João Pedro ou João Pedroso?

A Brasiliana Fotográfica publica o artigo “João Pedro ou João Pedroso?”, dos pesquisadores Ricardo Augusto dos Santos e Francisco dos Santos Lourenço, ambos da Fiocruz, instituição parceira do portal. O artigo evidencia a importância das pesquisas realizadas a partir de fotografias. É sobre a identificação correta de dois cientistas, João Pedroso Barreto de Albuquerque (1869 – 1936) e João Pedro de Albuquerque (1874 – 1934), possível a partir da observação de um erro em legendas fotográficas feita pelo pesquisador Francisco Lourenço durante a montagem da exposição permanente de fotografias no 6° andar do prédio que o Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz ocupa. A investigação feita pelos dois autores desse artigo descobriu que esses dois importantes personagens da história da saúde pública brasileira foram constantemente objeto de confusão. “Mesmo na época em que eles viveram, seus nomes e biografias eram substituídos e trocados. Até em documentos oficiais. Inúmeros textos acadêmicos produzidos durante décadas citaram um deles, quando na verdade, era o outro que havia atuado. Ou também aconteceu um amálgama”.

João Pedro ou João Pedroso?

Ricardo Augusto dos Santos & Francisco dos Santos Lourenço*

Durante a montagem da exposição permanente de fotografias no 6° andar do prédio que o Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz ocupa, o pesquisador Francisco Lourenço observou que havia um equívoco nas legendas. Notou que o nome de um dos médicos que acompanharam Carlos Chagas na expedição científica a serviço da Superintendência da Defesa da Borracha, entre 1912 e 1913, estava errado. Daí em diante, resolvemos investigar. Surpreendidos, descobrimos que dois importantes personagens da história da saúde pública brasileira foram constantemente objeto de confusão. Mesmo na época em que eles viveram, seus nomes e biografias eram substituídos e trocados. Até em documentos oficiais. Inúmeros textos acadêmicos produzidos durante décadas citaram um deles, quando na verdade, era o outro que havia atuado. Ou também aconteceu um amálgama. Nomes e fatos eram combinados numa única trajetória!

 

trecho

Trecho retirado do livro “A Escola de Manguinhos” de Olympio da Fonseca Filho, 1974.

 

Quem eram esses homens? João Pedroso Barreto de Albuquerque e João Pedro de Albuquerque. Fortes, altos, usando fartos bigodes, esses médicos tiveram suas vidas ligadas ao projeto de saneamento do Rio de Janeiro e do Brasil. Portanto, possuindo nomes semelhantes, não é inusitado o erro contínuo. Vamos detalhar estas trajetórias.

Acessando o link para as fotografias de João Pedroso Barreto de Albuquerque e João Pedro de Albuquerque disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Filho de João Pedroso Barreto de Albuquerque e de Anna Maciel Pedroso de Albuquerque, João Pedroso Barreto de Albuquerque nasceu a 11 de maio de 1869, no Rio de Janeiro, falecendo em 20 de janeiro de 1936. Formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, apresentou como trabalho final a tese “Resecção do maxilar superior – indicações e processos operatórios”, em 1892. Foi secretário da Diretoria Geral de Saúde Pública (DGSP), sendo escolhido pelo cientista e amigo Oswaldo Cruz em 1903, após Oswaldo não ter aceitado a nomeação de Afrânio Peixoto para o posto. Por opção de Carlos Chagas, exerceria o mesmo cargo a partir de 1920, quando da criação do Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP), do qual Chagas foi seu primeiro diretor. Entre os momentos mais importantes da sua trajetória, Pedroso participou da viagem aos portos nacionais com Oswaldo Cruz (1905), da expedição científica com Carlos Chagas ao Amazonas e Acre (1912), e chefiou a Comissão de Profilaxia da Febre Amarela em Belém (1910).

Por sua vez, cinco anos mais novo, João Pedro de Albuquerque nasceu em 1874, falecendo em 7 de junho de 1934, no Rio de Janeiro. Também se formou pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, quando defendeu a tese “Da paralisia geral dos alienados: seu histórico e suas causa” em 1896. Participou do Serviço de Profilaxia Específica da Febre Amarela no Rio de Janeiro (1905), da expedição científica aos estados do Ceará e Piauí (1912) e da Comissão de Profilaxia da Febre Amarela em Belém (1910). Ainda exerceu a direção do Serviço Marítimo e Fluvial nas décadas de 1920 e 1930.

 

 

A trajetória de ambos esteve estritamente relacionada aos feitos de Oswaldo Cruz no campo da saúde pública nacional. Desde que assumira a direção da DGSP, este, por exemplo, tinha conhecimento das péssimas condições sanitárias dos portos do Brasil. Assim, em 27 de setembro de 1905, Oswaldo e João Pedroso embarcaram no navio República, equipado com um pequeno laboratório, em direção aos portos do Norte. Oswaldo e Pedroso realizaram esta viagem de inspeção passando por Espírito Santo, Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Maranhão e Pará. Visitaram os portos de Vitória, Caravelas, Santa Cruz, Porto Seguro, Salvador, Penedo, Aracajú; Maceió, Tamandaré, Recife, Cabedelo, João Pessoa, Natal, Areia Branca, Macau, Fortaleza, Camorim, Amarração, Belém, Óbidos e Santarém. Em janeiro de 1906 iniciaram uma missão, agora pelos portos do Sul: Santos (São Paulo), Paranaguá (Paraná), São Francisco (Santa Catarina) e Rio Grande (Rio Grande do Sul).

Em 1910, vamos encontrar Oswaldo Cruz, Pedroso e Pedro juntos. Nesta ocasião, Oswaldo estava novamente em viagem, para trabalhar numa consultoria sobre a profilaxia da malária, que matava, segundo dizia-se, um operário para cada dormente assentado na construção da ferrovia Madeira-Mamoré. Durante o mês em que permaneceram em Porto Velho, Oswaldo Cruz e outro personagem importante, Belisário Penna, estudaram as condições sanitárias da região e propuseram um plano de combate à malária que prescrevia o uso diário, compulsório, de quinina pelos trabalhadores, sob pena de não receberem os salários caso não tomassem suas doses. O plano foi posto em prática pela empresa norte-americana ainda com a presença de Cruz e Penna. Após várias tentativas frustradas de construção da ferrovia, ela foi abandonada.

 

 

Antes de retornar ao Rio de Janeiro, na passagem por Belém, Oswaldo Cruz foi contratado pelo governo do Pará para combater a febre amarela na cidade. Implantou a Comissão de Combate à Febre Amarela na capital paraense, no mesmo ano. Convocou vários médicos para a empreitada, entre as quais o próprio Penna. Apesar da crise do ciclo da borracha, que se iniciava, a comissão teve apoio orçamentário do governo do Pará, e ainda em 1910 foi registrado o último caso de febre amarela na capital. Cruz convocou vários médicos para a empreitada, tanto do Rio de Janeiro quanto da própria localidade. Entre eles estavam João Pedroso, João Pedro, Francisco Ottoni Maurício de Abreu, Belisário Penna, Augusto Serafim de Souza, Leocádio Rodrigues Chaves, Caetano da Rocha Cerqueira, Abel Tavares de Lacerda, Ângelo Moreira da Costa Lima e Emygdio José de Mattos. Retornando ao Rio de Janeiro, Cruz indica Pedroso para coordenar os trabalhos.

 

 

Pedro e Pedroso também participaram das Expedições Científicas do Instituto Oswaldo Cruz, entre 1911 e 1913, pelo Instituto Oswaldo Cruz. As cinco viagens científicas realizadas pelo instituto percorreram grandes áreas do país. Essas missões produziram, através de diários, relatórios e fotografias um sólido inventário das condições e modos de vida das regiões visitadas. Em duas dessas missões, nossos personagens estiveram presentes. É neste momento que surgem as principais dúvidas sobre os médicos.

Constantemente, veremos João Pedro de Albuquerque aparecer como participante da viagem de estudos a região amazônica. Na verdade, João Pedro, de março a julho de 1912, em companhia de José Gomes de Faria, atravessou os estados do Ceará e Piauí. Esta expedição percorreu um longo trajeto, que incluiu mais de 20 localidades. E o Pedroso? Entre outubro de 1912 e março de 1913, juntamente com Carlos Chagas e Antônio Pacheco Leão, João Pedroso Barreto de Albuquerque percorreu as bacias hidrográficas do Amazonas e Acre.

Em pelo menos mais uma oportunidade, Pedro e Pedroso estiveram juntos. Na Liga Pró-Saneamento do Brasil, criada por Belisário Penna em 1918, o primeiro foi o 2° vice-presidente e o segundo exerceu o cargo de 3° vice-presidente.

*Ricardo Augusto dos Santos é pesquisador titular da Fundação Oswaldo Cruz e Francisco dos Santos Lourenço é pesquisador do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

 

 

Manguinhos e os sertões

A Brasiliana Fotográfica traz a seus leitores fotografias relativas ao tema Manguinhos e os sertões, do acervo de um dos parceiros do portal, a Casa de Oswado Cruz/Fiocruz. Manguinhos é o bairro onde se situa a instituição. As imagens correspondentes às viagens – produzidas por fotógrafos especialmente contratados para tais missões – registram a associação do Instituto Oswaldo Cruz aos esforços governamentais de interiorização do Estado brasileiro nas primeiras décadas do século XX. Cobrindo as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste do país, as imagens construíram um inventário pioneiro do interior do Brasil.

As cinco expedições realizadas pelo Instituto Oswaldo Cruz foram:

1911 – Expedição aos Vales dos Rios São Francisco e Tocantins

Entre setembro de 1911 e fevereiro de 1912, o médico e pesquisador Astrogildo Machado (1885 – 1945) e o farmacêutico Antônio Martins forneceram suporte médico aos engenheiros da Estrada de Ferro Central do Brasil, que tinham por missão estabelecer o traçado definitivo da linha ferroviária que, partindo de Pirapora, no noroeste mineiro, deveria chegar até Belém do Pará. Percorreram os vales do São Francisco e do Tocantins e, após alcançarem a capital paraense, retornaram ao Rio de Janeiro por via marítima.

 

 

1912-  Expedições ao Nordeste e Centro-Oeste

Ocorreram nesse ano três viagens de cientistas do Instituto, patrocinadas pela Inspetoria de Obras contra as Secas, para realizar pesquisas sobre a geografia, fauna, flora e as condições sanitárias da região. Arthur Neiva (1885 – 1945) e Belisário Penna (1868-1939) percorreram o norte da Bahia, o sudeste de Pernambuco, o sul do Piauí e Goiás de norte a sul, enquanto João Pedro de Albuquerque (c. 1874 – 1934) e José Gomes de Faria (1887 – 1962). Seguiram para o Ceará e para o norte do Piauí.  A terceira expedição, conduzida por Astrogildo Machado (1885 – 1945) e Adolpho Lutz (1855 – 1940), atravessou o trajeto de Pirapora até Juazeiro, a bordo de uma gaiola pelo rio São Francisco.

 

 

1912/1913 – Expedição à Região Amazônica

Carlos Chagas (1879 – 1934), Pacheco Leão (1872 – 1931) e João Pedroso Barreto de Albuquerque (18? – 1936) realizaram a última grande expedição do período, a serviço da Superintendência da Defesa da Borracha. Percorreram parte da Bacia Amazônica, em especial o trecho acima de Manaus.

 

 

Acessando o link para as fotografias das expedições realizadas pelo do Instituto Oswaldo Cruz disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

As fotografias e negativos remanescentes dessas expedições, com aproximadamente 1700 itens, foram produzidos por câmeras grandes, pesadas, que utilizavam negativos de gelatina seca sobre base de vidro no formato 13 x 18 centímetros. Sobre os fotógrafos conhecemos apenas dois, José Teixeira, que acompanhou a expedição chefiada por Arthur Neiva (1885 – 1945) e Belisário Penna (1868-1939), e João Stamato (1886 – 1951), cinegrafista do Rio de Janeiro na década de 1910, que documentou a expedição de Pirapora (MG) e a Belém (PA), em 1911.