À mesa, os pioneiros da ciência brasileira

A fotografia destacada pela jornalista Cristiane d´Avila, da Fiocruz, uma das instituições parceiras do portal, representa bem mais do que o registro de um momento de descontração de pesquisadores, na Casa de Chá, em Manguinhos, em torno de 1908. Ali estava parte do grupo que alçaria o Instituto Oswaldo Cruz a ícone da medicina experimental no Brasil. A participação no Congresso Internacional de Higiene e Demografia realizado em Berlim, em 1907, onde o país foi laureado com medalha de ouro, deu condições para que uma instituição científica de estado, dedicada à pesquisa e ao ensino, se perpetuasse e fizesse de um sonho a concretização de seu projeto original, pautado até o presente na valorização da vida.

 

À mesa, os pioneiros da ciência brasileira

Cristiane d´Avila*

 

 

Pausa para a foto e o café. Pequenas mesas dispostas em semicírculo rondam a figueira, fincada na área central do caramanchão. À mesa, talvez o mesmo cardápio das refeições de alguns anos antes, quando o almoço era servido em um barracão: “galinha ensopada com batatas, arroz, pão”[1]. No primeiro plano, o químico alemão Gustav Giemsa (1867 – 1948) e o médico Henrique Aragão (1879 – 1956) posam ao lado do garçom, anônimo, de pé; no segundo, o protozoologista e também alemão Stanislas Von Prowazek (1875 – 1915) conversa com Oswaldo Cruz (1872 – 1917), a câmera como testemunha do suposto diálogo entre ambos.

A fotografia do almoço na bucólica casa de chá (inaugurada em 1905 e, desde então, instalada no campus da Fiocruz em Manguinhos) data de 1908. Naquele ano, os dois professores da Escola de Medicina Tropical de Hamburgo receberam autorização do governo alemão para uma visita técnica ao Instituto Oswaldo Cruz, por seis meses. Realizada às expensas do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), incluía bolsa de dois mil marcos por mês, para cada um, e passagens. Objetivos: ministrar cursos sobre suas especialidades aos profissionais do IOC e publicar em primeira mão, na recém-lançada revista científica Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, os resultados das pesquisas realizadas durante o intercâmbio no instituto.

A visita dos cientistas alemães foi impulsionada pela participação do Instituto de Patologia Experimental (denominação anterior do IOC)[2] no Congresso Internacional de Higiene e Demografia realizado em Berlim, em 1907. Único representante da América do Sul no evento, o Brasil ocupou três salas de exposições: uma dedicada à profilaxia da febre amarela, fruto da bem-sucedida campanha de Oswaldo Cruz no combate à doença no Rio, em 1904; outra, a estatísticas demográfico-sanitárias da cidade, então capital do país; e a terceira a projetos, fotografias dos prédios projetados para o campus de Manguinhos e produtos biológicos fabricados no instituto.

Os estrangeiros ficaram impressionados com a coleção de insetos e os materiais representativos das doenças tropicais exibidas pelos cientistas brasileiros, principalmente as peças ilustrando as lesões provocadas pela febre amarela e a peste bubônica. “A participação do país no congresso internacional se dava, sobretudo, aos vínculos que Oswaldo Cruz criara com os mais importantes institutos europeus de medicina experimental. Tais relações tornaram Manguinhos mais conhecido na Europa que no Brasil”, explica o historiador Jaime Benchimol no livro Manguinhos do sonho à vida.

Até então, segundo Benchimol, o IOC contava com parcos recursos e com quadro de pessoal que se resumia ao diretor, Oswaldo Cruz, a dois bacteriologistas e a dois estudantes, além de pesquisadores voluntários. Com o sucesso da campanha de Berlim, o IOC recebeu novo regulamento e arcabouço institucional, ganhando maior autonomia orçamentária e administrativa.

Foi justamente esse profícuo intercâmbio que levou, em 1908, os professores de Hamburgo a Manguinhos. “Os trunfos colhidos em Berlim e a nova realidade institucional de Manguinhos permitiram a Oswaldo Cruz incorporar novos pesquisadores e deslanchar uma política de intercâmbio com os institutos estrangeiros, visando ao aperfeiçoamento de seu quadro de cientistas e ao amadurecimento de suas linhas de pesquisa”, continua Benchimol na detalhada obra sobre a história da Fiocruz e mesmo da própria ciência no país.

O intercâmbio com centros de pesquisa internacionais como Instituto Pasteur, Museu Britânico, Instituto de Higiene de Heidelberg e de Moléstias Infecciosas de Berlim, escolas de Medicina Tropical de Hamburgo, Londres e Liverpool, etc., foi fundamental nesse processo de enfrentamento de resistências ao investimento em ciência e à autonomia do IOC. Igual relevância teve o papel dos pesquisadores e de suas inúmeras investigações, que levaram ao desenvolvimento de produtos biológicos de uso veterinário e humano. “A pauta industrial de Manguinhos evoluiu de 11 produtos em 1907 para 26 em 1918, entre soros, vacinas e outras substâncias biológicas para fins terapêuticos, para diagnóstico ou utilizados como matéria-prima em processos laboratoriais”[3].

A fotografia, portanto, representa mais do que o registro de um momento de descontração, após a refeição dos pesquisadores, na bucólica Casa de Chá. Ali estava parte do grupo que alçaria o Instituto Oswaldo Cruz (assim nomeado a partir de 1908) a ícone da medicina experimental no Brasil. De certa forma, a participação no congresso em Berlim, onde o Brasil foi laureado com medalha de ouro, deu condições, ao longo dos anos, para que uma instituição científica de estado dedicada à pesquisa e ao ensino pudesse trilhar caminhos que a permitiram fazer de um sonho, seu objetivo maior: a valorização da vida.

[1] ARAGÃO apud FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ, 1947.

[2] A Fundação Oswaldo Cruz foi inaugurada em 1900 como Instituto Soroterápico Federal, passou a Instituto de Patologia Experimental e, a partir de 1908, ganhou o nome do patrono.

[3] Benchimol, 2020, p. 84

 

*Cristiane d´Avila é jornalista do Departamento de Arquivo e Documentação Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz

Fontes:

BENCHIMOL, Jaime Larry (coord.). Manguinhos do sonho à vida: a ciência na Belle Époque. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2020.

FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ. CASA DE OSWALDO CRUZ. Resumo histórico da fundação do Instituto Soroterápico Federal, hoje Instituto Oswaldo Cruz. Coletânea organizada pelo arquivista Albino Taveira. Rio de Janeiro, COC, 1947.

 

 

alemães

Os cientistas Gustav Giemsa (1867 – 1948) e Stanislas Von Prowazek (1875 – 1915) / Wikipedia e Fiocruz

 

  

A Estrada de Ferro do Paraná, de Paranaguá a Curitiba, pelos fotógrafos Arthur Wischral e Marc Ferrez

 

 

Arthur Júlio Wischral (1894 – 1982) foi um importante fotógrafo do Paraná, tendo realizado trabalhos para a imprensa e também para o governo do estado onde atuou. Em 1928, foi contratado pela Rede Viação Paraná – Santa Catarina e registrou o dia a dia das obras de manutenção da estrada de ferro Curitiba-Paranaguá assim como as dificuldades enfrentadas por seus trabalhadores. Um álbum, editado pelo próprio fotógrafo e por J. J. Wischral, foi produzido com esses registros.

 

 

 

Acessando o link para o Álbum de Photografias da Ferrovia de Curytiba a Paranaguá, de autoria de Arthur Wischral, disponível na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

No final do artigo, há uma cronologia da vida de Wischral.

 

Um pouco da história da ferrovia Curitiba-Paranaguá, cuja construção foi registrada pelo fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923)

 

 

O surgimento dos trens de ferro e a expansão das ferrovias eram no século XIX um evidente sinal de modernidade. Significavam a vitória, o triunfo do homem a partir da tecnologia e tinham como uma de suas consequências o desenvolvimento econômico. A ideia da construção da Ferrovia do Paraná surgiu após a emancipação do estado do Paraná, em 29 de agosto de 1853, a partir da Lei Imperial nº 704, assinada por dom Pedro II(1825 – 1891). Era um desafio escoar a erva-mate, importante produto para a economia do estado, para os portos do litoral. Por essa razão, foi autorizada a contratação de uma via férrea a partir da Lei Provincial nº 11, de 30 de abril de 1856 (Dezenove de Dezembro, 22 de outubro de 1856).

 

Acessando o link das imagens do Álbum da Estrada de Ferro do Paraná, de autoria de Marc Ferrez, disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Porém, só no início da década de 1870, os engenheiros Francisco Monteiro Tourinho (1837 – 1885), Antônio Pereira Rebouças (1839 – 1874) e Maurício Schwartz (18? -?) solicitaram ao Império um pedido de concessão para a construção da ferrovia. Eles já haviam construído a Estrada da Graciosa, também no Paraná. A estrada de ferro do Paraná sairia, a princípio, da cidade de Antonina. Após muita polêmica, o Decreto Imperial de 1.º de maio de 1875 decidiu que o trem partiria de Paranaguá. O argumento foi que a profundidade da baía de Antonina não comportaria navios de grande porte.

O projeto da ferrovia, arrojado e muito avançado para a época, foi dos irmãos e engenheiros André Rebouças (1838 – 1898) – também abolicionista – e Antônio Pereira Rebouças (1839 – 1874), considerados, até hoje, os primeiros afrodescendentes formados em Engenharia no Brasil. Para realizá-lo, os irmãos fizeram um estudo detalhado da Serra do Mar e elaboraram um traçado cheio de pontes, túneis e viadutos.

 

 

Em 1873, por não conseguir cumprir os prazos estabelecidos para o início das obras, Antônio Rebouças cedeu seus direitos ao Barão de Mauá (1813 – 1889), que também não cumpriu as exigências do contrato. Em 1877, foi aprovado um novo traçado baseado nos originais de Rebouças e com adaptações dos engenheiros Rodolpho Alexandre Helh e Luiz da Rocha Dias. Pelo Decreto n° 7420 de 12 de agosto de 1879, assinado por João Lins Vieira Cansanção de Sinimbu, o Visconde de Sinimbu (1810 – 1906), foi autorizada a transferência de todos os direitos e obrigações dos, desde 1875, concessionários da ferrovia, José Gonçalves Pecego Junior e José Maria da Silva Lemos, à companhia francesa Compagnie Général de Chemins de Fer Brésiliens, que não tinha expertise em relação à construção de estradas de ferro, o que sua companhia associada, a empreiteira belga Société Anonyme de Travaux Dyle et Bacalan, tinha. Ficou, então, encarregada das obras.

 

 

O diretor dos novos serviços para a construção, um marco da engenharia do Brasil, foi o comendador Antônio Ferrucci (c. 1830 – ?), um dos principais chefes de seu planejamento que, com outros membros da comissão de engenharia da estrada, chegou ao Rio de Janeiro, em 8 de fevereiro de 1880, no paquete francês Gironde (Gazeta de Notícias, 10 de fevereiro de 1880, sétima coluna). Ferrucci comandou as obras até fins de 1881. A partir de 20 de janeiro de 1882, o representante no Brasil da Société Anonyme des Travaux Dyle et Bacalan, o engenheiro Francisco Pereira Passos (1836 – 1913), futuro prefeito do Rio de Janeiro, entregou a chefia das obras ao engenheiro brasileiro João Teixeira Soares (1848 – 1927), que concluiu a construção da ferrovia, sendo o seu primeiro diretor.

 

 

A construção da ferrovia para a qual, entre brasileiros e estrangeiros – franceses, italianos, belgas, suíços, suecos e poloneses -, foram empregados cerca de nove mil trabalhadores, alavancou o desenvolvimento de Curitiba assim como a história da economia do Paraná.

Em 5 de junho de 1880, com a presença de dom Pedro II (1825 – 1891), em sua primeira e única visita ao Paraná, foi lançada a pedra fundamental das obras da ferrovia (Dezenove de Dezembro, 24 de maio de 1880Dezenove de Dezembro, 9 de junho de 1880, segunda coluna). A inauguração do tráfego regular da primeira seção, o trecho de Paranaguá a Morretes, ocorreu em 17 de novembro de 1883. O da segunda seção, entre Morretes e Borda do Campo ou Roça Nova, em 1884.

 

 

Em 13 de dezembro de 1884, a princesa Isabel (1846 – 1921), seus filhos, o governador do Paraná, Brasílio Augusto de Machado Oliveira (1848 – 1919); além de outras autoridades viajaram na ferrovia do Paraná, entre Curitiba e Paranaguá, onde a princesa embarcaria para Antonina e depois para Santa Catarina, onde encontraria seu marido, o conde d´Eu (1842 – 1922), em Joinville (Gazeta de Notícias, 14 de dezembro de 1884, primeira colunaDezenove de Dezembro, 14 de dezembro de 1884, primeira colunaO Paiz, 14 de dezembro de 1884, segunda coluna).

 

 

No dia 1º de fevereiro de 1885,  partiu da cidade de Curitiba um trem especial com destino à Paranaguá. Nele viajaram o dr. Brasilio Machado (1848 – 1919), presidente da Província; o chefe da Polícia, o senador Pedro Leão Veloso (1828 – 1902), o engenheiro João Teixeira Soares (1848 – 1927), dentre outras autoridades. Em Paranaguá, pelo vapor América, fretado pela Compagnie Général de Chemins de Fer Brésiliens, chegaram da Corte, no dia seguinte pela manhã, entre outros, o ministro da Agricultura, Manoel Pinto de Souza Dantas (1831 – 1894);  os ministros da Bélgica, da Rússia e da França; o Visconde de Paranaguá (1821 – 1912) e o Conselheiro Sinimbu (1810 – 1906) (Dezenove de Dezembro, 4 de fevereiro de 1885).

 

O vapor do mar, em galas, saudava a locomotiva, vapor de terra. Fulton abraçava Stephenson.

 

O fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923), que fotografou a ferrovia na época de sua construção, estava presente no evento (Dezenove de Dezembro, 4 de fevereiro de 1885, terceira coluna).

 

 

Ainda na manhã de 2 de fevereiro, às 10h, o trem inaugural da Ferrovia do Paraná partiu de Paranaguá, fez uma parada em Morretes e, às 14h, em Cadeado, onde os convidados almoçaram. Houve uma série de saudações, uma delas feita pelo engenheiro Pereira Passos (1836 – 1913).

 

 

Depois de mais uma parada, na estação de Piraquara, o comboio chegou, às 19h, à Curitiba, tendo sido recepcionado por cerca de cinco mil pessoas que o aguardavam. Às 20:20, a Compagnie Général de Chemins de Fer Brésiliens ofereceu um banquete aos convidados da Corte, em um dos armazéns da estação, ornamentada com as bandeiras belga, brasileira, francesa, italiana e russa. Havia também uma exposição de utensílios dos operários que haviam trabalhado na construção da ferrovia.

 

 

 

 

 

 

Pereira Passos (1836 – 1913) presenteou dom Pedro II (1825 – 1891) com 14 fotografias e um álbum de autoria de Ferrez das obras da ferrovia, Estrada de Ferro do Paraná. O álbum integra a coleção Thereza Christina Maria, mantida na Biblioteca Nacional do Brasil, uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica.

 

 

Em 1886, em uma reunião da Sociedade Central de Immigração, da qual faziam parte, entre outros, o astrônomo belga Louis Ferdinand Cruls (1848 – 1908), o pintor italiano Nicolau Facchinetti (1824 – 1900), o alemão Franz Keller-Leuzinger (1835 – 1890), que era casado com uma das filhas de Georges Leuzinger (1813 – 1892) e dirigia o setor de fotografia de seu estabelecimento, e o político Alfredo d´Escragnolle Taunay (1843 – 1899), foram apresentadas por esse último, presidente da associação, fotografias da ferrovia do Paraná, de autoria de Ferrez (A Immigração, agosto de 1886).

 

álbum

 

Acesse aqui o pdf do Álbum da Estrada de Ferro do Paraná, de autoria de Marc Ferrez, com 33 imagens.

Sobre o viaduto São João, considerado o mais importante de toda a linha, inaugurado em 26 de junho de 1884 e registrado na fotografia abaixo, o engenheiro Teixeira Soares (1848 – 1927) comentou:

 

 

“Os três vãos pequenos são vencidos com vigas de alma cheia. Só o vão central é de treliça. Assenta sobre pilares de ferro batido, apoiados em base de alvenaria de pedra. A estrutura metálica é fabricada na Bélgica. Fornecemos os perfis do terreno natural e do greide. Eles projetam cada ponte ou viaduto de acordo com o trem de carga especificado. Aqui fazemos a montagem, que não é fácil. Para muita gente pode parecer desperdício pilares metálicos, se estamos rodeados de granito e de gnaisse em abundância. Acontece que a experiência europeia concluiu que, a partir de 30 metros, o ferro torna-se mais econômico do que a alvenaria de pedra. O alojamento e a manutenção do numeroso pessoal necessário à execução de importantes maciços de alvenaria acarretam dificuldades. Embora isso, os pilares metálicos devem ser embutidos em bases de alvenaria, com certa altura. Não só impedem que a unidade provoque a corrosão do metal, como evitam que suba até a estrutura metálica. Para vãos inferiores a 15 metros, os europeus recomendam vigas de alma cheia. Mais afoitos, os americanos as empregam até vãos de 35 metros. Seu inconveniente é a rebitagem. Trabalho insano. Como estamos sujeitos ao mercado europeu, acima de 15 metros usamos vigas em treliça, a exemplo do vão central. As treliças simples são três. Em “V”, conhecidas por vigas ‘Warren’, do nome do engenheiro inglês que primeiro as usou no seu país. Em “N”, ou Monier, nome do engenheiro belga que as patenteou em 1858, na Alemanha. Finalmente as Neville, nome tirado do engenheiro americano que as inventou, mas que não passam de um tipo misto das anteriores. Aqui, dada a extensão do vão, os belgas projetaram uma treliça múltipla dupla.”

 

Pequena cronologia da carreira de Marc Ferrez como fotógrafo no setor ferroviário

 

 

1880 – Entre 1880 e 1890,  fotografou as construções ferroviárias no Brasil, quando produziu um grande panorama da paisagem brasileira de sua época.

1882 – Fotografou as obras da ferrovia Dom Pedro II, em São Paulo e em Minas Gerais, tendo registrado a presença do imperador Pedro II e de sua comitiva na entrada do túnel da Serra da Mantiqueira (Gazeta de Notícias, 27 de junho de 1882, na quarta coluna).

 

1883 – O Club de Engenharia ofereceu uma recepção ao engenheiro hidráulico holandês J. Dirks, o grande especialista da época em portos e canais, que estava de passagem pelo Rio de Janeiro e seguiria para Valparaíso, no Chile. Na ocasião, foi realizada uma exposição de fotografias das estradas de ferro, de autoria de Marc Ferrez (Revista de Engenharia, 14 de abril de 1883).

c. 1884 – Fotografou as obras da ferrovia do Paraná (Paranaguá – Curitiba. O gerente da firma Société Anonyme des Travaux Dyle et Bacalan, empreiteira belga encarregada pelas obras, o futuro prefeito do Rio de Janeiro, o engenheiro Francisco Pereira Passos (1836 – 1913), presenteou dom Pedro II com 14 fotografias e um álbum de autoria de Ferrez com registros da ferrovia e da província do Paraná.

1884 - Exposição de fotografias da estrada de ferro Teresa Cristina, na A la Glacê Elegante (Gazeta da Tarde, 11 de novembro de 1884, na quinta coluna).

1885 – Ferrez participou da inauguração da ferrovia do Paraná, a estrada de ferro Paranaguá – Curitiba (Dezenove de Dezembro, 4 de fevereiro de 1885, na terceira coluna).

1886 – Em uma reunião da Sociedade Central de Immigração, da qual faziam parte, entre outros, o astrônomo belga Louis Ferdinand Cruls (1848 – 1908), o pintor italiano Nicolau Facchinetti (1824 – 1900), o alemão Franz Keller-Leuzinger (1835 – 1890), que era casado com uma das filhas de George Leuzinger e dirigia o setor de fotografia de seu estabelecimento, e o político Alfredo d´Escragnolle Taunay (1843 – 1899), foram apresentadas por esse último, presidente da associação, fotografias da ferrovia do Paraná, de autoria de Ferrez (A Immigração, agosto de 1886).

O Club de Engenharia aprovou a proposta de Marc Ferrez e de E. de Mascheuk para a execução de “diversos trabalhos concernentes à exposição dos caminhos de ferro” (Revista de Engenharia, 14 de dezembro de 1886, na primeira coluna).

Ferrez fotografou a ferrovia Dom Pedro II, em Juiz de Fora.

1887 - Entre 2 de julho e 2 de agosto, nos salões do Liceu de Artes e Ofícios, por uma iniciativa do Club de Engenharia, realizou-se a Exposição dos Caminhos de Ferro Brasileiros, com a exibição de fotografias de Ferrez (Revista de Engenharia, 14 de agosto de 1887). Estiveram presentes no encerramento da exposição, no dia 2 de agosto, a princesa Isabel(1845 – 1921) e o conde d´Eu (1842 – 1922), além de outras autoridades. O conselheiro Sinimbu (1810 – 1906) leu o relatório do júri da exposição, do qual também fazia parte o visconde de Mauá (1813 – 1889), Pedro Betim Paes Leme (1846 – 1918), Christiano Benedicto Ottoni (1811 – 1896), Carlos Peixoto de Mello (1871 – 1917), Álvaro Joaquim de Oliveira (1840 – 1922) e Manoel José Alves Barbosa (1845 – 1907). Ferrez foi contemplado com uma menção honrosa pelas “magníficas fotografias de importantes trechos de nossas vias férreas, com que concorreu não só para abrilhantar a Exposição como até para suprir algumas lacunas sensíveis de estradas que se não fizeram representar” (Jornal do Commercio, 3 de agosto de 1887, na terceira coluna e Revista de Estradas de Ferro, 31 de agosto de 1887, na primeira coluna).

1888 – Em 25 de novembro, foi inaugurado o tráfego entre as estações de Alcântara e Rio do Ouro da estrada de ferro de Maricá. Marc Ferrez fotografou “instantaneamente ” um grupo de convidados da diretoria das estradas na estação Santa Izabel (Revista de Engenharia, 28 de dezembro de 1888, na primeira coluna).

1890 – Em setembro, Ferrez integrou a comitiva convidada para a  inauguração das obras da ferrovia Benevente -Minas, de Carangola a Benevente, atual Anchieta, no Espírito Santo (Diário de Notícias, 28 de setembro de 1890, quinta coluna).

1891 – Na Revista de Engenharia, 28 de dezembro de 1890, foi publicado um anúncio: “Marc Ferrez – Fotógrafo da Marinha Nacional. Especialista de vistas de estradas de ferro e em geral das grandes obras públicas. Reprodução de plantas com traços pretos sobre fundo branco. Rua São José 8″. O mesmo anúncio voltou a ser veiculado na edição de 14 de agosto de 1891.

1892 – Foi determinado que nas estradas de ferro subvencionadas pelo governo federal fossem liberados passes de ida e volta para Marc Ferrez e um ajudante para que pudessem “levantar fotografias em diversas localidades para o serviço da Exposição Universal Colombiana de Chicago”, que aconteceu entre 1º de maio e 30 de outubro de 1893 para celebrar os 400 anos da chegada do navegador genovês Cristóvão Colombo (1451 – 1506) ao Novo Mundo, em 1492 (Jornal do Brasil, 21 de agosto de 1892, na quinta coluna).

1895 – Em novembro, Ferrez fotografou, em Búzios, os convidados e a comissão responsável pela construção da Estrada de Ferro Rio de Janeiro-Minas, que uniria o povoado de Búzios a Paquequer, no estado de Minas Gerais (A Notícia, 11 de novembro de 1895, segunda coluna).

1900 – Revista da Semana de 21 de outubro de 1900, publicou uma litogravura da Estação Central da Estrada de Ferro da Central do Brasil baseada em uma fotografia de autoria de Marc Ferrez.

 

 

1904 - Exposição de fotografias da estrada de ferro Central do Brasil de autoria de Ferrez, no Club de Engenharia (O Commentario, março de 1904).

1908 – A Casa Marc Ferrez produziu filmes sobre obras em estradas de ferro do Brasil.

 

Cronologia do fotógrafo Arthur Júlio Wischral

 

 

1894 - Em Curitiba, nascimento de Arthur Júlio Wischral, descendente de alemães.

c. 1910 - Com uma máquina fotográfica emprestada de um amigo, Arthur Wischral procurou orientação do fotógrafo alemão Germano Fleury (1873 – 1945), estabelecido em Curitiba, durante a década de 1900. Além de fotografar, Fleury comercializava artigos fotográficos. Na cidade havia, na época, estúdios fotográficos utilizando as últimas técnicas trazidas da Europa e aonde também eram vendidos cartões postais e materiais fotográficos. Com Fleury, Wischral teve as primeiras noções de fotografia profissional. Segundo ele, quando começou a fotografar gostava de registrar cenas incomuns das reuniões familiares (Diário do Paraná, 28 de junho de 1975).

1912 – Fotografou o primeiro bonde elétrico de Curitiba, que saiu da praça Ouvidor Pardinho com destino ao Portão (Diário do Paraná, 28 de junho de 1975).

1913 - Ganhou de seu pai uma máquina fotográfica com todas as inovações que as indústrias de Dresden haviam conquistado até então. Custando 120 mil réis, a câmara apresentava fole, movas dimensões 13 x 18 cm – e vários outros recursos que possibilitavam um trabalho ainda mais sensível e de qualidade (Diário do Paraná, 21 de junho de 1975). Antes, seu pai havia tentado demovê-lo da ideia de ser fotógrafo. Queria que o filho se dedicasse ao violino.

O amador fotográfico Arthur Wischral fotografou os enterros de Mário de Castro e de Francisco de Luccas, em Curitiba (Diário da Tarde (PR), 14 de maio de 1913, quinta coluna).

Trabalhava como repórter fotográfico do jornal A República, do Paraná, e produziu registros de manobras militares realizadas pelo Regimento de Segurança na invernada do Campo Comprido (A República (PR), 26 de maio de 1913, sexta coluna).

Fotografou uma horrível catástrofe quando 26 tamboretes de explosivos de guerra explodiram nos armazéns da Rede Ferroviária, na praça Eufrásio Correia, causando a morte de 8 soldados, 3 operários e uma criança, deixando vários feridos e produzindo grandes danos materiais. As fotos foram vendidas para jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo (A República (PR), 2 de julho de 1913, primeira coluna; Diário do Paraná, 28 de junho de 1975).

Pelo jornal A República (PR), ele e Seraphin França acompanharam o governador do Paraná,  Carlos Cavalcanti (1864 – 1935), em uma viagem a cidades do litoral do estado (A República (PR), 14 de julho de 1913, terceira coluna; A República (PR), 22 de julho de 1913, sexta coluna).

Wischral era o repórter fotográfico da revista ilustrada, humorística e literária A Bomba (PR), publicada nos dias 10, 20 e 30 de cada mês. Era de propriedade de Marcello Bittencourt (A Bomba, 30 de julho de 1913, primeira coluna).

Além de Wischral, a Photographia Volk passou a integrar a equipe de reportagem fotográfica da revista A Bomba (PR) (A Bomba (PR), 10 de setembro de 1913, segunda coluna).

 

 

1914 – Estava presente à inauguração do ramal Serrinha – Nova Restinga, da Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande (A República (PR), 19 de fevereiro de 1914, última coluna).

Em 5 de abril, fotografou o primeiro voo de avião realizado em Curitiba. O piloto foi Cícero Martins (Diário do Paraná, 28 de junho de 1975).

Já estava na Alemanha e não era repórter fotográfico de A República (PR) (A República (PR), 30 de outubro de 1914, última coluna). A conselho de seu pai, havia viajado para aprender novas técnicas fotográficas. Ficou no país até depois do fim da Primeira Guerra Mundial. Empregou-se num estabelecimento que prestava serviços fotográficos para amadores. Fez um estágio no laboratório na Universidade de Würzburg e aprendeu a técnica do retoque com um fotógrafo da cidade, dominada por poucos profissionais em Curitiba. Em Würburg, encontrou-se uma vez com o futuro papa Pio XII a quem perguntou onde poderia encontrar pessoas que falassem português e ele lhe indicou uma escola onde estavam alguns feridos de guerra. Eram portugueses e estranharam o sotaque dele.  Durante sua estada na Alemanha, trabalhou durante seis anos no jornal Franken Warte. No período em que ficou na Europa viajou para diversos países do continente (Diário do Paraná, 28 de junho de 1975).

1921 – Voltou a Curitiba e por volta dessa época começou a prestar serviços para o governo e para empresas. Fotografou o interior do Paraná, realizando uma série de imagens que integrariam o estande do estado na exposição comemorativa do Centenário da Independência do Brasil, no Rio de Janeiro.

1922 – Fotografou a exposição comemorativa do Centenário da Independência do Brasil, no Rio de Janeiro.

Voltou ao Rio de Janeiro, onde fotografou os primeiros prédios da orla carioca e também os arredores de Petrópolis.

1924 - Esteve no Palácio do governador do Paraná, Caetano Munhoz da Rocha (1879 – 1944) (O Dia, 13 de fevereiro de 1924, terceira coluna).

O hábil fotógrafo Arthur Wischral realizou na Villa Olga uma sessão de projeção de fotografias (O Dia (PR), 30 de março de 1924).

 

 

1926 – No artigo Uma audaciosa excursão ao Marumby, escrito por Affonso Wischral, de 9 de julho de 1926, foi mencionado que o autor e Arthur Wischral haviam fotografado aspectos do passeio que poderiam ser vistos na loja “O Pequeno Paris“, na rua 15, nº 58 (O Dia (PR), 26 de julho de 1926, última coluna).

1928 – Foi contratado pela Rede Viação Paraná – Santa Catarina e registrou o dia a dia das obras, as dificuldades dos trabalhadores e as obras de manutenção da estrada de ferro Curitiba – Paranaguá, inaugurada em 1885 e considerada um marco na história da engenharia no Brasil. Um álbum, editado pelo próprio fotógrafo e por J. J. Wischral, foi produzido com esses registros. O endereço deles era avenida Silva Jardim, nº 175.

 

 

Acessando o link para o Álbum de Fotografias da Ferrovia de Curitiba a Paranaguá, de autoria de Arthur Wischral, disponível na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

1929/1931 - Durante cerca de um ano e meio, Wischral permaneceu na Bahia onde documentou, contratado pelas Empresas Elétricas Brasileiras S.A, a construção da Barragem Jerry O´Connell, em Bananeiras. Uma das fotografias da barragem foi publicada no Estado de Florianópolis, 26 de julho de 1930.

 

O contrato previa também a produção de uma série de imagens de Salvador e do interior da Bahia que foram, posteriormente, reunidas em uma publicação de quatro volumes intitulada Desenvolvimento, Geologia e Produtos Agrícolas, Indústria do Cacau, feita pelas Empresas Elétricas Brasileiras S.A.

Wischral montou, com imagens de sua estada na Bahia, um álbum pessoal com cerca de 500 fotografias.

1934 - Registrou-se para receber algum pagamento da prefeitura de Curitiba (Correio do Paraná, 21 de fevereiro de 1934, quinta coluna).

1935 – Na ocasião do cinquentenário da Estrada de Ferro do Paraná, Wischral, identificado como veterano dessas empreitadas estéticas e artista da Kodak, deu um depoimento, publicado no jornal O Dia (PR), 9 de janeiro de 1935.

Foi contratado para acompanhar e documentar a expedição do coronel Raul Bandeira de Mello ao sudoeste do Paraná. As fotos e o relatório deram origem ao livro de mais de 400 páginas Ensaios de Geobélica Brasileira, editado pela Imprensa Nacional em 1938. O nome do fotógrafo não foi citado. A expedição registrou fatos e imagens desde Palmas até 7 Quedas e é um documento formidável da vida naquelas paragens nos anos 30. Eles documentaram os lugares das batalhas da revolução de 1924 e a situação de pontes, estradas e as defesas militares brasileiras na região. Também indígenas e até um chocante registro de uma família de deficientes físicos gerados por um casal de irmãos, imagens que correram o Brasil à época. Ao final uma cena bucólica com o comandante da expedição em meio aos hóspedes do hotel argentino das cataratas, constando do acervo até uma carta de “vinos” e menu, com a assinatura de todos os presentes. São mais de 90 fotos e mapas que mereciam uma exposição e uma edição fac-símile da obra, ou pelo menos das suas fotografias. Os originais encontram-se com Paulo José da Costa, proprietário da Fígaro Loja de Cultura Sebo e Antiquário, de Curitiba (Página Arthur Wishcral no Facebook).

 

geobélia

 

1936 - A matéria Capricho ou punição da natureza, sobre as consequências da sífilis, trazia uma fotografia de uma família com 4 filhos portadores de deficiência física , produzida por Wischral quando esteve no sertão de Guarapuava (O Estado (SC), 2 de setembro de 1936, primeira coluna).

1937 – Uma fotografia de sua autoria foi publicada no artigo A Floresta Brasileira (O Observador Econômico e Financeiro, agosto de 1937). 

 

 

Década de 1940 – No início dessa década, Wischral foi contratado pela prefeitura de Curitiba e documentou detalhadamente as obras do Plano Agache. Ao longo de três décadas fotografou a transformação da cidade, a urbanização dos bairros, o alargamento das ruas, a construção de praças ajardinadas e dos primeiros grandes edifícios.

Seu laboratório ficava na rua Desembargador Westphalen.

1950 – A mesma fotografia publicada na edição de agosto de 1937 da revista Observador Econômico e Financeiro foi de novo publicada na edição de julho de 1950 da mesma revista. No ano seguinte, um leitor da revista, Martim Zipperer, de Curitiba, curioso acerca da autoria da fotografia que, segundo ele, foi produzida no rio dos Bugres, no município de São Bento do Sul, em Santa Catarina, a pedido de um de seus parentes, procurou a revista. Havia fotografado o mesmo local e a imagem foi publicada em Observador Econômico e Financeiro, abril de 1951. Segundo a reportagem “o confronto dessas fotografias, representando duas épocas, é um dos mais impressionantes documentos que se poderia divulgar sobre os males causados pela economia predatória que vem sido exercida sobre as nossas reservas florestais!”

 

 

1964 - Uma fotografia de 1912 ou 1914, de autoria de Wischral foi publicada (Correio do Paraná, 23 de fevereiro de 1964, penúltima coluna).

 

 

1967 - Com texto de Sérgio Augusto e fotografias de Arthur Wischral, publicação do artigo A maravilhosa Curitiba-Paranaguá (Diário do Paraná, 15 de julho de 1967).

Publicação da matéria Era uma vez um vapor chamado Pery, com texto de Sérgio Augusto e fotos cedidas por Wischral (Diário do Paraná, 6 de agosto de 1967).

Com fotografias dos arquivos de César Pinto e de Arthur Wischral, publicação da matéria Prefeitura -Século XX (I – Parte Primeira – Do aluguel de 200 mil réis à casa própria (Diário do Paraná, 10 de setembro de 1967).

1975 – Publicação da matéria Curitiba em dois tempos, com fotos antigas produzidas por Wischral e com atuais do fotógrafo Mário Nunes do Nascimento (Diário do Paraná, 21 de junho de 1975). Dias depois, publicação de uma matéria sobre sua vida (Diário do Paraná, 28 de junho de 1975).

1978 - Publicação de um artigo com fotografias de carnavais antigos sob as lentes de Wischral (Diário do Paraná, 3 de fevereiro de 1978).

1979 - Na Casa Romário Martins, em Curitiba, realização da exposição Imagens e paisagens que Curitiba perdeu, com registros de Wischral e de outros fotógrafos (Diário do Paraná, 10 de junho de 1979, primeira coluna).

 

 

1982 – Na Sala Funarte, em Curitiba, realização da exposição Paraná de ontem com fotografias de Wischral e de Alberto Weiss, dentre outros (Diário do Paraná, 4 de maio de 1982, terceira coluna).

O fotógrafo Arthur Wischral faleceu, em setembro.

Década de 1990 – Em fins dessa década, A Universidade Federal da Bahia comprou da família do fotógrafo o álbum montado por ele com cerca de 500 imagens de sua estada na Bahia em torno de 1930.

1994 – Foi um dos fotógrafos com obras expostas no evento Curitiba Capital Nacional de Fotografia, entre 14 e 21 de agosto (Jornal do Brasil, 27 de julho de 1994).

2020 – O Instituto Moreira Salles adquiriu em leilão 91 imagens de um conjunto de registros de Salvador e de outras localidades, realizadas em 1931, por ocasião das obras da construção da usina hidrelétrica de Bananeiras, todas de autoria de Wischral. Complementam o trabalho do fotógrafo presente no acervo do IMS, que já possuía o álbum Estrada de Ferro Curitiba-Paranaguá, de 1928.

 

Link para um pequeno filme realizado pelo Paraná Portal sobre Arthur Wischral

Link para o filme Ferrovia Curitiba Paranaguá vista por Arthur Wischral

Link para a cronologia de Marc Ferrez, publicada na Brasiliana Fotográfica, em 7 de dezembro de 2016

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

A construção do trem da Serra do Mar entre Curitiba e o Litoral em 1885, TV Bandeirantes, Youtube

Blog de Paulo José da Costa

Boletim Casa Romário Martins. O acervo Wischral: documentos de um olhar / pesquisa e texto por Maria Luiza Baracho e Marcelo Saldanha Sutil; apresentação por João Urban. Curitiba : Fundação Cultural de Curitiba, vol 31, n. 134, abril de 2007.

CERON, Ileana Pradilla Ceron. Marc Ferrez – uma cronologia da vida e da obra. São Paulo : Instituto Moreira Salles, 2018.

Estrada de Ferro Paranaguá Curitiba, Youtube

Facebook

Ferrovia Paranaguá-Curitiba 130 Anos – Documentário, Youtube

Gazeta do Povo

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

Site Artes na Web

Site Biblioteca Digital Mundial

Site Clube dos Amantes da Ferrovia

Site Inbec-Pós-graduação

Site Paraná Portal

Site Patrimônio belga no Brasil

Site Prefeitura de Curitiba

TURAZZI, Maria Inez. Cronologia. In O Brasil de Marc Ferrez – São Paulo : Instituto Moreira Salles, 2005.

 

Publicações da Brasiliana Fotográfica em torno da obra do fotógrafo Marc Ferrez 

 

O Rio de Janeiro de Marc Ferrez, publicada em 30 de junho de 2015

Obras para o abastecimento no Rio de Janeiro por Marc Ferrez , publicada em 25 de janeiro de 2016

O brilhante cronista visual Marc Ferrez (7/12/1843 – 12/01/1923), publicada em 7 de dezembro de 2016

Do natural ao construído: O Rio de Janeiro na fotografia de Marc Ferrez, de Sérgio Burgi, publicada em 19 de dezembro de 2016

No primeiro dia da primavera, as cores de Marc Ferrez (1843 – 1923), publicada em 22 de setembro de 2017

Marc Ferrez , a Comissão Geológica do Império (1875 – 1878) e a Exposição Antropológica Brasileira no Museu Nacional (1882), publicada em 29 de junho de 2018

O quiosque Chopp Berrante no Passeio Público, Ferrez, Malta e Charles Dunlop, publicada em 20 de julho de 2018

Uma homenagem aos 175 anos de Marc Ferrez (7 de dezembro de 1843 – 12 de janeiro de 1923), publicada em 7 de dezembro de 2018 

Pereira Passos e Marc Ferrez: engenharia e fotografia para o desenvolvimento das ferrovias, publicado em 5 de abril de 2019

Fotografia e ciência: eclipse solar, Marc Ferrez e Albert Einstein, publicado em 

Celebrando o fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923), publicado em 4 de dezembro de 2019

Uma homenagem da Casa Granado ao casal imperial sob as lentes de Marc Ferrez, publicada em 7 de fevereiro de 2020

Ressaca no Rio de Janeiro invade o porão da casa do fotógrafo Marc Ferrez, em 1913, publicado 6 de março de 2020

Petrópolis, a Cidade Imperial, pelos fotógrafos Marc Ferrez e Revert Henrique Klumb, publicado em 16 de março de 2020

Bambus, por Marc Ferrez, publicado em 5 de junho de 2020

O Baile da Ilha Fiscal: registro raro realizado por Marc Ferrez e retrato de Aurélio de Figueiredo diante de sua obra, publicado em 9 de novembro de 2020

O Palácio de Cristal fotografado por Marc Ferrez, publicado em 2 de fevereiro de 2021

 

 

Mercado Público de São José por Manoel Tondella (1861 – 1921)

Com um belo registro produzido pelo fotógrafo Manoel Tondella (1861 – 1921) do Mercado Público de São José no Recife, monumento tombado, em 1973, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, a Brasiliana Fotográfica festeja o aniversário de fundação da cidade, ocorrida em 12 de março de 1537.  Recife é a mais antiga capital dos estados brasileiros. Tondella, de ascendência portuguesa, foi um dos mais importantes fotógrafos de Pernambuco da segunda metade do século XIX, período a partir do qual Recife tornou-se referência histórica para a fotografia no Brasil. Documentou em imagens as transformações da cidade, entre os anos 1890 e as duas primeiras décadas do século XX.

 

 

O Mercado Público de São José, localizado em frente à Igreja Nossa Senhora da Penha, no bairro de São José, um dos mais antigos da cidade, ficou no lugar do antigo Mercado da Ribeira de Peixes. Inaugurado em 7 de setembro de 1875 (Diário de Pernambuco, 9 de setembro de 1875, última coluna), foi inspirado no Mercado Público de Grenelle, em Paris, projeto de A. Normand, e sua arquitetura em ferro é típica do século XIX.

 

 

 

 

É o mais antigo edifício pré-fabricado em ferro no Brasil e seu estilo conferia status ao Recife, que crescia e perseguia o caráter da modernidade, que passava pelos conceitos de higiene e de melhorias urbanas (Diário de Pernambuco, 12 de novembro de 1870, quarta coluna). Os locais de comércio de alimentos teriam que atender a essas novas diretrizes a partir da retirada das ruas de mascates, ambulantes e feiras. Assim, a construção do mercado “representaria o ideal de organização e padronização de um comércio que, antes, se encontrava disperso em forma de comércio ambulante, realizado por negros forros, escravos e trabalhadores livres.” (GUILLEN; GRILLO; FARIAS, 2010).

 

 

A encomenda do projeto do Mercado de São José pela Câmara Municipal do Recife foi feita ao engenheiro pernambucano João Luiz Victor Lieutier (c. 1819 – 1883), que havia feito seus estudos em Paris (Diário Novo, 12 de agosto de 1845, primeira coluna Diário de Pernambuco, 29 de novembro de 1870, quarta coluna; Diário de Pernambuco, 10 de junho de 1883, última coluna). O detalhamento ficou sob a responsabilidade do engenheiro francês Louis Léger Vauthier (1815 – 1901), que havia sido o autor do projeto do Teatro Santa Isabel (1850), além de ter ocupado o cargo de Diretor de Obras Públicas do Recife. Ele coordenou as obras do mercado, que começaram em 14 de junho de 1872, por determinação do presidente da província de Pernambuco, Henrique Pereira de Lucena (1835 – 1913). O empreiteiro foi José Augusto de Araújo e o custo da obra ultrapassou, devido às modificações sugeridas por Vauthier para adequar o edifício ao clima tropical, quase cinco milhões de réis, totalizando 390:315$136 (trezentos e noventa milhões, trezentos e quinze mil, centro e trinta e seis contos de réis).

A primeira reforma realizada no Mercado de São José, em 1906, durou quase um ano e foram executadas obras de reparo e a também a retirada de barracas do pátio interno, além de sua pavimentação. Na ocorrida em 1941, foi construída a câmara frigorífica do mercado. Suas venezianas de madeira e vidro foram, em 1950, substituídas por cobogós de cimento (Diário de Pernambuco, 15 de fevereiro de 1950, quinta coluna; IPHAN, página 4). No início da década de 80, suas instalações elétricas foram reformadas (Diário de Pernambuco, 4 de janeiro de 1980). A estrutura do edifício foi danificada por um incêndio ocorrido 29 em novembro de 1989 (Diário de Pernambuco, 30 de novembro de 1989). Foi reinaugurado com grande festa em 12 de março de 1994 e, quatro anos depois, foi novamente restaurado.  São conservados até hoje seus detalhes em art-noveau, como as bicas do telhado em forma de animais.

 

 

Foi nas décadas de 40 e 50, frequentado por recifenses ilustres como o cronista e compositor Antônio Maria (1921 – 1964) e o poeta Ascenso Ferreira (1895 – 1965). Foi também cenário de diversas manifestações artísticas, tendo sido um importante local de reunião de cantadores, emboladores e poetas da literatura de cordel.  Seus principais produtos, vendidos em cerca de 540 boxes, são o artesanato e a gastronomia do Nordeste, além de ervas medicinais, especiarias e artigos para rituais de religiões de matrizes africanas. O Mercado de São José ocupa uma área coberta de 3.541 metros quadrados, mede 48,88 metros de frente por 75,44 metros de fundo.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:
DANIELLI, Leonardo; MACKMILLAN, Vanderli Machado. Mercado público: tipologias e sociabilidades do ambiente urbano. I Simpósio Nacional de Geografia e Gestão Territorial e XXXIV Semana de Geografia da Universidade Estadual de Londrina, 2018

GASPAR, Lúcia. Mercado de São José. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife.

GUILLEN, Isabel Cristina Martins; GRILLO, Maria Ângela de Faria; FARIAS, Rosilene Gomes. Mercado de São José: Memória e História. 1.ed. Recife: FADURPE, 2010.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

LINS, Marcelo. Mercados do Recife. Recife : Projeto Recife no bolso, 2007.

MELO, Maria Carneiro Lacerda de. A relação dos mercados públicos de São José e da Boa Vista com a Cidade do Recife entre 1820 e 1875. Pernanbuco : Universidade Federal de Pernambuco, 2011.

Memória da Escravidão e cultura negra em Pernambuco Mercado de São José

OLIVEIRA JÚNIOR, José Vanildo de Oliveira. Fluxograma do processo de planejamento arquitetônico aplicado a
mercados públicos. 2006. Dissertação (Mestrado em Engenharia Urbana) – Universidade Federal da
Paraíba, Paraíba.

Recife – Mercado de São José – Encarte Rotas do Patrimônio – Uma viagem pela história. IPHAN e Monumenta.

SILVA, Geraldo Gomes da. O Mercado de São José. Recife: Fundação de Cultura da Cidade do Recife, 1984.

Site Prefeitura do Recife

 

 

 

Antonio Luiz Ferreira (18? – 19?), fotógrafo das celebrações pela abolição da escravatura em 1888

Pouco se sabe, até o momento, da vida pessoal de Antonio Luiz Ferreira (18? – 19?). Provavelmente iniciou suas atividades como fotógrafo na década de 1880 e o último registro da existência de seu ateliê fotográfico verificado pela pesquisa da Brasiliana Fotográfica é de 1904.  Atuou no Rio de Janeiro e teve como contemporâneos Alberto Henschel (1827 – 1882), Juan Gutierrez (c. 1860 – 1887) e Marc Ferrez (1843 – 1923), dentre outros.

 

 

Apesar de sua carreira discreta, por ter documentado cenas ligadas às celebrações pela abolição da escravatura em 1888, Ferreira é considerado um importante fotógrafo do século XIX. As imagens captadas por ele nessas ocasiões tão marcantes da história do país caracterizaram-se pela expressividade dos rostos retratados, decorrência, provavelmente, da relevância do acontecimento histórico e também da atração exercida pela própria presença da câmara fotográfica.

 

Acessando o link para as fotografias de Antonio Luiz Ferreira disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

É o autor da imagem da Missa Campal em São Cristóvão, no Rio de Janeiro, em 17 de maio de 1888, uma celebração de Ação de Graças pela libertação dos escravizados no Brasil, decretada quatro dias antes, com a assinatura da Lei Áurea. A festividade contou com a presença da princesa Isabel (1846 – 1921), regente imperial do Brasil, e de seu marido, o conde D´Eu (1842 – 1922), príncipe consorte, que, na foto, está ao lado da princesa, além de autoridades, políticos, jornalistas e escritores, dentre eles o escritor Machado de Assis (1834 – 1908). A presença de Machado na fotografia de Ferreira, descoberta realizada por mim, Andrea Wanderley, pesquisadora e editora da Brasiliana Fotográfica, foi revelada no artigo  Missa Campal de 17 de maio de 1888, publicado no portal em 17 de maio de 2015. O professor José Murilo de Carvalho (1939 – ) escreveu sobre o assunto no artigo Machado de Assis vai à missa, publicado no portal , em 29 de de maio de 2015.

 

 

Sobre o dia da abolição, Machado escreveu, anos depois, em 14 de maio de 1893, na coluna “A Semana”, no jornal carioca Gazeta de NotíciasVerdadeiramente, foi o único dia de delírio público que me lembra ter visto.

Antonio Luiz Ferreira presenteou a princesa Isabel com 13 fotos de acontecimentos em torno da Abolição (Diário de Notícias, 9 de junho de 1888, na segunda coluna). A maior parte dessas fotos faz parte da Coleção Princesa Isabel que se encontra em Portugal, conservada por seus descendentes.

 

 

A fotografia da Missa campal celebrada em ação de graças pela Abolição da escravatura no Brasil, que está aqui destacada, faz parte da Coleção Dom João de Orleans e Bragança.

 

 

Outros três registros foram feitos por Ferreira no dia 22 de agosto de 1888 e documentaram o retorno do imperador Pedro II (1825 – 1891) ao Brasil. Pertencem à Coleção Princesa Isabel. Ele foi também o responsável pelo Álbum de vistas da Biblioteca Nacional, em 1902, com imagens da fachada, da escadaria e da galeria central, da sala principal de leituras,da sala de trabalho da seção de impressos, da sala principal da seção de manuscritos, da seção de estampas, do gabinete de numismática e da oficina de encadernação da instituição.

 

 

 

Cronologia de Antonio Luiz Ferreira (18? – 19?)

 

1885 – Pela primeira vez a Photographia Antonio Luiz Ferreira foi anunciada no Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro. O estabelecimento ficava na rua da Conceição, nº 87.

1888 – Em 13 de maio, fotografou a multidão em torno do Paço Imperial quando a Lei Áurea foi assinada pela princesa Isabel.

 

 

Em 17 de maio, fotografou a missa campal realizada no Campo de São Cristóvão, uma celebração de Ação de Graças pela libertação dos escravos no Brasil, decretada quatro dias antes, com a assinatura da Lei Áurea. A festividade contou com a presença da princesa Isabel (1846 – 1921), regente imperial do Brasil, e de seu marido, o conde D´Eu (1842 – 1922), príncipe consorte, que, na foto, está ao lado da princesa, além de autoridades e políticos, dentre eles o escritor Machado de Assis (1834 – 1908).

 

 

 

Ferreira, referido como conhecido fotógrafo, levou à redação do Diário de Notícias e também na de O Paiz a fotografia da Missa Campal, que fazia honra ao artista porque é de uma fidelidade pasmosa. Media 52 x 32 cm e era emoldurada em pelúcia auriverde e suas margens tinha iluminuras realizadas pelo calígrafo R. Santos. Seria ofertada à princesa Isabel (Diário de Notícias, 3 de junho de 1888, sétima coluna; e O Paiz, 3 de junho de 1888, sétima coluna).

A prova da fotografia da missa campal, que ficou em exposição na papelaria Guimarães & Ferdinando, foi entregue à princesa em junho de 1888 juntamente com as outras 12 que Ferreira havia produzido em torno dos festejos pela abolição da escravatura (Diário de Notícias, 9 de junho de 1888, na segunda coluna).

Fotografou o Paço do Rio de Janeiro e exercícios militares de celebração pela volta de dom Pedro II e da imperatriz Tereza Christina da Europa, ocorrida em 22 de agosto de 1888.

1891 – Falecimento de Mário, filho de Ferrreira e de Elisa ou Luisa Christini, devido em um incêndio em sua casa na rua de Guaratiba, nº 53.  Mário e outro filho ou filha do fotógrafo estavam brincando com uma caixa de fósforos, causa do acidente. A mãe ficou com as mãos bastante queimadas por ter tentado salvar as crianças (Jornal do Brasil, 11 de novembro de 1891, quinta coluna; e Jornal do Brasil, 12 de novembro de 1891, segunda coluna).

1893 –  Seu ateliê fotográfico, a Photographia Central, ficava na rua da Guarda Velha, atual avenida 13 de maio, nº 1, no Largo da Carioca (Almanak Laemmert, 1894, 1896, 1898, 1899).

 

 

 

 

1894 – Fotografou, no Arpoador, a comitiva que participou de um piquenique em Vila Ipanema, promovido pelo incorporador da Sociedade Anônima Copacabana Sport, Gonçalves Junior (Jornal do Commercio, 29 de maio de 1894, penúltima coluna; 6 de junho de 1894, quarta coluna).

1895 – No mesmo endereço da Photographia Central, rua da Guarda, nº 1, ficava o gabinete cirúrgico-dentário do dr. J. Pontes Lopes & Gonçalves (Jornal do Brasil, de 1895, 8 de julho de 1895, terceira coluna).

1897 – Um retrato do coronel Moreira César, (1850 – 1897), morto em 4 de março de 1897 na Guerra de Canudos, encontrava-se na Photographia Central, de Ferreira, ou na Casa Nalté, na rua do Ouvidor (Jornal do Commercio, 10 de março de 1897, penúltima coluna).

1898 – Na Photographia Central, venda de folhinhas, anunciadas como bons presentes de festas, com fotografias do cruzador Adamastor e de seus marinheiros (Cidade do Rio, 27 de dezembro de 1898, penúltima coluna).

1899 – Anúncio de venda de uma máquina detectiva 9 x 12 com 12 chassis, o que há de mais aperfeiçoado, quase nova, na Photographia Central. Eram câmeras fotográficas sem tripé (Jornal do Commercio, 22 de abril de 1899, primeira coluna).

Por ocasião da visita do presidente da Argentina, Julio Argentino Roca (1843 – 1914) ao Rio de Janeiro, Ferreira foi um dos integrantes da comissão de ornamentação e iluminação das ruas, no caso do Largo da Carioca, onde ficava seu ateliê (Jornal do Commercio, 9 de agosto de 1899, sétima coluna).

1901 - Seu ateliê continuava a se localizar na rua da Guarda Velha, nº 1, e foi anunciado pela última vez no Almanak Laemmert de 1903 (Almanak Laemmert, 1901, 1902, 1903).

1902 - Publicação de dois álbuns realizados por Antonio Luiz Ferreira, que havia sido contratado para documentar o edifício sede da Biblioteca Nacional, na rua do Passeio, onde a instituição permaneceu até 1910. Um, com as cópias em papel albuminado e outro, com as cópias produzidas em platina, que apresentam melhores atributos de estabilidade e permanência.

 

 

1903 - Nascimento de Antônio, filho de Ferreira e de Luiza ou Elisa Christini (Jornal do Brasil, 10 de abril de 1903, terceira coluna).

Houve um incêndio no prédio onde ficava na Photographia Central, causado por um restaurante que também ficava no edifício (Jornal do Brasil, 13 de agosto de 1903, penúltima coluna; e Almanak Gazeta de Notícias, 1904).

1904 – Estavam sendo vendidas máquinas fotográficas quase novas na Photographia Central (Jornal do Brasil, 13 de dezembro de 1904, terceira coluna).

1905 - Ferreira pediu licença para retirar materiais que lhe pertenciam do prédio onde ficava seu ateliê fotográfico, na rua Treze de Maio, n° 1, antiga rua da Guarda (Gazeta de Notícias, 5 de maio de 1905, primeira coluna).

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

FERREZ, Gilberto;NAEF, Weston J. Pioneer photographers of Brazil : 1840 – 1920. New York: The Center for Inter-American Relations, 1976. 143 p.

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

LAGO, Bia Corrêa do;LAGO, Pedro Corrêa do. Coleção Princesa Isabel: fotografia do século XIX. Rio de Janeiro: Capivara, 2008.432p.:il., retrs.

O Palácio de Cristal, em Petrópolis, fotografado por Marc Ferrez (1843 – 1923)

A Brasiliana Fotográfica destaca uma imagem do Palácio de Cristal de Petrópolis produzida em torno da época de sua inauguração, em 1884, por Marc Ferrez (1843 – 1923), que realizou cerca da metade de sua produção fotográfica no Rio de Janeiro e em seus arredores, onde registrou, além do patrimônio construído, a exuberância das paisagens naturais. Patrimônio histórico tombado pela União, o Palácio de Cristal, localizado na Praça Koblenz ou Praça da Confluência, já abrigou exposições agrícolas, de flores e pássaros, além de eventos culturais como, por exemplo, o Petrópolis Bier Festival. É um monumento importante e simbólico para a história do Brasil e um dos principais pontos turísticos de Petrópolis. Em janeiro de 2020, foi fechado para visitação para a realização de uma reforma, paralisada no mês seguinte pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, e retomada no início de outubro de 2020.

 

 

Foi inaugurado em 2 de fevereiro de 1884 (Gazeta de Notícias, 27 de janeiro de 1884, quarta colunaGazeta de Notícias, 5 de fevereiro de 1884, quinta coluna), cinco anos após o lançamento de sua pedra fundalmental, com um grande baile que contou com a presença maciça da família imperial brasileira.

Sobre sua construção e inauguração, foi publicado em Petrópolis, guia de viagem (1885), de José Nicolau Tinoco de Almeida (18? – 1950):

“ Petrópolis – Escrevem-nos dessa cidade:
03 de Fevereiro –  Por telegrama que expedi hontem daqui dei-lhes de noticia do baile com que se inaugurou o palácio de crystal, construído no local do antigo passeio publico, e cuja estufa ostenta agora as suas columnas de ferro e paredes vidro branco.
Se o palacio de crystal há de ser mais conveniente e util a Petropolis dirão os frequentadores desta bella cidade que assistirem às festas que alli se derem. O facto é que o antigo Passeio Público era o recreio das crianças e ponto de reunião de todos.
O palacio de crystal de Petrópolis foi construído nas oficinas da sociedade anonyma de Saint Sauveur les Arraz, para uma associação de horticultura sob a proteção as Sua Alteza Conde d’Eu. Devendo servir de lugar de exposição ou de festas, tem esta enorme estufa uma vasta sala composta de uma parte central e dois corpos lateraes rectangulares, com uma superfície de 224 metros quadrados. Ligão-se ao corpo principal duas meias luas, cada uma com uma superfície de 56 metros quadrados. Espaço suficiente no caso de haver exposição hortícola para receber pequenos volumes e plantas e em reuniões numerosas os necessários acessórios para uma sala de festas. É inconstestavelmente um elegante EDIFÍCIO, solidamente construido pelo engenheiro Eduardo Bonjean.
Como já dissemos, fez-se a inauguração do palacio-estufa com um baile dado em beneficio da Associação. A inauguração da sala foi feita sob as vistas de S.A. a Serenissima Princeza Imperial, o que fez ter maior realce a primeira festa dada no palacio de crystal.
 Às 9 horas da noite já a sala estava cheia de senhoras e cavalheiros, que receberão Suas Majestades e Altezas, dando-se logo depois começo às danças, nas quaes dignou-se S.A. a Sra. Princeza Imperial de tomar parte. Foi uma brilhante reunião tanto pela escolhida sociedade como pela bonita iluminação. Da corte vierão muitas senhoras para este tão falado baile, de cuja direção se encarregou, a convite de S.A. o Sr. Conde d’Eu uma comissão de cavalheiros da nossa sociedade, que se esmerarão no desempenho de tão agradável incumbência.
Mas não foi só para assistir ao baile que veio gente da corte; para fugir do calor e aqui passar dois dias também vierão muitas pessoas. A affluencia desde sexta-feira tem sido extraordinária.
Cerca de 1.000 pessoas vierão para Petrópolis, e sabe Deus que trabalho teve o Dr. Berrini para acomodar os passageiros nos carros da estrada de ferro Principe Grão Pará.
Os hotéis estão cheios que os últimos passageiros tiveram de dormir nos bilhares e salas.
O Hotel d’ Orleans não teve outras acomodações senão a rouparia e o quarto de banho para dar aos dois últimos hospedes que apparecêrão hontem ”

A estrutura pré-montada do Palácio de Cristal foi encomendada pelo conde D´Eu (1842 – 1922), marido da princesa Isabel (1846 – 1921), na época, presidente da Sociedade Agrícola de Petrópolis, às oficinas da Société Anonyme de Saint-Sauveur, na cidade de Arras, na França.

 

cristal1

O conde d´Eu e a princesa Isabel haviam se casado cerca de 20 anos antes, em 15 de outubro de 1864, na Capela Imperial, no Rio de Janeiro, em cerimônia celebrada por D. Manoel Joaquim da Silveira, arcebispo da Bahia e primaz do Brasil (Diário do Rio de Janeiro, edição de 16 de outubro de 1864). O escritor Machado de Assis (1839 – 1908) escreveu na coluna Folhetim uma calorosa descrição do evento (Diário do Rio de Janeiro, edição de 17 de outubro de 1864). O casal passou a lua de mel justamente em Petrópolis, de onde retornou no dia 24 de outubro.

 

 

Voltando ao Palácio de Cristal… Sua estrutura, a primeira pré-fabricada ultimada no Brasil, foi montada em Petrópolis pelo engenheiro Eduardo Bonjean (1844 -?),  foi inspirada em duas edificações: o Crystal Palace de Londres e no Palácio de Cristal do Porto. O Crystal Palace, construído no Hyde Park para sediar a Grande Exposição dos Trabalhos da Indústria de Todas as Nações de 1851, foi inaugurado em 1º de maio de 1851 pela Rainha Vitória (1837 – 1901)  e destruído por um incêndio em 1936. O Palácio de Cristal do Porto, inaugurado em 18 de setembro de 1865 pelo rei dom Luis (1838 0 1889) para abrigar a Exposição Internacional do Porto, foi demolido em 1951 para dar lugar ao Pavilhão dos Desportos,  atualmente denominado Pavilhão Rosa Mota.

 

Em 20 de abril 1884, com ornamentação do botânico francês Auguste Glaziou (1828 – 1906), que havia sido o responsável pelo embelezamento do Campo de Santana, foi aberta a Quarta Exposição da Sociedade Agrícola e Hortícula de Petrópolis, a primeira no Palácio de Cristal – as três primeiras haviam sido realizadas em 1875, 1876 e 1877, em pequenos pavilhões na mesma Praça Koblenz. A edição de 1884 contou com a presença dom Pedro II, do corpo diplomático e de ministros do Império. O discurso oficial foi proferido pelo Conde d’ Eu e o júri do evento, na seção hortícola, era formado por Glaziou, Ramiz Galvão (1846 – 1938), na ocasião preceptor dos filhos da princesa Isabel; e do bibliotecário José de Saldanha da Gama. Na seção zootécnica, os jurados foram Ferreira Penna e E. P. Wilson (Jornal do Commercio, 21 de abril de 1884, primeira colunaGazeta de Notícias, 22 de abril de 1884, quarta coluna; Gazeta de Notícias, 27 de abril, terceira coluna). Em 12 de abril de 1885 e em 20 de março de 1886, o Palácio de Cristal sediou as edições seguintes do evento. Em maio de 1886, também no palácio, foi realizada a Primeira Exposição Industrial de Petrópolis, organizada pela Câmara Municipal por iniciativa do vereador Henrique Kopke Junior (18? – ?).
No chuvoso domingo de Páscoa de 1888, o Palácio de Cristal foi todo enfeitado e em seu exterior via-se uma grande cruz também de ramagens e flores com o dístico “Viva a liberdade”. Na ocasião, a princesa Isabel e o conde d´Eu junto a seus filhos, os príncipes Pedro de Alcântara (1875 – 1940) e dom Luis Maria (1878 – 1920), entregaram 127 cartas de alforria a escravizados da cidade Imperial (Jornal do Commercio, 2 de abril de 1888, primeira coluna; Diário de Notícias, 2 e 3 de abril de 1888, sétima coluna). A maioria dos senhores desses escravizados foram indenizados a partir de uma grande campanha desenvolvida na cidade pela comissão agenciadora das libertações. Compareceram à cerimônia representantes do gabinete ministerial de João Alfredo, os abolicionistas André Rebouças (1838 – 1898) e José do Patrocínio (1853 – 1905), além dos embaixadores da Argentina, da Bélgica, do Chile, da Espanha, dos Estados Unidos e da Itália, e diplomatas das legações de outros países, dentre outros.
Com a proclamação da República, em 1889, o palácio entrou em decadência e, em 1894 foi doado à Prefeitura de Petrópolis. Foi arrematado em leilçao público por Manorel Buaque de Macedo que o cedeu à Associação Artística e Literária Fluminense. Em 1938, o Palácio de Cristal foi coberto por tijolos e folhas-de-flandres, passando a sediar o Museu Histórico de Petrópolis (MHP), por iniciativa do jornalista e historiador Alcindo de Azevedo Sodré (1895 – 1952). Em 1943, quando Petrópolis comemorava 100 anos de sua fundação, o MHP foi transferido para o Museu Imperial de Petrópolis, inaugurado na antiga residência de veraneio de dom Pedro II (1825 – 1891), do qual Sodré foi o primeiro diretor.
Voltou a pertencer à prefeitura e, em 1957,  durante as comemorações do centenário da elevação de Petrópolis à condição de cidade, foi realizada, no Palácio de Cristal, a Exposição Industrial e Histórica de Petrópolis (Anuário do Museu Imperial, 1957). Em 21 de junho de 1967, o palácio, integrante do conjunto arquitetônico e paisagístico da antiga Praça da Confluência, foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Na década de 1970, uma série de restaurações, inclusive em seus jardin, foram iniciadas. No ano de seu centenário, 1984, foi lançado um selo comemorativo em homenagem à data (Jornal do Brasil, 10 de janeiro de 1984, quarta coluna) e ele foi reinaugurado em 2 de fevereiro, coberto por paredes de vidro similares às suas originais, que eram de cristais bisotados importados da Bélgica, com uma mostra de medalhas, uma exposição de esculturas de Maria Martins (1894 – 1973) e um recital de música antiga do Praetorius Emsemble (Jornal do Brasil, 2 de fevereiro de 1984, segunda coluna).
O poeta Carlos Drummond de Andrade dedicou ao Palácio uma crônica, A vária sorte do Palácio de Cristal, no Jornal do Brasil 2 de fevereiro de 1984.

 

 

Nela se refere à história do edifício e também a uma fotografia do trio das inseparáveis amigas – a princesa Isabel e as baronesas de Muritiba (1851 – 1932) e de Loreto (1849 – 1931) -, retratadas dentro do Palácio de Cristal, em 1884, e publicada no Anuário do Museu Imperial de 1958.

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Anuário do Museu Imperial

Archivos Pittorescos: semanário illustrado

Diário de Petrópolis, 6 de outubro de 2020

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Portal Iphan

Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro

SILVA, Lucas Ventura da. Patrimônio documental sobre escravidão: o elemento servil na Petrópolis do oitocentos. Revista Eletrônica Discente do Curso de História – UFAM, volume 4, número 1, ano 4, 2020

Site Biblioteca do IBGE

Site Cultura Viva

Site e-monument.net

Site Enciclopedia Britannica

Site G1

Site ipatrimonio.org

Site Visite Petrópolis

SODRÉ, Alcindo. Palácio de Cristal. Centenário de Petrópolis, vol. 2, p.103.

 

Publicações da Brasiliana Fotográfica em torno da obra do fotógrafo Marc Ferrez 

 

O Rio de Janeiro de Marc Ferrez, publicada em 30 de junho de 2015

Obras para o abastecimento no Rio de Janeiro por Marc Ferrez , publicada em 25 de janeiro de 2016

O brilhante cronista visual Marc Ferrez (7/12/1843 – 12/01/1923), publicada em 7 de dezembro de 2016

Do natural ao construído: O Rio de Janeiro na fotografia de Marc Ferrez, de Sérgio Burgi, publicada em 19 de dezembro de 2016

No primeiro dia da primavera, as cores de Marc Ferrez (1843 – 1923), publicada em 22 de setembro de 2017

Marc Ferrez , a Comissão Geológica do Império (1875 – 1878) e a Exposição Antropológica Brasileira no Museu Nacional (1882), publicada em 29 de junho de 2018

O quiosque Chopp Berrante no Passeio Público, Ferrez, Malta e Charles Dunlop, publicada em 20 de julho de 2018

Uma homenagem aos 175 anos de Marc Ferrez (7 de dezembro de 1843 – 12 de janeiro de 1923), publicada em 7 de dezembro de 2018 

Pereira Passos e Marc Ferrez: engenharia e fotografia para o desenvolvimento das ferrovias, publicado em 5 de abril de 2019

Fotografia e ciência: eclipse solar, Marc Ferrez e Albert Einstein, publicado em 

Celebrando o fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923), publicado em 4 de dezembro de 2019

Uma homenagem da Casa Granado ao casal imperial sob as lentes de Marc Ferrez, publicada em 7 de fevereiro de 2020

Ressaca no Rio de Janeiro invade o porão da casa do fotógrafo Marc Ferrez, em 1913, publicado 6 de março de 2020

Petrópolis, a Cidade Imperial, pelos fotógrafos Marc Ferrez e Revert Henrique Klumb, publicado em 16 de março de 2020

Bambus, por Marc Ferrez, publicado em 5 de junho de 2020

O Baile da Ilha Fiscal: registro raro realizado por Marc Ferrez e retrato de Aurélio de Figueiredo diante de sua obra, publicado em 9 de novembro de 2020

A Estrada de Ferro do Paraná, de Paranaguá a Curitiba, pelos fotógrafos Arthur Wischral e Marc Ferrez, publicado em 22 de março de 2021

Série “Avenidas e ruas do Brasil” VIII – A rua da Carioca por Cássio Loredano

A Brasiliana Fotográfica celebra o Dia de São Sebastião, padroeiro do Rio de Janeiro, com a publicação do oitavo artigo da série “Avenidas e ruas do Brasil”, É o jornalista e caricaturista Cássio Loredano que nos conta a história de uma das ruas mais antigas e representativas da cidade, a rua da Carioca, no Centro, que traz no seu nome, desde 1848, por deliberação da Câmara Municipal da Corte, a denominação daqueles que nascem na cidade (Diário do Rio de Janeiro, 8 de novembro de 1848, terceira coluna). Mas já foi, há séculos, chamada de Caminho do Egito e rua do Piolho.

Acessando o link para as fotografias do largo e da rua da Carioca disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.  

 

Série “Avenidas e ruas do Brasil” VIII – A rua da Carioca por Cássio Loredano

Cássio Loredano*

 

 

Degredar foi em Portugal, desde o século XVI, uma das penas impostas a quem tinha contas a ajustar com a lei. E foi disso que se lembraram por lá quando, no início do Setecentos, pretenderam se ver livres de uma gente incômoda que em toda a Europa e ao longo de séculos era alvo de ondas recorrentes de antipatia, segregação, preconceitos e perseguições, – os ciganos: mandar para o Brasil. E no Rio de Janeiro, como eram “intocáveis”, em grego
athígganos, isto é, que não queriam e, mais do que não quererem, eram proibidos de contato com cristãos, foram armar suas barracas fora dos estreitos limites municipais de então: lá para os lados do Rocio grande, na época Campo da Cidade, e numa rua que a partir dele se formou e se chamou rua dos Ciganos. O próprio campo passou a ser então também chamado dos Ciganos.

 

 

Que são as atuais rua da Constituição e praça Tiradentes. O acesso a esse campo se dava pelo que é hoje a rua da Carioca e era um tortuoso “caminho que pelo areal passa pelo pé do outeiro de São Francisco (Santo Antônio)”.

 

 

Essa hesitação na toponímia se deve a que Santo Antônio de Lisboa era franciscano. Saiu a pé para a Itália, onde ingressou nessa ordem, se fez doutor e lecionou Teologia em Bolonha. Foi canonizado como Santo Antônio de Pádua, cidade em que morreu. Era soldado honorário do exército português e, quando o Rio foi atacado em 1710 por um pirata francês, Jean-François Duclerc, tiveram a ideia de tirar sua imagem do frontão da igreja e colocá-la em cima do muro do convento para inspirar os defensores da cidade. A isso atribuído o êxito da campanha, promoveu-se o santo a tenente-coronel e lhe outorgaram a grã-cruz da Ordem Militar de Cristo. Quando, um ano depois, outro pirata, René Duguay-Trouin, veio vingar Duclerc, que tinha morrido no Rio, não houve santo que evitasse a nódoa que ficou no brasão da cidade.

 

 

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Em 1967, dois anos depois o do 4º centenário da, com nódoa ou sem nódoa, “mui heróica e leal” São Sebastião do Rio de Janeiro, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, IHGB, publicou um preciosíssimo Atlas da evolução urbana da cidade, de Eduardo Canabrava Barreiros. São vinte e duas pranchas em que nos passa sob o olhar tudo o que houve com o plano municipal ao longo de quatrocentos anos: abertura de caminhos, ruas e praças, desmontes de morros, aterros de lagoas, charcos e perfis litorâneos, etc.

 

atlas

 

A prancha 10 do atlas, que  tem por base uma planta de 1713, de José Massé, ensina que aquele “caminho do areal” passara a se chamar Caminho do Egito. Em sua História das ruas do Rio, Brasil Gerson levanta a possibilidade de ter havido em algum ponto do caminho um oratório com a imagem da fuga de Maria, José e o Menino para o Egito para escapar ao infanticídio decretado por Herodes. Muito mais plausível, embora não se conheça documento que o comprove, é que se chamasse do Egito por conduzir ao campo dos Ciganos, como está no último romance da pentalogia carioca de Alberto Mussa, A biblioteca elementar, de 2018.

 

 

Em algumas línguas, português, italiano, alemão, manteve-se a palavra grega que Bizâncio usou, athígganos, como derivação para cigano, zíngaro, Zigeuner (tsigóiner). Esses nômades originários da Índia tinham entrado na Europa com as invasões mongóis do século XIII e subido até a Boêmia pelo vale do Danúbio. Outro itinerário de entrada teria sido via Egito, e isso diziam os próprios ciganos, o que originou as palavras por que foram chamados em outras línguas. Em castelhano, gitanos, de egiptanos. Em francês, além do empréstimo tomado ao castelhano, gitans, também égyptiens ou bohémiens, dependendo de se tinham chegado pelo Mediterrâneo ou descido pelo continente, – e Victor Hugo pode numa mesma página de Notre-Dame de Paris chamar sua Esmeralda de bohémienne ou égyptienne. Em inglês, simplesmente gypsys ou gipsys.

Ora, os degredados do campo dos Ciganos diziam que tinham entrado na Europa passando pelo Egito e é mais plausível que por isso a rua tenha se chamado assim do que pelo oratório imaginado por Brasil Gerson.

 

 

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Tom Jobim dizia que o Brasil não é para principiantes. Aqui, prostitutas se apaixonam e traficantes se viciam. E cigano se fixa, cigano se estabelece. E o mesmo Brasil Gerson nos conta como alguns deles ganharam dinheiro com o negócio negreiro no Valongo e deixaram seus acampamentos para vir morar dentro dos limites da cidade. Na rua do Piolho, como tinha passado a se chamar o caminho do Egito, segundo o mapa de André Vaz Figueira, de 1750, base para a prancha 12 do atlas de Canabrava Barreiros.

“Piolho” era como a vizinhança chamava um solicitador da época, cujo nome a história esqueceu, apelido que se dava a gente que como ele vivia escarafunchando arquivos e cartórios em busca de questões de que pudesse tirar proveito. “Piolho das roupas”, “piolho em costura”. Algo como hoje muquirana (aliás o nome do piolho em tupi), parasita, sanguessuga.

 

 

No começo, o caminho do Egito só tinha casas do lado direito de quem vai para o campo. Do lado esquerdo, só havia uma cerca que separava da cidade os domínios dos franciscanos. Mas quando a ordem terceira de São Francisco da Penitência construiu seu hospital no sopé do morro, detrás dele ficou aberto o espaço em que se fizeram as casas do lado esquerdo e a rua do Piolho passou a tê-las dos dois lados. O “Piolho” tinha na rua a casa em que morava e mais três que alugava.

Na Planta Régia mandada fazer em 1808 pela casa real que chegara ao Brasil naquele ano, a rua ainda se chama do Piolho, mas o campo é da Lampadosa, por causa da igreja dessa virgem que havia (e há) na rua do Sacramento, atual avenida Passos. Nessa igreja o Tiradentes teve licença de ouvir uma missa antes de ser  levado ao patíbulo que estava para ele armado no centro do campo.

 

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Em 1723, tinha sido mandada aterrar uma lagoa, às vezes só charco, emanação de miasma e criadouro de mosquitos que havia embaixo, defronte ao convento de Santo Antônio (como se vê no mapa acima, diante do convento assinalado pelo quadrado preto). Naquele espaço se construiu o primeiro chafariz “da Carioca”. De suas 16 bicas despejava a água que os velhos arcos construídos pelo governador Aires Saldanha traziam da nascente do rio Carioca pelos altos de Santa Teresa. Depois, Gomes Freire, também governador, mandou subir o maravilhoso monumento que são os Arcos da Lapa, com o idêntico propósito de vencer o vale entre os morros de Santa Teresa e Santo Antônio, trazendo a água para um novo, enorme chafariz de agora 35 torneiras. E largo da Carioca passou a se chamar o espaço do antigo viveiro pestilento aterrado. (Como “da Carioca” se chamara lá atrás o caminho que levava até a foz do rio Carioca, na atual praia do Flamengo, onde se fazia a aguada, o reabastecimento de água doce a bordo das embarcações que estavam fundeadas na baía. Quando a rua do Cano, atual Sete de Setembro, e o chafariz do Mestre Valentim puxaram a água até o largo do Paço, a aguada dos marinheiros passou a se fazer com muito maior comodidade, no cais Pharoux.)

 

 

A rua do Piolho, que ganhou a importância de ser o acesso de quem morava lá fora à água do chafariz, passou com o tempo a ser também chamada  de rua da Carioca, como consta na planta Garnier, de 1859, prancha 16 do atlas do IHGB. Nela, o campo da Lampadosa tinha mudado de novo de nome, praça da Constituição. Sempre se disse que o novo nome comemorava a primeira constituição do Brasil independente, de 1824. Brasil Gerson avança, porém, a informação de que isto foi porque na praça, dia 26 de fevereiro de 1821 – e apenas dois meses antes de seu embarque de volta a Portugal, a 25 de abril – d. João VI jurou “as bases da futura Constituição a ser votada pelas Cortes de Lisboa”. A República rebatizou outra vez o velho campo: praça Tiradentes.

No começo do século XX, a administração Pereira Passos tornou o velho caminho uma rua reta, alargou-a, arborizou-a e a tornou importante eixo de ligação centro-norte da cidade, com suas “colegas” lá na frente, Visconde do Rio Branco, Frei Caneca, Salvador e Estácio de Sá, Haddock Lobo e por ali adiante. Depois, ganharam a concorrência brutal da Presidente Vargas. A rua manteve um charme que foi devagar se degradando e entrou na depressão que agora está atravessando e que se comunica a seus frequentadores mais antigos.

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Em 1862, instalou-se no centro da então praça da Constituição o primeiro e possivelmente o mais belo bronze da cidade, a estátua equestre de Pedro I, esculpida e fundida em Paris nas oficinas de Louis Rochet. O imperador está brandindo um calhamaço que seria a constituição de 1824, origem da tal confusão que se criou com a afirmação de Brasil Gerson.

 

 

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2020

Da praça que emoldura o monumento, três quartos das portas estão arriados, a maioria – por causa da pandemia – definitivamente. Na face entre a rua da Carioca e a Visconde do Rio Branco estão os dois hotéis da esquina da rua Silva Jardim: o decadente e o moderno da cadeia Ibis. Há depois uma loja de ferragens e “sebo” mais nenhum. O Teatro Carlos Gomes está obviamente fechado e o quartel da polícia foi abandonado. Do lado onde funcionou o lendário dancing Estudantina Musical, estão o palacete do visconde do Rio Seco, imponente e restaurado, e seu vizinho moderno, ambos abrigando agora o Centro de Referência do Artesanato Brasileiro. Depois, só mais a tradicional loja Tic-tac, sapataria nos três sentidos: indústria, comércio e reparo de sapatos e consertos gerais. O resto, até a rua da Constituição, é deprimente, doze portas de aço fechadas, enferrujando.

Dessa rua da Constituição, há quatro anos, saem, passam pela praça e se enfiam pela rua Sete de Setembro os trilhos da linha 2 do VLT, tetrassílabo tolo, quando se tem bonde, delicioso brasileirismo quase monossilábico. Desse lado da praça, funciona um pequeno supermercado. A casa onde morou a cantora Bidu Sayão foi restaurada e abandonada. Na esquina da rua da Imperatriz há um café e restaurante novo, bastante simpático. Na pequena quadra dali até a avenida Passos funcionou no século XIX a tipografia e editora do grande Francisco de Paula Brito, aliás nascido na rua do Piolho, primeiro empregador de um certo Quincas, jovem revisor, por extenso Joaquim Maria Machado de Assis. Hoje ali não há mais nada e o outrora imponente casarão da esquina da avenida é uma perigosa ruína. O Teatro João Caetano está também sem função. Na face entre a rua do Teatro e a da Carioca existe uma caixa de fósforos estreita e comprida, de 31 andares, isolada e horrorosa, o Edifício Centro Paulista. Fora isso, mais nada. Uma filial da Adega do Pimenta, de Santa Teresa, está fechada.

Entremos então pela rua da Carioca. Mais ou menos metade das portas também está fechada. Do tradicional polo de lojas de instrumentos musicais ainda resistem oito, mas não mais nem A Guitarra de Prata, nem O Bandolim de Ouro. Das de malas ainda existem quatro. De guarda-chuvas, uma só e só uma de chapéus de sol e cadeiras de praia.

Do lado esquerdo de quem está indo para o Largo da Carioca, está a metade do que foi a fachada do Cinema Ideal, com sua marquise de vidro sustentada por belo artesanato de ferro art déco. A sala tinha o luxo de um teto retrátil para noites limpas de verão. A seguir, chega-se a uma simpaticíssima servidão de passagem para a rua Sete de Setembro, rua do Verde, inteiramente dedicada a comércios de plantas; e uma filial do paraíso, a loja do Palácio das Ferramentas. Na esquina de Ramalho Ortigão existiu muito tempo um lindo armazém do tipo da Casa Paladino, na rua Uruguaiana, ou o do Senado na Gomes Freire e o Gomes de Santa Teresa. Pé-direito altíssimo, mobiliário até o teto em madeira escura entalhada e portas de cristal, balcões, prateleiras e gôndolas com milhares de garrafas de toda aguardente imaginável, compotas, rapaduras envoltas em folhas de bananeira secas ou palha de milho. Bar Flora. Agora na esquina, no espaço de um terço do que era, está um bar com graça zero, tudo de fórmica, em que  pessoas engolem de pé e depressa uma fritura massuda qualquer com qualquer refresco para ajudar a descer.

No sobrado do nº 38 – magnificamente restaurado, deixando à mostra por dentro a antiga alvenaria de pedra e argamassa à base de óleo de baleia -, funcionava até a pandemia e reabrirá depois dela a Casa do Choro, iniciativa de Luciana Rabello, reduto da melhor música instrumental da cidade.

Mas atravessemos a rua. No pequeno edifício estreito do nº 59, ocupou um andar a última redação do Pasquim, em que, praticamente sozinhos, Jaguar e Reinaldo “casseta” levaram o barco até o fim. O segundo andar do 53 foi o lendário restaurante Zicartola. Os donos, Cartola e sua mulher Zica, a chefe da cozinha, moravam no andar de cima. O local tinha um espaço em que se apresentava a nata do universo do samba carioca – e onde Hermínio Bello de Carvalho concebeu o espetáculo Rosa de Ouro, de 1965. O Zicartola foi o primeiro palco de Paulinho da Viola.

Seguindo: Cinema Iris. Em 1973, o patrimônio fechou, para restaurar sua arquitetura eclética e a bela escadaria de ferro que leva ao balcão, a sala que exibia filmes pornô, – mas em que o mais picante não se passava na tela. Na reinauguração, houve uma concorridíssima festa, com público nada a ver com o que habitualmente frequentava suas poltronas. Cinema mudo a noite toda, animado pela orquestra de Nicolino Coppia, o maestro Copinha. Dali, saiu todo mundo para o Bar Luiz. No dia seguinte, o Iris já tinha voltado à velha batida. Esteve fechado desde março por causa da pandemia, mas reabriu agora em setembro. “O melhor do Rio em filmes eróticos” é o orgulhoso aviso que recebe o público: “três filmes pornô” por 20 módicos reais.

 

 

O Bar Luiz, antes de vir para a rua da Carioca, 39, fora na rua da Assembleia, de um alemão chamado Wendling. Quando se mudou, veio como Adolf, Bar Adolf. Óbvio, na guerra foi obrigado a mudar. Passava por ter o melhor chope da cidade, mesmo quando a cozinha já não era mais nada do outro mundo. Até que alguns anos atrás um novo dono tivesse a infeliz ideia de tirar a chopeira da Brahma e botar a da cervejaria Sol. Pronto: debandada geral. Ninguém mais ia lá – e agora, ainda por cima, veio a pandemia. O bar foi reaberto com menos mesas, mas as mesmas toalhas imaculadas dando destaque às belas cadeiras pretas tipo austríacas. O chope voltou a ser Brahma. Mas o estrago que se conseguiu num dia pode levar anos para ser reparado, – se é que será possível reparar.

Desse lado impar, do Bar Luiz até o Largo da Carioca, há ainda uma loja de roupas masculinas, outra de artigos esportivos, uma sapataria e as lojas de artigos de praia e malas, mas não mais a Mala Carioca, a Mala Inglesa ou A Mala Amada. E uma loja maluca, O Rei das Facas, cutelaria que é também armeiro – espadas decorativas, lanças, fuzis, pistolas, munição -, loja de ferramentas e ferragens, aqueles velhos moedores de carne caseiros, manuais, panelas de ferro, máquinas também manuais de esticar massa de pastel,  penicos de ágate etc.

Entre esses poucos negócios, tudo portas de aço arriadas.

E assim chegamos ao Largo da Carioca, presidido pelo Convento e a Igreja de Santo Antônio e a da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência – pequenina preciosidade inteiramente forrada de ouro -, no alto do pouco que restou do Morro de Santo Antônio.

 

 

Na área que foi desmontada, abriu-se a “esplanada das estatais”, Petrobrás, BNDES, BNH. No centro do largo continua o velho relógio, que ficou anos parado e recentemente voltou a funcionar. No subsolo, a estação Carioca do metrô, cuja obra demoliu a loja de discos Palermo, que aparece no filme Garrincha, alegria do povo, de Joaquim Pedro de Andrade: Mané consultando as bancadas de LPs. Lá no fundo, o edifício do Liceu Português, na esquina de Senador Dantas, e à esquerda, na de Bitencourt da Silva, os fundos da Caixa Econômica e do premiado edifício modernista de Henrique Mindlin, o Avenida Central.

 

Largo da Carioca, por Cássio Loredano

Largo da Carioca, por Cássio Loredano, 2015 / Acervo IMS

 

Uma banca de jornais vende mapas e painéis de anatomia daqueles de antigas salas de aula. De vez em quando aparece um vendedor de panaceias em garrafadas, um sujeito com cobras, engolidores de fogo. Um homenzinho de Bíblia em punho anuncia para a indiferença geral o final dos tempos.

 

* Cássio Loredano é jornalista e caricaturista. E, sobretudo, um apaixonado pelo Rio de Janeiro e suas histórias.

 

Links para os outros artigos da série “Avenidas e ruas do Brasil”:

Série “Avenidas e ruas do Brasil” I – Avenida Central, atual Rio Branco, publicada em 7 de setembro de 2016

Série “Avenidas e ruas do Brasil” II – A rua do Imperador em Petrópolis por Klumb, Leuzinger e Stahl, publicada em 26 de junho de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” III – A rua do Bom Jesus, no Recife, publicada em 6 de agosto de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” IV – A rua 25 de Março, em São Paulo, publicada em 1º de setembro de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” V – A rua Direita, a rua das Mercês e a rua Macau do Meio, em Diamantina, Minas Gerais, publicada em 22 de outubro de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” VI  – Rua Augusto Ribas e outras, em Ponta Grossa, no Paraná, pelo fotógrafo Luiz Bianchi, publicada em 16 de novembro de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” VII – A avenida Atlântica, em Copacabana, no Rio de Janeiro, publicada em 23 de dezembro de 2020

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Link para a Proposta Pedagógica: território e imagem, realizada pela equipe educativa do IMS-RJ sob inspiração da plataforma interativa ImagineRio, que ilustra a partir de fotografias, ilustrações e mapas as transformações sociais e urbanas da cidade do Rio de Janeiro.

 

 

Porto d’Ave e a moderna arquitetura hospitalar

Porto d’Ave e a moderna arquitetura hospitalar

Cristiane d´Avila*

Em momentos de crises sanitárias como a que vivemos, nunca foi tão importante pensar nos hospitais. Se hoje assistimos à edificação emergencial desses prédios com normas específicas para atender aos casos de Covid-19, há cem anos já se observava os preceitos da bacteriologia ditando a moderna arquitetura hospitalar. No artigo “O Hospital Gaffrée e Guinle: filantropia, saúde e os ecos do pasteurianismo no Brasil da Primeira República”, a historiadora da Casa de Oswaldo Cruz, Gisele Sanglard, analisa o tema a partir do entrelaçamento de três personagens emblemáticos da história do Rio de Janeiro e da arquitetura em saúde: Carlos Chagas (1878-1934), médico sanitarista, Guilherme Guinle (1882-1960), empresário e mecenas; e Adelstano Soares de Mattos Porto d’Ave (1890-1952), engenheiro-arquiteto.

 

 

 

Acessando o link para as fotografias do Gaffrée e Guinle disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

De acordo com a historiadora, a construção do Hospital Gaffrée e Guinle teve triplo valor simbólico: para a medicina, o coroamento da saúde pública; para a filantropia, uma ação que renderia bons frutos à sociedade; para a arquitetura hospitalar, a adoção de uma estética própria associada ao que de mais moderno havia na época. “Guilherme Guinle investiu seu capital social e político, além de seus recursos financeiros, no apoio à ciência produzida em Manguinhos pela escola de Oswaldo Cruz. Ele era daqueles que acreditavam que a medicina pasteuriana tinha o poder de transformar a sociedade”, explica Sanglard na minuciosa e extensa pesquisa sobre o tema.

 

O início da parceria

 

 

A parceria entre Chagas, sucessor de Oswaldo Cruz na direção do Instituto Oswaldo Cruz (IOC) após o falecimento do cientista, em 1917, e a família Guinle datava do início do século. Em 1905, o médico foi indicado por Oswaldo Cruz para debelar os casos de malária no obra de construção da usina hidrelétrica em Itatinga (SP), que os sócios Eduardo Guinle (1846-1912) e Cândido Gaffré (1845-1919) construíam para o porto de Santos. O sucesso de Chagas na missão aproximou-o da família, já proeminente nos negócios de ferrovias, energia elétrica, portos e responsável por obras filantrópicas no Rio, Santos e Porto Alegre.

Anos depois, em 1919, Chagas promoveu uma ampla reforma na saúde, transformando a então Diretoria Geral de Saúde Pública (DGSP) em Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP), tornando-se seu diretor. No ano seguinte (1920), Guilherme Guinle assumiu, após a morte do pai, os negócios da família. “A relação que se estabelecerá entre o médico e o jovem empresário mostra que Carlos Chagas continuou gozando do respeito da família – o que será traduzido nas ações de Guilherme Guinle financiando os projetos da Inspetoria de Profilaxia da Lepra e das Doenças Venéreas do DNSP, dirigida pelo médico Eduardo Rabello, e os projetos de saúde pública de Carlos Chagas”, explica Sanglard.

Os Guinle se notabilizaram pelo mecenato e a filantropia. Porém, as ações beneméritas dos sócios e de seus descendentes não se restringiram às artes e à cultura em geral. O amplo apoio deles às instituições científicas e de saúde pode ser classificado como próprio de um período em que investir na pesquisa médica era investir na tentativa de erradicação da miséria, que assolava a população urbana do Rio de Janeiro, então capital do Brasil.

No caso de Guilherme Guinle, ganha destaque a criação da Fundação Gaffrée e Guinle (1923) – para o controle da sífilis e de doenças venéreas, com a construção de um hospital e ambulatórios – e do Instituto de Pesquisa. O projeto do Hospital Gaffrée e Guinle, inaugurado em 1929, foi assinado pelo escritório do arquiteto brasileiro Porto d’Ave (Porto d’Ave & Haering), sob a fiscalização e orientação dos médicos Eduardo Rabello e Gilberto de Moura Costa. Já o Instituto de Pesquisa, cuja inauguração se deu em 1927, aliava pesquisa e assistência médica, seguindo o modelo do IOC e a ciência desenvolvida em Manguinhos.

 

O arquiteto e o projeto

 

 

Segundo informações do Fundo Porto d’Ave, sob a guarda do Departamento de Arquivo e Documentação da COC/Fiocruz, o engenheiro-arquiteto Adelstano Soares de Mattos Porto d’Ave nasceu em 6 de março de 1890 no Rio de Janeiro e faleceu em janeiro de 1952, na mesma cidade (Correio da Manhã, 22 de janeiro de 1952). Teve como sócio, ao menos no início, o alemão Kurt Haering. O escritório de ambos funcionava na rua Buenos Aires, 54, 2o andar, e Porto d’Ave estava registrado como construtor e Kurt Haering como engenheiro.

Por intermédio da família Guinle, elaborou projetos de três hospitais na cidade: o Gaffrée e Guinle, o Hospital e Instituto do Câncer e o Hospital das Clínicas Arthur Bernardes. A partir de então, consolidou seu nome como arquiteto de hospitais, tendo sido responsável pelo traçado de outros, como o Espanhol, o Regional de Niterói e o do Sanatório Santa Clara, em Campos do Jordão (SP).

 

 

Segundo Sanglard e Renato Gama-Rosa Costa, arquiteto e também pesquisador da COC/Fiocruz, o projeto do hospital, originalmente de Hugo Haering, sofreu adaptações propostas por Porto d’Ave, principalmente na linguagem arquitetônica. O hospital, elaborado para internar 320 pessoas, contava com prédio principal de quatro pavimentos. Nele funcionavam os serviços de Pronto-Socorro, Vias Urinárias, Ginecologia, Obstetrícia, Serviços Auxiliares ao Ambulatório do Hospital (laboratório, fisioterapia e raios X), Sífilis Visceral, Otorrinolaringologia e Oftalmologia, salas de cirurgia e Serviço de Mulheres Contagiantes. No campus foram projetados pavilhões especiais para abrigar o Instituto de Pesquisa, o Biotério, a capela consagrada à Nossa Senhora da Conceição do Brasil, a residência do diretor, as oficinas de conservação, o dormitório dos empregados e a lavanderia.

Do ponto de vista arquitetônico, o projeto do Hospital Gaffrée e Guinle foi considerado como moderno por uma série de características: a disposição das enfermarias, sua implantação no centro urbano, o uso dos elevadores, entre outras características. Porto d’Ave imprimiu à estética contornos neocoloniais, em voga na década de 1920 no Rio.

“A opção pelo estilo neocolonial também pode ser incluída neste rol (projeto moderno), uma vez que remete à valorização do elemento genuinamente nacional, bem como à noção de salvação do homem brasileiro, tão necessária para a construção da nação acalentada pelos intelectuais envolvidos no projeto”, completa Sanglard no artigo.

 

 

*Cristiane d’Avila é jornalista do Departamento de Arquivo e Documentação Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz

 

Fontes:

SANGLARD, Gisele. “O Hospital Gaffrée e Guinle: filantropia, saúde e os ecos do pasteurianismo no Brasil da Primeira República”. In: A Modernidade na arquitetura hospitalar: contribuições para a historiografia – Volume 1\Ana M. G. Albano Amora e Renato Gama-Rosa Costa (Organizadores). Rio de Janeiro: Programa de Pós-Graduação em Arquitetura – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo – PROARQ-FAU-UFRJ, 2019.

SANGLARD, G. e COSTA, R. da Gama-Rosa: “Direções e traçados da assistência hospitalar no Rio de Janeiro (1923-31)”. História, Ciências, Saúde. Manguinhos, vol. 11(1): 107-41, jan.-abr. 2004.

Série “Avenidas e ruas do Brasil” VII – A avenida Atlântica, em Copacabana, no Rio de Janeiro

Cenário de um dos maiores e mais belos réveillons do mundo que, devido à pandemia do cononavírus não será realizado como nos anos anteriores quando chegava a reunir cerca de dois milhões de pessoas, e de diversos eventos esportivos, culturais, politicos e de lazer, a avenida Atlântica, via litorânea da praia de Copacabana, é uma das paisagens mais bonitas e famosas do Rio de Janeiro, uma das que justificam a celebrada fotogenia da cidade. Foi também o local de diversos palacetes, onde a vida social do Rio de Janeiro acontecia,  da realização de footings, quando a cidade passeava na avenida, de eventos esportivos e culturais. Ela é o tema do último artigo da Brasiliana Fotográfica de 2020 e o sétimo da série “Avenidas e ruas do Brasil”. Estão destacadas fotografias das primeiras décadas do século XX produzidas por anônimos, por Augusto Malta (1864 – 1957), fotógrafo oficial da prefeitura do Rio de Janeiro entre 1903 e 1936; e por Jorge Kfuri (1893 – 1965), autor das primeiras fotografias aéreas da cidade. Pertecem aos acervos do Instituto Moreira Salles, uma das instituições fundadoras do portal, e às instituições parceiras Acervo Geral da Cidade do Rio de Janeiro e Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha. Feliz Ano Novo e muito obrigada pela audiência!

 

Acessando o link para as fotografias da avenida Atlântica disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

A avenida Atlântica tem atualmente, cerca de quatro quilômetros de orla marítima, começa na Praça Almirante Júlio de Noronha e termina na Praça Coronel Eugênio Franco, no Posto 6. Algumas de suas construções mais famosas são o Hotel Copacabana Palace (1923), os edifícios Chopin, Machado de Assis, Regina Feigl, Sayonara, Tancredo  Neves e o neoclássico Edifício Lellis, mais antigo prédio residencial que ainda está na avenida, inaugurado em 1931, na esquina da rua Barão de Ipanema. Segundo o historiador Milton Teixeira, a primeira edificação da orla foi a Clínica Conde Figueiredo Magalhães, de hidroterapia, de 1872, muitos anos antes da construção da avenida Atlântica. Alguns dos moradores mais famosos da avenida foram o arquiteto Oscar Niemeyer (1907 – 2012), o jornalista Assis Chateaubriand (1892 – 1968), os artistas e irmãos Bernardelli, dona Guilhermina Guinle (1852 – 1925) e a cantora Elza Soares (1930 – ).

 

 

Durante a gestão de Francisco Pereira Passos (1836 – 1913), como prefeito do Rio de Janeiro entre 30 de dezembro de 1902 a a 16 de novembro de 1906 foi realizada uma significativa reforma urbana na cidade. Para saneá-la e modernizá-la, ele realizou diversas demolições, conhecidas popularmente como a política do “bota-abaixo”, que contribuiu fortemente para o surgimento do Rio de Janeiro da Belle Époque. Foi em consonância com essa política que avenida Atlântica foi concebida, pelo Decreto Municipal nº 561, de 04 de novembro de 1905.

 

 

Poucos meses antes, Pereira Passos expôs seus planos ao presidente Rodrigues Alves (1848 – 1919) durante uma visita à Exposição Geral de Belas-Artes de 1905, diante de um quadro de um trecho da praia Copacabana ao nascer do sol, de autoria de João Baptista da Costa (1865 – 1926) (O Paiz, 28 de setembro de 1905, terceira colunaCorreio da Manhã, 2 de outubro de 1905, quinta colunaJornal do Brasil, 5 de novembro de 1905, quinta colunaA Notícia, 3 de agosto de 1906, primeira coluna; A Notícia, 19 de setembro de 1906 coluna). Em 4 de março de 1906, foi inaugurado o Restaurante Avenida Atlântica, do sr. Gomes da Silva, e a companhia Jardim Botânico inaugurou sua nova linha elétrica pelo Túnel do Leme, indo o ramal até o ponto terminal da praça do Vigia, onde foi construída a estação de bonds  (O Paiz, 4 de março de 1906, quarta colunaA Notícia, 6 e 7 de março de 1906, quinta coluna).

 

 

A construção da avenida Atlântica começou em 31 de janeiro de 1906 – as obras tiveram início no lugar denominado Murungu para a rua do Barroso (Jornal do Brasil, 1º de fevereiro de 1906, sexta coluna) –  e, os trabalhos de aterro, em 5 de abril de 1906. Sua construção foi incluida na Carta Cadastral como um dos grandes melhoramentos urbanos realizados na cidade (O Paiz, 5 de abril de 1906, quarta coluna; O Paiz, 8 de maio de 1906, quarta coluna; O Paiz, 14 de setembro de 1906, quinta coluna). O autor do projeto e responsável pela construção da avenida Atlântica foi o engenheiro Augusto Américo de Souza Rangel (1865 – 1924), que trabalhava na comissão da Carta Cadastral tendo, inclusive, sido seu chefe durante um período *.

 

 

Seu calçadão foi feito com pedras pretas de basalto e pedras brancas de calcita, trazidas de Portugal, o que lhes rendeu o apelido de pedras portuguesas. O padrão de ondas é do século XIX e foi criado para a Praça do Rossio, em Lisboa – uma homenagem ao encontro das águas do rio Tejo com o Oceano Atlântico.

As obras foram suspensas em 15 de dezembro de 1906, um mês após o início do mandato do novo prefeito da cidade,  Francisco Marcelino de Souza Aguiar (1855 – 1935). A avenida tinha 485 metros de meios fios em ambos os lados e estava pronto o aterro em toda a extensão entre a praça Malvino Reis, atual praça Serzedelo Correia, e a rua padre Antonio Vieira.

 

 

Em 1907,  terrenos na avenida foram anunciados para venda (O Copacabana, 1º de agosto de 1907). O prefeito Souza Aguiar era acusado pelo abandono lamentável da avenida Atlântica e perguntado sobre o porquê de não mandar continuar as obras da avenida Atlântica (O Copacabana, 1º de novembro de 1907, primeira colunaO Copacabana, 1º de janeiro de 1908, segunda coluna).

 

 

Ainda neste ano, 1907, na esquina da rua da Igrejinha, atual Francisco Otaviano, com a avenida Atlântica, na recém inaugurada casa da francesa Mme. Louise Chabas, que se tornou um dos cabarés mais famosos do Brasil, o Mère Louise, houve uma festa para comemorar o 14 de julho, data nacional da França. “Tem pois agora o Rio um cabaré à maneira do de Montmartre, em Paris, onde quem saiba fazer algo sobe ao palco e… faz o que sabe!”  (Jornal do Brasil, 23 de abril de 1907, segunda colunaJornal do Brasil, 15 de julho de 1907, oitava coluna). Mme. Chabas vendeu o estabelecimento à Cervejaria em 1910. Posteriormente, tornou-se um hotel que foi fechado, em 1931, pela polícia do 30º Distrito Policial.

Durante a década de 1910, 0 aumento da quantidade de automóveis e a crescente popularização da prática do banho de mar tornou a avenida pequena. Além disso, as chuvas de março de 1911 causaram vários danos na avenida Atlântica e providências eram cobradas ao prefeito Bento Ribeiro (1856 – 1921) (O Copacabana, 16 de julho de 1911, primeira colunaO Copacabana, 13 de agosto de 1911, primeira coluna). Ocorriam vários na avenida (O Copacabana, 10 de dezembro de 1911, última colunaO Copacabana, 14 de janeiro de 1912, primeira coluna).

Na gestão de Amaro Cavalcanti (1849 – 1922) foram realizadas na avenida Atlântica obras para proteção contra a fúria atlântica da esplêndida avenida beira-mar e também seu alargamento. O diretor de Obras Públicas era Cupertino Durão (1861 – 1929) (A Rua, 13 de março de 1918, primeira coluna; A Rua, de 18 de maio de 1918, quarta coluna). Ainda em 1918, uma ressaca deixou a avenida esburacada e o então prefeito do Rio de Janeiro, o engenheiro Paulo de Frontin (1860 -1933), a percorreu para inspecionar seu estado e a incluiu em seu projeto de melhoramentos da cidade (A Rua, 5 de novembro de 1918, quarta coluna; A Rua, 4 de fevereiro de 1919, quinta coluna; A Rua, 24 de março de 1919; A Rua, 3 de abril de 1919, penúltima coluna). Vale lembrar que 1918 foi o ano da pandemia da Gripe Espanhola, uma tragédia mundial que deixou milhares de mortos no Rio de Janeiro – cerca de 300 mil pessoas no Brasil -, tendo sido o presidente eleito, Rodrigues Alves (1848 – 1919), sua mais notória vítima no Brasil.

 

 

Construiu a nova e soberba avenida Atlântica com 17 metros de largura total em substituição à antiga rua marginal (Arquitetura no Brasil, janeiro de 1922). A nova avenida Atlântica foi inaugurada em 22 de julho de 1919 com pista dupla e iluminação no canteiro central(A Época, 23 de julho de 1919).

 

 

O anúncio da reparação do calçamento da avenida foi feito, em 1920, durante a gestão de Carlos Sampaio (1861 – 1930) (A Rua, 12 de agosto de 1920, quinta coluna). O rei Alberto da Bélgica (1875 – 1934) e sua mulher, a rainha Elizabeth (1876 – 1965), visitaram o Brasil entre setembro e outubro de 1920, e na ocasião foram várias vezes tomar banho de mar no posto 5 da avenida Atlântica.

Em 1921, uma nova ressaca atingiu a avenida cuja resistência da muralha, honra à engenharia do sr. Frontin, resistia valentemente a todos os embates (A Rua, 14 de julho de 1921, terceira coluna). Mas a violência da ressaca acabou destruindo a muralha (Revista da Semana, 23 de julho de 1921, primeira coluna). O prefeito Sampaio decidiu então realizar obras de consolidação dos cais e das muralhas da Guanabara em defesa da avenida Beira-Mar e da avenida Atlântica. Foram contratados para o projeto, cuja quantia prevista causou polêmica, os engenheiros Adhemar de Melo Franco, Edgar Raja Gabaglia (1896 – 1953) e Azevedo Amaral (A Rua, 23 de julho de 1921A Rua, 29 de outubro de 1921A Rua, 31 de outubro de 1921Arquitetura no Brasil, novembro de 1921). Sobre a obra de reconstrução os engenheiros civis J. Le Cocq de Oliveira e Alfredo Lisboa publicaram artigos na revista Arquitetura no Brasilde dezembro de 1921 e de janeiro de 1922.

 

 

Em 1922, ano do centenário da independência no Brasil, os postos de salvamento, que eram de madeira, estavam em péssimas condições. Então o prefeito Carlos Sampaio os renovou e transferiu o posto de socorros para um novo prédio no Lido. O serviço de salvamento, agora subordinado à Assistência Municipal, passou a oferecer serviço médico à população do bairro e também o arrendamento de cabines para banhistas que quisessem trocar de roupa (A Noite, 8 de março de 1922, terceira coluna; A Noite, 24 de março de 1922, terceira coluna; Beira-Mar, 22 de abril de 1928, primeira coluna). Ainda nesse ano, a avenida Atlântica foi o cenário da marcha realizada pelos militares da Revolta dos 18 do Forte (O Paiz, 7 de julho de 1922; Beira-Mar, 3 de julho de 1927). Na edição da Beira-Mar, de 29 de junho de 1940, foi publicado um interessante relato de um repórter que presenciou o acontecimento.

 

 

O proprietário da Empresa Balneária, que explorava as barracas para banho na praia de Copacabana, Luiz Dante Torre, teve a ideia de colocar bancos de 10 em 10 metros ao longo de toda a avenida Atlântica, mas em 1926 a falta de bancos era cobrada à Prefeitura, já sob a gestão de Antônio da Silva Prado Junior (1880 – 1955) (Beira-Mar,  21 de janeiro de 1923, terceira coluna; Beira-Mar, 7 de fevereiro de 1926, quarta coluna; Beira-Mar, 5 de dezembro de 1926, última coluna). Começava também a construção de um prédio na esquina da avenida com a então denominada rua do Barroso, atual Siqueira Campos, projeto do engenheiro Eduardo Pederneiras e de propriedade dos srs. Rocha Miranda Filhos & Companhia Limitada (Beira-Mar, 28 de outubro de 1923). Mas o mais marcante fato de 1923 na avenida foi a inauguração do Hotel Copacabana Palace, ícone da arquitetura do Rio de Janeiro, que se tornaria um símbolo do glamour carioca. Na época de sua inauguração,era o maior hotel da América Latina e representava a modernidade da cidade.

Em 1924, a praia tinha seis postos de salvamentos com guarda-vidas no topo de postes de concreto. Na ocasião, o prefeito do Rio era Alaor Prata (1882 – 1964) (Fon Fon, 19 de janeiro de 1924). Nesta época, a alegria e a graça de Copacabana já faziam parte da nossa “urbs” estupenda (Revista da Semana, 12 de janeiro de 1924). Um corso de automóveis aconteceu na avenida e em frente ao Copacabana Palace foi tirada uma fita cinematográfica do movimento extraordinário da praia… (Beira-Mar, 20 de janeiro de 1924). Também houve, em março, uma Batalha de Confetes, que se repetiu em outros anos, assim como banhos de mar e outros festejos durante o carnaval (Beira-Mar, 2 de março de 1924, terceira coluna; Beira-Mar, 6 de março de 1927, segunda coluna; Beira-Mar, 19 de fevereiro de 1928; Beira-Mar, 16 de fevereiro de 1930; Beira-Mar, 23 de janeiro de 1937; Beira-Mar, 19 de fevereiro de 1938; Beira-Mar, 11 de fevereiro de 1939). Em 7 de março de 1924, foi inaugurado o Bar e Restaurante Lido-Antarctica, na esquina da rua Belfort Roxo, com um rinque de patinação e um dancing room (Beira-Mar, 22 de junho de 1924, última coluna). Porém, em outubro, mais uma vez a fúria do mar destruiu o trabalho de engenharia realizado na avenida Atlântica (Revista da Semana, 18 de outubro de 1924). As obras de reconstrução foram realizadas sob a chefia e fiscalização de Ângelo Barata, chefe da 1ª circunscrição da viação municipal (Beira-Mar, 16 de novembro de 1924, segunda coluna; Beira-Mar, 7 de junho de 1925, primeira coluna).

 

 

As obras de reconstrução ainda não estavam concluidas quando, em 1925, de novo, a avenida foi atingida por nova ressaca, ficando bastante esburacada. A muralha foi reconstruída ainda durante a gestão de Alaor Prata (Revista da Semana, 18 de julho de 1925; Beira-Mar, 19 de julho de 1925; Beira-Mar, 6 de setembro de 1925; Beira-Mar, 8 de novembro de 1925; Beira-Mar, 6 de dezembro de 1925Revista da Semana, 2 de outubro de 1926). Dias antes da ressaca, havia sido realizada na avenida Atlântica, a festa dos pescadores em homenagem a São Pedro (Beira-Mar, 19 de julho de 1925, segunda coluna).

 

 

 

Na edição do períódico Beira-Mar, de 7 de junho de 1926, na quarta coluna, foi feito um balanço dos danos causados nas últimas ressacas e também uma análise das obras em andamento e na edição de 4 de julho de 1926 uma retrospectiva das obras de calçamento e reconstrução da avenida desde 1923. As escadinhas que davam aceso à praia também havia sido destruídas e àquela altura, não foram recolocadas (Beira-Mar, 18 de julho de 1926, segunda coluna). As obras foram concluídas em agosto de 1926. De sua fundação até 1926, a avenida Atlântica havia sofrido as consequências de cinco ressacas (Beira-Mar, 8 de agosto de 1926).

 

 

 

O hábito do footing, quando a sociedade carioca passeava na avenida, era frequente tanto nos anos 20 como nos anos 30 e 40 (Beira-Mar, 26 de dezembro de 1926, primeira coluna; Beira-Mar, 23 de janeiro de 1927, quarta coluna; Beira-Mar, 28 de outubro de 1939; Beira-Mar, 9 de novembro de 1940; Beira-Mar, 29 de agosto de 1942, primeira coluna; Beira-Mar, fevereiro de 1945). Ainda em 1927, reclamava-se da ausência de bancos e escadinhas na avenida (Beira-Mar, 3 de julho de 1927).

 

 

 

Em 1927, uma nova ressaca deixava suas marcas na Avenida Atlântica… (Beira-Mar, 7 de agosto de 1927).

 

 

Foi inaugurado em 1928, a sede do Praia-Club – fundado em 25 de setembro de 1927 por um grupo de moradores de Copacabana -, na altura do Posto 4 da avenida, que promovia eventos que integravam a programação do Rio chic, além de disputas esportivas (Beira-Mar, 5 de maio de 1928, última coluna; Beira-Mar, 22 de julho de 1929, segunda coluna; Beira-Mar, 8 de dezembro de 1929).

 

 

 

Também havia o Hotel Londres, prédio no melhor ponto de banhos da encantadora Avenida Atlântica. Lá eram realizados elegantes eventos sociais (Beira-Mar, 21 de outubro de 1928, última coluna; Beira-Mar, 21 de abril de 1929, primeira coluna).

 

 

O periódico Beira-Mar de 12 de maio de 1929, chamava atenção para a falta de arborização da avenida Atlântica. Na década de 30, palacetes como o da família Duvivier e onde ficava a sede do Atlântico Club povoavam a avenida (Beira-Mar, 15 de junho de 1930).

 

 

 

Em 1930, foi pela primeira promovida a Tarde das Flores, na avenida Atlântica, para celebrar a chegada do inverno Cada posto escolheu flores para simbolizá-los: Posto 1 – amor-perfeito, Posto 2 – magnólia, Poto 3 – violeta, Posto 4 – hortênsia, Posto 5 – dália e Posto 6 – margarida (Beira-Mar, 13 de abril de 1930, quarta coluna).

Novamente a avenida Atlântica foi castigada por uma ressaca, diversas casas foram inundadas, a água foi até a porta principal do Hotel Copacabana Palace mas suas muralhas de proteção não foram destruídas (Beira-Mar, 20 de julho de 1930, primeira coluna; Beira-Mar, 27 de julho de 1930, primeira coluna). Em dezembro, foram inaugurados pavilhões praianos ao longo da avenida (Beira-Mar, 7 de dezembro de 1930, penúltima coluna).

 

 

Em 1931, foi inaugurado, na avenida Atlântica com a rua Haritoff, atual rua Ronald de Carvalho, com pistas originalíssimas, o  Natural Pi Wi Golf (Beira-Mar, 3 de maio de 1931, terceira coluna). Foi inaugurado, logo no início de 1932, um rinque de patinação entre os postos 3 e 4, no nº 628 (Beira-Mar, 9 de janeiro de 1932, segunda coluna). O carnaval deste ano contou com uma Batalha de Flores e de um corso na avenida Atlântica (Beira-Mar, 6 de fevereiro de 1932) e, em 7 de março, foi inaugurada uma filial do Colégio Anglo-Americano, no número 458, na avenida (Beira-Mar, 20 de fevereiro de 1932). Havia ainda na avenida Atlântica, nº 952, o Instituto Anglo-Francês (Beira-Mar, 2 de julho de 1932, terceira coluna).

 

 

O Bar Alpino era um dos points da avenida Atlântica, ficava no nº 142, no Leme, e em uma propaganda se identificava como o maior e mais confortável bar da América do Sul (Beira-Mar, 27 de outubro de 1934). Apesar da beleza da avenida, seus bancos continuava a ser espatifados. 

 

 

Em 1934, parte do morro do Inhangá, que ainda chegava à avenida Atlântica foi cortado para a construção da piscina do Copacabana Palace. Então a linha imaginária entre as praias de Copacabana e do Leme passou a ser a atual avenida Princesa Isabel. Em 1951, o que havia restado dessa pedra junto ao hotel foi retirado para a construção do grupo de edifícios Chopin, Balada e Prelúdio

 

 

 

Foi inaugurado, em 20 de março de 1935, na avenida Atlântica, na altura do Posto 6, onde antes havia a já mencionada casa da francesa Mère Louise, o Cassino Balneário Atlântico (Beira-Mar, 16 de fevereiro de 1935; Beira-Mar, 30 de março de 1935).

 

 

Logo no início de 1935, foi anunciada pela Diretoria Geral de Turismo a reposição de 48 dos bancos espatifados (Beira-Mar, 22 de dezembro de 1934Beira-Mar, 12 de janeiro de 1935, primeira coluna). Em setembro, foram de novo depredados (Beira-Mar, 28 de setembro de 1935, penúltima colunaBeira-Mar, 26 de outubro de 1935).

Neste mesmo ano, o Cine-Varieté, no Cassino Balneário Atlântico, passou a receber o público, tornando-se um dos mais chiques e elegantes locais da avenida Atlântica. Apresentava produções internacionais e nacionais e realizava matinés infantis. Aos domingos eram distribuídos brinquedos para as crianças. (Beira-Mar, 9 de novembro de 1935).

 

 

Em 1936, foram inauguradas as primeiras torres dos postos de salvamento, nos Postos  2 e 6, com a presença de Pedro Ernesto Baptista (1884 – 1942), primeiro prefeito eleito do Distrito Federal (Beira-Mar, 28 de março de 1936, primeira página e página 10). Nesta época, os focos do mundanismo no Posto 2, então o mais concorrido da avenida Atlântica, eram a Confeitaria Alvear, esquina com a República do Peru, o restaurante Lido e o Bar e Restaurante OK, esquina com a então rua Haritoff, atual Ronald de Carvalho (Beira-Mar, 2 de maio de 1936).

 

 

Em maio de 1936, uma nova ressaca atingiu a avenida Atlântica, cujo tráfego ficou impedido porque a água e a areia invadiram a rua (Beira-Mar, 29 de agosto de 1936, primeira coluna). Seu calçamento foi parcialmente consertado e em 1937 as reclamações em relação ao estado da avenida continuava (Beira-Mar, 10 de outubro de 1936, primeira coluna; Beira-Mar, 4 de setembro de 1937, quarta coluna). No ano seguinte, foi publicado um artigo afirmando que a avenida havia sido mal projetada, tendo sido traçada muito próxima ao mar (Correio da Manhã, 30 de março de 1937, quinta colunaBeira-Mar, 10 de abril de 1937).

 

 

No final do ano, foi inaugurado mais um point no Posto 2, o Citro Bar Expresso (Beira-Mar, de 7 de novembro de 1936).

 

 

O Clube dos Marimbás, fundado em 5 de abril de 1932 por 36 rapazes, dentre eles o proprietário das Organizações Globo, Roberto Marinho (1904 – 2003), e inicialmente sediado ao lado do Edifício Olinda, já se localizava no final da praia de Copacabana, junto ao Forte de Copacabana. Seu anteprojeto, inspirado em um navio ancorado, é dos renomados arquitetos Lucio Costa (1902 – 1998) e do russo Gregori Warchavchik (1896 – 1972), expoentes da arquitetura modernista no Brasil. O projeto, no entanto, foi concluído pelo arquiteto Paulo Antunes Ribeiro (1905 – 1973), um dos sócio fundadores do clube, da onde descortina-se uma das mais belas vistas da avenida Atlântica (Beira-Mar, 7 de novembro de 1936).

 

 

O moderníssimo Luxor Hotel foi inaugurado na avenida, no Posto 4, (Beira-Mar, 12 de junho de 1937, primeira coluna) e no Posto 2, inauguração do Wonder Bar, novo ponto de reunião para a elegância copacabanense (Beira Mar, 9 de outubro de 1937). Ainda nesse ano, foi inaugurada a Casa Arthur Hermanny, o estabelecimento mais distinto a serviço do bairro mais elegante, especializada em artigos de luxo, na esquina com a rua Bolivar (Beira-Mar, 4 de dezembro de 1937; Beira-Mar, 1º de julho de 1939). Na década de 30, outro hotel de destaque na avenida eram o Hotel Atlântico, no número 654. Também ficava na avenida o Lar da Creança, orfanato para meninas, no número 842 (Beira-Mar, 25 de maio de 1935).

 

 

De acordo com um artigo publicado na Beira-Mar, de 29 de janeiro de 1938, o tráfego intenso na Atlântica, artéria principal de Copacabana, colocava em perigo a vida das pessoas que praticavam o footing na avenida. Em entrevista, o prefeito Henrique Dodsworth (1895 – 1975) informou que a avenida seria alargada (Diário da Noite, 7 de março de 1938Beira-Mar, 12 de março de 1938, primeira coluna).

No carnaval de 1938, as escolas de samba desfilaram na avenida Atlântica e as vencedoras foram a Portela e a Unidos da Tijuca (Beira-Mar, 26 de fevereiro de 1938). Meses depois, a iluminação da avenida começou a ser trocada e foi inaugurado o Internacional Bridge Club, no primeiro andar do Edifício Continental (Beira-Mar, 2 de abril de 1938, página 5 e página 7). O restaurante Carlton ficava no Posto 3 (Beira-Mar, 23 de abril de 1938, segunda coluna) e a casa de modas Longchamps, no número 822 (Beira-Mar, 4 de junho de 1938, primeira coluna). Havia também o Hotel Cosmópolis (Beira-Mar, 2 de julho de 1938, primeira coluna) e o Hotel Rivera. Mas a ocupação da avenida por apartamentos “cabeças de porco” já era uma preocupação (Beira-Mar, 24 de setembro de 1938).

Já no início de 1939, foi inaugurada uma nova iluminação na avenida, iniciativa do prefeito Henrique Dodsworth (1895 – 1975) (Beira-Mar, 4 de fevereiro de 1939, quarta coluna; Beira-Mar, 4 de março de 1939; Beira-Mar, 18 de março de 1939; Beira-Mar, 20 de maio de 1939; Beira-Mar, 9 de novembro de 1940).

 

 

O alargamento da avenida e a construção de groynes para afastar o mar foi anunciada (Beira-Mar, 4 de março de 1939, primeira coluna). Mas na ressaca de junho, os groynes do sr Maurício Joppert foram por…água abaixo (Gazeta de Notícias, 13 de junho de 1939, terceira colunaBeira-Mar, 17 de junho de 1939, primeira coluna; Beira-Mar, 15 de julho de 1939). Os problemas de trânsito persistiam e acidentes com mortes aconteciam (Beira-Mar, 1º de abril de 1939, primeira colunaBeira-Mar, 15 de abril de 1939). Também 17 bancos da avenida foram destruídos por vândalos (Beira-Mar, 15 de abril de 1939). Existia na avenida um solarium da Seção de Convalescentes da Secretaria de Saúde e Assistência Social (Beira-Mar, 13 de maio de 1939). Ainda nesse ano, foi publicada a matéria Os praianos reclamam sobre os ratos que infestavam a praia e o número de prisão de mulheres que faziam “troittoir” na avenida Atlântica (Beira-Mar, 8 de julho de 1939).

 

 

Foi na década de 40, que Copacabana se firmou como bairro chique e sua vida noturna era dividida entre seus os cassinos do Hotel Copacabana Palace e o Cassino Atlântico, que ficava na avenida esquina com Francisco Otaviano.

Ao lado do Hotel Londres, no início dos ano 40, era ministrado o Curso de Ginástica da Sociedade Brasileira de Cultura Física e Eugenia, sob a orientação do drs. David Madeira e Paulo Rolim (Beira-Mar, 3 de fevereiro de 1940). Já o Colégio Paula Freitas ficava no número 762 da avenida (Beira-Mar, 27 de abril de 1940).

 

 

 

O trânsito e a velocidade com que os carros trafegavam na avenida, além da falta de sinalização e o barulho das buzinas, continuavam a ser um problema (Beira-Mar, 8 de junho de 1940, terceira coluna; Beira-Mar, 12 de outubro de 1940; Beira-Mar, 8 de março de 1941; Beira-Mar, 21 de junho de 1941; Beira-Mar, 2 de agosto de 1941). Também havia reclamações em relação ao calcamento da avenida (Beira-Mar, 16 de agosto de 1941).

Na fotografia destacada abaixo, vê-se a grande diferença do mesmo trecho da avenida Atlântica fotografada em 1912 e em 1940. Em 1930, a nossa avenida Atlântica não tinha um único arranha-céu; hoje é quase toda cheia de imensos palácios que são um orgulho de nosso progresso (Beira-Mar, 14 de março de 1942).

 

 

Uma grande parada de elegância e automobilística foi patrocinada pela Rádio Ipanema. Houve um desfile de carros pela avenida Atlântica que culminou com uma festa no Luxor Hotel (Beira-Mar, 1º de fevereiro de 1941). O Ginásio Brasileiro funcionava no número 996 da avenida (Beira-Mar, 8 de março de 1941).

Foi publicada uma crônica sobre o popular cachorro Faísca que era muito popular em Copacabana e acabou morrendo, atropelado na avenida Atlântica: Faísca, filho do prazer, Nascido no Mère Louise e criado no OK, de Nelson Nascimento (Beira-Mar, 22 de março de 1941; Beira-Mar, 5 de abril de 1941).

No artigo Copacabana, a cidade mais moça e mais bela do Brasil era mencionado que “Em 1930, a nossa Avenida Atlântica não possuia um único arranha-céu; hoje é quase toda cheia de imensos palácios que são um orgulho de nosso progresso” (Beira-Mar, 14 de março de 1942, última coluna). Na mesma edição do periódico, havia uma propaganda da loja Dr.Scholl, inaugurada na avenida Atlantica, número 766, esquina com a rua Bolívar (Beira-Mar, 28 de março de 1942).

Charretes e bicicletas passaram a ser usadas no Rio de Janeiro devido ao racionamento de gasolina e consequente suspensão da circulação de automóveis na cidade. Aos domingos, essa substituição dava um novo movimento à nossa Avenida Atlântica. É o divertimento do dia (Beira-Mar, 15 de agosto de 1942). A sede provisória da Associação Atlética de Copacabana ficava na avenida Atlântica número (Beira-Mar, 15 de agosto de 1942, segunda coluna).

Houve três dias de black-out em Copacabana, Ipanema, Leme e Leblon que alterou o “footing” colorido de outras noites na avenida Atlântica (Beira-Mar, 19 de setembro de 1942).

Foi anunciada a inauguração do Cinema Rian, na avenida Atlântica (Beira-Mar, 10 de outubro de 1942). Em sua abertura foi exibido o filme Aconteceu Em Havana, com Carmen Miranda e o Bando da Lua, Alice Faye, John Payne e Cesar Romero. O cinema funcionou no prédio de mesmo nome construído Nair de Teffé, caricaturista e viúva do ex-presidente Hermes da Fonseca, com a herança deixada por seu pai, o Barão de Teffé, morto em 1931. Rian é o seu nome escrito de trás para frente. Em 1940, o edifício foi vendido, mas manteve seu nome como uma homenagem a ela.

 

 

O Repousário do Hospital Jesus, na avenida Atlântica, que havia passado por vários melhoramentos foi, em 27 de novembro, visitado pelo prefeito Henrique Dodsworth. Na mesma data, o prefeito inaugurou, com a presença de Assis Chateaubriand, os novos postos de salvamento da Praia de Copacabana (Beira-Mar, 1º de janeiro de 1943, primeira coluna).

E os novos estúdios da Rádio Ipanema ficavam na avenida Atlântica, número 24, no Leme (Beira-Mar, 19 de dezembro de 1942, primeira coluna).

Foi realizada a primeira procissão de Nossa Senhora de Copacabana com um cortejo pela avenida Atlântica (Beira-Mar, 9 de outubro de 1943, primeira coluna). Ainda em outubro, foi reaberto o Wonder Bar, primeiro estabelecimento do Rio adaptado ao “black-out” (Beira-Mar, 30 de outubro de 1943).

 

 

Mais uma vez, os bancos da avenida Atlântica foram depredados (Beira-Mar, 29 de abril de 1944, quarta coluna). Em outubro do mesmo ano, foi publicada uma propaganda da Confeitaria Alvear, que ficava no número 444 na avenida, esquina com República do Peru (Beira-Mar, 28 de outubro de 1944).

Em 27 de junho 1945, foi inaugurado no número 546 da avenida Atlântica, esquina com Siqueira Campos, o Bar e  Restaurante Albatros (Beira-Mar, julho de 1945). Também havia na avenida, no número 730-A, a Bombonière Rian (Beira-Mar, setembro de 1945).

As festas de carnaval na Boate Bolero, na avenida Atlântica, 434, eram um sucesso, e o melhor chopp do Rio era servido na Taberna Atlântica, no número 186 (Beira-Mar, março de 1946). No mesmo ano, no número 980, foi inaugrada a Casa 980, de acessórios de automóveis (Beira-Mar, abril de 1946).

Na década de 50, de muito movimento social na avenida Atlântica e no bairro como um todo (Correio da Manhã, 28 de julho de 1957), a sede da Associação Atlética do Banco do Brasil (AABB), no Posto Seis, no edifício da avenida esquina com a rua Francisco Otaviano continuava mantendo a tradição de baluarte da alegria carnavalesca. Há duas semanas vêm realizando em sua boate os movimentados bailes “Sassaricadas” (das 14h às 20h), os quais terão prosseguimento, todos os sábados, até o carnaval (O Globo, 29 de janeiro de 1954).

Na mesma década, foi na Confeitaria Alvear, na avenida Atlântica,  que um grupo de rapazes, bem nascidos e bem sucedidos, se encontrava para beber e conversar. Formaram o Grupo dos Cafajestes, que na época de Carnaval dali partiam para os bailes de Copacabana. Seu fundador foi o comandante da Panair do Brasil, Edu, Eduardo Henrique Martins de Oliveira, botafoguense fanático. Outros integrantes do grupo foram o jogador de futebol Heleno de Freitas, Baby Pignatari, Carlos Niemeyer, Carlos Peixoto, Celmar Padilha, Ermelindo Matarazzo, Fernando Aguinaga, Ibrahim Sued, Jorginho Guinle, Mário Saladini, Mariozinho de Oliveira, Sérgio Pettezzoni, Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta), dentre vários outros.

Em março de 1954, no Bife de Ouro, restaurante do Copacabana Palace, ocorreu uma briga entre o jornalista Carlos Lacerda (1914 – 1977) e Euclides Aranha, filho do então ministro da Fazenda, Oswaldo Aranha (1894 – 1960), noticiada no jornal O Globo:

Lacerda e filho de Aranha trocam socos

Principiando por uma altercação seguida de luta corporal entre o Sr. Euclides Aranha e o jornalista Carlos Lacerda, um incidente que se prolongaria até a meia-noite, resultando, inclusive, em congestionamento do tráfego da Avenida Atlântica e interdição do local por autoridades policiais, perturbou na noite de ontem o jantar no Bife de Ouro, o restaurante do Copacabana palace Hotel. Achavam-se reunidos na mesma mesa o ministro João Cleophas, o deputado Edilberto Ribeiro, o Sr. Manuel Ferreira e Carlos Lacerda, diretor da “Tribuna da Imprensa”, num jantar promovido pelo deputado. De outra mesa, o Sr. Euclides Aranha, filho do ministro Oswaldo Aranha, jantava com a esposa, levantou-se, fisionomia transtornada, dirigiu-se à mesa onde se encontrava o referido grupo, deteve-se junto à cadeira do jornalista e interpelou-o sobre ataques dirigidos a seu pai na “Tribuna da Imprensa”. À interpelação seguiu-se áspera troca de palavras, tendo o jornalista se levantado, entrando em luta com o filho do ministro da Fazenda. Segundo as testemunhas, os dois trocaram socos por algum tempo, até que amigos comuns se interpuseram e os separaram. Às 23h, o próprio ministro Oswaldo Aranha compareceu ao restaurante para ver o que ocorrera. Pouco depois, simultâneamente, por portas diferentes, os Srs. Euclides Aranha e Carlos Lacerda abandonaram o Bife de Ouro (O Globo, 24 de março de 1954).

E foi também na década de 50, que a Bossa Nova nasceu: na casa dos pais da cantora Nara Leão (1942 – 1989), na avenida Atlântica, no Posto 4, que jovens como Roberto Menescal (1937 – ), Ronaldo Boscoli (1928 – 1994), Carlinhos Lyra (1933 – ) e outros se reuniam para cantar e compor. Mas o fato que marcou o aparecimento do movimento musical foi o disco gravado por Elizete Cardoso (1920 – 1990), em 1958, Canção do amor demais, cujo acompanhamento era feito pelo violonista João Gilberto (1931 – 2019). Outro gênero musical sacudiu a avenida Atlântica: o rock and roll. Em 1957, estreou o filme Ao balanço das horas, com Bill Haley e seus cometas, no Cinema Rian, e suas sessões foram muitas vezes tumutuadas pelos jovens que dançavam durante o filme (O Jornal, 15 de janeiro de 1957, última coluna).

 

Já em fins da década de 60, sob a gestão do governador Francisco Negrão de Lima (1901 – 1981) e por sugestão do arquiteto Lúcio Costa (1902 – 1998), entre 1969 e 1971, uma grande obra, projeto do engenheiro gaúcho Raimundo de Paula Soares (1926 – 1992), foi realizada na avenida Atlântica. Com bombeamento de areia, a distância entre a fachada dos prédios e a praia passou de 21 para 73 metros e a área ganhou estacionamentos, seis pistas de automóveis, calçadões e um interceptor oceânico para captar o esgoto do bairro.

“Sobre a areia foram construídas duas pistas de rolamento com um calçadão central sob o qual instalou-se o Interceptor Oceânico da Zona Sul, a maior obra de esgotamento sanitário até então feita na cidade. Todo o espaço até então usado pela antiga avenida e suas duas calçadas transformou-se em largo calçadão junto aos prédios; o atual estacionamento fica sobre o que era a areia da praia. Esta teve sua largura ampliada, com areia retirada do fundo do mar por dragas. Os mosaicos dos calçadões foram desenhados por Roberto Burle Marx (1909 – 1994), utilizando pedras de três cores, representando os povos que formaram a população brasileira. O calçadão junto à areia manteve o antigo desenho, oriundo de Portugal, uniformizando a orientação e ampliando o tamanho das ondas, fazendo-as condizentes com a largura da nova calçada. Em 1975, foram construídos novos postos de salvamento, projetados pelo arquiteto Sérgio Bernardes (1919 – 2002) (IBGE).

Foi em meados da década de 70, que o Hotel Méridien, então localizado na avenida Atlântica esquina com avenida Princesa Isabel, no Leme, promoveu uma queima de fogos espetacular do alto de seu prédio (Jornal do Brasil, 2 de janeiro de 1978, última coluna). A partir daí, a queima de fogos foi crescendo na Praia de Copacabana e passou a integrar o calendário do Rio de Janeiro.

 

 

Na administração do Prefeito Saturnino Braga (1986-1988) foram plantados grupos de coqueiros na areia e, na de Marcelo Alencar (1983-1986), construídos quiosques fixos e uma ciclovia” (IBGE).

Em 1984, por designação do Comitê Olímpico Brasileiro, foi realizada a Maratona do Rio como prova seletiva dos Jogos Olímpicos de Los Angeles. A avenida Atlântica fazia parte do percurso do evento esportivo.

 

 

Na década de 90, começaram a ser promovidos pela prefeitura da cidade, durante a gestão de César Maia, shows nas areias da Praia de Copacabana com diversos artistas durante a passagem do fim do ano. A estreia, no réveillon de 1993 / 1994, foi com Jorge Benjor (Jornal do Brasil, 2 de janeiro de 1994). No ano seguinte, a atração foi o roqueiro inglês Rod Stewart (Jornal do Brasil, 1º de janeiro de 1995). O réveillon na avenida Atlântica ficava cada vez mais animado e concorrido!

Em 18 de fevereiro de 2006, 1 milhão e meio de pessoas assistiram das areias de Copacabana e da avenida Atlântica ao show da lendária banda britânicca The Rolling Stones.

Para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro de 2016, foi  montada na Praia de Copacabana uma arena para a disputa de vôlei de praia com capacidade para 12 mil lugares, 21 metros de altura no ponto mais alto – equivalente a um prédio de sete andares – e 62 mil metros quadrados. Mais uma vez, a avenida Atlântica aparecia para o mundo todo!

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Acervo O Globo

Biblioteca do IBGE

CASTRO, Ruy. A noite do meu bem. São Paulo : Companhia das Letras, 2015.

CASTRO, Ruy. A onda que se ergueu no mar. Novíssimo mergulhos na Bossa Nova. São Paulo : Companhia das Letras, 2017.

CASTRO, Ruy. Chega de saudade. São Paulo : Companhia das Letras, 2016.

CASTRO, Ruy. Metrópole à beira-mar: O Rio moderno dos anos 20. São Paulo : Companhia das Letras, 2019.

Diário do Rio

Dicionário de verbetes do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro

GARSON, Marcelo. Roquianos, suburbanos e dançarinos: rock and roll carioca (55-60). Música Popular em Revista. Campinas, ano 1, vol 2, jan-junho 2013.

GERSON, Brasil. História das Ruas do Rio. Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2013.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Jornal O Globo

Site Câmara Municipal do Rio de Janeiro

Site Copacabana.com

Site Copacabana em foco

Site Clube dos Marimbás

Site Curiosidades cariocas

Site Editora Posto 6

Site Escritório de Arte

Site Rio que passou

*Inicialmente, estava escrito José Américo de Souza Rangel,, nome que consta em várias fontes de pesquisa. Porém, uma bisneta de Augusto Américo de Souza Rangel entrou em contato com a Brasiliana Fotográfica e, de fato, quem trabalhava na época na Comissão da Carta Cadastral e era, inclusive, muitíssimo amigo de Pereira Passos era o engenheiro Augusto Américo. Ele assumiu diversos cargos na comissão da Carta Cadastral, tendo sido seu chefe entre 1901 e 1903. O órgão teve grande relevância para o plano de reforma urbana realizado durante a gestão do prefeito Pereira Passos. Uma curiosidade: Souza Rangel e Pereira Passos eram muito próximos e as cartas trocadas entre eles, quando, após o término de sua gestão, Passos viajou para a Europa e para o Oriente Médio, ficaram famosas e foram compiladas no livro Notas de viagens, cartas a um amigo, publicado em 1913. a correção foi realizada em 5 de janeiro de 2020.

 

 

Links para os outros artigos da série “Avenidas e ruas do Brasil”:

Série “Avenidas e ruas do Brasil” I – Avenida Central, atual Rio Branco, publicada em 7 de setembro de 2016

Série “Avenidas e ruas do Brasil” II – A rua do Imperador em Petrópolis por Klumb, Leuzinger e Stahl, publicada em 26 de junho de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” III – A rua do Bom Jesus, no Recife, publicada em 6 de agosto de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” IV – A rua 25 de Março, em São Paulo, publicada em 1º de setembro de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” V – A rua Direita, a rua das Mercês e a rua Macau do Meio, em Diamantina, Minas Gerais, publicada em 22 de outubro de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” VI – A rua Augusto Ribas em Ponta Grossa, no Paraná, pelo fotógrafo Luís Bianchi, publicada em 18 de novembro de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil VIII – A rua da Carioca por Cássio Loredano, publicada em 20 de janeiro de 2021

O “artista fotógrafo” Louis Piereck (1880 – 1931)

 

O “artista fotógrafo” Louis Piereck (1880 – 1931)

 

 

O fotógrafo Louis Jacques Piereck (1880- 1931) é o autor do retrato destacado no sexto artigo da série “Feministas, graças a Deus”, sobre Júlia Medeiros (1896 – 1972), publicado na Brasiliana Fotográfica, em 9 de dezembro de 2020. De origem austríaca e nascido em Campinas, em 13 de outubro de 1880, ele atuou no Recife, entre fins do século XIX e nas primeiras décadas do XX. Pernambuco, a partir da década de 1850, com a chegada de vários fotógrafos estrangeiros e o estabelecimento de diversos ateliês fotográficos, tornou-se uma referência importante na história da fotografia no Brasil. Piereck foi contemporâneo do português Francisco du Bocage (1860 – 1919) e do pernambucano Manoel Tondella (1861 – 1921), dentre outros. Considerado talentoso, tinha muito prestígio na sociedade pernambucana e, em seu estabelecimento, a Photographia Piereck, eram produzidos “os mais perfeitos trabalhos“. Anunciava como sua especialidade “retratos, grupos de criança e o bello sexo“.

 

 

Muito provavelmente Louis aprendeu seu ofício de fotógrafo convivendo com profissionais em estabelecimentos fotográficos onde seu pai, o pintor acadêmico austríaco Ferdinand (Fernando) Piereck (1844 – 1925), trabalhou como, por exemplo, os ateliês de Henrique Rosén (18? – 1892), em Campinas; Alberto Henschel (1827 – 1882), no Recife; e o de Carlos Hoenen (18? – ?), em São Paulo. Em 1870, Ferdinand esteve pela primeira vez no Brasil, onde todos os seus cinco filhos, que teve com a tcheca Elizabeth Taussig (1855 – 19?), nasceram: Wilhelmine Ernestine (Guilhermina Christiani) (1878 – 19?), Ferdinand Junior (1879 – ?), Louis (1880 – 1931), Babette (Elizabeth White) (1881 – 19?) e Laura Correia (1882 – 19?). Naturalizou-se brasileiro em 1896. A motivação de sua vinda para o Brasil é incerta. Teria vindo atraido pela natureza tropical? À procura de uma clientela desejosa de que sua prosperidade fosse retratada?

 

 

Em 1904, após uma estadia na Europa, Louis Piereck avisava a amigos, a antigos fregueses e ao público em geral que seu ateliê, a Photographia Piereck, no número 54 da rua dr. Rosa e Silva (1), antiga rua da Imperatriz, no Recife, tinha todos os requisitos necessários a fim de bem servi-los (Jornal Pequeno, 30 de abril de 1904, primeira coluna). Era o mesmo endereço onde havia se localizado o ateliê do fotógrafo Flosculo de Magalhães (18? – 19?).

Casou-se, no Recife, com Hermínia Bastos Tigre (? – 1949), em 31 de janeiro de 1907, e tiveram cinco filhos, Luiz (c. 1907 – 1923), Edgard (1909 – 1993), Carmelita (19? -19?) – que faleceu ainda criança de crupe em uma das viagens da família à Europa -, Helena (19? – 19?) e Hermínia (Baby) (1917 – 1987) (Jornal Pequeno, 31 de janeiro de 1907, quarta coluna).

Louis Piereck conquistou o Grande Prêmio na Exposição Nacional de 1908 e medalhas de ouro na Exposição Internacional de Bruxelas de 1910, na Exposição Internacional de Turim de 1911, na Exposição Internacional do Trabalho de Milão de 1915, e na Exposição Internacional do Centenário da Independência, no Rio de Janeiro, em 1922. Seu estabelecimento fotográfico era uma Casa honrada com a preferência da alta sociedade pernambucana, onde além de produzir e expor fotografias, Piereck vendia equipamentos fotográficos. Frequentemente ia à Europa, de onde trazia as “novidades da arte“.

“Essa conhecida casa, de que é proprietário o habilíssimo e competente artista sr. Luiz Piereck, acaba de ser dotada de importantes melhoramentos e novidades da arte, tonando-se desta sorte o principal estabelecimento do gênero desta capital”

Jornal Pequeno, 20 de fevereiro de 1913

 

A Photographia Piereck também foi palco de exposições de artistas plásticos como Vicente do Rego Monteiro (1899 – 1970), que se tornaria um pintor de renome internacional, e do chargista e caricaturista paraibano Fausto Silvério Monteiro, (? – 1935), o Fininho, pioneiro nas produções de materiais gráficos do cinema pernambucano (Diário de Pernambuco, 7 de janeiro de 1920, primeira colunaDiário de Pernambuco, 27 de agosto de 1922, quinta coluna).

 

 

Acessando o link para as fotografias de Louis Piereck disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Cerca de um ano antes de sua morte, Piereck foi o responsável pela última fotografia do então governador da Paraíba, João Pessoa  (1878 – 1930) que, no dia em que foi assassinado, 26 de julho de 1930, pelo jornalista João Dantas (1888 – 1930), no Recife, esteve na Photographia Piereck, onde tirou novas fotografias a fim de atender a pedidos que constantemente lhe eram feitos por jornalistas, amigos e parentes. O governador estava com o ex-deputado e futuro governador de Pernambuco, Agamenon Magalhães (1893 – 1952), e com o jornalista Caio Lima Cavalcanti (1898 – 1975). Piereck era grande admirador de Pessoa e, segundo noticiado no Correio da Manhã, o encontro dos dois se deu com grande emoção. O assassinato é considerado um dos estopins da Revolução de 30.

 

 

O assassino de João Pessoa, João Dantas, e o engenheiro Augusto Caldas, seu cunhado, foram presos na Casa de Detenção do Recife, onde foram encontrados mortos em 6 de outubro (Diário de Pernambuco, 7 de outubro de 1930, primeira coluna). O motivo oficial das morte foi suicídio mas, anos depois, a descoberta de registros fotográficos produzidos por Piereck contribuíram para desacreditar essa versão.

Assim como Júlia de Medeiros, Louis Piereck teve um fim de vida trágico: suicidou-se, em 1931, ingerindo uma alta dose de oxianureto de mercúrio. Além da fotografia de Júlia, que pertence ao acervo do Arquivo Nacional, a Brasiliana Fotográfica disponibiliza 12 imagens produzidas por Piereck que pertencem ao acervo da Fundação Joaquim Nabuco. Ambas são instituições parceiras do portal.

 

 assinatura

 

Cronologia de Louis Piereck (1880 – 1931)

 

O fotógrafo Louis Piereck / Blog de Fernando Machado

O fotógrafo Louis Piereck / Acervo da família Piereck

 

1844 – Em Viena, na Áustria, nascimento do pintor Ferdinand (Fernando) Piereck (1844 – 1925), pai de Louis, em 10 de setembro.

1870 – Em 15 de outubro, Ferdinand chegou ao Rio de Janeiro, a bordo do paquete francês Amazone (Jornal do Commercio, 16 de outubro de 1870, sexta coluna).

1875 - Em Viena, em 13 de março, casamento de Ferdinand com Elizabeth Taussig (05/11/1855 – ?), nascida em Praga, de origem judaica. Os dois primeiros filhos do casal, Wilhelmine Ernestine (Guilhermina Christiani) (1878 – 19?) e Ferdinand Junior (1879 – ?), nasceram em Pernambuco. O fotógrafo Louis (1880 – 1931), Babette (Elizabeth White) (1881 – 19?) e Laura Correia (1882 – 19?), em São Paulo.

 

Louis Piereck. Ferdiand e Elizabeth Piereck com três filhos de Louis Piereck: Louis, Edgard e Hermínia (Baby), c. 19?

Ferdinand e Elizabeth Piereck e três de seu netos: Louis, Edgard e Hermínia (Baby), fotografados por Louis Piereck em torno de 1920/ Acervo da família Piereck

 

1876 – Ferdinand partiu do Rio de Janeiro para Pernambuco (O Globo, 1º de janeiro de 1876, quinta coluna). Foi contratado para trabalhar na Photographia Allemã de  Alberto Henschel (1827 – 1882) no Recife (Jornal do Recife, 14 de janeiro de 1876).

1877 – Ferdinand  foi contratado para ser o responsável pela pela policromia das fotopinturas a óleo e aquarela da Photographia Allemã, de Carlos Hoenen (18?-?), inaugurada em 1º de setembro de 1875, na rua do Carmo, 74, em São Paulo (Correio Paulistano, 31 de agosto de 1875, última coluna; Correio Paulistano, 23 de novembro de 1877).

1878 – Ferdinand ainda trabalhava no estabelecimento de Hoenen (Correio Paulistano, 30 de julho de 1878) e foi, muito provavelmente, o autor da pintura do teto de um dos cômodos do Grande Hotel, da Rua São Bento (Revista do IPHAN, nº 10, 1946), de propriedade de dois comerciantes: o teuto-suíço Frederico Glette (? – 1886) e o alsaciano Victor Nothmann (? – 1905).

 

 

Foi também o autor de uma pintura de tema religioso realizada para a Igreja da Penha (A Província de São Paulo, 28 de julho de 1878).

Transferiu-se para Campinas, onde trabalhou no ateliê Photographia Campinense, do sueco Henrique Rosén (18? – 1892), na época o mais importante fotógrafo do interior paulista, que, posteriormente, em janeiro de 1890, foi nomeado cônsul do Brasil da Suécia e da Noruega (Relatório do Ministério das Relações Exteriores, 1891; Jornal do Brasil, 12 de junho de 1891, primeira coluna). A expansão cafeeira no oeste paulista fez com que vários fazendeiros alojassem em suas casas artistas que retratavam suas famílias. Ferdinand pintou diversos barões do café e, neste ano, pintou o retrato de dom Pedro II, que está no casarão da Fazenda  Pinhal, em São Carlos, São Paulo.

 

 

Sua primeira filha, Wilhelmine (Guilhermina) (1878 -?), nasceu em Pernambuco.

1879 – Nascimento do segundo filho do casal Ferdinand e Elizabeth, Ferdinand Junior, em Pernambuco.

1880 – Nascimento de Louis Piereck, em 13 de outubro, em Campinas (Jornal Pequeno, 13 de outubro de 1919, terceira coluna; Jornal do Recife, 13 de outubro de 1923, primeira coluna; Diário de Pernambuco, 14 de outubro de  1930, sexta coluna). Algumas fontes informam o ano de nascimento 1878, e, por vezes, indicam como local de seu nascimento a Áustria ou a Suíça, mas documentação enviada da Áustria para familiares do fotógrafo apontam 1880 e Campinas como o ano e o local corretos do nascimento do fotógrafo.

1881 – 1882 – Em São Paulo, nascimento dos últimos filhos do casal Ferdinand e Elizabeth: Elizabeth (Babette) (1881 – 19?) e Laura (1882 – 19?) .

1886 - Ferdinand Piereck, que havia voltado de Viena, foi contratado pela Photographia Allemã, de Albert Henschel (1827 – 1882), localizada na rua do Barão da Vitória, nº 52, no Recife. O gerente do estabelecimento era o também austríaco Constantino Barza (Jornal do Recife, 3 de março de 1886).

 

 

1887 – Segundo passaporte emitido na Áustria, em 16 de abril de 1887, para Ferdinand (Fernando) Piereck, com validade de três anos, ele estava em Viena, e viria ainda naquele ano para o Brasil. Aqui, após ter visitado as principais galerias durante sua viagem, voltou a trabalhar na Photographia Allemã, ficando encarregado dos retratos a óleo (Jornal do Recife, 26 de maio de 1887, quarta coluna).

1892 – De acordo com propaganda veiculada em 1910, a fundação do ateliê fotográfico de Louis Piereck teria ocorrido neste ano (Jornal Pequeno, 14 de novembro de 1910). Em janeiro de 1892, foi inaugurada a Photographia Brazil, de Flosculo de Magalhães (18? – 19?),  na rua da Imperatriz 54 A (que em 1895 passou a chamar-se rua dr. Rosa e Silva), primeiro estabelecimento do gênero no bairro da Boavista (Jornal do Recife, 6 de janeiro de 1892, terceira coluna). Em 1901, 1902 e 1903 continuava a funcionar no mesmo endereço. Flosculo mudou-se, em 1904, com a família para o Rio de Janeiro (A Província, 6 de novembro de 1901, quinta colunaA Província, 21 de janeiro de 1902, penúltima colunaA Província, 30 de janeiro de 1904, segunda colunaA Província, 1º de setembro de 1904, segunda coluna). É o mesmo endereço que, a partir de 1904, foi anunciado como o da Photographia Piereck (Jornal Pequeno, 30 de abril de 1904, primeira coluna). Teriam os fotógrafos trabalhado juntos ou Piereck teria sucedido Flosculo no mesmo endereço?

1895 – Louis enviou um cartão de felicitações a sra. H. Barza. Seria uma parente de Constantino Barza (18? – ?), que havia sido o gerente da Photographia Allemã, de Henschel (1827 – 1882)? (Jornal do Recife, 1º de novembro de 1895, terceira coluna.

1896 - Seu pai, Ferdinand (Fernando) Piereck, naturalizou-se brasileiro, em 22 de maio de 1896 (Gazeta de Notícias, 25 de maio de 1896, quinta coluna).

1899 - Fazia parte de um Club de Photographia que distribuiu prêmios durante o ano de 1899 e 1900. O primeiro sorteio premiou o sócio Tito Rosas e o segundo, Alfredo Garcia (Jornal Pequeno, 2 de janeiro de 1899, terceira coluna).

Morava no Entroncamento nº 37 (Jornal do Recife, 30 de julho de 1899, sexta coluna).

1900 - Possuía um estabelecimento fotográfico, em Campina Grande, na Paraíba.

1904 – Seu estabelecimento fotográfico, a Photographia Piereck, ficava no número 54 A  da rua dr. Rosa e Silva (1), antiga rua da Imperatriz, no Recife, mesmo endereço onde havia se localizado anteriormente o ateliê do fotógrafo Flosculo de Magalhães (18? – 19?). Foi anunciado que Piereck havia chegado há pouco da Europa onde havia se dedicado com esmero à arte fotográfica. Avisava a amigos, a antigos fregueses e ao público em geral que seu ateliê tinha todos os requisitos necessários a fim de bem servi-los (Jornal Pequeno, 30 de abril de 1904, primeira coluna).

 

 

Na mesma rua dr. Rosa e Silva, no número 39, ficava a Modern Photograph, de Manoel Ribeiro Filho (18? – 19?) (Diário de Pernambuco, 20 de fevereiro de 1904, terceira coluna).

Piereck retratou a atriz e cantora Vittorina Cesana (1896? – 19?) caracterizada para o papel de militar da opereta Os 28 dias de Clarinha. Durante a apresentação da peça, no Teatro Santa Izabel, no Recife, esta fotografia foi distribuida aos espectadores (Jornal Pequeno, 21 de julho de 1904, terceira colunaDiário de Pernambuco, 23 de julho de 1904, penúltima coluna).

Na Photographia Piereck e na Maison Chic estavam sendo vendidos exemplares de A Linguagem dos selos pelo cartão postal ou o dicionário do amor pelo correio (Jornal Pequeno, 12 de outubro de 1904).

 

 

Seu pai, o pintor acadêmico Ferdinand (Fernando) Piereck, trabalhava na Photographia Piereck (Jornal Pequeno, 20 de outubro de 1904, quarta coluna).

1905 - Foi anunciada uma grande exposição artística na Photographia Piereck (A Província, 8 de abril de 1905).

Houve uma liquidaçao de cartões-postais em seu estabelecimento (Jornal Pequeno, 14 de junho de 1905, segunda coluna).

1906 – Estavam em exposição na Photographia Piereck o retrato de todos os presidentes da Câmara de Deputados Estaduais de Pernambuco desde a proclamação da República: José Maria, Moreira Alves, José Marcelino, Elpidio Figueireido, Mota Silveira e João Coimbra (Jornal do Recife, 20 de fevereiro de 1906, sétima coluna).

Anunciava seu estabelecimento fotográfico como uma Casa honrada com a preferência da alta sociedade pernambucana (Jornal do Recife, 23 de fevereiro de 1906, oitava coluna).

Anúncio da contratação do casamento com Hermínia Bastos Tigre, irmã do poeta, bibliotecário, publicitário e jornalista Manuel Bastos Tigre (1882 – 1957), filha do negociante Delfino Tigre (18? – 1932) e de Maria Leontina Bastos Tigre (18? – 1926) e publicação das proclamas (Diário de Pernambuco, 5 de outubro de 1906, penúltima coluna; e Jornal do Recife, 25 de dezembro de 1906, quarta coluna). Uma curiosidade: o cunhado de Piereck, Manuel Bastos Tigre, foi o responsável pelo slogan da Bayer que se tornou famoso em todo o mundo: “Se é Bayer é bom“. É também o autor da letra da música Chopp em Garrafa, com música de Ary Barroso (1903 – 1964), que foi interpretada por Orlando Silva (1915 – 1978). Foi inspirada no produto que a Brahma passou a engarrafar. Sucesso do carnaval de 1934, é considerado o primeiro jingle publicitário do Brasil. O Dia do Bibliotecário, 12 de março, dia de seu nascimento, foi instituído, em 1980, em sua homenagem.

1907 – Louis Piereck produziu as fotografias da turma de bacharéis de 1906 (Jornal Pequeno, 5 de janeiro de 1907, primeira coluna).

 

 

 

Casou-se, no Recife, com Hermínia Bastos Tigre (? – 1949), em 31 de janeiro de 1907, e tiveram cinco filhos, Luiz (c. 1907 – 1923), Edgard (1909 – 1993), Carmelita (19? -19?) – que faleceu ainda criança de crupe em uma das viagens da família à Europa -, Helena (19? – 19?) e Hermínia (Baby) (1917 – 1987) (Jornal Pequeno, 31 de janeiro de 1907, quarta coluna).

 

família piereck 2

Da esquerda para a direita: Louis (filho primogênito do fotógrafo), Hermínia, sua mulher; Edgard (seu filho), o fotógrafo Louis Piereck, duas irmãs de Hermína e a mãe de Hermínia, Maria Leontina Bastos Tigre, em um navio indo para a Europa, década de 10 / Acervo da família Piereck

 

Anunciava utilizar na Photografia Piereck o processo Van Bosch, garantido para os climas tropicais (Jornal Pequeno, 24 de maio de 1907).

 

 

Anunciou a Alta Novidade Photo-Pintura-Esmaltada como exclusividade da Photographia Piereck (Jornal Pequeno, 9 de dezembro de 1907). Com esta técnica foram realizados os retratos do desembargador Sigismundo Gonçalves (1845 – 1915) e do senador Rosa e Silva (1847 – 1929), expostos no depósito da Fábrica Lafayette (Jornal Pequeno, 13 de dezembro de 1907, primeira coluna).

1908 – A Photographia Piereck ficou incumbida pelo retrato do príncipe Luiz Felipe de Portugal (1887 – 1908), assassinado em 1º de fevereiro de 1908, que seria colocado na galeria do Real Hospital Português de Pernambuco (Jornal do Recife, 22 de fevereiro de 1908, oitava coluna).

Exposição na Fábrica Lafayette, na rua 1º de Março, do retrato em photo-pintura-esmaltada do coronel Cornélio Padilha (18? – 19?), realizado pela Photographia Piereck. O retrato seria dado ao coronel por amigos na ocasião de sua chegada da Europa (Jornal do Recife, 16 de setembro de 1908, última coluna).

A Photographia Piereck conquistou o Grande Prêmio na Exposição Nacional de 1908 (Diário de Pernambuco, 10 de dezembro de 1908, primeira colunaGutemberg, 31 de dezembro de 1908Jornal Pequeno, 3 de junho de 1909, última coluna).

 

 

1909 – Foi publicada uma lista de personalidades fotografadas pelo sistema “Esmalte Piereck” (Jornal Pequeno, 3 de junho de 1909).

 

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Exposição de um retrato do ex-presidente Afonso Pena (1847 – 1909) na Photographia Piereck (Diário de Pernambuco, 24 de junho de 1909, penúltima coluna).

Louis Piereck embarcou, em 10 de outubro, para a Europa, a bordo do Aragon, e anunciou que seu ateliê fotográfico continuaria funcionando. Retornou em 9 de dezembro de 1909 (A Província, 10 de outubro de 1909, terceira colunaJornal do Recife, 24 de outubro de 1909, terceira colunaA Província, 10 de dezembro de 1909, quinta coluna).

1910 – Na Fábrica Lafayette, exposição de retratos produzidos por Piereck, feitos por um novo e belíssimo processo, o mais moderno da arte fotográfica, imitação de fina gravura em relevo (A Província, 14 de janeiro de 1910, última coluna).

Venda de quadros e molduras a varejo e no atacado na Photographia Piereck (A Província, 30 de maio de 1910, quinta coluna).

A Photographia Piereck conquistou a Medalha de Ouro na Exposição Internacional de Bruxelas, realizada entre 23 de abril e 1º de novembro de 1910 (Diário de Pernambuco, 1º de novembro de 1910, última coluna). Também participaram da exposição os pintores brasileiros Lucilio de Albuquerque (1877 – 1939) e Antônio Parreiras (1860 – 1937). O encarregado pelos concertos de música brasileira no evento foi o maestro cearense Alberto Nepomuceno (1864 – 1920), então diretor do Instituto Nacional de Música. O pavilhão brasileiro foi projetado pelo arquiteto belga Franz van Ophen (18? – 19?).

 

 

Em 15 de novembro de 1910, foi inaugurada a instalação elétrica da Photographia Piereck (Jornal Pequeno, 14 de novembro de 1910).

 

 

O quadro das novas professoras formadas no Colégio Prytaneu foi confeccionado e exposto na Photographia Piereck (A Província, 28 de novembro de 1910, segunda coluna).

1911 A Photographia Piereck ganhou a Medalha de Ouro na Exposição de Turim, realizada entre 29 de abril e 19 de novembro de 1911 (Almanach de Pernambuco, 1912).

 

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Medalha de Ouro da Exposição de Turim / Acervo da família Piereck

 

Nessa mesma exposição, o fotógrafo amador alagoano Luis Lavènere Wanderley (1868 – 1966) também foi premiado com uma Medalha de Ouro exibindo fotografias sobre madeira, sobre porcelana e quadros de gênero  (Leituras para todos, janeiro de 1912).

 

 

O fotógrafo austríaco radicado no Brasil Otto Rudolf Quaas (c. 1862 – c. 1930) recebeu a Medalha de Prata. Segundo artigo de Boris Kossoy, publicado no O Estado de São Paulo, de 4 de março de 1973,  o fotógrafo Valério Vieira (1862 – 1941) participou da Exposição Universal de Turim, durante a qual foi agraciado com a comenda de Cavaleiro da Coroa, concedida pelo rei da Itália, por sua defesa da causa da imigração italiana para o fotógrafo Valério Vieira (1862 – 1941).

 

 

Em uma exposição do quadro de bacharéis em Ciências Jurídicas e Sociais da Faculdade de Direito na Photographia Piereck, a iluminação do ateliê foi descrita e referida como responsável por um surpreendente efeito luminoso. O evento, muito concorrido, contou com a apresentação da banda do 49º Batalhão de Caçadores (A Província, 6 de dezembro de 1911, quarta coluna).

1912 –  Exposição de um retrato de Eudoro Correia (1869 – 1961), prefeito do Recife, na Photographia Piereck. O retrato seria ofertado ao prefeito pelos carvoeiros da casa Cory Brothers (Jornal do Recife, 19 de abril de 1912).

Mais uma vez, o quadro de retratos das novas professoras formadas no Colégio Prytaneu foi confeccionado e exposto na Photographia Piereck (Jornal Pequeno, 16 de maio de 1912, quarta coluna).

A Photographia Piereck também confeccionava elegantes e custosas molduras (Jornal Pequeno, 20 de junho de 1912, última coluna).

Em julho, Louis Piereck foi passar uma temporada na Europa e deixou na direção de seu estabelecimento seu antigo auxiliar J. de Oliveira Lopes. Seu amigo Delfino da Silva Tigre cuidaria de seus assuntos particulares e comerciais (Jornal do Recife, 18 de julho de 1912, terceira coluna).

1913 – A bordo do Araguaya, Louis Piereck retornou de uma viagem à Europa quando visitou vários estabelecimentos fotográficos, especialmente em Viena e em Berlim. Comprou a patente para o processo fotográfico esmalte ouro para a América do Sul. Além disso, adquiriu uma utilíssima e magnífica máquina para operação em atelier, tipo 1912, a mais aperfeiçoada invenção e dotada de uma fina objetiva do importante cabricante Carl Zeiss…esse aparelho é o único que consegue apanhar clichês representando a maior naturalidade e nitidez, visto como o fotografado não vê diante de si a câmara, mas um grande espelho, onde se reflete a sua imagem, podendo desta natureza o artista, no momento crítico, apanhar uma fisionomia com a expressçao mais viva e natural. No interior da máquina  existe um aparelho instantâneo automático, de maneira que a pessoa que está sendo fotografada, por mais nervosa que seja, não pode modificar a expressão do rosto, evitando assim as tão frequentes reclamações de que “o trabalho não está bom a cópia não foi fiel”. Trouxe também fundos e decorações, uma coleção de animais para fotos com crianças, um projetor automático e elétrico, o maior do gênero em Pernambuco, que permitia apanhar no dia mais escuro qualquer clichê e um graduador automático de regulamentação de luz nas provas. Finalmente, comprou também uma rica e elegante cartonagem para a produção de um belíssimo efeito no acabamento dos retratos (Jornal do Recife, 1º de fevereiro de 1913, penúltima colunaJornal Pequeno, 20 de fevereiro de 1913, segunda coluna; e A Província, 25 de fevereiro de 1913, quarta coluna).

 

 

“Essa conhecida casa, de que é proprietário o habilíssimo e competente artista sr. Luiz Piereck, acaba de ser dotada de importantes melhoramentos e novidades da arte, tonando-se desta sorte o principal estabelecimento do gênero desta capital”.

Louis Piereck anunciou que havia reassumido a direção técnica de seu estabelecimento e a nova máquina fotográfica adquirida na Europa foi exposta na Photographia Piereck (Jornal Pequeno, 26 de fevereiro de 1913, terceira colunaJornal Pequeno, 1º de março de 1913, primeira coluna).

Anunciou possuir os aparatos mais modernos e necessários para transformar seu ateliê em um interior de igreja para os atos de 1ª Comunhão, casamentos e batizados (Jornal Pequeno, 7 de abril de 1913, primeira coluna).

 

A Photographia Piereck inaugurou seu serviço fotográfico noturno sem o processo do magnésio (Jornal Pequeno, 13 de junho de 1913, penúltima coluna).

 

 

A Photographia Piereck foi contratada para realizar o quadro dos formandos da Escola de Farmácia (A Província, 24 de julho de 1913, terceira coluna).

Em 14 de novembro, no Teatro Santa Izabel, no Recife, foi entregue a Medalha de Ouro conquistada por Louis Piereco, na Exposição Internacional de Turim, em 1911 (Jornal Pequeno, 15 de novembro de 1913, terceira coluna).

 

 

Foi noticiado que Louis Piereck embarcaria para a Europa com a família. Teria aceito a incumbência de realizar para o Jornal Pequeno reportagens fotográficas nas principais cidades que visitasse (Jornal Pequeno, 29 de novembro de 1913, segunda colunaJornal do Recife, 18 de abril de 1915, segunda coluna).

Na Photographia Piereck, exposição de um quadro com retratos da tripulação vencedora, do Club Náutico, do páreo de honra da última regata (Jornal Pequeno, 13 de dezembro de 1913, última coluna).

1914 – Exposição do quadro das professoras da Escola Normal Pinto Junior, confeccionado no ateliê fotográfico de Piereck que foi decorado, para o evento, em estilo japonês. Na ocasião, houve a apresentação de uma banda militar (A Província, 21 de novembro de 1914, última colunaJornal do Recife, 24 de novembro de 1914, última coluna).

1915 – Ganhou o Grande Prêmio de Honra e uma Medalha de Ouro na Exposição Internacional do Trabalho em Milão.

 

Grande Prêmio de Honra, em Milão, 1915 / Arquivo da família Piereck

Grande Prêmio de Honra, Milão, 1915 / Acervo da família Piereck

 

Após uma longa viagem pela Europa, iniciada em fins de 1913, quando esteve em Viena, Paris e Berlim, Louis Piereck e sua família voltaram para o Recife, a bordo do transatlântico Avon. Trouxe para seu ateliê recentes descobertas fotográficas, dentre elas o processo de Pigment ou carvon verdadeiro, em que se notam nas provas 20 e tantas cores diferentes. Adquiriu também aparelhos para a execução de trabalhos esmaltados em moldura de diversos formatos – ovais, medalhões, redondos, quadrados, dentre outros – , e máquinas fotográficas para a realização de instantâneos de toda natureza … podendo apanhar as imagens com a rapidez de 2500 de segundo (Jornal do Recife, 18 de abril de 1915, segunda coluna; A Província, 23 de abril de 1915, segunda coluna; A Província, 27 de abril de 1915, quinta colunaJornal Pequeno, 28 de maio de 1915, penúltima coluna). Reassumiu seu estabelecimento fotográfico em 1º de junho (A Província, 27 de maio de 1915, segunda coluna).

Era o único depositário para todo o Brasil do medicamento Expulsin, fabricado em Berlim para o combate à gota, reumatismo e artrite (A Província, 27 de junho de 1915, primeira coluna; A Província, 17 de março de 1917, última coluna).

O inspetor de higiente, dr. Gouveia de Barros, foi retratado na Photographia Piereck (Jornal Pequeno, 4 de agosto de 1915, última coluna).

Inauguração de diversos e importantes melhoramentos na Photographia Piereck, dentre eles o aumento da iluminação elétrica. Havia no ateliê um espaçoso laboratório para lavagem, revelação e fixagem de chapas, uma prensa automática e elétrica para a impressão de provas e também um aparelho para o serviço de ampliação. Havia também a seção de colagem, cortagem de cartão e abertura de firma da casa e outros distintivos, além da sala de fotografia e da seção de molduras. Nesta ocasião, trabalhavam no ateliê os artistas Gustavo Fischer e o alemão Phil Schafer, que havia trabalhado no ateliê Hubart & Cia, no Rio de Janeiro (Jornal Pequeno, 29 de dezembro de 1915, última coluna).

1916 - Piereck esteve por cerca de três meses na Europa e reassumiu a direção artística de seu ateliê, em 30 de junho de 1916. Trouxe para seu estabelecimento um aparelho para fotografias noturnas usado nas grandes casas da Europa. Adquiriu também uma belíssima cartonagem, o que havia de mais chic e novo no gênero (Jornal Pequeno, 1º de julho de 1916, última coluna).

Viajou a passeio para o Rio de Janeiro (Jornal Pequeno, 22 de agosto de 1916, última coluna).

1917 - Em um aviso publicado no jornal A Província, Piereck denunciou fotógrafos que, usando de má fé, apresentavam-se como seus representante (A Província, 3 de abril de 1917, última coluna).

 

 

Devido à manifestações contra a Alemanha ocorridas no Recife, Piereck procurou a redação do Jornal do Recife e declarou, mostrando documentos, ser brasileiro (Jornal do Recife, 12 de abril de 1917, primeira coluna).

A Photograhia Piereck foi escolhida para realizar o quadro de retratos dos bacharelandos de Direito de 1917 (Jornal Pequeno, 26 de maio de 1917, última coluna).

Anúncio da instalação, na Photographia Piereck, de uma importante e bem montada oficina para o fabrico de molduras, a cargo de competentes artistas (Jornal Pequeno, 26 de julho de 1917).

No quarto e mais importante páreo da regata promovida pelo Club Sportivo Almirante Barroso, foi disputado pela primeira vez o rico e elegante brinde “Photo Piereck”, oferecido pela conceituada Photographia Piereck  (Jornal Pequeno, 4 de agosto de 1917, quinta coluna).

 

medalhão

 

Foi noticiado que Gustavo Fischer havia deixado de ser o auxiliar de Louis Piereck, por sua livre e espontânea vontade. Ele passou a gerenciar a Photographia Chic (Diário de Pernambuco, 23 de outubro de 1917, primeira colunaJornal Pequeno, 24 de outubro de 1917, última coluna).

1918 - Mais uma vez, a Photographia Piereck foi a responsável pela realização do quadro de bacharéis da Faculdade de Direito (A Província, 7 de fevereiro de 1918, segunda coluna).

 

 

Exposição de diversos retratos na Photographia Piereck (Jornal Pequeno, 2 de agosto de 1918, terceira coluna).

1919 – As capas da revista Vida Moderna passaram a trazer fotografias cedidas pela Photographia Piereck (Vida Moderna (PE), 5 de julho de 1919).

 

 

Inauguração na Photographia Piereck do quadro dos engenheiros formados em 1919 na Escola Livre de Engenharia. O passe-partout havia sido confeccionado pelo artista Moser (Jornal do Recife, 16 de agosto de 1919, penúltima coluna).

Realização de um magnífico trabalho na Photographia Piereck. Quadro do corpo médico e da junta administrativa de 1948, do Hospital Português (Jornal Pequeno, 20 de agosto de 1919, segunda coluna).

Foi anunciada a venda, na Photographia Piereck, de novas tintas para artistas pintores (Jornal Pequeno, 7 de outubro de 1919, primeira coluna).

A Photographia Piereck foi, de novo, a responsável pela realização do quadro de bacharéis da Faculdade de Direito (A Província, 10 de dezembro de 1919, penúltima coluna).

Na Photographia Piereck, inauguração do quadro de retratos dos professores da Escola Normal: Julio Pires Ferreira, França Pereira, Arthur Cavalcanti e José Ferreira Muniz (A Província, 13 de dezembro de 1919, quarta coluna).

1920 – O pintor Vicente do Rego Monteiro (1899 – 1970) fez uma exposição de ilustrações e aquarelas na Photographia Piereck (Diário de Pernambuco, 7 de janeiro de 1920, primeira coluna). Rego Monteiro trouxe para o Recife, em 1930, uma exposição de artistas da Escola de Paris, que foi a primeira mostra internacional de arte moderna realizada no Brasil, com artistas ligados às grandes inovações nas artes plásticas, como o cubismo e o surrealismo. Foram expostas, dentre outras, obras de Fernand Léger (1881 – 1955), Georges Braque (1882 – 1963), Joan Miró (1893 – 1983) e Pablo Picasso (1881 – 1973), além de trabalhos dele.

 

 

Estavam à venda na Photographia Piereck, as chapas fotográficas de fabricação alemã que, devido à guerra e a consequente interrupção das exportações, passaram muito tempo em falta. Outros produtos fotográficos também eram vendidos no ateliê (A Província, 22 de julho de 1920, primeira colunaA Província, 20 de agosto de 1920, última coluna).

 

 

A Photographia Piereck foi escolhida para realizar o quadro de retratos dos formandos em odontologia (Jornal do Recife, 7 de agosto de 1920, quinta coluna).

Os retratos do presidente do Brasil, Epitácio Pessoa (1865 – 1942), e do governador de Pernambuco, José Rufino Bezerra Cavalcanti (1865 – 1922), realizados pela Photographia Piereck, foram expostos durante a realização da comemoração do primeiro ano de governo de Bezerra CAvalcanti (A Província, 18 de dezembro de 1920, quarta coluna).

1921 – A Photographia Piereck realizou o quadro de retratos dos formandos da Faculdade de Direito e dos farmacêuticos (Jornal do Recife, 13 de janeiro de 1921, sexta colunaA Província, 3 de dezembro de 1921, segunda coluna).

Piereck Irmãos vendiam carros (Diário de Pernambuco, 20 de janeiro de 1921).

A Photographia Piereck recebeu da Alemanha cartonagem para retratos de formatos visita e álbum em cores sortidas com os seus respectivos envelopes transparentes (A Província, 30 de janeiro de 1921, quarta coluna).

Exposição de diversos retratos na Photographia Piereck, uma das melhores de nosso país (A Província, 11 de fevereiro de 1921, primeira coluna).

Louis Piereck reassumiu, em 15 de setembro, a direção de seu estabelecimento (A Província, 20 de setembro de 1921, última coluna).

Phil Schafer, gerente da Photographia Piereck, anunciou que havia se desligado do estabelecimento e oferecia seus serviços profissionais de ampliação, sua especialidade, assim como outros ligados à fotografia. Posteriormente abriu um estabelecimento fotográfico na rua da Imperatriz, 285, bem perto da Photographia Piereck (Jornal Pequeno, 20 de setembro de 1921, última colunaAlmanak Laemert, 1927, última coluna).

O Club Sportivo Almirante Barroso conquistou algumas taças nas regatas realizadas na baciaa do Capiberibe, uma delas a Taça Photo Piereck (A Província, 20 de setembro de 1921, segunda coluna).

Houve um incêndio na Photographia Piereck devido a um curto-circuito na fiação elétrica (Jornal Pequeno, 6 de dezembro de 1921, quinta colunaA Província, 7 de dezembro de 1921, última coluna).

1922 – Foi premiado com a Medalha de Ouro na Exposição Internacional do Centenário da Independência, realizada no Rio de Janeiro (A Província, 11 de julho de 1924, primeira coluna).

A Photo Piereck anunciou a chegada de uma nova remessa de chapas alemães do afamado fabricante Schleussner. No mesmo anúncio aconselhava os fotógrafos e amadores: só usem chapas preparadas com emulsão tropical  (Diário de Pernambuco, 19 de janeiro de 1922, terceira coluna). No mesmo ano, foi anunciada a chegada de uma remessa da tinta Helios, especiais para a pintura de tecidos (Diário de Pernambuco, 14 de juho de 1922, terceira coluna).

A Photographia Piereck realizou o quadro de retratos das professoras formadas na Escola Normal de Pernambuco (Diário de Pernambuco, 2 de fevereiro de 1922, sexta coluna).

Nascimento de Fernando Carlos, filho de Elizabeth Piereck White, irmã de Louis, que era casada com Fernando White (Jornal Pequeno, 16 de fevereiro de 1922, quinta coluna).

Durante as exéquias celebradas, na basílica Nossa Senhora da Penha, em memória de José Rufino Bezerra Cavalcanti (1865 – 1922), foi exibido um retrato a óleo, realizado pela Photographia Piereck na época em que ele foi ministro da Agricultura, entre 1915 e 1917 (Diário de Pernambuco, 28 de abril de 1922, quarta coluna).

Após concorrer com o fotógrafo Fidanza – curiosamente, mesmo sobrenome do fotógrafo português Felipe Augusto Fidanza (c. 1847 – 1903) – , foi escolhido para realizar o quadro de retratos dos bacharéis da Faculdade de Direito (A Província, 12 de maio de 1922, quinta coluna).

Na Photographia Piereck, exposição do chargista e caricaturista paraibano Fausto Silvério Monteiro, (? – 1935), Fininho, pioneiro nas produções de materiais gráficos do cinema pernambucano. Pode ser considerado como um dos primeiros artistas gráficos a trabalhar para o cinema no Brasil (Diário de Pernambuco, 27 de agosto de 1922, quinta coluna).

 

 

A Photo Piereck anunciava-se como a única importadora em Pernambuco de produtos fotográficos.

 

 

Foi, de novo, o responsável pela realização do quadro de retrato de bacharéis da Faculdade de Direito (Diário de Pernambuco, 15 de dezembro de 1922, quinta coluna).

1923 - Ferdinand Piereck Junior noticiou que seu irmão, Louis Piereck, estava se retirando da firma Piereck Irmãos, que ficava na Praça da Independência 31 e que havia há pouco anunciado a venda de tintas e anilinas de Brauns (A Província, 24 de abril de 1923, segunda coluna).

Exposição na Photographa Piereck do retrato do senador Manoel Borba (1864 – 1928), que seria colocado na Prefeitura de Jaboatão (Jornal Pequeno, 9 de junho de 1923, primeira coluna).

Eram vendidas na Photographia Piereck máquinas fotográficas Kodack Goerz, além de outros produtos fotográficos da marca Gevaert (Jornal Pequeno, 16 de janeiro de 1923, última colunaJornal Pequeno, 10 de julho de 1923, segunda coluna).

 

 

O alemão Martin Schumann dirigia a seção de retratos a óleo, pastel, aquarelas e ampliações fotográficas da Photographia Piereck. Anteriormente, já havia dirigido uma academia em Dresden onde ensinava essas técnicas. Em homenagem à data da independência do Brasil, foi realizada uma exposição na Photo Piereck de quadros a óleo e trabalhos outros do gênero (Jornal Pequeno, 5 de setembro de 1923, quinta colunaA Província, 7 de setembro de 1923, quarta coluna).

 

 

Morte do primogênito de Louis e Hermínia Piereck, Luiz, que estudava no Colégio Synodal, em Santa Cruz, no Rio Grande do Sul (Jornal Pequeno, 30 de novembro de 1923, primeira coluna).

Publicação de propagandas das lentes Goerz, vendidas na Photographia Piereck (Diário de Pernambuco9  e 30 de dezembro de 1923).

 

 

“A memória nem sempre é fiel….É recem-casado?…De futuro a sua alegria será enorme” – de uma propaganda da Photo Piereck (Jornal Pequeno, 31 de dezembro de 1923, última coluna).

 

 

1924 - Mário Araújo Sobrino e Felipe Nery dos Santos trabalhavam como auxiliares na Photographia Piereck  (Diário de Pernambuco, 14 de fevereiro, segunda coluna; e Diário de Pernambuco, 27 de maio de 1924, terceira coluna).

Realizou o quadro de retratos dos bacharéis em ciências comerciais (A Província, 29 de março de 1924, quarta coluna).

Exposição, na Photographia Piereck, do quadro de retratos dos formandos da Escola de Engenharia de Pernambuco. O passe-partout foi de autoria do pintor H. Moser  (Diário de Pernambuco, 5 de abril de 1924, quarta coluna).

Na Photographia Piereck eram vendidos diversos equipamentos fotográficos (Jornal Pequeno, 21 de maio de 1924).

 

 

Exposição na vitrine da Photographia Piereck de um magnífico retrato busto em tamanho natural enfaixado em rica moldura do abastado comerciante e nosso particular amigo coronel Othon Mendes Bezerra de Mello (Jornal Pequeno, 2 de setembro de 1924, segunda coluna).

Ganhou uma Medalha de Ouro do Instituto Agrícola,  no Rio de Janeiro.

1925 – Inauguração, na Photographia Piereck, do quadro de retratos de bacharéis da Faculdade de Direito (Diário de Pernambuco, 12 de março de 1925, primeira coluna).

 

 

Publicação de fotografias de Piereck na Revista de Pernambuco (Revista de Pernambuco, março de 1925).

 

 

Anunciou a venda de vários produtos “Para photografia!” como prensa de copiar 13:18 9:12, bacias de porcelana e ágata, copas de graduar, balanças, vidros finos despolidos, rubi e calibres diversos. Vendia também papéis mate e brilhantes de diversos fabricantes, além de cartolinas (Diário de Pernambuco, 31 de maio de 1925, terceira colunaDiário de Pernambuco, 4 de julho de 1925, primeira coluna).

A Photographia Piereck foi responsável pelo quadro de retratos da primeira turma de médicos formados na Faculdade de Medicina do Recife (A Província, 6 de dezembro de 1925, terceira coluna).

Falecimento de seu pai, Ferdinand, em sua casa na estrada dos Aflitos, 192 (Jornal do Recife, 12 de dezembro de 1925, segunda coluna).

1926 – Falecimento da sogra de Piereck, Maria Leontina Bastos Tigre (Jornal Pequeno, 4 de janeiro de 1926)

A Photo Piereck anunciava uma grande novidade, o metallon, um papel fotográfico ideal para efeitos artísticos (Diário de Pernambuco, 28 de março de 1926).

 

 

O chargista  e caricaturista Fausto Silvério Monteiro (? – 1935), Fininho, trabalhava na Photographia Piereck, na rua da Imperatriz, 198  (Jornal do Recife, 10 de abril de 1926, quinta coluna).

A Photographia Piereck produziu o quadro de retrato das primeiras diplomadas em Comércio do Instituto Nossa Senhora do Carmo (Jornal do Recife, 20 de novembro de 1926, quarta coluna).

1927 – Foi o responsável pelo quadro de retratos da Turma do Centenário da Faculdade de Direito do Recife (Diário de Pernambuco, 21 de abril de 1927, sexta coluna).

Foi noticiada uma reforma na Seção de amadores da Photo Piereck (Jornal Pequeno, 18 de julho de 1927, última coluna).

1928 – Anunciou a chegada novas remessas de papel Leonar, chapas Eisenberger (Jornal Pequeno, 8 de março de 1928, última coluna).

A Photographia Piereck realizou a fotografia de dom Miguel de Lima Valverde (1872 – 1951), arcebispo de Olinda e Recife (Diário de Pernambuco, 22 de julho de 1928, quarta coluna).

Em um anúncio, convidava os fotógrafos amadores a ver a nova Vest pocket à venda na Photographia Piereck (Jornal Pequeno, 22 de novembro de 1928, segunda coluna)

1929 - Também eram vendidos na Photographia Piereck produtos da Kodak, da Agfa, da Hauff e de outros fabricantes (Jornal Pequeno, 2 de janeiro de 1929, segunda coluna).

Um retrato da Photographia Piereck era um dos prêmios oferecidos à vencedora do concurso de beleza que elegeu a Miss Pernambuco, Connie Brás da Cunha (Jornal Pequeno, 21 de março de 1929, quarta coluna).

A professora e feminista Júlia Augusta de Medeiros (1896 – 1972) ofereceu à feminista e presidente da Federação Brasileira para o Progresso Feminino, Bertha Lutz (1894 – 1976), uma fotografia sua produzida por Louis Piereck, datada de 5 de maio de 1929.

 

 

1930 - No dia em que foi assassinado, 26 de julho de 1930, pelo jornalista João Dantas (1888 – 1930), no Recife, o então governador de Paraíba, João Pessoa (1878 – 1930), esteve na Photographia Piereck, onde tirou novas fotografias a fim de atender a pedidos que constantemente lhe eram feitos por jornalistas, amigos e parentes. O governador estava com Agamenon Magalhães (1893 – 1952), na época ex-deputado e futuro governador de Pernambuco; e com o jornalista Caio Lima Cavalcanti. Piereck era grande admirador de Pessoa e segundo o Correio da Manhã, o encontro dos dois se deu com grande emoção. Na ocasião, Piereck teria contado a Pessoa que tivera um pesadelo com a morte dele (Diário Carioca, 29 de julho de 1930, penúltima colunaCorreio da Manhã, 29 de julho de 1930, penúltima coluna). O assassinato é considerado um dos estopins da Revolução de 30.

 

 

Segundo o jornalista Domingos Meirelles em seu livro Órfãos da revolução, ao preparar os equipamentos, Piereck notou que João Pessoa continuava tenso, olhos baixos, expressão congelada, com tristeza na face. Produziu um segundo retrato, segundo o pesquisador Edival Varandas, ao se dar conta que as luvas no bolso do paletó do presidente estavam desalinhadas e, subitamente, solicitando que não se movesse, ajeitou as luvas, pediu que esboçasse um leve sorriso e tirou o outro retrato, que viria a ser o último de Pessoa (O Dia (PR)21 de novembro de 1931, quarta coluna).

O assassino de João Pessoa, João Dantas, e o engenheiro Augusto Caldas, seu cunhado, foram presos na Casa de Detenção do Recife, onde foram encontrados mortos em 6 de outubro (Diário de Pernambuco, 7 de outubro de 1930, primeira coluna). O motivo oficial das morte foi suicídio mas, anos depois, a descoberta de registros fotográficos produzidos por Piereck contribuiu para desacreditar essa versão:

 “João Dantas e seu cunhado Augusto Caldas estavam detidos, desde a morte de João Pessoa, na penitenciária em Recife, quando, na tarde de 6 de outubro, foram encontrados mortos. A notícia oficial apontou suicídio, e assim foi divulgado na imprensa. Somente após a morte do fotógrafo Piereck foi que uma nova versão para a morte foi trazida ao público – tratava-se de outras fotografias desconhecidas e que estavam guardadas no cofre do fotógrafo. Conta-se que Piereck, sabendo do que ocorrera, fotografou o local, mas foi obrigado a tirar novas fotos em que, num novo cenário fotografado, esconderia os sinais de luta e de assassinato. Essa versão se encontra no livro do irmão de Augusto Caldas, que foi recentemente publicado pela ONG “Parahyba Verdade”” e editado pela Gráfica e Editora Imprell  (Trecho da dissertação de mestrado Sacrifício, heroísmo e imortalidade: a arquitetura da construção da imagem do Presidente João Pessoa, de Genes Duarte Ribeiro – página 100).

Essas fotografias foram publicadas no livro de Joaquim Inojosa Andrade, A República de Princesa (José Pereira x João Pessoa, -1930) e reproduzidas no site princesapb.com.

 

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1931 – Piereck suicidou-se em 19 de novembro, ingerindo uma alta dose de oxianureto de mercúrio em sua residência, na avenida Rosa e Silva, 192. Desesperada, sua mulher, Herminia Tigre Piereck, também tentou se matar ingerindo ácido arsênico. O casal tinha, na época, dois filhos, Edgard e Herminia “Baby” Piereck. O primogênito, Luiz, havia falecido em 1923 (Diário de Pernambuco, 20 de novembro de 1931, penúltima colunaJornal Pequeno, 20 de novembro de 1931, quinta coluna; Diário de Pernambuco, 20 de novembro de 1931, sexta coluna).

“A dolorosa ocorrência repercutiu tristemente em nosso meio, onde o sr. Louis Piereck se tornara um homem popular, pela sua bondade, pelos seus dotes morais. E o seu gesto,não foi só uma desagradável surpresa para os que apenas o conheciam mas também para os que pertenciam a sua família que, de momento, não podiam atinar onde essa causa tão forte, que levava o chefe a praticar o ato de desespero que lhe roubara a vida. Entretanto, ao que se sabe, o sr.Louis Piereck, antes de objetivar a sua macabra resolução, teria escrito uma longa carta a seu filho de nome Edgard Piereck expondo-lhe com pormenores as causas que o levaram a procurar a morte de uma maneira tão violenta”.

Jornal Pequeno, 20 de novembro de 1931

 

Era diretor do Jockey Club e as corridas foram suspensas no domingo seguinte a seu falecimento. Estiveram presentes a seu enterro o interventor federal e figuras da maior represetação da alta sociedade pernambucana (Jornal Pequeno, 21 de novembro de 1931, primeira coluna).

1932 – Foi publicado um anúncio convocando todos os credores da Photographia Piereck a fim de se entenderem com Edgard Piereck, filho de Louis (Diário de Pernambuco, 5 e fevereiro de 1932).

O estabelecimento foi a leilão judicial, em abril de 1932.

 

 

1949 – Falecimento da esposa de Louis Piereck, Hermínia, no Rio de Janeiro (Diário de Pernambuco, 17 de setembro de 1949, última coluna).

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

(1) De acordo com Lúcia Gaspar, da Fundaj, “curiosamente, a rua da Imperatriz Tereza Cristina mudou de nome três vezes. Em 1895, foi denominada Dr. Rosa e Silva. Passou para Floriano Peixoto. Finalmente, por meio da Lei nº 1.336, de 13 de março de 1923, voltou ao nome tradicional. De maneira espontânea, a população reduziu a sua denominação para Rua da Imperatriz, como é conhecida até hoje”. Por isso, apesar de entre 1904 e 1931 a Photographia Piereck ter existido no mesmo lugar, o endereço variou: rua dr. Rosa e Silva, 54; rua Floriano Peixoto, 54; rua Floriano Peixoto, 198; e rua da Imperatriz, 198.

 

Agradeço muitíssimo à família de Louis Piereck, especialmente à sua neta, Eliane Piereck, por inúmeras informações e pela cessão de registros do acervo pessoal da família.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ANDRADE, Joaquim Inojosa. República da Princesa (José Pereira x João Pessoa – 1930). Rio de janeiro/Brasília: Civilização Brasileira/INL-MEC, 1980.

Blog do Juan Esteves

BEZERRA, Dinarte Varela. 1930, a Paraíba e o inconsciente político da revolução: a narrativa como ato socialmente simbólico. 2009. 227 f. Tese (Doutorado em Desenvolvimento Regional; Cultura e Representações) – Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2009.

CALDAS, Joaquim Moreira. Porque João Dantas assassinou João Pessoa: o delito do “Glória” e a tragédia da penitenciária do Recife em 1930. João Pessoa: Gráfica e Editora Imprell, 2008.

CAMPOS, Eudes. O antigo Beco da Lapa e o Grande Hotel. Informativo Arquivo Histórico Municipal, 4 (24): maio/jul. 2009

Google Arts and Culture

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

MEIRELLES, Domingos. Órfãos da revolução. Editora Record : Rio de Janeiro, 2006

RIBEIRO, Genes Duarte. Sacrifício, heroísmo e imortalidade: a arquitetura da construção da imagem do Presidente João Pessoa. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal da Paraíba, 2009.

Site CPDOC

Site Dezenovevinte.net

Site Enciclopédia Itaú Cultural

Site Imigração Histórica

Site Silvia Matos Ateliê de Criatividade

Site princesapb.com

Site Propagandas Históricas

TURAZZI, Maria Inez. Poses e trejeitos: a fotografia e as exposições na era do espetáculo: 1839/1889. Prefácio Pedro Karp Vasquez. Rio de Janeiro: Funarte. Rocco, 1995. 309 p., il. p&b. (Coleção Luz & Reflexão, 4). ISBN 85-85781-08-4.

VARANDAS, Edival Toscano. O último retrato do presidente João Pessoa.

Série “Feministas, graças a Deus!” V – Feminista do Amazonas: Maria de Miranda Leão (1887 – 1976)

Série “Feministas, graças a Deus!” V – Feminista do Amazonas: Maria de Miranda Leão (1887 – 1976)

 

Maria de Miranda Leão (1887 – 1976), pioneira na participação feminina na política da região Norte do Brasil, eleita pela Liga Católica, em 1934, deputada estadual na Assembleia Constituinte (1935-1937), é o personagem do quinto artigo da série “Feministas, graças a Deus!, escrito pela pesquisadora Maria Elizabeth Brêa Monteiro, do Arquivo Nacional, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica. A feminista Maria de Miranda Leão foi professora, enfermeira e assistente social, tendo vinculado sua vida com talento e cultura ao ensino e à solidariedade. Em dezembro de 1922, foi uma das fundadoras de Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, seção Amazonas, meses após a fundação da FBPF, iniciativa de Bertha Lutz (1894 – 1976), em 9 de agosto do mesmo ano.

Foi descrita em uma matéria do Jornal do Brasil de 1936 como “Uma dessas inteligências femininas que se sente ao contato do seu verbo fluente, emotivo, todo saturado por esse amor imenso esse encanto arrebatado pela natureza mágica e caraterística da Amazônia.” Segundo Maria Elizabeth Brêa Monteiro, na fotografia destacada nesse artigo, produzida pela Photographia Alemã, “é possível perceber um perfil de austeridade que parece caracterizar a vida pública de Maria de Miranda e suas vinculações fortes com a igreja católica e com uma ação assistencial”.

 

Feminista do Amazonas: Maria de Miranda Leão

Maria Elizabeth Brêa Monteiro*

 

Conclamando as mulheres à paz e à guerra, Maria de Miranda Leão proferiu seu discurso na sessão inaugural do 3º Congresso Nacional Feminista, realizado na sede do Automóvel Club, no Rio de Janeiro, entre os dias 1°e 8 de outubro de 1936. Delegada da Liga Católica do Amazonas junto ao Congresso Eucarístico Nacional e designada representante da Federação Amazonense pelo Progresso Feminino e de outras agremiações de Manaus pelo governador Álvaro Maia para o Congresso Nacional Feminino [1], o Jornal do Brasil em sua edição de 2 de outubro de 1936 descreve Maria de Miranda como “uma dessas inteligências femininas que se sente ao contato do seu verbo fluente, emotivo, todo saturado por esse amor imenso esse encanto arrebatado pela natureza mágica e caraterística da Amazônia.”[2]

Maria de Miranda Leão nasceu em 1887 em uma família de longa atuação no Amazonas nos vários setores da atividade humana: no magistério, no comércio, nas ciências, na política. O patriarca, coronel José Coelho de Miranda Leão, foi deputado que havia se notabilizado por combater os cabanos em Mundurucânia, em 1839. Era filha do professor e jornalista Manoel de Miranda Leão, deputado provincial da Assembleia Legislativa (1886) e um crítico do cenário da instrução pública no Amazonas, identificando a falta de experiência e de dedicação no magistério como um dos principais problemas a enfrentar. Professora, enfermeira, assistente social e uma pioneira na participação feminina na política da região Norte, Maria de Miranda primou, segundo Agnello Bittencourt, pelo talento e pela cultura, tendo vinculado sua vida ao ensino e à caridade.[3]

Ingressou, em 1922, no Serviço Federal de Profilaxia Rural e nesse mesmo ano criou a Sociedade de Amparo à Maternidade e à Infância, núcleo que deu origem ao Hospital Infantil Casa Dr. Fajardo, onde trabalhou como enfermeira e chefe dos serviços internos.

A partir das primeiras décadas do século XX, Manaus não mais se assemelhava à Paris dos Trópicos dos anos de pujança da exportação da borracha. A derrocada do comércio extrativista impeliu levas de seringueiros a se dirigirem com suas famílias para as cidades que enfrentavam as consequências da depressão econômica, assoladas por doenças como paludismo, verminose, disenteria, enterite, gripe e outras. Nesse contexto as crianças compunham o grupo mais vulnerável, identificado no elevado índice da mortalidade infantil. Todavia, o estado do Amazonas e, em particular, a cidade de Manaus não possuíam uma instituição oficial de atendimento hospitalar exclusivo para crianças. Esse atendimento era realizado pela Casa Dr. Fajardo, instituição particular, fundada em 1922 pelo médico Samuel Uchôa, diretor do Serviço de Profilaxia Rural do Amazonas, com a finalidade de receber crianças órfãs ou desamparadas acometidas por paludismo e verminose. Além do tratamento médico prestado, essa instituição tinha uma preocupação pedagógica, principalmente em relação às questões de higiene das crianças e das famílias, no intuito de resgatá-las de uma condição depauperada e libertá-las, segundo o próprio Dr. Uchoa, “da tirania das doenças destruidoras”, preparando-as para o trabalho.[4]

Vem desse período, durante o qual Maria de Miranda realizou atividades de assistência às crianças e às camadas mais empobrecidas da população amazonense, o apelido pelo qual ficou conhecida: Mãezinha.

Com apoio do Serviço de Profilaxia Rural do Amazonas, durante a administração do governador Ephigênio Salles, criou o primeiro preventório do Brasil, voltado para o cuidado dos filhos dos portadores de hanseníase.

Maria de Miranda teve também relevante atuação para a profissionalização e regularização das atividades de serviço social. Em 1940, com apoio do bispo d. Basílio Manoel Olímpio Pereira, realizou, no Rio de Janeiro, os cursos de “Ação Católica e Serviço Social”, o que favoreceu a criação da Escola de Serviço Social de Manaus, subordinada, inicialmente, ao Juízo Tutelar de Menores, onde foi professora de Assistência Social.

Essa orientação pela assistência e cuidados mobilizou sempre Maria de Miranda ao longo de sua vida. Como secretária-geral e enfermeira chefe da Cruz Vermelha no Amazonas, ficou encarregada da entrega de correspondências aos prisioneiros de guerra (japoneses, italianos e alemães) e foi, de 1946 a 1951, diretora do Instituto Benjamin Constant, criando nele a primeira Escola Normal Rural do Amazonas.

Paralelamente ao trabalho assistencial, Maria de Miranda destacou-se no movimento feminista, sendo membro da Federação Feminista Amazonense e uma das fundadoras da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. Liderou o movimento feminino católico de incentivo à participação das mulheres nas eleições e na política de modo geral, fato que, por certo, contribuiu para seu sucesso nas urnas aos 48 anos, quando foi eleita pela Liga Católica, em 1934, deputada estadual na Assembleia Constituinte (1935-1937), onde também atuou nas comissões de Educação e de Poderes e leis.

Em carta para Bertha Lutz de 20 de junho de 1935, Maria de Miranda informa sobre sua atuação na Constituinte na defesa da atuação da mulher em todos os setores de ação social, moral e político, e não mais apenas dedicada a servir o lar, “coser meias e embalar meninos”. Nessa mesma carta, Maria envia uma fotografia dedicada a Bertha na qual se identifica como sua admiradora e a convida a visitar o estado e ver “como o nosso Amazonas é grandioso, com suas florestas encantadas e seus rios caudalosos. Seria ocasião de sentir as aspirações da mulher amazonense e que a cultura e a mentalidade da cabocla morena do rio Negro não envergonham as irmãs do Sul.”[5] Nessa fotografia é possível perceber um perfil de austeridade que parece caracterizar a vida pública de Maria de Miranda e suas vinculações fortes com a igreja católica e com uma ação assistencial.

Essas linhas de ação de Maria de Miranda se conjugavam com os temas discutidos na Assembleia Nacional Constituinte. A organização da assistência social foi defendida pela representante feminina, Carlota Pereira de Queiroz, médica eleita com apoio da Liga Católica, que considerava a educação e a saúde do povo as duas questões fundamentais de uma nação e tinha a proteção à maternidade e à infância como diretrizes prioritárias de seu mandato.

A Liga Eleitoral Católica, movimento gerado em defesa dos ideais cristãos e em resposta à secularização da cultura e à fundação do Partido Comunista do Brasil, congregava intelectuais como Alceu do Amoroso Lima, o advogado Sobral Pinto, além outros representantes de segmentos da classe média, e teve expressiva participação nas eleições para a Assembleia Nacional Constituinte. No Amazonas, seus principais dirigentes eram o bispo dom João da Mata e Jatir Pucu de Aguiar, do Partido Liberal. Maria de Miranda exerceu os cargos de secretária-geral da Liga Eleitoral Católica, ao lado de Maria Julia Lima, e, em 1935, foi nomeada para a presidência.

Maria de Miranda acompanhou de perto a mobilização das mulheres pelo sufrágio feminino no Brasil. Foi uma das fundadoras de Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, seção Amazonas, em 18 de dezembro de 1922. Trabalhou para organizar uma série de atividades com o objetivo de sensibilizar as mulheres para o alistamento eleitoral, direito conquistado pelas brasileiras em fevereiro de 1932 com a promulgação do novo código eleitoral que concedeu pela primeira vez o direito de voto às mulheres. Participou de todos os eventos nacionais promovidos pela FBPF na década de 1930.

A Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, fundada em 9 de agosto de 1922, por iniciativa da Bertha Lutz e outras mulheres com diferentes abordagens de prioridades na construção de agenda entre elas, tinha como principal bandeira a busca pelo sufrágio universal e a promoção do avanço da mulher no espaço público através da reivindicação de seus direitos políticos, das melhorias de suas condições de trabalho, de saúde e educação. Esses foram temas discutidos nos congressos organizados pela FBPF, sob a presidência de Bertha. Mudar a visão da sociedade brasileira em relação à mulher considerada como a “rainha do lar”, debater sobre a formação do magistério, a nacionalização do ensino público, o acesso da mulher ao mercado de trabalho e igualdade salarial orientavam a atuação da Federação ao lado de postulados sustentados pela Liga Católica no sentido do ensino religioso nas escolas e da indissolubilidade do matrimônio. A questão da cidadania constituía-se no debate em torno de direitos civis, que englobava o acesso ao voto e ao divórcio, maternidade, igualdade salarial e proibição do trabalho noturno às mulheres, e se misturavam com perspectivas de proteção e de conquista de direitos.[6]

As lideranças feministas das maiores organizações constituídas – FBPF, Aliança Nacional de Mulheres, Liga Eleitoral Católica e suas derivadas regionais – argumentavam que era possível assegurar a agregação de mulheres na política, pois isso não ofereceria risco de concorrência para os ocupantes dos cargos públicos eletivos nem ocasionaria instabilidade social ou para as famílias.

Mesmo com ambiguidades presentes no movimento feminista, as mulheres iam introduzindo mudanças nos mecanismos de conquista de direitos. Empunhando, assim, a bandeira do voto feminino, a Federação rumava de maneira cordial para a defesa da emancipação da mulher e à conquista de direitos. Essa postura, identificada por pesquisadores, com um “feminismo bem comportado”, voltado para os anseios das mulheres das classes média e alta, de alguma forma se contrapunha ao feminismo sustentado por Maria Lacerda de Moura, tido como “mal comportado” ao atentar para os direitos das trabalhadoras das classes baixas e para a liberdade sexual.[7]

 

 

 

Nesse contexto realiza-se no Rio de Janeiro o 3º Congresso Nacional Feminista, que contou com a presença de autoridades como o presidente da República, Getúlio Vargas, e o governador do Rio de Janeiro, Protogenes Guimarães. Maria de Miranda foi a oradora da sessão inaugural que apresentou um discurso intitulado “A missão da mulher no momento atual”, no qual fazia “a defesa do regime, a manutenção da ordem, a salvação da honra e da tradição, contra o sacrilégio devastador do comunismo”. Ficam evidentes os princípios católicos da família indissolúvel como alicerce da nação e a luta feminista como uma “cruzada santa”. Maria de Miranda deixa claro seu alinhamento à igreja católica condenando “a política sem Deus e contra Deus, ambiciosa e libertina”. Antecedido por um preâmbulo de cunho regionalista, mencionando as belezas e riquezas do Amazonas, em que cita os pacíficos e ordeiros Barés e os combativos Maués, Maria de Miranda enfatiza em seu discurso o caráter pacífico da “guerra” a ser empreendida pela mulher, “poder moderador capaz de trazer o homem à razão, quando levado pelos ímpetos próprios de sua natureza combativa, muitas vezes se afastada de caminho traçado.”. E conclui, em sua visão, o objetivo do congresso:

“Um dos pontos fundamentais é, por certo, a defesa do regime, a manutenção da ordem, a salvação da honra e da tradição contra o sacrilégio devastador do comunismo. (…) Se procura nos seduzir, garantindo à mulher todos os campos de ação social, a igualdade de valores e trabalhos com o homem, não nos deixaremos enganar. Queremos a vitória das nossas reivindicações, a nossa igualdade política e social, salário igual para trabalho igual. Mas a mulher do Brasil coloca acima de tudo Deus, a Fé, a honra, a dignidade, a força moral e a integridade da Pátria. (…) É essa a promessa, a clarinada guerreira, o juramento inflexível que a Mulher Amazonense vos manda por minha voz: Ouviremos a voz do Brasil e na luta estaremos na linha de frente, na brecha por Deus, pela Pátria, pela Raça.”[8]

Nesse congresso foi votado o Estatuto da Mulher, a ser apresentado na forma de projeto de lei em outubro de 1937 à Câmara dos Deputados, por iniciativa das deputadas Bertha Lutz e Carlota Pereira de Queirós. Em seus 150 artigos, o projeto tinha como objetivo regulamentar os dispositivos constitucionais de proteção às mães e às crianças, tratava, em essência, de nacionalidade, direitos políticos, trabalho.[9]

O mandato de Maria de Miranda como deputada estadual foi interrompido em 1937 quando Getúlio Vargas fechou o legislativo federal e os estaduais, dando início ao Estado Novo que perdurou até 1945. Com a democratização, tentou a reeleição, pelo Partido Social Democrático (PSD), em 1947, não obtendo êxito.

Sua atuação política e social foi reconhecida pelas autoridades amazonenses que lhe concederam o título de Cidadã Benemérita de Manaus, em 1957, e a Medalha Cidade de Manaus, em 1969. Pelos serviços prestados, foi condecorada pela Cruz Vermelha do Amazonas.

Maria de Miranda Leão faleceu em 1976, no mesmo ano de sua “distinta patrícia” Bertha Lutz, com quem batalhou pela ampliação dos espaços de poder e decisão da mulher na sociedade e pela garantia de direitos conquistados.

 

[1] Telegrama do governo do Estado do Amazonas comunicando que a Federação Amazonense pelo Progresso Feminino designou a deputada Maria de Miranda Leão como representante do Amazonas no 3º Congresso Nacional Feminino. Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. Arquivo Nacional. Rio de Janeiro.3 de julho de 1936. BR RJANRIO Q0.ADM, COR.A936.74

[2] Jornal do Brasil. Edição 232, 2 de outubro de 1936. Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=030015_05&pasta=ano%20193&pesq=%22miss%C3%A3o%20da%20mulher%20no%20momento%20atual%E2%80%9D&pagfis=69211

[3] Bittencourt, Agnello. Dicionário Amazonense de Biografias: vultos do passado. Rio de Janeiro, Conquista, 1973. p. 359. Disponível em https://issuu.com/bibliovirtualsec/docs/dicionario_amazonense_de_biografias

[4] Schweickardt, Júlio Cesar. Ciência, nação e região: as doenças tropicais e o saneamento no Estado do Amazonas (1890-1930). Manaus: Fiocruz/Casa de Oswaldo Cruz, 2009. p. 345. Disponível em http://ppghcs.coc.fiocruz.br/images/teses/tesejuliochweickardt.pdf.

[5] Cartas de Maria de Miranda Leão. Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. Arquivo Nacional. Rio de Janeiro. BR_RJANRIO_Q0_ADM_COR_A935_0066_d0001

[6] Fraccaro, Glaucia Cristina Candian. Uma história social do feminismo – Diálogos de um campo político brasileiro (1917-1937). Estudos Históricos. Rio de Janeiro, vol. 31, nº 63, p. 7-26, janeiro-abril 2018, p. 18. Disponível em http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/reh/article/view/71642

[7] Dultra, Eneida Vinhaes Bello. Direitos das mulheres na Constituinte de 1933-1934: disputas, ambiguidades e omissões. Tese em Direito, Estado e Constituição. UnB, 2018. Disponível em https://repositorio.unb.br/bitstream/10482/34535/1/2018_EneidaVinhaesBelloDultra.pdf

[8] Jornal do Brasil. Edição 248, 18 de outubro de 1936. Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=030015_05&pasta=ano%20193&pesq=%22miss%C3%A3o%20da%20mulher%20no%20momento%20atual%E2%80%9D&pagfis=69211

[9] Potechi, Bruna. As mulheres dos estatutos no Congresso Nacional Brasileiro. Revista Estudos Feministas, v. 27, n. 1, Florianópolis, 2019. Disponível em https://www.scielo.br/pdf/ref/v27n1/1806-9584-ref-27-01-e50110.pdf

 

Maria Elizabeth Brêa Monteiro é Mestre em História | Pesquisadora do Arquivo Nacional

 

Leia também os outros artigos da série “Feministas, graças a Deus”: 

Série “Feministas, graças a Deus!” I – Elvira Komel, a feminista mineira que passou como um meteoro, publicado em 25 de julho de 2020, de autoria da historiadora Maria Silvia Pereira Lavieri Gomes, do Instituto Moreira Salles, em parceria com Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” II  – Natércia da Cunha Silveira (1905 – 1993), o jequitibá da floresta, publicado em 20 de agosto de 2020, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” III  – Bertha Lutz e a campanha pelo voto feminino: Rio Grande do Norte, 1928, publicado em 29 de setembro de 2020, de autoria de Maria do Carmo Rainha, doutora em História e pesquisadora do Arquivo Nacional

Série “Feministas, graças a Deus!” IV  – Uma sufragista na metrópole: Maria Prestia (? – 1988), publicado em 29 de outubro de 2020, de autoria de Claudia Heynemann, doutora em História e pesquisadora do Arquivo Nacional

Série “Feministas, graças a Deus!” VI – Júlia Augusta de Medeiros (1896 – 1972) fotografada por Louis Piereck (1880 – 1931), publicado em 9 de dezembro de 2020, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” VII – Almerinda Farias Gama (1899 – 1999), uma das pioneiras do feminismo no Brasil, publicado em 26 de fevereiro de 2021, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” VIII – A engenheira e urbanista Carmen Portinho (1903 – 2001), publicado em 6 de abril de 2021, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” IX – Mariana Coelho (1857 – 1954), a “Beauvoir tupiniquim”, publicado em 15 de junho de 2021, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica