paiz, 3 de setembro de 1918, última coluna).

Inserção na ata da Câmara de Deputados de uma nota de contentamento relativa à incorporação de oficiais da Missão Aché a regimentos franceses (Gazeta de Notícias, 5 de setembro de 1918, primeira coluna).

Falecimento de um membro da Missão Aché, o tenente Andrade Neves, vítima da gripe espanhola (Gazeta de Notícias, 11 de outubro de 1918, penúltima coluna,  A República, 21 de outubro de 1918, quarta coluna; e O Malho, 9 de novembro de 1918).

Em entrevista, o ministro da Guerra do Brasil, o marechal Caetano de Faria (1855 – 1936), mencionou as missões militares do Brasil na Europa (O Paiz, 11 de outubro de 1918, penúltima coluna).

Pronunciamento do deputado do Pará, Abel Chermont, na Câmara de Deputados, quando afirmou que oficiais brasileiros da Missão Aché estavam chefiando soldados e até mesmo oficias franceses (O Paiz, 13 de outubro de 1918, quarta coluna).

Participação da Missão Aché no front da guerra (A Noite, 15 de outubro de 1918, segunda coluna).

Entrevista com o general Aché (A Época, 30 de outubro de 1918).

Condecoração do 1º tenente José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, integrante da Missão Aché (Gazeta de Notícias, 5 de novembro de 1918, quarta coluna e O Paiz, 13 de novembro de 1918, penúltima coluna).

Citação de dois oficiais da Missão Aché, dentre eles Castro Barcellos, na ordem do dia (Gazeta de Notícias, 25 de novembro de 1918, quarta coluna).

Volta do aviador brasileiro Bento Ribeiro do front da guerra. Ele revelou que os oficias brasileiros da Missão Aché gozam de muitas simpatias na França (Jornal do Commercio (AM), 20 de dezembro de 1918, sexta coluna).

O general Aché visitou o hospital brasileiro em Paris (O Paiz, 27 de dezembro de 1918, segunda coluna).

Condecoração pelo governo francês do coronel Leite de Castro , membro da Missão Aché (A Época, 5 de janeiro de 1919, sétima coluna).

Nomeação do 1º tenente Ildebrando Escobar como membro da Missão Aché (Gazeta de Notícias, 14 de fevereiro de 1919, terceira coluna).

Sobre a participação do tenente Onofre Moniz Gomes de Almeida, professor da Escola de Aperfeiçoamento do Exército, na Missão Aché (O Imparcial, 22 de fevereiro de 1919, primeira coluna).

O ministro da Fazenda, João Ribeiro de Oliveira Souza (1863 – 1933), confirmou a isenção da cobrança de impostos sobre os vencimento dos membros da missão militar na Europa sob o comando do general Aché (O Paiz, 5 e 6 de março de 1919, última coluna).

O capitão Regueira, ex-membro da Missão Aché, foi destacado para acompanhar a visita do general francês Maurice Gamelin (1872 – 1958) ao Brasil (A Razão, 27 de março de 1919, segunda coluna).

Volta de Castro Barcellos ao Brasil, a bordo do paquete Gelria, do Lloyd Royal Hollandez (Pequeno Jornal, 2 de abril de 1919, última coluna).

Notícia do nascimento de um filho do 1° tenente Ildebrando Escobar, membro da Missão Aché (O Paiz, 25 de abril de 1919, quinta coluna).

Sobre a autorização para a participação do major João Clomenes de Siqueira, da Missão Aché, no Congresso da Cruz Vermelha,em Berna, na Suíça (A Noite, 28 de abril de 1919, última coluna).

Polêmica em torno de uma suposta compra de material de artilharia francesa envolvendo membros da Missão Aché( A Noite, 5 de maio de 1919, quarta colunaA Época, 6 de maio de 1919, sexta colunaGazeta de Notícias, 6 de maio de 1919, terceira colunaCorreio da Manhã, 6 de maio de 1919, quarta colunaCorreio Paulistano, 6 de maio de 1919, quarta colunaA Época, 6 de maio de 1919, penúltima coluna; e Jornal do Commercio, 6 de maio de 1919, segunda coluna)

O presidente do Tiro da Imprensa, Miguel Calmon, estava na Missão Aché, assim como seu instrutor, o Segundo Tenente Ildefonso Escobar (O Imparcial, 13 de maio de 1919, última coluna).

