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Fotografia e ciência: eclipse solar, Marc Ferrez e Albert Einstein

Inspirada pela realização da exposição Marc Ferrez: Território e imagem, inaugurada em 26 de março de 2019, no Instituto Moreira Salles de São Paulo, e pela comemoração do centenário do eclipse solar observado na cidade de Sobral, no Ceará, em 29 de maio de 1919, a Brasiliana Fotográfica publica hoje o artigo Fotografia e ciência: eclipse solar, Marc Ferrez e Albert EinsteinFerrez (1843 – 1923) se relacionou com diversos cientistas e pesquisadores no Brasil do século XIX e do início do século XX, dentre eles o geólogo norte-americano Charles Frederick Hartt (1840 – 1878), que chefiou a Comissão Geológica do Império (1875 – 1878), da qual fez parte; o médico Camillo Fonseca (18? – 1923), em cujo consultório foram realizadas experiências radiográficas nas gêmeas siamesas Rosalina e Maria Pinheiro, nascidas em 1893, no Espírito Santo; e os diretores do Observatório Nacional no Rio de Janeiro, o astrônomo belga Louis Ferdinand Cruls (1848 – 1908), que ocupou o cargo entre 1891 e 1908; e o engenheiro e astrônomo francês naturalizado brasileiro Henrique Morize (1860 – 1930), que sucedeu Cruls e permaneceu na direção da instituição até 1930.

 

Henrique Morize / Acervo Arquivo Nacional

 

 

O eclipse solar observado em Passa Quatro, Minas Gerais, em 1912

 

 

Com seu amigo e então diretor do Observatório Nacional, Henrique Morize (1860 – 1930), Ferrez esteve em Passa Quatro, em Minas Gerais, em 1912, como um dos integrantes da comitiva do presidente do Brasil, o marechal Hermes da Fonseca (1855 – 1923), que havia ido para a cidade mineira observar o eclipse solar ocorrido em 10 de outubro daquele ano. Também estiveram presentes ao evento o diretor do Jardim Botânico, Graciano dos Santos Neves (1868 – 1922), delegações estrangeiras de astrônomos do Observatório de Greenwich (Inglaterra), do Bureau de Longitudes (França), do Observatório Nacional do Chile, do Observatório Nacional de Córdoba (Argentina), do Observatório de La Plata (Argentina) e do então recém-criado Observatório Astronômico e Meteorológico de São Paulo. Compareceram também ao evento representantes da imprensa e outras autoridades (Gazeta de Notícias, 11 de outubro de 1912, na quinta coluna sob o título “Marechal Hermes e o eclipse“). O chefe da comissão inglesa era Arthur Stanley Eddington (1882 – 1944); o da francesa, Milan Stefanick (1880 – 1919); do Observatório de Córdoba, Carlos Dillon Perrine (1867 – 1951); da comissão chilena, Friedrich Wilhelm Ristenpart (1868-1913); do Observatório de La Plata, William Joseph Hussey (1862-1926); e, finalmente, do Observatório de São Paulo, José Nunes Belfort Mattos (1862- 1926). Um dos objetivos da expedição era confirmar a Teoria da Relatividade, do cientista alemão Albert Einstein (1879 – 1955).

A comissão brasileira foi chefiada por Henrique Morize e contava com os astrônomos Mario Rodrigues de Souza (1889-1973), Domingos Fernandes Costa (1882-1956), Alix Corrêa de Lemos (1877 – 1957) e Gualter Macedo Soares (1891 – 19?), com o voluntário Antônio Alves Ferreira da Silva (18? – 19?), com o fotógrafo Augusto Soucasaux (1871-1962) e com o médico Camillo Fonseca (18? – 1923)(1).

Não se sabe se Ferrez teve alguma função específica na comitiva do governo já que a fotografia do fenômeno ficou a cargo de profissionais do Observatório Nacional. Ele produziu fotografias estereoscópicas dos acampamentos na cidade, que estão sob a guarda do Instituto Moreira Salles e disponíveis no acervo da Brasiliana Fotográfica.

 

 

 

Acessando o link para as fotografias relativas ao eclipse solar observado em Passa Quatro (MG), em 10 de outubro de 1912, disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

O Dr. Morize dirige os trabalhos gerais e encarrega-se especialmente da grande Equatorial Fotográfica de Heyde e do fotoheliógrafo de Wilstein. São seus assistentes o Dr. Mario de Souza, do Observatório, que tem ao seu cargo o grande Colostato de Malhat e o Dr. Domingos Costa, também do Observatório, que já fez as determinações da hora exata e da latitude do lugar; o Dr. Costa trabalhará o fotoheliógrafo de Steinhel’.

Correio da Manhã, 10 de outubro de 1912, segunda coluna

 

Abaixo, duas fotografias, com a presença de Marc Ferrez, em Passa Quatro, publicadas no jornal A Época, 12 de outubro de 1912, sob o título “Ecos do eclipse”

 

 

 

Devido a chuvas fortes, o eclipse, ocorrido em 10 de outubro, não pode ser visualizado, causando frustração entre os cientistas e entre o público em geral: O eclipse…eclipsou-se (O Paiz, 11 de outubro de 1912 e Fon-Fon!, 19 de outubro de 1912).

 

 

 

O eclipse solar observado de Sobral, no Ceará, em 1919

 

O mundo moderno começou em 29 de maio de 1919, quando fotografias de um eclipse solar, tiradas na Ilha do Príncipe, na África Ocidental, e em Sobral, no Brasil, confirmaram a verdade da nova teoria do universo.”

Paul Johnson (1928 – ), historiador inglês, e autor do livro Modern Times: The World from the Twenties to the Nineties

 

Acessando o link para as fotografias relativas ao eclipse solar observado de Sobral (1919), no Ceará, disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas. 

 

 

Em 1919, Marc Ferrez morava na França e supõe-se que ele teria, por seu interesse no assunto e por sua proximidade com Henrique Morize (2), acompanhado à distância os trabalhos dos registros fotográficos do eclipse total do Sol, ocorrido em 29 de maio de 1919, realizados por astrônomos brasileiros do Observatório Nacional e também por cientistas de outros países, em Sobral, no Ceará. A equipe brasileira, liderada por Morize, era formada pelos astrônomos Domingos Fernandes da Costa (1882 – 1956), Allyrio Hugueney de Mattos (1889 – 1975) e Lélio Itapuambyra Gama (1892 – 1981), além do químico Theophilo Henry Lee (1873 – ?), do meteorologista Luís Rodrigues, do mecânico Arthur de Castro Almeida e do carpinteiro Primo Flores. Partiram do Rio de Janeiro no dia 25 de abril de 1919, a bordo do vapor João Alfredo (Jornal do Commercio, 23 de abril de 1919, última coluna).

 

 

 

 

A comitiva dos Estados Unidos, formada pelos pesquisadores Daniel Maynard Wise (1888 – ?) e Andrew Thomson (1893 – 1974), ambos integrantes do Departamento de Magnetismo Terrestre da Carnegie Institution, de Washington, interessados em estudar os efeitos do eclipse solar sobre o magnetismo terrestre, partiram de Nova York, em 25 de março de 1919, no vapor Hollandia, e aportaram no Recife, em 15 de abril. Chegaram a Fortaleza, a bordo do paquete Pará, em 20 de abril. Eles e a comissão completa do Observatório Nacional do Brasil chegaram em Camocim, no Ceará, em 7 de maio, a bordo do vapor Prudente de Morais. Seguiram para Sobral dois dias depois em um trem especial da Viação Cearense, tendo chegado à cidade às três horas da tarde do mesmo dia (Mensagem do Governador do Ceará à Assembleia (CE), 1919, e Pequeno Jornal , 23 de abril de 1919, segunda coluna).

 

 

 

Viabilizadas pelo astrônomo real sir Frank Watson Dyson (1868 – 1939), duas expedições britânicas foram organizadas para observar o eclipse. Arthur Stanley Eddington (1882 – 1944), que havia estado no Brasil durante o eclipse de 1912, seu assistente Edwin Cottingham (1869 – 1940), Andrew Crommelin (1865 – 1939) e Charles Davidson (1875 – 1970)(4), da Royal Astronomical Society, partiram da Inglaterra em 8 de março de 1919, e se separaram em Lisboa. Os dois primeiros seguiram para a Ilha de Príncipe, na África, da onde observariam o fenômeno. Crommelin e Davidson vieram para o Brasil e chegaram à Sobral, após uma passagem pela Amazônia (Jornal do Commercio (AM), 4 de abril de 1919, quarta coluna, e Jornal do Litoral, 1º de maio de 1919, quarta coluna), em 30 de abril, ficando hospedados, assim como os norte-americanos, na casa do deputado e coronel Vicente Saboya. Estavam com os britânicos algumas das placas fotográficas que testariam a Teoria da Relatividade do cientista alemão Albert Einstein (1879 – 1955).

 

 

 

 

 

 

O eclipse solar começou às 7h46min2s do dia 29 de maio de 1919, sua totalidade foi iniciada às 8h58min28s e finalizada 5 minutos e 13 segundos depois.

Tenho a honra de comunicar à Vossa Excelência que o eclipse foi observado em regulares condições por todas as comissões. Antes da hora prevista, o céu estava quase totalmente encoberto, chegando a chuviscar, mas abriu. Houve algumas nuvens transparentes sobrepostas ao disco. Entretanto, espero fotografias sairão boas, mas podrão ser reveladas somente amanhã, de madrugada, a fim de obter condições de temperatura mais favoráveis. Atenciosas saudações‘.

Telegrama de Henrique Morize ao ministro da Agricultura, Antônio de Pádua Sales (1860 – 1957)

(O Paiz, 31 de maio de 1919, penúltima coluna)

 

Morize regressou ao Rio de Janeiro, em 11 de julho de 1919, e deu uma entrevista para a Gazeta de Notícias, comentando as atividades das comissões brasileira, britânica e norte-americana (Gazeta de Notícias, 12 de julho de 1919).

Foram os resultados obtidos a partir das bem sucedidas fotografias feitas pelos astrônomos ingleses, em 29 de maio de 1919, que permitiram a comprovação da teoria de Einstein, inaugurando um novo momento na história da ciência.

Sobre a experiência:

Um século depois, pouquíssimos duvidam da relatividade geral. Mas, naquela época, o modelo einsteiniano do Universo ainda dava seus primeiro passos, encarado com bastante descrença pela comunidade científica por ainda não ter sido verificado. Publicada em 1916, a teoria havia levado oito anos para ficar pronta: foi o tempo que Einstein levou para generalizar os postulados da relatividade especial, de 1905, e incluir a gravidade na jogada.

De acordo com a teoria, o espaço e o tempo formam um único tecido, um contínuo maleável que é distorcido por corpos de muita massa como um buraco negro, um aglomerado de galáxias ou o Sol. Nem mesmo a luz escapa dessa distorção: quando os fótons atravessam regiões distorcidas do Universo, suas trajetórias também sofrem um desvio.

Os eclipses solares totais forneciam as condições perfeitas para testar se essa previsão de Einstein fazia, ou não, algum sentido. Com a Lua bloqueando temporariamente o brilho ofuscante do Sol, tornava-se possível enxergar (e fotografar) as estrelas posicionadas bem próximas a ele no céu. Por estarem praticamente encobertas pelo Sol quando vistas da Terra, isso significava que os raios dessas estrelas distantes necessariamente atravessaram o espaço-tempo distorcido pelo campo gravitacional solar. Esse desvio podia ser verificado.

O segredo era fotografar essas estrelas durante o eclipse e, um tempo depois, fotografá-las novamente quando estivessem na mesma região do céu, só que sem a interferência do Sol. Foi justamente o que a delegação britânica fez em Sobral. “Eles estavam procurando por variações comparáveis aos mais finos fios de cabelos humanos”, explica Dunn (5). Precisavam de estabilidade e rigor extremos nos instrumentos para produzir resultados confiáveis.

O segundo conjunto de fotos foi tirado em julho do mesmo ano, para serem comparadas aos registros de maio. Segundo a teoria de Einstein, a comparação deveria revelar uma diferença de 1,75 segundo de arco, enquanto a de Newton previa um número bem menor, de 0,86. Um segundo de arco equivale ao tamanho de uma estrela a olho nu. “Passaram os meses seguintes analisando aquelas placas e conseguiram centenas de páginas de cálculos baseados nas fotos”, diz Dunn. Então, em novembro, os olhos do mundo se voltaram para Londres, onde os cientistas anunciaram que Einstein estava certo.

Revista Galileu, 25 de outubro de 2018

Placas de vidro produzidas pelos brasileiros durante o eclipse de 1919 e disponíveis na internet

Diversas placas de vidro, que medem 24 centímetros (cm) por 18, e 9 cm por 12, foram produzidas pelos brasileiros a partir de câmaras acopladas aos telescópios. São cobertas por uma emulsão com sais de prata sensíveis à luz e, em 2015, foram encontradas por pesquisadores em caixas na biblioteca do Observatório Nacional. Foram restauradas, digitalizadas e estão disponíveis na internet. 

 

“Foi o luminoso céu do Brasil que se incumbiu de resolver o problema concebido pelo meu cérebro”

Frase dita pelo cientista alemão  Albert Einstein (1879 – 1955) e publicada no O Jornal, de propriedade de Assis Chateaubriand (1892 – 1968) e também na revista Fon-Fon quando, em passagem para a Argentina, visitou o Rio de Janeiro, em março de 1925.

 

 

 

 

 

 

 

 

(1) Em 1899, no consultório dos doutores Camilo Fonseca e Henrique Morize, foram realizadas experiências radiográficas nas gêmeas siamesas Rosalina e Maria Pinheiro, nascidas em 1893, no Espírito Santo.

(2) Em março de 1922, Morize, que havia viajado para a Europa em missão oficial do Observatório Nacional, fez uma visita a Ferrez, em Paris.

(3) Antônio Lima foi intérprete da comissão norte-americana e colocou os equipamentos para as investigações da eletricidade atmosférica na pista do Jockey Club próximo às instalações britânicas.

(4) Sobre a presença dos dois cientistas britânicos em Sobral, no O Jornal (MA), 25 de julho de 1919, foi publicado um curioso artigo copiado de um jornal cearense não identificado.
(5) O britânico Richard Dunn é pesquisador da Universidade de Leicester e curador das exposições de história da ciência do Observatório de Greenwich.
 

Publicações da Brasiliana Fotográfica em torno da obra do fotógrafo Marc Ferrez 

O Rio de Janeiro de Marc Ferrez, publicada em 30 de junho de 2015

Obras para o abastecimento no Rio de Janeiro por Marc Ferrez , publicada em 25 de janeiro de 2016

O brilhante cronista visual Marc Ferrez (7/12/1843 – 12/01/1923), publicada em 7 de dezembro de 2016

Do natural ao construído: O Rio de Janeiro na fotografia de Marc Ferrez, de Sérgio Burgi, publicada em 19 de dezembro de 2016

No primeiro dia da primavera, as cores de Marc Ferrez (1843 – 1923), publicada em 22 de setembro de 2017

Marc Ferrez , a Comissão Geológica do Império (1875 – 1878) e a Exposição Antropológica Brasileira no Museu Nacional (1882), publicada em 29 de junho de 2018

O quiosque Chopp Berrante no Passeio Público, Ferrez, Malta e Charles Dunlop, publicada em 20 de julho de 2018

Uma homenagem aos 175 anos de Marc Ferrez (7 de dezembro de 1843 – 12 de janeiro de 1923), publicada em 7 de dezembro de 2018 

Pereira Passos e Marc Ferrez: engenharia e fotografia para o desenvolvimento das ferrovias, publicado em 5 de abril de 2019

 

Link para o debate sobre Marc Ferrez e o eclipse de Sobral com a participação de Christina Helena Barboza, Rodrigo Nemmen e Rogério Rosenfeld, com mediação de Sérgio Burgi e Nathan Berkovits, realizado no IMS Paulista, em 25 de maio de 2019.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ARRUDA, Rogério Pereira de. Um álbum ilustrado para Minas Gerais no alvorecer da República. São Paulo : Anais do Museu Paulista. vol. 26 , 9 de agosto de 2018.

