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E o ex e futuro presidente do Brasil morreu de gripe…a Gripe Espanhola de 1918

 

 

E o ex e futuro presidente do Brasil, Francisco de Paula Rodrigues Alves (1848 – 1919), faleceu de Gripe Espanhola! Logo ele que em seu mandato como o quinto presidente da República do Brasil, exercido entre 1902 e 1906 (Gazeta de Notícias, 16 de novembro de 1902, sexta colunaGazeta de Notícias, 16 de novembro de 1906, segunda coluna), designou o médico e sanitarista Oswaldo Cruz (1872 – 1917) para a chefia do Departamento Nacional de Saúde Pública, justamente para melhorar as condições sanitárias do Rio de Janeiro deflagrando a reforma sanitária da capital, combatendo primordialmente a febre amarela, a peste bubônica e a varíola.

Além de Oswaldo Cruz, os engenheiros Francisco Pereira Passos (1836 – 1913), nomeado por Alves prefeito do Rio de Janeiro, em dezembro de 1902 (Gazeta de Notícias, 31 de dezembro de 1902, na sexta coluna), e Paulo de Frontin  (1860 – 1933) foram fundamentais durante o governo de Rodrigues Alves: Passos foi o prefeito do “bota-abaixo” e Frontin, presidente do Clube de Engenharia, o engenheiro-chefe da construção da Avenida Central.

 

Acessando o link para as fotografias de Rodrigues Alves disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Rodrigues Alves foi eleito presidente do Brasil, pela segunda vez, em 1º de março de 1918. Acometido pela doença, não pode tomar posse no dia 15 de novembro de 1918, tendo seu vice, Delfim Moreira (1868 – 1920), assumido o cargo em seu lugar. Rodrigues Alves faleceu meses depois, em janeiro de 1919, confinado em sua casa na rua Senador Vergueiro, no Flamengo, bairro do Rio de Janeiro (Gazeta de Notícias, 16 de janeiro de 1919Gazeta de Notícias, 17 de janeiro de 1919O Malho , 25 de janeiro de 1919). Foi enterrado em Guaratinguetá, cidade paulista onde nasceu (O Paiz, 18 de janeiro de 1919).

 

“Depois da morte do Barão do Rio Branco, nenhuma outra poderia, sob o ponto de vista nacional, representar prejuízo maior para o Brasil do que a do conselheiro Rodrigues Alves”.

 

 

Ele foi a mais notória vítima brasileira da Gripe Espanhola, que matou cerca de 300 mil pessoas no país. Novas eleições foram convocadas para 13 de abril de 1919 e o paraibano Epitácio Pessoa (1865 – 1942) foi eleito.

 

 

Mas depois da tragédia veio a esbórnia! O que seguiu no Rio de Janeiro, em março, foi um carnaval animadíssimo, como uma vingança contra a terrível doença que havia atingido intensamente a cidade. Foi publicado no Correio da Manhã de 20 de janeiro de 1919:

 

 

 

No 12º capítulo das “Memórias de Nelson Rodrigues” foi publicado, em 10 de março de 1967, no Correio da Manhã: 

“Estou aqui reunindo as minhas lembranças. Aquele Carnaval foi, também, e sobretudo, uma vingança dos mortos mal vestidos, mal chorados e, por fim, mal enterrados. Ora, um defunto que não teve o seu bom terno, a sua boa camisa, a sua boa gravata é mais cruel e mais ressentido do que um Nero ultrajado. E o Zé de S. Januário está me dizendo que enterrou sujeitos em ceroulas, e outros nus como santos. A morte vingou-se, repito, no Carnaval… E tudo explodiu no sábado de Carnaval. Vejam bem: até sexta-feira, isto aqui era o Rio de Machado de Assis; e, na manhã seguinte, virou o Rio de Benjamim Costallat […] Desde as primeiras horas de sábado, houve uma obscenidade súbita, nunca vista, e que contaminou toda a cidade. Eram os mortos da espanhola e tão humilhados e tão ofendidos que cavalgavam os telhados, os muros, as famílias… Nada mais arcaico do que o pudor da véspera. Mocinhas, rapazes, senhoras, velhos cantavam uma modinha tremenda. Eis alguns versos: ‘Na minha casa não se racha lenha,/ Na minha racha, na minha racha./ Na minha casa não há falta d’água,/ Na minha abunda, na minha abunda’”.

 

 

Anos depois, Carlos Heitor Cony (1926 – 2018) escreveu, na Folha de São Paulo de 19 de fevereiro de 1996, um artigo sobre a Gripe Espanhola e o carnaval de 1919:

“No Rio, o sujeito ia atravessar a rua, botava o pé no meio-fio com plena saúde e chegava morto ao meio-fio do outro lado. Era fulminante a gripe, os parentes deixavam os mortos nos bondes, pagavam a passagem deles, como se passageiros fossem. Não havia tempo nem lugar para o enterro. Natural que, depois da fase mortuária, viesse a fase libertária, ou libertina, basta dizer que as delegacias da cidade registraram a queixa de 4.315 defloramentos e outros tantos casos de abandono do lar, adultério e até incesto.”

 

 

Um pouco sobre a Gripe Espanhola, a primeira e mais letal pandemia do século XX 

 

 

A Gripe Espanhola aconteceu, entre 1918 e 1920, em três ondas . Aparentemente, a primeira ocorreu entre março e abril de 1918 ainda durante a Primeira Guerra Mundial. Sua origem é até hoje uma dúvida: teria surgido na Ásia ou em campos militares no interior dos Estados Unidos? O nome Gripe Espanhola é atribuído ao fato de que a Espanha, neutra durante a Primeira Guerra Mundial, ter reconhecido a gripe como problema e ter permitido a divulgação de informações epidemiológicas sobre a doença.

O fato é que a gripe rapidamente se espalhou pela Europa Ocidental e, em julho, já havia chegado à Polônia. Durante o verão do mesmo ano, durante o mês de agosto, em sua segunda onda, uma forma mais letal da doença surgiu – causava pneumonia e, usualmente, dois dias depois do primeiro sintoma, o paciente falecia. A terceira onda ocorreu no inverno de 1919. A pandemia acometeu cerca de 50 % da população mundial e a Organização Mundial de Saúde estima que tenha causando entre 20 e 40 milhões de mortes.

Inicialmente, a repercussão no Brasil da disseminação da doença na Europa foi de despreocupação por parte das autoridades de saúde do país. Imaginaram que a distância entre os continentes, com um oceano os separando, não permitiria a chegada da epidemia em nosso país. Uma nota sem destaque no jornal O Paiz, de 1º de agosto de 1918, referia-se a doença como intensa porém sem gravidade. Em outra nota, também publicada em O País, cinco dias depois, noticiava-se, de novo sem nenhum destaque, a relação entre a gripe infecciosa e o preço do limões.

 

 

Supõe-se que a Gripe Espanhola tenha chegado no Brasil em 9 de setembro de 1918, no navio inglês SS Demerara, que partiu de Liverpool, na Inglaterra e fez escalas em Lisboa, no Recife, em Salvador e no Rio de Janeiro (Jornal do Recife, 10 de setembro de 1918, primeira colunaGazeta de Notícias, 16 de setembro de 1918).

 

 

“A seu bordo, durante a travessia, grassou com caráter epidêmico a tal “hespanhola” ou “dançarina”, influenza há pouco aparecida na Espanha e que tem grassado em uutras cidades da Europa”

Nesse mesmo mês foi noticiado que marinheiros brasileiros que prestavam serviço militar em Dakar, no Senegal, e oficiais da missão médica militar que havia partido no navio Plata tinham contraido a Gripe Espanhola (Jornal do Brasil, 22 de setembro de 1918, A Noite, 23 de setebmro de 1918Jornal do Brasil, 24 de setembro de 1918Revista da Semana, 28 de setembro de 1918Gazeta de Notícias, 5 de outubro de 1918, segunda coluna; e Folha de São Paulo, 1º de abril de 2012).

 

 

Entre os meses de setembro e novembro de 1918, a epidemia assolou o Brasil.  Em outubro, foram diagnosticados casos em Niterói e as primeiras mortes no Estado do Rio foram reportadas em 14 de outubro, quando o número de pacientes chegava já a 20 mil.

 

 

 

O quinino, a canja de galinha, preparados a base de limão, cachaça e outros eram usados contra a doença. A Bayer oferecia a aspirina Fenacetina (O Paiz, 30 de outubro de 1918, quarta coluna) e um laboratório produziu o remédio homeopático Grippina, fórmula do médico Alberto Seabra (A Noite, 10 de outubro de 1918). Balas peitoraes também e gargarejos com Diogexen eram oferecidos como cura para a doença (Careta, 26 de outubro de 1918; e Fon-Fon, 2 de novembro de 1918).

 

 

A essa altura o pânico já tomava conta do Rio de Janeiro, na época capital do Brasil. São Paulo começava também a registrar seus primeiros casos (Correio Paulistano, 17 de outubro de 1918). Outras cidades do Brasil foram atingidas mas nenhuma como o Rio.

 

 

 

O então Diretor Geral de Saúde Pública, Carlos Seidl (1867 – 1929), renunciou.

 

 

Foi substituído por Theóphilo Torres (1863 – 1928) (Gazeta de Notícia, 19 de outubro de 1918, penúltima coluna), que convidou o pesquisador Carlos Chagas (1879 – 1934), que havia assumido a direção do Instituto Oswaldo Cruz em 1917, para atuar no controle da epidemia. Chagas liderou a campanha de combate à doença, implementando cinco hospitais emergenciais e 27 postos de atendimento à população em diferentes pontos do Rio de Janeiro (Gazeta de Notícias, 22 de outubro de 1918). Chagas e sua família adoeceram, mas todos sobreviveram.

 

 

Mas mesmo no auge da tragédia, o humor esteve presente na imprensa carioca.

 

 

Houve um aumento no preço dos alimentos, alguns escassearam e muitos estabelecimentos, dentre eles fábricas, teatros, escolas, restaurantes e bares fecharam suas portas. Atividades básicas foram praticamente suspensas e saques começaram a ocorrer pela cidade. A polícia passou então a garantir que em cada bairro houvesse uma farmácia e uma padaria aberta.

 

 

Em 19 de outubro foi decretado um feriado de três dias e o governo tomou providências como a abertura de novos postos de assistência e de pavilhões com leitos para receber doentes, a divisão da cidade em zonas com médicos autorizados a ordenar tudo quanto o doente precisar. Também determinou a publicação de “conselhos ao povo” e um apelo foi feito para que médicos, farmacêuticos e estudantes colaborassem com a Saúde Pública (Jornal do Brasil, 20 de outubro de 1918 e O Paiz, 20 de outubro de 1918).

 

 

“O número de casos declinou drasticamente no final de outubro, retornando a cidade pouco a pouco às suas rotinas diárias, ficando no ar por muitos meses a pergunta se haveria uma volta da epidemia, o que afinal não ocorreu.” (1)

 

 

Estima-se que cerca de 65% da população brasileira tenha sido infectada pela Gripe Espanhola e por volta de 35.240 pessoas tenham morrido em São Paulo e no Rio de Janeiro e 300 mil em todo o Brasil. Esses números variam e diversas fontes os consideram abaixo das estatísticas reais.

 

 

Famílias inteiras foram dizimadas, principalmente as que viviam em condições mais vulneráveis. Os corpos acabavam sendo deixados na rua, onde permaneciam alguns dias até serem recolhidos, ampliando o cenário de devastação. Houve falta de serviço de transporte, alta dos preços e escassez de alimentos. Por volta de 19 de outubro, a doença já havia atingido metade da população do Rio, estimada em 700 mil pessoas, deixando a cidade vazia e silenciosa … este cenário crítico perdurou até o final do mês, quando houve um declínio drástico no número de casos e a cidade começou a retornar às suas rotinas diárias. Estima-se a epidemia tenha causado a morte de cerca de 15 mil pessoas no Rio.(2)

Além de Rodrigues Alves, outros brasileiros famosos foram vítimas da gripe, dentre eles a educadora Anália Franco (1853 – 1919) e, provavelmente, o poeta de literatura de cordel Leandro Gomes de Barros (1865 – 1918). Personalidades internacionais como os pintores austríacos Egon Schiele (1890 – 1918) e Gustav Klimt (1862 – 1918), os escritores franceses Edmond Rostand (1868 – 1918) e Guillaume Appolinaire (1880 – 1918), as crianças portuguesas Francisco (1908 – 1919) e Jacinta (1910 – 1920) do famoso Milagre de Fátima, os irmãos John (1864 – 1920) e Horace Dodge (1868 – 1920), empresários da indústria automobilística; o pianista Henry Hagas (1891 – 1919), da Original  Dixieland Jazz Band, o sociólogo alemão Max Weber (1864 – 1920) e Sophie (1893- 1920),  filha de Sigmund Freud, também foram vitimados pela doença.

Outros que foram infectados mas sobreviveram à gripe foram o pintor Edvard Munch (1863 – 1944), o então futuro presidente dos Estados Unidos, Franklin Delano Roosevelt (1882 – 1945);  o escritor Franz Kafka (1883 – 1924), a pintora Georgia O’Keeffe (1887 – 1986),  a escritora Katherine Anne Porter (1890 – 1980), as estrelas do cinema mudo Mary Pickford (1892 – 1979) e Lillian Gish (1893 – 1993); o cineasta Walt Disney (1901 – 1966), e além do então presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson (1856 – 1924).