Apresentação dos membros da Missão Aché ao novo ministro do Brasil junto ao governo da França (Jornal do Commercio, 11 de junho de 1919, quarta coluna).

O general Aché foi condecorado comendador da Legião de Honra da França (O Paiz, 15 de junho de 1919, penúltima coluna).

Artigo sobre a Missão Aché (Jornal do Commercio, 5 de julho de 1919, terceira coluna).

Sobre o raid entre Rio e Lisboa projetado pelo tenente Alziro Lima, que havia sido membro da Missão Aché (A República, 9 de julho de 1919, primeira coluna; A Noite, 8 de julho de 1919, última colunaA Razão, 9 de julho de 1919, segunda coluna).

Sobre a Missão Médica e a Missão Aché (Correio Paulistano, 7 de setembro de 1919, última coluna).

O general Aché comunicou ao ministro da Guerra do Brasil, Alfredo Pinto Vieira de Melo (1863 – 1923), que o governo francês havia autorizado o envio de uma missão militar para a instrução do Exército brasileiro sob a chefia do general Gamelin (A Época, 11 de setembro de 1919, penúltima coluna).

Sobre a comissão que substituiria a Missão Aché na Europa (Gazeta de Notícias, 3 de outubro de 1919, primeira coluna).

Sobre o fornecimento de material bélico do governo francês ao Exército brasileiro (A Época, 11 de outubro de 1919, quarta coluna).

“O general Gamelin conferencia, em Paris, com o general Napoleão Aché” (O Paiz, 8 de novembro de 1919).

Dissolução da Missão Aché (O Pharol, 23 de novembro de 1919, última coluna).

Regresso ao Brasil e ida para outros países dos oficiais da Missão Aché (A Noite, 19 de dezembro de 1919, primeira coluna; e A Razão, 19 de janeiro de 1920, terceira coluna).

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fonte:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas: 100 anos de pesquisa clínica

A Brasiliana Fotográfica abre as comemorações do centenário do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, com um texto de autoria de Cristiane d’Avila, jornalista do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz, instituição parceira do portal. É o primeiro artigo de uma trilogia sobre o assunto que o portal publicará até dezembro de 2018. Há 100 anos, aliar pesquisa científica e assistência aos doentes acometidos por moléstias infecciosas, no Rio de Janeiro, era a preocupação dos médicos de Manguinhos. Liderados por Oswaldo Cruz aqueles profissionais lidavam com o desafio de combater surtos de peste bubônica, febre amarela e varíola, na capital do país e em diversas regiões do Brasil. O hospital recebeu o nome de seu idealizador, Oswaldo Cruz, e ficou pronto em 1918 no governo do presidente Hermes da Fonseca tornando-se o primeiro hospital de Pesquisa Clínica do Brasil, lócus de construção da pesquisa clínica e epidemiológica sobre doenças tropicais no Brasil. Em 1942 foi nomeado Hospital Evandro Chagas.

Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas: 100 anos de pesquisa clínica

Cristiane d’Avila*

“Do mesmo modo que uma catedral não basta para que haja uma religião (…), e do mesmo modo que uma escola não é simplesmente o edifício que a aloja, o Hospital de Manguinhos, a que mais tarde foi dado o nome de Hospital Evandro Chagas, tem uma história que não é apenas a da casa que por tanto tempo o abrigou (…)”. A citação de Olympio da Fonseca Filho, pesquisador da Fiocruz, no livro A Escola da Manguinhos (1974), é reveladora da motivação que impulsionou a construção do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI), cujo centenário é celebrado em 2018 com uma série de eventos programados para o mês de novembro.

Há 100 anos, aliar pesquisa científica e assistência aos doentes acometidos por moléstias infecciosas, no Rio de Janeiro, era a preocupação dos médicos de Manguinhos. Liderados por Oswaldo Cruz, nomeado Diretor do Instituto Soroterápico Federal (atual Fiocruz), em 1902, e Diretor da Saúde Pública, em 1903, acumulando as duas funções, aqueles profissionais lidavam com o desafio de combater surtos de peste bubônica, febre amarela e varíola, na capital do país e em diversas regiões do Brasil. Trabalho de campo, observação de doentes, identificação de insetos vetores e pesquisas laboratoriais demandavam um ambiente que facilitasse a observação clínica. Sem hospital próprio em Manguinhos, os médicos acorriam às dependências do Hospital São Sebastião e da Santa Casa de Misericórdia, no Rio, para o isolamento e cuidado dos pacientes. Oswaldo Cruz ainda requereu dois prédios no Engenho de Dentro e outro em Niterói – o antigo Hospital Marítimo de Santa Isabel, para atender os infectados, durante a epidemia de varíola em 1908.

Acessando o link para as fotografias da construção do Instituto de Pesquisa Clínica Evandro Chagas disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

O segredo das causas, sintomas e tratamento das principais doenças endêmicas e epidêmicas estava tanto no estudo da interação do homem com o ambiente em que vivia, quanto no estudo sistemático dos indivíduos, isoladamente. Mas a necessidade de um ambiente que facilitasse a observação clínica para o melhor entendimento da história natural das inúmeras doenças endêmicas e epidêmicas, e para seu tratamento foi, certamente, o fator que deflagraria a construção de um hospital vinculado ao Instituto Soroterápico. O hospital foi projetado antes mesmo do castelo-sede de Manguinhos…” (COTRIM, 2009, p.7)

 

 

Luiz Moraes Júnior, o arquiteto português responsável pelos projetos do núcleo arquitetônico histórico de Manguinhos (pavilhões da Peste, Cavalariça e Mourisco; Pombal, Quinino, Aquário de Água Salgada e Hospital Oswaldo Cruz)(1) elaborou as primeiras plantas de um hospital de isolamento para o Instituto, em 1904, um ano antes do início das obras do Pavilhão Mourisco (Castelo). Esse pavilhão fazia parte de um complexo hospitalar projetado inicialmente para funcionar com seis unidades, mas apenas uma foi construída, em função da falta de verbas. O hospital ficou pronto em 1918 no governo do presidente Hermes da Fonseca. Em decorrência da morte de Oswaldo Cruz, em 1917, recebeu o nome do seu idealizador. Somente em 1942, após a morte de Evandro Chagas em um acidente aéreo, em 1940, viria a ser nomeado Hospital Evandro Chagas, tornando-se o primeiro hospital de Pesquisa Clínica do Brasil, lócus de construção da pesquisa clínica e epidemiológica sobre doenças tropicais no país.

 

 

 

Evandro Chagas (1905 – 1940)

Filho mais velho de Íris Logo e Carlos Chagas, nasceu em 10 de agosto de 1905. Formado na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1926, assumiu no mesmo ano a chefia do Serviço de Radiologia e Eletrocardiografia – para o estabelecimento das alterações características da forma cardíaca da Doença de Chagas – e de uma enfermaria do Hospital Oswaldo Cruz. Realizou importantes trabalhos sobre a leishmaniose visceral americana e descobriu os primeiros casos humanos da doença. Organizou no Hospital Oswaldo Cruz o Serviço de Estudo das Grandes Endemias (SEGE), a fim de promover investigação médico-sanitária em diversos estados brasileiros. Em 1940, aos 35 anos, dos quais 14 dedicados ao Hospital Oswaldo Cruz – desde seu ingresso ainda como aluno de medicina – Evandro Chagas faleceu em um acidente em um hidroavião, na Marina da Glória. Em 1942, o hospital foi rebatizado com seu nome.

 

*Cristiane d’Avila é jornalista do Departamento de Arquivo e Documentação DAD/Casa de Oswaldo Cruz

 

Fontes:

GUIMARÃES, Maria Regina Cotrim. Hospital de Manguinhos: 90 anos de pesquisa clínica. Rio de Janeiro: Fiocruz; IPEC, 2009.
IGLESIAS, Fabio; SANTOS, Paulo Roberto Elian; MARTINS, Ruth B. (Org.). Vida, Engenho e Arte. 1ed. Rio de Janeiro: Casa de Oswaldo Cruz, 2014.

 

(1) Para saber mais sobre o complexo arquitetônico de Manguinhos, acesse os artigos publicando anteriormente pela Brasiliana Fotográfica:

100 anos do Castelo da Fiocruz: a ocupação da Fazenda de Manguinhos, por Cristiane d’Avila, 28 de fevereiro de 2018

100 anos do Castelo da Fiocruz: os pedreiros do Castelo da avenida Brasil, por Ricardo Augusto dos Santos, 12 de abril de 2018

100 anos do Castelo da Fiocruz: criador e criatura, por Ricardo Gama-Rosa Costa , 15 de maio de 2018

 

Notícias da inauguração do Hospital Oswaldo Cruz, atual Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas

1918

Foi publicado sobre o Hospital Oswaldo Cruz: “destinado ao estudo das doenças tropicais do Brasil, o novo hospital comportará de 30 a 40 doentes. A sua instalação é a mais moderna possível” (A Noite, 15 de agosto de 1918, quarta coluna).

Publicação de uma matéria sobre a importância da criação do Hospital Oswaldo Cruz (O Imparcial, 17 de agosto de 1918, primeira coluna).

Anúncio da inauguração do Hospital Oswaldo Cruz, na mesma época da realização do VII Congresso Brasileiro de Medicina e da II Conferência Sul-Americana de Higiene, Microbiologia e Patologia. Na matéria, anúncio de conferências dos médicos do Instituto Oswaldo Cruz, Carlos Chagas (1879 – 1934) e Adolfo Lutz (1855 – 1940) (Jornal do Brasil, 5 de outubro de 1918, sexta coluna).

O prefeito do Rio de Janeiro, Amaro Cavalcanti (1849 – 1922), e o presidente da República, Hermes da Fonseca (1855 – 1923), foram convidados pelos médicos Carlos Chagas e Miguel Couto (1865 – 1934) para a inauguração do Hospital Oswaldo Cruz (Jornal do Brasil, 9 de outubro de 1918, última coluna, e O Paiz, 9 de outubro de 1918, terceira coluna).

 1919

O recém empossado prefeito do Rio de Janeiro, Paulo de Frontin (1860 – 1933), visitou o Hospital de Manguinhos (Gazeta de Notícias, 28 de março de 1919).

 

frontin

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Outros textos sobre o centenário do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas publicados na Brasiliana Fotográfica:

Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas 100 anos: Carlos e Evandro Chagas em retratos de família, por Aline Lopes de Lacerda, em 27 de novembro de 2018

Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas: centenário da construção da pesquisa clínica em Manguinho, por Dilene Raimundo do Nascimento, em 21/12/2018 

De 453 anos de documentos a 125 anos de trajetória: as origens do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro

A Brasiliana Fotográfica festeja os 125 anos do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro – AGCRJ – com a publicação de um artigo de Beatriz Kushnir, diretora da instituição. Criado em 5 de agosto de 1893, o ACGRJ é um dos parceiros do portal. É o gestor da documentação produzida pelo poder público no decorrer do exercício de suas funções administrativas, custodiando os documentos necessários para subsidiar a Prefeitura. Além disso detém informações imprescindíveis para o cidadão e para o pesquisador respectivamente na busca de comprovação de direitos e na reconstrução do passado.