Blog do Instituto Moreira Salles

COLES, Peter. Einstein, Eddington and the 1919 Eclipse. In: Proceedings of International School on “The Historical Development of Modern Cosmology“, 2001.

CRISPINO, Luiz Carlos Bassalo; LIMA, Marcelo Costa de. Expedição norte-americana e iconografia inédita de Sobral em 1919. São Paulo : Revista Brasileira de Ensino de Física, vol 40, n° 1, edição 1601, 2018

CRISPINO, Luiz Carlos Bassalo; LIMA, Marcelo Costa de. A teoria da relatividade de Einstein apresentada para a Amazônia. São Paulo : Revista Brasileira de Ensino de Física, vol. 38, nº 4, 2016.

ELLIS, Richard; FERREIRA, Pedro G; MASSEY, Richard; WESZKALNYS,Gisa. 90 years on – the 1919 eclipse expedition at Prince. In: Astronomy & Geophysics, Vol 50, edição 4, agosto de 2009 https://www.fisica.net/relatividade/o-eclipse-de-1919.php

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Instituto do Ceará, 1919

NASCIMENTO, Márcio Luis Ferreira. Rondon, a Carta de Einstein e o Prêmio Nobel da Paz. Ciência e Sociedade, CBPF, v. 4, n. 1, 2016.

Observatório Nacional

O Estado de São Paulo, 25 de maio de 2019

OLIVEIRA, Raquel dos Santos. O eclipse de 1912 e a correspondência entre os astrônomos Morize e Perrine. Anpuh2010.

Revista Galileu

Revista Pesquisa – FAPESP, abril de 2019 – Quando a luz se curvou e À sombra dos britânicos

RODRIGUES, Teresinha. O Observatório Nacional no eclipse solar de 1919. In: ComCiência – Revista Eletrônica de Jornalismo Científico, 6 de maio de 2019.

Royal Society Publishing

The Guardian, 13 de maio de 2019

The Royal Astronomical Society of Canada

The Royal Observatory Greenwich

 

A descoberta da doença de Chagas

No último mês de maio, a Organização Mundial da Saúde instituiu o dia 14 de abril como Dia Internacional da Doença de Chagas. É a história de sua descoberta pelo médico e jovem pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz, Carlos Chagas, contada por Simone Petraglia Kropf, historiadora e pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, que o portal publica hoje. Segundo Simone: Carlos Chagas expressou de modo exemplar um projeto de ciência e de nação cujos princípios balizam até hoje a Fundação Oswaldo Cruz: a aliança entre excelência acadêmica e compromisso social.

A descoberta da doença de Chagas 

Simone Petraglia Kropf *

 

Em abril de 1909, os jornais da recém-reformada capital federal anunciavam com orgulho um “grande feito” da ciência brasileira: a descrição, por um mesmo pesquisador, de uma nova doença tropical, do parasito que a causava e do inseto que a transmitia. Na jovem república brasileira, a descoberta foi celebrada como emblema das contribuições inovadoras que o país era capaz de proporcionar à chamada “época de ouro” da medicina tropical européia, marcada por estudos que vinham mudando substancialmente a compreensão das doenças parasitárias transmitidas por vetores.

O autor da “tripla descoberta” era um médico e jovem pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), criado em 1900 como Instituto Soroterápico Federal para produzir soros e vacinas contra uma epidemia de peste bubônica que ameaçava atingir a cidade do Rio de Janeiro. Sob a liderança de Oswaldo Cruz (que havia se notabilizado por comandar as campanhas de saneamento da capital federal no governo de Rodrigues Alves), o também chamado Instituto de Manguinhos vinha ampliando suas atividades de modo a se tornar um centro de excelência na pesquisa e no ensino em microbiologia e medicina tropical.

Acessando o link para as fotografias relativas a Carlos Chagas e à doença de Chagas disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Carlos Chagas, formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1903, era um especialista em malária, tema de sua tese de doutoramento (para a conclusão do curso médico) que desenvolveu sob a orientação de Oswaldo Cruz em Manguinhos. O caminho que o levou à descoberta da doença que leva seu nome está diretamente ligado à sua trajetória como pesquisador no campo da medicina tropical. Em junho de 1907, ele foi designado por Oswaldo Cruz, diretor da saúde pública federal, para combater uma epidemia de malária que paralisava as obras de prolongamento da Estrada de Ferro Central do Brasil em Minas Gerais, na região do rio das Velhas, entre Corinto e Pirapora. Aquela era uma obra emblemática do projeto de modernização republicana. Enquanto coordenava a campanha de profilaxia na pequena cidade de Lassance, onde se construía uma estação da ferrovia, Chagas costumava coletar espécies da fauna brasileira, motivado por seu crescente interesse pela entomologia e pela protozoologia. Por intermédio do chefe da comissão de engenheiros, Cornélio Homem Cantarino Mota, tomou conhecimento de um percevejo hematófago muito comum na região, conhecido vulgarmente como barbeiro pelo hábito de picar o rosto de suas vítimas enquanto dormiam. Esses triatomíneos eram abundantes nas casas de pau-a-pique da região típicas da população pobre das áreas rurais.

 

 

Sabendo da importância dos insetos sugadores de sangue como transmissores de doenças parasitárias, Chagas examinou alguns barbeiros e encontrou neles um protozoário. Por não dispor em Lassance de condições experimentais para avançar neste estudo, enviou alguns insetos a Oswaldo Cruz, em Manguinhos. Depois de experiências com saguis criados em laboratório, Chagas concluiu que se tratava de uma nova espécie de tripanossoma, que batizou então de Trypanosoma cruzi, em homenagem ao mestre. As doenças causadas por tripanossomas (como a tripanossomíase africana ou doença do sono) eram temas de grande interesse na medicina tropical européia, impulsionada pelo empreendimento colonialista.

De volta a Lassance, Chagas realizou exames de sangue nos moradores e, no dia 14 de abril de 1909, encontrou o Trypanosoma cruzi no sangue de uma criança febril, chamada Berenice. Em nota enviada ao Brasil Médico, uma das principais revistas médicas do país, anunciou a descoberta, que seria também comunicada mediante publicações em revistas estrangeiras. A imprensa daria destaque ao episódio e o próprio Oswaldo Cruz apresentaria a descoberta na Academia Nacional de Medicina.

 

 

Os estudos sobre a nova doença ganharam centralidade na pauta de pesquisa do Instituto Oswaldo Cruz e mobilizaram vários cientistas, sob a condução de Chagas, que passou a assumir posições importantes na instituição, da qual viria a tornar-se diretor em 1917 por ocasião do falecimento de Oswaldo Cruz. Chagas se tornaria igualmente reconhecido pela comunidade científica internacional, recebendo inúmeros prêmios e sendo indicado ao Nobel de medicina em 1913 e 1921.

Além de sua importância para a agenda científica, a doença de Chagas tornou-se, desde o início, um tema de destaque nos debates políticos sobre os problemas e rumos da nação brasileira. Carlos Chagas afirmava que aquela era uma descoberta que descortinava não apenas uma nova enfermidade e um novo problema de saúde pública, mas um Brasil até então desconhecido e abandonado: o Brasil dos sertões. Segundo ele, o tão propalado “atraso” do país era consequência não do clima tropical ou da composição racial de sua população, como muitos defendiam, mas das doenças endêmicas que assolavam as populações rurais. Nesse sentido, a “nova doença” se fazia um emblema da capacidade da ciência de, ao identificar e estudar tais problemas, indicar os caminhos concretos para superá-los e promover o tão ansiado ingresso do país no “rol das nações civilizadas”.

Chagas se tornou uma liderança do movimento em prol do saneamento rural do Brasil, que, a partir de meados da década de 1910, reuniria médicos, cientistas, intelectuais e políticos em torno da reivindicação de que o Estado ampliasse sua capacidade de implementar políticas e serviços de saúde pública, tendo em vista sobretudo atender as populações das áreas rurais. Tal bandeira seria empunhada por Chagas tanto como diretor do Departamento Nacional de Saúde Pública quanto em sua atuação com professor da cadeira de medicina tropical, no âmbito da qual defendia com veemência a importância do estudo e do enfrentamento das endemias ruais, que chamava de as “doenças do Brasil”.

 

 

Como cientista, gestor e professor, Carlos Chagas expressou de modo exemplar um projeto de ciência e de nação cujos princípios balizam até hoje a Fundação Oswaldo Cruz: a aliança entre excelência acadêmica e compromisso social.

Em maio de 2019, a Organização Mundial da Saúde instituiu o dia 14 de abril como Dia Internacional da Doença de Chagas. Ao dar visibilidade e chamar a atenção para a importância das chamadas doenças negligenciadas (e, sobretudo, das pessoas por elas afetadas), esta é uma homenagem que nos leva a refletir sobre a atualização do legado deste cientista, expresso na própria Constituição Federal de 1988: “saúde como direito de todos e dever do Estado”. Ao celebrarmos os 110 anos da descoberta da doença de Chagas, a defesa veemente da ciência, da saúde pública, da educação e da democracia é o que deve nos unir em nome da memória e das lutas dos que construíram esta história.

 

Para saber mais:

 

BENCHIMOL, Jaime L. Manguinhos do sonho à vida: a ciência na Belle Époque. Rio de Janeiro: Casa de Oswaldo Cruz, 1990.

KROPF, Simone P. Carlos Chagas e as doenças do Brasil. In: HOCHMAN, Gilberto; LIMA, Nísia Trindade. Médicos intérpretes do Brasil. São Paulo: Hucitec, 2015, p. 194-222.

KROPF, Simone P. Doença de Chagas, doença do Brasil: ciência, saúde e nação (1909-1962). Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2009.

KROPF, Simone P.; LACERDA, Aline. Carlos Chagas, um cientista do Brasil. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2009 (edição bilíngue).

KROPF, Simone P. SÁ, Magali R. The discovery of Trypanosoma cruzi and Chagas disease (1908-1909): tropical medicine in Brazil. História, Ciências, Saúde-Manguinhos, v.16, suplemento, p.13 -34, 2009.

KROPF, Simone P. Carlos Chagas e os debates e controvérsias sobre a doença do Brasil (1909-1923). História, Ciências, Saúde-Manguinhos, v.16, suplemento 1, p.205-227, 2009.

 

*Simone Petraglia Kropf é historiadora e pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz e professora do Programa de Pós-graduação em História das Ciências e da Saúde da COC.

 

Breve cronologia de Carlos Chagas (1878 – 1934)

Andrea C. T. Wanderley

 

1878 - Nascimento de Carlos Justiniano Ribeiro Chagas, em 9 de julho, na Fazenda do Bom Retiro, a cerca de 20 quilômetros de Oliveira, cidade mineira. Era filho de José Justiniano Chagas e Mariana Candida Ribeiro de Castro.

1883 - Ficou órfão de pai.

1887 – Foi matriculado no Colégio São Luís, um dos mais importantes estabelecimentos de ensino do Brasil no século XIX, dirigido por jesuítas em Itu, interior de São Paulo.

1888 – Em maio, informado que escravos recém-libertados estariam depredando fazendas, Carlos Chagas fugiu do colégio e foi ao encontro de sua mãe. A indisciplina causou sua expulsão do São Luís. Foi então transferido para o Ginásio São Francisco, em São João del-Rei, Minas Gerais.

1895 / 1897 - Sua mãe decidiu que ele deveria estudar Engenharia e Chagas ingressou no curso preparatório da Escola de Minas de Ouro Preto. Foi reprovado e voltou para Oliveira. Com a ajuda de seu tio médico, o tio Calito, conseguiu convencer sua mãe, e mudou-se para o Rio de Janeiro para estudar Medicina.

1897 – Em 13 de abril, ingressou na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Dois professores foram muito importantes durante sua formação acadêmica: Miguel Couto (1865-1934), de quem se tornou amigo pessoal; e Francisco Fajardo (1864-1906), pioneiro da microbiologia no Brasil, em cujo laboratório, na Santa Casa de Misericórdia, Chagas iniciou-se nas pesquisas sobre a malária.

1901 – Íris Lobo (1882 – 1950), futura esposa de Carlos Chagas, foi uma das portadoras de listas para arrecadação de fundos para a celebração de uma missa – iniciativa dos alunos da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro –  em memória das vítimas de um episódio de violência policial na cidade durante manifestação popular contra o aumento de preço de passagens de bondes (Jornal do Brasil, 20 de junho de 1901, quinta coluna; e Jornal do Brasil, 21 de junho de 1901, primeira coluna).

Chagas foi um dos estudantes de Medicina que se envolveu na campanha de obtenção de recursos para a construção de uma estátua em homenagem ao recém-falecido médico baiano Francisco de Castro (1857 – 1901) (O Paiz, 22 de outubro, quarta coluna).

1902 – Para elaborar sua tese de doutoramento, indispensável para a conclusão do curso médico, passou a frequentar a Instituto Soroterápico Federal – também conhecido como Instituto de Manguinhos -, sob a orientação de seu diretor, o médico Oswaldo Cruz (1872 – 1917).

Como presidente do Grêmio dos Internos dos Hospitais do Rio de Janeiro fez a apresentação da primeira revista da associação (Brazil-Medico, 1º de agosto de 1902O Paiz, 12 de setembro de 1902, penúltima coluna).

Com frases entusiásticas, Carlos Chagas fez uma apologia aos méritos do professor e médico alemão Rudolf Virchow (1821 -1902), recém-falecido, durante uma sessão solene promovida pelo Grêmio dos Internos dos Hospitais do Rio de Janeiro, na biblioteca do Hospital de Misericórdia (Brazil-Medico, 1º de setembro de 1902).

Era um dos doutorandos de 1902 da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Uma curiosidade: havia apenas uma mulher entre os doutorandos, Evarista de Sá Peixoto (O Malho, 10 de janeiro de 1903).

1903 - Defendeu, em 12 de maio, a tese Estudos hematológicos no impaludismo. Foi aprovado e, dois dias depois, colou grau de doutor em Medicina na Faculdade do Rio de Janeiro.

Oswaldo Cruz o convidou para trabalhar em Manguinhos, mas por sentir-se atraído pela prática da clínica médica, Chagas recusou o convite.

1904 - Em crítica publicada sobre a tese Estudos hematológicos no impaludismo, considerada brilhante, Chagas foi referido como um cientista a que o futuro não negará as glórias a que vem fazendo direito (Brazil-Medico, 1º de janeiro de 1904).

Em março, foi nomeado médico da Diretoria Geral de Saúde Pública e foi trabalhar no Hospital de Jurujuba, em Niterói (RJ), onde pacientes com suspeita de peste bubônica que chegavam em navios eram colocados em quarentena e sob cuidados médicos (Almanak Laemmert, 1905).

Trabalhava no Instituto Soroterápico Federal com Antônio Cardoso Fontes (1879 – 1943), Ezequiel Dias (1880 – 1922), Henrique de Figueiredo Vasconcellos (1873 – 1948) e Henrique da Rocha Lima (1879 – 1956) (Almanak Laemmert, 1905).

Seu nome constava na lista de médicos do Hospital São Sebastião, dirigido por Carlos Pinto Seidl e localizado na Praia do Retiro Saudoso, nº 27, Ponta do Caju (Almanak Lammert de 1905).

Instalação de seu consultório particular na rua da Assembléia, no centro do Rio de Janeiro.