Link para fotografias de aspectos da Gripe Espanhola no site Getty Images

A escritora inglesa Virginia Woolf (1882 – 1941), testemunha do impacto da Gripe Espanhola, registrou em seu diário em outubro de 1918: “Estamos … no meio de uma praga só comparável à Peste Negra“. Em seu ensaio “Doença: uma mina inexplorada“, de 1926, escreveu:

Se considerarmos o quão comum é a doença, quão terrível é a mudança espiritual que ela acarreta, quão medonhos, quando as luzes da saúde se apagam, são os países virgens que se descerram, as ruínas e desertos d’alma que um leve ataque da influenza traz à tona, os precipícios e relvas regadas de resplandecentes flores que um pequeno aumento de temperatura revela, os carvalhos antigos e obdurados que se nos desenraizam no ato da doença, como adentro o abismo da morte descemos e sentimos as águas da aniquilação bem acima de nossas cabeças e despertamos jurando nos encontrar na presença de anjos e querubins quando temos um dente extraído e, voltando à superfície da cadeira do dentista, confundimos o seu “Abra a boca – abra a boca” com as boas-vindas da Divindade a se inclinar do chão do Céu para nos acolher – quando pensamos nisto e numa infinidade mais, como tão frequentemente somos forçados a pensá-lo, parece deveras estranho que a doença não tenha, junto com o amor, a batalha, a inveja, tomado seu posto entre os temas primordiais da literatura. Romances, pensar-se-ia, teriam sido dedicados à Influenza; poemas épicos à Tifóide; odes à Pneumonia, Apendicites e Câncer; cânticos à Dor de Dente. Mas não: com algumas poucas exceções – de Quincey arriscou algo do tipo em Confissões de um comedor de ópio; deve haver um volume ou dois sobre doença espalhados pelas páginas de Proust – a literatura se esforça ao máximo para sustentar que sua preocupação é com o espírito; que o corpo é uma camada de vidro límpido através da qual a alma enxerga clara e distintamente e que, salvo uma ou duas paixões tais como o desejo e a cobiça, ele é nulo, insignificante e inexistente“.

Aqui no Brasil, o futuro escritor e médico Pedro Nava (1903 – 1984), então com 15 anos, testemunha da Gripe Espanhola no Rio de Janeiro escreveu muitas décadas depois:

“Era apavorante a rapidez com que ela ia da invasão ao apogeu, em poucas horas, levando a vítima às sufocações, às diarréias, às dores lancinantes, ao letargo, ao coma, à uremia, à síncope e à morte em algumas horas ou poucos dias. Aterravam a velocidade do contágio e o número de pessoas que estavam sendo acometidas. Nenhuma de nossas calamidades chegara aos pés da moléstia reinante: o terrível não era o número de casualidades mas não haver quem fabricasse caixões, quem os levasse ao cemitério, quem abrisse covas e enterrasse os mortos. O espantoso já não era a quantidade de doentes, mas o fato de estarem quase todos doentes, a impossibilidade de ajudar, tratar, transportar comida, vender gêneros, aviar receitas, exercer, em suma, os misteres indispensáveis à vida coletiva…”.

Ainda no século XX o mundo sofreu com mais duas pandemias: a Gripe Asiática, em 1957; e a Gripe de Hong Kong, em 1968. No século XXI, foi identificado um novo vírus da influenza do tipo A pandêmico que desencadeou a Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional, decretada pela Organização Mundial da Saúde(OMS), em 2009. Cerca de 11 anos depois, em 11 de abril de 2020, a OMS declarou uma pandemia do novo coronavírus, chamado de Sars-Cov-2, surgido na cidade de Wuhan, na China, em fins de 2019.

 

(1) A virologia no Estado do Rio de Janeiro: uma visão global.

(2) Pandemias de influenza e a estrutura sanitária brasileira: breve histórico e caracterização dos cenários. 

 

 

brasiliana fotográfica rodrigues alves

Foto oficial de Rodrigues Alves, presidente do Brasil entre 1902 e 1906.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Atlas Histórico do Brasil

BRITO, Nara Azevedo de. La dansarina: a gripe espanhola e o cotidiano na cidade do Rio de Janeiro. Hist. cienc. saude-Manguinhos [online]. 1997, vol.4, n.1, pp.11-30.

CABRAL, Maulori C.; SCHATZMAYR, Hermann G. A virologia no Estado do Rio de Janeiro: uma visão globalRio de Janeiro : Fiocruz, 2012

CASTRO, Ruy. Metrópole à beira-mar: o Rio moderno dos anos 20. São Paulo : Companhia das Letras, 2019.

CONY, Carlos Heitor. O Canaval da peste. Folha de São Paulo, 19 de fevereiro de 1996.

COSTA, Ligia Maria Cantarino da;MERCHAN-HAMANN, Edgar. Pandemias de influenza e a estrutura sanitária brasileira: breve histórico e caracterização dos cenários. Rev Pan-Amaz Saude v.7 n.1 Ananindeua, mar. 2016.

Folha de São Paulo

GOULART, Adriana da Costa. Revisitando a espanhola: a gripe pandêmica de 1918 no Rio de JaneiroHist. cienc. saude-Manguinhos v.12 n.1 Rio de Janeiro jan./abr. 2005

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Incrível História

KOLATA, Gina. Gripea história da pandemia de 1918. Rio de Janeiro : Record, 2002.

NAVA, Pedro. Chão de ferro. Memórias/3. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1976.

O Estado de São Paulo

O Globo

OUTKA, Elizabeth. Viral Modernism: The Influenza Pandemic and Interwar Literature. New York : Columbia University Press, 2020.

Rádio Senado

RODRIGUES, Nelson. A menina sem estrela. São Paulo : Companhia das Letras, 1993.

SANTANA, Rosemeire Siqueira de. Tecendo os fios da memória: um breve ensaio biográfico sobre as educadoras Anália Franco, Neide Mesquita e Laura Amazonas.

SANTOS, Ricardo Augusto dos. O Carnaval, a peste e a espanhola. Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.13 no.1 Rio de Janeiro Jan./Mar. 2006

SECCHIN, Antonio Carlos. Melancólico em livro de Bandeira, Carnaval em 1919 foi pura libertinagem. Folha de São Paulo, 22 de junho de 2019.

Site Casa de Rui Barbosa

Site CPDOC

Site Enciclopédia Britânica

Site Fiocruz

Site Gripenet

Site Hipercultura

Site WelcomeCollection

Site Standford University

Smithsonion Magazine

Suplemento Ofical do Diário Oficial do Estado de Pernambuco

WOOLF, Virginia. Illness: an unexploited mine. In: Forum, abril de 1926, pp.582-590.

A chegada do daguerreótipo no Brasil – os primeiros registros no Rio de Janeiro

Hoje são comemorados os 180 anos da produção, pelo abade francês Louis Comte (1798 – 1868), das primeiras daguerreotipias no Rio de Janeiro, em 16 de janeiro de 1840. O daguerreótipo, processo fotográfico desenvolvido por Joseph Nicèphore Niépce (1765-1833) e Louis Jacques Mandé Daguerre (1787-1851) e anunciado em Paris em 19 de agosto de 1839 por François Arago (1786 – 1853), secretário da Academia de Ciências da França, chegou ao Brasil no L’Oriental-Hydrographe, navio-escola da Marinha Mercante da França que, sob o comando  do  capitão Augustin  Lucas (1804-1854?), partiu do porto de Paimboeuf, nas proximidades da cidade francesa de Nantes, em 25 de setembro de 1839, com cerca de 80 pessoas a bordo, entre tripulação e passageiros.

Antes de chegar ao Rio de Janeiro, o navio havia atracado em algumas cidades de Portugal, em Tenerife e na Ilha da Goreia (Senegal) e, já no Brasil, no Recife e em Salvador. Essa viagem é o tema do novo livro da historiadora Maria Inez Turazzi, O Oriental-Hydrographe e a fotografia; a primeira expedição ao redor do mundo com uma ‘arte ao alcance de todos’ (1839-1840). Segundo ela, a presença do daguerreótipo a bordo assim como a de outros instrumentos inovadores, não foi casual ou improvisada, porém fruto de uma complexa rede de interesses diplomáticos, transações comerciais e intercâmbios científicos. É possível afirmar que a viagem de circunavegação do Oriental-Hydrographe teve início com a expectativa de consagrá-la como a primeira do gênero a utilizar a fotografia como meio de registro da experiênciaO daguerreótipo revolucionou em pouco tempo e para sempre a forma do registro do mundo e de seus habitantes, inundando nosso planeta de imagens fotográficas. Em 1864, em uma crônica reproduzida nesse artigo, o escritor Machado de Assis (1839 – 1908), que nasceu no mesmo ano do anúncio do daguerreótipo perguntou “Até onde chegará o aperfeiçoamento do invento de Daguerre?”. 

 

  A invenção do daguerreótipo e sua chegada no Brasil

 

Câmara de daguerreótipo Succe Frères, de 1939 / Westlicht Photography Museum, em Viena, na Áustria

Câmara de daguerreótipo Succe Frères, de 1939 / Westlicht Photography Museum, em Viena, na Áustria

 

Em 7 de janeiro de 1839, na Academia de Ciências da França, foi anunciada a descoberta da daguerreotipia, um processo fotográfico desenvolvido por Joseph Nicèphore Niépce (1765-1833) e Louis Jacques Mandé Daguerre (1787-1851). Cerca de sete meses depois, em 19 de agosto, durante um encontro realizado no Instituto da França, em Paris, com a presença de membros da Academia de Ciências e da Academia de Belas-Artes, o cientista François Arago (1786 – 1853), secretário da Academia de Ciências, explicou o processo e comunicou que o governo francês havia adquirido o invento, colocando-o em domínio público e, dessa forma, fazendo com que o “mundo inteiro” tivesse acesso à invenção. Em troca, Louis Daguerre e o filho de Joseph Niépce, Isidore, passaram a receber uma pensão anual vitalícia do governo da França, de seis mil e quatro mil francos, respectivamente. Um daguerreótipo consiste em uma imagem única e positiva, formada diretamente sobre placa de cobre, revestida com prata e, em seguida, polida e sensibilizada por vapores de iodo. Depois de exposta na câmera escura, a imagem é revelada por vapores de mercúrio e fixada por uma solução salina.

 

A descoberta que comunico ao público está entre as poucas que, por seus princípios, seus resultados e a promissora influência que deverá exercer sobre as artes, se situam naturalmente entre as mais úteis e extraordinárias invenções…“.

Louis Daguerre, 1838

 

A velocidade com que a notícia do invento do daguerreótipo chegou ao Brasil é curiosa: cerca de quatro meses depois do anúncio da descoberta, foi publicado no Jornal do Commercio, de 1º de maio de 1839, sob o título “Miscellanea”, na segunda coluna, um artigo sobre o assunto – apenas 10 dias após de ter sido assunto de uma carta do inventor norte-americano Samuel F. B. Morse (1791 – 1872), escrita em Paris em 9 de março de 1839 para o editor do New York Observer, que a publicou em 20 de abril de 1839.

A introdução da daguerreotipia no Brasil se deu com a chegada do navio L’Oriental-Hydrographe, navio-escola da Marinha Mercante da França, em fins de 1839, sob o comando  do  capitão Augustin  Lucas (1804-1854?), que havia estado no ateliê de Daguerre em 1839. A viagem de circunavegação pensada como uma escola flutuante começou a ser planejada em 1838, quando seu projeto, pedagógico e mercantil, foi apresentado ao ministro da Marinha francesa, Claude Rosamel (1774 – 1848).

Segundo a historiadora Maria Inez Turazzi, a presença do daguerreótipo a bordo assim como a de outros instrumentos inovadores, não foi casual ou improvisada, porém fruto de uma complexa rede de interesses diplomáticos, transações comerciais e intercâmbios científicos. É possível afirmar que a viagem de circunavegação do Oriental-Hydrographe teve início com a expectativa de consagrá-la como a primeira do gênero a utilizar a fotografia como meio de registro da experiência

O Estatuto de admissão ao navio Hydrographe que fará a volta ao mundo sob o comando do capitão Lucas informava que os alunos a bordo seriam divididos em quatro seções, de acordo com o grau de instrução que tivessem recebido a partir de um exame realizado por professores de diferentes disciplinas antes do embarque. Esses professores pertenceriam aos quadros da universidade e estariam associados à expedição. Os alunos fariam estudos iguais aos dos colégio reais e aprenderiam línguas estrangeiras e conhecimentos específicos de marinha e comércio durante a viagem.

L’Oriental, um navio de três mastros, partiu do porto de Paimboeuf, nas proximidades da cidade francesa de Nantes, em 25 de setembro de 1839, com cerca de 80 pessoas a bordo, entre tripulação e passageiros. A previsão de duração da viagem era de dois anos e meio. Durante o mês de outubro, atracou em Lisboa, no dia 7, e na Ilha da Madeira, no dia 23. Posteriormente, fez escalas em Tenerife e na Ilha da Goreia (Senegal), de onde veio para o Brasil. Chegou no Recife, em 30 de novembro (Diário de Pernambuco, 2 de dezembro de 1839, última coluna), tendo zarpado no dia 4 de dezembro rumo a Salvador, onde chegou no dia 7 (Correio Mercantil (BA), 10 de dezembro de 1839, segunda coluna), permanecendo até 17 de dezembro (Correio Mercantil (BA), 18 de dezembro de 1839, última coluna) – entre essas duas cidades brasileiras ocorreu a única morte registrada da viagem, a de um estudante belga.

O navio chegou no Rio de Janeiro, em 23 de dezembro de 1839, quando foi identificado como um colégio boiante, um navio-escola que promovia uma expedição didática- científica (Jornal do Commercio, 25 de dezembro de 1839, terceira coluna e Jornal do Commercio, 28 de dezembro de 1839, terceira coluna). No navio havia marinheiros capazes e professores hábeis, reunidos pelo capitão para iniciar os alunos a bordo nas primeiras noções da marinha e do comércio.  Dentre eles estava Francisco Sauvage, inventor do phisionotypo, um novo modo de suprir a escultura,  (Correio Mercantil (BA), 13 de dezembro de 1839, terceira coluna) e o abade francês Louis Comte (1798 – 1868), que viria a  ser o responsável pelas primeiras demonstrações da daguerreotipia no Brasil (Jornal do Commercio, de 17 de janeiro de 1840, primeira coluna). O médico em chefe da expedição deu consultas para moléstias de olhos no Hotel Europa, que ficava na rua do Carmo, esquina com a rua Ouvidor (Jornal do Commercio, 28 de dezembro de 1839, terceira coluna). Em 26 de janeiro, o L´Oriental partiu para Montevidéu, no Uruguai (Jornal do Commercio, 27 de janeiro de 1840, última coluna) e de lá seguiu para Valparaíso, no Chile, onde naufragou quando deixava a cidade, em 23 de junho de 1840.Tudo foi recuperado e não houve vítimas (Jornal do Commercio, 14 de agosto de 1840, primeira coluna). O abade Comte permaneceu em Montevidéu ensinando daguerreotipia até 1847. Posteriormente, alugando armazéns na área portuária, acumulou uma fortuna e voltou para a França, onde faleceu, em 22 de setembro de 1868. Está enterrado no cemitério de Sampans, na França.

 

 

No Jornal do Commercio, de 17 de janeiro de 1840, era anunciada a chegada do daguerreótipo no Rio de Janeiro

 

O abade Comte, encarregado pela assistência intelectual e espiritual e pelo ensino de religião, música e canto durante a viagem, produziu alguns daguerreótipos, em 16 de janeiro de 1840, e, alguns dias depois, apresentou o invento a dom Pedro II (Jornal do Commercio,  20 de janeiro de 1840, terceira coluna). Foi com o próprio Daguerre que o abade havia aprendido a daguerreotipia. Em março do mesmo ano, d. Pedro II adquiriu um daguerreótipo, provavelmente o primeiro da América do Sul.

 

 

Louis Compte. Chafariz do Largo do Paço, Rio de Janeiro, 16/1/1840, daguerreótipo, 9 [8,3] x 7 cm [1/6 placa]. Arquivo Grão Pará, Petrópolis, RJ

Louis Compte. Chafariz do Largo do Paço, Rio de Janeiro, 16/1/1840, daguerreótipo, 9 [8,3] x 7 cm [1/6 placa]. Arquivo Grão Pará, Petrópolis, RJ

 

Louis Comte. L. Compte, Vista parcial do Mercado da Praia do Peixe, Rio de Janeiro, 16/1/1840, daguerreótipo, 7 x 9 [8,3] cm [1/6 placa]. Arquivo Grão Pará, Petrópolis, RJ Reprodução

Louis Comte. Vista parcial do Mercado da Praia do Peixe, Rio de Janeiro, 16/1/1840, daguerreótipo, 7 x 9 [8,3] cm [1/6 placa]. Arquivo Grão Pará, Petrópolis, RJ – Reprodução

 

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Sobre esse daguerreótipo há uma discussão de autoria e data: teria sido produzido por Comte em janeiro de 1840 ou por Morand entre 1842 e 1843? Daguerreótipo, 7 x 9 [8,3] cm [1/6 placa]. Acervo Grão Pará, Petrópolis, RJ – Reprodução

 

Por sediar o Império, o Rio de Janeiro foi a capital da fotografia no Brasil. O imperador, grande entusiasta da nova invenção, foi retratado por diversos fotógrafos, dentre eles Marc Ferrez (1843-1923) e Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912), tendo conhecido praticamente o trabalho de todos eles. A fotografia passou a ser o instrumento de divulgação da imagem de dom Pedro II, moderna como queria que fosse o reino, segundo comenta Lilia Moritz Schwarcz no livro As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos, e tornou-se também mais um símbolo de civilização e status. Foi um dos primeiros monarcas a oferecer seu real patrocínio a um fotógrafo, juntamente com a rainha Victoria da Inglaterra (1819 – 1901), quando, em 1851, permitiu que Buvelot & Prat, que haviam realizado uma série de daguerreótipos de Petrópolis – todos desaparecidos – usassem as armas imperiais na fachada de seu estabelecimento fotográfico.

 

Lista dos Fotógrafos Imperiais, na ordem cronológica em que foram agraciados com este título, segundo Guilherme Auler (1914-1965), sob o pseudônimo de Ricardo Martim, em dois artigos publicados na Tribuna de Petrópolis, em 1º e 8 de abril de 1956, segundo o livro O Brasil na fotografia oitocentista, de Pedro Vasquez. Pedro Hees e Pedro Satyro da Silveira foram incluídos na lista de agraciados e a inclusão foi baseada no trabalho Photographos da Casa Imperial: A Nobreza da Fotografia no Brasil do Século XIX, de Danielle Ribeiro de Castro

 

Buvelot & Prat, título concedido em 8 de março de 1851 (província do Rio de Janeiro)

Joaquim Insley Pacheco, título concedido em 22 de dezembro de 1855 (província do Rio de Janeiro)

João Ferreira Villela, título concedido em 18 de setembro de 1860 (província de Pernambuco)

Revert Henrique Klumb, título concedido em 24 de agosto de 1861 (província do Rio de Janeiro)

Stahl & Wahnschaffe, título concedido em 21 de abril de 1862 (província do Rio de Janeiro)

Diogo Luiz Cipriano, título concedido em 20 de setembro de 1864 (província do Rio de Janeiro)

Antonio da Silva Lopes Cardoso, título concedido em 30 de novembro de 1864 (província da Bahia)

Tomas King, título concedido em 18 de maio de 1866 (província do Rio Grande do Sul)

José Ferreira Guimarães, título concedido em 13 de setembro de 1866 (província do Rio de Janeiro)

Fernando Starke, título concedido em 14 de dezembro de 1866 (província de São Paulo)

Pedro Satyro da Silveira, título concedido na década de 1870  (província do Rio de Janeiro)

José Tomás Sabino, título concedido em 13 de agosto de 1873 (província do Pará)

Henschel & Benque, título concedido em 7 de dezembro de 1874 (província do Rio de Janeiro)

Pedro Hees , título concedido em 1876 (província do Rio de Janeiro)

Antonio Henrique da Silva Heitor, título concedido em 2 de março de 1885 (província do Rio de Janeiro)

Juan Gutierrez de Padilla, título concedido em 3 de agosto de 1889 (província do Rio de Janeiro)

Ignácio Mendo, título concedido em 6 de agosto de 1889 (província da Bahia)

 

 

 

“Até onde chegará o aperfeiçoamento do invento de Daguerre?

 

Uma curiosidade: o escritor Machado de Assis (1839 – 1908) nasceu no mesmo ano em que nasceu a fotografia: 1839. Aos 24 anos dele e do invento, escreveu sobre o assunto em sua coluna do Diário do Rio de Janeiro de 7 de agosto de 1864. Comentou sobre suas visitas à casa do Pacheco (o fotógrafo português Joaquim Insley Pacheco), que ficava na rua do Ouvidor, nº 102, exaltando poder ver no mesmo álbum fotográfico os rostos mais belos do Rio de Janeiro, falo dos rostos femininos. Contou também a história da chegada do daguerreótipo na cidade e, em seguida, elogiou o trabalho realizado pelo artista  J.T. da Costa Guimarães, uma miniatura de Diane de Poitiers, exposto no estabelecimento de Insley Pacheco. Finalmente, revelou que havia chegado há pouco tempo no referido ateliê um aparelho fotográfico destinado a reproduzir em ponto grande as fotografias de cartão. Termina seu passeio perguntando-se “Até onde chegará o aperfeiçoamento do invento de Daguerre?

 

 

Leia também o artigo A grande viagem da fotografia, de Nani Rubin, publicado no site do Instituto Moreira Salles, em 13 de janeiro de 2010.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

CARRÉ, Adrien. La singulière histoire de l’Oriental-Hydrographe. Bulletin du Comité Nantais de Documentation Historique de la Marine, Nantes, p. 17-35, 1970. 2.

CASTRO, Danielle Ribeiro. Photographos da Casa Imperial: a Nobreza da Fotografia no Brasil do Século XIX, 2013

Dictionary of Canadian Biography

Estatuto de admissão ao navio Hydrographe que fará a volta ao mundo sob o comando do capitão Lucas. Registro autenticado – Bertinot e Roquebert – Rua Richelieu n. 28, Paris. Em 2 de abril de 1839. Arquivo Nacional da França, Paris. Transcrição e revisão de Maria Inez Turazzi; digitação de Márcia Trigueiro; tradução de Maria Elizabeth Brêa Monteiro. Publicado em TURAZZI, Maria Inez. A viagem do Oriental-Hydrographe (1839 – 1840) e a introdução da daguerreotipia no Brasil. Acervo; Revista do Arquivo Nacional, Rio de Janeiro, v.23, nº 1, p.45-62, jan-jun 20

GURAN, Milton (organizador), TURAZZI, Maria Inez; VASQUEZ, Pedro Karp. Os daguerreótipos de Louis Comte no Rio de Janeiro – As primeiras fotografias feitas na América do Sul. Rio de Janeiro: Luz Tropical, 2016.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

KOSSOY, Boris. O mistério dos daguerreótipos do Largo do Paço in Revista da USP, n. 120, janeiro-março, 2019, pp.127-152.

PALMQUIST,Peter E; KAILBOURN,Thomas R. Pioneer Photographers of the Far West: A Biographical Dictionary, 1840-1865. Stanford: Universidade de Stanford, 2000.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

TURAZZI, Maria Inez. A viagem do Oriental-Hydrographe (1839 – 1840) e a introdução da daguerreotipia no Brasil. Acervo; Revista do Arquivo Nacional, Rio de Janeiro, v.23, nº 1, p.45-62, jan-jun 2010.

TURAZZI, Maria Inez. Máquina viajante. Fotografia, uma viagem sem volta, janeiro de 2010.

TURAZZI, Maria Inez. O Oriental-Hydrographe e a fotografia; a primeira expedição ao redor do mundo com uma ‘arte ao alcance de todos’ (1839-1840). Montevidéu: Centro de Fotografía de Montevideo, 2019. 380 p. il.

VASQUEZ, Pedro Karp. Dom Pedro II e a fotografia no Brasil. Rio de Janeiro: Fundação Roberto Marinho, 1985.

WOOD, Rupert Derek. A viagem do Capitão Lucas e do daguerreótipo a Sidney.  NZ Journal of Photography, 3-7, agosto 1994.

 

 

Novos acervos: Museu Aeroespacial

A Brasiliana Fotográfica abre o ano de 2020, quando completará cinco anos, trazendo para seus leitores seu décimo-primeiro parceiro, o Museu Aeroespacial (Musal), uma organização do Comando da Aeronáutica. Quem faz a apresentação da instituição é o historiador Jefferson Eduardo dos Santos Machado com o artigo “Correio Aéreo Militar e os registros de um “Brasil Distante”. Com mais essa importante adesão, a Brasiliana Fotográfica segue cumprindo um de seus objetivos, o de abordar todos os usos e funções da fotografia brasileira, expandindo seu acervo e possibilitando a seus leitores o acesso a um número cada vez maior de imagens. Seus outros parceiros são o Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, o Arquivo Nacional, a Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz, a Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, a Fundação Joaquim Nabuco, o Leibniz-Institut fuer Laenderkunde, o Museu Histórico Nacional e o Museu da República, além do Instituto Moreira Salles e da Fundação Biblioteca Nacional, fundadores da Brasiliana Fotográfica.

 

 

Acessando o link para as fotografias do acervo do Museu Aerospacial disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Correio Aéreo Militar e os registros de um “Brasil Distante”

 Jefferson Eduardo dos Santos Machado*

 

No acervo do Arquivo Histórico do Museu Aeroespacial (Musal) encontramos vários álbuns que possuem imagens aéreas das décadas de 1920, 1930 e 1940. Estas fotografias estão ligadas, inicialmente, ao curso de Pilotos e Observadores, que eram ministrados na Escola de Aviação Militar e depois Escola de Aeronáutica. Em relação a seu uso na Aeronáutica, a fotografia aérea possibilitava obter subsídios seguros sobre campos e sobre rotas em geral, ajudando a determinar onde seriam instaladas novas bases de unidades aéreas e a observar eventuais atividades de forças oponentes. Sendo assim, tornavam-se importantes, pois propiciavam o conhecimento, tanto para defesa quanto para o ataque, das bases, de instalações orgânicas e energéticas vitais e de equipamentos aéreos importantes para o poderio inimigo.

Inicialmente, a Escola de Aviação Militar treinava seus profissionais em uma área pré-determinada pelos instrutores da Missão Francesa de Aviação, chamada cilindro. Esta extensão possuía cerca de 10 quilômetros de diâmetro em torno do Campo dos Afonsos. Apesar de já ter havido alguns reides aéreos, esta norma só foi extinta em 12 de junho de 1931. Este fato deu-se devido à inadequação de tal prática à realidade brasileira, por ser um país com uma grande extensão. Com o intuito de terminar com esta limitação, criou-se o Grupo Misto de Aviação que, de certa forma, foi a primeira unidade de combate aéreo do Brasil. Dentro da estrutura deste grupo foi inserida a Esquadrilha de Treinamento, para onde eram alocados os pilotos recém-saídos da Escola de Aviação Militar. Nesse grupamento estavam as aeronaves que possuíam maior autonomia de voo.

No mesmo dia 12 de junho de 1931, os tenentes Casimiro Montenegro Filho (1904 – 2000) e Nelson Freire Lavenère-Wanderley (1909 – 1985) realizaram o primeiro voo do Correio Aéreo Militar. Saíram do Rio de Janeiro com destino a São Paulo, em uma viagem que durou cinco horas e vinte cinco minutos, a bordo de uma aeronave Curtiss Fledgling, matrícula K 263. Esta empreitada fez toda a diferença para a Arma da Aviação, criada em 1927. Com o objetivo de criar novas rotas de correio, a fim de integrar o país e construir novas pistas de voo e unidades da Aviação Militar, os pilotos passaram a voar por todo o Brasil em missões que eram verdadeiras aventuras.

Após sua primeira viagem, o Correio Aéreo Militar, entre os anos de 1931 e 1939, criou rotas que passavam por várias cidades brasileiras tais como Abaeté, Alegrete, Baião, Barra, Belém, Belo Horizonte, Campanário, Carinhanha, Chique-Chique, Conceição do Araguaia, Corinto, Cruz Alta, Curitiba, Curvelo, Fortaleza, Foz do Iguaçu, Goiás, Guaíra, Guarapuava, Iguatu, Ilhéus, Januarinha, Londrina, Mossoró, Natal, Oiapoque, Petrolina, Pirapora, Porto Alegre, Recife, Remanso, Rio Branco, Santa Maria, Santiago do Boqueirão, Santo Ângelo, São Luiz, São Matheus, São Paulo, São Salvador, Teófilo Otoni, Terezina e Uruguaiana. Posteriormente, duas rotas chegaram a países vizinhos, uma que para Concepción, no Paraguai; e outra que chegava a Caiena, na Guiana Francesa. Estes nomes de cidades demonstram quão importante foi a iniciativa da criação do Correio Aéreo para um encurtamento das distâncias que dificultavam o desenvolvimento de várias regiões brasileiras. Com a criação do  Ministério da Aeronáutica, em 20 de janeiro de 1941, o Correio Aéreo Militar juntou-se ao Correio Aéreo Naval, criado pela Marinha, em 1934, formando um novo órgão que passou a ser chamado de Correio Aéreo Nacional.

Uma das grandes rotas foi a Rio de Janeiro – Fortaleza, que seguia pelo Vale do São Francisco. Ela teve início em 1934 e enveredou pelo interior do nordeste criando várias pistas de pouso e possibilitando uma maior comunicação com as cidades mais importantes do país. Esta rota era formada pelas cidades de Belo Horizonte, Curvelo, Corinto, Pirapora, Januarinha, Carinhanha, Rio Branco, Barra, Chique-Chique, Remanso, Petrolina, Juazeiro e Iguatu. Em nosso Arquivo temos imagens de várias destas rotas do CAM. Porém, uma das  mais bem documentadas é esta que ia da Cidade Maravilhosa até a Terra de Iracema.

Acessando o link para as fotografias da rota Rio de Janeiro – Fortaleza do Correio Aéreo Nacional disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

*Jefferson Eduardo dos Santos Machado é historiador do Musal

 

Fontes:

ARAGÃO, Isabel L.. O Correio Aéreo Militar (CAM): uma história de pioneirismo. Rev. UNIFA, Rio de Janeiro, v. 25, n. 31, p. , dez. 2012.

DIAS, Fabiana Costa; MACHADO, Jefferson Eduardo dos Santos. As Transformações Arquitetônicas no Campo dos Afonsos no Período De 1930-1940: A Fotogrametria Como Fonte Para A História Da Arquitetura… In: Anais do 5º Seminário Ibero-americano Arquitetura e Documentação. Anais…Belo Horizonte(MG) UFMG, 2018. Disponível em: <https//www.even3.com.br/anais/arqdoc/71129-AS-TRANSFORMACOES-ARQUITETONICAS-NO-CAMPO-DOS-AFONSOS-NO-PERIODO-DE-1930-1940–A-FOTOGRAMETRIA-COMO-FONTE-PARA-A-H>. Acesso em: 14/11/2019 16:18

INCAER. História Geral da Aeronáutica Brasileira. Rio de Janeiro/Belo Horizonte: INCAER/Itatiaia, 1988, vol.1 e 1990, vol.2

WANDERLEY, Nelson Freire Lavenére. História da Força Aérea Brasileira. MAER, 1975.

Celebrando o fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923)

Celebrando o aniversário de Marc Ferrez (7 de dezembro de 1843 – 12 de janeiro de 1923), a Brasiliana Fotográfica traz para seus leitores todos os artigos já publicados no portal sobre o fotógrafo e o Instituto Moreira Salles, uma de suas instituições fundadoras, inaugura a exposição “Marc Ferrez: território e imagem”, em sua sede carioca, no próximo dia 7. Lembramos que estão disponibilizados no nosso acervo os dois álbuns da Comissão Geológica do Império, com fotografias de autoria de Ferrez, que integrou a expedição, chefiada por Charles Frederick Hartt, entre 1875 e 1877. Os álbuns pertencem ao J. Paul Getty Museum, localizado em Los Angeles, nos Estados Unidos e estão em alta resolução devido ao Programa de Conteúdo Aberto do Getty. As fotografias dos álbuns foram expostas na seção de Obras Públicas da 4ª Exposição Nacional de 1875 e na Exposição Internacional da Filadélfia em 1876.

Segundo Sérgio Burgi, coordenador de Fotografia do Instituto Moreira Salles, já com pleno domínio de sua virtuosidade técnica, Ferrez realizou para a comissão um primoroso trabalho documental e paisagístico:

‘…Seu domínio da luz, sua precisão na escolha do ponto de vista, sempre buscam ressaltar os aspectos mais formais e abstratos da cena sendo registrada. É igualmente importante ressaltar que em diversas imagens realizadas por Ferrez, sempre o elemento humano participa de maneira discreta porém marcante, conferindo escala aos cenários naturais e urbanos, e principalmente nos convidando a percorrer a imagem em todas as suas dimensões…Os trabalhos realizados em Paulo Affonso, Pernambuco, Recôncavo Baiano, Abrolhos e sul da Bahia representam um grande esforço documental e registram, além dos aspectos mais claramente geológicos, paisagens naturais e vistas urbanas de grandes cidades e pequenas povoações daquelas regiões, além de elementos antropológicos e etnográficos, como a série dos índios botocudo… Essas imagens também foram utilizadas para ilustrar  a conferência do professor Charles Frederick Hartt durante a IV Exposição Nacional, no Rio de Janeiro… Da mesma maneira, diversas imagens fizeram parte da Exposição Universal da Filadélfia, EUA, em 1876, que contou com a presença de D. Pedro II…’

 

Links para os álbuns da Comissão Geológica do Império, que pertencem ao J. Getty Museum e estão no site da instituição: Primeiro álbum e Segundo álbum

Links para os pdfs dos álbuns da Comissão Geológica do Império, que pertencem ao J. Getty Museum:  Primeiro álbum e Segundo álbum

 

 

Um pouco da história da Comissão Geológica do Império (1875 – 1878), de seu chefe, Charles Frederick Hartt (1840 – 1878), e da participação de Marc Ferrez (1843 – 1923) como fotógrafo da expedição

 

 

Em 1874, Charles Frederick Hartt (1840 – 1878), realizou uma expedição científica ao Brasil, durante a qual convenceu as autoridades brasileiras da importância da elaboração de um mapa geológico do Império. Antes, Hartt havia vindo ao Brasil quatro vezes. Pela primeira vez, como membro da Expedição Thayer, entre 1865 e 1866, financiada pelo empresário e filantropo norte-americano Nathaniel Thayer, Jr. (1808-1883) e chefiada por seu ex-professor no Museu de Zoologia Comparada, em Harvard, o suíço Louis Agassiz (1807 – 1873), quando ocupou-se sobretudo em fazer um mapeamento geológico da área do Rio de Janeiro até o norte da Bahia. Em 1867, já estabelecido como conferencista no Instituto Cooper, em Nova York, voltou ao Brasil, de maneira independente, e durante três meses examinou a costa entre Pernambuco e Rio, explorando mais particularmente as vizinhanças da Bahia e as ilhas e recifes do coral dos Abrolhos. Em 1868, tornou-se professor de História Natural no Vassar College e também da Universidade de Cornell. Em 1870 e em 1871, chefiou as Expedições Morgan ao Amazonas, financiadas pelo político norte-americano Edwin D. Morgan (1811- 1883) .

Além de ter obtido sucesso em seu pleito junto ao Governo Imperial, Hartt conseguiu criar a Comissão Geológica do Império, pelo Aviso de 30 de abril de 1875. Como a comissão estaria ligada ao Ministério da Agricultura, o desenvolvimento das atividades agrícolas e mineradoras a partir do conhecimento que a geologia propiciaria foi um argumento decisivo para sua criação. Foi convidado para chefiá-la e foram nomeados como seus assistentes os geólogos Orville Adalbert Derby (1851 – 1915) e Richard Rathbun (1852-1918) – ambos da Universidade de Cornell -, que chegaram ao Brasil em fins de 1875; John Casper Branner (1850-1922), do Departamento de Botânica e Geologia da Universidade de Indiana; e os brasileiros Elias Fausto Pacheco Jordão (1849 – 1901), que havia se doutorado em 1874 em engenharia civil na Universidade de Cornell, e Francisco José de Freitas, assistente geral e tradutor. Integraram, também, o corpo técnico da comissão os geólogos Luther Wagoner, substituto de Pacheco Jordão, em 1876, que foi posteriormente substituído por Frank Carpenter; o naturalista Herbert Huntington Smith (1851-1919), e o fotógrafo Marc Ferrez (1843-1923). Segundo Gilberto Ferrez, foi durante as viagens que fez com a Comissão Geológica que Marc Ferrez contraiu uma doença no fígado, da qual nunca se curou.

 

 

A Comissão, criada em abril de 1875, iniciou seus trabalhos ativos em 10 de junho de 1875 e percorreu os atuais estados de Alagoas, Bahia, Fernando de Noronha, Paraná, Pernambuco, Rio Grande do Norte, São Paulo, Santa Catarina, Sergipe, e parte da região amazônica nessa importante missão científica realizada no Brasil sob os auspícios do governo imperial, que gerou a primeira grande representação fotográfica de diversas regiões do território brasileiro (Illustração Brasileira, 1º de agosto de 1876). O governo decretou o fim da Comissão em 1º de julho de 1877 (Diário do Rio de Janeiro, 7 de julho de 1877, quarta coluna). Segundo Rathbun, o fato aconteceu devido a motivos econômicos e a discordâncias em torno do volume e do valor do trabalho realizado até ali pela comissão. Porém Hartt conseguiu seis meses de prorrogação nos trabalhos. No início de janeiro de 1878, com a formação do novo gabinete liberal, sob o comando do primeiro-ministro João Lins Vieira de Cansanção, o visconde de Sininbu (1810 – 1906), que também era ministro da Agricultura, sua extinção foi efetivada. Segundo Hartt, em junho de 1877,  as coleções zoológicas, geológicas e etnográficas feitas pela Comissão Geológica possuíam cerca de 500 mil espécimes.

Hartt foi contratado como naturalista-viajante do Museu Nacional do Rio de Janeiro, por volta de 1874. Em 1876, assumiu a Seção de Geologia, criada pela reforma do botânico Lasdilau de Souza Mello Netto (1838 – 1894), e reorganizou as coleções e preparou a mostra mineralógica brasileira apresentada na Exposição Universal de Filadélfia de 1876. Faleceu em 18 de março de 1878, um domingo, no Rio de Janeiro, de febre amarela, em sua casa no número 44 da rua da Princesa, atual Correia Dutra, no Flamengo (O Vulgarizador, 15 de maio de 1878) . Os professores e demais funcionários do Museu Nacional deliberaram tomar luto por oito dias (Gazeta de Notícias, 19 de março de 1878, segunda e penúltima colunaJornal do Commercio, 19 de março de 1878, quarta colunaRevista Illustrada, 30 de março de 1878; e O Vulgarizador, 15 de maio de 1878). Morreu sem sua família porque  sua mulher, Lucy Lynde Hartt, com quem havia se casado em 1869, havia voltado com os dois filhos do casal, Mary and Rollin, para Buffalo, nos Estados Unidos, em dezembro de 1876  – não suportou os períodos de solidão, os mosquitos, as doenças e os desconfortos do Rio de Janeiro. Quando partiu do Brasil, ela estava grávida de gêmeos mas a gravidez não se completou, o que trouxe grande tristeza para o casal. Hartt foi enterrado no cemitério de São Francisco Xavier mas, a pedido de sua esposa, seu corpo foi transladado para os Estados Unidos, em 1883.

Suas coleções foram colocadas sob a guarda do Museu Nacional do Rio de Janeiro, única instituição da época capaz de receber intelectual e fisicamente todo o trabalho da Comissão Geológica.

Acessando o link para as fotografias de Marc Ferrez realizadas para a Comissão Geológica do Império disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Breve cronologia da participação de Marc Ferrez nos trabalhos da Comissão Geológica do Império

 

 

1875 – Ferrez começou a trabalhar como fotógrafo da Comissão Geológica do Império, chefiada pelo norte-americano Charles Frederick Hartt (1840 – 1878), que se tornaria diretor da Seção de Geologia do Museu Nacional em 1876. Percorreu os atuais estados de Alagoas, Bahia, Pernambuco e parte da região amazônica numa importante missão científica realizada no Brasil sob os auspícios do governo imperial, que gerou a primeira grande representação fotográfica de diversas regiões do território brasileiro.

Marc Ferrez e outros membros da Comissão Geológica do Império embarcaram no paquete Parácom destino a Pernambuco (Jornal do Commercio, 10 de julho de 1875, na segunda coluna). Ele, Elias Fausto Pacheco Jordão, Francisco José de Freitas e Charles Frederick Hartt, todos membros da Comissão, agradeceram, publicamente, ao “digno comissário” J. Feliciano Gomes, que os recebeu no navio (Jornal do Recife, 26 de julho de 1875, na quarta coluna).

Foi publicado o relatório preliminar dos trabalhos da Comissão Geológica na província de Pernambuco, de autoria de Hartt. Ferrez foi mencionado (Diário de Pernambuco, 25 de novembro de 1875, na primeira coluna).

As fotografias produzidas por Marc Ferrez para a Comissão Geológica, mostradas durante uma visita do governador, do chefe da Polícia e do Diretor de Obras de Pernambuco na residência de Haart no Recife, foram muito elogiadas: “Rara vez um fotógrafo é tão feliz na reprodução dos quadros naturais como o Sr. Ferrez o foi neste trabalho, do qual com justiça se deve se regozijar” (Diário do Rio de Janeiro, 30 de novembro de 1875, segunda coluna).

 

 

Na residência do inspetor do arsenal de Marinha, em Recife, o chefe da Comissão Geológica do Império, Charles Frederick Hartt, fez uma conferência sobre os arrecifes e outros aspectos de Pernambuco como o cabo de Santo Agostinho, praias, o rio São Francisco e a cachoeira de Paulo Afonso, ilustrados com fotografias de Marc Ferrez (Diário do Rio de Janeiro, 2 de dezembro de 1875, nas quinta e sexta coluna, sob o título “Norte do Império”).

Ferrez  apresentou na seção de Obras Públicas da IV Exposição Nacional, dois álbuns com imagens dos recifes de Pernambuco, do baixo São Francisco e da cachoeira de Paulo Afonso, além de registros de corais e madrepérolas. As imagens produzidas durante a viagem da Comissão Geológica foram projetadas por Ferrez durante uma conferência do professor Hartt (Diário do Rio de Janeiro, 27 e 28 dezembro de 1875, primeira colunaO Globo, 4 de janeiro de 1876, na penúltima coluna, e Diário do Rio de Janeiro, 3 de fevereiro de 1876, quarta coluna).

1876 -  Apresentou na Exposição Universal da Filadélfia, aberta em 10 de maio, panoramas do Rio de Janeiro e fotografias realizadas para a Comissão Geográfica do Império, que foram premiadas. Foram expostas no Photographic Exhibition Building, prédio projetado pelo arquiteto H.J. Schwarzmann (1846 – 1891) onde foram exibidas as fotografias do evento.

 

 

 

 

New York Commercial Advertiser, de 29 de maio de 1876, publicou um artigo que informava que “riquíssimas fotografias da exploração geológica a cargo do professor Hartt” haviam sido apresentadas pelo Brasil na exposição. Uma curiosidade: a comissão de organização da Exposição da Filadéfia modificou as regras da premiação: os ganhadores receberiam um diploma, uma medalha de bronze e uma cópia certificada do parecer do júri, rompendo com o padrão de premiação hierárquica (Free Library of Philadelphia).

 

1876 Centennial Exposition Award MedalExpositon Medal

 

Foi publicada uma fotografia de autoria de Ferrez da cachoeira de Paulo Afonso na Revista Ilustração Brasileira, 1º de agosto de 1876, acompanhada por um texto de Charles Frederick Hartt (1840 – 1878), chefe da Comissão Geológica do Império. Na mesma edição, publicação de matéria sobre a Comissão Geológica do Império.

 

 

 

Ferrez havia chegado do sul da Bahia com o geólogo Richard Rathbum, também ajudante da Comissão Geológica, com diversas fotografias dos índios botocudo, dentre outras (Revista Ilustração Brasileira, 1º de novembro de 1876, na última coluna). Essas teriam sido as primeiras imagens desses índios produzidas no Brasil (Palcos e Telas, 8 de abril de 1920). Botocudo foi um termo genérico utilizado pelos colonizadores portugueses para denominar diversos grupos indígenas integrantes do tronco macro-jê (grupo não tupi), caracterizados pelo uso de botoques labiais e auriculares, habitantes originais do sul da Bahia e região do vale do rio Doce, incluindo o norte do Espírito Santo e Minas Gerais. A série de fotografias de indígenas tirada por Marc Ferrez na Bahia, durante uma segunda etapa de viagens realizadas por ele para a Comissão Geológica do Império do Brasil, no final de 1876, compõe um conjunto de  registros fotográficos pioneiros e raros dessas tribos, que se mantiveram isoladas e resistentes ao contato com os brancos, sendo violentamente perseguidas e praticamente  dizimadas nas primeiras décadas do século XX.

 

 

 

 

1877 – Publicação da fotografia do farol da Barra da Bahia, de autoria de Marc Ferrez, na capa da Revista Ilustração Brasileira, 15 de janeiro de 1877.

 

 

 

O governo decretou o fim da Comissão em 1º de julho de 1877 e em janeiro do ano seguinte sua extinção foi efetivada.

Publicação de uma matéria sobre o trabalhos da Comissão Geológica do Império e sobre o local onde estavam guardados e onde os membros da comissão cuidavam de sua classificação, estudo e do desenvolvimento, na rua da Constituição, nº 41, visitado pelo imperador Pedro II, no dia 27 de outubro. Foi mencionada a existência de um laboratório fotográfico, “grande e espaçoso…nele estão guardados algumas centenas de clichês , feitos no campo pelos Srs. Ferrez e Branner e no laboratório pelo Sr. Ratbunn (Rathbun), que hoje toma conta dessa parte do serviço da comissão” (O Vulgarizador, 3 de novembro de 1877). O imperador já havia visitado o local dos trabalhos da Comissão, em 30 de julho de 1877 (Diário do Rio de Janeiro, 31 de julho de 1877, segunda coluna).

1878 – No Almanak Laemmert de 1878, Ferrez foi identificado como fotógrafo da Marinha Imperial e da Comissão Geológica. Seu estabelecimento ficava na rua São José, 88 com depósito na rua do Ouvidor, 55.

Foi noticiada a morte de Charles Frederick Hartt, que havia sido o chefe da Comissão Geológica do Império. Ferrez foi mencionado (A Boa Nova, 24 de abril de 1878, na terceira coluna).

1879 -  Em inglês, foram publicados anúncios das fotografias de Ferrez no jornal Rio News de 5 de agosto, de 15 de setembro15 de outubro5 de novembro, mencionando que ele havia recebido uma medalha na Exposição da Filadélfia e que havia sido fotógrafo da Comissão Geológica do Império. Os anúncios seguiram sendo publicados em 1880 e 1881.

 

Publicações da Brasiliana Fotográfica em torno da obra do fotógrafo Marc Ferrez 

O Rio de Janeiro de Marc Ferrez, publicada em 30 de junho de 2015

Obras para o abastecimento no Rio de Janeiro por Marc Ferrez , publicada em 25 de janeiro de 2016

O brilhante cronista visual Marc Ferrez (7/12/1843 – 12/01/1923), publicada em 7 de dezembro de 2016

Do natural ao construído: O Rio de Janeiro na fotografia de Marc Ferrez, de Sérgio Burgi, publicada em 19 de dezembro de 2016

No primeiro dia da primavera, as cores de Marc Ferrez (1843 – 1923), publicada em 22 de setembro de 2017

Marc Ferrez , a Comissão Geológica do Império (1875 – 1878) e a Exposição Antropológica Brasileira no Museu Nacional (1882), publicada em 29 de junho de 2018

O quiosque Chopp Berrante no Passeio Público, Ferrez, Malta e Charles Dunlop, publicada em 20 de julho de 2018

Uma homenagem aos 175 anos de Marc Ferrez (7 de dezembro de 1843 – 12 de janeiro de 1923), publicada em 7 de dezembro de 2018 

Pereira Passos e Marc Ferrez: engenharia e fotografia para o desenvolvimento das ferrovias, publicado em 5 de abril de 2019

Fotografia e ciência: eclipse solar, Marc Ferrez e Albert Einstein, publicado em 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

 

CASTRO, Danielle Ribeiro. Photographos da Casa Imperial: a Nobreza da Fotografia no Brasil do Século XIX, 2013

CERON, Ileana Pradilla Ceron. Marc Ferrez – uma cronologia da vida e da obra. São Paulo : Instituto Moreira Salles, 2018.

Charles F. Hartt e a Comissão Geológica do Império (Youtube)

FREITAS, Marcus Vinícius. Hartt: expedições pelo Brasil Imperial 1870 – 1878, 2001. São Paulo : Metalivros

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

SANJAD, Nelson. Charles Frederick Hartt e a institucionalização das ciências naturais no Brasil, maio/agosto de 2004. Rio de Janeiro: História, Ciências, Saúde-Manguinhos, volume 11, nº2

SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

Serviços Geológicos nos trópicos: a experiência brasileira

Site Free Library of Philadelphia

Zumbi dos Palmares (Alagoas,1655 – Alagoas, 20 de novembro de 1695)

Antônio Parreiras - Zumbi 2.jpg

Zumbi (1927), pintura de Antonio Parreiras (1860 – 1937) / Acervo do Museu Antonio Parreiras, Niterói

A Brasiliana Fotográfica homenageia Zumbi dos Palmares (1655-1695), considerado um dos símbolos da luta contra a escravidão no Brasil, com a publicação de uma galeria de tipos negros fotografados, em torno de 1869, na Bahia e em Pernambuco, por Alberto Henschel (1827-1882). Esses registros fotográficos integram o acervo do Leibniz-Institut für Laenderkul (1), primeira instituição internacional a se tornar parceira da Brasiliana Fotográfica.

O quadro retratando Zumbi (ao lado) é de Antonio Parreiras (1860-1937). Tanto o fotógrafo Alberto Henschel como o pintor já foram temas da Brasiliana Fotográfica.

O dia da morte de Zumbi, 20 de novembro, é comemorado em todo o Brasil como o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra. A data foi criada, em 2003, e instituída oficialmente em âmbito nacional com a lei nº 12.519, de 10 de novembro de 2011. É feriado oficial em mais de mil cidades brasileiras.

Zumbi nasceu, em 1655, em uma das aldeias do Quilombo dos Palmares, uma comunidade formada por escravos fugitivos. O quilombo, o maior do período colonial brasileiro, localizava-se na região da Serra da Barriga, na Capitania de Pernambuco, atual região de União dos Palmares, em Alagoas. Foi capturado, no quilombo, ainda criança, pelos soldados da expedição comandada por Brás da Rocha Cardoso, e entregue ao padre português Antônio Melo, do distrito de Porto Calvo, Alagoas. Foi batizado, aprendeu português e latim, e recebeu o nome de Francisco.

Aos 15 anos, fugiu e voltou para o Quilombo dos Palmares. Posteriormente, tornou-se o líder da comunidade, substituindo seu tio, Ganga Zumba (c. 1630 – 1678). A capital de Palmares foi destruída, em 1694, e Zumbi foi ferido. Traído por um dos seus principais comandantes, Antônio Soares, foi morto em 20 de novembro de 1695, na serra de Dois Irmãos, local de seu esconderijo. Foi esquartejado e sua cabeça foi cortada e exposta na praça do Carmo, em Recife.

Há uma grande bibliografia sobre Zumbi e o Quilombo dos Palmares. Nem sempre os estudos apontam para a mesma direção.

 

Galeria de tipos negros fotografados por Alberto Henschel

 

Acessando o link para as fotografias de tipos negros fotografados por Alberto Henschel disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

(1) O conjunto de 460 imagens do Brasil produzidas até 1900 pertencentes ao acervo do Leibniz-Institut für Länderkunde foi, mediante convênio, incorporado ao acervo do Instituto Moreira Salles por meio da digitalização das fotos em alta resolução. A instituição, sediada na cidade de Leipzig,  reúne o mais importante acervo de fotografia brasileira do século XIX  na Alemanha, em especial pelas imagens reunidas na coleção Stübel.

O geólogo alemão Moritz Alphons Stübel (1835 – 1904) viajou, entre 1868 e 1877, pela América do Sul com o também geólogo Wilhelm Reiss (1838 – 1908), que retornou um ano antes para a Alemanha. Stübel formou uma importante coleção de fotografias, composta originalmente por quase duas mil imagens. A “Collection Alphons Stübel”, a maior coleção de fotografias sul-americanas do século XIX, até agora conhecida, da Alemanha – e provavelmente da Europa – está preservada no Leibniz-Institut für Länderkunde.

Colaboraram para esta pesquisa a designer Mariana Newlands e a socióloga Roberta Zanatta, da equipe do IMS

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Bibliografia

CARNEIRO, Edison. O Quilombo dos Palmares, Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 3a ed., 1966

CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil. O longo Caminho. 3ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002

FONSECA JR, Eduardo. Zumbi dos PalmaresA História do Brasil que não foi contada. Rio de Janeiro: Soc. Yorubana Teológica de Cultura Afro-Brasileira, 1988)

FREITAS, Décio. Palmares, a guerra dos escravos. Porto Alegre: Movimento, 1973

GOMES, Flavio dos Santos. De olho em Zumbi dos Palmares: História, símbolos e memória social. São Paulo: Claro Enigma, 2011

MOURA, Clovis. Dicionário da Escravidão Negra no Brasil / Clovis Moura; assessora de pesquisa Soraya Silva Moura – São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2004

VASQUEZ, Pedro Karp. Fotógrafos alemães no Brasil do século XIX, São Paulo: Metalivros, 2000

Outras fontes:

Artigo de  Frank Stephan Kohl: “Collection Alphons Stübel”: um tesouro escondido

Artigo de Fernando Correia da Silva: Zumbi dos Palmares: libertador dos escravos: 1655-1695.

Entrevista Zumbi, um herói cercado de mistério, na Revista História, de novembro de 2009

Portal Brasil

Site Calendarr

Site da Fundação Joaquim Nabuco

Site do Instituto Moreira Salles

Site do Leibniz-Institut für Laenderkunder

A Casa dos Artistas nos Diários Associados

Pela segunda vez a Brasiliana Fotográfica publica uma imagem do acervo fotográfico dos Diários Associados – Rio de Janeiro. O conjunto de fotos foi incorporado, em 2016, por um dos fundadores da Brasiliana Fotográfica, o Instituto Moreira Salles (IMS). O conjunto adquirido pelo IMS dos Diários Associados, que já foram o maior conglomerado de mídia do Brasil, possui cerca de 700 mil fotografias e 300 mil negativos com imagens produzidas para O Jornal, primeiro órgão dos Diários, adquirido por Assis Chateaubriand (1892 – 1968) em 1924; para o Diário da Noite, fundado por ele em 1929; e para o Jornal do Commercio, fundado em 1827 e adquirido pelo grupo em 1959. Os registros cobrem um período representativo do século XX – de 1915 a 2005.

Mais uma vez destacamos a relevância da preservação de um arquivo fotográfico de imprensa mesmo que as imagens estejam disponíveis em plataformas como a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, uma das mais importantes fontes de pesquisa do portal. Com a preservação, as fotografias podem, a partir de recursos tecnológicos como a digitalização e o zoom, terem outra visibilidade e serem acessadas em sua qualidade plena. Abaixo, publicamos a fotografia do Retiro dos Artistas, tema de nosso artigo de hoje, capturada do jornal e, a mesma, digitalizada.

 

 

 

Acessando o link para as fotografias do Retiro dos Artistas do acervo fotográfico dos Diários Associados RJ disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Um pouco da história da Casa dos Artistas

 

Inspirado na Maison de Répos de Artistes Dramatiques Français, fundada em 1840 pelo barão Isidore Taylor (1789 – 1879), nos arredores de Paris, o ator Leopoldo Fróes (1882 – 1932) criou  no Rio de Janeiro, então a capital administrativa e cultural do Brasil, a Casa dos Artistas, destinada a profissionais idosos que viveram da música, do teatro, do cinema, da televisão, do rádio ou do circo, tanto como estrelas como atuando nos bastidores. Para a realização de seu empreendimento, Fróes promoveu diversas iniciativas como a organização de um festival popular na Quinta da Boa Vista, em setembro de 1915, cuja renda seria revertida para a Casa dos Artistas e para os flagelados da seca no nordeste do Brasil; a instituição de um ingresso artístico de contribuição ao projeto, inicialmente no Teatro Pathé, onde tinha sua companhia teatral e, posteriormente, adotado em outros teatros. Irineu Marinho (1876 – 1925), dono do jornal A Noite, participou da campanha para a criação da instituição.

A Casa dos Artistas foi oficialmente fundada em 13 de agosto de 1918, no Teatro Trianon, por 68 profissionais. Seus primeiros presidente e vice-presidente foram os atores Leopoldo Fróes e Eduardo Leite (1868 – 1920), eleitos poucos dias depois. Na ocasião, também foi eleita uma comissão feminina de beneficência da qual faziam parte as atrizes Abigail Maia (1887 – 1981) e Amália Capitani (18? – 19?), entre outras. Como homenagem ao ator João Caetano (1808 – 1863), que havia falecido em 24 de agosto de 1863, a data oficial da fundação da Casa dos Artistas passou a ser dia 24 de agosto, e nessa data é comemorado o Dia do Artista. A sede social da Casa dos Artistas ficava na rua Espírito Santo, 53. O terreno do Retiro dos Artistas, localizado em Jacarepaguá, foi doado pelo tcheco Frederico Figner (1866 – 1947), fundador da Casa Edison, pioneiro na comercialização de fonógrafos no Brasil.  A primeira sede do Retiro dos Artistas foi inaugurada em 25 de abril de 1919 (A Noite, 26 de abril de 1919, primeira coluna). A pedra fundamental da atual sede, no mesmo terreno da primeira, foi lançada em 20 de novembro de 1922, e a inauguração aconteceu em 20 de janeiro de 1925 (O Jornal, 24 de novembro de 1922, quarta coluna e O Jornal, 21 de janeiro de 1925, terceira coluna).

Em 1931, a Casa dos Artistas recebeu sua Carta Sindical, do recém-criado Ministério do Trabalho, tornando-se oficialmente representante dos artistas. Em 19 de outubro do mesmo ano, o então presidente do governo provisório, Getúlio Vargas (1882 – 1954), e Pedro Ernesto (1884 – 1942), interventor no Distrito Federal, visitaram o Retiro dos Artistas (Diário da Noite, 20 de outubro de 1931 e O Jornal, 20 de outubro de 1931, primeira coluna). Alguns anos depois, em 24 de setembro de 1938, foi inaugurado um busto de Vargas dentro do Retiro. 

Até 1964, a Casa dos Artistas dividiu-se no atendimento assistencial e sindical e, a partir da fundação do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado do Rio de Janeiro(SATED-RJ),  assumiu sua ação exclusivamente assistencial. Segundo o site da Casa dos Artistas, que depende de trabalho voluntário e de doações, com o passar do tempo e devido a alguns acontecimentos, a Casa dos Artistas se resumiu ao trabalho assistencial do Retiro.

 

 

 

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Diário do Rio

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Retiro dos Artistas

Revista do Brasil

Site do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado do Rio de Janeiro- Sated-RJ

VERAS, Flávia Ribeiro. Tese de doutorado: “Fábricas da Alegria” O mercado de diversões e a organização do trabalho artístico no Rio de Janeiro e Buenos Aires 1918 – 1945. Fundação Getúlio Vargas, 2017

Os 180 anos do invento do daguerreótipo – Pequeno histórico e sua chegada no Brasil

Para comemorar os 180 anos do daguerreótipo, invento que revolucionou em pouco tempo e para sempre a forma do registro do mundo e de seus habitantes, inundando nosso planeta de imagens fotográficas, a Brasiliana Fotográfica apresenta a seus leitores dois artigos. Nesse primeiro, o portal conta a história do Dia Internacional da Fotografia e também da chegada ao Brasil, em 1840, do daguerreótipo, processo fotográfico desenvolvido por Joseph Nicèphore Niépce (1765-1833) e Louis Jacques Mandé Daguerre (1787-1851). O anúncio da invenção foi feito por François Arago (1786 – 1853), secretário da Academia de Ciências da França, em 19 de agosto de 1839.  Em 1864, em uma crônica reproduzida nesse artigo, o escritor Machado de Assis (1839 – 1908) perguntou “Até onde chegará o aperfeiçoamento do invento de Daguerre?”

 

 

  Sobre o Dia Internacional da Fotografia, a invenção do daguerreótipo e sua chegada no Brasil

 

Câmara de daguerreótipo Succe Frères, de 1939 / Westlicht Photography Museum, em Viena, na Áustria

Câmara de daguerreótipo Succe Frères, de 1939 / Westlicht Photography Museum, em Viena, na Áustria

 

A data escolhida para a comemoração do Dia Internacional da Fotografia tem sua origem no ano de 1839, quando, em 7 de janeiro, na Academia de Ciências da França, foi anunciada a descoberta da daguerreotipia, um processo fotográfico desenvolvido por Joseph Nicèphore Niépce (1765-1833) e Louis Jacques Mandé Daguerre (1787-1851). Cerca de sete meses depois, em 19 de agosto, durante um encontro realizado no Instituto da França, em Paris, com a presença de membros da Academia de Ciências e da Academia de Belas-Artes, o cientista François Arago, secretário da Academia de Ciências, explicou o processo e comunicou que o governo francês havia adquirido o invento, colocando-o em domínio público e, dessa forma, fazendo com que o “mundo inteiro” tivesse acesso à invenção. Em troca, Louis Daguerre e o filho de Joseph Niépce, Isidore, passaram a receber uma pensão anual vitalícia do governo da França, de seis mil e quatro mil francos, respectivamente. Um daguerreótipo consiste em uma imagem única e positiva, formada diretamente sobre placa de cobre, revestida com prata e, em seguida, polida e sensibilizada por vapores de iodo. Depois de exposta na câmera escura, a imagem é revelada por vapores de mercúrio e fixada por uma solução salina.

 

A descoberta que comunico ao público está entre as poucas que, por seus princípios, seus resultados e a promissora influência que deverá exercer sobre as artes, se situam naturalmente entre as mais úteis e extraordinárias invenções…“.

Louis Daguerre, 1838

 

A velocidade com que a notícia do invento do daguerreótipo chegou ao Brasil é curiosa: cerca de quatro meses depois do anúncio da descoberta, foi publicado no Jornal do Commercio, de 1º de maio de 1839, sob o título “Miscellanea”, na segunda coluna, um artigo sobre o assunto – apenas 10 dias após de ter sido assunto de uma carta do inventor norte-americano Samuel F. B. Morse (1791 – 1872), escrita em Paris em 9 de março de 1839 para o editor do New York Observer, que a publicou em 20 de abril de 1839.

A introdução da daguerreotipia no Brasil se deu com a chegada do navio L’Oriental-Hydrographe, navio-escola da Marinha Mercante da França, em fins de 1839, sob o comando  do  capitão Augustin  Lucas (1804-1854?), que havia estado no ateliê de Daguerre em 1839. A viagem de circunavegação pensada como uma escola flutuante começou a ser planejada em 1838, quando seu projeto, pedagógico e mercantil, foi apresentado ao ministro da Marinha francesa, Claude Rosamel (1774 – 1848).

Segundo a historiadora Maria Inez Turazzi, a presença do daguerreótipo a bordo assim como a de outros instrumentos inovadores, não foi casual ou improvisada, porém fruto de uma complexa rede de interesses diplomáticos, transações comerciais e intercâmbios científicos. É possível afirmar que a viagem de circunavegação do Oriental-Hydrographe teve início com a expectativa de consagrá-la como a primeira do gênero a utilizar a fotografia como meio de registro da experiência

O Estatuto de admissão ao navio Hydrographe que fará a volta ao mundo sob o comando do capitão Lucas informa que os alunos a bordo seriam divididos em quatro seções, de acordo com o grau de instrução que tivessem recebido a partir de um exame realizado por professores de diferentes disciplinas antes do embarque. Esses professores pertenceriam aos quadros da universidade e estariam associados à expedição. Os alunos fariam estudos iguais aos dos colégio reais e aprenderiam línguas estrangeiras e conhecimentos específicos de marinha e comércio durante a viagem.

L’Oriental, um navio de três mastros, partiu do porto de Paimboeuf, nas proximidades da cidade francesa de Nantes, em 25 de setembro de 1839, com cerca de 80 pessoas a bordo, entre tripulação e passageiros. A previsão de duração da viagem era de dois anos e meio. Durante o mês de outubro, atracou em Lisboa, no dia 7, e na Ilha da Madeira, no dia 23. Posteriormente, fez escalas em Tenerife e na Ilha da Goreia (Senegal), de onde veio para o Brasil. Chegou no Recife, em 30 de novembro (Diário de Pernambuco, 2 de dezembro de 1839, última coluna), tendo zarpado no dia 4 de dezembro rumo a Salvador, onde chegou no dia 7 (Correio Mercantil (BA), 10 de dezembro de 1839, segunda coluna), permanecendo até 17 de dezembro (Correio Mercantil (BA), 18 de dezembro de 1839, última coluna) – entre essas duas cidades brasileiras ocorreu a única morte registrada da viagem, a de um estudante belga.

O navio chegou no Rio de Janeiro, em 23 de dezembro de 1839, quando foi identificado como um colégio boiante, um navio-escola que promovia uma expedição didática- científica (Jornal do Commercio, 25 de dezembro de 1839, terceira coluna e Jornal do Commercio, 28 de dezembro de 1839, terceira coluna). No navio havia marinheiros capazes e professores hábeis, reunidos pelo capitão para iniciar os alunos a bordo nas primeiras noções da marinha e do comércio.  Dentre eles estava Francisco Sauvage, inventor do phisionotypo, um novo modo de suprir a escultura,  (Correio Mercantil (BA), 13 de dezembro de 1839, terceira coluna) e o abade francês Louis Comte (1798 – 1868), que viria a  ser o responsável pelas primeiras demonstrações da daguerreotipia no Brasil (Jornal do Commercio, de 17 de janeiro de 1840, primeira coluna). O médico em chefe da expedição deu consultas para moléstias de olhos no Hotel Europa, que ficava na rua do Carmo, esquina com a rua Ouvidor (Jornal do Commercio, 28 de dezembro de 1839, terceira coluna). Em 26 de janeiro, o L´Oriental partiu para Montevidéu, no Uruguai (Jornal do Commercio, 27 de janeiro de 1840, última coluna) e de lá seguiu para Valparaíso, no Chile, onde naufragou quando deixava a cidade, em 23 de junho de 1840.Tudo foi recuperado e não houve vítimas (Jornal do Commercio, 14 de agosto de 1840, primeira coluna). O abade Comte permaneceu em Montevidéu ensinando daguerreotipia até 1847. Posteriormente, alugando armazéns na área portuária, acumulou uma fortuna e voltou para a França, onde faleceu, em 22 de setembro de 1868. Está enterrado no cemitério de Sampans, na França.

 

 

No Jornal do Commercio, de 17 de janeiro de 1840, era anunciada a chegada do daguerreótipo no Rio de Janeiro

 

O abade Comte, encarregado pela assistência intelectual e espiritual e pelo ensino de religião, música e canto durante a viagem, produziu alguns daguerreótipos, em 16 de janeiro de 1840, e, alguns dias depois, apresentou o invento a dom Pedro II (Jornal do Commercio,  20 de janeiro de 1840, terceira coluna). Foi com o próprio Daguerre que o abade havia aprendido a daguerreotipia. Em março do mesmo ano, d. Pedro II adquiriu um daguerreótipo, provavelmente o primeiro da América do Sul.

 

 

Louis Compte. Chafariz do Largo do Paço, Rio de Janeiro, 16/1/1840, daguerreótipo, 9 [8,3] x 7 cm [1/6 placa]. Arquivo Grão Pará, Petrópolis, RJ

Louis Compte. Daguerreótipo do Chafariz do Largo do Paço 16/1/1840, Rio de Janeiro, RJ /
Arquivo Grão Pará, Petrópolis, RJ

 

Por sediar o Império, o Rio de Janeiro foi a capital da fotografia no Brasil. O imperador, grande entusiasta da nova invenção, foi retratado por diversos fotógrafos, dentre eles Marc Ferrez (1843-1923) e Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912), tendo conhecido praticamente o trabalho de todos eles. A fotografia passou a ser o instrumento de divulgação da imagem de dom Pedro II, moderna como queria que fosse o reino, segundo comenta Lilia Moritz Schwarcz no livro As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos, e tornou-se também mais um símbolo de civilização e status. Foi um dos primeiros monarcas a oferecer seu real patrocínio a um fotógrafo, juntamente com a rainha Victoria da Inglaterra (1819 – 1901), quando, em 1851, permitiu que Buvelot & Prat, que haviam realizado uma série de daguerreótipos de Petrópolis – todos desaparecidos – usassem as armas imperiais na fachada de seu estabelecimento fotográfico.

 

Lista dos Fotógrafos Imperiais, na ordem cronológica em que foram agraciados com este título, segundo Guilherme Auler (1914-1965), sob o pseudônimo de Ricardo Martim, em dois artigos publicados na Tribuna de Petrópolis, em 1º e 8 de abril de 1956, segundo o livro O Brasil na fotografia oitocentista, de Pedro Vasquez. Pedro Hees e Pedro Satyro da Silveira foram incluídos na lista de agraciados e a inclusão foi baseada no trabalho Photographos da Casa Imperial: A Nobreza da Fotografia no Brasil do Século XIX, de Danielle Ribeiro de Castro

 

Buvelot & Prat, título concedido em 8 de março de 1851 (província do Rio de Janeiro)

Joaquim Insley Pacheco, título concedido em 22 de dezembro de 1855 (província do Rio de Janeiro)

João Ferreira Villela, título concedido em 18 de setembro de 1860 (província de Pernambuco)

Revert Henrique Klumb, título concedido em 24 de agosto de 1861 (província do Rio de Janeiro)

Stahl & Wahnschaffe, título concedido em 21 de abril de 1862 (província do Rio de Janeiro)

Diogo Luiz Cipriano, título concedido em 20 de setembro de 1864 (província do Rio de Janeiro)

Antonio da Silva Lopes Cardoso, título concedido em 30 de novembro de 1864 (província da Bahia)

Tomas King, título concedido em 18 de maio de 1866 (província do Rio Grande do Sul)

José Ferreira Guimarães, título concedido em 13 de setembro de 1866 (província do Rio de Janeiro)

Fernando Starke, título concedido em 14 de dezembro de 1866 (província de São Paulo)

Pedro Satyro da Silveira, título concedido na década de 1870  (província do Rio de Janeiro)

José Tomás Sabino, título concedido em 13 de agosto de 1873 (província do Pará)

Henschel & Benque, título concedido em 7 de dezembro de 1874 (província do Rio de Janeiro)

Pedro Hees , título concedido em 1876 (província do Rio de Janeiro)

Antonio Henrique da Silva Heitor, título concedido em 2 de março de 1885 (província do Rio de Janeiro)

Juan Gutierrez de Padilla, título concedido em 3 de agosto de 1889 (província do Rio de Janeiro)

Ignácio Mendo, título concedido em 6 de agosto de 1889 (província da Bahia)

 

 

 

 

“Até onde chegará o aperfeiçoamento do invento de Daguerre?

 

Uma curiosidade: o escritor Machado de Assis (1839 – 1908) nasceu no mesmo ano em que nasceu a fotografia: 1839. Aos 24 anos dele e do invento, escreveu sobre o assunto em sua coluna do Diário do Rio de Janeiro de 7 de agosto de 1864. Comentou sobre suas visitas à casa do Pacheco (o fotógrafo português Joaquim Insley Pacheco), que ficava na rua do Ouvidor, nº 102, exaltando poder ver no mesmo álbum fotográfico os rostos mais belos do Rio de Janeiro, falo dos rostos femininos. Contou também a história da chegada do daguerreótipo na cidade e, em seguida, elogiou o trabalho realizado pelo artista  J.T. da Costa Guimarães, uma miniatura de Diane de Poitiers, exposto no estabelecimento de Insley Pacheco. Finalmente, revelou que havia chegado há pouco tempo no referido ateliê um aparelho fotográfico destinado a reproduzir em ponto grande as fotografias de cartão. Termina seu passeio perguntando-se “Até onde chegará o aperfeiçoamento do invento de Daguerre?

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

CARRÉ, Adrien. La singulière histoire de l’Oriental-Hydrographe. Bulletin du Comité Nantais de Documentation Historique de la Marine, Nantes, p. 17-35, 1970. 2.

CASTRO, Danielle Ribeiro. Photographos da Casa Imperial: a Nobreza da Fotografia no Brasil do Século XIX, 2013

Dictionary of Canadian Biography

Estatuto de admissão ao navio Hydrographe que fará a volta ao mundo sob o comando do capitão Lucas. Registro autenticado – Bertinot e Roquebert – Rua Richelieu n. 28, Paris. Em 2 de abril de 1839. Arquivo Nacional da França, Paris. Transcrição e revisão de Maria Inez Turazzi; digitação de Márcia Trigueiro; tradução de Maria Elizabeth Brêa Monteiro. Publicado em TURAZZI, Maria Inez. A viagem do Oriental-Hydrographe (1839 – 1840) e a introdução da daguerreotipia no Brasil. Acervo; Revista do Arquivo Nacional, Rio de Janeiro, v.23, nº 1, p.45-62, jan-jun 20

GURAN, Milton (organizador), TURAZZI, Maria Inez; VASQUEZ, Pedro Karp. Os daguerreótipos de Louis Comte no Rio de Janeiro – As primeiras fotografias feitas na América do Sul. Rio de Janeiro: Luz Tropical, 2016.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

KOSSOY, Boris. O mistério dos daguerreótipos do Largo do Paço in Revista da USP, n. 120, janeiro-março, 2019, pp.127-152.

PALMQUIST,Peter E; KAILBOURN,Thomas R. Pioneer Photographers of the Far West: A Biographical Dictionary, 1840-1865. Stanford: Universidade de Stanford, 2000.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

TURAZZI, Maria Inez. A viagem do Oriental-Hydrographe (1839 – 1840) e a introdução da daguerreotipia no Brasil. Acervo; Revista do Arquivo Nacional, Rio de Janeiro, v.23, nº 1, p.45-62, jan-jun 2010.

TURAZZI, Maria Inez. Máquina viajante. Fotografia, uma viagem sem volta, janeiro de 2010.

VASQUEZ, Pedro Karp. Dom Pedro II e a fotografia no Brasil. Rio de Janeiro: Fundação Roberto Marinho, 1985.

WOOD, Rupert Derek. A viagem do Capitão Lucas e do daguerreótipo a Sidney.  NZ Journal of Photography, 3-7, agosto 1994.

 

O funeral de Teixeira Mendes pela lente de Augusto Malta

O pesquisador Ricardo Augusto dos Santos, da Fiocruz, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, e Marcus Vinícius Rubim Gomes, estagiário na Casa de Oswaldo Cruz, são os autores do artigo sobre os registros produzidos pelo alagoano Augusto Malta (1864 – 1957) do funeral do maranhense Raimundo Teixeira Mendes (1855 – 1927). Malta, em 1903,  foi contratado como fotógrafo oficial, cargo criado para ele, da prefeitura Rio de Janeiro. Passou a documentar a radical mudança urbanística promovida pelo então prefeito da cidade, Francisco Pereira Passos (1836-1913), período que ficou conhecido como o “bota-abaixo”.  Trabalhou na Prefeitura até 1936, quando se aposentou. Teixeira Mendes, o apóstolo do positivismo no Brasil, foi, além de filósofo, matemático e autor da bandeira nacional republicana. Seu cortejo fúnebre, que saiu da residência de sua família, na rua Benjamin Constant, 120, para o Templo da Humanidade, na Glória, e de lá para o Cemitério São João Batista, parou a cidade do Rio de Janeiro (O Paiz, 30 de junho de 1927, primeira coluna).

Acessando o link para as fotografias do funeral de Teixeira Mendes disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

O funeral de Teixeira Mendes pela lente de Augusto Malta

Ricardo Augusto dos Santos & Marcus Vinícius Rubim Gomes*

 

Augusto Malta, cuja obra está estimada em mais de 30 mil fotografias, registrou as transformações físicas, sociais e políticas do Rio de Janeiro e seu papel para a construção da memória visual do Brasil é incontestável. Seu legado de imagens foi, é e certamente ainda será fartamente utilizado em livros, teses e artigos. Localizadas em meio às mais de 2.500 fotografias do arquivo pessoal Paulo Carneiro (1901-1982), um importante intelectual positivista, encontramos três imagens do enterro de Raimundo Teixeira Mendes (1855-1927), assinadas por Augusto Malta, o que nos leva a refletir sobre a relação do fotógrafo com a cidade e, principalmente, a possibilidade de um vínculo entre ele e Teixeira Mendes. Segundo informações disponíveis em jornais e livros, a cerimônia fúnebre de Mendes “parou o Rio”. Será? Olhando as fotos, parece que sim. Duas destas imagens foram publicadas, sob o título A morte de um apóstolo, na revista O Malho – era  comum a presença de fotos de autoria de Malta na imprensa (O Malho, 16 de julho de 1927).

 

 

O fato das fotografias terem sido produzidas por Malta corrobora a informação de que o sepultamento do positivista tenha sido um acontecimento relevante. Será que Malta fez os registros apenas pela obrigação de sua profissão? Ou será que as fez também por compartilhar ideais com Teixeira Mendes, já que foi um entusiasta das ideias abolicionistas e republicanas no final do século XIX?

 

 

Teixeira Mendes nasceu em 5 de janeiro de 1855, em Caxias, cidade do interior do Maranhão. Quando órfão de pai, mudou-se para o Rio de Janeiro e começou a demonstrar interesse em duas áreas: matemática e filosofia. Aluno do Colégio Pedro II, aprofundou seus estudos sobre o positivismo quando ingressou na Escola Politécnica, porém interrompeu o curso por divergências com o diretor, o visconde de Rio Branco, sendo expulso. Foi durante este período, no velho prédio do Largo de São Francisco, centro da cidade, que Teixeira Mendes se aproximou de  Miguel Lemos (1854-1917), companheiro na divulgação do positivismo no Brasil. Juntos viajaram para Paris, em 1877, em busca de conhecimentos sobre a doutrina fundada por Auguste Comte (1798-1857). A religião positivista foi trazida para o Brasil por eles, que trabalharam ativamente na divulgação da “Religião da Humanidade”. Em 1881, Miguel Lemos fundou oficialmente a Igreja Positivista do Brasil, no Rio de Janeiro. Mendes assumiu a liderança da referida igreja em 1905 e a ocupou até sua morte, em 28 de junho de 1927. Na ocasião, recebeu diversas homenagens (O Jornal, 29 de junho de 1927 e O Paiz, 29 de junho de 1927). Uma foto de Miguel Lemos com Teixeira Mendes foi publicada na revista O Malho 13 de agosto de 1927.

 

 

 

 

*Ricardo Augusto dos Santos é Pesquisador Titular da Fundação Oswaldo Cruz e Marcus Vinícius Rubim Gomes é estagiário na Casa de Oswaldo Cruz

A princesa Isabel (RJ, 29 de julho de 1846 – Eu, 14 de novembro de 1921) pelas lentes de importantes fotógrafos do século XIX

Ao longo de sua vida, a princesa Isabel, aniversariante de hoje, foi retratada por diversos e destacados fotógrafos do século XIX. A Brasiliana Fotográfica reuniu alguns desses registros, produzidos pelo alemão Alberto Henschel(1827 – 1882) & Benque, pelo pernambucano Arsênio da Silva (1833 – 1883), por J. Bernieri, por J. Cortois, pelo português Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912), pelo carioca Marc Ferrez (1843 – 1923), pelo francês Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886) e por fotógrafos ainda não identificados.

São registros dela sozinha com diferentes idades, em família – com seus pais, com seus filhos e com seu marido – , com suas amigas, as baronesas de Muritiba (1851 – 1932) e de Loreto (1849 – 1931); além de imagens de seu palácio, da parada no Largo do Paço por ocasião de seu casamento e da Missa Campal realizada em 17 de maio de 1888 para celebrar a abolição dos escravizados, ocorrida 4 dias antes, em 13 de maio. Nessa fotografia foi identificado, em 2015, pela pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, Andrea Wanderley, a presença do escritor Machado de Assis (1839 – 1908).

 

Thumbnail

Antonio Luiz Ferreira. Missa campal celebrada em ação de graças pela Abolição da escravatura no Brasil, 17 de maio de 1888. Rio de Janeiro, RJ / Acervo IMS

 

Acessando o link para as fotografias da princesa Isabel disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

 

 

 

 

Por ter assinado a Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, que aboliu oficialmente a escravatura no Brasil, a princesa Isabel ficou conhecida como A Redentora. Filha do imperador Pedro II (1825 – 1891), um entusiasta da fotografia, e da imperatriz Teresa Cristina Maria (1822 – 1889), formou com seu marido, Gastão d´Orleans (1842 – 1922), o conde D´Eu, uma coleção de fotografias, que se encontra na Europa e representa um importante acervo iconográfico do oitocentos no Brasil. Fazem parte da coleção fotografias de Marc Ferrez (1843 – 1923)Alberto Henschel (1827 – 1882)Augusto Riedel (1836 – ?)Augusto Stahl (1828 – 1877)George Leuzinger (1813 – 1892), e Victor Frond (1821 – 1881).

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Fotografia e ciência: eclipse solar, Marc Ferrez e Albert Einstein

Inspirada pela realização da exposição Marc Ferrez: Território e imagem, inaugurada em 26 de março de 2019, no Instituto Moreira Salles de São Paulo, e pela comemoração do centenário do eclipse solar observado na cidade de Sobral, no Ceará, em 29 de maio de 1919, a Brasiliana Fotográfica publica hoje o artigo Fotografia e ciência: eclipse solar, Marc Ferrez e Albert EinsteinFerrez (1843 – 1923) se relacionou com diversos cientistas e pesquisadores no Brasil do século XIX e do início do século XX, dentre eles o geólogo norte-americano Charles Frederick Hartt (1840 – 1878), que chefiou a Comissão Geológica do Império (1875 – 1878), da qual fez parte; o médico Camillo Fonseca (18? – 1923), em cujo consultório foram realizadas experiências radiográficas nas gêmeas siamesas Rosalina e Maria Pinheiro, nascidas em 1893, no Espírito Santo; e os diretores do Observatório Nacional no Rio de Janeiro, o astrônomo belga Louis Ferdinand Cruls (1848 – 1908), que ocupou o cargo entre 1891 e 1908; e o engenheiro e astrônomo francês naturalizado brasileiro Henrique Morize (1860 – 1930), que sucedeu Cruls e permaneceu na direção da instituição até 1930.

 

Henrique Morize / Acervo Arquivo Nacional

 

 

O eclipse solar observado em Passa Quatro, Minas Gerais, em 1912

 

 

Com seu amigo e então diretor do Observatório Nacional, Henrique Morize (1860 – 1930), Ferrez esteve em Passa Quatro, em Minas Gerais, em 1912, como um dos integrantes da comitiva do presidente do Brasil, o marechal Hermes da Fonseca (1855 – 1923), que havia ido para a cidade mineira observar o eclipse solar ocorrido em 10 de outubro daquele ano. Também estiveram presentes ao evento o diretor do Jardim Botânico, Graciano dos Santos Neves (1868 – 1922), delegações estrangeiras de astrônomos do Observatório de Greenwich (Inglaterra), do Bureau de Longitudes (França), do Observatório Nacional do Chile, do Observatório Nacional de Córdoba (Argentina), do Observatório de La Plata (Argentina) e do então recém-criado Observatório Astronômico e Meteorológico de São Paulo. Compareceram também ao evento representantes da imprensa e outras autoridades (Gazeta de Notícias, 11 de outubro de 1912, na quinta coluna sob o título “Marechal Hermes e o eclipse“). O chefe da comissão inglesa era Arthur Stanley Eddington (1882 – 1944); o da francesa, Milan Stefanick (1880 – 1919); do Observatório de Córdoba, Carlos Dillon Perrine (1867 – 1951); da comissão chilena, Friedrich Wilhelm Ristenpart (1868-1913); do Observatório de La Plata, William Joseph Hussey (1862-1926); e, finalmente, do Observatório de São Paulo, José Nunes Belfort Mattos (1862- 1926). Um dos objetivos da expedição era confirmar a Teoria da Relatividade, do cientista alemão Albert Einstein (1879 – 1955).

A comissão brasileira foi chefiada por Henrique Morize e contava com os astrônomos Mario Rodrigues de Souza (1889-1973), Domingos Fernandes Costa (1882-1956), Alix Corrêa de Lemos (1877 – 1957) e Gualter Macedo Soares (1891 – 19?), com o voluntário Antônio Alves Ferreira da Silva (18? – 19?), com o fotógrafo Augusto Soucasaux (1871-1962) e com o médico Camillo Fonseca (18? – 1923)(1).

Não se sabe se Ferrez teve alguma função específica na comitiva do governo já que a fotografia do fenômeno ficou a cargo de profissionais do Observatório Nacional. Ele produziu fotografias estereoscópicas dos acampamentos na cidade, que estão sob a guarda do Instituto Moreira Salles e disponíveis no acervo da Brasiliana Fotográfica.

 

 

 

Acessando o link para as fotografias relativas ao eclipse solar observado em Passa Quatro (MG), em 10 de outubro de 1912, disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

O Dr. Morize dirige os trabalhos gerais e encarrega-se especialmente da grande Equatorial Fotográfica de Heyde e do fotoheliógrafo de Wilstein. São seus assistentes o Dr. Mario de Souza, do Observatório, que tem ao seu cargo o grande Colostato de Malhat e o Dr. Domingos Costa, também do Observatório, que já fez as determinações da hora exata e da latitude do lugar; o Dr. Costa trabalhará o fotoheliógrafo de Steinhel’.

Correio da Manhã, 10 de outubro de 1912, segunda coluna

 

Abaixo, duas fotografias, com a presença de Marc Ferrez, em Passa Quatro, publicadas no jornal A Época, 12 de outubro de 1912, sob o título “Ecos do eclipse”

 

 

 

Devido a chuvas fortes, o eclipse, ocorrido em 10 de outubro, não pode ser visualizado, causando frustração entre os cientistas e entre o público em geral: O eclipse…eclipsou-se (O Paiz, 11 de outubro de 1912 e Fon-Fon!, 19 de outubro de 1912).

 

 

 

O eclipse solar observado de Sobral, no Ceará, em 1919

 

O mundo moderno começou em 29 de maio de 1919, quando fotografias de um eclipse solar, tiradas na Ilha do Príncipe, na África Ocidental, e em Sobral, no Brasil, confirmaram a verdade da nova teoria do universo.”

Paul Johnson (1928 – ), historiador inglês, e autor do livro Modern Times: The World from the Twenties to the Nineties

 

Acessando o link para as fotografias relativas ao eclipse solar observado de Sobral (1919), no Ceará, disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas. 

 

 

Em 1919, Marc Ferrez morava na França e supõe-se que ele teria, por seu interesse no assunto e por sua proximidade com Henrique Morize (2), acompanhado à distância os trabalhos dos registros fotográficos do eclipse total do Sol, ocorrido em 29 de maio de 1919, realizados por astrônomos brasileiros do Observatório Nacional e também por cientistas de outros países, em Sobral, no Ceará. A equipe brasileira, liderada por Morize, era formada pelos astrônomos Domingos Fernandes da Costa (1882 – 1956), Allyrio Hugueney de Mattos (1889 – 1975) e Lélio Itapuambyra Gama (1892 – 1981), além do químico Theophilo Henry Lee (1873 – ?), do meteorologista Luís Rodrigues, do mecânico Arthur de Castro Almeida e do carpinteiro Primo Flores. Partiram do Rio de Janeiro no dia 25 de abril de 1919, a bordo do vapor João Alfredo (Jornal do Commercio, 23 de abril de 1919, última coluna).

 

 

 

 

A comitiva dos Estados Unidos, formada pelos pesquisadores Daniel Maynard Wise (1888 – ?) e Andrew Thomson (1893 – 1974), ambos integrantes do Departamento de Magnetismo Terrestre da Carnegie Institution, de Washington, interessados em estudar os efeitos do eclipse solar sobre o magnetismo terrestre, partiram de Nova York, em 25 de março de 1919, no vapor Hollandia, e aportaram no Recife, em 15 de abril. Chegaram a Fortaleza, a bordo do paquete Pará, em 20 de abril. Eles e a comissão completa do Observatório Nacional do Brasil chegaram em Camocim, no Ceará, em 7 de maio, a bordo do vapor Prudente de Morais. Seguiram para Sobral dois dias depois em um trem especial da Viação Cearense, tendo chegado à cidade às três horas da tarde do mesmo dia (Mensagem do Governador do Ceará à Assembleia (CE), 1919, e Pequeno Jornal , 23 de abril de 1919, segunda coluna).

 

 

 

Viabilizadas pelo astrônomo real sir Frank Watson Dyson (1868 – 1939), duas expedições britânicas foram organizadas para observar o eclipse. Arthur Stanley Eddington (1882 – 1944), que havia estado no Brasil durante o eclipse de 1912, seu assistente Edwin Cottingham (1869 – 1940), Andrew Crommelin (1865 – 1939) e Charles Davidson (1875 – 1970)(4), da Royal Astronomical Society, partiram da Inglaterra em 8 de março de 1919, e se separaram em Lisboa. Os dois primeiros seguiram para a Ilha de Príncipe, na África, da onde observariam o fenômeno. Crommelin e Davidson vieram para o Brasil e chegaram à Sobral, após uma passagem pela Amazônia (Jornal do Commercio (AM), 4 de abril de 1919, quarta coluna, e Jornal do Litoral, 1º de maio de 1919, quarta coluna), em 30 de abril, ficando hospedados, assim como os norte-americanos, na casa do deputado e coronel Vicente Saboya. Estavam com os britânicos algumas das placas fotográficas que testariam a Teoria da Relatividade do cientista alemão Albert Einstein (1879 – 1955).

 

 

 

 

 

 

O eclipse solar começou às 7h46min2s do dia 29 de maio de 1919, sua totalidade foi iniciada às 8h58min28s e finalizada 5 minutos e 13 segundos depois.

Tenho a honra de comunicar à Vossa Excelência que o eclipse foi observado em regulares condições por todas as comissões. Antes da hora prevista, o céu estava quase totalmente encoberto, chegando a chuviscar, mas abriu. Houve algumas nuvens transparentes sobrepostas ao disco. Entretanto, espero fotografias sairão boas, mas podrão ser reveladas somente amanhã, de madrugada, a fim de obter condições de temperatura mais favoráveis. Atenciosas saudações‘.

Telegrama de Henrique Morize ao ministro da Agricultura, Antônio de Pádua Sales (1860 – 1957)

(O Paiz, 31 de maio de 1919, penúltima coluna)

 

Morize regressou ao Rio de Janeiro, em 11 de julho de 1919, e deu uma entrevista para a Gazeta de Notícias, comentando as atividades das comissões brasileira, britânica e norte-americana (Gazeta de Notícias, 12 de julho de 1919).

Foram os resultados obtidos a partir das bem sucedidas fotografias feitas pelos astrônomos ingleses, em 29 de maio de 1919, que permitiram a comprovação da teoria de Einstein, inaugurando um novo momento na história da ciência.

Sobre a experiência:

Um século depois, pouquíssimos duvidam da relatividade geral. Mas, naquela época, o modelo einsteiniano do Universo ainda dava seus primeiro passos, encarado com bastante descrença pela comunidade científica por ainda não ter sido verificado. Publicada em 1916, a teoria havia levado oito anos para ficar pronta: foi o tempo que Einstein levou para generalizar os postulados da relatividade especial, de 1905, e incluir a gravidade na jogada.

De acordo com a teoria, o espaço e o tempo formam um único tecido, um contínuo maleável que é distorcido por corpos de muita massa como um buraco negro, um aglomerado de galáxias ou o Sol. Nem mesmo a luz escapa dessa distorção: quando os fótons atravessam regiões distorcidas do Universo, suas trajetórias também sofrem um desvio.

Os eclipses solares totais forneciam as condições perfeitas para testar se essa previsão de Einstein fazia, ou não, algum sentido. Com a Lua bloqueando temporariamente o brilho ofuscante do Sol, tornava-se possível enxergar (e fotografar) as estrelas posicionadas bem próximas a ele no céu. Por estarem praticamente encobertas pelo Sol quando vistas da Terra, isso significava que os raios dessas estrelas distantes necessariamente atravessaram o espaço-tempo distorcido pelo campo gravitacional solar. Esse desvio podia ser verificado.

O segredo era fotografar essas estrelas durante o eclipse e, um tempo depois, fotografá-las novamente quando estivessem na mesma região do céu, só que sem a interferência do Sol. Foi justamente o que a delegação britânica fez em Sobral. “Eles estavam procurando por variações comparáveis aos mais finos fios de cabelos humanos”, explica Dunn (5). Precisavam de estabilidade e rigor extremos nos instrumentos para produzir resultados confiáveis.

O segundo conjunto de fotos foi tirado em julho do mesmo ano, para serem comparadas aos registros de maio. Segundo a teoria de Einstein, a comparação deveria revelar uma diferença de 1,75 segundo de arco, enquanto a de Newton previa um número bem menor, de 0,86. Um segundo de arco equivale ao tamanho de uma estrela a olho nu. “Passaram os meses seguintes analisando aquelas placas e conseguiram centenas de páginas de cálculos baseados nas fotos”, diz Dunn. Então, em novembro, os olhos do mundo se voltaram para Londres, onde os cientistas anunciaram que Einstein estava certo.

Revista Galileu, 25 de outubro de 2018

Placas de vidro produzidas pelos brasileiros durante o eclipse de 1919 e disponíveis na internet

Diversas placas de vidro, que medem 24 centímetros (cm) por 18, e 9 cm por 12, foram produzidas pelos brasileiros a partir de câmaras acopladas aos telescópios. São cobertas por uma emulsão com sais de prata sensíveis à luz e, em 2015, foram encontradas por pesquisadores em caixas na biblioteca do Observatório Nacional. Foram restauradas, digitalizadas e estão disponíveis na internet. 

 

“Foi o luminoso céu do Brasil que se incumbiu de resolver o problema concebido pelo meu cérebro”

Frase dita pelo cientista alemão  Albert Einstein (1879 – 1955) e publicada no O Jornal, de propriedade de Assis Chateaubriand (1892 – 1968) e também na revista Fon-Fon quando, em passagem para a Argentina, visitou o Rio de Janeiro, em março de 1925.

 

 

 

 

 

 

 

 

(1) Em 1899, no consultório dos doutores Camillo Fonseca e Henrique Morize, foram realizadas experiências radiográficas nas gêmeas siamesas Rosalina e Maria Pinheiro, nascidas em 1893, no Espírito Santo.

(2) Em março de 1922, Morize, que havia viajado para a Europa em missão oficial do Observatório Nacional, fez uma visita a Ferrez, em Paris.

(3) Antônio Lima foi intérprete da comissão norte-americana e colocou os equipamentos para as investigações da eletricidade atmosférica na pista do Jockey Club próximo às instalações britânicas.

(4) Sobre a presença dos dois cientistas britânicos em Sobral, no O Jornal (MA), 25 de julho de 1919, foi publicado um curioso artigo copiado de um jornal cearense não identificado.
(5) O britânico Richard Dunn é pesquisador da Universidade de Leicester e curador das exposições de história da ciência do Observatório de Greenwich.
 

Publicações da Brasiliana Fotográfica em torno da obra do fotógrafo Marc Ferrez 

O Rio de Janeiro de Marc Ferrez, publicada em 30 de junho de 2015

Obras para o abastecimento no Rio de Janeiro por Marc Ferrez , publicada em 25 de janeiro de 2016

O brilhante cronista visual Marc Ferrez (7/12/1843 – 12/01/1923), publicada em 7 de dezembro de 2016

Do natural ao construído: O Rio de Janeiro na fotografia de Marc Ferrez, de Sérgio Burgi, publicada em 19 de dezembro de 2016

No primeiro dia da primavera, as cores de Marc Ferrez (1843 – 1923), publicada em 22 de setembro de 2017

Marc Ferrez , a Comissão Geológica do Império (1875 – 1878) e a Exposição Antropológica Brasileira no Museu Nacional (1882), publicada em 29 de junho de 2018

O quiosque Chopp Berrante no Passeio Público, Ferrez, Malta e Charles Dunlop, publicada em 20 de julho de 2018

Uma homenagem aos 175 anos de Marc Ferrez (7 de dezembro de 1843 – 12 de janeiro de 1923), publicada em 7 de dezembro de 2018 

Pereira Passos e Marc Ferrez: engenharia e fotografia para o desenvolvimento das ferrovias, publicado em 5 de abril de 2019

 

Link para o debate sobre Marc Ferrez e o eclipse de Sobral com a participação de Christina Helena Barboza, Rodrigo Nemmen e Rogério Rosenfeld, com mediação de Sérgio Burgi e Nathan Berkovits, realizado no IMS Paulista, em 25 de maio de 2019.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ARRUDA, Rogério Pereira de. Um álbum ilustrado para Minas Gerais no alvorecer da República. São Paulo : Anais do Museu Paulista. vol. 26 , 9 de agosto de 2018.

Blog do Instituto Moreira Salles

COLES, Peter. Einstein, Eddington and the 1919 Eclipse. In: Proceedings of International School on “The Historical Development of Modern Cosmology“, 2001.

CRISPINO, Luiz Carlos Bassalo; LIMA, Marcelo Costa de. Expedição norte-americana e iconografia inédita de Sobral em 1919. São Paulo : Revista Brasileira de Ensino de Física, vol 40, n° 1, edição 1601, 2018

CRISPINO, Luiz Carlos Bassalo; LIMA, Marcelo Costa de. A teoria da relatividade de Einstein apresentada para a Amazônia. São Paulo : Revista Brasileira de Ensino de Física, vol. 38, nº 4, 2016.

ELLIS, Richard; FERREIRA, Pedro G; MASSEY, Richard; WESZKALNYS,Gisa. 90 years on – the 1919 eclipse expedition at Prince. In: Astronomy & Geophysics, Vol 50, edição 4, agosto de 2009 https://www.fisica.net/relatividade/o-eclipse-de-1919.php

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

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NASCIMENTO, Márcio Luis Ferreira. Rondon, a Carta de Einstein e o Prêmio Nobel da Paz. Ciência e Sociedade, CBPF, v. 4, n. 1, 2016.

Observatório Nacional

O Estado de São Paulo, 25 de maio de 2019

OLIVEIRA, Raquel dos Santos. O eclipse de 1912 e a correspondência entre os astrônomos Morize e Perrine. Anpuh2010.

Revista Galileu

Revista Pesquisa – FAPESP, abril de 2019 – Quando a luz se curvou e À sombra dos britânicos

RODRIGUES, Teresinha. O Observatório Nacional no eclipse solar de 1919. In: ComCiência – Revista Eletrônica de Jornalismo Científico, 6 de maio de 2019.

Royal Society Publishing

The Guardian, 13 de maio de 2019

The Royal Astronomical Society of Canada

The Royal Observatory Greenwich