De 453 anos de documentos a 125 anos de trajetória: as origens do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro

Beatriz Kushnir*

A tradição lusa nos Arquivos brasileiros marca a pujança dos acervos que chegaram até nós. Aprendemos com os portugueses os trâmites burocráticos e a circularidade dos documentos, permitindo que recuperemos informações que possam ter se perdido aqui ou ali. Isto explica o porquê do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (AGCRJ) ser uma das instituições de arquivo que concentra uma das mais antigas coleções documentais do país, cuja origem é a da fundação da muy leal e heroica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, estabelecida em 1º de março de 1565, quando o governador e capitão-mor Estácio de Sá lançou o marco à entrada da baía de Guanabara, entre os morros Cara de Cão e Pão de Açúcar, no atual bairro da Urca.

Seguindo as determinações da legislação em vigor na Coroa, Estácio de Sá instituiu o Regimento e o Foral da municipalidade, que regulamentaram os deveres, privilégios e direitos dos que aqui morariam. Ao estabelecer o governo local, produziu os primeiros documentos da cidade que, ao receber esse título, aferiu ao Rio uma autonomia administrativa e judiciária que uma simples vila não teria. Durante o período colonial, a ordenação jurídica portuguesa determinou que a Câmara Municipal exercesse as funções administrativas, políticas, legislativas, judiciais, fazendárias e policiais, já que não houve uma separação de poderes e atribuições. Segundo Boris Fausto, nos dois séculos iniciais da colonização, a Câmara Municipal tornou-se, na prática, a principal autoridade da Capitania, superpondo-se aos capitães-governadores e, em certos casos, exigindo da Coroa a sua substituição. Neste sentido, Fernanda Bicalho defende que o Conselho Municipal “gozou, durante todo o século XVII, de uma autonomia impensável para quem se detém no estudo de suas funções na centúria seguinte”[1].

 

 

Em conformidade com as Ordenações portuguesas, “(…) o primeiro escrivão da Câmara Municipal, Diogo de Oliveira, foi incumbido de registrar em livros próprios e de guardar em uma ‘arca grande e boa’ as cartas de doação de sesmarias concedidas por Estácio de Sá aos jesuítas, à municipalidade e aos primeiros povoadores; as cartas forais; os termos de provimento dos camaristas municipais; as provisões cíveis dos porteiros, pregoeiros, alcaides, carcereiros, tabeliães, escrivães, ouvidores, provedores da Fazenda e dos demais oficiais da municipalidade”. Esta arca grande e boa é a origem do Arquivo da Câmara Municipal, cujo acervo foi transferido a recém-instituída Prefeitura do Distrito Federal quando do decreto nº 44, de 05 de agosto de 1893, assinado pelo Prefeito Henrique Valadares (1893-1895). A instituição, denominada Archivo do Distrito Federal, passou por diversas configurações e status, completando este ano, 125 anos como um órgão da Prefeitura.

Da efeméride que se comemora, mapearam-se os seus diversos momentos. Desta forma, é significativo conhecer e reconhecer as vitórias e desafios desta empreitada. Desde 1882, quando foi construído o Paço Municipal, nas proximidades do Campo da Aclamação (atual Praça da República), o antigo Arquivo da Câmara funcionou em seu pavimento superior. Com o estabelecimento da República, o prédio passou a abrigar a nova administração e, oficialmente, a partir da promulgação da Lei Orgânica Municipal de 1892, a Prefeitura do Distrito Federal.

 

 

As suas atividades não passavam despercebidas e no jornal carioca A Notícia de 24 de julho de 1912, registrava-se que em 1910 o Archivo do Distrito Federal foi transferido para o andar térreo. De acordo com o informativo, na sala de expediente, localizada ao lado da portaria, realizava-se a coordenação, classificação e catalogação dos documentos. O espaço foi descrito como ornamentado com 14 plantas da cidade, além de móveis de época, que abrigam flâmulas de diferentes fases políticas do país, demarcando a mescla entre municipal e federal que a cidade e suas instituições tinham. Em sala anexa, funcionava o Archivo do Distrito Federal, com sua farta documentação administrativa e histórica, concernente a diferentes assuntos sobre a cidade. A nova instalação contava com três pavimentos divididos por estantes metálicas. 

“No primeiro pavimento – que é o térreo – há seis estantes, seccionadas por 12 corpos, contendo prateleiras sobre as quais assentam 1334 caixas portáteis. Cada caixa tem uma etiqueta indicando número de ordem e designação do departamento municipal ao qual se referem os documentos arquivados. Dois lances de escadas, ladeados por gradil de ferro com corrimões de metal dourado, dão acesso aos pavimentos superiores. (…) O segundo pavimento tem as mesmas estantes e corpos que o primeiro, mas suas prateleiras diferem das do andar térreo. Assentam ou encaixam as extremidades em dentes e podem ser graduadas conforme as dimensões dos livros (…). Todo pavimento que se assemelha a um passadiço dos novos transatlânticos é circundado por gradil de ferro encimado por uma balaustrada de metal dourado. O 3º e último é em tudo semelhante ao segundo. É o mais resguardado e o menos ventilado. Nos dois pavimentos superiores há lugar para serem arrumados cerca de 10.000 livros.(…).” 

No panorama de alterações da burocracia administrativa, o Archivo do Distrito Federal passou por diversos nomes, subordinações e endereços desde 1893, continuando a funcionar no prédio do Paço Municipal até a sua demolição para a abertura da Avenida Presidente Vargas, nos anos 1940. A partir de 1º de junho de 1944, foi transferido para o antigo Palácio das Festas, onde anteriormente era sediado o Departamento de Rendas Diversas, da Secretaria de Fazenda da Prefeitura, na Rua Santa Luzia, nº 11. No período que se seguiu, o Archivo do Distrito Federal passou por dificuldades expostas nos relatórios de vários de seus dirigentes. Mas vale pontuar, como as imagens demonstram, a preocupação com as instalações de áreas de tratamento documental e serviços executados no acervo, bem como as reuniões da Comissão de Logradouros, já em 1949, e que retornou ao AGCRJ em 2006, como uma câmara de assessoramento na indicação de nomes para as ruas da cidade.

 

 

 

Em 1960, com a transferência da Capital Federal para Brasília, o Rio tornou-se Estado da Guanabara. Da Rua Santa Luzia, em 1963 o Archivo do Distrito Federal foi transferido mais uma vez, ocupando o Palácio da Marquesa de Santos, na Avenida Pedro II, em São Cristóvão. Dali, o acervo foi novamente deslocado para o número 400 do mesmo logradouro, ocupando o segundo andar da oficina de conserto de móveis escolares, da Secretaria de Educação e Cultura.

A professora Terezinha Saraiva, Secretária de Educação e Cultura do Estado da Guanabara, no governo Carlos Lacerda (1960-5), e a primeira Secretária Municipal de Educação e Cultura da Cidade do Rio de Janeiro, após a fusão, no governo Marcos Tamoyo (1975-9), lembrou em depoimento a mim e a Sandra Horta que lutou pelo Arquivo da Cidade, porque tinha uma dívida que não conseguiu cumprir como secretária de Carlos Lacerda. O governador, na área da cultura a incumbiu de três tarefas: recuperar o Teatro João Caetano, que estava abandonado; criar um Museu do Primeiro Reinado, na Casa da Marquesa de Santos, então abandonada; e acomodar o Arquivo da Cidade do Rio de Janeiro.

“Quando cheguei à Secretaria de Educação e Cultura do Município do Rio tinha uma preocupação que não consegui resolver: o Arquivo”. Então, “em 1975, assumo a Secretaria e digo assim: ‘Onde está o Arquivo da Cidade?’. Estava no mesmo lugar. Fui lá, na mesma hora. (…) [E dali], fui direto falar com o Tamoyo, que estava no Palácio da Cidade. Falei: ‘Tamoyo, nós temos que assumir hoje um compromisso com a cidade do Rio de Janeiro’. Contei essa história toda de 1965 e ele falou: ‘Vamos cumprir isso!’. Então, a primeira coisa a se fazer é arranjar um terreno, que seja um lugar acessível” (KUSHNIR e HORTA, 2011).

O AGCRJ formalmente instalado, mesmo com o prédio não finalizado, à Rua Amoroso Lima, nº 15, foi inaugurado no último dia da gestão de Tamoyo, em 14 de março de 1979. O edifício, de instalações adequadas ao seu uso, foi então o primeiro prédio construído para abrigar um arquivo na América Latina. A então Diretora, Lia Malcher, lembrou que a importância da instituição “está em você resguardar esta documentação histórica, preservar a documentação e a colocá-la disponível para o pesquisador de caráter científico e cultural ou para o cidadão que aqui vem procurar a comprovação de seus direitos” (KUSHNIR e HORTA, 2011).

 

 

Em momentos como esse, onde a partir da efeméride dos 125 anos, repensamos a instituição, vale sublinhar que importantes nomes da Arquivologia e da pesquisa Histórica trabalharam no e pelo AGCRJ, como seus diretores-gerais ou dirigentes de áreas específicas, como: Pires de Almeida, Noronha Santos, Restier Gonçalves, Helena Corrêa Machado, Werneck da Silva, Afonso Carlos Marques dos Santos, Paulo Elian, José Maria Jardim, e tantos outros.

Acessando o link para as fotografias de sedes e do interior do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Marcos de um arrojo administrativo, a Prefeitura do Rio em 2003 regulamentou por decreto a Lei 3.404, de 2002, e desponta como uma das primeiras cidades a adequar a Lei de Arquivos, de 1991, a sua realidade. Passados quase 40 anos do AGCRJ instalado em sua sede-própria e com as demandas resolvidas quanto a este lugar, o AGCRJ tornou-se um órgão da Secretaria Municipal da Casa Civil desde 2013. Seguiu, assim, uma tendência das instituições brasileiras que neste patamar da administração pública reforçam a missão das instituições de arquivo como, primeiramente, para atender à Governança por meio da Gestão de Documentos. E findo o trâmite e o processo administrativo, para embasar a produção de conhecimento, atendendo, portanto, ao campo do Legado, ofício dos Arquivos Públicos no mundo contemporâneo.

[1] HORTA, Sandra apud BICALHO, Maria Fernanda. As Câmaras Municipais no Império Português: O Exemplo do Rio de Janeiro. Rev. bras. Hist. vol. 18 n. 36 São Paulo, 1998.

 

 

* Beatriz Kushnir é a Diretora-Geral do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro.

 

Acessando o link para as fotografias do acervo do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Fontes: 

Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro:

AGCRJ. Administração pública municipal: a estrutura e os titulares: da Comissão de Intendência à Prefeitura do Rio (1889-2012).Rio de Janeiro: Prefeitura do Rio/Casa Civil/ Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, 2014.

FERNANDES, Maria Celia. Arquivo da Cidade do Rio de Janeiro: a travessia da “arca grande e boa” na história carioca. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura: Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, 2011.

HORTA, Sandra. “A tradição das Câmaras Municipais no império português: o exemplo da atuação na vida pública da cidade do Rio de Janeiro”. In: História do Rio de Janeiro – pelos 450 Anos de Fundação da Cidade, IHGB, 2015.

KUSHNIR, Beatriz e HORTA, Sandra (org.). Memórias do Rio: o Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro em sua trajetória republicana – Faperj. Rio de Janeiro: Imago, 2011.

Hemeroteca Digital:

A Notícia, 24 de julho de 1912

Correio da Manhã, 20 de maio de 1967

Diário de Pernambuco, 29 de maio de 1971

Jornal dos Sports, 8 de março de 1981

O Fluminense, 11 de março de 1976

______________________________________________________________________________________________________________________________________

 

Outras publicações do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro na Brasiliana Fotográfica

De Largo do Matadouro à Praça da Bandeira – Luiza Ferreira, 13 /07 2018.

A via elevada da Perimetral – Beatriz Kushnir, 23/06/2017.

Novos acervos: Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro – Esforços de resgate: a recuperação da informação de parte das fotografias furtadas do arquivo Malta – Beatriz Kushnir, 11/04/2016.