A mulher negra de turbante, de Alberto Henschel

A Brasiliana Fotográfica publica hoje, Dia da Abolição da Escravatura, o artigo “A mulher negra de turbante, de Alberto Henschel”. Nele, as autoras, Aline Montenegro Magalhães e Maria do Carmo Rainho, historiadoras, respectivamente, do Museu Histórico Nacional e do Arquivo Nacional, duas instituições parceiras do portal, fazem a análise morfológica do retrato e levantam diversas questões como a representação imagética da mulher negra e a associação frequente da fotografia em questão com Luisa Mahin, mãe do poeta, advogado e abolicionista Luís Gama, e liderança da Revolta dos Malês, um dos maiores levantes de escravizados promovidos no Brasil, em Salvador, em 1835.

 

A mulher negra de turbante, de Alberto Henschel

Aline Montenegro Magalhães e Maria do Carmo Rainho*

 

Dentre tantas imagens produzidas pelo fotógrafo Alberto Henschel[1], na segunda metade do século XIX, nota-se nos últimos anos o fascínio pela fotografia de uma mulher negra portando um turbante estampado. Nos limites deste artigo e, na trilha do historiador Ulpiano Bezerra de Meneses, chamamos a atenção para as qualidades estéticas dessa imagem, sua potência enquanto artefato, sua agência, a capacidade de produzir sentidos, de convocar diferentes apropriações e usos, e, finalmente, seu potencial de iconização.[2] Cabem, assim, algumas perguntas: o que explica a ampla circulação do registro, onipresente em variados meios e produtos? Por que a associação entre esta fotografia e Luiza Mahin? Qual a relação entre o seu uso maciço e a invisibilidade ou a subalternidade imposta a negros e negras em produtos culturais – em especial, em algumas exposições?

 

 

Conforme Joana Flores,[3] em sua análise sobre as exposições de longa duração em museus da cidade de Salvador, pode-se afirmar que, ainda hoje, as mulheres negras são reduzidas a coadjuvantes; suas imagens são apresentadas, em locais como o Museu Henriqueta Catharino, sem referências, legendas ou textos explicativos. Para a autora, não basta estas mulheres estarem presentes em suportes materiais: sem identidade, sem história, sem memória, a presença se traduz em ausência.

Em exposições organizadas em fazendas históricas do Vale do Paraíba, para além da subalternidade – com fotografias de homens e mulheres negros relegados a espaços secundários, uma espécie de porão/senzala, contrapondo-se às casas grandes, lugar exclusivo dos barões e das baronesas – verifica-se uma despreocupação em identificar corretamente os sujeitos. Em uma das fazendas, a São Luiz da Boa Sorte, em Vassouras, Rio de Janeiro, por exemplo, vemos o registro da mulher de turbante, de Henschel, ladeada de outros dois, de homens negros. Em nenhum deles há legendas com o crédito do fotógrafo, a data e o local de produção da imagem e a instituição detentora, como se as fotografias pudessem falar por si, dando margem à imaginação de guias e visitantes. Ali, como em muitas outras instituições de memória e, também em produtos culturais, a mulher é apresentada como Luísa Mahin, mãe do poeta, advogado e abolicionista Luís Gama, e liderança da Revolta dos Malês, um dos maiores levantes de escravizados promovidos no Brasil, em Salvador, em 1835.

Na análise morfológica do retrato em questão, vemos um fundo neutro que apresenta uma mulher em meio busto, com vestido escuro “decotado”, ombros à mostra, brincos e turbante estampado. Nada além disso. Nenhum mobiliário, apoio, utensílio ou instrumento de trabalho ou mesmo qualquer acessório em sua indumentária além dos mencionados. Ela não apresenta marcas. Assim como a maior parte das negras retratadas por Henschel, a mulher de turbante não sorri; ela exibe um olhar firme, quase desafiador.

O fato de existirem poucos elementos na composição da foto; a presença do turbante remetendo aos africanos de origem muçulmana que se rebelaram na Bahia em 1835; o olhar da retratada, são algumas pistas que podem ajudar a entender a associação entre a imagem e Luísa Mahin. Mas, chama a atenção que aquela continue a ser utilizada sem que se atente para a questão de que não há registros fotográficos da Revolta dos Malês nem dos seus participantes, posto que, apenas em 1849, foi anunciada a descoberta da daguerreotipia, processo fotográfico desenvolvido por Joseph Nicéphore Niépce (1765-1833) e Louis Jacques Mandé Daguerre (1787-1851). Em segundo lugar, conforme informação do Instituto Moreira Salles[4] a fotografia teria sido produzida por volta de 1870, ou seja, trinta e cinco anos após o evento. Levando-se em conta a visível juventude da retratada, não há possibilidade de ser Luísa Mahin, cuja história tornou-se mais conhecida por meio do livro Um defeito de cor de Ana Maria Gonçalves.[5]

A atribuição anacrônica vai sendo difundida graças à ampla circulação da imagem, em especial nos meios eletrônicos, e ao seu uso reiterativo. Uma busca na Internet com as palavras “Luísa Mahin”, “negra de turbante”, “escrava de turbante” e, sobretudo, associando-se estas expressões a Henschel ou Alberto Henschel, nos leva a uma grande quantidade de registros e diferentes usos da fotografia na divulgação de eventos, ilustração de artigos, capas de livros, intervenções urbanas, instalações artísticas e obras de arte, como “As filhas  de Eva” de Rosana Paulino, rótulos de cerveja e até em tatuagens, dentre muitos outros.[6]

Indo além da discussão em torno de um desconhecimento sobre a história da fotografia e sobre a história da Revolta dos Malês e de Luiza Mahin, podemos entender a apropriação dessa imagem como um desejo de dar voz e corpo a uma mulher. Se a própria existência de Luísa Mahin é questionada pela historiografia e sua participação no levante deve ser problematizada, como observa João José Reis,[7] na mesma medida, verifica-se, nas últimas décadas, um processo de mitificação que visa à sua manutenção no imaginário afro-brasileiro. Essa estratégia se deve, em especial, ao feminismo negro que, no intuito de superar a violência simbólica exercida sobre as mulheres negras, “buscou positivar a imagem das afro-brasileiras, recorrendo à reelaboração e valorização das histórias das suas sucessoras.”[8]

A mulher fotografada por Henschel é identificada como Luísa Mahin até mesmo em eventos acadêmicos, como observado em uma apresentação no I Congresso Nacional do PROFHISTÓRIA (Mestrado Profissional em Ensino de História), realizado em Salvador, em 2019. Uma historiadora que trabalha com educação patrimonial nas fazendas do Vale do Paraíba, tendo exibido a fotografia associando-a a mãe de Luís Gama, foi questionada quanto ao seu uso. A resposta foi enfática: uma escolha. Desejo de atribuir um rosto a uma personagem guerreira. É o olhar altivo com que a modelo encara a câmera sintetizando qualidades como força, resistência e coragem que corresponde à imagem desejada para essa mulher.