Casou-se com Íris Lobo (1882 – 1950 ), filha do senador mineiro e presidente do Banco de Crédito Real de Minas, Fernando Lobo Leite Pereira (1851-1918), que conheceu por intermédio de seu antigo professor e amigo Miguel Couto que, assim como seu grande amigo, o médico Luiz Almada Horta, foi seu padrinho de casamento (O Pharol, 23 de julho de 1904, quarta coluna).

1905 - Em 10 de agosto, nascimento do primeiro filho de Chagas e Íris, o futuro cientista e médico Evandro Chagas (1905 – 1940). Na edição de 7 de outubro da revista O Malho, foi publicado o poema Mãe que Violeta Carneiro de Melo dedicou a Íris.

A Companhia Docas de Santos solicitou a Oswaldo Cruz, diretor geral de Saúde Pública, providências para combater uma epidemia de malária entre os trabalhadores que construíam uma hidrelétrica em Itatinga, São Paulo. Carlos Chagas foi comissionado para coordenar a campanha.

1906 - Viajou para Juiz de Fora, em Minas Gerais, com o médico Alcides Godoy (1880 – 1950) e com outros para executar os testes finais da vacina da manqueira.

1907 - Ele e o sanitarista e médico baiano Arthur Neiva (1880 – 1943) foram enviados por Oswaldo Cruz a Xerém, na Baixada Fluminense, para combater uma epidemia de malária (O Paiz, 14 de maio de 1907, terceira coluna; O Paiz, 1º de julho de 1908).

O primeiro busto oficial de Pasteur, há bem pouco chegado ao Brasil, é hoje propriedade do dr. Carlos Chagas, ilustrado e esperançoso bacteriologista da diretoria de saúde, por delicada e significativa oferta eminente e operosíssimo dr Sampaio Correia, atual inspetor geral de Obras Públicas…gratidão que traduz pelos inestimáveis serviços prestados por Carlos Chagas (O Paiz, 17 de junho de 1907. segunda coluna).

Carlos Chagas estava presente à inauguração do Instituto Soroterápico de Belo Horizonte, filial de Manguinhos, sob a direção de Ezequiel Dias (1880 – 1922), seu colega de turma na Faculdade de Medicina (1880 – 1922) (O Paiz, 4 de agosto de 1907, segunda coluna).

1907/1908 – Em 6 de junho de 1907, Chagas partiu para o norte de Minas Gerais, em uma terceira campanha contra a malária com o médico Belisário Penna (1868-1939), também da Diretoria Geral de Saúde Pública, para combater uma epidemia de malária que paralisava as obras de prolongamento da Estrada de Ferro Central do Brasil em Minas Gerais, na região do rio das Velhas, entre Corinto e Pirapora (O Paiz, 7 de junho de 1907, quinta coluna).

Aquela era uma obra emblemática do projeto de modernização republicana. Chagas costumava coletar espécies da fauna brasileira e, pelo chefe da comissão de engenheiros, Cornélio Homem Cantarino Mota, tomou conhecimento de um percevejo hematófago muito comum na região, conhecido como barbeiro pelo hábito de picar o rosto de suas vítimas enquanto dormiam. Esses percevejos eram muito comuns nas casas de pau-a-pique da região – habitações típicas da população pobre das áreas rurais. Chagas examinou alguns barbeiros e encontrou neles um protozoário. Por não dispor em Lassance de condições experimentais para avançar neste estudo, enviou alguns insetos a Oswaldo Cruz, em Manguinhos. Depois de experiências com saguis criados em laboratório, Chagas concluiu que se tratava de uma nova espécie de tripanossoma, que batizou então de Trypanosoma cruzi, em homenagem ao mestre.

1908 - Nomeação de Carlos Chagas como pesquisador assistente do Instituto Oswaldo Cruz, em 20 de março. Eram também assistentes Alcides Godoy  (1880 – 1950), Antônio Cardoso Fontes (1879 – 1943), Arthur Neiva (1880 – 1943), Ezequiel Dias (1880 – 1922) e Henrique Aragão (1879 – 1956). Os chefes de serviço eram Henrique de Figueiredo Vasconcellos (1873 – 1948) e Henrique da Rocha Lima (1879 – 1956) (Almanak Laemmert, 1909).

Em 17 de dezembro, redigiu a nota-prévia anunciando a descoberta do Trypanosoma cruzi, publicada na revista alemã Archiv für Schiffs-und Tropen-Hygiene, em 1909.

1909 – De volta a Lassance, Chagas realizou exames de sangue nos moradores e, no dia 14 de abril de 1909, encontrou o Trypanosoma cruzi no sangue de uma criança febril, chamada Berenice. Anunciou a descoberta em nota publicada em uma das principais revistas médicas do Brasil, o Brazil-Medico, de 22 de abril de 1909 (O Paiz, 22 de maio de 1909, segunda coluna).

 

 

Em 22 de abril, Oswaldo Cruz anunciou formalmente à Academia Nacional de Medicina a descoberta por Carlos Chagas da doença de Chagas. Estavam presentes à sessão, concorridísima, o marechal Hermes da Fonseca (1855 – 1923), futuro presidente do Brasil; e os generais Luiz Mendes de Morais (1850 – 1914) e Antônio Geraldo de Souza Aguiar (? – 1915) (O Paiz, 23 de abril de 1908, quarta coluna; e O Paiz, 3 de maio de 1909).

Na Revista Syniatica, publicação de um artigo de Carlos Chagas sobre sua descoberta do Trypanosoma cruzi (O Paiz, 26 de maio de 1909, última coluna).

Tornou-se membro da Sociedade de Medicina da Bahia e da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro.

1910 - Em 1º de junho, foi nomeado chefe de serviço do Instituto Oswaldo Cruz.

Em 12 de setembro, nascimento do segundo filho de Chagas e Íris, o futuro médico, cientista e membro da Academia Brasileira de Letras, Carlos Chagas Filho (1910 – 2000).

Foi nomeado membro titular da Academia Brasileira de Medicina (ABM), em 26 de outubro, quando fez uma conferência sobre o Trypanosoma cruzi. Como não havia vagas na época, sua admissão foi aceita em caráter de excepcionalidade (O Paiz, 27 de outubro de 1910, terceira coluna; e O Paiz, 31 de outubro de 1910, quarta coluna). É o patrono da cadeira nº 86 e foi saudado por Miguel da Silva Perreira (1897 – 1918), na ocasião, presidente da ABM.

1911 – A Doença de Chagas despertou grande interesse durante a Exposição Internacional de Higiene e Demografia, em Dresden, na Alemanha. O filme Chagas em Lassance, de 9 minutos, foi exibido por Oswaldo Cruz durante o evento. O pavilhão do Brasil, único país das Américas a construir um estande próprio no evento, foi inaugurado em 15 de junho (O Paiz, 16 de junho de 1911, quinta coluna). Segundo o historiador Eduardo Thielen, que escreveu a dissertação Imagens da saúde no Brasil – A fotografia na institucionalização da saúde pública, o fotógrafo Joaquim Pinto da Silva, conhecido como J. Pinto (1884 – 1951) teria sido possivelmente o autor do primeiro filme científico feito no Brasil, justamente Chagas em Lassance (Agência Fiocruz, 15 de agosto de 2008). J. Pinto produziu um expressivo número de fotografias do acervo da Fundação Oswaldo Cruz : milhares de imagens, documentando os trabalhos científicos, os primeiros prédios e as transformações urbanas da região onde seria construído o centro de pesquisa, ensino e produção de medicamentos.

Na Academia Brasileira de Medicina, realização de uma palestra de Chagas sobre a doença de Chagas (O Século, 5 de agosto de 1911, segunda coluna; e O Malho, 12 de agosto de 1911).

Na mesma edição de O Malho em que foi publicada a foto acima, a revista fez uma sátira aos políticos usando a descoberta de Chagas (O Malho, 12 de agosto de 1911).

Publicação de um retrato do cientista Carlos Chagas (1878 – 1934), produzido na Photographia Guimarães, do fotógrafo português José Ferreira Guimarães (1841 – 1924) (A Noite, 8 de agosto de 1911).

1912 – Recebeu o Prêmio Schaudinn, pelo Instituto de Doenças Marítimas e Tropicais de Hamburgo, na Alemanha (O Século, 29 de junho de 1912, quarta coluna).

1912 / 1913 -  Carlos Chagas, Pacheco Leão (1872 – 1931) e João Pedro de Albuquerque (1874 – 1934) realizaram uma expedição para avaliar as condições sanitárias e de vida dos principais centros de produção da borracha através dos rios Solimões, Juruá, Purus, Acre, Iaco, Negro e o baixo rio Branco, em expedição requisitada pela Superintendência da Defesa da Borracha. Em relatório ao Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio, foi ressaltada a situação de abandono médico e social em que viviam as populações amazônicas e enfatizada a necessidade de medidas sanitárias para a viabilização do desenvolvimento econômico da região (O Paiz, 5 de maio de 1913, última coluna).

1913 - Carlos Chagas foi, pela primeira vez, indicado ao Nobel de Medicina. O vencedor foi o francês Charles Robert Richet (1850 – 1935), que descreveu a anafilaxia. A indicação foi feita pelo médico baiano Manuel Augusto Pirajá da Silva (1873 – 1961), professor de parasitologia na Faculdade de Medicina da Universidade da Bahia e responsável por ter identificado, em 1908, o verme adulto do Schistosoma mansoni.

No Palácio Monroe, durante a Exposição Nacional da Borracha, Carlos Chagas fez uma conferência sobre as condições médico-sanitárias na Amazônia (O Paiz, 13 de outubro de 1913O Paiz, 25 de outubro de 1913).

O governador de Minas Gerais, Júlio Bueno Brandão (1858 – 1931), e sua comitiva visitaram o Hospital de Lassance para conhecer os estudos do mal de Chagas e foram recebido por Carlos Chagas e seus auxiliares (O Paiz, 10 de novembro de 1913, segunda coluna).

1915 – Publicação no periódico La Prensa Médica Argentina de um trabalho do microbiologista austríaco e diretor do Instituto Bacteriológico de Buenos Aires, Rudolf Kraus (1868-1932), de Carlos F. Maggio e de Francisco Rosenbusch (1887 – 1969) questionando os enunciados de Chagas sobre a correlação entre o bócio e a doença de Chagas.

1916 – Carlos Chagas participou do  Primeiro Congresso Médico Argentino, realizado em Buenos Aires, inaugurado em 17 de  setembro e encerrado em 24 de setembro (A Época, 11 de setembro de 1916, terceira coluna; A Época, 18 de setembro de 1916, quinta coluna; e O Paiz, 25 de setembro de 1916, segunda coluna). Poucos dias antes da abertura do congresso, esteve no Instituto Bacteriológico de Buenos Aires, onde foi recebido por Rudolf Kraus (O Paiz, 13 de setembro de 1916, última coluna). Esteve presente também à inauguração da Sociedade de Higiene, Microbiologia e Patologia, no Instituto Bacteriológico de Buenos Aires (O Paiz, 20 de setembro de 1916, última coluna). Na Universidade de Medicina de Buenos Aires, Chagas fez uma conferência sobre a doença de Chagas (O Paiz, 21 de setembro de 1916, quarta coluna).

Tornou-se membro da Sociedade Brasileira de Ciências, posteriormente denominada Academia Brasileira de Ciências.

1917 - Com o falecimento de Oswaldo Cruz (O Paiz, 13 de fevereiro de 1917), Chagas foi nomeado diretor de Manguinhos, em 14 de fevereiro (O Paiz, 15 de fevereiro de 1917, quinta coluna). No campo da pesquisa, sua administração privilegiou a investigação das causas e dos aspectos epidemiológicos e clínicos das endemias rurais. Foi responsável também pela criação de seções científicas, definidas por áreas de conhecimento, com as quais pretendia estabelecer uma divisão de trabalho mais nítida no Instituto. Na área de ensino, ampliou o programa dos Cursos de Aplicação do Instituto. Quanto à área de produção, Chagas diversificou a pauta de medicamentos e produtos biológicos fabricados em Manguinhos – alguns desenvolvidos pelos próprios pesquisadores – e estimulou a sua comercialização, fortalecendo a renda da instituição. A partir de 1920, o Instituto assumiu também a responsabilidade pelo controle da qualidade dos produtos utilizados na medicina humana no país, nacionais ou importados.

1918 – Em Manguinhos, organizou o Serviço de Medicamentos Oficiais, criado por decreto federal com o objetivo de produzir e fornecer, gratuitamente ou a preços subsidiados, a quinina (profilático e terapêutico para a malária) e outros medicamentos.

Inaugurou, em outubro, o Hospital Oswaldo Cruz, nas dependências do Instituto Oswaldo Cruz,  destinado à internação de portadores de doenças infecciosas e também à pesquisa clínica sobre tais enfermidades (A Noite, 15 de agosto de 1918, quarta colunaJornal do Brasil, 9 de outubro de 1918, última coluna; e Gazeta de Notícias, 28 de março de 1919). Em 1942, passaria a ser chamado de Hospital Evandro Chagas (Diário de Notícias, 13 de novembro de 1942, quinta coluna).

Foi o responsável pela coordenação dos serviços de atendimento hospitalar e de socorro domiciliar durante a epidemia de gripe espanhola no Rio de Janeiro. Ele e o médico Fernando de Magalhães (1878 – 1944) recusaram qualquer tipo de remuneração pelo trabalho realizado (O Paiz, 20 de outubro de 1918, quinta coluna, O Paiz, 22 de outubro de 1918, última coluna; O Paiz, 23 de outubroO Paiz, 15 de novembro de 1918, primeira colunaO Paiz, 17 de novembro de 1918, terceira coluna).

1919 – Em 4 de outubro, tomou posse, tendo sido nomeado pelo presidente Epitácio Pessoa (1865 – 1942), na Diretoria Geral de Saúde Pública, que passou a chamar-se, em janeiro do ano seguinte, Departamento Nacional de Saúde Pública. Durante sua gestão, até 1926, o novo órgão foi responsável, mediante convênio com os estados, pela ampliação e criação de serviços de saúde no interior do país, com especial foco na profilaxia e no combate às endemias rurais. Implementou também medidas relativas à higiene pública criando um extenso Código Sanitário, responsável pela organização e modernização da legislação sanitária no Brasil (O Paiz, 5 de outubro de 1919, primeira coluna).

Alguns médicos brasileiros questionaram a definição clínica da doença de Chagas e, sobretudo, a importância social da tripanossomíase americana.

Carlos Chagas tornou-se membro da Sociedade Americana de Medicina Tropical.

1920 - Tornou-se Membro do Conselho Médico da Liga das Sociedades da Cruz Vermelha e Cavaleiro da Ordem da Coroa da Itália.

Carlos Chagas e seus assistentes receberam os reis da Bélgica, Alberto I (1875 – 1934) e Elizabeth (1876 – 1965), e o presidente Epitácio Pessoa (1865 – 1942), no Instituto Oswaldo Cruz (O Paiz, 26 de setembro de 1920).

 

1921 - Na Biblioteca Nacional, Chagas proferiu a conferência sobre A nova orientação dos serviços sanitários no Brasil (Jornal do Commercio, 5 de fevereiro de 1921, sexta coluna).

Em 23 de junho, tornou-se o primeiro brasileiro nomeado Doutor Honoris Causa, da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos.

Nesse ano não houve vencedor na categoria Medicina do Prêmio Nobel. Chagas havia sido indicado à láurea por Hilário de Gouvêia (1843-1923), professor de oftalmologia e otorrinolaringologia na Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro.

1922 – Tornou-se Doutor Honoris Causa da Universidade Nacional de Buenos Aires.

Teve início, na Academia Nacional de Medicina uma acirrada polêmica em torno da definição clínica da doença de Chagas e, sobretudo, da importância social da tripanossomíase americana Os críticos de Chagas, liderados por Julio Afrânio Peixoto (1876-1947), catedrático de higiene da Faculdade de Medicina da Universidade do Rio de Janeiro, afirmavam que a doença não seria um flagelo nacional já que, segundo eles, sua ocorrência era restrita à região de Lassance. Também questionaram a patogenicidade do Trypanosoma cruzi e a autoria de sua descoberta, que, segundo alguns, caberia não a Chagas mas a Oswaldo Cruz (O Paiz, 21 de dezembro de 1922, primeira coluna).

1923 – Tornou-se presidente da Sociedade Brasileira de Higiene, fundada no ano anterior (O Jornal, 29 de setembro de 1921, quinta coluna; O Jornal, 22 de dezembro de 1922, quarta coluna; e O Jornal, 11 de janeiro de 1923, segunda coluna).

Na Europa participou da sessão de abertura dos trabalhos do Comitê de Saúde das Nações Unidas, do qual era membro. Na ocasião, foi convidado para integrar a equipe encarregada pela elaboração das bases da Organização Permanente de Higiene Internacional.  Posteriormente, participou como chefe da comissão brasileira na Conferência Comemorativa sobre o Centenário de Louis Pasteur, realizado em Paris e em Estrasburgo. Ganhou o Prêmio Hors-Concours (O Jornal, 31 de maio de 1923, segunda coluna; e Correio da Manhã, 21 de agosto de 1923).

Foi agraciado com os títulos de Comendador da Coroa da Bélgica e de Cavaleiro da Ordem Nacional da Legião de Honra da França.

Promoveu a criação do Instituto Franco-Brasileiro de Alta Cultura e a fundação da Sociedade de Biologia do Rio de Janeiro, filiada à Sociedade de Biologia de Paris.

Carlos Chagas solicitou ao Ministério da Justiça a renovação da Patente da vacina da manqueira por mais 15 anos. Foi o segundo produto que obteve no Brasil a renovação da Patente, fato só ocorrido anteriormente pela Fornicída Matarazzo.

Com discursos dos médicos Clementino Fraga (1880 – 1971) e Parreiras Horta (1884 – 1961), realização de uma sessão em torno da Moléstia de Chagas (O Paiz, 23 de novembro de 1923, quarta coluna). O parecer oficial da Academia Nacional de Medicina em relação à polêmica envolvendo a Doença de Chagas reiterou os méritos de Carlos Chagas porém não se posicionou quanto à questão da definição clínica e da extensão geográfica da enfermidade. Em 6 de dezembro, Chagas proferiu uma conferência na Academia, quando defendeu suas convicções e rebateu o falso nacionalismo que pretendia encobrir o mal e impedir seu estudo. Foi ovacionado (O Paiz, 1º de dezembro de 1923, quinta colunaO Jornal, 7 de dezembro de 1923; O Paiz, 7 de dezembro de 1923, sexta coluna).

 

 

Pelo Decreto nº 16.300 de 31 de dezembro de 1923 e por iniciativa de Carlos Chagas, foi criada a Escola de Enfermagem Anna Nery, desdobramento do Serviço de Enfermagem Sanitária, que ele havia criado com o apoio da Fundação Rockefeller. Assim foi introduzido o ensino profissionalizante de enfermagem no Brasil.

1924 - Participou do 2º Congresso Brasileiro de Higiene, em Belo Horizonte (O Jornal, 27 de novembro de 1924, quinta coluna).

Tornou-se membro da Societas ad Artes Medicas in India Orientali Neerlandica e membro correspondente da Academia Médica de Roma.

1925 – Tornou-se membro correspondente da Real Academia Nacional de Medicina da Espanha e também Comendador da Ordem Civil de Alfonso XII, rei de Espanha.

Recebeu o Prêmio Kümmel, conferido pela Faculdade de Medicina da Universidade de Hamburgo.

Foi nomeado professor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, para a então criada cátedra de Medicina Tropical, estabelecendo as bases para o estudo desta área no Brasil (O Jornal, 26 de abril de 1925, última coluna).

Recebeu o cientista alemão Albert Einstein (1879 – 1955) durante sua visita ao Rio de Janeiro (O Paiz, 9 de maio de 1925, primeira coluna).

Sua contribuição para os estudos e a profilaxia da malária foi reconhecida no I Congresso Internacional de Paludismo, realizado em Roma (Jornal do Brasil, 9 de setembro de 1925, quarta coluna). Passou alguns dias em Paris onde foi homenageado pelo diretor do Instituto Pasteur, Albert Calmette (1863 – 1933), e pelo embaixador do Brasil, Luiz Martins de Souza Dantas (1876 – 1954) (Jornal do Brasil, 3 de novembro, sexta coluna).

1926 - Organizou o Curso Especial de Higiene e Saúde Pública, ministrado por pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz como especialização na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (Jornal do Commercio, 3 de maio de 1926, quarta coluna).

Proferiu a aula inaugural da cadeira de Medicina Tropical na Faculdade de Medicina da Universidade do Rio de Janeiro, em 14 de setembro, na qual destacou a importância do estudo das doenças tropicais na formação médica, tendo em vista o enfrentamento dos problemas da saúde pública brasileira, sobretudo as endemias rurais.

Recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Paris (O Paiz, 7 de novembro, quarta coluna).

Deixou a direção do Departamento Nacional de Saúde Pública, em novembro, quando terminou o mandato do presidente Arthur Bernardes (1875-1955). Seu sucessor no cargo foi Clementino Fraga (1880-1971) (O Paiz, 20 de novembro de 1926, segunda coluna).

Foi agraciado com o título de Comendador da Ordem de Isabel, a Católica, Espanha

Tornou-se membro da Academia Imperial Alemã de Pesquisas Naturais de Halle e membro honorário da Academia de Medicina de Nova York.

1928 – Em 30 de maio, foi eleito membro titular da Sociedade Real de Medicina Tropical e Higiene de Londres.

1929 – Tornou-se Doutor Honoris Causa da Faculdade de Medicina de Lima e Cavaleiro da Ordem da Coroa da Romênia.

Presidiu a IV Conferência Pan-americana de Higiene, Microbiologia e Patologia, realizada no Rio de Janeiro entre 30 de junho e 30 de julho.

Chagas recepcionou em Manguinhos um grupo de cirurgiões norte-americanos.

 

1930 - Tornou-se membro da Sociedade de Biologia de Buenos Aires

1931 – Tornou-se membro correspondente da Academia de Medicina de Paris.

1934 – Tornou-se Doutor Honoris Causa da Universidade Livre de Bruxelas.

Inauguração do Centro Internacional de Leprologia, com sede no Instituto de Manguinhos, idealizado e dirigido por ele (Correio da Manhã, 4 de fevereiro de 1934 e O Jornal, 14 de junho de 1934, terceira coluna).

Carlos Chagas faleceu em 8 de novembro, no Rio de Janeiro, de infarto (Jornal do Brasil, 9 de novembro de 1934). Na direção de Manguinhos, foi sucedido por Antonio Cardoso Fontes (1879-1943), que havia sido seu colega na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (O Jornal, 6 de janeiro de 1935, terceira coluna).

 

Realização na Academia de Medicina de uma sessão em sua homenagem (O Jornal, 15 de dezembro de 1934).

 

Assista aqui: Carlos Chagas – Ciência em gotas, realizado pela Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz, com a consultoria de Simone Kropf

 

A elaboração dessa cronologia foi baseada principalmente na Biblioteca Virtual Carlos Chagas, da Fundação Oswaldo Cruz, e na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Contou com a colaboração da historiadora e pesquisadora Simone Petraglia Kropf e da jornalista Cristiane d´Avila, ambas da Casa de Oswaldo Cruz.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

CAVALCANTI, Juliana Manzoni. A Trajetória Científica de Rudolf Kraus (1894-1932) entre Europa e América do Sul: Elaboração, produção e circulação de produtos biológicos. Tese (Doutorado em História das Ciências e da Saúde) – Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz, Rio de Janeiro, 2013. 284 f.

CHAGAS, Carlos, Filho. Meu pai. Rio de Janeiro: Casa de Oswaldo Cruz, Fundação Oswaldo Cruz, 1993

Fundação Oswaldo Cruz – Biblioteca Virtual Carlos Chagas

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KROPF, Simone P. Carlos Chagas e as doenças do Brasil. In: HOCHMAN, Gilberto; LIMA, Nísia Trindade. Médicos intérpretes do Brasil. São Paulo: Hucitec, 2015, p. 194-222.

KROPF, Simone P. Doença de Chagas, doença do Brasil: ciência, saúde e nação (1909-1962). Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2009.

KROPF, Simone P.; LACERDA, Aline. Carlos Chagas, um cientista do Brasil. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2009 (edição bilíngue).

KROPF, Simone P. SÁ, Magali R. The discovery of Trypanosoma cruzi and Chagas disease (1908-1909): tropical medicine in BrazilHistória, Ciências, Saúde-Manguinhos, v.16, suplemento, p.13 -34, 2009.

KROPF, Simone P. Carlos Chagas e os debates e controvérsias sobre a doença do Brasil (1909-1923). História, Ciências, Saúde-Manguinhos, v.16, suplemento 1, p.205-227, 2009.

LEWINSOHN, Rachel. Carlos Chagas (1879-1934): a descoberta do tripanossoma cruzi e da tripanossomíase americana (notas da história da doença de Chagas)Transactions of The Royal Society of Tropical Medicine and Hygiene, Volume 73, Edição 5, págs 513-523, 1979.

PITELLA, José Eymard Homem. O processo de avaliação em ciência e a indicação de Carlos Chagas ao prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, vol 42. nº 1, Uberaba, fevereiro de 2009.

SCLIAR, Moacyr . Oswaldo Cruz & Carlos Chagas: o nascimento de ciência no Brasil. São Paulo: Odysseus, 2002

Site da Academia Brasileira de Ciências

Site da Academia Nacional de Medicina

Site da Escola de Enfermagem Ana Nery

Site da Fiocruz Paraná – Instituto Carlos Chagas

Site do CPDOC

A Floresta da Tijuca no Dia Mundial do Meio Ambiente

No Dia Mundial do Meio Ambiente, a Brasiliana Fotográfica destaca imagens da Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro, a maior floresta urbana replantada pelo homem, com uma extensão de 3.953 hectares. Sua beleza e exuberância não passaram despercebidas por diversos fotógrafos dos séculos XIX e XX. O portal disponibiliza registros produzidos por Augusto Malta (1864 – 1957)Georges Leuzinger (1813 – 1892)Marc Ferrez (1843 – 1923) e Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886). Para a produção de carvão, extração de madeira e plantação de café, a floresta foi quase totalmente destruída, o que ocasionou problemas nas fontes que abasteciam a cidade com água. Em 1861, durante o reinado de dom Pedro II (1825 – 1891) o major Manuel Gomes Archer (1821 – 1907) foi nomeado administrador da Floresta da Tijuca, cargo que exerceu até 1874 (Boletim do Expediente do Governo, novembro de 1861). Foi iniciado, então, o primeiro grande projeto de reflorestamento no mundo com o replantio de mais de 100 mil árvores. Posteriormente, sob a administração do barão Gastão d´Escragnolle (1821 – 1888), entre 1874 e 1888 (Gazeta de Notícias, 19 de junho de 1888, sexta coluna), além da continuação do replantio, foi realizado um trabalho de embelezamento com a colaboração do célebre paisagista e botânico francês Auguste Glaziou (1833 – 1906), que tornou a floresta um parque para uso público com fontes, lagos, mirante, pontes e jardins de estilo francês.

 

 

 

Acessando o link para as fotografias da Floresta da Tijuca disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Depois de um longo período de abandono, em 1944, sob a coordenação do industrial Raymundo de Castro Maia (1894 – 1968), convidado pelo então prefeito Henrique Dodworth (1895 – 1975), e com a cooperação do paisagista Roberto Burle Marx (1909 – 1994), foram reiniciadas a recuperação e a manutenção da vegetação da floresta. Alguns dos atrativos da Floresta da Tijuca são o Pico da Tijuca – seu ponto mais alto -, o Pico do Papagaio e a Cascatinha Taunay. Fica dentro do Parque Nacional da Tijuca, criado em 1961, o mais visitado do Brasil.

 

 

O Dia Mundial do Meio Ambiente começou a ser comemorado em 1972. A data foi escolhida porque a primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente foi realizada em Estocolmo, na Suécia, entre 5 e 16 de junho de 1972. Seu secretário-geral foi o canadense Maurice Strong (1929 – 2015). Considerada a iniciativa mais importante tomada até então no campo da conservação do meio ambiente e da luta contra a poluição, reuniu 1.200 delegados de 114 países e cerca de três mil observadores. Entre os acordos mais importantes selados durante a reunião estão a condenação das experiências nucleares, a proibição da pesca da baleia por dez anos e a redução da produção de materiais sintéticos aumentando paralelamente a manufatura de substitutivos degradáveis não poluentes (Jornal do Brasil, 17 de junho de 1972).

 

 

Na próxima imagem, vemos o fotógrafo Marc Ferrez em um momento de lazer com sua esposa, a francesa Marie Lefebvre (c. 1849 – 1914), e os dois filhos do casal, Julio Marc (1881 – 1946) e Luciano José André (1884 – 1955), passeando na Floresta da Tijuca.

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Agenda de Efemérides da TV Globo

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

MAIA, Raymundo de Castro. A Floresta da Tijuca. Rio de Janeiro: Edições Bloch, 1967

Site do Instituto Chico Mendes

Site do Iphan

Site do Parque Nacional da Tijuca 

Site Rio de Janeiro aqui

O café sob a lente de vários fotógrafos

Com uma seleção de imagens a Brasiliana Fotográfica lembra o Dia Nacional do Café, data incorporada em 2005 ao Calendário Brasileiro de Eventos. O produto chegou ao Brasil no século XVIII e desde então é um importante gerador de riquezas, muito significativo na história da economia e da cultura do país. Por sua relevância, vários aspectos de seu cultivo, colheita e comercialização foram registrados por importantes fotógrafos, dentre eles Georges Leuzinger (1813 – 1892), Guilherme Gaensly (1843 – 1928) e Marc Ferrez (1843 – 1923). O café foi também tema de fotógrafos ainda desconhecidos, do Instituto de Expansão Comercial e da Centennial Photographic Co.

 

 

Acessando o link para as fotografias relacionadas ao café disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

O café chegou ao Brasil, por Belém no Pará, em 1727, trazido pelo sargento-mor Francisco de Melo Palheta (1670 -1750) que, sob as ordens do governador do Maranhão e Grão Pará, o português João da Maia Gama, foi à Guiana Francesa para resolver problemas de fronteira. Lá conseguiu sementes de café que, na época, já tinham grande valor comercial. Seu cultivo espalhou-se da região Norte para outros estados e em meados do século XIX estabeleceu-se fortemente no Vale do Rio Paraíba, nos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro, gerando um novo ciclo econômico no país. Tornou-se o principal produto das exportações nacionais. Foi também muito cultivado em Minas Gerais e no Espírito Santo.

 

 

Sua produção e comercialização fomentaram o desenvolvimento e a criação de cidades, a construção de ferrovias para seu escoamento e São Paulo tornou-se a metrópole do café enquanto o Porto de Santos tornava-se seu principal ponto de saída. Após a abolição da escravatura, em 1888, aconteceu uma grande onda de imigração, principalmente de italianos, que vinham para o Brasil e se empregavam nos cafezais de São Paulo. A riqueza produzida nas lavouras de café gerou o crescimento do comércio, da oferta de serviços e da indústria nacional. O Brasil ainda é o maior exportador da bebida e o segundo maior país consumidor, atrás apenas dos Estados Unidos.

 

 

“As plantações de café no Brasil, entre meados do Século XIX até o final do século XX, além das divisas econômicas, gerou também um rico patrimônio cultural, envolvendo as edificações, os costumes regionais e a paisagem marcante, especialmente nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Para resgatar, preservar e valorizar toda essa riqueza, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) criou o Grupo Interinstitucional sobre o Patrimônio Cultural do Café da região sudeste do Brasil que, entre outras iniciativas, deverá estreitar a parceria entre órgãos de proteção do patrimônio cultural, universidades, sociedade civil organizada e iniciativa privada, buscando desenvolver a melhor estratégia para a preservação e a valorização do patrimônio cultural referente ao café no Brasil” (Iphan, 2011).

 

Fontes:

Embrapa

Iphan

Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento

Observatório Eco -Direito Ambiental

Revista Cafeicultura

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Retratos de escravizados pelo fotógrafo Christiano Junior (1832 – 1902)

No Dia da Abolição da Escravatura no Brasil, a Brasiliana Fotográfica publica o artigo As fotografias de escravizados de Christiano Junior conservadas no Museu Histórico Nacional, da historiadora Maria Isabel Ribeiro Lenzi. No século XIX, imagens de escravizados eram produzidas por artistas e fotógrafos e vendidas para os estrangeiros de passagem pelo Rio de Janeiro.  O fotógrafo açoriano Christiano Junior (1832 – 1902), aproveitando o filão, produziu “variada coleção de costumes e tipos de pretos, coisa muito própria para quem se retira para a Europa”. O álbum “Photographias de costumes brazileiros”, com 24 imagens, foi apresentada na Exposição Internacional do Porto de 1865. Pertenceu ao rei D. Fernando, de Portugal, e, em 1933,  foi doada por Jorge Olinto ao Museu Histórico Nacional, uma das instituições parceiras do portal.

 

As fotografias de escravizados de Christiano Junior conservadas no Museu Histórico Nacional

Maria Isabel Ribeiro Lenzi *

 

O Brasil durante mais de 300 anos teve a escravidão na base da produção da economia. Escravizaram-se índios nos primeiros anos da colonização portuguesa e, posteriormente, verificou-se que o comércio negreiro era tão ou mais lucrativo do que a transação com o açúcar que era produzido nos engenhos, cuja mão de obra negra marcava a participação africana na política mercantilista.

No Império do Brasil, a escravidão continua sendo a principal fonte de renda, como nos é lembrado quando vemos fotografias de colheitas de café ou da mineração, onde os escravizados são protagonistas. O tráfico negreiro, até 1850, é um grande negócio para o capitalista brasileiro. A escravidão estava em toda parte e mesmo uma pessoa de pequenas posses possuía um escravo de ganho que lhe trazia diariamente o sustento. Deste modo, na capital do Império, circulavam pelas ruas diversos tipos de trabalhadores, a maioria absoluta, negra. Eram carregadores, aguadeiros, vendedores de frutas, cesteiros, barbeiros ambulantes, quituteiras, etc.

Acessando o link para as fotografias de escravizados de Christiano Junior conservadas no MHN disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

O que é muitas vezes esquecido é que da escravidão também advinham recursos indiretos: o comprador de escravizados pagava imposto ao município referente àquela compra; o senhor que gastou dinheiro para adquirir escravizados possuía uma apólice de seguro que garantia o investimento de seu capital; finalmente, devemos lembrar as imagens que eram produzidas por artistas e fotógrafos e vendidas para os estrangeiros de passagem pelo Rio de Janeiro. Provavelmente a pessoa retratada não recebia por direito de imagem, mas seu retrato, vendido como souvenir dos trópicos, respondia à demanda do consumo do exótico e enriquecia algumas pessoas.

 

 

O fotógrafo português Christiano Jr. aproveitou esse filão e produziu “variada coleção de costumes e tipos de pretos, coisa muito própria para quem se retira para a Europa”(1) . A coleção era composta de cerca de 77 fotografias tamanho cartes de visites com retratos de trabalhadores de corpo inteiro e retratos de rostos de pessoas de diferentes sociedades africanas – a função e o tipo de escravizados. Eram vendidas no estabelecimento de Christiano Jr. à Rua da Quitanda e também na Casa Leuzinger. As fotografias tomadas no estúdio de Christiano Jr., feitas para os estrangeiros, não mostram a paisagem, nem a cidade, nem as estradas. Exibem os escravizados. Provavelmente, essas pessoas, ao posarem com seus instrumentos de trabalho, ganharam algum trocado do fotógrafo. Com certeza eram escravizados, pois aqueles que aparecem de corpo inteiro estão, todos, descalços, o que marcava a condição escrava do trabalhador.

 

 

Em 1865, Christiano Jr. apresenta “Photographias de costumes brazileiros” na Exposição Internacional do Porto. São duas molduras, cada uma com 12 fotografias de escravizados das ruas do Rio de Janeiro. Essas 24 imagens foram, depois de expostas, oferecidas a D. Fernando, rei de Portugal pelo fotógrafo e podemos ler nas molduras a dedicatória: “a. s. m. El Rei D. Fernando, Christiano Junior, rua da Quitanda, 45, 2º andar”.

 

molduras

Molduras para as imagens do álbum Photografias de costumes brazileiros, de 1865

 

Das 24 fotografias escolhidas para a exposição, 12 são retratos de rostos africanos e as outras 12 são de trabalhadores de ganho. São cenas de trabalho recriadas no ateliê do fotógrafo, cujo objetivo é mostrar a atividade, não representar o indivíduo. Deste modo, encontramos cesteiros, quitandeiras, barbeiros, carregadores, vendedores de frutas, vendedores de cadeira. Quanto aos tipos, do mesmo modo não buscavam representar a pessoa em si, mas sua origem: Christiano Junior escreveu em baixo de cada rosto, a nação ou o porto africano que os embarcou: Mina Nagô, Cabinda, Angola, Moçambique, Monjolo, Congo.

 

 

 

Esta coleção que pertenceu ao rei D. Fernando foi doada ao Museu Histórico Nacional – MHN – em 1933, por Jorge Olinto, estando, desde então, sob a guarda do museu. Passou pelos cuidados do Centro de Conservação e Preservação da Funarte – CCPF, no final da década de 1980, quando, para melhor conservá-las, as fotografias foram retiradas das molduras (foram higienizadas, estabilizadas, acondicionadas e reproduzidas em negativo). Todavia, foram as molduras preservadas, pois além de guardarem a dedicatória do fotógrafo a D. Fernando revelando por onde essas fotografias passaram antes de vir para o museu, elas trazem consigo a estética de uma época em que as exposições internacionais eram o must no mundo ocidental, ávido para conhecer o exótico e o pitoresco sem precisar viajar para tão longe, o que era possibilitado pela fotografia.

 

(1) Almanaque Laemmert. Apud Gorender, Jacob, A face escrava da corte imperial brasileira. In Azevedo, Paulo César;Lissovsky, Maurício. Escravos Brasileiros do século XIX na fotografia de Christiano Jr. São Paulo: Ex Libres, 1988.

 

 

*Maria Isabel Ribeiro Lenzi é Doutora em História pela UFF e historiadora do Arquivo Histórico do Museu Histórico Nacional (IBRAM/MinC)

 

Fontes:

CUNHA, Manoela Carneiro da. Olhar Escravo, Ser Olhado. In: Lissovisky, Maurício; Azevedo, Paulo Cesar. Escravos Brasileiros do século XIX na fotografia de Christiano Jr., São Paulo: Ex-Libris, 1988

GORENDER, Jacob. A Face Escrava na Corte Imperial Brasileira. In: Lissovisky, Maurício; Azevedo, Paulo Cesar. Escravos Brasileiros do século XIX na fotografia de Christiano Jr., São Paulo: Ex-Libris, 1988

LEITE, Marcelo Eduardo. Typos de pretos: escravos na fotografia de Christiano Jr. Visualidade, Goiânia, V.9, jan-jun, 2011.

LISSOVISKY, Maurício; AZEVEDO, Paulo Cesar. Escravos Brasileiros do século XIX na fotografia de Christiano Jr., São Paulo: Ex-Libris, 1988

MAGALHÃES, Manuel. Christiano Junior, um açoriano, fotógrafo, na América do Sul. Revelar, Revista de Estudo de Fotografia e Imagem, Porto: Universidade do Porto, V. 1, out. 2016.

SODRÉ, Muniz. À Sombra do Retrato. In: Lissovisky, Maurício; Azevedo, Paulo Cesar. Escravos Brasileiros do século XIX na fotografia de Christiano Jr., São Paulo: ExLibris, 1988

TURAZZI, Maria Inez. A fotografia e as exposições na era do espetáculo (1839 – 1889). Rio de Janeiro: Funarte/Rocco, 1995.

 

 

 

Cronologia de Christiano Júnior 

Andrea C.T. Wanderley**

Retrato de Christiano Junior, c. 1895

 

1832 – O português José Christiano de Freitas Henriques Junior nasceu na Ilha das Flores, no Arquipélago dos Açores, em 21 de julho de 1832.

1855 – Chegou ao Brasil com sua esposa, Maria Jacinta Fraga, e com os dois filhos do casal: os futuros fotógrafos José Virgílio (1851 -?) e Frederico Augusto (1853-?).

1862 – Christiano Junior anunciava, em Maceió, em Alagoas, seus retratos fotográficos sobre vidro, papel, pano e encerado.

Chegou no Rio de Janeiro e em anúncio ofereceu seus serviços de fotógrafo. Seus trabalhos estariam expostos na casa do sr. Bernasconi e chamados escritos deveriam ser enviados para o Hotel Brysson, na rua d´Ajuda, 57 B. Também aceitava pedidos de quadros e cestas de flores e frutas de cera, imitando perfeitamente o natural (Correio Mercantil, e Instrutivo, Político, Universal, 2 de dezembro de 1862, quinta coluna).

1864 - Era um dos proprietários da Photographia do Commercio, na rua São Pedro, 69. Seu sócio era Fernando Antônio de Miranda (Jornal do Commercio, 17 de julho de 1864).

 

1865 - O endereço do estabelecimento fotográfico de Christiano e Miranda mudou para rua da Quitanda, 53 (Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1865).

Christiano mudou-se sozinho para a rua da Quitanda, 45. Anunciou que em seu estabelecimento, a Photographia e Pintura, fazia cartões de visita, ambrótipos, cenótipos, fotografias coloridas a óleo, aquarela ou pastel, além de retratos para broches e medalhas. Também anunciou a venda de coleções dos costumes dos pretos nessa corte e no interior da província, em cartões para álbuns, coisa muito própria para quem se retira para a Europa  (Jornal do Commercio, 2 de abril de 1865 e Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1866).

Exposição na Casa Bernasconi de quatro molduras contendo 48 fotografias de autoria de Christiano. Delas 12 costumes de pretos de ganho, vendilhões e outras 12 representam tipos de diferentes nações da raça africana. Essas 24 imagens foram oferecidas a d. Pedro II (1825 – 1891). As outras 24 foram enviadas à eExposição Internacional do Porto e oferecidas a d. Fernando, rei de Portugal (Correio Mercantil, 22 de julho de 1865, penúltima coluna).

Participou da Exposição Internacional do Porto e suas obras, assim como as do fotógrafo Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912), foram expostas na seção de Belas-Artes (Jornal do Commercio, de 1865, terceira coluna).

Christiano Jr, identificado como fotógrafo bastante conhecido pelos excelentes trabalhos executados em sua oficina, doou 400 fotografias do falecido cônsul de Portugal, Antonio Emilio Machado Reis, para ajudar à família do diplomata. Houve uma exposição das fotos na sociedade Madrepora, instituída por Machado Reis (Correio Mercantil, 1º de novembro de 1865, terceira coluna).

1866 - Publicação de anúncio da Galeria Photographica e de Pintura na seção de “Notabilidades” do Almanaque Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro. Christiano Junior anunciava que havia reaberto seu estabelecimento fotográfico após uma reforma e oferecia timbres-postes, fotografias em diversas dimensões – até a natural -, podendo ser coloridas por várias técnicas, retratos em cenótipos, fotografias de homens célebres, além de uma variada coleção de costumes e tipos de pretos, coisa muito própria para quem se retira para a Europa.

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Estabelecido na rua da Quitanda, 45, Christiano fez uma exibição de retratos para cartas, uma nova e interessante aplicação da fotografia, realizada a partir de um instrumento que em 15 segundos dá 12 e 24 retratos, pequenos, mas nem por isso menos parecidos. Os retratos seriam usados para marcar o papel de carta, o que anteriormente era feito com a iniciais do remetente (Diário de São Paulo, 4 de fevereiro de 1866, segunda coluna).

 

No verso de uma de suas cartas de visita oferecia retratos em lenço, costumes e tipos de índios, cópias de gravuras de Morgado de Mateus reproduzidas de uma rara edição de Os Lusíadas, retratos em porcelana, e em marfim, retratos em vidro para ver por transparências, vistas para estereoscópios, retratos de homens célebres, monarcas, guerreiros, literatos, etc.

Participou da II Exposição Nacional e o que apresentou foi saudado como excelentes retratos e perfeitíssimas reproduções de uma dúzia de gravuras. Conquistou a medalha de bronze (Semana Ilustrada, 18 de novembro de 1866, segunda coluna e Diário do Rio de Janeiro, 1º de fevereiro de 1867, última coluna).

Sobre ele, o pintor Victor Meirelles (1832 – 1903), que assinou em nome do júri do quarto grupo – onde se incluía a fotografia – comentou no Relatório da II Exposição Nacional do Rio de Janeiro:

‘Os trabalhos deste senhor não são menos dignos de atenção por algumas boas qualidades que contêm. As reproduções das gravuras da obra ilustrada: Os Lusíadas, de Camões, publicada em 1817, por D. José Maria de Souza Botelho – Morgado de Mateus, etc, etc, são bem copiadas, e não podemos deixar de louvar tão feliz lembrança, bem como o serviço que presta aos artistas e amadores das belas artes pela propagação dessas belas composições artísticas devidas ao lápis dos célebre pintores Gerard e  Fragonard.       

Christiano Junior participou que, a partir do dia 1º de dezembro de 1866, seu amigo Bernardo José Pacheco passaria a ser seu sócio em seu estabelecimento fotográfico, na rua da Quitanda, 45, que passaria a funcionar com a razão Christiano Junior & Pacheco (Jornal do Commercio, 3 de dezembro de 1866, quarta coluna e Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1867).

 

 

Em torno desse ano, realizou uma série de fotografias médicas.

 

1867 – Christiano Junior estava em Desterro, atual Florianópolis, e abriu um ateliê fotografico na rua Augusta, 26. Anunciou sua pretensão de fazer algumas vistas da cidade e também de vistas para estereoscopos, além de informar que pretendia ficar apenas por um mês na cidade porque estaria de passagem para o rio da Prata (O Despertador, 1º de fevereiro de 1867 e O Mercantil, 28 de fevereiro de 1867).

 

 

 

 

Abriu um ateliê fotográfico, em Mercedes, no Uruguai.

Christiano Junior começou a tentar expandir suas atividades na Argentina. Em 1º de dezembro, em Buenos Aires, inaugurou um bem sucedido estúdio de fotografia, na rua Florida, nº 159. Iniciou uma significativa produção de retratos e, segundo os pesquisadores argentinos Abel Alexander e Luis Priano, que examinaram os álbuns relativos ao seu trabalho que estão depositados no Archivo General de la Nación, estima-se que foram produzidos por ele mais de 4 mil retratos entre 1873 e 1875.

No censo de 1869 de Buenos Aires, constavam os nomes de Christiano e de seus dois filhos. O de sua esposa não, o que indica que provavelmente estavam separados ou ele tinha enviuvado.

1870 - Em um anúncio, Christiano Junior & Pacheco avisavam que à vista dos mesquinhos preços a que alguns de nossos colegas têm reduzido a fotografia, vemo-nos também obrigados a baixar nossos preços. Informava ainda que Christiano Junior havia trazido de sua casa, em Buenos Aires, um novo sistema, a imitação porcelana, por ele introduzida lá e aqui (Jornal da Tarde, 18 de agosto de 1870).

 

 

Em francês, anúncio da venda de um produto de combate à umidade na Maison Christiano Junior & Cia. O produto teria sido descoberto por um associado de Christiano em Paris, o pintor químico M. Regnault. A propaganda foi publicada outras vezes (Ba-Ta-clan, 27 de agosto de 1870).

Christiano Junior & Pacheco anunciavam uma novidade fotográfica, a imitação da porcelana – unicamente se fazem na rua da Quitanda, 45 (Jornal do Commercio, 28 de agosto de 1870, terceira coluna).

Christiano Junior montou um estúdio fotográfico voltado ao público infantil, a Fotografia de la Infancia, na rua de Las Artes, n. 118, em Buenos Aires.

Em torno desse ano, fotografou o Conde d´Eu(1842 – 1922), marido da princesa Isabel (1846 – 1921).

 

 

1871 – Recebeu a medalha de ouro na primeira Exposição Nacional da Argentina, na cidade de Córdoba, com a série de fotos Vistas y costumbres de la Republica Argentina. 

1873 - Publicação de um anúncio da Photographia de Christiano Junior & Pacheco no Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1873 .

 

 

1874 – Christiano Junior & Pacheco eram réus em uma ação movida por Olímpio Militão Vieira na Primeira Vara Cível (Diário do Rio de Janeiro, 10 de dezembro de 1874, primeira coluna).

1875 – O estabelecimento fotográfico de Christiano Junior & Pacheco foi anunciado pela última vez no Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1875, no endereço rua da Quitanda, 39 a 41.

Seu ateliê fotográfico voltado ao público infantil, a Fotografia de La Infância, era, segundo anúncio publicado no jornal La Prensa de 04 de fevereiro de 1875, possuidor de máquinas instantâneas que permitem tirar retratos de criaturas inquietas e travessas. O ateliê foi destruído por um incêndio em março de 1875, e foi reaberto pouco depois, à rua Victoria 296, agora gerenciado por seu filho José Virgílio, que havia sido seu ajudante.

Manoel Garcia Vidal, ex-sócio de Christiano Junior & Pacheco, anunciou a abertura de um estabelecimento fotográfico na rua Sete de Setembro, 76, esquina com Gonçalves Dias (Jornal do Commercio, 17 de março de 1875, sexta coluna).

Um incêndio destruiu o prédio número 41 da rua da Quitanda, de propriedade da Santa Casa de Misericórdia. No segundo andar ficava o estabelecimento Christiano Junior & Pacheco (Jornal de Recife, 29 de março de 1875, segunda coluna). Eles passaram a atender no ateliê do renomado fotógrafo português José Ferreira Guimarães (1841 – 1924), na rua do Ourives, 38 (Jornal do Commercio, 21 de março de 1875).

A Photographia de Pacheco, Menezes e Irmão era anunciada como sucessora de Christiano Junior & Pacheco, na rua da Quitanda, 39 (Gazeta de Notícias, 10 de agosto de 1875, terceira coluna).

 

 

Christiano tornou-se fotógrafo oficial da Sociedade Rural Argentina e realizou sua primeira exposição pela entidade, da qual se desligaria em 1878.

1876 – Lançou o primeiro volume da coleção intitulada Album de Vistas e Costumes de La Republica Argentina, que trazia 16 imagens de Buenos Aires acompanhadas por textos explicativos em quatro idiomas. Primeiro trabalho com essas características produzido na Argentina, o material foi, em parte, formado pelo aproveitamento de vistas anteriormente colocadas à venda em seu ateliê. Christiano Júnior nesse trabalho mesclou imagens da Argentina colonial e pastoril com as de uma nova nação, representada sobretudo pelas novas construções.

Para introduzir o álbum afirmou: ‘Meu plano é vasto e quando estiver completo a República Argentina não haverá nem pedra nem árvore histórica, do Atlântico até os Andes, que não tenha sido submetido ao foco vivificador da câmara escura.’

 

 

Ganhou a medalha de ouro na segunda exposição anual da Sociedade Científica Argentina.

Participou da Exposição Universal da Filadélfia de 1876.

1877 - Foi lançado o segundo volume de seu trabalho, contando com doze retratos de tipos populares urbanos e com vistas de construções modernas e históricas.

Produziu uma série que retratava a nova penitenciária de Buenos Aires, trabalho que foi vendido de forma avulsa e em álbum encadernado.

No catálogo da primeira exposição do Club Industrial de Buenos Aires, em 1877, na qual participou, Christiano Junior escreveu acerca de suas fotos médicas, realizadas no Brasil, que segundo o parecer dos médicos nacionais e estrangeiros, nenhum fotógrafo, até aquela data [1866] havia tirado do natural um trabalho semelhante.

1878 - Vendeu seu estúdio em Buenos Aires para Witcomb & Mackern. Deixou no arquivo do ateliê um acervo de mais de 170 vistas.

Participou da Exposição Universal de Paris de 1878.

1879 a 1883 – Viajou pelo interior da Argentina, fotografando várias províncias do país, continuando a série de álbuns de Vistas e Costumes da República Argentina. Passou pelas cidades de Rosário, Córdoba, Río Cuarto, Mendoza, San Juan, San Luis, Catamarca, Tucumán, Salta e Jujuy. Antes de chegar às cidades, anuncia nos jornais locais que ali prestará seus serviços. Monta seu estúdio associado a um fotógrafo local e, em alguns casos, acompanhado de seu  filho. Uma vez instalado na localidade, dá início ao trabalho no ateliê e, paralelamente, desenvolve seu projeto maior: os álbuns de vistas.

1882 – Participou da Exposição Continental de Buenos Aires em 1882.

1883 – Anúncio do estabelecimento fotográfico de Menezes & Irmão, sucessores de Christiano Junior & Pacheco (Gazeta da Tarde, 5 de junho de 1883, última coluna).

Christiano Junior desvinculou-se de seu último ateliê, localizado na cidade de Corrientes. Abandonou temporariamente a fotografia, dedicando-se à produção e comércio de vinhos e licores, os quais vendia ao Brasil, à Argentina e ao Paraguai.

1890 – De Buenos Aires, Christiano Junior importou 382 fardos feno, que chegaram no vapor francês Bearn (Jornal do Commercio, 28 de janeiro de 1890, penúltima coluna).

De Buenos Aires, Christiano Junior importou quatro sacos de alpiste, 10 de cevada, 10 de linhaça, seis de milho e 40 caixas de passas e nove de vinho que chegaram no vapor francês Bretagne (Jornal do Commercio, 23 de abril de 1890, quarta coluna).

1892 – Pelo decreto de 21 de dezembro de 1892, foi concedida, por 15 anos, a Christiano Junior, a patente da invenção do processo aperfeiçoado de fabricar vinho de cana (Minas Gerais, Órgão Oficial dos Poderes do Estado, 24 de dezembro de 1992, terceira colunaJornal do Brasil, 26 de dezembro de 1892, quarta coluna, e Relatório do Ministério da Agricultura de 1993).

1899 – Publicação do livro de sua autoria,  Tratado prático de vinicultura, destilaria e licoreria, com prólogo do escritor argentino Eduardo L. Holmberg (1852 – 1937).

1901/1902 – Entre esses anos, Christiano Júnior escreveu ainda oito textos autobiográficos publicados no jornal La Provincia: Sueños raros (14/12/1901); Recuerdos de mi tierra, dedicado a seu neto Augusto (1/1/1902), Tempora mutantur (Buenos Aires de 1866 a 1900), dedicado a sua neta Telma (15, 18, 21, 25/1/1902); Un carnaval en mi tierra, dedicado a Pedro Benjamín Serrano ( 8/2/1902); En los Andes, dedicado a Félix M Gómez (1/3/1902); Informalidad y mentira, dedicado a Manuel V. Figuerero (26/3/1902); Brasil de 1855 a 1870, dedicado a Guillermo Rojas ( 5/4/1902), e De Corrientes (17/5/1902) (Recordando Christiano).

1902 – Christiano Junior faleceu em 19 de novembro, em Assunção, no Paraguai. Seu necrológio foi publicado, em 13 de dezembro de 1902, na revista argentina Caras Y Caretas, página 28 :

Em Assunção do Paraguai, onde vivia retirado há muitos anos pintando fotografias, faleceu na semana passada o velho fotógrafo don Christiano Junior, cuja arte para retratar a antiga família portenha era famosa em seu tempo. Junior foi o antecessor de Witcomb e diante de sua objetiva desfilaram as mais conhecidas damas e cavalheiros daquela época. Morreu pobre, privado quase por completo de sua visão, e deixa uma lembrança agradável em todos os que conheceram.’

 

anuncio12 Caras y Caretas, 13 de dezembro de 1902

 

Posteriormente, seus restos mortais foram levados para Buenos Aires e sepultados no cemitério de Olivos.

 

**Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Seguem os links dos artigos já publicados na Brasiliana Fotográfica sobre a Abolição da Escravatura:

Dia da Abolição da Escravatura

Missa Campal de 17 de maio de 1888

Machado de Assis vai à missa, de autoria de José Murilo de Carvalho

Missa Campal de 17 de maio de 1888 – Novas identificações

Princesa Isabel (RJ, 29 de julho de 1846 – Eu, 14 de novembro de 1921)

Missa Campal de 17 de maio de 1888 – Mais identificações

A Brasiliana Fotográfica, o Dia da Abolição da Escravatura e Machado de Assis na Missa Campal

A cidade como Arquivo, o Arquivo da Cidade

Seguindo a diretriz das Ordenações Manuelinas  (1512-1603), manifestação da vontade do rei de Portugal, dom Manuel I (1469-1521) de homogeneizar e controlar a administração do crescente Império Português, firmou-se no Rio de Janeiro  uma “arca grande e boa” para a guarda dos documentos públicos, que deram origem ao acervo em depósito no Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (AGCRJ), uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica. É essa história, escrita pela diretora da AGCRJ, Beatriz Kushnir, que o portal publica hoje em homenagem aos 454 anos da fundação do Rio de Janeiro, instituída por Estácio de Sá (1520 – 1567) em um terreno plano entre os morros Cara de Cão e Pão de Açúcar.

 

A cidade como Arquivo, o Arquivo da Cidade

Beatriz Kushnir*

 

Somos uma cidade que nasceu lusa. A República se esforçou para apagar os traços de nossa tradição ibérica e teve algum êxito. Mas a forma como nos relacionamos com a burocracia, esta é portuguesa. Aprendemos com eles a circularidade das informações, com cópias, autenticações, três vias, etc.

No processo de expansão ultramarino, a implementação da imprensa permitiu que das manuscritas Ordenações Afonsinas, a lei tipograficamente formatada alcançasse os quatro cantos do Reino na compilação conhecida como Ordenações Manuelinas (1512-1603). Incluso no modus vivendi desta revisão legislativa, há a vontade do rei D. Manuel I (1469-1521), que assumiu a Coroa aos 26 anos, de homogeneizar e controlar a administração do crescente Império Português.

Acessando o link para as fotografias relacionadas a essa publicação e disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Certamente, a letra impressa permitiu a divulgação e assegurou o conhecimento da legislação. E pela compilação das normas no regulamento, a tentativa de unificação do território. D. Manuel I, o nosso 1º governante, instituiu esse corpo legislativo, que aqui conheceu efetiva vigência no primeiro século das Terras de Santa Cruz. Embora as Ordenações Manuelinas tenham sido revogadas pelas Filipinas, em 1603, acabaram perdurando no tempo. Grande parte de seu conteúdo estava incluso na legislação subsequente e inúmeras de suas disposições continuaram em vigor. Tais normas atravessaram a Independência do Brasil, o 2º Império e a República. Mais de três séculos depois é que o Código Civil de 1917 foi promulgado.

Refletir sobre as Ordenações é mapear o processo de estabelecimento do direito português, monárquico e centralizador, onde a Corte era tida como a “última instância de recurso” no Reino e o Rei, a “última instância de justiça”. O primeiro livro das Ordenações Manuelinas, editado em dezembro de 1512, abarcava os regimentos, os cargos e as atribuições da administração judiciária. É nele que se arrolam as categorias de chanceleres-mor, desembargadores, corregedores, ouvidores, meirinhos, porteiros, carcereiros, entre outros. Há igualmente, as cláusulas quanto a administração e as pontuações quanto aos deveres dos vereadores, almotacés, alcaides, tabeliães. De tal modo, se define e alicerça a máquina administrativa e burocrática do Estado.
No Título 46, “Dos Vereadores das Cidades, Villas, e cousas que a seus Officios pertencem”, se lê no item II que os vereadores farão guardar em uma arca grande e boa, todos os Forais, Tombos, Privilégios e quaisquer outra Escritura que pertençam ao Conselho. Esta área terá duas fechaduras, das quais uma chave terá o Escrivão da Câmara e outra, um dos vereadores. Assim, D. Manuel designou que em todo e qualquer espaço de povoamento do Império Ultramarino fosse instituído um lugar de guarda dos documentos públicos, um arquivo. Não esqueceu igualmente, de regrar pela segurança das informações ali contidas e sabia que sem estas, direitos e deveres não seriam resguardados em uma sociedade escravocrata e pouco letrada.

Quando Estácio de Sá, sobrinho do Governador Geral do Brasil (1557-72), Mem de Sá, desembarcou em Salvador, Bahia, em 1563, tinha como missão fundar uma cidade nas terras da Guanabara e expulsar os franceses que aqui estavam. A família Sá era de fidalgos do Rei. Mem de Sá licenciou-se em Direito e serviu à Coroa por 39 anos. Foi o 1º jurista nomeado para um governo no além-mar e o garantidor dos interesses do Estado português no Brasil. Tendo em mãos as Ordenações Manuelinas, o apoio da Companhia de Jesus e o poder da guerra, investiu na unidade politico-administrativa, no povoamento e na produção de riqueza.

 

 

Em 1º de março de 1565, a Muy leal e heroica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro foi instituída por Estácio de Sá em um terreno plano entre os morros Cara de Cão e Pão de Açúcar. Neste acampamento militar estavam as bases para a luta que expulsaria os franceses dois anos depois, em 20 de janeiro de 1567. Num desenho tipicamente fantástico, Estácio de Sá foi flechado e morreu, tal e qual o santo que nomeia a cidade e que tem naquela data o seu dia.

 

 

O Governador Geral, ao desfazer o cenário da guerra, deslocou os assentamentos que demarcavam a fundação da cidade para o morro do Castelo, no interior da baía da Guanabara. E ali ergueu uma sólida fortaleza. O Rio de Janeiro, por seu lugar estratégico no âmbito geográfico e político, desde o inicio foi instituído como uma urbe.

 

 

Seguindo a diretriz Manuelinas, aqui também se firmou uma “arca grande e boa” para a guarda dos documentos públicos. Origem do acervo em deposito atualmente no Arquivo Geral da Cidade do RJ (AGCRJ), há no conjunto documental da Câmara Municipal e posteriormente, do Senado da Câmara, o Códice “Legislativo Municipal – Correição dos Ouvidores”.

Inscrito na nota de abertura do livro, toma-se ciência que este tomo é uma “cópia do Livro das Provisões e Correição do ano de 1624 até 1747”. Tal duplicidade foi autorizada pela Vereança em janeiro de 1807. Isto porque, o original achava-se bastante danificado. O manuscrito tem às folhas 23, a inscrição:

“Mil seiscentos e trinta e oito = Correição feita pelo Ouvidor Geral Diogo de Sá da Rocha = Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e trinta e oito anos, aos três dias do mês de Março nesta Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, veio a esta Câmara o Ouvidor Geral Diogo de Sá da Rocha em Correição segundo o costume de que fiz este termo, Diogo Lopes Ramos, Escrivão da Correição, e Ouvidoria Geral desta República, digo, desta Repartição do Sul, que o escrevi”.

No verso da folha, compreende-se que o Ouvidor Geral Diogo de Sá da Rocha vem se certificar da inclusão dos Livros de Registros e das Cartas no Arquivo da Câmara. Da mesma forma, cuidou para que quando se entregassem as chaves do Arquivo e cofres da Câmara, as mesmas se fizesse com a segurança de um registro a quem se entrega. Isto porque,
“para se saber as pessoas que as tem as ditas Chaves; não fiarão os Oficiais um dos outros isto, com pena de cinquenta cruzados aplicados para as obras do Concelho, em que os há por condenados todas as vezes que o contrário fizerem, e o Escrivão será obrigado a notificar aos Oficiais presentes, e ao que ao diante forem este Capítulo”.

Abaixo a reprodução das folhas 23 e 24  do Códice “Legislativo Municipal – Correição dos Ouvidores”, “cópia do Livro das Provisões e Correição do ano de 1624 até 1747” **

documento 1

documento 2

 

No ano de 1638, mesmo sob a regência das Ordenações Filipinas, o controle apontado por D. Manuel garantiu que estes subsídios e muitos outros, chegassem até nós e sublinhassem a instituição desta cidade, neste 1º de março, registrada nos detalhes da segurança aos dados públicos.

 

 

*Beatriz Kushnir é  a Diretora-Geral do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro.

**Acervo AGCRJ, fundo Câmara Municipal, Série: Legislativo Municipal. Códice: BR RJAGCRJ.CM.LGM.16.4.10, Folha 23V.

Dia Nacional do Imigrante Italiano

Para celebrar o Dia Nacional do Imigrante Italiano, a Brasiliana Fotográfica homenageia essa comunidade e seus descendentes destacando a obra de dois talentosos fotógrafos de origem italiana que atuaram no Brasil no século XIX e nas primeiras décadas do século XX: Camillo Vedani (18? – c. 1888) e Vincenzo Pastore (1865 – 1918) – eles já foram temas de publicações do portal. Pela importância que a comunidade italiana tem na história do Brasil, a lei nº 11.687, de 2 de junho de 2008 instituiu oficialmente o Dia Nacional do Imigrante Italiano no calendário de todo o território nacional. O dia 21 de fevereiro foi escolhido devido à expedição que Pietro Tabacchi fez ao Espírito Santo, em 1874, marco do início do processo da migração em massa dos italianos para o Brasil. Estima-se que atualmente aproximadamente 30 milhões de descendentes de italianos vivam em terras brasileiras.

Camillo Vedani foi o desenhista da comissão encarregada do estudo do traçado da ferrovia Madeira-Mamoré, em 1883. Identificava-se como “Photographo Paizagista” e era também professor de desenho e da língua italiana, tendo se estabelecido no Rio de Janeiro em torno de 1853. Produziu excelentes registros da cidade e também da Bahia, onde residiu entre 1860 e 1865. Na ocasião, trabalhou para a Bahia and São Francisco Railway.  Voltou para o Rio de Janeiro e morou durante um período em Campos.

 

 

Acessando o link para as fotografias de Camillo Vedani disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

A obra do bem sucedido imigrante italiano, o fotógrafo italiano Vincenzo Pastore, importante cronista visual de São Paulo da segunda metade do século XIX e do início do século XX, ficou, durante décadas, em uma caixa de charutos, sem negativos. O segredo de família chegou ao fim quando as fotografias foram herdadas por seu neto, o pianista e professor Flávio Varani, que as doou – 137 imagens – para o Instituto Moreira Salles, em 1997. Com sua câmara, Pastore capturava tipos e costumes de um cotidiano ainda pacato de São Paulo e com seu olhar sensível flagrava trabalhadores de rua. Ao retratar pessoas simples do povo, Pastore realizou, na época, um trabalho inédito na história da fotografia paulistana.

 

 

Acessando o link para as fotografias de Vincenzo Pastore disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

Para mais informações sobre Camillo Vedani e Vincenzo Pastore acessar as publicações:

O fotógrafo paisagista Camillo Vedani (18?, Itália – c. 1888, Brasil)

Vincenzo Pastore (Casamassima, Itália 5 de agosto de 1865 – São Paulo, Brasil 15 de janeiro de 1918)

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

 

Os aeronautas portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral no Brasil, em 1922

Cartão postal

Mais uma vez a Brasiliana Fotográfica pede ajuda a seus leitores. Agora para a identificação da única mulher presente ao almoço oferecido pela Marinha do Brasil, no Rio de Janeiro, aos aeronautas portugueses Carlos Viegas Gago Coutinho (1869 -1959) e Artur de Sacadura Freire Cabral (1881 – 1924), que realizaram a primeira travessia aérea do Atlântico Sul, em 1922, ano em que se comemorava o centenário da independência do Brasil. Iniciaram a viagem no dia 30 de março de 1922, partindo de Lisboa, a bordo do hidroavião Lusitânia, com destino ao Rio de Janeiro (O Paiz, 31 de março de 1922). Após alguns contratempos e acidentes e escalas na Europa e em algumas cidades do Brasil, chegaram ao destino final, em 17 de junho de 1922, completando a travessia. A população da cidade fez a apoteose magnífica do heroismo, aclamando Gago Coutinho e Sacadura Cabral na mais espontânea, na mais eloquente, na mais grandiosa manifestação popular em que há memória no Brasil (O Paiz, 18 de junho de 1922). Foram recepcionados com vários eventos, um deles a visita à Escola de Aviação Naval, na Ilha das Enxadas, em 26 de março de 1922. São fotografias dessa homenagem e uma imagem produzida por Augusto Malta (1864 – 1957), alguns dias depois, que a Brasiliana Fotográfica traz hoje para seus leitores. Os registros pertencem à Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, uma das parceiras do portal.

 

 

Acessando o link para as fotografias de Gago Coutinho e Sacadura Cabral disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas. 

 

 

 

Nas duas fotografias abaixo há a presença de uma única mulher no almoço na Escola de Aviação Naval. Seria a aviadora Thereza de Marzo (1903 – 1986), pioneira da aviação no Brasil que participou das homenagens aos pilotos (Jornal do Brasil, 21 de junho de 1922, quinta coluna; Jornal do Brasil, 22 de junho de 1922, quinta coluna; Jornal do Brasil, 23 de junho de 1922)? A aviadora francesa Adrienne Bolland (1895 – 1975), primeira mulher que sobrevoou a Cordilheira dos Andes, que estava, na época, no Rio de Janeiro, tendo participado de eventos com os aviadores (O Paiz, 25 de junho de 1922, terceira coluna; Jornal do Brasil, 23 de junho de 1922)? Ou será a mulher de algum dos oficiais? Infelizmente nos registros do almoço na Escola de Aviação Naval não é mencionada nenhuma presença feminina (Jornal do Brasil, 27 de junho de 1922).

 

 

Etapas e resumo da Travessia

 

resumo

 

 

Uma curiosidade: O repórter e fotógrafo de O Cruzeiro, Luciano Carneiro (1926 – 1959), cujo acervo fotográfico está sob a guarda do Instituto Moreira Salles, uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica, foi premiado, em 1948, na Segunda Convenção dos Aviadores Civis, em Poços de Caldas, do qual também participou o aviador Gago Coutinho (1869 – 1959). O acontecimento foi documentado na reportagem O encontro das gerações, com texto de Ibiapaba de Oliveira Martins e fotos de Norberto Esteves (O Cruzeiro, 12 de junho de 1948).

 

 

 

selo

 

 

Cartão postal

 

 

gago-coutinho-e-sacadura-cabral

 

A Brasiliana Fotográfica faz um agradecimento especial à bibliotecária Marcia Prestes Taft, Encarregada da Divisão de Documentos Especiais da Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, e ao arquiteto Bruno Buccalon, da equipe do IMS.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Fontes:

A primeira travessia aérea do Atlântico Sul – Texto apresentado pela delegação brasileira que compareceu ao XI Congresso Ibero-Americano de História Aeronáutica e Espacial realizado em Lisboa em outubro de 2008

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Travessia aérea do Atlântico Sul – Filme da Ensina RTP

Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas: centenário da construção da pesquisa clínica em Manguinhos

A Brasiliana Fotográfica publica o terceiro e último artigo da trilogia em comemoração ao centenário do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, com um texto de autoria de Dilene Raimundo do Nascimento, pesquisadora do Departamento de Pesquisa da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, instituição parceira do portal. Da construção de um centro de ciência na Fazenda de Manguinhos – o Castelo Mourisco – surgiu a ideia de um hospital dedicado aos experimentos, resultantes das expedições científicas realizadas pelos cientistas do Instituto Soroterápico Federal, denominado de Instituto Oswaldo Cruz, em 1908. O novo hospital estaria de acordo com os princípios da moderna higiene, com inspiração no Hospital Pasteur de Paris e a assistência ambulatorial, as internações e os cuidados médicos estariam atrelados a finalidades científicas. O projeto inicial foi assinado pelo arquiteto Luiz de Moraes Júnior, também responsável pela construção do Pavilhão Mourisco. O processo de construção foi registrado pelo fotógrafo J. Pinto. Ao longo de sua história, o Hospital de Manguinhos foi denominado Hospital de Doenças Tropicais, Hospital Oswaldo Cruz, Hospital Evandro Chagas, Centro de Pesquisa Clínica Hospital Evandro Chagas, Instituto de Pesquisa Clínica Evandro Chagas (IPEC) e, desde 2010, Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas.

Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas: centenário da construção da pesquisa clínica em Manguinhos

Dilene Raimundo do Nascimento*

 

A ideologia do progresso e da civilização, vigente no início do século XX, no Brasil (Benchimol,1990), fez de Oswaldo Cruz, como diretor geral da Saúde Pública, nomeado em 1903, o responsável por erradicar as epidemias que ocorriam na cidade do Rio de Janeiro – febre amarela, varíola e peste – sobre as quais Rodrigues Alves, eleito presidente da República em 1902, disse no Manifesto à Nação: “Aos interesses da imigração, dos quais depende em máxima parte o nosso desenvolvimento econômico, prende-se a necessidade do saneamento desta capital (…)” (1) .

A campanha de saneamento da capital do país empreendida por Oswaldo Cruz foi exitosa e ele pode capitalizar seu prestígio para o Instituto Soroterápico Federal, do qual era também diretor. Da construção de um centro de ciência na Fazenda de Manguinhos – o Castelo Mourisco – surgiu a ideia de um hospital dedicado aos experimentos, resultantes das expedições científicas realizadas pelos cientistas do Instituto Soroterápico Federal, denominado de Instituto Oswaldo Cruz, em 1908.

Acessando o link para as fotografias relativas ao centenário da construção da pesquisa clínica em Manguinhos disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Essas expedições adentravam o país para colaborar com empreendimentos ferroviários e hidrelétricos, além de obras de infraestrutura, que compunham o cenário de progresso e civilização, realizados tanto por empresas privadas quanto públicas, no sentido de debelar as doenças que acometiam os trabalhadores desses empreendimentos (Benchimol, 1990).

Os cientistas de Manguinhos se deparavam com uma diversidade de doenças, algumas já identificadas e outras totalmente desconhecidas. Foi em uma dessas expedições, realizada em Minas Gerais com o objetivo de combater a malária para facilitar a construção da Estrada de Ferro Central do Brasil até Pirapora/MG, que Carlos Chagas (1878 – 1934) descobriu, em Lassance, a nova tripanossomíase, que ficou conhecida como doença de Chagas.

 

 

 

Os anseios de Oswaldo Cruz de ter um hospital moderno e equipado para estudos clínicos e epidemiológicos dos doentes tomou mais corpo com o desenrolar das pesquisas da doença de Chagas. Sua repercussão possibilitou a obtenção de recursos, em 1912, para equipar um pequeno hospital em Lassance, para continuidade das pesquisas in loco, e para construir um hospital em Manguinhos (Decreto 9.346, de 24 de janeiro de 1912).

 

 

O plano de prover a cidade de um novo hospital de acordo com os princípios da moderna higiene, com inspiração no Hospital Pasteur de Paris, possibilitaria o isolamento individual dos doentes. A assistência ambulatorial, as internações e os cuidados médicos estariam atrelados a finalidades científicas, diferindo, dessa maneira, do modelo de hospitais voltados para a assistência em geral às populações urbanas. Ambicioso, o projeto inicial foi assinado pelo arquiteto Luiz de Moraes Júnior, também responsável pela construção do Pavilhão Mourisco, e previa a construção de seis pavilhões, dos quais só um se concretizou 3 (Cotrim, 2004). As obras foram iniciadas tão logo a verba foi liberada e concluídas em 1918, ano de sua inauguração. Oswaldo Cruz, falecido em 1917, não chegou a ver o hospital concluído. O processo de construção foi registrado pelo fotógrafo J. Pinto, desde a organização do canteiro de obras até a montagem da estrutura primária do edifício, de ferro forjado e em forma de gaiola.

 

 

 

 

Carlos Chagas, que se tornou diretor do Instituto Oswaldo Cruz, com a morte deste, tinha total envolvimento com o Hospital de Manguinhos, porque ali ele acompanhava os seus casos de Doença de Chagas, doentes trazidos do interior.

 

 

Ainda estudante, seu filho Evandro Chagas foi trabalhar no hospital, juntamente com outros pesquisadores como Eurico Vilela, primeiro diretor do hospital de Manguinhos, Lobato Paraense, Nery Guimarães, Emanuel Dias, dentre outros. Evandro Chagas desempenhou toda a sua prática profissional no Hospital de Manguinhos, desenvolvendo a partir dele suas incursões ao interior do Brasil para pesquisar, principalmente, casos de leishmaniose visceral americana. Nessas expedições, deparou-se com as várias endemias existentes no país, que o motivaram a criar o Serviço de
Estudos de Grandes Endemias (SEGE), no âmbito do Instituto Oswaldo Cruz, em 1937.

Sua ideia de expandir institucionalmente os estudos realizados no Hospital de Manguinhos já o havia levado a negociar com o governador do estado do Pará a criar no ano anterior o Instituto de Patologia Experimental do Norte (IPEN). O governador criou o instituto com a condição de ele se dedicar não somente ao calazar, mas também a outras doenças tropicais importantes daquela região, como a malária, a leishmaniose tegumentar, a amebíase, as parasitoses intestinais etc. Mas era natural que o calazar tivesse sido a primeira doença estudada pelo instituto. E foi com o calazar que o Evandro Chagas começou a trabalhar com a sua equipe, da qual faziam parte os irmãos Deane. A primeira viagem foi feita em dezembro de 1936. Leônidas Deane relata, em entrevista concedida à revista História, Ciência e Saúde – Manguinhos:

 “foi nosso primeiro contato com a selva (…), nós que nunca tínhamos saído de Belém, sempre citadinos. E tivemos uma experiência bem especial, porque todos os ruídos — ruídos dos sapos, dos grilos etc. — para nós eram como se fossem feras (…).”
“[Evandro] era um sujeito muito corajoso. Realmente ele dava o exemplo para tudo, porque era um homem muito arrojado, audacioso, inclusive. Fazia questão de mostrar que não tinha medo de coisa nenhuma. Como eu disse, ele ia para essas viagens de bermudas, botas e o chapéu colonial. E naturalmente os outros apetrechos, como a máquina fotográfica e o microscópio de campo, que ele usava a tiracolo também”(2).

Foi em Piratuba que encontraram os primeiros casos de calazar, vivos, da região amazônica. Examinavam as pessoas, pesquisando baço grande; se encontrasse faziam punção para procurar leishmânia. Evandro Chagas voltou a essa cidade várias vezes para dar continuidade à sua pesquisa de leishmânia e discutir e orientar a sua equipe do Pará.

 

 

A morte precoce e repentina de Evandro Chagas, em um acidente aéreo na Baía de Guanabara, aos trinta e cinco anos de idade, em 08 de novembro de 1940, interrompeu suas pesquisas em andamento e deixou sua equipe impactada. Para interromper um clima de instabilidade que se estabeleceu após a morte de Evandro Chagas, o então ministro da Educação e Saúde, Gustavo Capanema, nomeou Carlos Chagas Filho diretor do hospital e chefe do Serviço de Estudos de Grandes Endemias, que aí permaneceu por três anos. Apesar das dificuldades decorrentes da morte repentina de Evandro Chagas, o hospital permaneceu pelas mãos e esforços de seus pesquisadores, médicos e funcionários empenhados em realizar pesquisas clínicas a respeito de doenças infecciosas e parasitárias, em que se destacam a doença de Chagas, a leishmaniose, a malária, a toxoplasmose e a esquistossomose. Em 1942, em homenagem póstuma, o hospital foi nomeado Evandro Chagas, nome que carrega até hoje.

 

 

Ao longo de sua história, o Hospital de Manguinhos foi denominado Hospital de Doenças Tropicais, Hospital Oswaldo Cruz, Hospital Evandro Chagas, Centro de Pesquisa Clínica Hospital Evandro Chagas, Instituto de Pesquisa Clínica Evandro Chagas (IPEC) e, desde 2010, Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas.

Em sua história constam fases de decadência, principalmente, no período da Ditadura Militar, instaurada com o golpe de 1964 e que perdurou por vinte e um anos, e fase de ascensão, com o processo de redemocratização no país.

Nessa ocasião, surgiram os primeiros casos de aids no Brasil, doença infecciosa grave e, na época, fatal, com uma tendência de crescimento. A questão central na defesa da permanência do Hospital Evandro Chagas na Fiocruz foi exatamente a sua vocação no âmbito das doenças infecciosas. O contexto epidêmico da aids contribuiu para impulsionar a reestruturação do
hospital.

Esta teve entre seus princípios a pesquisa clínica ampliada, que não se restringe aos médicos infectologistas, mas se expande a outras especialidades para alargar e aprofundar o conhecimento sobre o doente e sobre a doença, como a enfermagem, serviço social, nutrição, farmácia e psicologia. De acordo com essa concepção, era importante compreender as relações de adoecimento do paciente e o contexto que ele traz para o hospital. A empreitada foi liderada pela Dra. Keyla Marzochi, uma das principais entusiastas da pesquisa clínica ampliada, que elaborou o projeto de reestruturação apresentado e aceito pela presidência da Fiocruz.

Denominado Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI) desde o VI Congresso Interno da Fiocruz, realizado em 2010, o INI hoje se caracteriza pela excelência na pesquisa clínica, na assistência, no ensino e na gestão voltados tanto para a saúde humana como para a saúde animal, a partir dos estudos de zoonoses, além de ser referência no campo das doenças infecciosas. A pesquisa clínica desenvolvida no INI, desde sua reestruturação, como diz sua atual diretora, Valdiléa Veloso, é uma construção coletiva que congrega vários saberes dos diferentes profissionais que trabalham na unidade, com inclusão dos usuários, visando à melhoria da saúde da população.

Ao completar os seus 100 anos, no ano de 2018, a luta pela saúde pública implica para o INI a prática da pesquisa clínica ampliada, a assistência − em especial aos grupos vulneráveis −, o ensino para formar e capacitar novos profissionais na área, uma gestão participativa e parcerias com movimentos sociais e instituições nacionais e internacionais nessas áreas de atividade, e, a partir disso, dá sua inestimável contribuição para o desenvolvimento do SUS – Sistema Único de Saúde.

 

(1) Manifesto Inaugural de Francisco de Paula Rodrigues Alves, presidente eleito para o quadriênio de1902 a 1906. 15 de novembro de 1902. Rio de Janeiro, 1902, p. 11.

(2) História, Ciência e Saúde – Manguinhos. Vol.1, nº1, jul/out., 1994. Seção Depoimento.

 

*Dilene Raimundo do Nascimento é pesquisadora do Departamento de Pesquisa da Casa de Oswaldo Cruz

 

Outros textos sobre o centenário do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas publicados na Brasiliana Fotográfica:

Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas: 100 anos de pesquisa clínica, por Cristiane d´Avila, em 26/10/2018

Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas 100 anos: Carlos e Evandro Chagas em retratos de família, por Aline Lopes de Lacerda, em 27/11/2018

Novos acervos: Museu Histórico Nacional

A Brasiliana Fotográfica apresenta a seus leitores seu nono parceiro, o Museu Histórico Nacional (MHN), com o artigo “Os salesianos, os Bororos e a banda de crianças indígenas que mudou a história”, da historiadora da instituição, Maria Isabel Ribeiro Lenzi, e com a disponibilização das imagens do álbum “Missão em Mato Grosso”que pertence à Coleção Miguel Calmon, ministro da Viação e Obras Públicas no governo do presidente Afonso Pena. Com a adesão desse importante museu, o portal segue cumprindo um de seus objetivos, o de abordar todos os usos e funções da fotografia brasileira. Seus outros parceiros são o Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, o Arquivo Nacional, a Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz, a Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, o Leibniz-Institut fuer Laenderkunde e o Museu da República, além do Instituto Moreira Salles e da Fundação Biblioteca Nacional, criadores da Brasiliana Fotográfica.

Os salesianos, os Bororos e a banda de crianças indígenas que mudou a história

Maria Isabel Ribeiro Lenzi*

 

O álbum “Missão em Mato Grosso”, de 1908, retrata os trabalhos dos salesianos e das irmãs de Nossa Senhora Auxiliadora com os índios Bororos. São 69 fotografias do início do século XX que documentam o trabalho de educação desenvolvido pelos missionários pelo qual ensinavam música, português, matemática, prática agrícola e ciências, além de promoverem a evangelização. Infelizmente, a autoria das fotografias é desconhecida.

Em missão de paz, os irmãos salesianos chegaram à terra dos Bororos, em Mato Grosso, em 1895. Anteriormente, já havia sido tentado contato com os índios, mas o conflito pela terra provocou muitas mortes, resultando na fuga dos índios, que não aceitavam se submeter, nem abandonar seus costumes. O bispo dom Luiz Lasagna foi o responsável pela implantação dos projetos salesianos em Mato Grosso, porém, com o seu falecimento, coube ao padre Antônio Malan dar continuidade às propostas de dom Luiz Lasagna. Padre Malan foi, então, o primeiro Inspetor da Missão Salesiana em Mato Grosso, tendo fundado colégios em Cuiabá e Corumbá, além das missões do Sagrado Coração do Rio Barreiro, da Imaculada no Rio das Garças e de São José no Sangradouro.

O método salesiano se distinguia das outras abordagens de contato por evitar uma postura de repressão, preferindo se basear na razão, na religião e na bondade. Foram criadas a Colônia Sagrado Coração, num local conhecido como Tachos, e a Colônia Imaculada Conceição, próxima ao Rio das Garças. O padre Antônio Malan, percebendo os aspectos de confluência da religiosidade bororo com o cristianismo, não menosprezou o papel que a cultura daqueles índios poderia exercer no processo de evangelização. A aptidão que demonstravam para a música foi canalizada para a formação de uma banda com os meninos bororos, que acabou tendo importância estratégica para a sobrevivência das sociedades indígenas no Brasil(1).

Acessando o link para as fotografias do álbum “Missão em Mato Grosso” do acervo do Museu Histórico Nacional disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Naquele momento, em 1908, cedendo à pressão social, o presidente Afonso Pena estava prestes a assinar um decreto que avalizava o extermínio dos povos indígenas (2). O padre Antônio Malan encontrou uma maneira inédita de mudar a opinião brasileira a respeito dos índios, valendo-se da vocação musical dos Bororos. Ele levou vinte e um Bororos integrantes da banda de música para tocar no Rio de Janeiro, no Pavilhão de São Paulo no âmbito da Exposição Nacional de 1908, que comemorava o centenário da Abertura dos Portos. A banda tocou ainda no Teatro João Caetano, na Câmara dos Deputados, no Senado e, diante do presidente Afonso Pena, no Palácio do Catete, então sede da Presidência da República. Na ocasião, eles interpretaram com primor temas clássicos, inclusive o Hino Nacional. Os jornais de então exaltaram o talento artístico dos Bororos e também abriram suas páginas para o discurso do padre Malan, pedindo a restituição aos índios “de uma pátria que lhes foi roubada em nome de uma falsa civilização conquistadora, liberticida. Pátria, senhores, de que são eles os verdadeiros donos, e que saberão amar, defender e ilustrar, se isso os ensinarmos com nosso esforço e nosso exemplo” (3).

 

 

O presente álbum pertence à Coleção Miguel Calmon, que foi ministro da Viação e Obras Públicas no governo Afonso Pena. De acordo com o jornal O Paiz, o padre Malan projetou fotografias (provavelmente deste álbum) em palestra que proferiu no Museu Comercial (4).

Ainda segundo O Paiz, no dia 10 de outubro de 1908, o padre Malan foi despedir-se do Ministro da Viação (5). Acreditamos que o álbum tenha sido oferecido a Miguel Calmon nesta ocasião, para demonstrar às autoridades os trabalhos que estavam sendo desenvolvidos entre os Bororos, e, sobretudo, comprovar a humanidade dos mesmos. Segundo Nelson Gil Tolentino, “a ação corajosa do padre Malan no Rio de Janeiro foi determinante para a sobrevivência dos índios. Depois disso, o debate sobre o extermínio dos índios, em nível nacional e internacional, foi perdendo a força, e seu respectivo decreto nunca foi promulgado”(6).

 

(1 )TOLENTINO, Nelson Gil.

(2)Idem

(3) NOVAES, Sylvia Caiuby. Jogos de Espelhos. São Paulo: Edusp, 1993. p.171

(4 ) Museu Comercial era uma entidade ligada à propaganda dos produtos, incentivando o comércio entrepaíses. No Brasil, foi criado em 1905 e encampado pelo Departamento Nacional de Comércio em 1931.

(5) O PAIZ. Rio de Janeiro, p. 02, 10/10/1908. Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=178691_03&pasta=ano%20190&pesq=padre%20m
alan. Acesso em 28/09/2017

(6 ) TOLENTINO, Nelson Gil.

 

*Maria Isabel Ribeiro Lenzi é Doutora em História pela UFF e historiadora do Arquivo Histórico do Museu Histórico Nacional (IBRAM/MinC)

 

BIBLIOGRAFIA:

CAVALHEIRO, Elisangela. Exposição conta a história dos Salesianos de Dom Bosco em estados do Centro-Oeste. In Redação A12.

NOVAES, Sylvia Caiuby. Jogos de Espelhos. São Paulo: Edusp, 1993, p. 171

TOLENTINO, Nelson Gil. Ética Bororo: a sobrevivência de um povo. In: Interações, vol. 10, no 2. Campo Grande, jul/dez. 2009.

 

Notícias sobre a participação da banda dos bororos na Exposição Nacional de 1908

 em comemoração ao centenário da Abertura dos Portos às Nações Amigas 

Andrea C. T. Wanderley**

 

Em 11 de agosto de 1908, foi inaugurada a Exposição Nacional de 1908, na região da Urca, no Rio de Janeiro, em comemoração ao centenário da Abertura dos Portos às Nações Amigas, decretada em 28 de janeiro de 1808, pelo então príncipe regente de Portugal, dom João de Bragança, futuro dom João VI (1767 – 1926)(O Paiz, 11 de agosto de 1908). A exposição exibiu um “inventário” do Brasil através de seus produtos industriais, agrícolas, pastoris e artísticos. Promovida pelo governo federal, apresentou a cidade do Rio de Janeiro, recém urbanizada e saneada pelo então prefeito Francisco Pereira Passos (1936 – 1913) e  pelo cientista Oswaldo Cruz (1872 – 1917), respectivamente. O evento foi encerrado em 15 de novembro de 1908 (O Paiz, 16 de novembro de 1908, sexta coluna).

Iminente embarque do padre Toledo, inspetor das missões salesianas em Mato Grosso, com a banda dos bororos para o Rio de Janeiro, onde a banda tocaria no Pavilhão de São Paulo da Exposição Nacional do Rio de Janeiro. O religioso pretendia apresentar o grupo ao presidente Afonso Pena (1847 – 1909). A banda havia estado em Corumbá, Assunção, Buenos Aires, cidades do sul do Brasil, Santos, São Paulo e Lorena, dentre outras (O Paiz, 24 de setembro de 1908, quarta coluna).

Chegada da banda dos bororos ao Rio de Janeiro (O Paiz, 27 de setembro de 1908, quinta coluna).

Apresentação da banda dos bororos no Palácio do Catete, onde foram recebidos pelo presidente da República, Afonso Pena (Gazeta de Notícias, 23, quarta coluna28 de setembro de 1908, quarta coluna e Matto-Grosso – Revista Mensal de Sciencias, Lettras, Artes e Variedades, outubro de 1908).

Com o padre Toledo, os índios bororos assistiram à inauguração do Pavilhão de São Paulo na Exposição Nacional (Diário de Notícias, 29 de setembro de 1908, segunda coluna). Também fizeram uma visita ao ministro da Viação, Miguel Calmon (O Paiz, 29 de setembro de 1908, última coluna).

A banda dos bororos se apresentou no Colégio São Vicente, em Petrópolis (O Paiz, 1º de outubro de 1908, última coluna).

Publicação do programa que a banda apresentaria na Exposição de 1908 (O Paiz, 3 de outubro de 1908, segunda coluna).

Publicação do programa da apresentação dos bororos no Teatro João Caetano (Jornal do Brasil, 4 de outubro de 1908, terceira coluna).

Anúncio da conferência sobre os bororos que o padre Malan faria no dia seguinte no salão da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro. Antes e depois da conferência, haveria apresentação da banda. A conferência seria ilustrada com projeções luminosas (O Paiz, 5 de outubro de 1908, segunda coluna).

Apresentação da banda dos bororos na Exposição de 1908 com a presença do ministro da Indústria, Miguel Calmon (O Paiz, 5 de outubro de 1908, quinta coluna).

 

Realização de uma festa em benefício dos bororos, no Teatro João Caetano. Foram identificados como recém nascidos na vida civilizada (O Paiz, 8 de outubro de 1908, penúltima coluna).

Notícia da realização da conferência sobre os bororos realizada pelo padre Malan no salão da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro (O Paiz, 8 de outubro de 1908, quinta coluna e Jornal do Brasil, 11 de outubro de 1908, segunda coluna).

Os bororos visitaram a Câmara dos Deputados e o Senado e a frente dos edifícios das duas instituições executou o Hino Nacional (O Paiz, 9 de outubro de 1908, segunda coluna).

Acompanhado por um bororo, o padre Malan foi despedir-se do ministro da Viação, Miguel Calmon. Acredita-se que nessa ocasião o padre teria presenteado o ministro com o álbum “Missão em Mato Grosso” (O Paiz, 10 de outubro de 1908, segunda coluna).

Publicação de uma fotografia da banda dos bororos no Colégio dos Salesianos de Niterói (Fon-Fon, 10 de outubro de 1908).

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Publicação de diversas notícias relativas à temporada dos bororos no Rio de Janeiro (Matto-Grosso – Revista Mensal de Sciencias, Lettras, Artes e Variedades, dezembro de 1908).

 

**Andrea C.T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fonte:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional