O índio no acervo da Brasiliana Fotográfica

Os índios brasileiros foram retratados por diversos fotógrafos do século XIX, muitos deles representados no acervo da Brasiliana Fotográfica que hoje, Dia do Índio, destaca esses registros. São imagens produzidas por Albert Frisch (1840 – 1918)Dana B. Merril (1887 – 19?)Felipe Augusto Fidanza (c.1847 – 1903), Franz Keller  (1835-1890), Hercule Florence (1804 – 1879), Marc Ferrez (1843 – 1923)Vincenzo Pastore (1865 – 1918)Walter Garbe (18? – 19?), e também por fotógrafos ainda não identificados.

Segundo Fernando Tacca, as fotografias dos índios brasileiros no século XIX :

‘…demonstram inicialmente uma presença exótica dos nativos nos trópicos, muito similar a muitas outras produções, a uma necessidade de alimentar o gabinete de curiosidades do mundo europeu sobre povos distantes e “primitivos”. Enjaulados em exposições presenciais, foram domesticados pela fotografia de estúdio, na qual o fotógrafo foi o articulador cênico de uma representação deslocada da cultura nativa’.

Também no século XIX, foi produzida por viajantes e expedicionários uma iconografia que revelou à sociedade ocidental um mundo de outras raças. Alguns desses viajantes tinham formação em ciências humanas e naturais e se preocupavam em utilizar a imagem fotográfica das etnias tradicionais dentro do âmbito científico, indo além da simples fetichização do exótico. Segundo Tacca, os fotógrafos do século XIX … transitam entre o exótico distante e uma primeira tentativa de presença etnográfica como informação…

 

Acessando o link para as fotografias de índios disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

O Dia do Índio foi instituído no Brasil pelo Decreto-lei nº 5.540, de 02 de junho de 1943, durante o governo de Getúlio Vargas (1882 – 1954), tendo sido assinada pelo próprio e pelos ministros Apolônio Sales (1904 – 1982), da Agricultura, e Oswaldo Aranha (1894 – 1960), das Relações Exteriores. Desde então a data é comemorada com solenidades, atividades educacionais e divulgação das culturas indígenas. A primeira celebração da data no Brasil teve sua organização orientada pelo general Cândido Rondon (1865 – 1958) – futuro marechal -, na época presidente do Conselho Nacional de Proteção ao Índio (Correio da Manhã, 19 de abril de 1944, última colunaO Cruzeiro, 26 de maio de 1946).

 

 

A data, 19 de abril,  foi escolhida durante o 1º Congresso Indigenista Interamericano, reunido em Patzcuaro, no México, entre 14 e 24 de abril de 1940 (Correio da Manhã, 4 de abril de 1940, quarta coluna). O professor Edgard Roquete Pinto (1884 – 1954) foi o representante do Brasil (Correio da Manhã, 6 de abril de 1940, terceira colunaDiário de Notícias, 26 de maio de 1940, quarta coluna e Jornal do Brasil, 25 de maio de 1940, primeira coluna). Na sessão inaugural do evento foi lida uma carta do presidente dos Estados Unidos, Frank Delano Roosevelt (1882 – 1945). Durante o congresso, cujo objetivo foi a discussão de políticas pelos direitos dos povos indígenas na América, foi aprovada uma recomendação proposta por delegados indígenas de quatro países: Chile, Estados Unidos, México e Panamá.

Essa recomendação, de nº 59, propunha:

1. o estabelecimento do Dia do Índio pelos governos dos países americanos, que seria dedicado ao estudo do problema do índio atual pelas diversas instituições de ensino;

2. que seria adotado o dia 19 de abril para comemorar o Dia do Índio, data em que os delegados indígenas se reuniram pela primeira vez em assembléia no Congresso Indigenista. Todos os países da América foram convidados a participar dessa celebração.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Hemeretoteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário Histórico-Fotográfico Brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002

MOURA, Carlos Eugênio Marcondes de. Estou aqui. Sempre estive. Sempre estarei. Indígenas do Brasil. Suas imagens (1505-1955). São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2012

Site do Museu do Índio

Site O índio na fotografia brasileira

TACCA, Fernando de. O índio na fotografia brasileira: incursões sobre a imagem e o meio. História, ciências, saúde – Manguinhos – Vol. 18, nº 1, p.191-223. Rio de Janeiro., 2011

A festa do progresso: o Brasil na Exposição Continental, Buenos Aires, 1882

 

Uma das marcas do período compreendido entre meados do século XIX e o início do século XX é a realização de exposições internacionais. Embora mais modesta do que outras mostras internacionais, no que se referia às dimensões e ao número de países participantes, a realização da Exposição Continental de Buenos Aires inseria-se nessa tendência. A historiadora Maria do Carmo Rainho, do Arquivo Nacional, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, é a autora do artigo A festa do progresso: o Brasil na Exposição Continental, Buenos Aires, 1882, que o portal publica hoje para seus leitores.

 

A festa do progresso: o Brasil na Exposição Continental, Buenos Aires, 1882

Maria do Carmo Rainho*

 

Uma das marcas do período compreendido entre meados do século XIX e o início do século XX é a realização de exposições internacionais, que podem ser sintetizadas como espaços de fruição e exibição das mudanças nas técnicas, na ciência, na cultura, nos modos de produzir e consumir uma ampla gama de artigos, nas artes, na educação, bem como nas relações internacionais. Estas exposições evidenciam ainda, a tentativa de estabelecer uma espécie de ordem visual, cultural e política para o mundo. Inez Turazzi ressalta, também, para a grandiosidade dos números que cercam estes eventos.

“se incluirmos a primeira Grande Exposição Internacional de Londres de 1851 e a Exposição Universal de Paris de 1900, chegaram a ser realizadas dez grandes exposições internacionais e universais, com um público que atingiu a cifra impressionante de 172 milhões de visitantes, aproximadamente.”[1]

Estruturada em torno de pavilhões de países e regiões, as exposições exibiam, numa disposição particular, objetos que visavam representar economias e culturas. Nestes espaços criava-se uma atmosfera de progresso contínuo das nações, embora estas estivessem ali submetidas a uma hierarquia: cabiam às mais desenvolvidas os espaços centrais. Para Dussel, as nações eram elas próprias, commodities, prontas para serem consumidas.[2] Cada espaço expositivo – com seus arranjos – criava narrativas nacionais reforçadas pela obtenção de medalhas e menções honrosas; a conquista desses prêmios concedidos aos governos, instituições públicas e empresas privadas, era devidamente capitalizada em matérias e anúncios publicados pela imprensa, nos rótulos e marcas dos produtos, nos versos das carte de visite e carte cabinet.

Embora mais modesta do que as mostras internacionais, no que se referia às dimensões e ao número de países participantes, a realização da Exposição Continental de Buenos Aires[3] era uma tentativa do governo argentino de difundir ideias como a superação da Guerra da Tríplice Aliança envolvendo Argentina, Brasil e Uruguai contra o Paraguai e finalizada há pouco mais de um decênio; a aposta na paz interna e externa; o desenvolvimento das suas indústrias, para o qual concorria a presença maciça de imigrantes, com destaque para a produção do açúcar e do trigo. A própria instalação do pavilhão, um prédio em estilo art-déco, no lugar de um antigo mercado de frutas na Praça Onze de Setembro, situado no que era, até então, um subúrbio miserável, se insere no projeto de vender a imagem de uma nação moderna, desenvolvida e com uma capital que, desde o início da administração de Torcuato de Alvear (1868 – 1942), em 1880, primava pela intervenção urbana, com a expropriação de lojas, abertura de largas avenidas, e expulsão dos moradores de cortiços das áreas centrais de Buenos Aires.

Acessando o link para as fotografias da Exposição Continental de Buenos Aires de 1882 que estão disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Inaugurada em 15 de março de 1882, no Palácio da Exposição,[4] o evento contou com a presença do presidente da República Argentina, Julio Roca (1843 – 1914), de ministros, do presidente da municipalidade da capital e de um grande contingente de visitantes,[5] ensejando um feriado, decoração com bandeiras e galhardetes e uma iluminação especial nas ruas do entorno, além da realização de parada militar. Lojas e estabelecimentos públicos e privados não funcionaram e coube à orquestra do Teatro Colón executar o hino nacional. Até 23 de julho daquele ano, cerca de 50 mil pessoas tiveram acesso a cem mil objetos, exibidos por 2 mil expositores estrangeiros e 1.200 argentinos. Do total de 27,370 m2, 18,240m2 eram ocupados por galerias cobertas e 3,680 m2 por quiosques. Quanto à utilização dos espaços pelos expositores, à cidade de Buenos Aires, por exemplo, cabiam 2.800m2, ao Uruguai, 1.500m2, ao Brasil, 500m2, ao Chile 300 m2, ao Paraguai 300m2, à Venezuela 100m2, e ao México 50 m2.

Com relação à afluência do público, dados publicados pela Gazeta de Notícias apontam que entre 2.000 e 4.000 pessoas visitaram a exposição nos dias de semana e de 8 a 9 mil aos domingos; quase 50% eram crianças em passeios promovidos pelas escolas.

A participação brasileira na Exposição ficou a cargo da Associação Industrial, órgão criado em 1880 e que teve como primeiro presidente o médico e empresário do setor têxtil Antônio Felício dos Santos (1843 – 1931). Dentre as primeiras pautas defendidas pela entidade estavam: a defesa de uma política alfandegária protecionista, a atração de mão de obra e capitais estrangeiros, o estímulo à criação de empregos, a necessidade de livrar o Brasil da dependência da economia agrícola e a busca pelo equilíbrio da balança comercial.

Com vistas a escolher os produtos a serem exibidos em Buenos Aires, a Associação organizou uma exposição preparatória[6], no Rio de Janeiro, em dezembro de 1881, no edifício do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas. Para tanto, concedeu aos interessados das outras províncias o transporte gratuito do material bem como o espaço expositivo. Outra iniciativa do órgão, divulgada continuadamente no jornal O Industrial, era um chamado às “senhoras” para que concorressem com trabalhos que fossem “dignos de ser expostos” tanto na Exposição da Indústria Nacional, quanto na Exposição Continental de Buenos Aires.[7]

O diretor da Academia de Belas Artes, Antonio Nicolau Tolentino (1810 – 1888), e o diretor da Escola Politécnica,  Inácio da Cunha Galvão (1921 – 1906), também foram convocados a colaborar com os eventos, encaminhando a produção de alunos e professores nas áreas de pintura, estatuária e das ciências. No mesmo sentido, correspondências foram encaminhadas aos dirigentes de instituições como o Museu Nacional, a Imperial Academia de Medicina, o Instituto da Ordem dos Advogados, a Imperial Sociedade Tipográfica Fluminense, dentre outras.

Em 1º de abril de 1882, foi inaugurada a seção brasileira na Exposição de Buenos Aires. No discurso de abertura, um dos membros da Comissão Nacional, Manoel Diego dos Santos, ressaltou que, diferente da participação em exposições anteriores, pautada pela exibição de suas riquezas naturais, naquela ocasião, o Brasil visava a exibir a sua indústria.[8]

Nessa direção, os registros do fotógrafo Samuel Boote (1844-1921)[9] sobre a participação brasileira são interessantes porque constituem uma espécie de síntese daquilo que os organizadores brasileiros – industriais – intentavam mostrar na Argentina, os modos como os produtos, máquinas e equipamentos, trabalhos manuais e fotografias foram expostos, mas, sobretudo, a memória que se desejou conformar. Embora não tenham sido localizados documentos acerca da contratação de Boote para a realização do trabalho, entende-se que ele foi comissionado para registrar as seções brasileiras, posto que organizou um álbum com 25 fotografias que foi entregue a autoridades brasileiras e estrangeiras; onze dessas imagens podem ser encontradas no Arquivo Nacional.[10] O primeiro aspecto que chama a atenção é o fato das fotografias terem sido produzidas, em sua maioria, sem os visitantes ou expositores. Do mesmo modo, não são registradas as autoridades brasileiras nem os representantes das empresas e instituições participantes. Uma exceção é a fotografia dos Jardins onde se acha a Coleção de Plantas de Lourenço Hoyer. Nela, homens em grupos ou sozinhos – apenas homens – posam portando a indumentária típica daquela época e dos sujeitos das camadas médias e altas: casaca, cartola, coletes, cores, em sua maioria, escuras, o indefectível relógio de bolso. Barbas e bigodes complementam o parecer masculino tido como elegante.

 

 

Se a exuberante natureza brasileira parece subsumida nas outras seções, face ao destaque dado à indústria, o jardim postado em frente ao quiosque de distribuição gratuita de café[11]  em estilo mourisco é, ao mesmo tempo, moldura, cenário para a entrada nas salas do evento e também prova de uma natureza domesticada. Não à toa, a organização desse espaço coube a Lourenço Hoyer, experiente horticultor, premiado em 1876, com a medalha de ouro, por suas plantas ornamentais em exposição realizada em Petrópolis no local que daria origem ao Palácio de Cristal.

 

 

Alguns outros espaços expositivos receberam vasos de plantas como o Troféu de cerâmica, com suas estatuetas, vasos, telhas, tijolos e um volume com o título de Bom Jardim.

 

 

A expectativa em torno daquilo que as indústrias brasileiras apresentariam, alimentada pela imprensa local, ganhou fôlego com o fato de o Brasil ter demorado a inaugurar sua participação. Com os itens em expostos, o periódico La Patria Argentina, por exemplo, ressaltava aqueles em ferro, madeira, além dos tecidos e produtos de higiene e farmacêuticos. Sabões, vidros com preparações e medicamentos ganharam destaque na imagem intitulada Vista do primeiro compartimento da esquerda. A qualidade das chamadas “elaborações químicas” brasileiras, como a Flora Brasileira, de Eugenio Marques de Holanda, aliás, mereceu a atenção dos jornalistas.[12]

 

 

Sobre a produção industrial, as imagens registram tanto uma miscelânea de produtos como deixa claro o título de Compartimento geral – Várias indústrias, na qual são vistos de ferros de passar roupa a ferraduras, até os espaços integralmente dedicados aos transportes e a uma empresa específica, como a Companhia de Carris Urbanos,[13] na legenda identificada como Companhia de Carros Urbanos.

 

 

 

O espaço concedido ao fumo, ao café e aos tecidos, evidencia alguns dos mais relevantes produtos nacionais. Sobre os tecidos, em especial, é importante lembrar que, naquele ano de 1882, existiam, no Brasil, cerca de 50 fábricas, produzindo 20 milhões de metros anualmente.  Apesar disso, soa quase como uma ironia, que o Brasil dedicasse um lugar especial aos tecidos de lã justamente no país que era o seu principal produtor na América do Sul, embora possuísse apenas uma fábrica de lanifícios, que, aliás, nem integrava o evento.

 

 

Conforme prometido pela direção da Associação Industrial, na Exposição Continental de Buenos Aires, montou-se também uma seção específica para os trabalhos de senhoras, na qual se viam, entre outros, almofadas bordadas, lenços e toalhas com monogramas, arranjos florais expostos em caixas, fotografias emolduradas. Os sentidos do que se entendia por “trabalhos de senhoras” pode ser depreendido no texto publicado no jornal O Industrial sobre a Exposição do Rio de Janeiro: o termo aparece associado a adjetivos como “mimo de delicadeza, perícia e bom gosto, como só os sabem ter as senhoras”; “são a delicadeza dando mão à força, a graça mesclando-se aos artefatos da indústria. Tal o seu direito de presença na nossa Exposição.”[14] O “direito de presença” dos artefatos produzidos e escolhidos pelas senhoras da boa sociedade, ao mesmo tempo em que evidenciava que o trabalho para essas mulheres era sinônimo de lazer, sempre associado às atividades manuais e às habilidades que delas se esperavam, deixava claro o papel desempenhado por esses produtos nas exposições: eram enfeites, uma espécie de respiro face à seriedade dos aparelhos, máquinas, produtos agrícolas e a tudo o que relacionava ao universo masculino. Da mesma forma, deixava invisíveis as mulheres que efetivamente trabalhavam, desde as empregadas nas indústrias de calçados e ateliês de modas até os contingentes maciços nas indústrias têxteis, aquelas que forneciam para as senhoras, os linhos e algodões a serem bordados e expostos.

 

 

A exposição se encerra com a concessão de 268 prêmios ao Brasil: 28 medalhas de ouro; 76 de prata; 94 de bronze; 70 menções honrosas: das fotografias registradas por Marc Ferrez e Guimarães às casacas da Imperial Alfaiataria Águia de Ouro; do Brasil Industrial, por seus tecidos de algodão ao Arsenal de Marinha da Corte pelos trabalhos de serraria; da cama de ferro da Casa de Correção aos fumos em pacotinhos de José Francisco Correa.

Como lembra Andermann, “frente às alegorias monumentais montadas nas exposições universais, nas quais Argentina e Brasil eram celebrados como depósitos exóticos de riqueza em um estado de disponibilidade pura e imaculada, as exposições nacionais inventaram uma linguagem material de revelações profanas que permitiam vislumbrar um modo de inserção diferente na emergente economia mundial capitalista.”[15] Nas palavras de Henrique Hargreaves, referindo-se à Exposição Continental de 1882, aquela era a “festa do progresso”, que colocava o Brasil num lugar de destaque na economia do continente e que, ainda segundo ele, valeu mais do que vinte anos de notas diplomáticas.[16]

 

*Maria do Carmo Rainho é Doutora em História (UFF) | Pesquisadora do Arquivo Nacional e do Museu Histórico Nacional

 

[1] TURAZZI, Maria Inez. Poses e trejeitos: a fotografia e as exposições na era do espetáculo (1839-1889). Rio de Janeiro: Funarte/Rocco, 1995, p. 37.

[2]  DUSSEL, Inés. The spetacle of schooling and the construction of the nation in Argentina´s participation in world exhibitions (1867-1889). In: Modelling the future: exhibitions and the materiality of education, Martin Lawn (ed.). Oxford: Symposium Books, 2009, p. 130.

[3] Esta exposição foi a segunda realizada na Argentina – antes dela, apenas a de Córdoba, em 1871 – e a quarta da América do Sul, após a mencionada de Córdoba, a de Lima (Peru, 1872) e a de Santiago (Chile, 1875).

[4] Demolido imediatamente após o término da Exposição, como era comum aos edifícios construídos para os eventos desta natureza.

[5] Conforme a Gazeta de Notícias, de 15 a 20 mil pessoas teriam participado do evento de abertura da exposição, circundando o Palácio da Exposição para assistir à parada militar. Gazeta de Notícias, 26 de março de 1882. Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=103730_02&pasta=ano%20188&pesq=Exposi%C3%A7%C3%A3o%20Continental Acesso em 14 de março de 2018.

[6] Jorge Henrique Leuzinger, filho do fotógrafo e editor George Leuzinger, na qualidade de secretário da Associação e organizador da exposição, chegou a trabalhar com recursos próprios para o sucesso da iniciativa. Uma de suas iniciativas foi a manutenção do jornal O Industrial, bancado pela Casa Leuzinger. TURAZZI, Maria Inez, op. cit., p. 149.

[7] Para a escolha destes itens foi constituída uma Comissão integrada pela condessa da Estrela, a baronesa de Canindé, Maria Amanda Paranaguá Dória, Maria Ambrosina da Mota Resende e Ana Machado Pena O Industrial, órgão da Associação Industrial, ano 1, nº 18, 15 de setembro de 1881. Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=308129&PagFis=33&Pesq=Exposi%C3%A7%C3%A3o%20Continental Acesso em 16 de março de 2018.

[8] Gazeta de Notícias, 10 de abril de 1882. Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=103730_02&pasta=ano%20188&pesq=Exposi%C3%A7%C3%A3o%20Continental Acesso em 12 de março de 2018.

[9] A escolha de Boote, aliás, merece atenção, pelo que ele viria a significar na história da fotografia na Argentina. Juntamente com seu irmão mais novo, Arturo (1861-1936), Samuel Boote (1844-1921) foi o proprietário do maior estúdio fotográfico de Buenos Aires e fez registros para álbuns e postais no período compreendido entre as últimas décadas do século XIX e o início do século XX. Seu trabalho era especialmente requerido por indústrias inglesas (do ramo das ferrovias) e agências governamentais. Ele foi também um dos maiores editores de álbuns fotográficos daquele país, com registros de paisagens, tipos e costumes, eventos, construção de estradas de ferro e investimentos em infraestrutura. Em 1884 Samuel Boote organizou o álbum fotográfico Vistas de Buenos Aires; entre 1885 e 1888, documentou as linhas férreas nas províncias de Santa Fé e Buenos Aires; posteriormente, em 1888, o Conselho Nacional de Educação contratou-o para registrar as escolas públicas recém-criadas em Buenos Aires com o objetivo de exibir as imagens em Paris, na Exposição Universal de 1889. Além do equipamento fotográfico, o ateliê de Boote possuía uma oficina de impressão onde eram produzidos os álbuns.

[10] Uma análise mais acurada do álbum deve levar em consideração, além dos elementos formais da produção das imagens, a escolha daquelas que o compõem e a hierarquia a que obedecem, em outras palavras, a ordem em que são apresentadas. Um estudo sobre a circulação mesma dessas imagens também se mostra fundamental. Contudo, as fotografias que se encontram no Arquivo Nacional não estão encadernadas, impossibilitando este tipo de abordagem.

[11] O Brasil era, então, o maior produtor mundial de café.  A iniciativa de oferecê-lo aos visitantes gratuitamente em um espaço especial teve início na Exposição de Buenos Aires e continuou nas exposições seguintes.

[12] Na edição de 4 de junho de 1882 a Gazeta de Notícias transcreve matéria de A Patria Argentina sobre  o farmacêutico que aponta quatro aspectos relevantes de sua seção na Exposição: a exibição de matérias primas do Brasil;  sua elaboração como indústria; sua aplicação à medicina e, a importação de um produto novo para aquele país. A empresa acabaria sendo agraciada com a Medalha de Honra pela exibição de seus produtos farmacêuticos no evento. Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=103730_02&pasta=ano%20188&pesq=Exposi%C3%A7%C3%A3o%20Continental Acesso em 16 de março de 2018.

[13] A Companhia ligava a área central do Rio de Janeiro aos terminais de barca e ferrovias, ponto de embarque e desembarque de mercadorias. Atuava mais no serviço de cargas do que no de passageiros. WEID, Elizabeth von der. O bonde como elemento de expansão urbana no Rio de Janeiro.  Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa. Disponível em http://www.casaruibarbosa.gov.br/dados/DOC/artigos/o-z/FCRB_ElisabethvonderWeid_Bonde_elemento_expansao_RiodeJaneiro.pdf  Acesso em 19 de março de 2018.

[14] O Industrial, órgão da Associação Industrial, ano 1, nº 31, 15 de dezembro de 1881. Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=308129&pasta=ano%20188&pesq=se%C3%A7%C3%A3o%20de%20trabalhos%20de%20senhoras  Acesso em 14 de março de 2018.

[15] ANDERMANN, Jens. Contienda de valores: Argentina y Brasil em la edad de las exposiciones. Cadernos de Literatura, Bogotá, nº 13, jul-dez., 2008, (190-224) p. 220.

[16] Discurso proferido por Hargreaves, membro da Associação Industrial em homenagem a Nicolau Avellaneda, presidente honorário da Exposição Continental de Buenos Aires, em evento realizado na mencionada Associação, no Rio de Janeiro, em 11 de agosto de 1882. Gazeta de Notícias, 12 de agosto de 1882. Disponível em  http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=103730_02&pasta=ano%20188&pesq=Exposi%C3%A7%C3%A3o%20Continental Acesso em 12 de março de 2018.

 

 Pequena cronologia da Exposição Continental de Buenos Aires

 

 

1881

Setembro – Transcrição de uma carta do naturalista e diretor do Museu Nacional do Brasil, Ladislau Neto (1838 – 1894), sobre a realização da Exposição Continental de Buenos Aires (Gazeta de Notícias, 13 de setembro de 1881, primeira coluna).

Uma comissão de senhoras brasileiras, dentre elas a baronesa de Loreto, Maria Amanda Paranaguá Dória (1849 – 1931), uma das maiores amigas da princesa Isabel (1846 – 1921), envolvem-se na organização da exposição (Gazeta de Notícias, 24 de setembro de 1881, primeira coluna).

Dezembro – Visando a escolher os produtos a serem exibidos em Buenos Aires, a Associação organizou uma exposição preparatória no edifício do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas. Para tanto, concedeu aos interessados das outras províncias o transporte gratuito do material bem como o espaço expositivo.

1882

Março – Notícia da inauguração da Exposição Continental de Buenos Aires, ocorrida em 15 de março. Na ocasião, discursaram o presidente da República, Julio Roca (1843 – 1914), e o presidente do Club Industrial, o ex-presidente da Argentina Nicolau Avellaneda (1837 – 1885). Foi decretado feriado nacional no país. A seção brasileira ainda não estava concluída (Gazeta de Notícias, 16 de março de 1882, quarta coluna, 26 de março de 1882, segunda coluna, 27 de março de 1882, última coluna, 29 de março de 1882 e 6 de abril de 1882, última coluna).

Abril – A seção brasileira foi inaugurada em 1º de abril. Manoel Diego dos Santos, presidente da comissão brasileira fez o discurso de abertura:

‘Os industriais do Brasil abrem as portas de sua seção que conservaram até hoje fechada por causas estranhas à sua vontade. Não encontrareis entre nossos produtos galas deslumbrantes, mas sim a expressão exata de nossa produção ordinária. Até agora o Brasil apareceu em todas as exposições ostentando suas riquezas naturais, hoje é a indústria brasileira que aparece com seus modestos produtos a submeter-se ao julgamento de seus irmão da América…’ (Gazeta de Notícias, 10 de abril de 1882, sexta coluna). O hino argentino foi tocado e o presidente da Exposição, sr. Urien, proferiu um discurso declarando aberta a seção brasileira e o hino brasileiro foi executado.

Houve um princípio de incêndio na seção brasileira (Gazeta de Notícias, 15 de abril de 1882, primeira coluna).

O presidente da comissão brasileira, Manoel Diego dos Santos, voltou ao Brasil (Gazeta de Notícias, 26 de abril de 1882, quinta coluna).

Foi noticiado que a indústria brasileira havia ficado em primeiro lugar na Exposição Continental de Buenos Aires (Revista Illustrada, abril de 1882).

Junho – Destaque na Casa Hollanda, de Eugênio Marques de Holanda, que exibiu matérias-primas do Brasil, sua elaboração industrial e sua aplicação à medicina (Gazeta de Notícias, 4 de junho d 1882, primeira coluna). Ganhou a medalha de honra (Gazeta de Notícias, 19 de julho de 1882, primeira coluna).

Julho – Notícia sobre os prêmios conquistados por estabelecimentos brasileiros: medalha de prata para a Tipografia Nacional e prêmios de honra para o sr. Braga, pelos seus chapéus; para o Laboratório Pirotécnico, para a Imperial Fábrica de Ipanema, para a Brazil Imperial, por seus tecidos de algodão; para o Arsenal de Marinha no Rio de Janeiro, para Guimarães por suas fotografias esmaltadas; e para a Repartição dos Telégrafos (Gazeta de Notícias, 10 de julho de 1882, segunda coluna). Foram anunciados mais prêmios para estabelecimentos brasileiros (Gazeta de Notícias, 15 de julho de 1882, sexta coluna20 de julho de 1882, sexta coluna23 de julho de 1882, primeira coluna).

Além do fotógrafo português José Ferreira Guimarães (1841 – 1924), foram premiados, segundo informações dada em anúncio, o retratista português Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912)  e Marc Ferrez (1843 – 1923). Este último participou com as fotografias apresentadas na Exposição da Indústria Nacional do ano anterior (1881) e foi agraciado com uma medalha de prata e com um prêmio ao mérito.

A Casa Leuzinger participou do evento.

Em 23 de julho de 1882, a Exposição Continental foi encerrada. Foi vista por cerca de 50 mil visitantes (Gazeta de Notícias, 24 de julho de 1882, segunda coluna). Ao Brasil foram concedidos 268 prêmios: 28 medalhas de ouro; 76 de prata; 94 de bronze; e 70 menções honrosas.

Em sinal de gratidão por seu empenho na realização da Exposição Continental, o cônsul do Brasil na capital argentina, João Adrião Chaves (18? – 1890), recebeu da comissão brasileira do evento, cujo presidente era José Pereira Rego Filho, um álbum com 25 fotografias das seções da mostra (Gazeta de Notícias, 13 de outubro de 1882, terceira coluna).

Henrique Leuzinger (1845 -1908), filho de Georges Leuzinger (1813 – 1892) e secretário da Associação Industrial, enviou à redação da Revista Illustrada, a coleção de fotografias da seção brasileira da exposição continental de Buenos Aires dentro de uma rica pasta (Revista Illustrada, julho de 1882),

 

Obs: Na Biblioteca Nacional, há o livro Exposição Continental de Buenos Aires 1882 – Seção Brasileira, com 24 fotografias de Samuel Boote (1844 – 1921).

 

samuel

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ANDERMANN, Jens. The History Show at the Continental Exhibition of 1882 and the National History Museum at Buenos Aires

El arcon de la historia argentina

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

TURAZZI, Maria Inez. Poses e trejeitos: a fotografia e as exposições na era do espetáculo: 1839/1889. Prefácio Pedro Karp Vasquez. Rio de Janeiro: Funarte. Rocco, 1995. 309 p., il. p&b. (Coleção Luz & Reflexão, 4). ISBN 85-85781-08-4.

Dia Nacional do Fotógrafo

A Brasiliana Fotográfica faz uma homenagem ao Dia Nacional do Fotógrafo, comemorado em 8 de janeiro, destacando mais uma vez uma imagem de d. Pedro II, o primeiro brasileiro a possuir um daguerreótipo e, provavelmente, o primeiro fotógrafo nascido no Brasil. O interesse do monarca foi decisivo para a divulgação e o desenvolvimento da fotografia no país. O retrato foi feito pelo fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923), cuja vasta e abrangente obra iconográfica se equipara a dos maiores nomes da fotografia do mundo. 

Menos  de um ano após o anúncio oficial da invenção da fotografia, em 19 de agosto de 1839, na França, d. Pedro adquiriu o equipamento, em março de 1840, cerca de três meses após o abade francês Louis Comte (1798 – 1868) ter lhe apresentado a novidade, no Rio de Janeiro – como se lê no Jornal do Commercio de 17 de janeiro de 1840, na primeira coluna, e de 20 de janeiro de 1840, na terceira coluna).

A realização dos primeiros daguerreótipos no Brasil aconteceu apenas 4 meses depois da produção do primeiro daguerreótipo feito nas Américas, até hoje conhecido. A imagem, de autoria de D.W. Seaver, retratou a igreja de São Paulo, em Nova York, em 16 de setembro de 1839. Foi exibida na drugstore do dr. James Chilton, situada na Broadway, 263. Pouco tempo depois, Samuel Morse (1791 – 1872), o inventor do telégrafo, e John William Draper (1811 – 1882), professor da Universidade de Nova York, produziram daguerreótipos da Igreja Unitária, em diferentes ocasiões, em Nova York. Todas essas imagens produzidas em Nova York estão desaparecidas, o que torna ainda mais importante a existência dos daguerreótipos pioneiros do Brasil.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

FERREZ, Gilberto; NAEF, Weston J.. Pioneer Photographers of Brazil, 1840-1920. New York: Center for Inter-American Relations, 1976.

VASQUEZ, Pedro Karp. Dom Pedro II e a fotografia no Brasil. Rio de Janeiro: Fundação Roberto Marinho, 1985.

O cientista Oswaldo Cruz (1872 – 1917), prefeito de Petrópolis

 

 

*Cristiane d’Avila com a colaboração de Ana Luce Girão

 

 

Em 2017, por ocasião do centenário de morte de Oswaldo Cruz (1872 – 1917), a Fiocruz instituiu o Ano Oswaldo Cruz, com o objetivo de divulgar para a sociedade a história do cientista e daquele que pode ser considerado seu maior legado: firmar uma instituição científica em um país recém-saído da escravidão, economicamente dependente e com profundas desigualdades sociais e regionais[1]. Para lembrar a data, contamos alguns detalhes sobre os últimos dias de vida de Oswaldo Cruz, que, mesmo gravemente doente, aceitou o desafio de realizar um projeto ambicioso: um extenso plano de urbanização e organização do serviço sanitário na cidade de Petrópolis, considerada refúgio de boa parte da elite do Rio de Janeiro, capital da República, no início do século XX.

Não era qualquer cidade. Quando o presidente do Estado do Rio de Janeiro, Nilo Peçanha (1867 – 1924), convidou Oswaldo Cruz para assumir a recém-criada prefeitura de Petrópolis, em 1916, dava a ele um cargo à altura do cientista. Residência de todo o corpo diplomático durante o ano e da elite política, financeira e intelectual da capital na estação calmosa, o verão – quando o presidente da República se deslocava do Rio para o pomposo Palácio Rio Negro –, Petrópolis vivia um momento político conturbado.

Na imprensa carioca e petropolitana os articulistas não se cansavam de denunciar a “politicagem”, atrelada ao maquinismo político-eleitoral, que impedia o progresso da “princesa do Piabanha”, entre as inúmeras alcunhas atribuídas à bela cidade serrana. Acusado de nada fazer pela população além de cobrar-lhe impostos, o grupo majoritário, organizado na Câmara Municipal, não via com bons olhos a decisão unilateral do governo fluminense, que impusera a criação da prefeitura e oferecera o cargo ao ilustre higienista.

Em contrapartida, Oswaldo Cruz, consagrado nacional e internacionalmente pela campanha empreendida contra a febre amarela, varíola e peste bubônica, iria somar à urbe, célebre pela beleza e salubridade, mais que o reconhecimento como destino privilegiado para o lazer da elite carioca. Escolhera-a como alvo de um novo e ambicioso projeto de trabalho, que incluía ações de saneamento, urbanização e educação pública.

Bastante debilitado pela nefrite que o acometera ainda jovem, o cientista decidiu acatar a recomendação do médico Salles Guerra e, mesmo contrariado, se afasta da dura rotina no Instituto Soroterápico Federal, nessa época já denominado Instituto Oswaldo Cruz. Nilo Peçanha o havia indicado para assumir a prefeitura de Petrópolis e o filho Bento (1895 – 1941) reforçava o coro, insistindo para que o pai se mudasse para a residência de veraneio da família na cidade, na rua Montecaseros, em busca do tão necessário repouso. Para não arrefecer os ânimos do cientista, ofereciam a ele não apenas o cargo político, mas uma nova frente de trabalho, um novo desafio, tão ao gosto de seu temperamento.

Imbuído da missão, Oswaldo, com o filho Bento e Salles Guerra, toma um barco a vapor no cais Pharoux, atual Praça XV, e em pouco mais de uma hora chega ao porto localizado no fundo da Baía de Guanabara. De lá embarca nos vagões da Estrada de Ferro Mauá, que conduziam os passageiros até a Raiz da Serra. Daquele ponto em diante, o trem subia a serra pelo moderno sistema de cremalheira até o lugar denominado Alto da Serra, onde atualmente fica a Rua Teresa.

O percurso completo, que no passado recente levava quatro horas, naquele ano já era percorrido em cerca de duas. Sem perder tempo, no dia 17 de agosto Cruz toma posse e, no dia 18, apresenta seu plano de ação para a prefeitura. Em carta ao colega Cândido Martins, chefe interino do executivo municipal que o convidara para o cargo, pede discrição e nenhuma pompa na ocasião da posse:

‘Meu ilustrado colega Dr. Candido Martins,

Aqui me acho à sua disposição pronto assumir o cargo de Prefeito. Se me fosse permitido esperar de sua gentileza um obsequio eu rogaria a meu simpático e generoso colega o favor especialíssimo de me dar posse da mais absoluta intimidade e sem a menor solenidade. Se for possível, hoje e nesse caso rogo o obsequio de comunicar ao portador deste – meu filho e nosso colega Bento Cruz – a hora em que deverei comparecer a Prefeitura para receber suas ordens. Estou certo que não me negará o solicitado aqui e aguardando ancioso (sic) sua resposta afirmativa peço aceitar os protestos da mais viva simpatia e distinta consideração do colega muito grato.

Ass. Gonçalves Cruz’

O articulista do jornal petropolitano Diário da Manhã, em edição de 6 de agosto de 1916, assim definiu a indicação de Cruz ao posto: “… para restituir a ordem e a moralidade administrativa, que de Petrópolis foram desgraçadamente expulsas… e arrancar a gestão dos negócios da municipalidade à faminta voracidade e à ingenuidade inepta de seus gestores”. Nomeado, Oswaldo Cruz apresenta seu amplo projeto, contendo 26 objetivos, com propostas de intervenção em inúmeras frentes, do embelezamento da cidade ao saneamento financeiro das contas públicas, da urbanização à gestão da saúde e da educação infantil.

As medidas propostas, no entanto, causaram imenso reboliço em parte da Câmara Municipal, que passou a organizar manifestações em frente à casa do prefeito, cujo estado de saúde se agravava progressivamente. Em janeiro, Oswaldo Cruz afasta-se por tempo indeterminado do trabalho, mas sua licença médica não atenua as manifestações. “Latas de querosene e gritos da ralé, que num ofertório de gentilezas de hienas excitadas vinha trazer ao ex-prefeito o testemunho do seu regozijo pela provável restituição do governo municipal à camarilha que o explorava”, relata o médico e contemporâneo de Cruz, Ezequiel Dias.

Após intenso processo de sofrimento causado pela moléstia, Oswaldo Cruz entra em coma, vindo a falecer no mesmo dia, em 11 de fevereiro de 1917, aos 44 anos, em sua casa de Petrópolis. Suas “Ideias e Projetos”, como definiu o plano para a gestão da cidade, não chegaram a sair do papel, ao menos exatamente como programou. São eles:

Ideias e Projetos

Petrópolis – 18 de agosto de 1916

- Encampação do Banco Construtor

- Encampação da Fazenda Imperial e resgate dos foros pelos proprietários

- Imposto (2$000 por metro) sobre terrenos devolutos

- Desenhista de jardins

- Preparo de gás pobre com lixo e produção de energia elétrica para os britadores e oficinas

- Aquisição e manutenção de condução para o Prefeito e Inspetor de Obras

- Rede de esgotos

- Substituição na prefeitura das carroças de tração animal por automóveis

 – Regulamentação e fiscalização da venda do leite

- Organização do serviço sanitário

- Barragem dos rios e revestimento do alvéo com seção ovoide – formação de quedas d´água em degraus

- Formação dum lago à feição do Bois em Serpentina

- Construção de um edifício de Diversões

- Bondes – linha circular Castelânea Alto da Serra

- Rosário

- Plantio de flores nas margens dos rios

- Organização do ensino primário

- Fiscalização do ensino de Português nas escolas estrangeiras

- Museu histórico do Império e Jardim Botânico no Palácio Imperial

- Parque para ginástica das escolas e educação física obrigatória para todos colégios

- Calçamento de macadame asfaltado e interlinha dos bondes a paralelepípedos

- Estatística da população e índice de analfabetismo

- Revisão do imposto predial

- Repressão da mendicância e criação de asilos para mendigos

- Matadouro e laboratório

 

Reprodução da carta enviada por Oswaldo Cruz ao sr. Cândido Martins, em 17 de agosto de 1916:

fiocruz

 

Saiba mais sobre Oswaldo Cruz acessando a Biblioteca Virtual Oswaldo Cruz.

 

* Cristiane  d’Avila é jornalista e Ana Luce Girão é historiadora do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz)

 

Fontes:

 

Casa de Oswaldo Cruz. Carta de Oswaldo Cruz para Cândido Martins. Dossiê BR RJCOC OC-PET-01, Fundo Oswaldo Cruz, 1916.

___________________. Diário da Manhã, Petrópolis, 6 de agosto de 1916. Dossiê BR RJCOC OC-PET-01, Fundo Oswaldo Cruz, 1916.

___________________. Ideias e projetos. Dossiê BR RJCOC OC-PET-01, Fundo Oswaldo Cruz, 1916.

D’AVILA. Cristiane. Fantasia na serra: representações de Petrópolis na mídia impressa. 2005. 120 f. Dissertação (Mestrado em Comunicação Social) – Departamento de Comunicação, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, PUC-RIO. Rio de Janeiro.

GUERRA, E. Salles. Oswaldo Cruz. Rio de Janeiro: Casa Editora Vecchi Limitada, 1940.

 

[1] Texto extraído do cartaz digital de divulgação da palestra “Ciência, saúde e projeto nacional: o legado de Oswaldo Cruz”, promovida e realizada em 9 de novembro de 2017 pela Fundação Casa de Rui Barbosa, pelo centenário de morte de Oswaldo Cruz.

 

Pequena cronologia de Oswaldo Cruz desde sua nomeação à prefeitura de Petrópolis até sua morte

1916

julho 

Oswaldo Cruz foi nomeado prefeito de Petrópolis por Nilo Peçanha. Foi pelo jornal O Paiz  como um homem de ciência em que a cultura brasileira se orgulha, saneador benemérito do Rio de Janeiro, criador de Manguinhos, membro da Academia Brasileira e uma das mais altas, complexas e belas figuras nacionais (O Paiz, 31 de julho de 1916, quinta coluna). No mesmo dia e no mesmo jornal, sua nomeação à prefeitura de Petrópolis foi o tema da coluna “Pall-Mall-Rio”, escrita por José Antônio José, o João do Rio (1881 – 1921) (O Paiz, 31 de julho de 1916, última coluna).

agosto

A nomeação de Oswaldo Cruz para a prefeitura de Petrópolis é elogiada e saudada em coluna semanal da revista O Malho como um ato que o povo recebe com um sorriso de satisfação, só por ver a cara com que ficam os inventores de negociatas e os politiqueiros contumazes (O Malho, 5 de agosto de 1916, segunda coluna).

Oswaldo Cruz esteve no gabinete do ministro da Justiça, Carlos Maximiliano Pereira dos Santos (1873 – 1960) (O Paiz, 2 de agosto, quinta coluna).

Oswaldo Cruz e o governador do Rio de Janeiro, Nilo Peçanha, estiveram em Petrópolis (O Paiz, 2 de agosto de 1916, última coluna).

Oswaldo Cruz telegrafou ao senador José Leopoldo de Bulhões Jardim (1856 – 1928) informando que não poderia tomar posse na prefeitura de Petrópolis em 8 de agosto por estar enfermo (O Paiz, 7 de agosto de 1916, última coluna). Foi o senador Bulhões que sucedeu Oswaldo Cruz na prefeitura de Petrópolis, em fevereiro do ano seguinte.

Devido ao impedimento de Oswaldo Cruz, o sr. Cândido José Ferreira Martins, na época vice-presidente da Câmara Municipal de Petrópolis, assumiu a prefeitura da cidade (O Paiz, 10 de agosto de 1916, terceira coluna).

Em nome de Venceslau Brás (1868 – 1966), presidente da República, Helio Lobo, secretário da presidência, fez uma visita a Oswaldo Cruz, que continuava doente (O Paiz, 11 de agosto de 1916, segunda coluna). No dia seguinte, Oswaldo Cruz recebeu a visita de Arthur Obino em nome do ministro da Justiça (O Paiz, 12 de agosto de 1916, segunda coluna). Quatro dias depois, Cruz visitou o ministro da Justiça em agradecimento à visita de Obino (O Paiz, 17 de agosto de 1916, primeira coluna).

Oswaldo Cruz foi eleito vice-presidente da recém criada Academia Brasileira de Ciências, presidida por Henrique Morize (1860 – 1930) (O Paiz, 17 de agosto de 1916, última coluna). O francês naturalizado brasileiro Henri Charles Morize ou Henrique Morize era engenheiro e astrônomo. Além de ter sido o primeiro presidente da Academia Brasileira de Ciências, de 1916 a 1926, , foi também diretor do Observatório Nacional entre 1908 e 1929. Em torno de 1897, realizou experiências cinematográficas com o fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923) e com Tasso Fragoso (1869 – 1945), na época aluno da Escola Militar e posteriormente general.

Foi publicada a notícia de que Oswaldo Cruz já estava completamente restabelecido da enfermidade que o acometera (O Paiz, 18 de agosto de 1916, quarta coluna).

Finalmente, em 18 de agosto, Oswaldo Cruz assumiu a prefeitura de Petrópolis. Cândido José Ferreira Martins expôs a ele a situação financeira do município e os trabalhos que havia executado. Foi então feito um balanço no cofre da tesouraria e um termo foi assinado por Oswaldo Cruz, Cândido Martins, Arthur Barbosa e por mais três funcionários. A posse de Oswaldo Cruz não se revestiu de solenidade como era desejo da maioria dos vereadores por ter o mesmo solicitado a mais absoluta intimidade em carta dirigida ao prefeito interino, Cândido Martins. Acompanhado por ele e por Arthur Barbosa, Cruz visitou todas as seções da administração municipal e depois telegrafou a Nilo Peçanha, informando ter assumido a prefeitura de Petrópolis. Foi apresentado a todo o funcionalismo da cidade pelo coronel José Land. Também recebeu vários telegramas, cartas e visitas pessoais (O Paiz, 20 de agosto de 1916, segunda coluna e Gazeta de Notícias, 20 de agosto de 1916, última coluna).

Oswaldo Cruz convocou o conselho de vereadores de Petrópolis para uma reunião extraordinária em 1º de setembro. Entre as medidas da convocação, encontram-se a criação do imposto de testada, autorização para contrair um empréstimo e para fazer operações de crédito(O Paiz, 26 de agosto de 1916, última coluna).

setembro

Oswaldo Cruz foi visitado pelos vereadores Cândido Martins e Arthur Barbosa ficando combinada a instalação do Conselho na próxima semana (O Paiz, 3 de setembro de 1916, segunda coluna).

Foi convocado para comparecer à primeira reunião do diretório central da Liga da Defesa Nacional. Ele era um dos 50 membros do diretório (O Paiz, 7 de setembro de 1916, quarta coluna). A Liga da Defesa Nacional foi fundada em 7 de setembro de 1916 por um grupo de intelectuais, dentre eles Rui Barbosa (1849 – 1923), Pedro Lessa (1859 – 1921) e Olavo Bilac I(1865 – 1918), que sintetizava a ação da associação como um apostolado de civismo e patriotismo.

Foi instalada a Câmara Municipal de Petrópolis convocada por Oswaldo Cruz. O sr. Roldão Barbosa, como secretário da sessão, leu a mensagem do prefeito, datada de 4 de setembro de 1916, abordando a contração de empréstimos, a criação de impostos e a execução de operações de crédito. O vereador Joaquim Moreira ocupou a tribuna e declarou que o Partido Municipal, que presidia, aceitou o ato do governo em criar a prefeitura de Petrópolis porque foi nomeado um homem superior para ocupá-la, Oswaldo Cruz. O vereador Sá Earp declarou-se contrário à criação da prefeitura de Petrópolis, cuja justificativa teria sido a restauração da estrada União e Indústria (O Paiz, 12 de setembro de 1916, primeira coluna).

Na coluna “Sorrisos e frivolidades”, da Revista da Semana, um veranista de Petrópolis mostrou-se entusiasmado com as propostas de mudanças feitas por Oswaldo Cruz para a cidade (Revista da Semana, 30 de setembro de 2016, primeira coluna).

outubro

Oswaldo Cruz foi receber os médicos Carlos Chagas (1879 – 1934) e Figueiredo Rodrigues, delegados do Brasil no Congresso Médico e na Conferência de Microbiologia e Parasitologia realizadas em Buenos Aires, que chegaram ao Rio de Janeiro a bordo do paquete “Voltaire” (O Paiz, 11 de outubro de 1916, segunda coluna).

Ocupando um lugar de honra, Oswaldo Cruz participou do banquete oferecido pela classe médica a Carlos Chagas  (1879 – 1934), no Salão Assyrius do Teatro Municipal do Rio de Janeiro (O Paiz, 22 de outubro de 1916, primeira coluna).

novembro

Foi noticiado que Oswaldo Cruz iria à festa em benefício da Associação da Mulher Brasileira, realizada no Teatro Municipal (O Paiz, 2 de novembro de 1916, segunda coluna).

Na Câmara Municipal de Petrópolis, Oswaldo Cruz leu uma mensagem sobre a proposta de orçamento para o ano de 1917 acompanhada de ligeira exposição sobre o estado de diversos serviços (Jornal do Commercio, 17 de novembro de 1916, sexta coluna).

Presidiu o banquete oferecido ao cientista Arthur Neiva (1880 – 1943), no Salão Assyrius do Teatro Municipal do Rio de Janeiro (Gazeta de Notícias, 19 de novembro de 1916, sexta coluna). A revista Fon-Fon, de 2 de dezembro de 1916, publicou uma fotografia do evento.

Por falta de quórum não houve sessão na Câmara Municipal de Petrópolis, mas as comissões de Fazenda e Justiça se reuniram e discutiram os assuntos abordados na mensagem do prefeito Oswaldo Cruz. Participaram dos debates Sá Earp, Arthur Barbosa, Modesto Guimarães e Domingos Nogueira. Pediram mais informações ao prefeito. Dentre algumas decisões, resolveram negar a criação do imposto de testada (O Paiz, 19 de novembro de 1916, segunda coluna).

 

 

Por proposta do professor Miguel Couto (1865 – 1934), presidente da Academia Nacional de Medicina, foi criada uma comissão para estudar medidas profiláticas no combate de algumas doenças e Oswaldo Cruz foi um dos nomeados para integrar o grupo, Os outros integrantes seriam Afrânio Peixoto (1876 – 1947), Carlos Chagas (1879 – 1934), Carlos Seidl (1867 – 1929) e Miguel Pereira (1871 – 1918) (Jornal do Commercio, 1º de dezembro de 1916, quinta coluna).

Oswaldo Cruz sancionou e promulgou a Deliberação nº 6 sobre averbação de prédios e transferências de comerciais e industriais em Petrópolis (Jornal do Commercio, 12 de dezembro de 1916, penúltima coluna).

 

 

De acordo com o prefeito Oswaldo Cruz, seria levantado um monumento em homenagem ao fundador da cidade de Petrópolis, Julio Frederico Koeler (1804 – 1847), na Praça da Liberdade. Informou, também, que brevemente seria lançada a pedra fundamental do monumento (Gazeta de Notícias, 19 de dezembro de 1916, última coluna).

 

1917 

janeiro

Oswaldo Cruz agradeceu ao governo do estado do Rio de Janeiro o material e o serviço do Corpo de Bombeiro com que a administração fluminense acaba de dotar Petrópolis (A Época, 6 de janeiro de 1917, terceira coluna).

Foi noticiado um boato sobre o estado de saúde e a iminente saída de Oswaldo Cruz da prefeitura de Petrópolis (A Época, 25 de janeiro de 1917, terceira coluna).

Oswaldo Cruz está doente. Tasso Fragoso (1869 – 1945), chefe da Casa Militar da Presidência foi visitá-lo a mando do presidente da República, Venceslau Brás (O Paiz, 27 de janeiro de 1917, quinta coluna). E João Pedroso de Albuquerque, secretário do Dr. Cruz foi visitar o presidente, no Palácio do Rio Negro, em Petrópolis (A Época, 27 de janeiro de 1917, terceira coluna).

Em 31 de janeiro, devido a seu estado de saúde, Oswaldo Cruz solicitou uma licença da prefeitura de Petrópolis  ao governo do Rio de Janeiro. Foi deferida. Segundo consta, o Dr, Oswaldo Cruz fará uma viagem, a fim de iniciar um rigoroso tratamento de sua saúde profundamente abalada (O Paiz, 1º de fevereiro de 1917, quarta coluna).

fevereiro

O senador Leopoldo de Bulhões (1856 – 1928) assumiu a prefeitura de Petrópolis (O Paiz, 2 de fevereiro de 1917, quarta coluna).

Foi noticiada uma piora no estado de saúde de Oswaldo Cruz (O Paiz, 7 de fevereiro de 1917, sexta coluna). Outras notícias sobre a doença de Oswaldo Cruz foram publicadas (A Época, 7 de fevereiro de 1917, quinta coluna da primeira página e segunda coluna da página 4).

Aos 44 anos, Oswaldo Cruz faleceu de nefrite, em Petrópolis. O Brasil não pode aquilatar devidamente o infortúnio que é para a Nação, para a América e para a humanidade inteira a morte do grande sábio Oswaldo Cruz (O Paiz, 12 de fevereiro de 1917). Na edição de A Época, também do dia 12 de fevereiro, ele foi saudado como um facho de farol, que rasga a escuridão da noite. E fulgiu. Iluminou logo.

 

 

Segundo a Revista da Semana, tanto a guerra, que priva o corpo diplomático de associar-se às festas, como a morte recente do Dr. Oswaldo Cruz, prefeito de Petrópolis, contribuem para que decline a animação do carnaval (Revista da Semana, 17 de fevereiro de 1917).

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

A fundação de Niterói

 

A Brasiliana Fotográfica destaca 23 imagens para celebrar o aniversário de Niterói, cidade do estado do Rio de Janeiro, fundada em 22 de novembro de 1573. São registros produzidos pelos fotógrafos Antônio Caetano da Costa Ribeiro (18? – 19?), Augusto Stahl (1828 – 1877)Georges Leuzinger (1813 – 1892)Jorge Kfuri (1893 – 1965)Juan Gutierrez (c. 1860 – 1897)Marc Ferrez (1843 – 1923) e S.H. Holland (? – 19?). Niterói foi a capital do estado do Rio de Janeiro de 1834 até 1975, quando aconteceu a fusão dos estados do Rio e da Guanabara.

 

 

Acessando o link para as fotografias de Niterói disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

 

O pintor Antonio Parreiras (1860 – 1937), que nasceu e faleceu em Niterói, foi tema de uma publicação da Brasiliana Fotográfica, em 17 de outubro de 2015. 

 

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

A Pedra da Gávea

 

Um dos cartões-postais mais bonitos do Rio de Janeiro, a Pedra da Gávea fica localizada entre as praias de São Conrado e da Barra da Tijuca. Sua beleza não passou despercebida pelos fotógrafos do século XIX. A Brasiliana Fotográfica destaca os registros da Pedra da Gávea produzidos por Augusto Malta (1864 – 1957), Georges Leuzinger (1813 – 1892), José Baptista Ferreira Vianna (1860 – 1925) e Marc Ferrez (1843 – 1923).

 

 

Acessando o link para as fotografias da Pedra da Gávea disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

De acordo com o portal Serviço Geológico do Brasilo rochedo tem esse nome porque visto de longe lembra a gávea das caravelas ou galeões antigos. A gávea é uma plataforma no alto de um grande mastro que permitia a um marinheiro observar à distância. Ao contrário do que acontece em quase todas as elevações do Rio de Janeiro, a Pedra da Gávea apresenta um topo plano em lugar das formas de pirâmides, morros arredondados e picos roliços e aguçados do tipo pão-de-açúcar comuns na paisagem do Rio…Tais rochas foram formadas no mínimo há 500 milhões de anos e, posteriormente deformadas por falhas e dobras no interior da crosta terrestre. Depois de um constante e incansável trabalho de erosão na crosta é que esse maciço aflorou na superfície.

 

 

A Pedra da Gávea tem 844 metros de altura, integra o Maciço da Tijuca e é formada por dois tipos de rocha: gnaisse e granito.

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Aquedutos do Rio de Janeiro

 

 

Com uma seleção de fotografias produzidas por Augusto Malta (1864 – 1957)Georges Leuzinger (1813 – 1892)Marc Ferrez (1843 – 1923)Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886) e por Editores & propriedade de Rodrigues & Co, a Brasiliana Fotográfica destaca imagens de aquedutos pertencentes aos acervos do Arquivo Nacional, do Instituto Moreira Salles, da Leibniz-Institut für Länderkunde e da Fundação Biblioteca Nacional, que integram o portal.

O Aqueduto da Carioca, construído no século XVIII e também conhecido como Arcos da Lapa, é um símbolo do Rio de Janeiro antigo e um dos cartões postais da cidade.

 

 

Acessando o link para as fotografias de aquedutos disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Há também, além de registros de outros aquedutos do Rio de Janeiro, imagens daqueles que foram construídos durante a realização de obras de abastecimento de água, ocorridas entre 1877 e a década de 1880, e que foram documentadas pelo fotógrafo Marc Ferrez.

 

 

 

 

 

No primeiro dia da primavera, as cores de Marc Ferrez (1843 – 1923)

 

O fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923) iniciou suas experiências com fotografia colorida, em 1912, utilizando as placas autocromos Lumière, primeiro processo industrializado para esse fim, lançado comercialmente pela fábrica francesa, em 1907. Dedicou-se à fotografia estereoscópica em cores e as primeiras imagens coloridas realizadas nesse período são diferentes das fotografias panorâmicas e de grandes obras públicas, produzidas por ele no século XIX e na primeira década do século XX. São imagens do interior de sua casa e de sua intimidade familiar, onde aparecem sua mulher Marie (c. 1849 – 1914), seu filho Julio (1881 – 1946), sua nora Claire e seus dois netos, Gilberto e Eduardo. Nesse momento, Ferrez também refez, em cores, algumas das fotografias de paisagens, edificações e monumentos que se tornaram clássicas em preto e branco, como a Pedra de Itapuca, vistas do Jardim Botânico, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro , o Palácio Monroe e a Pedra da Gávea, dentre outras.

 

 

Pouco menos de um ano após a morte de sua esposa Marie, em 28 de junho de 1914, Ferrez foi, em abril de 1915, para a Europa. Em Paris, estava, segundo sua correspondência com seus filhos, entusiasmado e distraindo-se com a realização de fotografias coloridas. Já em 1917, referindo-se ao prenúncio do inverno ainda em setembro, ele emitiu em uma carta a seus filhos um dos poucos comentários sobre sua atividade fotográfica na época: “adeus às fotografias coloridas”.

Acessando o link para as fotografias coloridas produzidas por Marc Ferrez disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Ferrez voltou ao Brasil, em fevereiro de 1920, e pouco depois de um ano, em maio de 1921, partiu do Rio de Janeiro, rumo à França, onde permaneceu até agosto de 1922. Em Paris, instalou-se no Hotel Brebant. Em correspondência com Malia, casada com seu filho Luciano Ferrez (1884 – 1955), Marc contou que havia produzido belas fotografias de flores, em sua visita ao roseiral do Parque de La Bagatelle, no Bois de Boulogne, local que frequentava enquanto Luciano e Malia estavam com ele em Paris, em 1919.

 

 

São alguns desses registros em cores produzidos no Rio de Janeiro e na Europa, que a Brasiliana Fotográfica destaca para celebrar com as cores de Ferrez a chegada da primavera, que se inicia hoje às 17h02 e termina em 21 de dezembro de 2017, às 13h28.

 

 

 Pequeno perfil de Marc Ferrez

 

 

Marc Ferrez  foi um brilhante cronista visual das paisagens e dos costumes cariocas da segunda metade do século XIX e do início do século XX. Sua vasta e abrangente obra iconográfica se equipara a dos maiores nomes da fotografia do mundo. Estabeleceu-se como fotógrafo com a firma Marc Ferrez & Cia, em 1867, na rua São José, nº 96, e logo se tornou o mais importante profissional da área no Rio de Janeiro. Cerca de metade da produção fotográfica de Ferrez foi realizada na cidade e em seus arredores, onde registrou, além do patrimônio construído, a exuberância das paisagens naturais.

Ferrez nasceu em 7 de dezembro de 1843, no Rio de Janeiro, cidade onde também faleceu, em 12 de janeiro de 1923. Foi o sexto e último filho de Zépherin (Zeferino) Ferrez (31/07/1797 – 22/07/1851) e Alexandrine Caroline Chevalier (? – 1851). Seu pai, o escultor e gravador francês Zeferino, e seu tio Marc (Marcos) Ferrez (14/09/1788 – 31/03/1850), também escultor, chegaram ao Rio de Janeiro, via Nova York, conforme informado nos livros da polícia de Registros Estrangeiros guardados no Arquivo Nacional. Eram formados pela Escola de Belas Artes de Paris e passaram a integrar a Missão Francesa, um dos marcos do desenvolvimento das artes no Brasil, que havia se instalado na cidade em 1816, chefiada por Joachim Le Breton (1760 – 1819).

 

Acessando o link para as fotografias de Marc Ferrez disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

Links para posts sobre Marc Ferrez já publicados pela Brasiliana Fotográfica:

Do natural ao construído: O Rio de Janeiro na fotografia de Marc Ferrez

Obras para o abastecimento de água no Rio de Janeiro de Marc Ferrez

O brilhante cronista visual Marc Ferrez ( RJ, 07/12/1843 – RJ, 12/01/1923)

O Rio de Janeiro de Marc Ferrez

 

Colaboraram nessa pesquisa Ileana Pradilla Ceron e Mariana Newlands, ambas da equipe do Instituto Moreira Salles.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Data Magna da Marinha do Brasil

Batalha Naval do Riachuelo – A Data Magna da Marinha do Brasil

Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha

A Batalha Naval do Riachuelo, ocorrida em 11 de junho de 1865, assinalou um momento capital na Guerra da Tríplice Aliança contra o Governo do Paraguai (1864-1870), o maior conflito entre Estados ocorrido na América. O controle dos rios Paraná e Paraguai, conquistado após a vitória sobre a Marinha paraguaia em Riachuelo, inviabilizou a ofensiva adversária sobre os territórios brasileiro e argentino, e também impediu que o Governo de Solano López ( 1827 – 1870) recebesse armamentos comprados no exterior.

Desde o início do conflito, com a invasão do Mato Grosso pelo Exército paraguaio, em dezembro de 1864, o Brasil e a Argentina sofriam seguidas derrotas no campo de batalha. O território de ambas as Nações foi invadido e algumas de suas cidades fronteiriças foram pilhadas pelas tropas adversárias, como Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, e Corrientes, na Argentina. A vitória brasileira na Batalha Naval do Riachuelo foi o primeiro triunfo aliado em quase sete meses de confronto e provocou uma grande onda de entusiasmo na população dos centros urbanos do País, antes apreensiva com os rumos da guerra.

O êxito da Força Naval, comandada pelo Chefe de Divisão Francisco Manoel Barroso da Silva (1804 – 1882), alcançado a quase 1.700 quilômetros da Capital do Império, continuou a ser celebrado nos anos posteriores à Guerra e deixou marcas profundas nas tradições da Marinha do Brasil. Tradições que não apenas cultuam a vitória através da figura do Almirante Barroso, mas os que tombaram em combate. Mesmo que muitos tenham perecido no bombardeio mútuo entre navios, foi na luta corpo a corpo que tomou conta do convés da Corveta brasileira Parnaíba, quando abordada por tripulações de três navios paraguaios, que emergiram os heróis que permanecem sendo celebrados pelos nossos marinheiros após um século e meio: o Guarda-Marinha João Guilherme Greenhalgh (1845 – 1865) e o Marinheiro de 1ª Classe Marcílio Dias (1838 – 1865).

 

 

Na imagem acima, registrada em 1917, ano que o Brasil entrava na Grande Guerra (1914-1918), a primeira guerra externa que o país se envolvia desde a travada no Paraguai, se vê uma das salas de aula da Escola de Aprendizes-Marinheiros do Ceará, instituição dedicada à formação militar dos novos tripulantes dos navios de guerra da Marinha do Brasil. O espaço, nomeado “Salão Riachuelo”, foi todo dedicado à celebração da Batalha. Na parede à direita dos alunos foram destacados os nove navios brasileiros que combateram naquele 11 de junho de 1865, expondo sua organização tática em duas divisões e o nome de cada um dos seus comandantes. À frente, onde todos os olhos se fixam, coroa o tablado designado ao professor o retrato do Almirante Barroso, ladeado pelas bandeiras do Regimento de Sinais que representaram os chamamentos daquele líder às tripulações durante os períodos mais adversos da Batalha: “Sustentar o fogo que a vitória é nossa” e “O Brasil espera que cada um cumpra o seu dever”. Encerrando aquela composição, à esquerda dos alunos há o retrato do Guarda-Marinha Greenhalgh e à direita o do Marinheiro Marcílio Dias, expostos como exemplos a serem perseguidos por aqueles jovens na busca por se tornarem combatentes na Marinha do Brasil.

Acessando o link para as fotografias do acervo da Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

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As fotografias do acervo da DPHDM disponibilizadas no portal são de autoria de Boute, H&J Tourte Éditeurs, Jorge Kfuri (1892/3 – 1965), um dos primeiros especialistas na fotografia aérea; Marc Ferrez (1843 – 1923) e de fotógrafos ainda não identificados. São imagens da visita do rei Alberto I da Bélgica ao Brasil em 1920, da Escola de Aprendizes Marinheiros do Ceará, do navio-escola Benjamin Constant, do cruzador Tamandaré e fotografias aéreas do Rio de Janeiro, além de outras.

 

 

Do natural ao construído: O Rio de Janeiro na fotografia de Marc Ferrez

A Brasiliana Fotográfica publica o texto Do natural ao construído: O Rio de Janeiro na fotografia de Marc Ferrez, de Sérgio Burgi, curador do portal e coordenador da área de Fotografia do Instituto Moreira Salles, publicado originariamente no livro Marc Ferrez – Rio, editado pelo IMS e pela Steidl, em 2015.  Conta um pouco da história da fotografia no Brasil do século XIX, ressaltando a importância de Ferrez na construção da representação visual do Rio de Janeiro.

Sergio Burgi*

Sua estranheza, seu surrealismo, seu onirismo – aos nossos olhos atuais – são resultado de um cuidado extremo de preparação e estruturação da imagem… O registro direto de certos aspectos da realidade pode nos conquistar com muito mais força do que a ficção. Com Ferrez, nós nos deslocamos para aquele momento. Ele procura nos encantar. Ele constrói para o mundo um Brasil do mito, um Brasil da vertigem. Assim é formada essa documentação-ficção que até hoje nos fascina. Ele abre o diafragma da câmera para captar uma fantasia, um sonho de Brasil.

Laurent Gervereau 1

Acessando o link para as fotografias de Marc Ferrez disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

A paisagem é uma marca indelével na história e na representação do Rio de Janeiro. Desde os primeiros relatos sobre a baía de Guanabara, a iconicidade de sua geografia já se fazia presente. Artistas viajantes do século 18 e início do 19 retrataram em desenhos, pinturas e gravuras sua singular localização, incrustada entre o mar e as montanhas, que molda a cidade desde a sua fundação, em 1º de março de 1565.

Os primeiros registros fotográficos feitos do Rio, logo no começo de 1840, são vistas urbanas do Paço Imperial, do Chafariz do Mestre Valentim, na atual Praça xv, e do mosteiro de São Bento, sobre o morro de mesmo nome que se projeta sobre as águas da baía. Todas são tomadas de um pavimento elevado do antigo Hotel Pharoux, na Praça xv. Até essa época, ainda não tinham sido explorados os diversos pontos de vista naturais oferecidos pela própria geografia da cidade, que seriam a marca de toda a documentação fotográfica posterior do Rio de Janeiro. Mesmo assim, essas primeiras imagens já indicam os caminhos que a representação fotográfica da cidade percorreria daí em diante, buscando o registro simultâneo do natural e do construído.

Fotógrafos como Revert Henry Klumb, Victor Frond, Augusto Stahl e Georges Leuzinger produziram entre 1856 e 1875 uma extensa documentação do Rio de Janeiro e de sua paisagem. Marc Ferrez, que iniciou suas atividades profissionais em 1867, interagiu com todos eles e, a partir de 1875, passa a ser o principal fotógrafo do Rio de Janeiro, realizando uma obra única de registro da paisagem urbana e natural da então capital do país.

O Rio de Janeiro do século 19, além de capital política, econômica e cultural do Império, foi também a capital da fotografia. Do ponto de vista quantitativo, esse fenômeno pode ser nitidamente percebido pelo “mapeamento preliminar” elaborado pelo historiador Boris Kossoy sobre as firmas fotográficas que existiam na cidade no período.
Em seu Dicionário histórico-fotográfico brasileiro, editado pelo Instituto Moreira Salles, o pesquisador afirma que “durante o século 19, concentrava-se no Rio de Janeiro o maior número de estabelecimentos. Era, pois, o mais importante centro para a atividade fotográfica no país”.2 Mas a força da fotografia no Rio se expressava ainda na qualidade com que essa atividade era desenvolvida.

Como no resto do mundo, também no Brasil os fotógrafos profissionais operavam suas câmeras em estabelecimentos fixos nas grandes cidades e em ateliês improvisados e ambulantes no interior, sobretudo os retratistas – aliás, o uso mais frequente da fotografia das primeiras décadas foi o de fixar a imagem do homem, não a de vistas ou paisagens. Nos primeiros anos após a apresentação da daguerreotipia, os processos fotográficos se modernizaram com rapidez. O avanço tecnológico, o desenvolvimento de novos processos, com destaque para o negativo-positivo, em poucos anos tornaram obsoleta aquela técnica primeira. Lentes e substâncias químicas fotossensíveis mais eficientes propiciaram uma expressiva melhora do resultado fotográfico. A partir de 1851, à medida que o mercado e o acesso a informações técnicas se expandiam, a obtenção de um negativo de colódio úmido de qualidade para a produção de múltiplas impressões em papel albuminado – processo mais comum na segunda metade do século 19 – foi ficando, aos poucos, menos complexa e mais barata.

Em Paris, com os chamados carte-de-visite, André Adolphe-Eugène Disdéri gerou uma verdadeira febre de retratos. Em vários países, nos anos de 1860, abriram-se estúdios que os produziam em formato carte-de-visite, cabinet e outros, cada vez com menos custo e mais qualidade.

Sem dúvida desde a invenção da daguerreotipia, embora em quantidade muito menor, houve também fotógrafos dedicados a paisagens. As chamadas “vistas” ou “panoramas” eram desafios extremamente atraentes e interessantes para muitos pioneiros, que trabalhavam como os pintores paisagistas antes do advento da fotografia. Existiam muito menos paisagistas que retratistas em parte devido às dificuldades de se trabalhar fora do ateliê, em parte devido à pouca demanda desse tipo de imagem. Se na década de 1860 – apesar das oscilações evidenciadas pelas frequentes mudanças de endereços e associações entre profissionais – a profissão de retratista já formava um mercado, foi somente mais tarde, entre 1870 e 1880, que os especialistas em paisagens passaram a viver de seu ofício. E foi Marc Ferrez o precursor e principal fotógrafo a se dedicar a esse campo da fotografia no Brasil.

Quase metade da produção fotográfica de Ferrez foi realizada na cidade do Rio de Janeiro e seu entorno. A outra parte registra as regiões do Brasil que ele regularmente percorreu em seus diversos trabalhos comissionados, tanto como fotógrafo da Comissão Geológica do Império, em meados dos anos 1870, quanto como fotógrafo das construções ferroviárias no Brasil, especialmente entre 1880 e 1890, quando produziu um grande panorama da paisagem brasileira de sua época. Em suas fotografias do Rio de Janeiro, além do espaço construído, registra a exuberância da natureza que a envolve.

Sempre atento às inovações tecnológicas, Marc Ferrez aumentou suas possibilidades de fotografar paisagem com a câmera Brandon, equipamento de fotografia panorâmica de varredura, sendo o único fotógrafo da década de 1880 a fazer esse tipo de registro em grande formato no Brasil, que o levou mais tarde a suas magistrais fotografias de arquitetura produzidas durante a construção da avenida Central no Rio de Janeiro e também a seu envolvimento com a introdução do cinema e da fotografia estereoscópica em cores no Brasil no início do século 20.

Ferrez foi o único fotógrafo no século 19 a percorrer todas as regiões do território nacional e isso o ajudou a se tornar, já em meados dos anos 1870, o principal responsável, em seu século, pela divulgação da imagem do Brasil no exterior, participando de exposições internacionais, publicando imagens em diversas revistas e almanaques do período e por meio da intensa e constante produção e comercialização de imagens do Brasil no seu estabelecimento, na capital do Império.

Ferrez inaugurou seu ateliê durante a Guerra do Paraguai, em 1867, sob o nome Marc Ferrez & Cia., fato confirmado pela pesquisa feita por Maria Inez Turazzi no Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro:

“A Casa Marc Ferrez & Cia. envia requerimento à Câmara Municipal da cidade do Rio de Janeiro, no dia 12 de março [de 1867], solicitando licença para funcionar à rua de São José, 96, bem como o registro de efetuação do pagamento do imposto de indústria e comércio vigente”.3

O primeiro anúncio da loja foi divulgado na edição de 1868 do Almanak Laemmert,4 na seção “Photographos”, à página 671. Ele informava o público da Corte sobre o início do funcionamento, à rua de São José, 96, do empreendimento “Marcos Ferrez & C.”, usando a forma aportuguesada do seu nome e indicando sua associação a outros profissionais. Instalou-se no mesmo endereço onde os fotógrafos Robin & Klumb e Oscar Delaporte tinham se estabelecido no ano anterior, aproveitando a infraestrutura de um ateliê e do laboratório fotográfico, fato comum nas sucessões comerciais fotográficas no século 19. Outra explicação para isso é que Ferrez iniciou sua carreira numa provável associação com Klumb e sob influência de outros fotógrafos paisagistas do período, trabalhando como fotógrafo na capital do Império antes mesmo de 1867.

A hipótese é reforçada pelos carimbos e impressos de Ferrez no período que sucedeu seu primeiro anúncio no Almanak Laemmert. Os cartes-de-visite da época em que ele utilizou a inscrição “Marc Ferrez & Cia.” eram impressos no verso exatamente com o mesmo “Photographia Brazileira” usado por Robin & Klumb. Quando a inscrição na face do carte-de-visite passou a ser apenas “Marc Ferrez”, incluiu-se no verso o nome do fotógrafo, e o termo “Photographia Brazileira” passou a ocupar um espaço menor. Mais tarde, possivelmente a partir de 1872, esse termo deixou de aparecer e os cartões foram graficamente reformulados por completo.

Em um anúncio5 no Jornal do Comércio de 1869, Ferrez ainda usou o “Photographia Brazileira”. Em inglês, ele oferece fotografias de paisagem do Rio de Janeiro e arredores e variados serviços de fotografia: “specialty of views of Rio and surroundings of all dimensions. Views taken of chacras [sic], ships, monuments, etc., etc. of all sizes at resoable [sic] rates”. Em 1881, Marc Ferrez publicou um pequeno catálogo intitulado Exposição de paisagens photographicas. Productos do artista brasileiro Marc Ferrez, photographo da Marinha Imperial e da Comissão Geologica em que declara: “Este estabelecimento dedicado especialmente a fazer vistas do Brazil foi fundado em 1860” – provavelmente se referindo ao empreendimento “Photographia Brazileira”, cujo início foi justamente nessa década.

Revert Henry Klumb, procedente da Europa, chegou provavelmente ao Brasil em 1852, estabelecendo-se no Rio de Janeiro. Nos dias 2 e 3 de novembro de 1855, publicou o seguinte anúncio na página 4 do Jornal do Comércio:

“O sr. Henrique Klumb, discípulo dos melhores professores de Paris (Mayer, Disderé [sic] e Belloc), dono deste magnífico estabelecimento, o primeiro deste gênero no Brasil, tem a honra de avisar aos amantes das bellas artes e ao respeitável público que domingo, 4 do corrente, abrirá a sua galeria de exposição, onde se poderá julgar o alto ponto de perfeição a que tem levado este insigne professor a arte do daguerreótipo”.

Além da daguerreotipia, Klumb tinha trabalhado, já em 1856, com negativos de colódio úmido, produzindo retratos, vistas e vistas estereoscópicas sobre papel salinizado e albuminado. Em 1866 transferiu-se para Petrópolis, onde fez um excepcional trabalho de fotografia de paisagem, exposto naquela cidade em 1875. Dois aspectos devem ser ressaltados nessa série de imagens de Petrópolis: os registros dos céus e nuvens e as fotografias que sugerem registros noturnos. O desafio de Klumb, em ambas as situações, é antes de tudo a luz e seu pleno domínio. Considerando que ele tenha trabalhado no período em que os fotógrafos preparavam cada chapa de vidro de colódio úmido, os resultados são excepcionais.

Os originais dessa série em albumina fotografada em Petrópolis e muitos de seus negativos hoje fazem parte do acervo do Instituto Moreira Salles. Esse conjunto representa uma das mais importantes descobertas da fotografia brasileira do século 19. Os negativos deixam claro que o registro da área de céu nessas imagens foi obtido diretamente e evidenciam o elaborado trabalho de Klumb para controlar a exposição à luz e para formular suas emulsões de colódio, que lhe permitiram fotografar as nuvens simultaneamente à paisagem.

Os negativos de Klumb integram o conjunto de negativos de Marc Ferrez pertencentes à Coleção Gilberto Ferrez/Acervo IMS, mais um fato que reforça a hipótese de que os dois fotógrafos tenham trabalhado juntos já em meados da década de 1860, sem contar a existência de pelo menos três negativos de Klumb cujo retratado muito possivelmente seja o próprio Marc Ferrez. O estudo do trabalho de Klumb feito no início da década de 1870 em Petrópolis permite também uma comparação direta com a obra de Marc Ferrez do mesmo período. Em 1875, Ferrez produziu paisagens do Brasil para a Comissão Geológica do Império com uma abordagem semelhante, registrando o rio São Francisco, a cachoeira de Paulo Afonso e o Recife em imagens com uma importante presença de céus e nuvens. O exame comparativo dos negativos originais de Klumb e Ferrez desse período revela semelhanças de procedimentos e de técnica que permitem supor que os dois fotógrafos mantiveram parceria por mais ou menos uma década (1865 e 1875), e por isso é realmente muito provável que a indicação “Photographia Brazileira” nas obras de Ferrez não se deva apenas à sucessão comercial entre eles. Ferrez, em seu catálogo de 1881, Exposição de paisagens photographicas, escreve: “As vistas de effeito de luar obtidas por meios chimicos descobertos pelo photographo dono do estabelecimento são entregues pelos mesmos preços, acima indicados”, ou seja, talvez ele tenha trabalhado com Klumb na busca de soluções para o registro de nuvens e também para os chamados “efeitos noturnos” ou “efeitos de luar” nessa série de Petrópolis.

Único no Brasil do século 19 a fazer de seu trabalho documental e de paisagem uma atividade exclusiva e rentável por mais de 50 anos, Ferrez passou a ocupar um lugar cada vez mais destacado entre os fotógrafos da corte. Frond tinha deixado a cidade em 1862. Klumb e Stahl também já não trabalhavam no Rio de Janeiro desde o início da década de 1870. Com o encerramento das atividades fotográficas da Casa Leuzinger, em 1875, nenhum fotógrafo paisagista de renome permaneceu ativo na capital do Império além de Ferrez, que se dedicou naquela década à reconstrução de sua vida profissional após o incêndio que destruiu em 1873 seu ateliê, onde também morava, à rua de São José.

A partir desse período, Ferrez engajou-se em grandes projetos documentais comissionados pelo governo, fazendo o acompanhamento fotográfico das obras de construção e expansão de ferrovias, de captação e abastecimento de água, do cultivo de café, então o principal produto de exportação do país, e como fotógrafo da Marinha Imperial. Foi nessa época que Ferrez se consolidou como o maior fotógrafo paisagista do século 19 no Brasil.

Aos 32 anos, quando trabalhava para a Comissão Geológica do Império (1875 e 1876), principal missão científica do país financiada pelo governo, o artista já estava em seu pleno domínio técnico. Seu controle de luz e sua precisão na escolha do ponto de vista ressaltaram com mestria os aspectos formais das cenas registradas. O elemento humano participa de maneira discreta, conferindo escala aos cenários naturais ou urbanos e levando o olhar a percorrer a imagem em todas as suas dimensões.

O trabalho feito por Ferrez para a Comissão Geológica coloca-o definitivamente no mesmo patamar de outros importantes fotógrafos viajantes do século 19, como Francis Frith, no Egito, Samuel Bourne, na Índia, John Thomson, na China, e Carleton E. Watkins, nos Estados Unidos. Foi com esse trabalho que sua atividade profissional como fotógrafo de paisagem evoluiu, pois precisou na época buscar soluções técnicas ainda mais arrojadas. Aprimorou as vistas panorâmicas e adquiriu em 1878, em Paris, o aparelho inventado e construído por David Hunter Brandon. Aperfeiçoado por Ferrez, o equipamento permitia a produção de vistas panorâmicas sobre chapas de vidro de 40 x 110 cm.

O que caracteriza a produção de Ferrez no final dos anos 1870 e início dos anos 1880 é justamente o constante investimento em câmeras de grande formato e panorâmicas, como a câmera panorâmica de varredura Brandon, e por isso foi o único fotógrafo comissionado brasileiro capaz de operar no limite das possibilidades técnicas e formais daquele momento. O emprego de negativos de vidro de grande formato (42 x 52 cm) atinge seu maior virtuosismo na série sobre a construção da avenida Central e de edificações associadas a ela, a que se dedicou de 1903 a 1911. A imagem do Teatro Municipal, feita em negativo de vidro de formato 42 x 52 cm, expressa todo seu domínio em operar equipamentos de ponta e de grande porte, tanto pela qualidade da imagem como pelo rigor de sua estruturação formal.

Adotadas desde o início da carreira e raras entre os demais estúdios fotográficos do período, as paisagens naturais e vistas urbanas compõem a mais poderosa vertente de seu trabalho, imagens únicas que marcariam para sempre a iconografia brasileira do século 19. Ferrez percorre os arredores da cidade, seja na montanha ou na baía, construindo uma visão pessoal e poética do espaço urbano com suas fotografias dos locais de fronteira entre o natural e o construído, áreas mágicas que até hoje caracterizam a grande metrópole em que se transformou a cidade do Rio de Janeiro ao longo do século 20.6

Da paisagem ao retrato: associações e parcerias

A maior parte dos retratos de Marc Ferrez foi produzida fora de estúdio, normalmente durante seus trabalhos comissionados. Destacam-se aqui os retratos dos índios Botocudo, no sul da Bahia, feitos em 1875 e 1876 quando trabalhou na Comissão Geológica do Império; as vendedoras negras nos mercados do Rio de Janeiro, também na década de 1870; e os retratos do imperador d. Pedro II, da princesa Isabel e do conde D’Eu, em meados de 1880.

Em muitos de seus trabalhos, retratou personalidades do mundo científico, como o geólogo Charles Frederick Hartt, diretor da Comissão Geológica do Império, e Paul Ferrand, professor da Escola de Minas de Ouro Preto, ambos em plena atividade. São registros que combinam um forte senso de estruturação da fotografia de paisagem com a presença da figura humana em escala, porém aqui com o objetivo de realização de um retrato ambientado, onde paisagem e retratado se fundem em um único registro que combina a vertente paisagística de Ferrez com o retrato de personalidades em sua atividade profissional. Outros retratos, como o de Luís Cruls, astrônomo e diretor do Observatório Astronômico do Rio de Janeiro, são evidência de seu relacionamento profissional e colaboração com o meio científico da época, também exemplificado por seu trabalho em associação com Henrique Morize, engenheiro, geógrafo, astrônomo e catedrático de física experimental na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, com quem Ferrez realizou experiências fotográficas com raios-x.

A trajetória de Ferrez é, portanto, marcada por um permanente convívio com as atividades culturais e científicas de sua época e também por um contato permanente com os principais desenvolvimentos tecnológicos do período. Como principal fotógrafo das ferrovias e das obras de abastecimento de água, por exemplo, realizará retratos emblemáticos do imperador e suas comitivas em imagens hoje referenciais dentro de sua produção fotográfica. Fruto dessa convivência com intelectuais e cientistas, e também com o próprio imperador d. Pedro ii, podemos citar também os retratos que Ferrez realiza da própria família imperial, inclusive em registros mais privados, como os da Princesa Isabel e da Baronesa de Muritiba no Paço Isabel, hoje Palácio Guanabara, em Laranjeiras, no Rio de Janeiro.

Ferrez buscou ampliar a representação da paisagem social e humana do país em sua obra com projetos fotográficos e editoriais desenvolvidos em parceria com outros editores e fotógrafos, como Henri Gustave Lombaerts e Joaquim Insley Pacheco. Análises recentes em seus negativos indicam que retratos antes atribuídos exclusivamente a ele foram na verdade feitos por outros fotógrafos, mas integram seu acervo justamente por causa desses projetos desenvolvidos em parceria entre 1880 e 1910, principalmente os editoriais (nos quais foram usados processos fotomecânicos da época, como a colotipia e a fotogravura). Alguns desses negativos, sobretudo os das séries de retratos, portanto, ou são de outros autores ou foram feitos em conjunto com fotógrafos com os quais Ferrez associou-se por muito tempo, como Joaquim Insley Pacheco, possível autor do retrato de Machado de Assis, conforme indicam documentos recentemente localizados na Biblioteca Nacional.

Entre os registros de índios, em especial de Goiás, sabe-se que algumas imagens são de autoria do fotógrafo José Severino Soares. Já entre as fotografias de ambulantes, a revisão do acervo de negativos originais evidenciou que alguns deles trazem a assinatura de Gomes Junior, o que indica que essa série do início do século 20 ou foi incorporada ao acervo de Ferrez por aquisição ou comissionamento, ou possivelmente desenvolvida em conjunto pelos dois fotógrafos.

As novas informações sobre sua obra reafirmam a clara opção de Marc Ferrez pela fotografia de paisagem, à qual se dedicou durante toda sua trajetória profissional e que o levou também a desenvolver sua linguagem autoral e a expandir os limites da representação visual do período. Além disso, estendeu suas ações (nesse caso principalmente como editor e produtor) para outros segmentos, como a impressão fotomecânica, alguns campos do retrato, a fotografia estereoscópica e em cores (autocromos), e também o cinema, na maioria das vezes associando-se a outros profissionais, inclusive seus filhos Júlio e Luciano, que a partir de 1905 integraram a sociedade Casa Marc Ferrez & Filhos. O acervo de mais de cinquenta anos de carreira evidencia suas diversas associações profissionais, que vão desde sua provável parceria nos anos 1860 com Revert Henry Klumb até, por exemplo, seus projetos editoriais feitos com processos fotomecânicos do final do século 19 e início do século 20.

Graças à preservação de seu acervo, que inclui a expressiva série de mais de cinco mil negativos de vidro originais hoje reunidos no IMS, além de milhares de tiragens originais, entre fotografias, estereoscopias, autocromos e impressões fotomecânicas, a trajetória de Marc Ferrez em todas as suas fases pode hoje ser pesquisada e reconstruída. Esta publicação é mais um passo nessa direção.

1 – Laurent Gervereau, “Da foto ao filme”, in O Brasil de Marc Ferrez, São Paulo: Instituto Moreira Salles. 2005. p. 115

2 – Boris Kossoy, Dicionário Histórico Fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833 – 1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002, p, 27

3 – Maria Inez Turazzi, Marc Ferrez. São Paulo: Cosac Naify, 2000, p. 113

4 – O Almanak Laemmert, periódico anual, é editado pela primeira vez em 1844 no Rio de Janeiro pelos irmãos Henrique Eduardo Laemmert. Foi publicado até o século XX. Reuniu as informações mais importantes sobre o Rio de Janeiro, até 1889, capital do Império e em seguida capital da República.

5 – Jornal do Comércio, 6 de junho de 1869, p. 3

6 – Este texto baseia-se, em sua primeira parte, no trabalho de pesquisa feito por Sergio Burgi e Frank Stephen Kohl, publicado anteriormente em Sergio Burgi; Frank Stephen Kohl. “O fotógrafo e seus contemporâneos: influências e confluências”, in INSTITUTO MOREIRA SALLES, O Brasil de Marc Ferrez. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2005

Referência bibliográficas:

INSTITUTO MOREIRA SALLES. O Brasil de Marc Ferrez. São Paulo: IMS, 2005.

Prata, José Expedicto (org). O álbum de Jorge Henrique. São Paulo. Edição do autor, 2014.

Turazzi, Maria Inez. “A “criatura” e o “espelho”: o retrato de Machado de Assis por Marc Ferrez” – Aletria Revista de Estudos de Literatura [Online], 24:2 (2014 Dez 26).

*Sergio Burgi é curador da Brasiliana Fotográfica e coordenador da área de Fotografia do Instituto Moreira Salles.

Links para posts sobre Marc Ferrez já publicados pela Brasiliana Fotográfica:

Obras para o abastecimento de água no Rio de Janeiro de Marc Ferrez

O brilhante cronista visual Marc Ferrez ( RJ, 07/12/1843 – RJ, 12/01/1923)

O Rio de Janeiro de Marc Ferrez