Nesse sentido e, no nosso entendimento, a mulher negra de turbante acaba contrariando a tese de Manuela Carneiro da Cunha sobre escravizados retratados, quando afirma que “Num retrato pode-se ser visto e pode-se dar a ver […]. Quem encomenda uma fotografia mostra-se, dá-se a conhecer […] como gostaria de ser visto […] É o sujeito do retrato. Aqui o escravo é visto, não se dá a ver.”[9] Certamente não é o caso da modelo fotografada por Henschel. Ela subverte a condição de escravizada e, por isso, objetificada, dando-se a ver como protagonista. E nesse aspecto, as autoras Maria Lafayette Aureliano Hirszman e Sandra Sofia Machado Koutsokos concordariam conosco, segundo a perspectiva de seus estudos sobre os retratos de autoria de Christiano Jr.[10]

Assim, a “negra de turbante” é retirada do sistema de classificação humana, usado para deleite, curiosidade, e principalmente para estudos sobre o “outro”. Estes, baseados em teorias cientificistas, de fundo racista, amplamente difundidas ao longo do século XIX, para as quais os registros fotográficos contribuíram como forma de comprovação de teses, como a de que os negros eram seres inferiores.[11] Deixa de ser vista da forma generalizante com que foi categorizada, um “tipo de negro”[12], exemplar de uma coletividade exótica e pitoresca, muito cara ao romantismo dos estudos de folclore. Entra para a história ao ganhar a singularidade de uma identidade – mesmo que atribuída muitos anos depois de sua própria morte – que a torna protagonista e ícone na construção da memória afro-diaspórica no Brasil.

 

[1] Sobre Henschel, ver, entre outros, HEYNEMANN, Cláudia. “De Berlim às capitais do Império: a experiência fotográfica em Alberto Henschel”. In: BAREL, Ana Beatriz Demarchi e COSTA, Wilma Peres (Orgs.). Cultura e poder entre o Império e a República: Estudos sobre os imaginários brasileiros (1822-1930), São Paulo, Alameda, 2018. HEYNEMANN, Cláudia e RAINHO, Maria do Carmo Teixeira. Retratos Modernos. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2005.KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002. VASQUEZ, Pedro. Karp. Fotógrafos alemães no Brasil do século XIX. São Paulo: Metalivros, 2000. WANDERLEY, Andrea C. T. O alemão Alberto Henschel (1827 – 1882), o empresário da fotografia, Brasiliana Fotográfica. Disponível em: http://brasilianafotografica.bn.br/?p=1138. Acesso em 2 de março de 2020.

[2] MENESES, Ulpiano T. Bezerra de. A fotografia como documento – Robert Capa e o miliciano abatido na Espanha: sugestões para um estudo histórico. Tempo, Rio de Janeiro,n. 14, 2002, p. 131-151.

[3] FLORES, Joana . Mulheres negras e museus de Salvador. Diálogo em branco e preto. Salvador: edição da autora , 2017.

[4] A imagem também pode ser encontrada também no EthnologischesMuseum, de Berlim e na Fundação Joaquim Nabuco.

[5] GONÇALVES, Ana Maria. Um defeito de cor. Rio de Janeiro: Record, 2018.

[6] Ver, entre outros: o material de divulgação da palestra “Autografias Luíza Mahin: um mito libertário no Feminismo Negro”, promovida pelo SESC, em São Paulo, em 2015, disponível em: https://centrodepesquisaeformacao.sescsp.org.br/atividade/luiza-mahin-um-mito-libertario-no-feminismo-negro , acesso em 10 de julho de 2019; do Colóquio Internacional Subjectividades Escravas nos Mundos Ibéricos (Séculos XV-XX), realizado em 2018, promovido pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, Portugal, disponível em: https://www.ics.ulisboa.pt/sites/ics.ulisboa.pt/files/events/cartaz/diptico_subjective_hd1.pdf, acesso em 20 de agosto de 2019; as capas dos livros O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado, de Abdias do Nascimento, disponível em: https://www.editoraufv.com.br/produto/o-genocidio-do-negro-brasileiro–processo-de-um-racismo-mascarado-3-edicao/1784951, acesso em 29 de fevereiro de 2020; Ocupação Luiza Mahin, disponível em: http://www.sindipetroba.org.br/2017/noticia/8337/lancamento-do-livro-%E2%80%9Cocupac%C3%A3o-luisa-mahin%E2%80%9D-tem-feijoada-e-m%C3%BAsica, acesso em 20 de agosto de 2019; Luiza Mahin, romance de Armando Avena, disponível em: http://atarde.uol.com.br/coluna/armandoavena/2112050-heroina-negra-luiza-mahin-e-tema-de-livro-de-armando-avena-premium, acesso em 12 de dezembro de 2019; o cartaz do evento “Sarau das Pretas – Luiza Mahin vive!”; disponível em: https://www.londrinatur.com.br/agenda/sarau-das-pretas-luiza-mahin-vive/, acesso em 20 de agosto de 2019; o site do MAR com a divulgação da exposição “Rosana Paulino: a costura da memória”, disponível em: http://museudeartedorio.org.br/programacao/a-costura-da-memoria-2/, acesso em 29 de fevereiro de 2020; a tatuagem apresentada como “Portrait de Luiza Mahin uma das figuras africanas mais importantes da história”, disponível em: http://picdeer.org/thiago.maga.tattoo, acesso em 20 de agosto de 2019; o rótulo da cerveja Mahin, disponível em https://www.facebook.com/1984215361805614/photos/a.1985548531672297/1985548365005647/?type=3&theater, acesso em 20 de agosto de 2019.

[7] “Nenhuma Luíza, aliás, foi incluída em quaisquer listas de presos por envolvimento no levante. A única mulher com esse nome que encontrei em 1835 foi uma liberta, presa provavelmente em novembro para ser deportada por crime não especificado, mas de forma alguma por insurreição. […] O personagem Luíza Mahin, então, resulta de um misto de realidade possível, ficção abusiva e mito libertário. A rigor, o que dela se conhece tem pouca fundamentação histórica. O que mais se aproxima dela é o pouco que sobre ela escreveu o filho Luiz Gama. Do que este revelou, o envolvimento da mãe em 1835 é até possível, embora os documentos sobre a revolta não o confirmem e indiquem como altamente improvável seu papel de liderança.” REIS, João José. Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês em 1835. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 301-303.

[8] LIMA, Dulcilei da Conceição. Desvendando Luiza Mahin: um mito libertário no cerne do feminismo negro. Dissertação. Mestrado em Educação, Arte e História da Cultura, São Paulo, Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2011, p.8.

[9] CUNHA, Manuela Carneiro da. “Olhar escravo, ser olhado”. In: AZEVEDO, Paulo Cesar de e LISSOVSKY, Mauricio [e outros] Escravos brasileiros do século XIX na fotografia de Christiano Jr. São Paulo: Ed. Ex Libris Ltda., 1988, p. 23. Apud. KOUTSOUKOS, Sandra Sofia Machado. No estúdio do fotógrafo. Representação e auto-representação de negros livres, forros e escravos no Brasil da segunda metade do século XIX. Tese. Doutorado em Multimeios, Campinas, UNICAMP, 2006, p. 107.

[10] HIRSZMAN, Maria Lafayette Aureliano. Entre o tipo e o sujeito: os retratos de escravos Christiano Jr. Dissertação. Mestrado em Artes, São Paulo, USP. 2011. KOUTSOUKOS, Sandra Sofia Machado. No estúdio do fotógrafo, op. cit.

[11] KOUTSOUKOS, Sandra Sofia Machado. ‘Typos de pretos no estúdio do photographo’: Brasil segunda metade do século XIX. Anais do Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro, v. 39, 2008, p. 455-482.

[12] O “tipo” é uma denominação classificatória das diferenças humanas físicas e culturais, caras aos estudos de história natural dos séculos XVIII e XIX, segundo os quais, a humanidade é parte da natureza e deve ser estudada segundo os mesmos critérios taxonômicos. “Assim, foi-se criando e se afirmando cada vez mais […] um padrão imagético taxonômico cuja expressão mais evidente pode-se chamar de documentação de espécimes – sejam botânicos, animais, ou tipos humanos inseridos em universos sociais”. Cf. SELA, Eneida Maria Mercadante. Modos de ser em modos de ver: ciência e estética em registros de africanos por viajantes europeus (Rio de Janeiro, ca. 1808-1850). Tese. Doutorado em História. Campinas, Unicamp, 2006. p.65. Em outras palavras, a classificação humana como “tipo” era uma forma não apenas de estudar o “outro”, mas também de inferiorizá-lo e dominá-lo, sob a perspectiva de lidar com uma “essência abstrata da variação humana” que é como o “tipo” é definido por Elizabeth Edwards Apud. HIRSZMAN, Maria Lafayette Aureliano. Entre o tipo e o sujeito…, op. cit. p. 48.

 

*Aline Montenegro Magalhães é Doutora em História | Pesquisadora do Museu Histórico Nacional

Maria do Carmo Rainho é Doutora em História | Pesquisadora do Arquivo Nacional

 

 Links para artigos da Brasiliana Fotográfica sobre Alberto Henschel e sobre a escravidão no Brasil

 

cartão Albert Henschel

Photographia Allemã, de Alberto Henschel / Acervo IMS

 

 

 

 

O Campo de Santana

No centro do Rio de Janeiro, a praça que hoje é tema da Brasiliana Fotográfica já teve diversos nomes ao longo de sua história: Campo de Santana, Campo da Honra, Praça do Curro, Campo da Aclamação e Praça da República – este último, até hoje, sua denominação oficial. Mas ficou mesmo conhecida como Campo de Santana, palco de celebrações e de importantes acontecimentos da história do Brasil como a aclamação de dom João VI como como rei de Portugal, Brasil e Algarves (1818), a aclamação de Pedro I como imperador do Brasil (1822), as comemorações populares de coroação de D. Pedro II (1841), festas do Império do Divino Espírito Santo promovidas pela Irmandade de Santana, festejos pelo fim da Guerra do Paraguai (1870), um baile em celebração da Abolição da Escravatura (1888) e a Proclamação da República (1889). Também na região foram construídos prédios como a Estação de Ferro Central do Brasilo primeiro Palácio da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro, a primeira sede do Museu Nacional e a Casa da Moeda – atual sede do Arquivo Nacional. O portal traz imagens do Campo de Santana e de algumas dessas construções produzidas por Augusto MaltaJorge KfuriJuan GutierrezMarc Ferrez, Uriel Malta e também por fotógrafos ainda não identificados.

 

 

Acessando o link para as fotografias do Campo de Santana e de alguns prédios em seu entorno disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

Até meados do século XVIII, o Campo de Santana era deserto e abandonado, tendo sido escolhido para o despejo de detritos, fato que perdurou até a gestão do vice-rei Conde Resende (1790 a 1801), que ordenou o aterro e o saneamento do campo. A partir daí, surgiu a praça, edificações e novas delineações urbanas. Foi o botânico e arquiteto paisagista francês Auguste Glaziou (1833 – 1906), que tinha vindo para o Brasil – segundo a maioria das fontes, a convite de dom Pedro II -, o responsável pelo embelezamento da praça, iniciado nos primeiros anos da década de 1870 (Jornal do Commercio, 2 de maio de 1872, terceira coluna; e Diário do Rio de Janeiro, 24 de dezembro de 1873, primeira coluna) com a a construção de jardins românticos, cascatas, pontes e grutas. A inauguração da obra aconteceu em 7 de setembro de 1880 com a presença do imperador. Na ocasião, Glaziou foi condecorado com a Ordem de Cristo (Gazeta de Notícias, 7 de setembro de 1880, primeira coluna; e Gazeta de Notícias, 8 de setembro, primeira coluna).

 

 

Auguste Glaziou, por Auguste Petit

Glaziou nasceu na cidade de Lannion, na Bretanha, em 30 de agosto de 1828. Formado em Engenharia, estudou Botânica no Museu de História Natural de Paris e participou da reforma do Jardim Público da cidade de Bordeaux. Chegou ao Rio de Janeiro em 1858, onde permaneceu até 1897, quando se aposentou e voltou para a França, onde faleceu em 30 de março de 1906. Durante sua estadia no Brasil, foi Diretor dos Parques e Jardins da Casa Imperial e Inspetor dos Jardins Municipais, além de ter integrado a Associação Brasileira de Aclimação, tendo trabalhado em obras de melhoramentos no Jardim Botânico, na Quinta da Boa Vista, na Floresta da Tijuca e no Passeio Público. Também realizou obras nos jardins da residência das princesas imperiais, da família do Barão de Nova Friburgo, do Barão de Mauá, no Rio de Janeiro, e de Tavares Guerra, em Petrópolis, dentre outros.

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

COARACY, Vivaldo. Coleção Rio 4 séculos, volume 3. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1965.

GERSON, Brasil. História das Ruas do Rio. Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2013.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Site da Casa de Rui Barbosa

Site da MultiRio

Site do Museu Nacional 

 

 

 

O café sob a lente de vários fotógrafos

Com uma seleção de imagens a Brasiliana Fotográfica lembra o Dia Nacional do Café, data incorporada em 2005 ao Calendário Brasileiro de Eventos. O produto chegou ao Brasil no século XVIII e desde então é um importante gerador de riquezas, muito significativo na história da economia e da cultura do país. Por sua relevância, vários aspectos de seu cultivo, colheita e comercialização foram registrados por importantes fotógrafos, dentre eles Georges Leuzinger (1813 – 1892), Guilherme Gaensly (1843 – 1928) e Marc Ferrez (1843 – 1923). O café foi também tema de fotógrafos ainda desconhecidos, do Instituto de Expansão Comercial e da Centennial Photographic Co.

 

 

Acessando o link para as fotografias relacionadas ao café disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

O café chegou ao Brasil, por Belém no Pará, em 1727, trazido pelo sargento-mor Francisco de Melo Palheta (1670 -1750) que, sob as ordens do governador do Maranhão e Grão Pará, o português João da Maia Gama, foi à Guiana Francesa para resolver problemas de fronteira. Lá conseguiu sementes de café que, na época, já tinham grande valor comercial. Seu cultivo espalhou-se da região Norte para outros estados e em meados do século XIX estabeleceu-se fortemente no Vale do Rio Paraíba, nos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro, gerando um novo ciclo econômico no país. Tornou-se o principal produto das exportações nacionais. Foi também muito cultivado em Minas Gerais e no Espírito Santo.

 

 

Sua produção e comercialização fomentaram o desenvolvimento e a criação de cidades, a construção de ferrovias para seu escoamento e São Paulo tornou-se a metrópole do café enquanto o Porto de Santos tornava-se seu principal ponto de saída. Após a abolição da escravatura, em 1888, aconteceu uma grande onda de imigração, principalmente de italianos, que vinham para o Brasil e se empregavam nos cafezais de São Paulo. A riqueza produzida nas lavouras de café gerou o crescimento do comércio, da oferta de serviços e da indústria nacional. O Brasil ainda é o maior exportador da bebida e o segundo maior país consumidor, atrás apenas dos Estados Unidos.

 

 

“As plantações de café no Brasil, entre meados do Século XIX até o final do século XX, além das divisas econômicas, gerou também um rico patrimônio cultural, envolvendo as edificações, os costumes regionais e a paisagem marcante, especialmente nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Para resgatar, preservar e valorizar toda essa riqueza, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) criou o Grupo Interinstitucional sobre o Patrimônio Cultural do Café da região sudeste do Brasil que, entre outras iniciativas, deverá estreitar a parceria entre órgãos de proteção do patrimônio cultural, universidades, sociedade civil organizada e iniciativa privada, buscando desenvolver a melhor estratégia para a preservação e a valorização do patrimônio cultural referente ao café no Brasil” (Iphan, 2011).

 

Fontes:

Embrapa

Iphan

Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento

Observatório Eco -Direito Ambiental

Revista Cafeicultura

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Missa Campal de 17 de maio de 1888 – Mais identificações

Dois anos após a publicação da fotografia produzida por Antônio Luiz Ferreira, Missa campal celebrada em ação de graças pela Abolição da Escravatura no Brasil, realizada no Rio de Janeiro, em 17 de maio de 1888, a Brasiliana Fotográfica a republica com mais uma identificação, dessa vez, do padre baiano José Alves Martins do Loreto (1845 – 1896), redator e sócio proprietário do jornal O Apóstolo. O reconhecimento foi feito pelo leitor Pedro Juarez Pinheiro. Além das identificações iniciais, que incluíram Machado de Assis (1839 – 1908), muitas outras já foram realizadas a partir de indicações feitas pelos leitores desse portal, que aceitaram o desafio de apontar outras pessoas presentes no evento. Mas ainda há muito trabalho pela frente. Novos reconhecimentos são bem-vindos! Na silhueta abaixo, o padre Loreto é o número 21.

 

MISSA 2

 

MISSA 2

 

Acessando o link para a fotografia Missa campal celebrada em ação de graças pela Abolição da Escravatura no Brasil produzida  Antônio Luiz Ferreira,  disponível na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar a imagem e verificar todos os dados referentes a ela.

 

1 – Princesa Isabel (1846-1921) – princesa imperial do Brasil e três vezes regente do Império do Brasil. Ficou conhecida como a Redentora por ter assinado a Lei Áurea.

2 – Luis Filipe Maria Fernando Gastão de Orléans, o conde d´Eu (1842-1922) – príncipe do Brasil por seu casamento com a princesa Isabel.

3 – Não identificada.

4 – Possivelmente o Marechal Hermes Ernesto da Fonseca (1824-1891) – político e militar brasileiro, irmão do general Deodoro da Fonseca, primeiro presidente do Brasil,  e pai do futuro presidente do Brasil, Hermes Rodrigues da Fonseca.

5 – Machado de Assis (1839-1908) – um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos.

6 – Possivelmente José de Miranda da Silva Reis, marechal de campo e Barão Miranda Reis (1824-1903) – foi ajudante de campo e camarista do imperador Pedro II e participou da Guerra do Paraguai. Exerceu importantes cargos, dentre eles foi ministro do Superior Tribunal Militar e dirigiu a Escola Superior de Guerra e o Arsenal de Guerra do Rio de Janeiro.

7 – Possivelmente José do Patrocínio (1854-1905) – escritor e jornalista, uma das maiores figuras do movimento abolicionista. Na foto está segurando a mão de seu filho primogênito, que ao fim da missa foi beijado pela princesa Isabel.

8 – Jornalista (?) não identificado.

9 – Possivelmente José Ferreira de Souza Araujo, conhecido como Ferreira Araujo(1848-1900) – um dos mais importantes jornalistas da época, foi diretor da Gazeta de Notícias e sob o pseudônimo Lulu Sênior escreveu as muito populares colunas Macaquinhos no SótãoBalas de Estalo e Apanhados. Foi o vice-diretor da Comissão Central da Imprensa Fluminense, formada para organizar e programar os festejos em torno da Abolição.

10 – Thomaz José Coelho de Almeida (1838-1895) – ministro da Guerra, integrante do Gabinete de 10 de março de 1888.

11 – Rodrigo Silva (1833-1889) – ministro dos Negócios da Agricultura e interino dos Negócios Estrangeiros, integrante do Gabinete de 10 de março de 1888.

12- José Fernandes da Costa Pereira Junior (1833-1899) – ministro do Império, integrante do Gabinete de 10 de março de 1888.

13- João Alfredo Correia de Oliveira (1835-1919) – presidente do Conselho de Ministros do Gabinete de 10 de março de 1888.

14- Maria José Velho de Avelar, Baronesa de Muritiba (1851-1932) – dama do Paço e amiga íntima da princesa Isabel.

15- Maria Amanda de Paranaguá Dória, Baronesa de Loreto (1849-1931) – dama do Paço e amiga íntima da princesa Isabel.

16- Fernando Mendes de Almeida (1845-1921) – na época, diretor e redator-chefe do Diário de Notícias. Era o segundo secretário da Comissão Central da Imprensa Fluminense, formada para organizar e programar os festejos em torno da Abolição.

17- Jornalista (?) não identificado.

18- Jornalista (?) não identificado.

19- Senador ou deputado (?) não identificado.

20- Possivelmente Ângelo Agostini (1843-1910) – italiano, um dos primeiros e mais importantes cartunistas do Brasil. Fez uma intensa campanha pela abolição da escravatura. Fundou e colaborou com diversos jornais e revistas, dentre eles a “Revista Illustrada”, que circulou entre 1876 e 1898.

21- Padre José Alves Martins do Loreto (1845 – 1893), redator e sócio proprietário do jornal “O Apóstolo”.

À esquerda da fotografia, estão vários padres diante do altar, que ainda não conseguimos identificar. Dentre eles, segundo a imprensa da época, estariam o celebrante da missa, padre Cassiano Coriolano Collona, capelão do Exército e um dos fundadores da Confederação Abolicionista, criada em 19 de fevereiro de 1888; o padre-mestre Escobar de Araújo, vigário de São Cristóvão; os padres Castelo Branco e Telemaco de Souza Velho e o padre Loreto, agora identificado.

O missal usado na cerimônia, em veludo carmezin, tinha a seguinte inscrição: “13 de maio de 1888 – Esse missal foi o que serviu na missa campal, celebrada em 17 de maio de 1888, no campo de S. Cristóvão, em ação de graças pela promulgação da lei que extinguiu a escravidão no Brasil”. O missal e a campainha utilizados foram, assim como a garrafa de vinho Lacryma Christi, doados. Segundo a imprensa da época, formavam as alas do altar as ordens terceiras de São Francisco de Paula, de São Francisco da Penitência e de Nossa Senhora do Carmo, além das irmandades de São Cristóvão e do Rosário com seus galões e candelabros. Estandartes de associações e de escolas podem ser vistas na foto.

A importância dos jornais do Rio de Janeiro no processo da Abolição da Escravatura fica evidenciada na missa campal por dois fatos: antes do início da cerimônia, o ministro da Guerra, Thomaz José Coelho de Almeida(identificado na foto – número 10), “ergueu um viva à imprensa nacional”; e, representando a imprensa, o jornalista Fernando Mendes de Almeida (identificado na foto – número 16, vestindo uma toga) ajudou na celebração da missa campal.

A missa campal do dia 17 de maio de 1888 foi um dos festejos pela Abolição da Escravatura organizada pela Comissão Central da Imprensa Fluminense. Possivelmente, seus integrantes estão identificados na foto usando uma faixa na qual podemos ler a palavra imprensa.

Pequeno perfil do padre José Alves Martins do Loreto (1845 – 1896)

O padre José Alves Martins do Loreto nasceu na Bahia, em 1845, e era neto paterno de José Ferreira de Carvalho (1783-1866), fundador da Vila do Raso, atual cidade baiana de Araci. Iniciou a carreira eclesiástica como vigário da Igreja da Vitória, em Salvador, após sua ordenação como padre, em 1868. Em Salvador, foi com seu irmão, o também padre Urbano Cecílio Martins, diretor do Colégio Atheneu.

Em 1887, pediu licença ao então arcebispo da Bahia, Dom Luís Antônio dos Santos (1817-1891), e seguiu para o Rio de Janeiro para tratamento de saúde. Oito meses depois, pediu autorização para renunciar à Paroquia da Vitória e se estabeleceu definitivamente no Rio. Já no ano seguinte, tornou-se, ao lado do padre cearense João Scaligero Augusto Maravalho (1844 – 1905), editor-chefe do jornal católico O Apóstolo, fundado em 1866 pelo monsenhor José Gonçalves Ferreira (? – 1883). O padre Loreto era amigo próximo de José do Patrocínio (1854-1905), uma das figuras mais importantes no movimento abolicionista brasileiro, e foi Patrocínio que fez o discurso de despedida em seu enterro (O Apóstolo, 19 de abril de 1896).

A identificação do Padre Loreto, feita por Pedro Juarez Pinheiro, foi divulgada pelo Portal Folha e foi possível a partir da comparação da fotografia da Missa Campal de 17 de maio de 1888 com uma ilustração feita pelo cartunista Ângelo Agostini (1843-1910) que acompanhava o texto “No púlpito e na impressa”, uma homenagem ao padre Loreto na ocasião de sua morte, publicada no jornal ilustrado Don Quixote, de 18 de abril de 1896.

 

 

A presença de Lima Barreto na Missa Campal

Apesar de não estar identificado na fotografia de Antonio Luis Ferreira, o escritor e jornalista Afonso Henriques de Lima Barreto (13/05/1881 – 1/11/1922), na época com 7 anos, contou em uma crônica publicada na Gazeta de Tarde, de 4 de maio de 1911, que esteve presente a esse momento histórico, levado por seu pai, João Henriques de Lima Barreto. Escreveu: Houve missa campal no Campo de São Cristóvão. Eu fui também com meu pai; mas pouco me recordo dela, a não ser lembrar-me que, ao assisti-la, me vinha aos olhos a “Primeira Missa”, de Vítor Meireles. Era como se o Brasil tivesse sido descoberto outra vez… A crônica de Lima Barreto foi transcrita no blog do Instituto Moreira Salles.

Uma curiosidade: Lima Barreto nasceu em 13 de maio de 1881, exatamente 7 anos antes do dia da abolição da abolição da escravatura no Brasil, ocorrida em 13 de maio de 1888.

Outras publicações da Brasiliana Fotográfica sobre a Missa Campal de 17 de maio de 1888

 

Missa Campal de 17 de maio de 1888

Machado de Assis vai à missa, de José Murilo de Carvalho

Missa Campal de 17 de maio de 1888 – Novas identificações

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Missa Campal de 17 de maio de 1888 – Novas identificações

Quinze dias depois da publicação da foto de Antonio Luiz Ferreira, Missa campal celebrada em ação de graças pela Abolição da Escravatura no Brasil, realizada no Rio de Janeiro, em 17 de maio de 1888,  a Brasiliana Fotográfica a republica com novas identificações, além das iniciais, que incluíram Machado de Assis. Muitas identificações foram realizadas a partir de indicações feitas pelos leitores desse portal, que aceitaram o desafio de apontar outras pessoas presentes no evento. Foram identificadas 15, mas ainda há muito trabalho pela frente. Novos reconhecimentos são bem-vindos!

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Acessando o link para a fotografia Missa campal celebrada em ação de graças pela Abolição da Escravatura no Brasil produzida  Antonio Luiz Ferreira,  disponível na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar a imagem e verificar todos os dados referentes a ela.

1 – Princesa Isabel (1846-1921) – princesa imperial do Brasil e três vezes regente do Império do Brasil. Ficou conhecida como a Redentora por ter assinado a Lei Áurea.

2 – Luis Filipe Maria Fernando Gastão de Orléans, o conde d´Eu (1842-1922) – príncipe do Brasil por seu casamento com a princesa Isabel.

3 – Não identificada.

4 – Possivelmente o Marechal Hermes Ernesto da Fonseca (1824-1891) – político e militar brasileiro, irmão do general Deodoro da Fonseca, primeiro presidente do Brasil,  e pai do futuro presidente do Brasil, Hermes Rodrigues da Fonseca.

5 – Machado de Assis (1839-1908) – um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos.

6 – Possivelmente José de Miranda da Silva Reis, marechal de campo e Barão Miranda Reis (1824-1903) – foi ajudante de campo e camarista do imperador Pedro II e participou da Guerra do Paraguai. Exerceu importantes cargos, dentre eles foi ministro do Superior Tribunal Militar e dirigiu a Escola Superior de Guerra e o Arsenal de Guerra do Rio de Janeiro.

7 – Possivelmente José do Patrocínio (1854-1905) – escritor e jornalista, uma das maiores figuras do movimento abolicionista. Na foto está segurando a mão de seu filho primogênito, que ao fim da missa foi beijado pela princesa Isabel.

8 – Jornalista (?) não identificado.

9 – Possivelmente José Ferreira de Souza Araujo, conhecido como Ferreira Araujo(1848-1900) – um dos mais importantes jornalistas da época, foi diretor da Gazeta de Notícias e sob o pseudônimo Lulu Sênior escreveu as muito populares colunas Macaquinhos no SótãoBalas de Estalo e Apanhados. Foi o vice-diretor da Comissão Central da Imprensa Fluminense, formada para organizar e programar os festejos em torno da Abolição.

10 – Thomaz José Coelho de Almeida (1838-1895) – ministro da Guerra, integrante do Gabinete de 10 de março de 1888.

11 – Rodrigo Silva (1833-1889) – ministro dos Negócios da Agricultura e interino dos Negócios Estrangeiros, integrante do Gabinete de 10 de março de 1888.

12- José Fernandes da Costa Pereira Junior (1833-1899) – ministro do Império, integrante do Gabinete de 10 de março de 1888.

13- João Alfredo Correia de Oliveira (1835-1919) – presidente do Conselho de Ministros do Gabinete de 10 de março de 1888.

14- Maria José Velho de Avelar, Baronesa de Muritiba (1851-1932) – dama do Paço e amiga íntima da princesa Isabel.

15- Maria Amanda de Paranaguá Dória, Baronesa de Loreto (1849-1931) – dama do Paço e amiga íntima da princesa Isabel.

16- Fernando Mendes de Almeida (1845-1921) – na época, diretor e redator-chefe do Diário de Notícias. Era o segundo secretário da Comissão Central da Imprensa Fluminense, formada para organizar e programar os festejos em torno da Abolição.

17- Jornalista (?) não identificado.

18- Jornalista (?) não identificado.

19- Senador ou deputado (?) não identificado.

20- Possivelmente Ângelo Agostini (1843-1910) – italiano, um dos primeiros e mais importantes cartunistas do Brasil. Fez uma intensa campanha pela abolição da escravatura. Fundou e colaborou com diversos jornais e revistas, dentre eles a “Revista Illustrada”, que circulou entre 1876 e 1898.

À esquerda da fotografia, estão vários padres diante do altar, que ainda não conseguimos identificar. Dentre eles, segundo a imprensa da época, estariam o celebrante da missa, padre Cassiano Coriolano Collona, capelão do Exército e um dos fundadores da Confederação Abolicionista, criada em 19 de fevereiro de 1888; o padre Loreto, o padre-mestre Escobar de Araújo, vigário de São Cristóvão; e os padres Castelo Branco e Telemaco de Souza Velho.

O missal usado na cerimônia, em veludo carmezin, tinha a seguinte inscrição: “13 de maio de 1888 – Esse missal foi o que serviu na missa campal, celebrada em 17 de maio de 1888, no campo de S. Cristóvão, em ação de graças pela promulgação da lei que extinguiu a escravidão no Brasil”. O missal e a campainha utilizados foram, assim como a garrafa de vinho Lacryma Christi, doados. Segundo a imprensa da época, formavam as alas do altar as ordens terceiras de São Francisco de Paula, de São Francisco da Penitência e de Nossa Senhora do Carmo, além das irmandades de São Cristóvão e do Rosário com seus galões e candelabros. Estandartes de associações e de escolas podem ser vistas na foto.

A importância dos jornais do Rio de Janeiro no processo da Abolição da Escravatura fica evidenciada na missa campal por dois fatos: antes do início da cerimônia, o ministro da Guerra, Thomaz José Coelho de Almeida(identificado na foto – número 10), “ergueu um viva à imprensa nacional”; e, representando a imprensa, o jornalista Fernando Mendes de Almeida (identificado na foto – número 16, vestindo uma toga) ajudou na celebração da missa campal.

A missa campal do dia 17 de maio de 1888 foi um dos festejos pela Abolição da Escravatura organizada pela Comissão Central da Imprensa Fluminense. Possivelmente, seus integrantes estão identificados na foto usando uma faixa na qual podemos ler a palavra imprensa.

Um pouco mais da história dos festejos pela Abolição da Escravatura no Brasil promovidos pela imprensa

No dia 12 de de maio de 1888, quatro dias após a apresentação na Câmara pelo ministro Rodrigo Silva(identificado na foto – número 11) do projeto para o fim da escravidão no Brasil, representantes dos periódicos Jornal do Commercio, Cidade do Rio, Diário de Notícias, Revista Illustrada, A Epoca, Gazeta da Tarde,  Novidades, Apóstolo e Gazeta de Notícias decidiram promover festejos populares para celebrar a iminente promulgação da Lei Áurea. Reuniram-se com colegas de outros jornais no Clube de Esgrima e Tiro, localizado na rua São Francisco de Paula, n°22, e formaram a Comissão Central da Imprensa Fluminense(Gazeta de Notícias, edição de 13 de maio de 1888). José do Patrocínio, representando o jornal O Paiz, participou do encontro.

No dia seguinte, 14 de maio, em uma segunda reunião realizada no Clube de Esgrima e Tiro, foi nomeada a diretoria da Comissão Central da Imprensa Fluminense. Foi formada pelos redatores- chefes dos principais jornais: João Carlos de Souza Ferreira, do Jornal do Commercio, na direção; José Ferreira de Souza Araujo, da Gazeta de Notícias, na vice-diretoria; e como primeiro e segundo secretários Demerval da Fonseca, da Gazeta de Notícias; e Fernando Mendes de Almeida, do Diário de Notícias, respectivamente. A tesouraria ficou a cargo de Henrique Villeneuve, do Jornal do Commércio; e de Artur Azevedo, da A EstaçãoAs festas promovidas pela Comissão começaram com a missa campal no dia 17 e terminaram no dia 20 com a queima de fogos de artifício em diversos pontos da cidade(Gazeta de Notícias, edição de 15 de maio de 1888).  Mais um baile foi programado para o dia 19 à noite, na praça da Aclamação, atual Campo de Santana.

A fim de envolver toda a população do Rio de Janeiro nos festejos, a Comissão Central da Imprensa Fluminense publicou pedidos nos jornais para que todos os moradores da cidade se empenhassem na iluminação e na ornamentação das ruas e para que os estabelecimentos comerciais fechassem durante as festas. Convocou também mestres de obras para a construção de coretos e arquibancadas. Comerciantes doaram dinheiro para a realização das festas. O Sport Club pôs à disposição da comissão a arrecadação do páreo 13 de maio de 1888 e artistas se encarregaram dos fogos de artifício. O importante cenógrafo Frederico de Barros ofereceu seus serviços à comissão. Enfim, toda a cidade participou da celebração da Lei Áurea.

Além de organizar os festejos, a Comissão Central da Imprensa Fluminense decidiu publicar um jornal especial, intitulado A Imprensa Fluminense, que foi o único a ser distribuído no dia 21 de maio de 1888.

Essas comemorações promovidas pela imprensa fluminense, e as fotografias de Antonio Luiz Ferreira sobre os vários eventos em torno do mais importante acontecimento histórico no Brasil, após a proclamação da Independência, são fundamentais para a formação da memória da Abolição da Escravatura. A euforia e o entusiasmo dos brasileiros, mostrados tanto nas festas como nas fotos de Ferreira, e também os textos publicados nos jornais da época podem ser interpretados como um contraponto a tão longa duração do regime escravocrata no país.

Leia a primeira publicação sobre a presença de Machado de Assis na foto da Missa Campal de 17 de maio de 1888

Leia o comentário do professor José Murilo de Carvalho sobre a identificação de Machado de Assis na Missa Campal de 17 de maio de 1888

Contribuíram para esta pesquisa o designer Daniel Arruda(IMS) e os historiadores Luciana Muniz(BN) e Rodrigo Bozzetti(IMS).

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Machado de Assis vai à missa

José Murilo de Carvalho*

Bendito o olhar de lince de Andrea Wanderley, que identificou o rosto de Machado de Assis na foto de Antonio Luiz Ferreira da missa celebrada em 17 de maio de 1888, no Campo de São Cristóvão, em ação de graças pela passagem da lei do dia 13 desse mês que abolira a escravidão no Brasil.

A foto está disponível no portal Brasiliana Fotográfica, fantástica iniciativa da Biblioteca Nacional em parceria com o Instituto Moreira Salles. Outras figuras são identificáveis, além, naturalmente, da princesa Isabel e do conde d’Eu. O presidente do Conselho de Ministros do Gabinete conservador que fez passar a lei, João Alfredo Correia de Oliveira, está à direita de Isabel, um pouco abaixo.

Os responsáveis pelo portal veem José do Patrocínio à frente do grupo, segurando a mão do filho. Ampliando o foco, deverão aparecer outros políticos e outros militantes da causa abolicionista. Nabuco não foi à missa, mas André Rebouças, quase íntimo da família imperial, estava lá. Também certamente estavam seus companheiros da Confederação Abolicionista, com quem se fizera fotografar na véspera, acompanhados de Ângelo Agostini, João Clapp, presidente da Confederação, Taunay,  grande amigo de Rebouças, Silveira da Mota, filho, Quintino Bocaiúva… Dezenas de outros certamente também estavam presentes e podem ser, eventualmente, identificados.

A escravidão no Brasil foi bastante fotografada, mas a abolição, sobretudo a semana de 13 a 20 de maio, nem tanto, mesmo na capital onde havia muitos fotógrafos.  A razão disso não sei. É quase total a ausência de fotos fora da Corte (há apenas duas), quando se sabe que as festividades ganharam todo o país. Mas a consequência disso é que os poucos registros até agora descobertos, umas 25 fotos, ganham extraordinária importância. E o destaque vai todo para Antônio Luiz Ferreira, autor das 15 fotos com que presenteou Isabel. Sua foto mais espetacular é, sem dúvida, a da sessão da Câmara do dia 10 de maio, quando foi aprovado o projeto da abolição. A foto mais curiosa é a de Luís Stigaard, tirada na colônia Isabel, no Rio Grande do Sul. Retrata dezenas de colonos, imigrantes europeus, disciplinadamente organizados em filas, comemorando a abolição, em contraste com a exuberância das celebrações na capital do Império.

Mas o registro importante hoje é a descoberta de que Machado foi à missa. Não era pessoa de frequentar igrejas. Também não apreciava manifestações multitudinárias. Mas a essa missa, a esse ajuntamento de milhares de pessoas, ele compareceu e fica claro na foto seu esforço para aparecer, prensado entre duas robustas figuras uniformizadas. Anos depois, em crônica (Gazeta de Notícias, 14/5/1893), ele anotou sobre o 13 de maio,  “Verdadeiramente, foi o único dia de delírio público que me lembra ter visto”. A missa foi continuação do delírio e é muito bom saber que o tímido, circunspecto e cético Machado estava lá.

[Ver sobre o assunto, Pedro e Bia Corrêa do Lago, Coleção Princesa Isabel. Fotografia do Século XIXRio de Janeiro: Capivara, 2008.]

Acessando o link para a fotografia Missa campal celebrada em ação de graças pela Abolição da Escravatura no Brasil produzida  Antonio Luiz Ferreira,  disponível na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar a imagem e verificar todos os dados referentes a ela.

*Natural de Minas Gerais, José Murilo de Carvalho é bacharel em Sociologia e Política (Universidade Federal de Minas Gerais) e doutor em Ciência Política (Stanford University). Foi professor na UFMG e na Universidade Federal do Rio de Janeiro e  professor visitante nas universidades de Stanford, California-Irvine, Notre Dame (Estados Unidos), Leiden (Holanda), London e Oxford (Inglaterra) e maître de conférence  na École des Hautes Études en Sciences Sociales (França). Foi pesquisador visitante do Institute for Advanced Study de Princeton. É professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, pesquisador emérito do CNPq, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Brasileira de Letras. Em  2015 recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Coimbra. É autor de vários livros, entre os quais A construção da ordem e Teatro de sombras (Civilização Brasileira, 2003); Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi (Cia. das Letras, 1987); A formação das almas: o imaginário da República (Cia. das Letras, 1990); Cidadania no Brasil: o longo caminho (Civilização Brasileira, 2001, 2013) e D. Pedro II, ser ou não ser (Cia. das Letras, 2oo7).

Missa Campal de 17 de maio de 1888

 

A pesquisadora e editora-assistente da Brasiliana Fotográfica, Andrea Wanderley*, identificou a presença de Machado de Assis na fotografia da Missa Campal de Ação de Graças pela Abolição da Escravatura realizada no dia 17 de maio de 1888, no Campo de São Cristóvão, no Rio de Janeiro. O autor da foto foi Antonio Luiz Ferreira.

A identificação de Machado de Assis foi confirmada por Eduardo Assis Duarte, doutor em Teoria da Literatura e Literatura Comparada (USP) e professor da Faculdade de Letras da UFMG , que considerou a fotografia um documento histórico da maior importância. Segundo ele, Machado de Assis teve uma “atitude mais ou menos esquiva na hora da foto, em que praticamente só o rosto aparece, dando a impressão de que procurou se esconder, mas sem conseguir realizar sua intenção totalmente. Atitude esta plenamente coerente com o jeito encolhido e de caramujo que sempre adotou em público, uma vez que dependia do emprego público para viver e eram muitas as perseguições políticas aos que defendiam abertamente o fim da escravidão.”

Eduardo Assis Duarte, que organizou “Machado de Assis afrodescendente” (2007) e a coleção “Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica” (2011, 4 vol.), e é coordenador do Literafro – Portal da Literatura Afro-brasileira, justificou a proximidade de Machado da princesa Isabel. Segundo ele, “Machado foi abolicionista em toda a sua vida e, a seu modo, criticou a escravidão desde seus primeiros escritos. Nunca defendeu o regime servil nem os escravocratas. Além disso, era amigo próximo de José do Patrocínio, o grande líder da campanha abolicionista e, junto com ele, foi à missa campal do dia 17, de lá saindo para com ele almoçar… Como Patrocínio sempre esteve próximo da princesa em todos esses momentos decisivos, é plenamente factível que levasse consigo o amigo para o palanque onde estava a regente imperial. A propósito, podemos ler no volume 3 da biografia escrita por Raimundo Magalhães Júnior :

‘Na manhã de 17 de maio, foi promovida uma grande missa campal, comemorativa da Abolição, em homenagem à Princesa Isabel, que compareceu, e houve em seguida um almoço festivo no Internato do Colégio Pedro II. Terminada a missa, José do Patrocínio foi para sua casa, à rua do Riachuelo, com dois amigos que convidara para almoçar em sua companhia: um deles era Ferreira Viana, ministro da Justiça do Gabinete de João Alfredo. E o outro era Machado de Assis, a quem, aliás, o grande tribuno abolicionista oferecera a carta autógrafa que recebera, em 1884, em Paris, de Victor Hugo.’ (MAGALHÃES JÚNIOR, Vida e obra de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira / INL-MEC, 1981, vol. 3, Maturidade, p. 125).”

O biógrafo, continua Eduardo Assis Duarte, “não diz onde estava Machado durante a missa, mas pode-se concluir perfeitamente que ele compareceu e que estava junto a José do Patrocínio. Daí minha conclusão: se a imagem que aparece na foto não for de Machado, é de alguém muito parecido.”

Segundo Ubiratan Machado, jornalista, escritor, bibliófilo e autor do “Dicionário de Machado de Assis”, lançado pela Academia Brasileira de Letras, a identificação de Machado de Assis na foto foi uma dupla descoberta: “Não há dúvida que se trata do Machado, atrás de um senhor de barbas brancas e mil condecorações no peito. O fato do seu rosto estar um pouco escondido não atrapalha em nada a identificação. É o velho mestre, perto de completar 50 anos. Igualzinho aos dos retratos que conhecemos desta fase de sua vida.  A segunda revelação é a de Machado ter ido à missa de ação de graças, fato até hoje desconhecido pelos biógrafos. A foto tem ainda outra importância: mostrar que ele se preocupava com a libertação dos escravos, acabando de vez com a idiotice de alguns que afirmam ser ele indiferente ao destino da raça negra no Brasil. É a prova visual da alegria embriagadora que ele sentiu com a abolição, como narra em seu conhecido depoimento (Gazeta de Notícias, edição de 14 de maio de 1893, sob o título “A Semana”).

Machado de Assis participou também, no dia 20 de maio de 1888, do préstito organizado pela Comissão de Imprensa para celebrar a Abolição. Na ocasião, ele desfilou no carro do fundador da Gazeta de Notícias, o Sr. Ferreira de Araújo (1848 – 1900) (Gazeta de Notícias, edição de 21 e 22 de maio de 1888, na última coluna) .  Antes dessas festividades, Machado havia sido agraciado com a Imperial Ordem da Rosa, que premiava civis e militares que houvessem se destacado por serviços prestados ao Estado ou por fidelidade ao imperador.

Além disso, em 16 de maio, dia anterior à realização da missa campal, Machado de Assis havia participado de uma homenagem prestada pelos empregados da secretaria de Agricultura e repartições anexas ao conselheiro Rodrigo Silva (1833 – 1889), autor e co-assinante da Lei Áurea, ministro dos Negócios da Agricultura e interino dos Negócios Estrangeiros, integrante do Gabinete de 10 de março de 1888, proferindo as seguintes palavras:

“Todos os vossos empregados que eram vossos amigos agradecidos pela elevação do trato e confiança com que são acolhidos, são hoje vossos admiradores pelo imorredouro padrão de glória a que ligastes vosso nome, referendando a lei que declarou para sempre extinta a escravidão no Brasil” (Gazeta de Notícias, 17 de maio de 1888, na terceira coluna). O conselheiro Rodrigo Silva estava presente à missa campal.

Machado também foi apontado como um dos funcionários da secretaria de Agricultura que muito fizeram em prol da causa da abolição e que “no silêncio do gabinete …dedicaram-se durante anos a velar com solicitude na defesa dos direitos dos escravos, a tirar das leis de liberdade todos os seus naturais corolários, a organizar e tornar efetiva a emancipação gradual pela ação do Estado, a marcar por laboriosas estatísticas o andamento do problema, a estabelecer hermenêutica sã como reguladora dos casos controversos, a saturar a atmosfera, enfim, de princípios fecundos na sua aplicação prática, firmando o corpo de doutrina e, na realidade, sustentando verdadeira propaganda eficacíssima para a aspiração da liberdade”(Gazeta de Notícias, 18 de maio de 1888, na quarta coluna).

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Detalhe da foto

 

 

A Brasiliana Fotográfica convida os leitores a participar do desafio de identificar outras personalidades presentes na foto da solenidade. Abaixo, destacamos na foto e em sua silhueta o grupo em torno da princesa Isabel (1) e do conde D’Eu (2). Machado de Assis é o número 5. Possivelmente o número 7 é José do Patrocínio, atrás de um estandarte e segurando a mão de seu filho, então com três anos. Quem serão os outros?

 

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Numeramos alguns dos presentes, mas a identificação de qualquer pessoa que esteja na fotografia é bem-vinda.

Um pouco da história da foto

A Missa Campal em São Cristóvão, no Rio de Janeiro, em 17 de maio de 1888, foi uma celebração de Ação de Graças pela libertação dos escravos no Brasil, decretada quatro dias antes, com a assinatura da Lei Áurea. A festividade contou com a presença da princesa Isabel, regente imperial do Brasil, e de seu marido, o conde D´Eu, príncipe consorte, que, na foto, está ao lado da princesa, além de autoridades e políticos. De acordo com os jornais da época, foi um “espetáculo imponente, majestoso e deslumbrante”, ocorrido em um “dia pardacento” que contrastava com a alegria da cidade.

Cerca de 30 mil pessoas estavam no Campo de São Cristóvão. Dentre elas, o fotógrafo Antonio Luiz Ferreira que há muito vinha documentando os eventos da campanha abolicionista brasileira desde suas votações e debates até as manifestações de rua e a aprovação da Lei Áurea. Não se conhece um evento de relevância nacional que tenha sido tão bem fotografado anteriormente no Brasil. No registro da missa campal é interessante observar a participação efetiva da multidão na foto, atraída pela presença da câmara fotográfica, o que proporciona um autêntico e abrangente retrato de grupo. Outra curiosidade é a cena de uma mãe passeando com seu filho atrás do palanque, talvez alheia à multidão, fazendo um contraponto de quietude à agitação da festa.

Antonio Luiz Ferreira presenteou a princesa Isabel com 13 fotos de acontecimentos em torno da Abolição. A maior parte dessas fotos faz parte da Coleção Princesa Isabel que se encontra em Portugal, conservada por seus descendentes. Ferreira produziu duas fotos das duas missas realizadas em ação de graças pela Abolição. Uma delas, a principal,  intitulada “Missa campal celebrada em ação de graças pela Abolição da escravatura no Brasil”, é a que está aqui destacada e faz parte da Coleção Dom João de Orleans e Bragança. A outra missa foi celebrada pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos. Outros três registros foram feitos por Ferreira no dia 22 de agosto de 1888 e documentaram o retorno do imperador Pedro II ao Brasil. A prova da fotografia da missa campal, que ficou em exposição na papelaria Guimarães & Ferdinando, foi entregue à princesa em junho de 1888 (Diário de Notícias, 9 de junho de 1888, na segunda coluna).

Ao todo, Antonio Luiz Ferreira fotografou 18 cenas ligadas às celebrações de 1888 e com isso, apesar de ter tido uma carreira discreta, tornou-se um importante fotógrafo do século XIX. As imagens captadas por ele nessas datas tão marcantes da história do Brasil caracterizam-se pela expressividade dos rostos retratados, decorrência da relevância do fato e da fascinação causada pela câmara fotográfica. Também foi responsável por um Álbum de vistas da Biblioteca Nacional, em 1902.

Ampliando-se a fotografia abaixo clicando em cima dela, vê-se, no alto à esquerda, um anúncio da Photographia Central de Antonio Luiz Ferreira no Largo da Carioca onde está anunciado que trabalhava-se mesmo com mau tempo**:

 

 

 

Acessando o link para a fotografia Missa campal celebrada em ação de graças pela Abolição da Escravatura no Brasil produzida  Antonio Luiz Ferreira,  disponível na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar a imagem e verificar todos os dados referentes a ela.

 

Contribuíram para esta pesquisa Elvia Bezerra (IMS) e Luciana Muniz (BN).

*O texto desta publicação foi revisto em 15 de maio de 2018.

**Essa informação foi colocada em 9 de setembro de 2019.

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica