A importância da digitalização para a pesquisa de acervos fotográficos

Inicialmente a fotografia Vagão ferroviário tombado chamou atenção por seu tema pouco usual em registros do século XIX e do início do século XX no Brasil: um acidente ferroviário. Mas uma observação mais atenta tornou a imagem uma excelente evidência da importância da digitalização para a pesquisa e também para a difusão e consequentemente para a própria preservação de acervos fotográficos. Na fotografia destacada, que integra a Coleção Pereira Passos, do Museu da República, uma das instituições parceiras do portal, seu autor foi identificado a partir da utilização da ferramenta de zoom, que deu à cena fotografada outra visibilidade, abrindo as possibilidades de situá-la historicamente. O leitor ou o pesquisador pode com esse recurso tecnológico magnificar a imagem e verificar “de perto” seus detalhes. Um desses detalhes, nesse caso, foi uma assinatura: A. Bastos. Há, embaixo dela, alguns números legíveis, 3 – 19, e outros ilegíveis. Possivelmente os números legíveis indicam a data de março de algum ano começando por 19.

 

 

O autor seria Antônio José Teixeira Bastos (18? – 1917)? Tudo indica que sim porque ele é o único fotógrafo – conhecido até hoje – com a inicial A e o sobrenome Bastos, de fins do século XIX. Caso seja ele mesmo o autor, a fotografia se situa no período entre 1900 e 1915,  já que Bastos atuou no Rio de Janeiro entre os anos 1880 e 1915 e os números legíveis indicam algum ano começando com 19. Infelizmente esses dados não foram suficientes para a localização do acidente.

Bastos começou sua carreira trabalhando para o ateliê de Carneiro & Tavares – que existiu entre 1883 e 1888 – e, em 1889, transferiu-se para o estabelecimento de Moreira & Roltgen (Jornal do Commercio, 6 de janeiro de 1889).

 

 

Cerca de dois anos depois, Bastos comprou de Manoel Garcia o ateliê fotográfico Casa Garcia, que passou a dirigir com o nome de a Photographia do Commercio, na rua Sete de Setembro, 74 (O Brazil, 5 de setembro de 1891).

 

 

Entre 1891 e 1893, foi associado a José Gonçalves Vasquez que, em 1893, foi trabalhar em Curitiba, onde inaugurou a Photographia Moderna (Jornal do Commercio, 6 de junho de 1893, sexta coluna). Em 1900, Vasquez foi para Santos e abriu a Fotografia Modelo, na rua Amador Bueno, 91.

 

 

Em 1916, quando foi anunciada pela última vez, a Photographia do Commercio, funcionava na rua da Assembleia, 98 (Correio da Manhã, 25 de dezembro de 2013, quarta coluna; Gazeta de Notícias, 8 de outubro de 1915, terceira coluna; Almanak Laemmert, 1916).

 

 

O conhecido fotógrafo Antônio José Teixeira Bastos, que morava na rua do Senado, 14, faleceu em 28 de julho de 1917 e foi enterrado no Cemitério da Ordem Terceira do Carmo. A missa de sétimo dia foi celebrada na Igreja de São Francisco de Paula (O Paiz, 29 de julho de 1917, quinta colunaJornal do Brasil, 29 de julho de 1917, primeira coluna; e Jornal do Brasil, 3 de agosto, segunda coluna). Eram seus filhos Júlio e João Durão Teixeira Bastos (Jornal do Commercio, 23 de novembro de 1917, quarta coluna).

 

cartão

Photographia do Commercio / Acervo IMS

 

 

Coleção Família Pereira Passos

A Coleção Família Pereira Passos, à qual pertence a fotografia destacada nesse artigo, é uma das mais importantes sob guarda do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República e é formada por cerca de 5.592 documentos textuais e 1.147 fotografias, produzidos entre 1806 e 1960. A coleção faz parte do acervo do Museu da República desde 1965, quando a primeira e maior leva de documentos foi doada pela família de Pereira Passos. Posteriormente foi acrescida: em 1966, através de novas doações de sua neta, Maria Passos de Castro (1888 – 1971), e, em 1980, pela transferência de fotos até então pertencentes ao Museu Histórico Nacional.

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

Jornal Eletrônico Novo Milênio

Site do Museu da República

João Ferreira Villela, um dos primeiros fotógrafos pernambucanos

João Ferreira Villela, um dos primeiros fotógrafos pernambucanos* 

Contemporâneo no Recife dos estrangeiros Augusto Stahl (1828 – 1877) e Alberto Henschel (1827 – 1882), João Ferreira Villela (18? – ?) é considerado, até hoje, um dos primeiros fotógrafos pernambucanos, tendo sido antecedido por Cincinato Mavignier (1826 – 1868), pensionista de S.M. o Imperador, que anunciou, em 9 de junho de 1854, uma Galeria de retratos a óleo e daguerreótipo, no Aterro da Boa Vista, nº 82, primeiro e segundo andares, em 1854, um ano antes de Villela (1).

A biografia de Villela é ainda bastante desconhecida. Iniciou sua vida profissional como taquígrafo mas foi como retratista e paisagista que se notabilizou. Seu primeiro ateliê, aonde permaneceu de 1855 a 1858, ficava no Aterro da Boa Vista nº 4, mesmo endereço onde anteriormente trabalharam os fotógrafos norte-americanos Charles DeForest Fredricks (1823 – 1894), em 1851 e, em 1854, Augustin Lettarte (18? – ?) e o português Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912). Desse último, Villela afirmava ser o único discípulo. Sempre demonstrou interesse em ter máquinas modernas para a realização dos trabalhos de seu estabelecimento e prometia, como resultado, a perfeição.

 

 

Em fins de 1858, transferiu-se para a rua Nova, nº 18, primeiro andar.  No ano seguinte, quando dom Pedro II(1825 – 1891) visitou Recife, Villela ofereceu a ele seis molduras douradas com imagens obtidas sobre chapas metálicas. Na ocasião, o monarca encomendou a Villela vistas de locais no interior de Pernambuco que havia conhecido durante sua viagem pelo nordeste. Em 18 de setembro de 1860, Villela tornou-se o único pernambucano a ser agraciado por dom Pedro II com o título de Fotógrafo Imperial. No fim de 1860, o casal real foi padrinho de uma de suas filhas. Na cerimônia, realizada na Igreja Paroquial de Santo Antônio, fizeram-se representar pelo Presidente da Província de Pernambuco, Ambrósio Leitão da Cunha, o Barão de Mamoré (1825 – 1898), e sua esposa.

 

Acessando o link para as fotografias de João Ferreira Villela disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Inaugurou seu novo ateliê na rua do Cabugá, nº 18, em 1861. Oferecia retratos por ambrótipos e por melainótipos sobre panos encerados próprios para remeter dentro de cartas ou sobre malacacheta ou talco especiais para alfinetes ou cassoletas, além de retratos transparentes, oferecendo o mesmo retrato em duas vistas, uma colorida e outra em preto e branco, além de retratos dos principais personagens da Europa, vistas estereoscópicas, vidros para ambrótipos e químicas fotográficas. Nesse mesmo ano, assinou alguns artigos da coluna “Palestra sobre o Theatro”, do jornal pernambucano O Constitucional: jornal político, religioso, científico e literário.

Em 7 de abril de 1870, após 10 meses de obras, o estabelecimento de Villela na rua do Cabugá, agora denominado Photographia Imperial, foi reinaugurado. A reforma teve como modelo o ateliê do fotógrafo Insley Pacheco, na rua do Ouvidor, 102, no Rio de Janeiro, que Villela havia visitado em 1868. A partir de 1870, o pintor alemão Jorge Augusto Roth (c. 1840 – 1893), passou a colaborar no ateliê de Ferreira Villela como encarregado de colorir as cópias fotográficas. A última notícia sobre seu estabelecimento fotográfica é de 1873. Acredita-se que depois dessa data ele tenha se dedicado exclusivamente à produção de tintas de escrever indeléveis e produtos farmacêuticos.

 

 

Ferreira Villela participou de diversas exposições, dentre elas as Exposições Provinciais de Pernambuco de 1861, 1866 e 1872; da II Exposição Nacional do Rio de Janeiro de 1866, quando recebeu com Leon Chapelin a 3ª menção honrosa; da III Exposição Nacional no Rio de Janeiro de 1873, expondo produtos farmacêuticos e tintas de escrever, tendo sido premiado com as medalhas de prata e de bronze; e da IV Exposição Nacional no Rio de Janeiro de novo com tintas de escrever, quando ganhou uma medalha de mérito. No exterior, participou da Exposição Universal de Viena de 1873 com produtos farmacêuticos, tendo sido premiado com a medalha de mérito e com uma menção honrosa; dois anos depois, da Exposição Internacional de Santiago do Chile, com tintas de escrever, tendo conquistado o segundo prêmio; e, finalmente da Exposição Universal da Filadélfia, ocorrida entre 10 de maio e 10 de novembro de 1876, também com tintas de escrever, quando conquistou a medalha de honra. Dessas duas últimas constou como expositor do Rio de Janeiro. Teria ido viver na corte?

 

 

Cronologia de João Ferreira Villela

1840 – O aluno João Ferreira Villela, do Colégio Pernambucano, foi aprovado na prova geral de primeiras letras e gramática nacional (Diário de Pernambuco, 23 de dezembro de 1840, última coluna).

1841 – João Ferreira Villela foi aprovado na prova de História, seção de História Sagrada, do Colégio Pernambucano (Diário de Pernambuco, 18 de dezembro de 1841, segunda coluna).

1849 – João Ferreira Villela requereu à Assembleia Provincial de Pernambuco uma gratificação para que ele pudesse concluir o curso de taquigrafia. Ele e outro aluno, Joaquim Izidoro Simões, receberam uma gratificação de  400 mil réis cada um, e o professor de arte recebeu 800 (Diário de Pernambuco, 30 de maio de 1849, primeira coluna; e Diário de Pernambuco, 23 de junho de 1849, primeira coluna).

1850 – Fez outro requerimento à Assembleia Provincial de Pernambuco em relação a financiamento para seu curso de taquigrafia e passou a ser adido da secretaria da assembleia (Diário de Pernambuco, 25 de maio de 1850, primeira coluna, e Diário de Pernambuco, 2 de julho de 1850, primeira coluna).

1851 – João Ferreira Villela e Joaquim Izidoro Simões solicitaram a criação de lugares de taquígrafos na Assembleia Provincial de Pernambuco (Diário de Pernambuco, 13 de março de 1851, terceira coluna).

1852 – Foi concedida uma licença de um mês e 24 dias para João Ferreira Villela, praticante de taquigrafia, ir à Paraíba (Diário de Pernambuco, 11 de maio de 1852, quinta coluna).

No dia 13 de novembro, a bordo do vapor brasileiro Mucury, Villela chegou ao Rio de Janeiro (O Globo, 20 de novembro de 1852, primeira coluna).

1853 – O então taquígrafo João Ferreira Villela voltou para Pernambuco, em 12 de novembro, no vapor Guanabara e informou que não devia nada nesta praça (Diário do Rio de Janeiro, 9 de novembro de 1853, primeira coluna; e Diário do Rio de Janeiro, 13 de novembro de 1853, última coluna).

1855 – Inicialmente, segundo Boris Kossoy, sem anunciar seu nome, João Ferreira Villela possuía um ateliê de fotografia no Aterro da Boa Vista, nº4, mesmo endereço onde anteriormente trabalharam os fotógrafos norte-americanos Charles DeForest Fredricks (1823 – 1894), em 1851 (Diário de Pernambuco, 23 de julho de 1851, última coluna), e, em 1854, Augustin Lettarte (18? – ?) (Diário de Pernambuco, 6 de fevereiro de 1854, segunda coluna) e o português Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912) (Diário de Pernambuco, 29 de março de 1854, na terceira coluna). O ateliê de Villela oferecia retratos de pessoas idosas, de crianças e anunciava que iria a qualquer lugar para tirar retratos de pessoas mortas. Anunciava também tirar retratos em stereoscopo, isto é de maneira a apresentar a pessoa em relevo e ao natural e incumbiam-se de tirar cópias em daguerreótipo (Diário de Pernambuco, 10 de dezembro de 1855, penúltima coluna).

1856 – Vendia-se no estabelecimento de Villela um grande sortimento de objetos para a colocação de retratos que lá se tiravam com a maior perfeição tanto pelo sistema francês como pelo norte-americano (Diário de Pernambuco, 3 de outubro de 1856, primeira coluna).

 

1857 – Publicação de propaganda da Grande Oficina de Galeria de Daguerreótipo informando a chegada de produtos de Nova York e também informando os preços dos retratos (Diário de Pernambuco, 13 de junho de 1857, terceira coluna).

1858 –  Recém chegado à cidade, no vapor Oyapock, o retratista J. Villela abriu seu novo estabelecimento de daguerreotipia à rua Nova, nº 18, primeiro andar. Anunciava possuir o mais completo sortimento de caixinhas, molduras pretas, douradas e jóias para a colocação dos retratos. Anunciava também que iria a qualquer parte tirar retrato de família ou de pessoa morta (Diário de Pernambuco, 15 de dezembro de 1858, segunda coluna).

1859 –  Em uma propaganda de seu estabelecimento, Villela divulgou sua habilidade como restaurador de daguerreótipos (Diário de Pernambuco, 7 de setembro de 1859).

Quando dom Pedro II visitou Recife, em outubro, Villela ofereceu a ele seis molduras douradas com imagens obtidas sobre chapas metálicas: do Pavilhão construído a mando da Câmara Municipal para a recepção do imperador, do porto de desembarque do imperador com quiosque, dois barracões, chafariz e cais do Colégio; da continuação da citada vista com o mastro norte do pavilhão da Câmara e mosqueiro com todas as embarcações ali fundeadas; de uma marinha, do Templo dos Ingleses, na rua da Aurora; e do fim da rua da Cruz com o princípio do arsenal de Marinha. S. Majestade, com a bondade que todos conhecem, dignou-se receber o mimo, declarar que conhecia todas as vistas e achava bom o trabalho. O monarca encomendou a Villela vistas de locais no interior de Pernambuco que havia conhecido. Ficou combinado que seriam remetidas para o Rio de Janeiro. É mais uma prova do quanto nosso adorado monarca aprecia e anima as artes assim como do valor e importância que dá ao que é nosso (Diário de Pernambuco, 26 de dezembro de 1859, quarta coluna; e Correio Mercantil (RJ), 7 de janeiro de 1860, quarta coluna).

1860 – Sobre a foto abaixo, produzida por Villela em torno de 1860, Luis Felipe de Alencastro comentou no livro História da vida privada no Brasil Império: a corte e a modernidade nacional, publicado pela Companhia das Letras, em 1998:

 

Imagem representativa da obra

João Ferreira Villela. Augusto Gomes Leal com a Ama-de-Leite Mônica, c. 1860. Recife. Pernambuco / Acervo da Fundação Joaquim Nabuco

 

A fotografia feita no Recife por volta de 1860. Na época era preciso esperar no mínimo um minuto e meio para se fazer uma foto. Assim, preferia-se fotografar as crianças de manhã cedo, quando elas estavam meio sonolentas, menos agitadas. O menino veio com a sua mucama, enfeitada com a roupa chique, o colar e o broche emprestado pelos pais dele. Do outro lado, além do fotógrafo Villela, podiam estar a mãe, o pai e outros parentes do menino. Talvez por sugestão do fotógrafo, talvez porque tivesse ficado cansado na expectativa da foto, o menino inclinou-se e apoiou-se na ama. Segurou-a com as duas mãozinhas. Conhecia bem o cheiro dela, sua pele, seu calor. Fora no vulto da ama, ao lado do berço ou colado a ele nas horas diurnas e noturnas da amamentação, que os seus olhos de bebê haviam se fixado e começado a enxergar o mundo. Por isso ele invadiu o espaço dela: ela era coisa sua, por amor e por direito de propriedade. O olhar do menino voa no devaneio da inocência e das coisas postas em seu devido lugar. Ela, ao contrário, não se moveu. Presa à imagem que os senhores queriam fixar, aos gestos codificados de seu estatuto. Sua mão direita, ao lado do menino, está fechada no centro da foto, na altura do ventre, de onde nascera outra criança, da idade daquela. Manteve o corpo ereto, e do lado esquerdo, onde não se fazia sentir o peso do menino, seu colo, seu pescoço, seu braço escaparam da roupa que não era dela, impuseram à composição da foto a presença incontida de seu corpo, de sua nudez, de seu ser sozinho, da sua liberdade. O mistério dessa foto feita há 130 anos chega até nós. A imagem de uma união paradoxal mas admitida. Uma união fundada no amor presente e na violência pregressa. A violência que fendeu a alma da escrava, abrindo o espaço afetivo que está sendo invadido pelo filho do senhor. Quase todo o Brasil cabe nessa foto‘.

Em propaganda de sua oficina e galeria da rua Nova, 18, anúncio de que Ferreira Villela já havia tirado mais de cinco mil retratos em quatro anos (Diário de Pernambuco, 22 de maio de 1860, terceira coluna).

 

 

Lado a lado, propagandas dos estabelecimentos fotográficos de Villela e de Augusto Stahl (1828 – 1877) (Diário de Pernambuco, 3 de fevereiro de 1860).

 

 

Embarcou no vapor Oyapock rumo aos portos do sul (Diário de Pernambuco, 6 de agosto de 1860, quarta coluna).

Embarcou, no Rio de Janeiro, no paquete Cruzeiro do Sul, rumo a Pernambuco (Correio Mercantil(RJ), 13 de setembro de 1860, penúltima coluna). Anunciou seu retorno, a iminência da inauguração de seu novo estabelecimento fotográfico, na rua do Cabugá, nº 18, e identificou-se como único discípulo de Insley Pacheco. Oferecia retratos por ambrótipo, daguerreótipo e ambrocromótipo. Este último sistema, invenção do distinto professor Insley Pacheco, de quem o anunciante é o único discípulo (Diário de Pernambuco, 4 de outubro de 1860).

 

 

De acordo com Guilherme Auler (6/1/1914 – 27/12/1965), sob o pseudônimo de Ricardo Martim, em dois artigos publicados na Tribuna de Petrópolis, em 1º e 8 de abril de 1956, segundo o livro O Brasil na fotografia oitocentista, de Pedro Vasquez, João Ferreira Villela, teve seu título de Fotógrafo Imperial concedido por dom Pedro II(1825 – 1891), em 18 de setembro de 1860. Foi o primeiro e único pernambucano agraciado. Antes dele, os fotógrafos Buvelot & Prat e Joaquim Insley Pacheco, ambos da província do Rio de Janeiro, haviam recebido o título em 8 de março de 1851 e em 22 de dezembro de 1855, respectivamente.

Os padrinhos de uma de suas filhas foram dom Pedro II e dona Teresa Cristina (1822 – 1889), que se fizeram representar pelo Presidente da Província de Pernambuco, Ambrósio Leitão da Cunha (1825 – 1898) e sua esposa. Muitas autoridades estavam presentes à cerimônia, na Igreja Paroquial de Santo Antônio, e também à festa na casa de Ferreira Villela (Diário de Pernambuco, 18 de dezembro de 1860, penúltima coluna; e Diário do Rio de Janeiro, 29 de dezembro de 1860, penúltima coluna).

1861 –  No Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial da Província de Pernambuco de 1861 , Villela foi listado como taquígrafo e, com Augusto Stahl, como fotógrafo.

 

taquigrafo

 

 AUGUSTO

 

Apresentou-se como Retratista da Augusta Casa Imperial em anúncio de seu estabelecimento fotográfico na rua do Cabugá, nº 18 (Diário de Pernambuco, 13 de abril de 1861).

 

 

Oferecia retratos por ambrótipos e por melainótipos sobre panos encerados próprios para remeterem-se dentro de cartas ou sobre malacacheta ou talco especiais para alfinetes ou cassoletas, além de retratos transparentes, oferecendo o mesmo retrato em duas vistas, uma colorida e outra em preto e branco (Diário de Pernambuco, 22 de junho de 1861).

Durante 1861, assinou alguns artigos da coluna “Palestra sobre o Theatro”, do jornal pernambucano O Constitucional: jornal político, religioso, científico e literário: em 31 de julho, 7 de agosto, 14 de agosto, 21 de agosto, 4 de setembro, 18 de setembro, e 25 de setembro.

Abaixo, uma reclamação do bilheteiro do Teatro Santa Isabel sobre Ferreira Villela que identificou como hábil em daguerreotipar os defeitos alheios. Há também uma resposta do diretor e regente da orquestra, Francisco Libânio Colás ( 1827 – 1885) a crítica feita a ele no O Constitucional de 7 de agosto de 1861 (Diário de Pernambuco, 8 de agosto de 1861, segunda coluna).

 

 

Villela deu um esclarecimento sobre a reclamação do bilheteiro do Teatro Santa Isabel, o Cunha  (Diário de Pernambuco, 9 de agosto de 1861, primeira coluna).

Em seu estabelecimento eram oferecidos retratos dos principais personagens da Europa, vistas estereoscópicas, vidros para ambrótipos e químicas fotográficas (Diário de Pernambuco, 26 de outubro de 1861, terceira coluna).

Participou com uma coleção de retratos pelo sistema ambrótipo da Exposição Provincial de Pernambuco, inaugurada em 16 de novembro de 1861, no Palácio do Governo (Diário de Pernambuco, 18 de novembro de 1861, última coluna e Jornal do Recife, 19 de novembro de 1861). Sua esposa, Idalina Teixeira Leal Ferreira Villela, participou expondo uma caixa envidraçada contendo um grupo de frutas de cera (Jornal do Recife, 23 de novembro de 1861, primeira coluna).

 

 

1862 – Villela ofereceu retratos a dom Pedro II, que haviam sido exibidos na Exposição Nacional (Boletim do Expediente do Governo: Ministério do Império, janeiro de 1862).

Foi qualificado como juiz de fato (Diário de Pernambuco, 7 de fevereiro de 1862, terceira coluna).

Anunciou a decoração de seu estabelecimento fotográfico com retratos dos imperadores, das princesas imperiais e de pessoas importantes do Recife. Afirmava que os preços dos retratos eram os mais razoáveis da cidade (Diário de Pernambuco, 17 de julho de 1862, última coluna).

Nessa mesma época, atuava no Recife o retratista norte-americano Augusto W. Osborn, na rua do Imperador (Diário de Pernambuco, 5 de agosto de 1862).

 

 

1864 – Candidatou-se a vereador (Diário de Pernambuco, 26 de agosto de 1864, penúltima coluna).

 

 

1866 – Participou com uma coleção de retratos da Exposição Provincial de Pernambuco e ganhou a medalha de cobre. Era na época o único fotógrafo brasileiro no Recife. Os outros eram estrangeiros (Diário de Pernambuco, 5 de dezembro de 1866, primeira coluna).

 

 

Participou da II Exposição Nacional do Rio de Janeiro quando recebeu com Leon Chapelin a 3ª menção honrosa (Diário do Rio de Janeiro, 1º de fevereiro de 1867, última coluna).

Sobre eles, o pintor Victor Meirelles (1832 – 1903), que assinou em nome do júri do quarto grupo – onde se incluía a fotografia – comentou no Relatório da II Exposição Nacional do Rio de Janeiro:

‘Os trabalhos fotográficos que esses senhores apresentaram não são absolutamente sem defeitos e, salvo algumas provas mais felizes, pecam em geral pela aparência que têm de dureza, e pouca transparência nas sombras, tendo alguns retratos os fundos pouco convenientes, e de modo que prejudicam antes o relevo das figuras, por não lhes dar maior destaque.

O efeito do contraste bem calculado é uma das qualidades essenciais, de que nem todos sabem tirar bom partido, e que requer mesmo muito estudo’.

Seu ateliê fotográfico continuava funcionando na rua do Cabugá, 18 (Diário de Pernambuco, 21 de dezembro de 1866).

 

 

1867 – Villela informou que havia comprado o material fotográfico do estabelecimento fotográfico de Eugênio & Maurício que ficava na rua Nova, 25 (Diário de Pernambuco, 1º de março de 1867).

Na coluna “Revista Diária”, muitos elogios foram feitos ao trabalho de Villela (Diário de Pernambuco, 12 de agosto de 1867, penúltima coluna).

Publicação de anúncios dos estabelecimentos fotográficos de Ferreira Villela e do berlinense Alberto Henschel (1827 – 1882) (Diário de Pernambuco, 25 de outubro de 1867).

 

 

1868 – Ferreira Villela publicou um convite para a missa de sétimo dia de sua mãe (Diário de Pernambuco, 15 de fevereiro de 1868, última coluna).

Em propaganda anunciava seus cartões de visita sem o menor retoque de lápis ou de nanquim e chamava a atenção do público para os retratos expostos no salão de cortar cabelos do sr. José Ricardo Coelho e na livraria do sr. Nogueira de Souza (Diário de Pernambuco, 27 de fevereiro de 1868, última coluna).

Anunciou uma liquidação de vistas estereoscópicas de países da Europa e também de estereoscopos (Diário de Pernambuco, 21 de março de 1868, última coluna).

Anunciou a venda de retratos do bispo dom Francisco Cardoso Ayres (1821 – 1870). Anunciou também a utilização sem economia de uma lavagem sobre os retratos para extrair todo o hipossulfito de soda, causa da alteração das provas (Diário de Pernambuco, 4 de junho de 1868, última coluna).

Após uma temporada no Rio de Janeiro, para onde havia ido a fim de conhecer e examinar os melhores estabelecimentos fotográficos da corte, tendo passado um mês estudando e aproveitando as lições do fotógrafo Insley Pacheco, retornou ao Recife no dia 7 de dezembro e retomou a direção de seu ateliê (Diário de Pernambuco, 23 de dezembro de 1868, terceira coluna).

1869 – No Almanak Administrativo, Mercantil, Industrial e Agrícola de Pernambuco de 1869 , Villela foi listado como taquígrafo e, com Alberto Henschel (1827 – 1882), como fotógrafo.

 

taquigrafo

 

Anunciou que estava sempre em dia com os melhoramentos e progressos que na América do Norte, na Europa ou no Rio de Janeiro se consegue na arte fotográfica e para alcançarmos tal fim nunca poupamos despesas nem sacrifícios de sorte que nossos numerosos fregueses podem ter a certeza de que sempre encontrarão em nosso estabelecimento tudo quanto a arte e a moda oferecer de bom no novo e velho mundo aos amantes da fotografia (Diário de Pernambuco, 22 de janeiro de 1869).

 

 

Após 10 meses de reforma em seu estabelecimento, anunciou o fim das obras para a primeira quinzena do mês de dezembro de 1869. A reforma teve como modelo o ateliê fotográfico de Insley Pacheco, na rua do Ouvidor, 102, no Rio de Janeiro, que Villela visitou em 1868. Em 16 de dezembro, informou um novo prazo para a conclusão das obras: 7 de janeiro de 1870 (Diário de Pernambuco, 24 de novembro de 1869, terceira coluna; Diário de Pernambuco, 16 de dezembro de 1869, terceira coluna; e O Liberal, 2 de setembro de 1870, última coluna).

 

 

1870 – Em 7 de abril, após uma grande reforma, abertura da Photographia Imperial e Galeria de Pintura de João Ferreira Villela, no mesmo endereço, rua do Cabugá, 18 (Diário de Pernambuco, 7 de abril de 1870, terceira colunaDiário de Pernambuco, 23 de junho de 1870, terceira coluna; e O Liberal, 2 de setembro de 1870, última coluna).

 

 

A partir desse ano, o pintor alemão Jorge Augusto Roth (18? – ?), no Brasil desde 1868, quando desembarcou do vapor francês Extremadure (Diário de Pernambuco, 13 de junho de 1868, penúltima coluna) passou a colaborar no ateliê de Ferreira Villela, como encarregado de colorir as cópias fotográficas (Diário de Pernambuco, 3 de junho de 1870, segunda coluna; Diário de Pernambuco, 22 de agosto de 1870).

Na livraria francesa dos srs. Lalhacar & C., na rua do Crespo, exposição de quatro retratos produzidos no estabelecimento de Ferreira Villela (Diário de Pernambuco, 27 de julho, quarta coluna).

A Photographia Imperial anunciava os Retratos Timbre-posts, excelentes para circulares, convites, ou simplesmente para cartas a amigos (Diário de Pernambuco, 14 de novembro de 1871, terceira coluna).

A Photographia Imperial anunciava retratos de grupos de cinco a 100 pessoas (Diário de Pernambuco, 25 de novembro de 1871, última coluna).

1872 – A Photographia Imperial anunciava a grande novidade dos cartões de visita e afirmava ser o único estabelecimento que possuía as máquinas e os aparelhos precisos para preparar esses cartões (Diário de Pernambuco, 16 de fevereiro de 1872, segunda coluna).

Villela participou da Exposição Provincial de Pernambuco, inaugurada em 20 de outubro (Diário de Pernambuco, 21 de outubro de 1872, primeira coluna), com um quadro a óleo (fotopintura?), dois quadros com fotografias no formato carte de visite e 3 quadros de retratos a óleo (fotopinturas?). O fotógrafo alemão Alberto Henschel (1827 – 1882) também participou com 2 quadros de fotografias. Ambos ganharam medalhas de prata. Villela expôs também uma variada coleção de produtos químicos de seu fabrico que revelam uma capacidade artística congênita e de uma força de vontade digna de toda animação (Diário de Pernambuco, 20 de fevereiro de 1873, segunda coluna; e Diário de Pernambuco, 21 de fevereiro de 1873, última coluna).

Como relator da Comissão da Sociedade dos Artistas Mecânicos e Liberais de Pernambuco, fez o discurso na sessão fúnebre que o Club Popular do Recife celebrou em homenagem à memória de Antônio Rangel de Torres Bandeira (Diário de Pernambuco, 27 de dezembro de 1872, primeira coluna).

1873 – Ele e o fotógrafo Leon Chapelin eram integrantes avulsos da loja Capitular União e Beneficência da maçonaria de Pernambuco (Diário de Pernambuco, 9 de janeiro de 1873, segunda coluna).

Participou da III Exposição Nacional no Rio de Janeiro com produtos farmacêuticos e tintas de escrever, tendo sido premiado com as medalhas de prata e de bronze.

Participou da Exposição Universal de Viena com produtos farmacêuticos, tendo sido premiado com a medalha de mérito e com uma menção honrosa.

A Photographia Imperial anunciou ter cartões de visitas coloridos ao natural (Diário de Pernambuco, 18 de junho de 1873, última coluna).

A Photographia Imperial anunciou possuir retratos do papa Pio IX (1792 – 1878), de outros religiosos e da infeliz Maria da Conceição, assassinada pelo desembargador Pontes Visgueiro (Diário de Pernambuco, 12 de novembro de 1873, primeira coluna).

1874 – Estava na lista de devedores de um imposto de 4% cobrados a alguns estabelecimentos comerciais (Diário de Pernambuco, 7 de abril de 1874, quarta coluna).

Em 8 de abril de 1874, foi veiculado uma propaganda do estabelecimento de Lopes & C, na rua do Barão da Vitória, 14, denominado Photographia Imperial, mesmo nome do estabelecimento de Villela. Note-se que a última propaganda da Photographia Imperial de Villela foi veiculada em novembro de 1873 (Diário de Pernambuco, 8 de abril de 1874 e Diário de Pernambuco, 9 de abril, segunda coluna).

Participou de uma reunião do Instituto Arqueológico e Geográfico e na ocasião ofertou à entidade duas fotografias: da fortaleza do Brum e do porto de Pernambuco (Diário de Pernambuco, 21 de agosto de 1874, segunda coluna; e Jornal do Recife, 21 de agosto de 1874, penúltima coluna).

Chegou ao Rio de Janeiro a bordo do paquete a vapor Pará (O Globo, 2 de setembro de 1874, última coluna).

1875 - Participou da IV Exposição Nacional no Rio de Janeiro com tintas de escrever e ganhou uma medalha de mérito (O Globo, 4 de fevereiro de 1876, segunda coluna; e Diário de Pernambuco, 14 de fevereiro de 1876, terceira coluna).

Participou da Exposição Internacional de Santiago do Chile, ocorrida entre 16 de setembro de 1875 e 16 de janeiro de 1876, com tintas de escrever, tendo conquistado o segundo prêmio (O Globo, 4 de maio de 1876, primeira coluna). Na listagem dos premiados, apareceu como expositor do Rio de Janeiro. Teria se mudado para a corte?

1876 – Participou da Exposição Universal da Filadélfia, ocorrida entre 10 de maio e 10 de novembro de 1876, com tintas de escrever, e conquistou a medalha de honra (O Novo Mundo, setembro de 1876, quarta coluna; e O Novo Mundo, janeiro de 1877, quarta coluna). Da mesma forma como na listagem dos premiados na Exposição Internacional de Santiago do Chile, apareceu como expositor do Rio de Janeiro. Teria ido viver na corte?

 

 

(1) Em 1845, há o registro da atuação de um daguerreotipista no Recife, que se anunciava como Mr. Roberto, provavelmente estrangeiro (Diário de Pernambuco, 20 de setembro de 1845, terceira coluna). Os outros, de quem se têm notícia até  hoje e que também atuaram na cidade na década de 1840, eram com certeza estrangeiros: os norte-americanos Joseph Evans (? -18?) e Charles DeForest Fredricks (1823 – 1894). Na década de 1850, quando Villela começou a trabalhar como fotógrafo, foi o segundo pernambucano na profissão. O primeiro foi Cincinato Mevignier que, em junho de 1854, identificava-se-se como retratista e pensionista de S.M. o Imperador e possuía uma Galeria de retratos a óleo e daguerreótipo, no Aterro da Boa Vista, nº 82, primeiro e segundo andares. Anunciava ter encomendado da Europa uma máquina extraordinária daguerreótipo…será sem dúvida maior que tem de se apresentar-se nessa capital e mesmo em todas as outras províncias do império…Também, na mesma propaganda, afirmou ser pernambucano o que o torna o primeiro daguerreotipista nascido no referido estado conhecido até os dias de hoje: “Pernambucanos! a nossa província tão bela e tendo em si os melhores golpes de vista pra os astistas que sabem apreciar a natureza…” (Diário de Pernambuco, 9 de junho de 1854, segunda coluna). O primeiro registro de Villela como daguerreotipista é de 1855.

 

*Esse artigo foi atualizado em 25 de julho de 2019.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ALENCASTRO, Luis Felipe de. História da vida privada no Brasil Império: a corte e a modernidade nacional. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

Enciclopédia Itaú Cultural

FERREZ, Gilberto. Velhas fotografias pernambucanas: 1851-1890. Rio de Janeiro: Campo Visual, 1988.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

KOSSOY, Boris. Origens e expansão da fotografia no Brasil : século XIX. Prefácio Boris Kossoy. Rio de Janeiro: Funarte, 1980.

TURAZZI, Maria Inez. Poses e trejeitos: A fotografia e as exposições na era do espetáculo (1839 – 1889). Rio de Janeiro: Funarte/Rocco, 1995.

VASQUEZ, Pedro Karp. Dom Pedro II e a fotografia no Brasil. Rio de Janeiro: Fundação Roberto Marinho: Companhia Internacional de Seguros: Ed. Index, 1985.

VASQUEZ, Pedro Karp. Mestres da fotografia no Brasil: Coleção Gilberto Ferrez. Tradução Bill Gallagher. Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil, 1995.

VASQUEZ, Pedro Karp. O Brasil na fotografia oitocentista. São Paulo: Metalivros, 2003.

Nudez na Galeria Ducasble causa polêmica no Recife do século XIX

 

A exposição de uma cópia do quadro Sono de antíope (ao lado), do pintor italiano renascentista Correggio (c. 1439 – 1534), na Galeria Ducasble, causou polêmica no Recife, em 1885. Por ser considerado por parte do público um registro imoral, muitos deixaram de frequentar o estabelecimento. O advogado e ex-presidente das províncias do Piauí, do Ceará e de Pernambuco, Diogo Cavalcanti de Albuquerque (1829 – 1889), publicou, no Diário de Pernambuco de 27 de junho de 1885, uma crítica a esse comportamento, segundo ele, inspirado por uma nudofobia. No mesmo artigo, criticou o pouco incentivo do governo às artes e elogiou a galeria do fotógrafo e antiquário francês Alfred Ducasble (18-? – 19?). Diogo Cavalcanti de Albuquerque foi o Comissário Geral do Império à Exposição Universal de Paris, em 1889, na qual Ducasble participou como delegado oficial da província de Pernambuco e também como autor de fotografias e expositor de quadros, móveis, jóias e antiguidades.

O ateliê de fotografia e galeria de belas artes de Ducasble situava-se à Rua Barão da Vitória, 65 e era conhecido como A. Ducasble & C., Galeria Ducasble e Fotografia Parisiense. Pintores como Aurélio de Figueiredo (1856 – 1916) e José Jerônimo Telles Júnior (1851 – 1914)  expuseram seus trabalhos na galeria.

‘A uma habilidade não comum, que ele tem vantajosamente empregado no aperfeiçoamento dos processos fotográficos junta, como entusiasta e verdadeiro cultor das belas artes, ardente vocação, apurado gosto e inexcedível dedicação a esse gênero de cultura humana; ainda mais: vota particular interesse, liga a maior importância às produções e progresso da arte nacional’ (Diogo Cavalcanti de Albuquerque sobre Ducasble, em 1885).

Por ter fotografado grande parte da sociedade pernambucana, Ducasble ficou mais conhecido como retratista embora tenha sido também considerado um excelente paisagista. Foi casado com a alagoana e modista Urraca (1837 – 1893), com quem teve filhos: Maria Vitória (1864 – 1902), nascida em Alagoas, e o futuro caixeiro-viajante Alfredo Ducasble Filho (18? – 19?), nascido em Pernambuco.

 

 

 

Acessando o link para as fotografias de Alfredo Duscable disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Pouco se sabe sobre a vinda de Ducasble para o Brasil: teria chegado a Pernambuco em 1873 e atuou na cidade nas décadas de 1870 a 1890. Além de fotógrafo, era colecionador e antiquário. Foi professor de desenho e caligrafia no Liceu de Artes e Ofícios e na Escola Propagadora do Recife e é de sua autoria o livro Curso Prático de Caligrafia. Na década de 1880, participou de exposições no Brasil e no exterior, tendo obtido medalha de prata na Exposição Internacional de Antuérpia, em 1885. Foi possivelmente a primeira pessoa a divulgar internacionalmente o mobiliário colonial brasileiro ao enviar, além de pinturas e jóias, móveis e outras antiguidades de seu acervo para a Exposição Universal de Paris em 1889, da qual foi delegado oficial da província de Pernambuco. Na ocasião, recebeu a medalha de prata por seu panorama de Pernambuco e por retratos expostos. Algumas vistas do Recife de sua autoria foram incluídas no Album de vues du Brésil, que organizado pelo Barão do Rio Branco (1945 – 1912) e lançado em Paris na ocasião da Exposição Universal, fazia parte da segunda edição de Le Brésil, extrato da Grande Enciclopédia, trabalho dirigido pelo geógrafo Émile Levasseur  (1828-1911), para o qual o barão havia colaborado. Nesse mesmo ano, 1889, Ducasble teria ido viver em Paris.

 

 

Desenhos publicados no Album de vues du Brésil baseados em fotografias de Ducasble

(Páginas 53 a 56 do PDF)

 

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Em 1900, foi anunciada a existência de uma sucursal da Galeria Ducasble, na Avenue de la Grande Armée, em Paris. Em 1893, ano do falecimento de sua mulher, a Galeria Ducasble do Recife foi vendida para o fotógrafo Ludgero Jardim da Costa (18? – 19?).

 

Cronologia de Alfredo Ducasble (18? – 19?)

 

1873 – J. A. Ducasble teria chegado em Pernambuco vindo da Europa no vapor Rio Grande (Diário de Pernambuco, 11 de março de 1873, terceira coluna).

1874 – No Recife, A. Ducasble, sua mulher e três filhos embarcaram rumo ao sul do país, no vapor inglês Illimani (A Província – Órgão do Partido Liberal, 27 de janeiro de 1874, primeira coluna).

No Rio de Janeiro, João Alfredo Ducasble, sua senhora e um filho embarcaram no vapor Pará rumo a Pernambuco (Jornal do Commercio, 20 de junho de 1874).

Foi anunciado que Ducasble era consertador de máquinas de costura e que a modista Madame Ducasble havia chegado da corte e convidava as senhoras que desejassem vestir-se elegantemente para a visitarem na rua da Imperatriz, nº 8, mesmo local onde Ducasble atendia (Jornal de Recife, 9 de julho e 13 de julho de 1874).

 

 

 

Foi publicado um anúncio de Ducasble oferecendo aulas de caligrafia e de francês no primeiro andar da rua da Imperatriz, nº 1, onde sua esposa tinha um estabelecimento de moda (Jornal de Recife, 6 de agosto e 11 de agosto de 1874).

 

 

1875 – João Alfredo Ducasble trabalhava como desenhista na Repartição das Obras de Conservação dos Portos da Província (Almanak Administrativo, Mercantil, Industrial e Agrícola (PE), 1875).

Sua esposa, a modista Urraca Ducasble (18? – 1893), participava a mudança de seu estabelecimento de moda para a rua Barão da Vitória, 52, no 1º andar, a partir do dia 12 de julho de 1875 (A Província – Órgão do Partido Liberal, 11 de julho de 1875). Dois anos depois, mudou-se para o número 65 da mesma rua.

1876 - Vindo no navio Rio Grande, o francês Alfred Ducasble, chegou ao Rio de Janeiro (Diário do Rio de Janeiro, 13 de fevereiro de 1876, quinta coluna).

1877 - Foi publicado um anúncio onde Ducasble oferecia-se para fazer qualquer levantamento em plantas de engenho, nivelamentos, projetos de casas de campo, chalés e qualquer desenho de arquitetura, mecânico e topográfico (Jornal de Recife, 18 de abril de 1877, quinta coluna). Continuava lecionando caligrafia e desenho em colégios, em casas particulares e em sua casa (Jornal de Recife, 23 de abril de 1877, terceira coluna). Mudou-se para a Rua Barão da Vitória (ex- rua Nova), nº 65, 1º andar (Jornal de Recife, 16 de outubro de 1877, quarta coluna).

Ducasble participou de uma celebração na Escola Filotécnica (Jornal de Recife, 16 de novembro de 1877, quarta coluna).

Imprimiu o Curso Prático de Caligrafia, de sua autoria, aprovado pelo Conselho Superior de Instrução Pública de Pernambuco (Jornal de Recife, 28 de novembro de 1877, última coluna).

1878 - Durante uma reunião do Conselho de Instrução Pública da província da Bahia, foi lido um ofício mandando informar o requerimento de Alfred Ducasble, que se propõe a ensinar em 30 lições a caligrafia nas escolas, nos dois externatos e aos professores públicos, e oferece à venda por 1$500 réis cada exemplar da coleção de seus traslados. A venda não foi realizada (O Monitor, 28 de abril de 1878, terceira coluna e O Monitor, 18 de junho de 1878, sexta coluna).

Em Salvador, Alfredo Ducasble embarcou no vapor francês Niger rumo ao Recife (O Monitor, 20 de junho de 1878, quarta coluna e A Província – Órgão do Partido Liberal, de 1878, 20 de junho de 1878, segunda coluna).

Anunciou seus serviços como professor de caligrafia e de desenho, estabelecendo curtos prazos para ensinar as matérias (Jornal de Recife, 5 de julho de 1878, quinta coluna).

 

No fim dessa década, provavelmente, o alemão Rodolpho Frederico Francisco Lindemann (1852 – 19?)  trabalhava como fotógrafo junto a Alfredo Ducasble.

1880 – Anunciou a realização de Retratos Inalteráveis na Photographia Parisiense pelo processo de cromotipia, na rua Barão da Vitória, 65.

 

 

Em 1º de março, anunciou-se que na Photographia Parisiense, de Alfredo Ducasble & C., fazia-se retratos de pessoas falecidas, de grupos, retratos em domicílio e de paisagens e por todos os sistemas mais modernos. A dúzia de retratos custava 5 $ (Jornal de Recife, 1º de março de 1880).

1881 - Teria pretendido estender sua atuação para a Paraíba onde seria seu representante ou sócio Manoel Bezerra de Mello.

No Liceu de Artes e Ofícios do Recife, Ducasble era professor de caligrafia e de desenho linear. Doou para a biblioteca da instituição 10 exemplares de seu livro Curso de Caligrafia (Diário de Pernambuco, 18 de fevereiro de 1881, segunda coluna e Diário de Pernambuco, 22 de março de 1881, segunda coluna).

Exposição, no estabelecimento fotográfico de M. Alfred Ducasble , que de dia em dia vem caminhando num progresso rápido a ponto de já ser o primeiro da província, de dois quadros do pintor paraibano Aurélio de Figueiredo (1856 – 1916), Saudade e Melancolia (Diário de Pernambuco, 19 de abril de 1881, primeira coluna). Meses depois, por motivos de saúde, o pintor foi para a Paraíba e deixou como contato no Recife a Galeria Ducasble (Diário de Pernambuco, 8 de setembro de 1881, quarta coluna).

Participou da Exposição da Indústria Nacional e da Exposição Provincial de Pernambuco provavelmente com fotografias. Na última conquistou a medalha de mérito.

1882 – Participou da Primeira Exposição Artístico-Industrial promovida pela Imperial Sociedade dos Artistas Mecânicos e Liberais de Pernambuco e conquistou uma medalha de mérito pelos retratos de seu estabelecimento fotográfico. Alberto Henschel (1827 – 1882) também recebeu uma medalha de mérito pelas vistas fotográficas que expôs (Diário de Pernambuco, 17 de janeiro de 1882, segunda colunaJornal de Recife, 22 de janeiro de 1882, última coluna).

Uma menina de cor preta com aproximadamente 10 anos chamada Josefa foi abandonada na casa do casal Ducasble (Diário de Pernambuco, 14 de março de 1882, quinta coluna).

Ducasble foi laureado com o primeiro prêmio na Exposição Artístico-Industrial do Rio de Janeiro (Jornal de Recife, 14 de maio de 1884, última coluna).

Ducasble doou livros para a Biblioteca do Liceu de Artes e Ofícios de Pernambuco, inaugurada em 11 de dezembro de 1881 e aberta em 10 de abril de 1882 (Jornal de Recife, 4 de maio de 1882, penúltima coluna).

Fazia parte da comissão do Club Abolicionista encarregada de angariar donativos no bairro de Santo Antônio, no Recife (Jornal do Recife, 13 de junho de 1882, penúltima coluna).

Integrava o comitê nomeado pelo Consulado da França para organizar a Festa Nacional de 14 de julho (Jornal de Recife, 28 de junho de 1882, quinta coluna). Foi elogiado pelo trabalho verdadeiramente artístico - uma miniatura que foi ofertada aos participantes da festa (Jornal de Recife, de 16 de julho de 1882, penúltima coluna).

Na comemoração dos 41 anos da Imperial Sociedade dos Artistas Mecânicos e Liberais de Pernambuco, foi realizada uma exposição com quatro salas. A primeira sala, que era a principal, denominada Galeria Ducasble apresentava um quadro de fotografias produzidas por Ducasble, quadros a óleo do paraibano Aurélio de Figueiredo (1856 – 1916), do francês radicado em Pernambuco  Eugène Lassailly (18? – 19?) e do pernambucano José Jerônimo Telles Júnior (1851 – 1914), além de trabalhos a crayon de Benevenuto Cabral e estudos, também a crayon, de Maria Tasso (Jornal do Recife, 19 de dezembro de 1882, quinta coluna).

1883 – Fotografias porcelana produzidas por Ducasble eram um dos prêmios oferecidos em um sorteio da Livraria e Papelaria de G. Laporte & C. (Jornal de Recife, 4 de fevereiro de 1883, quinta coluna).

Ducasble partiu para a Europa a bordo do vapor inglês La Plata (Diário de Pernambuco, 16 de fevereiro de 1883, segunda coluna).

Na Galeria Ducasble, exposição de um quadro pintado por Leopoldino de Faria (1836 – 1911), retratando o diretor do Arsenal de Marinha (Jornal de Recife, 8 de junho de 1882, penúltima coluna).

Ducasble chegou da Europa a bordo do vapor francês Gironde (Jornal de Recife, 5 de agosto de 1883, última coluna). Publicou que retomava a direção de seu estabelecimento e que estava recuperado de seus incômodos. Informava que havia visitado os melhores estabelecimentos das principais cidades europeias, onde havia praticado com grandes mestres de fotografia e pintura. Anunciou ter trazido modernos equipamentos e que havia se dedicado ao estudo dos processos instantâneos podendo tirar facilmente o retrato de toda e qualquer criança com expressão e semelhança (Jornal de Recife, 10 de agosto de 1883, quinta coluna).

 

 

O pintor francês Lassaily havia chegado da França e anunciava que quem precisasse de seus serviços poderia procurá-lo na Photographia Parisienne (Jornal de Recife, 13 de novembro de 1883, última coluna).

Ducasble anunciou que o quadro dos bachareis do 5º ano encontrava-se em sua galeria e que até o fim do mês receberia o pagamento da segunda prestação (Jornal de Recife, 17 de novembro de 1883, terceira coluna).

1884 - Anúncio da Galeria Ducasble informava que a partir de qualquer fotografia produzia retratos a óleo, crayon e nanquim (Jornal de Recife, 9 de maio de 1884).

Ele, Menna da Costa e Hermina Costa formavam a comissão da Imperial Sociedade dos Artistas Mecânicos e Liberais para arrecadação dos impostos devidos por fotógrafos e retratistas (Jornal de Recife, 11 de julho de 1884, última coluna).

Ducasble fez a importação de espelhos, que chegaram no vapor francês Ville de Pernambuco (Jornal de Recife, 11 de julho de 1884, segunda coluna). Ao longo do ano foram noticiadas outras importações.

Na Galeria Ducasble, exposição de um belo retrato a óleo feito na Europa de Laurentino José de Miranda, que iria ornar a sala de sessões da Companhia de Ferrovia de Olinda (Diário de Pernambuco, 16 de maio de 1884). Exposição também de um bonito retrato a óleo do conselheiro Theodoro Machado Freire Pereira da Silva, que seria levado para o salão de honra da Câmara Municipal do Recife (Jornal de Recife, 14 de setembro de 1884, quarta coluna).

 

 

1885 – Estavam expostos na Galeria Ducasble os retratos a óleo dos advogados José Mariano Carneiro da Cunha (1850 – 1912) e Félix de Valois Correia (18? – 19?), encomendados pela Imperial Sociedade de Artistas Mecânicos e Liberais em homenagem aos serviços prestados por eles. Seriam colocados no salão de honra da referida instituição no dia do aniversário da mesma, em 18 de janeiro (Jornal de Recife, 14 de janeiro de 1885, quarta coluna).

Publicou um anúncio intitulado Antiguidades, onde anunciava interesse na compra de objetos antigos como sejam: pratos, cadeiras de sofá, vasos e candelabros de bronze, pinturas antigas e modernas e qualquer objeto artístico (Jornal de Recife, 25 de fevereiro de 1885, sexta coluna e Diário de Pernambuco, 6 de março de 1885). Esse anúncio foi publicado várias vezes ao longo do ano.

 

 

Participou da Exposição Internacional de Antuérpia, realizada entre 2 de maio e 2 de novembro de 1885, e ganhou o diploma de medalha de prata na Classe 7 – Fotografias e seus aparelhos (Diário de Pernambuco, 29 de outubro de 1885, terceira colunaJornal de Recife, 7 de abril de 1887, quinta coluna).

A carta geral do Brasil assim como outra da província de São Paulo não deixam nada a desejar como gravura topográfica. Saíram das oficinas dos senhores Paul Robin & O, do Rio de Janeiro que obtiveram por seus trabalhos uma medalha de prata; a mesma recompensa foi atribuída aos senhores Marc Ferrez e Ducasbles por suas belas fotografias’ (Anvers à l´Exposition Universelle, 1886).

A exposição de uma reprodução do quadro Sono de antíope, do pintor renascentista Correggio (c. 1439 – 1534), na Galeria Ducasble, causou polêmica por ser considerado imoral por parte do público e por essa causa deixou de frequentar o estabelecimento. O advogado e ex-presidente das províncias do Piauí, do Ceará e de Pernambuco Diogo Cavalcanti de Albuquerque (1829 – 1889) publicou uma crítica a esse comportamento, segundo ele, inspirado por uma nudofobia. No mesmo artigo critica o pouco incentivo do governo às artes e elogia o estabelecimento de Ducasble (Diário de Pernambuco, 27 de junho de 1885).

 

 

 

 

Continuava trabalhando como professor do Liceu de Artes e Ofícios (Diário de Pernambuco, 14 de outubro de 1885 e Diário de Pernambuco, 3 de julho de 1886).

Executou o retrato do sr. Epaminondas Gouvêia, que seria colocado na Igreja do Carmo. Foi encomendado pela Irmandade de Nossa Senhora da Luz (Jornal de Recife, 25 de outubro de 1885, quinta coluna).

Participou, na Seção de Fotografia, da 5ª Exposição Artístico-Industrial, promovida pela Imperial Sociedade dos Artistas Mecânicos e Liberais, quando obteve o diploma de Progresso (Jornal de Recife, 31 de dezembro de 1885, quinta coluna).

O larápio José Braz da Silva célebre autor do roubo que sofreu a atriz Helena Balsemão foi retratado por Ducasble (Diário de Pernambuco, 3 de julho de 1885, quarta coluna).

Ducasble vendeu à Irmandade de Nossa Senhora da Conceição cadeiras de carvalho revestidas de acentuados desenhos de talha (Jornal de Recife, 9 de dezembro de 1926, primeira coluna).

1886 – Na exposição fotográfica no Palácio de Cristal, na cidade do Porto, em Portugal, Ducasble foi contemplado com uma menção honrosa (Gazeta de Notícias, 27 de junho de 1886, terceira coluna).

Produziu um retrato da atriz portuguesa Lucinda Furtado Coelho (1850 – 1928) que constava de um jornal dedicado a ela (Jornal de Recife, 1º de julho de 1886, penúltima coluna).

Na Galeria Ducasble, exposição de um retrato a óleo de Diogo Cavalcanti de Albuquerque executado em Paris por um brasileiro. Também na galeria, exposição de trabalhos do pintor cearense Irineu de Souza (1850 – 1924) e de uma fotografia do Teatro Santa Isabel na ocasião da sessão fúnebre promovida União Federal Abolicionista em honra a José Bonifácio (Diário de Pernambuco, 9 de abril de 1886, primeira colunaJornal de Recife, 18 de setembro, quinta coluna e Jornal de Recife, 3 de dezembro de 1886, segunda coluna).

Participou da Exposição Sul-Americana de Berlim e conquistou o primeiro prêmio e a medalha de ouro (Diário de Pernambuco, 21 de agosto de 1886, penúltima colunaJornal do Commercio, 31 de março de 1887, última coluna e Jornal de Recife, 16 de março de 1888)

1887 – Publicação de artigos de Ducasble na quarta, na sexta e na oitava edição da Revista do Norte

Publicação de uma carta do pintor Telles Júnior ao mestre Alfredo Ducasble sobre o artigo escrito sobre os quadros de Barreto Sampaio na Revista do Norte, 10 de fevereiro de 1887. Telles Junior sentiu-se ofendido pela crítica de Ducasble (Jornal de Recife, 14 de março, quinta coluna).

Na Galeria Ducasble, exposição de retratos pintado a óleo por Bannel de Paris (Jornal de Recife, 13 de abril de 1887, quinta coluna).

Ducasble ofertou ao Instituto Arqueológico Geográfico de Pernambuco uma fotografia da inscrição da Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, no Monte Guararapes (Jornal de Recife, 20 de abril de 1887, primeira coluna).

Chegada no vapor Ville de Bahia de uma encomenda de quadros feita por Ducasble (Jornal de Recife, 7 de junho de 1887, quarta coluna).

Em uma carta publicada por Feliciano de Azevedo Gomes para a família de Emílio Soares, alfaiate e genro de Ducasble, casado com sua filha Maria Victória, foi revelado que Ducasble sofria dos nervos. Feliciano acusou Ducasble de calúnia no episódio envolvendo um surto de loucura de Soares e o desafiou para um duelo. Ducasble declarou jamais ter caluniado Feliciano, a quem continuava a considerar um cavalheiro muito distinto e honrado (Jornal de Recife, 14 de junho, última coluna;  15 de junho, penúltima coluna; e 18 de junho, terceira coluna).

O escritor português Ramalho Ortigão (1936 – 1915) em sua vista ao Recife foi à Galeria Ducasble onde foi fotografado. Estava com Joaquim Nabuco (Jornal de Recife, 20 de novembro de 1887, segunda coluna).

Na Galeria Ducasble, exposição de um retrato de Adolfo Manta, encomendado por seus ex-escravos, recém libertos por ele (Diário de Pernambuco, 7 de dezembro de 1887, última coluna).

1888 – Publicação de uma propaganda da Galeira Ducasble com lista de prêmios (Jornal de Recife, 16 de março de 1888). Foi publicada diversas vezes ao longo do ano no Jornal de Recife e no Diário de Pernambuco.

 

 

Na Galerie Artistique de Ducasble, exposição de dois bustos a óleo dos abolicionistas pernambucanos Joaquim Nabuco (1849 – 1910) e de José Mariano Carneiro da Cunha (1850 – 1912), realizados por Ducasble (Jornal de Recife, 30 de maio de 1888, quinta coluna).

 

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Joaquim Nabuco e José Mariano Carneiro da Cunha fotografados por Ducasble / Acervo Fundação Joaquim Nabuco

 

 

O artista, pintor e decorador francês Eugène Lassailly  publicou uma propaganda de seus serviços e um dos lugares onde poderia ser contactado era a Galeria Ducasble (Jornal de Recife, 19 de junho de 1888, quarta coluna).

Ducasble foi um dos contribuintes da subscrição agenciada no Recife por Luiz Cintra a fim de serem ofertadas aos médicos que cuidaram da saúde de dom Pedro II (Diário de Pernambuco, 28 de agosto de 1888, quinta coluna).

Participou da Comissão Pernambucana para a representação da província na Exposição Universal de Paris (Diário de Pernambuco, 23 de setembro de 1888, última coluna e Jornal de Recife, 11 de janeiro de 1889, primeira coluna).

Ducasble  lecionava caligrafia na Escola Normal da Sociedade Propagadora de Instrução Pública (Diário de Pernambuco, 23 de novembro de 1888, última coluna).

Em anúncio, Ducasble atestava ter feito com sucesso uso do Elixir Cabeça de Negro sedativo contra o reumatismo, fórmula do dr. Santa Rosa (Jornal do Commercio, 12 de dezembro de 1888).

1889 – Abertura da exposição prévia dos produtos que deveriam ir para a Exposição Universal de Paris, dentre eles objetos artísticos de Ducasble, que recebeu o diploma de 1ª classe (Jornal do Povo, 14 de janeiro de 1889, terceira coluna, Diário de Pernambuco, 15 de janeiro de 1889, quarta coluna; e Diário de Pernambuco, 5 de fevereiro de 1889, segunda coluna).

Foi eleito conselheiro da diretoria da Imperial Sociedade de Artistas Mecânicos e Liberais (Jornal de Recife, 26 de janeiro de 1889, terceira coluna).

Foi de sua autoria a fotografia do projeto do monumento em homenagem à abolição da escravidão que seria erigido em Olinda (Jornal de Recife, 10 de fevereiro de 1889, primeira coluna).

Ducasble foi escolhido delegado da Comissão Pernambucana para a representação da província na Exposição Universal de Paris (Diário de Pernambuco, 3 de maio de 1889, penúltima coluna).

Ducasble produziu uma fotografia do pessoal da Companhia de Bombeiros (Jornal do Povo, 17 de maio de 1889, segunda coluna).

Na Exposição Universal de Paris, realizada entre 6 de maio e 31 de outubro de 1889, ganhou medalha de prata por seu panorama de Pernambuco e por retratos expostos e também por lenços bordados e rendas. Além disso, expôs 5 quadros, móveis, jóias e antiguidades (Diário de Pernambuco, 23 de outubro, quarta coluna, e Jornal de Recife, 24 de outubro de 1889, penúltima coluna). Segunda a Revista do Patrimônio Artístico e Histórico Nacional de 1946, Ducasble talvez tenha sido o primeiro a enviar peças antigas brasileiras ou luso-brasileiras para serem mostradas fora do país. Nessa mesma exposição, o fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923) participou com vistas do Rio de Janeiro, vistas marinhas e paisagens e, de acordo com Maria Inez Turazzi, recebeu a medalha de bronze. Segundo o Auxiliador da Indústria Nacional, ele teria recebido a medalha de prata (O Auxiliador da Indústria Nacional, 1889). O fotógrafo Felipe Augusto Fidanza (c. 1847 – 1903) recebeu uma medalha de bronze. Outros fotógrafos que participaram foram Albert Richard Dietze (1838 – 1906), Rodolpho Lindemann (c. 1852 – 19?), Nicholson & Ferreira, Joaquim Insley Pacheco  (c. 1830 – 1912) e José Ferreira Guimarães (1841 – 1924). Foi também nessa exposição que a Torre Eiffel, na época a mais alta estrutura do mundo, foi inaugurada.

Ducasble estava presente no banquete realizado em 3 de outubro, no restaurante Voisin para a despedida de Visconde de Cavalcanti (1829 – 1899), presidente do Comissariado Geral do Brasil junto à Exposição Universal de Paris, que retornaria ao Rio de Janeiro (Jornal do Commercio, 24 de outubro de 1889, sexta coluna).

Foi um dos fotógrafos incluídos no livro Album de vues du Brésilbarão do Rio Branco (1845-1912) foi o responsável pelo livro, considerado a última peça para a promoção do Brasil imperial, representando um resumo iconográfico do país e de suas riquezas. Foi um dos livros que inaugurou a ilustração fotográfica do Brasil e é considerado por muitos uma espécie de balanço final do período imperial. Nas palavras do barão, o álbum pretendia “mostrar a fisionomia atual das principais cidades do Brasil e seus arredores. Sob esse aspecto, a presente coleção é a mais completa publicada até hoje”. Trazia também fotografias produzidas por Augusto Riedel (1836 -?)Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912)Marc Ferrez (1843 – 1923) e Rodolpho Lindemann (c. 1852 – 19?), dentre outros. Foi lançado em Paris na ocasião da Exposição Universal de 1889, e fazia parte da segunda edição de Le Brésil, extrato da Grande Enciclopédia, trabalho dirigido pelo geógrafo Émile Levasseur  (1828-1911), para o qual o barão havia colaborado. O Album de vues du Brésil foi o primeiro do gênero publicado depois do Brasil Pitoresco (1861), primeiro livro de fotografia realizado na América Latina, com imagens de Jean Victor Frond (1821 – 1881) e texto do jornalista e político francês Charles Ribeyrolles (1812-1860), reeditado em 1941.

Sua proposta para a confecção do quadro de retratos da turma do 5º ano da Faculdade de Direito foi vencida pela a de Constantino Barza, sucessor do fotógrafo berlinense Alberto Henschel (1827 – 1882) (Jornal de Recife, 19 de julho de 1889, quinta coluna). Em anúncio, Ducasble convidada os quintanistas que quisessem fazer parte do grupo da Torre Eiffel para irem a sua galeria (Jornal de Recife, 20 de agosto de 1889, terceira coluna).

Na Galeria Ducasble, exposição de estudos cenográficos de um ex-aluno da Imperial Academia de Belas Artes do Rio de Janeiro (Diário de Pernambuco, 16 de julho de 1889, última coluna).

Ducasble compareceu em Paris à missa celebrada pelo abade , na Igreja de Saint Augustin, em 25 de julho, a mando do Barão de Penedo, em desagravo ao atentado sofrido por d. Pedro II (Gazeta do Norte, 8 de setembro de 1889, terceira coluna).

Escreveu uma carta informando sobre o sucesso dos produtos pernambucanos exibidos na Exposição Universal de Paris (Diário de Pernambuco, 8 de setembro de 1889, quarta coluna).

Estava à venda na Galeria Ducasble fotografias da armação funerária da Igreja da Penha para as exéquias pela morte de dom Luiz I de Portugal (1838 – 1889) celebradas pela colônia portuguesa do Recife (Diário de Pernambuco, 20 de dezembro de 1889, segunda coluna).

Duscable foi viver em Paris e abriu a farmácia Ducasbline, onde vendia remédios que produziu a partir de seus estudos sobre a flora brasileira e conseguindo a custa a custa de pacientes investigações e meticulosas experiências o conhecimento perfeito das propriedades medicinais de muitas plantas, submeteu-as a processos científicos manipulando assim os medicamentos vendidos em seu estabelecimento parisiense. Segundo carta enviada por Ducasble à redação do jornal A Província – Órgão do Partido Liberal, em dezembro de 1900, seus medicamentos eram aconselhados pelo Instituto Médico de Paris e e estavam obtendo resultado maravilhosos em casos de anemia, bronquite e outras doenças (A Província – Órgão do Partido Liberal, 20 de dezembro de 1900, terceira coluna).

1890 – Foi publicada uma cobrança de impostos relativa ao imóvel que seu estabelecimento fotográfico ocupava na Rua Barão da Vitória, 65 (A Província – Órgão do Partido Liberal, 9 de abril de 1890, sexta coluna).

Na Galeria, Ducasble, exposição de pinturas de paisagens de Frederico Desidério de Barros, cenógrafo da Companhia Heller (Jornal de Recife, 6 de julho de 1890, última coluna). Cerca de 2 meses depois, exposição de pinturas de paisagens do hábil amador e acadêmico José de Castro Paes Barreto (Jornal de Recife, 16 de setembro de 1890, quarta coluna).

Madame Ducasble anunciou sua volta ao Brasil após uma temporada em Paris e a reabertura de seu ateliê de moda no Recife. Havia condescendência nos preços (Diário de Pernambuco, 21 de outubro de 1890, segunda coluna).

No ateliê da Photografia Ducasble, exposição de retratos a óleo dos barões de Itapessuna e de Caiará, realizados por Frederico Ramos a partir de pequenas fotografias (A Província – Órgão do Partido Liberal, 14 de novembro de 1890, segunda coluna).

Foi anunciada a existência de uma sucursal da Galeria Ducasble na avenida de La Grande Armée, em Paris, na França. Também anunciava a venda de antiguidades e de objetos que por afluência de artigos tinham deixado de ir para a Exposição Universal de Paris, no ano anterior (Jornal de Recife, 16 de novembro de 1890, terceira coluna).

1891 – Para exportação 30 litros de licor foram embarcados por Madame Ducasble no vapor francês Equateur, que iria para Paris (Diário de Pernambuco, 5 de maio de 1891, terceira coluna).

Publicação de uma denúncia de Ducasble, que estava em Paris, sobre problemas de pagamento com a Comissão de Pernambuco na Exposição Universal em Paris em 1889, do qual havia sido representante diante da Comissão Central de Paris (Jornal de Recife, 7 de maio de 1891, terceira coluna). Dois dias depois, a comissão publicou sua versão dos fatos (Jornal de Recife, 9 de maio de 1891, primeira coluna).

 

 

1892 – Ducasble presenteou o Diário de Pernambuco com uma fotografia do cadafalso ereto na matriz de Boa Vista por ocasião das exéquias em memória de dom Pedro de Alcântara (Diário de Pernambuco, 5 de fevereiro de 1892, primeira coluna).

Foi no ateliê de Ducasble, que o fotógrafo português naturalizado brasileiro Francisco du Bocage (1860 – 1919), recém chegado no Recife a bordo do vapor nacional Olinda, vindo do sul do Brasil (Diário de Pernambuco, 17 de fevereiro de 1892, na segunda coluna) expôs chapéus e capotas (Diário de Pernambuco, 24 de fevereiro de 1892, quarta coluna e Jornal do Recife, 24 de fevereiro de 1892, terceira coluna).

 

 

Publicação de uma propaganda da Galeria Ducasble onde foram destacados os prêmios conferidos a ela e o fato de ter sempre à escolha de seus numerosíssimo fregueses fotografias artísticas onde o belo resplandece ante os efeitos de luz bem combinada e verdadeiros modelos que a crítica mais exigente jamais poderá ferir (Jornal de Recife, 30 de agosto de 1892, quarta coluna).

A Photographia Ducasble registrou no Teatro Santa Isabel, o pano de anúncios pintado por Libânio do Amaral (? – 1920) para o referido teatro (Jornal de Recife, 28 de outubro de 1892, segunda coluna).

1893 – Falecimento de Urraca, esposa de Ducasble, de meningite. Foi enterrada no Cemitério Público de Santo Amaro e a missa de sétimo dia foi celebrada na matriz da Graça, no Recife (Diário de Pernambuco, 20 de junho de 1893, primeira colunaJornal de Recife, 21 de junho de 1893, sexta coluna; e Diário de Pernambuco, 22 de junho de 1893, penúltima coluna).

A antiga Photographia Ducasble passou a ser dirigida por um fotógrafo de grande prática dispondo para a execução de seus trabalhos de um pessoal técnico competentemente habilitado (Diário de Pernambuco, 3 de outubro de 1893, quinta colunaJornal de Recife, 4 de outubro de 1893). O fotógrafo em questão era Ludgero Jardim da Costa (18? – 19?) (Jornal de Recife, 8 de agosto de 1894, sexta coluna).

 

 

 

 

1894 – Representada pelos parentes presentes e ausentes, foi celebrada uma missa pelo primeiro ano da morte de Urraca Ducasble (Diário de Pernambuco, 17 de junho de 1894, terceira coluna).

1895 – Casamento civil de Alfredo Ducasble Filho com Maria Hermelinda Magalhães (Jornal de Recife, 18 de setembro de 1895, última coluna).

1898 –  Alfredo Ducasble foi aprovado como benfeitor da Sociedade Propagadora Instrução Pública (Diário de Pernambuco, 25 de janeiro de 1898, segunda coluna).

1900 - Alfredo Ducasble Filho era representante da fábrica O Moinho de Ouro, produtora de chocolates, no Rio de Janeiro (A Província – Órgão do Partido Liberal, 20 de abril de 1900, terceira coluna). Posteriomente, passou a ser representante de um laboratório farmacêutico francês e viajante geral do Almanack Laemmert (A Província – Órgão do Partido Liberal, 5 de março de 1901, penúltima coluna; e A Província – Órgão do Partido Liberal, 25 de agosto de 1910, penúltima coluna).

Realização de um leilão na antiga Photographia Ducasble (A Província – Órgão do Partido Liberal, 12 de dezembro de 1900, primeira coluna).

 

Alfredo Ducasble Filho era o representante no Brasil do grupo Pollaion-Ducasble, de produtos farmacêuticos, sediado em Paris (A Província – Órgão do Partido Liberal, 14 de março de 1901, penúltima coluna).

1902 – A leitura do livro de Ducasble, Curso de caligrafia prática, foi indicado aos alunos pela Instrução Pública de Pernambuco (Diário de Pernambuco, 17 de maio de 1902, quinta coluna). Em 1904 e em 1906 foi adotado pelas escolas municipais do Recife.

Faleceu de nefrite a alagoana Maria Victoria Soares, filha de Ducasble e viúva de Emilio Soares. No anúncio de morte, foi mencionado que seu pai residia em Paris (A Província – Órgão do Partido Liberal, 2 de setembro de 1902, primeira coluna e Diário de Pernambuco, 12 de setembro de 1902, sexta coluna).

1904 - No Rio de Janeiro, com pouco menos de 5 anos, falecimento de Adalgisa Ducasble, filha de Ducasble Filho e neta de Alfredo Ducasble (Jornal do Commercio, 9 de abril de 1904, última coluna).

Alfredo Ducasble Filho e sua família viviam no bairro do Encantado, no Rio de Janeiro. Acolheram uma criança que havia sido maltratada por sua mãe adotiva, mas apesar dos cuidados, ela faleceu (Gazeta de Notícias, 18 de maio de 1905, primeira coluna).

1910 – Na primeira página do jornal A Província – Órgão do Partido Liberal, foi publicada uma fotografia de melhoramentos no Porto de Recife com crédito para Ducasble Filho (A Província – Órgão do Partido Liberal, 30 de agosto de 1910)

1917 – Na Sociedade da Cruz Vermelha, no Rio de Janeiro, Maria Magalhães Ducasble, filha de Ducasble Filho, recebeu o diploma de enfermeira (A Época, 4 de maio de 1917).

1923 – Foi doado ao Instituto Arqueológico de Pernambuco uma coleção de cédulas e moedas que o governo do estado havia comprado de Alfredo Ducasble (Diário de Pernambuco, 6 de abril de 1923, segunda coluna).

1928 – Desquite de Ducasble Filho e Maria (O Paiz, 17 de novembro de 1928, segunda coluna).

1931 – Foi ofertada ao Instituto Arqueológico de Pernambuco uma fotografia produzida por Ducasble, em 1888, de Joaquim Nabuco.  A foto havia pertencido a Antônio Machado Gomes da Silva e seu neto, Adolfo da Silva Neto, a doou para a instituição(Diário de Pernambuco, 17 de dezembro de 1931, primeira coluna).

1933 – Em um artigo sobre o pintor alagoano Rosalvo Ribeiro (1865 – 1915), Ducasble foi citado como seu admirador, que teria batizado uma das obras de Rosalvo de L´innocence (O Dia (PR), 8 de outubro de 1933, terceira coluna).

1946 – Em uma matéria sobre a vida do pintor pernambucano José Jerônimo Telles Júnior (1851 – 1914), a Galeria Ducasble foi citada como um dos lugares mais frequentados por ele  (Diário de Pernambuco, 26 de maio de 1946, gunda coluna).

1951 – Nas memórias de Telles Júnior, na ocasião do centenário de seu nascimento, Ducasble foi citado (Diário de Pernambuco, 2 de agosto de 1951, penúltima coluna)

1956 – Fotografias produzidas por Ducasble foram publicadas no livro, Álbum de Pernambuco e seus arrabaldes, organizado por Gilberto Ferrez (Jornal do Brasil, 4 de novembro de 1956).

1977 – Em Washington, capital dos Estados Unidos, fotografias de Ducasble, Insley Pacheco e Alberto Henschel encontradas na coleção Oliveira Lima foram expostas no Instituto Cultural Brasileiro Americano. Essas fotografias foram redescobertas por acaso pelo diretor da citada instituição, José Neinstein, quando ele foi pesquisar um livro raro sobre o Brasil na Biblioteca da Universidade Católica de Washington, em fins de abril de 1977. (Jornal do Brasil, 29 de junho de 1977, última coluna).

1978 – Publicação, no Diário de Pernambuco, de uma fotografia de Joaquim Nabuco, produzida por Ducasble, em 1887 (Diário de Pernambuco, 17 de setembro de 1978).

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

BECHARA FILHO, Gabriel. Primórdios da fotografia na Paraíba. Correio das Artes – suplemento literário do jornal A União, João Pessoa, 27 de novembro de 1983.

CORNELI, René; MUSSELY, Pierre. Anvers à l´Exposition Universelle. Bruxelles: Typographie et Lithographie Ad Mertens, 1886, pág. 346.

Enciclopédia Itaú Cultural

Guia Geográfico Salvador Antiga

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

KOSSOY, Boris. Realidades e ficções na trama fotográfica. Cotia(SP) : Ateliê Editorial, 1999.

Revista do IPHAN, nº 26 – 1997

Site do Arquivo Nacional

TURAZZI, Maria Inez. Poses e trejeitos: a fotografia e as exposições na era do espetáculo: 1839/1889. Prefácio Pedro Karp Vasquez. Rio de Janeiro: Funarte. Rocco, 1995. 309 p., il. p&b. (Coleção Luz & Reflexão, 4). ISBN 85-85781-08-4.

VASQUEZ, Pedro Karp. A fotografia no Império. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002.

A Galeria dos condenados por Lilia Schwarcz

Com um artigo da historiadora e antropóloga Lilia Moritz Schwarcz, a Brasiliana Fotográfica destaca A Galeria dos condenados, que pertence à Coleção Dona Theresa Christina e está guardada na Divisão de Manuscritos da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, uma das fundadoras do portal. A partir da década de 1870, por iniciativa de Luiz Vianna de Almeida Valle (1827 – 1877), médico e diretor da Casa de Correção da Corte, primeira penitenciária construída no Brasil, os presos da referida instituição passaram a ser fotografados. A partir dessa iniciativa começou a ser formada a Galeria dos condenados,  composta por dois álbuns. Existem dois volumes de cada álbum, um com capa sem decoração e outro com capa decorada com o brasão do Império no centro e com arabescos dourados nas bordas. Cada página traz uma fotografia acompanhada de informações sobre o condenado retratado: seu nome, seu número na Casa de Correção, os delitos dos quais foi acusado, penas e multas, além da data de entrada.  A fotografia era então uma técnica primordial e estratégica para a criminologia e em especial para a antropologia criminal italiana, que pretendia entender o crime a partir de “elementos externos”; os famosos estigmas raciais. 

 

A Galeria dos condenados

 Lilia Moritz Schwarcz*

 

Faz parte do acervo da coleção Dona Theresa Cristina, que hoje se encontra alocada na Divisão de Manuscritos da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, um documento de título no mínimo inusitado: Galeria dos condenados. Medindo cerca de 27 x 20 centímetros, ele inclui dois álbuns, cada qual com dois volumes, ligeiramente diversos: um com uma capa menos vistosa e o outro ricamente adornado por arabescos dourados nas suas bordas e um imponente brasão do Império bem ao centro, o qual confere ao material um ar de oficialidade.

Há também outras especificidades que denotam o cuidado com que a fonte foi produzida. Nos dois volumes mais simples, estão as fotos tiradas em “plano americano” (com os modelos retratados do quadril ou da cintura para cima), bem como imagens que não foram aprovadas por conta de “problemas técnicos”, como o aspecto tremido do modelo, a falta de luz, ou manchas que comprometem o produto final. Essas fotos devem ter passado por algum tipo de censura prévia, uma vez que foram eliminadas daqueles volumes com capas mais caprichadas.

Mas a grande originalidade dessa fonte se encontra no interior da obra. São 320 fotos de presos (sendo 318 homens para apenas duas mulheres) da Casa de Correção da Corte, que foram matriculados na instituição entre os anos de 1859 e 1875. A Galeria é composta por 324 fotos, mas 5 delas aparecem repetidas, uma vez que o condenado retornou duas vezes à Casa de Correção, mas foi utilizado o mesmo registro visual. Todas as fotos encontram-se recortadas em molduras ovais, devidamente coladas nas páginas e adornadas por arabescos feitos à mão. As várias páginas que compõem o álbum, também apresentam arabescos desenhados nas laterais, trazem uma única foto e um texto manuscrito com informações breves, como a data de entrada na instituição, o nome do condenado, seu número registro dentro da Casa, o crime cometido, bem como as penas e multas que lhes foram imputadas. Em alguns casos aparecem, igualmente, comutações de penas, indultos, a data de soltura ou até mesmo referências à morte do condenado.

Por mais que possamos descrever o conteúdo presente neste documento, toda a história que o circunda resta ainda bastante desconhecida. É sabido que d. Pedro II, quando de sua partida para o exílio, em 1889, dividiu toda a sua coleção entre instituições como o Museu Imperial , o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, e, justamente, a Biblioteca Nacional. Mas o motivo e o critério que fizeram com que o monarca entregasse esses álbuns para essa última instituição continua em aberto.

Acessando o link para as fotografias da Galeria de Condenados disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas. 

Vale lembrar que a Casa de Correção da Corte foi a primeira prisão brasileira idealizada com esse fim, e, ao que tudo indica, também a primeira a adquirir uma máquina e construir um laboratório para a produção de fotografias de identificação dos presos. O modelo vinha das penitenciárias europeias, que já usavam a técnica desde os tempos do daguerreótipo, como forma de obter registros mais precisos e objetivos, ademais quando comparadas àqueles obtidos pelos retratos-falados.

A fotografia já tinha se tornado, nesse contexto, uma técnica primordial e estratégica para a criminologia, e em especial para a antropologia criminal italiana, que pretendia entender o crime a partir de “elementos externos”; os famosos estigmas raciais. Até então só se anotavam “signaes” mais superficiais do apenado, o que levava, com grande frequência, a problemas de reconhecimento, tanto em casos de fuga, na prisão de “suspeitos” ou na recondução de convictos.

E talvez d. Pedro II se orgulhasse da nova técnica da fotografia que cada vez mais simbolizava a modernidade. Afinal, ele mesmo era um fotógrafo amador e um adepto da nova técnica. Sendo assim, um álbum como esse poderia representar uma prova cabal da “civilização do Império” e do alto grau de cientificidade que seu soberano imprimia ao “comportamento desviante” em sua jovem nação.

Mas existem outros mistérios em torno da Galeria dos condenados: durante muito tempo não se tinha ideia de quem seria o profissional da Casa responsável por esses serviços. Foi só a partir da descoberta de um relatório do diretor da instituição, datado de maio de 1872, que ficou claro como o técnico era, ele mesmo, um prisioneiro na divisão criminal. Portanto, não apenas um preso foi indicado para fotografar os demais, como seu próprio retrato deve também constar da Galeria. E é preciso concordar que não foi pequeno o empenho que ele teve para se familiarizar não só com uma grande quantidade de substâncias químicas sensíveis, como dominar uma técnica complexa. Excesso ou falta de luz podiam atrapalhar o resultado; o tempo de arranjo da pose, da luz e para a fixação ainda demoravam alguns minutos; sem esquecer a desconfiança que uma máquina como essa deveria causar, ainda mais se os “colegas” tivessem que se submeter a um aparelho, bastante utilizado naquela época, que atava o modelo a uma cadeira e imobilizava o seu pescoço para assim garantir o bom resultado do retrato.

No álbum não aparecem ilustrações acerca do cotidiano da Casa, muito menos das suas instalações. Já “os condenados” estão retratados a partir de alguns ângulos: por vezes surgem contrastados diante de um fundo escuro, por vezes o rosto é tomado de frente, por vezes o modelo vira o rosto para a esquerda, por vezes para a direita. Mas chama atenção a existência de um grande número de negros nesses álbuns, o que é de se esperar num país nesse contexto ainda dominado por uma maioria de escravizados que, não raro, se revoltava contra o sistema. Interessante pensar, pois, como, a despeito do plano americano impor uma espécie de padrão, não raro os modelos apresentam pequenas reações que correspondem a grandes agências diante das lentes. Há aqueles que viram de perfil para destacar suas escarificações e marcas de nação; há aqueles que se enrolam em panos da costa, com seus desenhos geométricos e geralmente bem coloridos, deixando escapar, pelos detalhes, a sua identidade. Alguns retratados também desafiam a “norma” e o aspecto policial que o documento carrega, como no caso de Benedicto Crioulo, condenado à pena de galé, que simplesmente cruza os braços e encara o fotógrafo.

A técnica com certeza seria nova para a maioria deles, senão para todos, mas o profissional devia despertar um sentimento de familiaridade. De toda maneira, tudo colabora para que essas fotos resultem paradoxais. Se o registro pedia seriedade, não é difícil vislumbrar aqueles que cuidam da aparência, e se não sorriem, acabam se impondo pela altivez que apresentam. Esse é o caso de Isabel Jacintha, uma das duas mulheres fotografadas, que lá está para cumprir “pena perpétua”. O que terá feito Jacintha? Matado seu senhor, a exemplo de centenas de escravizadas que com sua rebeldia diziam “não” a um regime de sevícias e humilhações na alcova escravista? Teria envenenado o feitor, como fizeram outras mulheres que conheciam os segredos das ervas e sabiam “amansar” seus capatazes? Não há como responder essas questões, e a frustração do historiador reside no fato do documento se calar e não dizer mais. Entretanto, é possível anotar seu porte elegante, o olhar digno e desafiador, a expressão altiva. Aí estão pequenos sinais, grandes detalhes, daqueles que viveram em regimes de privação e desafiaram o próprio sistema penitenciário feito para que ficassem invisíveis e perdidos no seu silêncio.

A Galeria dos condenados traz em seu nome o arbítrio e o mal-estar que carrega. Mal-estar diante da escravidão, esse sistema que supõe a posse de uma pessoa por outra, e cuja liberdade por vezes, e por mais estranho que pareça, se consegue a partir de um ato, um pequeno movimento ou um gesto no intervalo imprevisto entre a pose exigida e o clique da fotografia.

PS: O historiador Manolo Florentino generosamente disponibilizou um CD com as fotos constantes do álbum. Sandra Sofia Machado Koutsoukos realizou uma pesquisa alentada sobre o material. Destaco seu livro Negros no estúdio do fotógrafo. Campinas, Unicamp, 2010.

 

*Lilia Moritz Schwarcz é antropóloga e historiadora. É autora, entre outros livros, de O espetáculo das raças (1993), As barbas do imperador (1998), O sol do Brasil (2008), Brasil: Uma biografia (com Heloisa Murgel Starling, 2015 ), Lima Barreto: Triste visionário (2017) e organizadora de Dicionário da Escravidão e Liberdade (com Flavio dos Santos Gomes, 2018).

 

 

O médico Luiz Vianna de Almeida Valle (1827 – 1877), diretor da Casa de Correção da Corte de 1868 a 1877 e introdutor da prática de fotografar os presos 

Andrea C.T. Wanderley**

 

Consta nos Relatórios Ministeriais, de março de 1871 (Biblioteca Nacional), referentes ao ano de 1870, que Luiz Vianna de Almeida Valle enviou ao Ministro da Justiça um relatório no qual valorizava sua iniciativa de compra da máquina fotográfica:

” Photographia. Estabeleci na Casa uma machina de photographar, que acha-se já funcionando. V. Ex. compreende perfeitamente as vantagens desta instituição n’uma Penitenciaria qualquer, e que devem ser maiores na da Côrte, onde não existem unicamente condemnados á prisão cellular, mas também a galés e prisão simples”.

 

Notas sobre Luiz Vianna de Almeida Valle na imprensa

Luiz Vianna de Almeida Valle foi acusado de, como subdelegado de polícia, coagir votantes (Diário do Rio de Janeiro, 20 de dezembro de 1860, última coluna).

Pediu como remuneração de seus serviços durante a epidemia de cólera a comenda da Ordem de Cristo ou o oficialato da Ordem da Rosa (Ministério do Império, julho de 1861).

Almeida Valle e o advogado Antônio Ferreira Vianna ofereceram seus serviços aos pobres da Freguesia de Sant´Anna (Arquivo Municipal, 11 de julho de 1861).

Em 1862, era o subdelegado de polícia do 1º distrito da freguesia de Sant´Anna (A Formiga, 19 de julho de 1862, terceira coluna), cargo do qual foi exonerado no ano seguinte (A Actualidade, 22 de junho de 1863, primeira coluna).

Foi nomeado tenente cirurgião do primeiro batalhão de reserva da Guarda Nacional do município da corte (O Constitucional, 26 de março de 1864, terceira coluna).

Tornou-se o diretor da Casa de Correção da Corte substituindo o major Daniel José Thompson (Correio Paulistano, 18 de junho de 1868, segunda coluna). A Casa de Correção do Rio de Janeiro, também chamada Casa de Correção da Corte, teve seu primeiro regulamento aprovado em 6 de julho de 1850 pelo decreto n. 678. Tinha o objetivo de ser uma prisão modelo do Império, onde se executaria a pena de prisão com trabalho, sendo considerada uma das “obras mais úteis e necessárias ao País pela influência do sistema penitenciário sobre os hábitos e a moral dos presos”.

Almeida Valle  foi recebido por d. Pedro II (Correio Mercantil, 13 de julho de 1868, quarta coluna).

Era o secretário de uma comissão presidida pelo Conde da Estrella que tinha a finalidade de celebrar o fim da Guerra do Paraguai e a chegada do Conde d´Eu (1842 – 1922) à corte (Diário do Rio de Janeiro, 7 de abril de 1870).

Era um dos conselheiros da Sociedade Propagadora das Belas-Artes (Diário do Rio de Janeiro, 3 de fevereiro de 1871, quinta coluna).

Em 28 de janeiro de 1871, Almeida Valle foi promovido a oficial da Ordem da Rosa (Diário de São Paulo, 8 de fevereiro de 1871, primeira coluna).

Era um dos fundadores da Associação de Socorros à Invalidez (Diário do Rio de Janeiro, 1º de fevereiro de 1875, última coluna).

Almeida Valle escreveu uma carta ao Diário do Rio de Janeiro explicando as razões da fuga de dois presidiários e elogiando a atuação dos ministros (Diário do Rio de Janeiro, 17 de janeiro de 1876, segunda coluna).

Em 1876, Almeida Valle integrava com José Vieira Couto de Magalhães (1837 -1898) e o brigadeiro Francisco Antônio Raposo (1817 – 1880) uma comissão para a organização de penitenciárias agrícolas, presídios militares e núcleos coloniais (Diário de São Paulo, 28 de setembro de 1876, última coluna).

Foi condecorado com a comenda da Ordem de Nossa Senhora da Conceição (Diário do Rio de Janeiro, 11 de dezembro de 1876, quinta coluna).

No relatório da Comissão das Prisões, Almeida Valle foi elogiado pelo tratamento que dava aos infelizes confiados à sua direção (Diário do Rio de Janeiro, 27 de janeiro de 1877, segunda coluna).

Por estar doente foi afastado da direção do presídio e Bellarmino Braziliense o substituiu. Almeida Valle faleceu em março de 1877 (Diário do Rio de Janeiro, 1º de fevereiro de 1877, sexta coluna e Jornal do Commercio, 16 de abril de 1877, última coluna).

 

**Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

BELARMINO, Gonçalo. A Galeria dos condenados e a institucionalização da memória na Casa de Correção da Corte (1859-1876) – Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Memória Social como requisito Parcial para Obtenção do grau de Mestre em Memória Social do Centro de Ciências Humanas da UNIRIO.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOUTSOUKOS, Sandra. No estúdio do fotógrafo.’Representação e auto-representação de negros livres, forros e escravos no Brasil da segunda metade do século XIX. Volume I  – Tese de Doutorado apresentada na pós-graduação em Multimeios, do Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas, para a obtenção do título de Doutor em Multimeios

Site da Câmara dos Deputados

Site do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro

Site do Arquivo Nacional

O que fica de fora, por João Moreira Salles

Em sua primeira publicação de 2019, a Brasiliana Fotográfica traz para seus leitores uma reflexão do documentarista João Moreira Salles acerca da fotografia Elvira Leopardi Pastore e sua filha Maria Lúcia, produzida pelo italiano radicado no Brasil Vincenzo Pastore (1865 – 1918), em torno de 1908, na rua da Assembleia, na capital paulista. É um registro da mulher e da filha do fotógrafo. João analisa o que deixa-se de fora do campo visual: “O que organiza a cena não está representado na imagem. De certa forma, o elemento mais importante do flagrante não foi flagrado. O que estarão olhando as duas personagens da foto, mulher e filha do fotógrafo? Pastore elidiu a informação – e, nessa elisão, entramos nós”.

Com sua câmara Pastore capturava tipos e costumes de um cotidiano ainda pacato de São Paulo, uma cidade que logo, com o desenvolvimento econômico, mudaria de perfil. Captava as transformações urbanas e humanas da cidade, que passava a ser a metrópole do café. Com seu olhar sensível, o bem sucedido imigrante italiano flagrava trabalhadores de rua como, por exemplo, feirantes, engraxates, vassoureiros e jornaleiros, além de conversas entre mulheres, brincadeiras de crianças e registros de sua família. Pastore, ao retratar pessoas simples do povo, realizou, na época, um trabalho inédito na história da fotografia paulistana.

O que fica de fora

João Moreira Salles*

Para ir direto ao assunto: gosto do que é incompleto. Por exemplo, tomem este conto famoso do guatemalteco Augusto Monterroso:

                            Quando acordou o dinossauro ainda estava lá.

Acabou. É só isso. Quem acordou?  onde? O dinossauro atacará?

Ou este de Hemingway:

                            Vende-se: sapatinhos de bebê, sem uso.

Uma tragédia contida em menos de 40 caracteres. Soa tão pungente porque quase nada foi dito. O que faltou dizer é por nossa conta. Em ambos os casos a imaginação é forçada a trabalhar, como um reservista convocado para a ação.

No mundo das imagens, essa economia narrativa pode ser materializada pelo que se decide deixar fora do campo visual. Um exemplo notável desse modo de contar histórias é a fotografia Elvira Leopardi Pastore e sua filha Maria Lúcia, do italiano radicado no Brasil Vincenzo Pastore. O que organiza a cena não está representado na imagem. De certa forma, o elemento mais importante do flagrante não foi flagrado. O que estarão olhando as duas personagens da foto, mulher e filha do fotógrafo? Pastore elidiu a informação – e, nessa elisão, entramos nós.

 

 

A nota biográfica que acompanha o acervo digital da Coleção Vincenzo Pastore nos informa que ele perambulava pela São Paulo do início do século XX com uma câmera de pequeno formato na mão. Graças a emulsões fotográficas de maior sensibilidade à luz, havia se libertado do estúdio e do tripé. Podia agora registrar a vida vivida nas ruas, ou, como diria o cineasta soviético Dziga Vertov uns anos depois, a respeito do cinema revolucionário que ele próprio inventaria, a vida pega de surpresa, “não ensaiada”.

Acessando o link para as fotografias de Vincenzo Pastore disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Parte considerável da obra de Pastore se compõe de instantâneos urbanos que deslumbrariam Vertov. Para mim, nenhum deles é mais bonito do que este, mãe e filha no jardim de casa. Uma ação foi interrompida e jamais saberemos a razão. A menina está colhendo verduras (ou flores?) com a mãe. Quer continuar, mas alguma coisa acabou de acontecer lá no alto – na casa? No telhado, na árvore, no quintal vizinho? A mãe fixa sua atenção. O sol forte a faz proteger os olhos. Isso sabemos. O resto, não.

Desconfiamos também que Elvira e Maria Lúcia não se dão conta de que estão sendo fotografadas. Pastore as flagra num momento de inconsciência em relação à câmera, adotando um regime de representação que no futuro se tornaria tema de debates intermináveis sobre a existência ou não de uma realidade espontânea, não contaminada pela presença do observador. Em 1908, data provável da foto, esse modo de flagrar o instante é novo e radical. Alguns dos maiores fotógrafos do século XX, de Walker Evans a Cartier-Bresson, tomariam esse partido.

 

 Imagem

A Virgem Anunciada, de Antonello da Messina, 1475-1476 / Galleria Regionale della Sicilia, Palermo.

Há uns anos escrevi sobre a Virgem Anunciada de Antonello da Messina. Poucas imagens do Quattrocento italiano são tão belas. Vemos apenas a Virgem, e ela nos vê. Diante dela, o Anjo somos nós. Significa que fomos nós que lhe demos a notícia –  e a notícia é terrível. Com a mão direita Maria repele o Anjo, nos repele. Ela agora sabe e não quer companhia. Maria está irremediavelmente só, numa dor que não se compartilha. Com a mão esquerda, fecha o manto, esconde o corpo e nos exclui. Seu filho, ela sabe, um dia morrerá diante dela. Sua tristeza a leva para longe de nós. Talvez seja a personagem mais triste da história da pintura.

Lembrei-me dela ao ver a fotografia de Pastore. Não há tristeza aqui e a imagem tampouco nos implica, ao contrário do que faz a de Antonello. As duas são cenas silenciosas – como se existissem numa suspensão do tempo –, mas também não é isso o que as une na minha imaginação. É o extracampo, a lacuna. O que ficou de fora.

 

O escritor Amós Oz gosta de citar estes versos do poeta Yehuda Amichai:

 

                Ali onde estamos perfeitamente certos

               não crescerão nunca

               flores na primavera.

 

Não ter acesso a tudo diminui esse risco. Sob certo ponto de vista, a flor (ou a verdura?) na cesta de Maria Lúcia dependem dessa limitação.

 

*João Moreira Salles é documentarista e editor da revista piauí.

 

Cronologia do fotógrafo Vincenzo Pastore (1865 – 1918)

 

5 de agosto de 1865 – Nascimento de Vincenzo Pastore, em Casamassima, na região de Puglia, na Itália, filho de Francesco Pastore e Costanza Massara.

1890 – Pastore chegou ao Brasil, em São Paulo, provavelmente no início dessa década, quando houve um grande fluxo de imigração de italianos para a cidade, em busca de novas oportunidades de trabalho. Entre sua chegada ao Brasil e sua morte, em 1918, volta algumas vezes à Itália.

1894 – Iniciou suas atividades de fotógrafo em São Paulo.

1898 – Pastore tem um estabelecimento fotográfico na Itália, em Potenza, na região de Basilicata. Casou-se com Elvira Leopardi Pastore (1876-1972) com quem teve 10 filhos: Costanza (1899-?), Beatriz (1902-?), Maria Lucia (1903-1988), Francisco (1905-1985), Pion Donato (1906-?), Eleonora ( 1908-1992), Olga (1909-?), Carmelita (1910 -?), Dante (1912-?) e Redento (1915-1918).

1899 -  Voltou para São Paulo.

Recebeu uma carta protocolada do município de Potenza, transcrevendo carta do prefeito agradecendo pelo retrato do rei, que seria colocado na sala do Conselho Provincial.

1900 – Possuia um estabelecimento fotográfico na Rua da Assembleia, nº 12 (depois rua Rodrigo Silva), onde também residia. Em nota no Estado de São Paulo, edições de 22 e 23 de outubro de 1900, anunciava: “Dá de presente aos seus clientes seis photographias / novo formato Elena, em elegantíssimos cartõezinhos ornados, só 4$500 e por poucos dias”.

Sua esposa, Elvira, trabalhava no estúdio e era a responsável pelos serviços de fotopintura e acabamento. Era ela, também, que registrava em um caderno de anotações, intitulado “A arte de fotografar e revelar”, o trabalho realizado no laboratório e as técnicas de fotopintura.

1905 – Recebeu uma carta do Consulado Geral da Itália em São Paulo, transmitindo os agradecimentos do Ministro da Casa Real pelo envio de fotos de índios bororos.

1906 - Recebeu uma carta de Giacomo della Chiesa (1854 – 1922), futuro papa Bento XV, agradecendo o envio de fotografias de índios bororós para o papa Pio X.

1907 – Inauguração de um novo estúdio, na Rua Direita nº 24-A. Em notas sobre a abertura do novo estabelecimento, foi anunciada a distribuição de Retratos Mimosos, pequenas fotos com moldura especial de flores e arabescos, a cada visitante. Posteriormente, Pastore abriu um novo estúdio na Praça da República, nº 95.

1908 – Participou da Exposição Nacional, realizada no Rio de Janeiro, em comemoração ao centenário da abertura dos portos no Brasil, com um conjunto de fotopinturas e trabalhos de grandes dimensões.

Realizou também um concurso de beleza infantil, do dia 10 de maio a 10 de julho, em seu ateliê fotográfico de São Paulo (O Paiz, edição de 8 de maio de 1908, última nota da primeira coluna).

1911 – Ganhou a medalha de bronze na Espozione Internazionale delle industrie e dell lavoro, em Turim, na Itália.

1914 – Viajou com a família para a Europa (Correio Paulistano, edição de 10 de fevereiro de 1914, na terceira coluna, sob o título “Hóspedes e Viajantes” ). Em novembro, inaugurou o estabelecimento Fotografia Italo-Americana – ai Due Mondi, na Via Sparano, nº 117, em Bari, na Itália. O nome do estúdio italiano indicava sua condição de imigrante bem sucedido, que pertencia a dois mundos. Realizou uma grande exposição de fotografias.

1915 – Devido à Primeira Guerra Mundial, encerrou as atividades na Itália e voltou a São Paulo.

1916 - Sob os títulos “Bellezas Paulistanas”, “Melancholia”, “Quem é a moça dos óculos pretos? e “Oração”, foram publicadas fotografias de autoria de Pastore, na revista Cigarra, nas edições  de 31 de março 30 de abril  , 17 de agosto14 de setembro e 26 de outubro.

No dia 17 de junho, foi publicada no O Estado de São Paulo, a seguinte nota: “O Sr. Vincenzo Pastore, proprietario da Photographia Pastore, a rua Direita, recebeu communicação official, do sr. Giannetto Cavasola, ministro da Agricultura da Italia, e do prefeito da provincia de Bari, de que, a 4 de maio passado, foi nomeado pelo duque de Genova, principe regente, cavalheiro da Ordem da Corôa da Italia. O sr. Pastore é muito conhecido nesta capital, onde conta com muitas amizades. Em 1914, o sr. Pastore fez, em Bari, uma grande exposição italo-brasileira de photographias, que mereceu francos elogios da imprensa. Os seus esforços acabam de ser merecidamente recompensados”. Em 18 de dezembro, o prêmio foi concedido.

1918 – Em 15 de janeiro, Pastore faleceu, em São Paulo, devido a complicações após uma cirurgia de hérnia. Era alérgico e foi anestesiado com clorofórmio (Correio Paulistano, 19 de janeiro de 1918, na terceira coluna).

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

As versões diurna e noturna na fotografia de Revert Henrique Klumb

O fotógrafo francês Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886) mudou-se definitivamente para Petrópolis, em 1866. Deste ano até 1874, produziu uma documentação extensa da cidade e fotografou a paisagem urbana de Petrópolis, acrescentando efeitos noturnos às imagens, uma importante inovação. Essa série é considerada extremamente significativa do ponto de vista estético e dos limites da linguagem na época. A Brasiliana Fotográfica destaca a fotografia “Quitandinha, Córrego Seco”, em suas versões diurna e noturna, para demonstrar essa manipulação deliberada do fotógrafo. Além disso, o portal convida o leitor a ouvir o comentário Os efeitos de Klumb, feito por Sérgio Burgi, um de seus curadores e Coordenador de Fotografia do Instituto Moreira Salles. Ele ressalta a importância da inovação e explica como Klumb conseguia esse efeito – trabalhando com um controle muito apurado da exposição e acrescentando, a partir de intervenção manual, efeitos de iluminação artificial: a iluminação dos lampiões nas ruas, a luz de velas nos interiores das casa e a própria lua.

 

 

 

 

Klumb expôs a série de Petrópolis em 1875 ( O Globo, de 10 de janeiro de 1875 , na segunda coluna, O Mercantil, de 6 e 9 janeiro de 1875  e de 6 de fevereiro de 1875). Dom Pedro II (1825 – 1891) e a imperatriz Tereza Cristina (1822 – 1889) visitaram a exposição ( O Mercantil, de 10 de janeiro de 1875, na terceira coluna).

 

 

 

Acessando o link para as fotografias de Revert Henrique Klumb disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

 

Para saber mais sobre Klumb, acesse o artigo Revert Henrique Klumb, o fotógrafo da família imperial do Brasil, publicado na Brasiliana Fotográfica, em 31 de agosto de 2016.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Uma homenagem aos 175 anos de Marc Ferrez (7 de dezembro de 1843 – 12 de janeiro de 1923)

A Brasiliana Fotográfica homenageia os 175 anos de nascimento do brilhante cronista visual Marc Ferrez (1843 – 1923), destacando as publicações do portal relativas ao fotógrafo e disponibilizando um artigo sobre ele de autoria de Sérgio Burgi, Coordenador de Fotografia do Instituto Moreira Salles, uma das instituições fundadoras do portal. A vasta e abrangente obra iconográfica de Ferrez se equipara a dos maiores nomes da fotografia do mundo. Foi o principal fotógrafo das paisagens e dos costumes cariocas da segunda metade do século XIX e do início do século XX.  Outro segmento de sua obra iconográfica registrou as várias regiões do Brasil – ele foi o único fotógrafo do século XIX que percorreu todas as regiões do país, tendo sido, no referido século, o principal responsável pela divulgação da imagem do país no exterior. Em meados dos anos 1870, integrou a Comissão Geológica do Império. Era Fotógrafo da Marinha Imperial. Faleceu em 12 de janeiro de 1923.

 

 

Acessando o link para as fotografias de Marc Ferrez disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

MARC FERREZ

Sergio Burgi*

 

Mais conhecido por suas imagens icônicas da cidade do Rio de Janeiro e de seu exuberante entorno, Marc Ferrez foi também o primeiro fotógrafo a percorrer extensivamente o território brasileiro, primeiramente como fotógrafo da Comissão Geológica do Império do Brasil (1875-1878), e posteriormente, como fotógrafo da construção e modernização das principais ferrovias, registrando localidades e paisagens em diversos estados e regiões do país. Permanentemente associado ao campo das artes, da engenharia, da técnica e da ciência e em constante interação com os principais nomes de seu tempo nestas áreas, Marc Ferrez documentou grandes projetos de engenharia, de arquitetura e de urbanismo no Império e na República. Estes diversos trabalhos comissionados realizados ao longo de sua carreira o colocaram em associação direta com as principais inovações tecnológicas e científicas de seu tempo, tendo por conseguinte buscado também expandir as fronteiras de sua própria produção de imagem em fotografia, através, por exemplo, do desenvolvimento de câmeras especiais e do estudo e domínio de novos processos fotográficos.

A partir da sociedade formada com seus filhos, em 1907, Marc Ferrez investiu na expansão de suas atividades nas áreas de comercialização de equipamentos e produtos fotográficos e cinematográficos, na produção e comercialização de impressões fotomecânicas, na distribuição de novos produtos para o mercado amador, como os autocromos e estereoscopias, e, especialmente, na distribuição e exibição de filmes cinematográficos, sendo estes os principais campos que viriam a consolidar, a partir do início do século XX, a era da comunicação visual de massa baseada na circulação intensiva da imagem fotográfica e cinematográfica, profissional e amadora. Este processo foi somente possível pelos avanços tecnológicos originados na interseção da ciência com a técnica e pela intensa atividade de comercialização de processos e produtos, que no Brasil teve em Marc Ferrez seu principal ator e agente. A carreira fotográfica de Marc Ferrez percorre, assim, mais de cinco décadas de profundas transformações no campo da imagem, e, nesse sentido, sua trajetória e seu legado constituem, sem dúvida, uma plataforma única para a compreensão do país e de sua representação ao longo do século XIX e primeiras décadas do século XX.

Por esses motivos, que evidenciam a importância do legado de Marc Ferrez, o Instituto Moreira Salles, que tem sob sua guarda o acervo do fotógrafo, realizará ao longo dos próximos cinco anos um trabalho sistemático de documentação e pesquisa da obra completa de Marc Ferrez, buscando referenciar de maneira abrangente e exaustiva seu trabalho, reunido tanto no IMS como em outras instituições no país e no exterior.

 

*Sergio Burgi é Coordenador de Fotografia do Instituto Moreira Salles

 

Publicações da Brasiliana Fotográfica em torno da obra do fotógrafo Marc Ferrez 

 

O Rio de Janeiro de Marc Ferrez, publicada em 30 de junho de 2015

Obras para o abastecimento no Rio de Janeiro por Marc Ferrez , publicada em 25 de janeiro de 2016

O brilhante cronista visual Marc Ferrez (7/12/1843 – 12/01/1923), publicada em 7 de dezembro de 2016

Do natural ao construído: O Rio de Janeiro na fotografia de Marc Ferrez, de Sérgio Burgi, publicada em 19 de dezembro de 2016

No primeiro dia da primavera, as cores de Marc Ferrez (1843 – 1923), publicada em 22 de setembro de 2017

Marc Ferrez, a Comissão Geológica do Império (1875-1878) e a Exposição Antropológica Brasileira no Museu Nacional (1882), publicada em 29 de junho de 2018

O quiosque Chopp Berrante no Passeio Público, Ferrez, Malta e Charles Dunlop, publicada em 20 de julho de 2018

Pereira Passos e Marc Ferrez: engenharia e fotografia para o desenvolvimento das ferrovias, publicada em 5 de abril de 2019

Fotografia e ciência: eclipse solar, Marc Ferrez e Albert Einstein, publicada em 24 de junho de 2019

Na seção “Por dentro dos acervos”, no site do IMS, foi publicado, em 27 de fevereiro de 2019, o artigo De Martino, marinheiro e pintor, de Lúcia Klück Stumpf, no qual a autora traça um paralelo entre os desenhos de embarcações feitos por Edoardo de Martino (1838-1912), que além de artista era oficial da marinha italiana, e as fotografias de navios produzidas por Marc Ferrez.

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

A prisão do fotógrafo e aviador britânico S.H. Holland (1883 – 1936) no Rio de Janeiro, em 1930

Até o momento, as informações sobre o fotógrafo e piloto britânico Sidney Henry Holland (1883 – 1936) são esparsas. Conforme anunciado, a Brasiliana Fotográfica, a partir de uma pesquisa realizada, principalmente, na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, importante ferramente de difusão de conhecimento, conta um pouco da trajetória de Holland no período em que atuou no Brasil, entre 1928 e 1932. Pilotando seu avião, era constantemente visto nos céus do Rio de Janeiro fazendo propaganda de peças teatrais, de lojas, de filmes cinematográficos e de candidaturas políticas. Além disso, comercializava imagens aéreas que produzia de paisagens e de aspectos da cidade, principalmente, no formato de cartões-postais, e também lecionava aviação. Combateu como piloto na Primeira Guerra Mundial e esteve na Argentina antes de chegar ao Brasil, em 1928, como chefe da seção de aviação da Aircraft Operating Co, contratada para fazer o levantamento da planta cadastral do Rio de Janeiro. No período em que morou no Brasil, produziu fotos aéreas de ilhas, de diversos bairros cariocas, dentre eles Botafogo, Copacabana, Ipanema, Leblon, Leme, Urca. Também fotografou outras cidades como Petrópolis e Friburgo.

 

 

Acessando o link para as fotografias de autoria do fotógrafo britânico S.H. Holland disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Em 1930, Holland tinha uma empresa de reclames comerciais no Edifício Portella, na rua Rio Branco, 111, sala 511, e tinha dois representantes comerciais, os irmãos James Cecil Cotton e Cecil Howard Cotton. Seu ateliê fotográfico ficava na rua Capitão Salomão, anexo à Empresa Brasileira de Aviação Limitada. A partir de uma denúncia de que S.H. Holland havia produzido fotografias de pontos estratégicos da cidade e por requisição dos ministros da Guerra e da Marinha, a 4ª Delegacia Auxiliar do Rio de Janeiro prendeu Holland e os Cotton em seu escritório. Foram apreendidos seus arquivos de escrituração e fotografias e, em seu ateliê na rua Capitão Salomão, 30, anexo à Empresa Brasileira de Aviação Limitada, de sua propriedade, foi apreendido cerca de 40 contos de material fotográfico. A prisão e as apreensões foram baseadas nas determinações do Decreto 16983, de 22 de julho de 1925, que proibia fotografar pontos estratégicos da cidade, fortalezas e quartéis. A ação integrava a forte ação de repressão que a polícia estava realizando contra a fotografia aérea. Além disso, o avião de Holland não estava registrado na Aeronáutica. Holland e seus funcionários foram soltos pouco depois (Diário Carioca, 20 de abril de 1930, primeira coluna; Correio da Manhã, 20 de abril de 1930, penúltima coluna; Diário da Noite, 22 de abril de 1930, quinta coluna; O Jornal, 22 de abril de 1930 e Jornal do Brasil, 23 de abril de 1930, quinta coluna).

 

Transcrição da declaração de S.H. Holland em matéria de capa de O Jornal, 26 de abril de 1930, onde identificado foi como antigo capitão-aviador do Exército Britânico:

 

‘_ Fui preso por quatro agentes de polícia às 14h e meia do sábado passado – disse-nos o aviador quando jogava uma partida de “golf” no Gávea Golf Club. Levado para a 4ª delegacia auxiliar, fui recolhido incomunicável ao xadrez, onde hora depois entretanto, foram também recolhidos os srs. Cotton, meus agentes comerciais. À meia-noite daquele dia, chamado à presença do dr. Pedro de Oliveira Sobrinho, 4º delegado auxiliar, fui cientificado das razões de nossas prisões. Disse-me o delegado que, por denúncia recebida, sabia que eu, possuindo dois aviões, empregava-os para obter fotografias dos pontos estratégicos e por consequência incorria em grande crime. A propósito dos aviões, provei-lhe que só possuía um da marca “De Havilland Moth”, guardado no hangar existente em Manguinhos, onde também está depositado um outro do mesmo tipo e que vendi logo depois de minha chegada ao Rio há um ano ao dr. Raphael d´Chysosthomo de Oliveira, conhecido usineiro de Campos. Com relação às fotografias, prosseguiu o capitão – afirmei que a denúncia também não era verdadeira. Sempre empreguei o meu avião com finalidades comerciais, não só para anúncios como também para fotografar aspectos da cidade. É certo que em um panorama parcial do Rio, aparece, a um canto, a Fortaleza de Santa Cruz, mas ainda tão ao longe e tão reduzida que não passa de mero acidente da paisagem, sem relevo de mínima importância.

AS APREENSÕES

_ E perguntamos, as apreensões que a polícia efetuou em sua residência e aqui no escritório?

_ Foram as de papéis que nos guia e do arquivo de “negativos” que tinha em parte aqui  e em parte no meu laboratório, à rua Capitão Salomão, nº 30, onde, aliás, resido. Foi por ele examinando-o rigorosamente que a polícia verificou não haver eu dado motivos para a denúncia recebida. O número de “negativos” que possuo é superior a três mil e disso tiro a renda de que vivo. As diligências da polícia, apreendendo esse arquivo e levando-o para a 4ª delegacia, dão-me um prejuízo superior a cinquenta contos devido às “chapas” inutilizadas e à paralisação dos meus trabalhos. Felizmente estou de novo em liberdade, após cinco dias e duas hors de prisão juntamente com os meus companheiros srs. Cotton e assim poderemos recomeçar os trabalhos’.

 

 

 

Em uma matéria publicada sobre sua morte, no Correio da Manhã, 16 de dezembro de 1936, foi mencionado que S.H. Holland havia deixado o Brasil logo depois da Revolução de 1932, na qual teria se envolvido. Teria também se envolvido na Revolução de 30. O piloto faleceu quando combatia na Guerra Civil Espanhola em um avião vermelho de bombardeio ao lado das tropas governamentais da Espanha. Na primeira patrulha contra os americanos, Holland foi abatido dentro das linhas do general Franco. Integrava a primeira esquadrilha yankee, formada por 4 aviadores norte-americanos e por diversos pilotos voluntários ingleses, cuja base ficava perto da cidade espanhola de Bilbao (O Jornal, 20 de dezembro de 1936, sexta coluna).

 

 

Breve cronologia do fotógrafo e aviador britânico S.H. Holland

 

1883 – Em Petworth, na Inglaterra, em 17 de março de 1883, nascimento de Sydney Henry Holland, filho de Arthur Charles Holland (1850 – 1936) e Amy Louisa Katherine Stratton (1857 – 1936).

1914 – 1918 – Combateu como piloto na Primeira Guerra Mundial.

1920 - Na Argentina, Holland sofreu um desastre de avião e ficou gravemente ferido. Ele estava pilotando um avião Avro, pertencente ao Aeroclube de Buenos Aires. Estava com o presidente da entidade, Nicanor Posse, e com o instrutor Gregorio Sandoval (O Paiz, 15 de abril de 1920, na penúltima coluna).

Holland sofreu outro acidente de avião, também na Argentina, e fraturou a perna (O Paiz, 26 de maio de 1920, penúltima coluna).

1923 - Ficou em terceiro lugar na Copa Wilbur Wright organizada pelo Aeroclube Argentino, em 5 de agosto de 1923, no circuito San Isidor, San Fernando e el Palomar com a participação de quinze pilotos.

 

 

 

Também na Argentina, em 9 de dezembro, Holland ficou em 2º lugar na Copa 19 de Novembro, competição de regularidade conhecida como Carrera Aérea de la Plata. Vinte e quatro pilotos participaram da prova.

 

 

1928 – Chegada de S. H. Holland ao Rio de Janeiro vindo da Europa no paquete Arandora. Veio com os engenheiros contratados pela prefeitura do Rio de Janeiro para fazer o levantamento da planta cadastral da cidade. Holland era o chefe da seção de aviação da comissão e o chefe da delegação da Aircraft Operating era o coronel do corpo de engenharia do exército inglês, T.T. Behrens Foi noticiado que Holland já conhecia o Rio de Janeiro de passagem e que dessa vez teria que ficar na cidade por pelo menos 3 anos para concluir o trabalho para o qual havia sido contatado (A Noite, 21 de junho de 1928, segunda colunaO Paiz, 22 de junho de 1928, segunda coluna e Correio da Manhã, 22 de junho de 1928, sétima coluna).

Foi aprovado no exame para motorista (Correio da Manhã, 7 de julho de 1928, primeira coluna).

O ministro da Viação, Vítor Konder (1886 – 1941), autorizou a revalidação da carta de piloto de Holland (Correio Paulistano, 18 de julho de 1928, na sexta coluna).

1929 – Na Exposição Ferroviária, os pilotos Charles Astor e S.H. Holland fizeram uma exibição de acrobacia aérea (Jornal do Brasil, 17 de agosto de 1929, terceira coluna).

1930 – Foi noticiado que as famosas artistas Margarida Max (c. 1890 – c.1960), estrela do teatro de revista, e Josephine Baker (1906 – 1975) já haviam voado com o capitão Holland.

A partir de uma denúncia de que S.H. Holland havia produzido fotografias de pontos estratégicos da cidade e por requisição dos ministros da Guerra e da Marinha, a 4ª Delegacia Auxiliar do Rio de Janeiro o prendeu em seu escritório no Edifício Portella, na avenida Rio Branco, nº 111., onde localizava-se sua empresa de reclames aéreos. Seus representante comerciais James Cecil Cotton e Cecil Howard Cotton também foram presos. No escritório, foram apreendidos seus arquivos de escrituração e fotografias. Em seu ateliê na rua Capitão Salomão, 30, anexo à Empresa Brasileira de Aviação Limitada, foi apreendido cerca de 40 contas de material fotográfico. A prisão e as apreensões foram baseadas nas determinações do Decreto 16983, de 22 de julho de 1925, que proibia fotografar pontos estratégicos da cidade, fortalezas e quartéis. A ação integrava a forte ação de repressão que a polícia estava realizando contra a fotografia aérea. Além disso, o avião de Holland não estava registrado na Aeronáutica (Diário Carioca, 20 de abril de 1930, primeira coluna; Diário da Noite, 22 de abril de 1930, quinta coluna; O Jornal, 22 de abril de 1930). e Jornal do Brasil, 23 de abril de 1930, quinta coluna). Pouco depois, foi apreendido na Alfândega uma aeroplano procedente do exterior para Holland (Correio da Manhã, 24 de abril de 1930, última coluna). Holland foi solto e seus funcionários foram soltos em 24 de abril (Correio da Manhã, 25 de abril de 1930).

Publicação de uma fotografia aérea de Petrópolis, a linda cidade de verão, de autoria de Holland e produzida especialmente para a revista O Cruzeiro (O Cruzeiro, 26 de abril de 1930).

Publicação de fotografias aéreas produzidas por Holland de diversos bairros do Rio de Janeiro, dentre eles Leme, Copacabana, Ipanema e Leblon, todos dentro da zona da recém instalada estação de telefonia automática “7”, localizada na rua Visconde de Pirajá, 44, em Ipanema (Sino Azul, junho de 1930).

O capitão Holland envolveu-se na Revolução de 30.

1931 – Na Feira Internacional de Amostras, o paraquedista Genaro Maddalun pulou de paraquedas de um avião cedido por Holland (A Esquerda, 14 de agosto de 1931, segunda colunaDiário de Notícias, 14 de agosto de 1931, última coluna, e Jornal do Commercio, 23 de agosto de 1931, quarta coluna).

Na página central da edição de O Cruzeiro, de 10 de outubro de 1931, publicação de uma fotografia aérea do Cristo Redentor, pouco antes de sua inauguração oficial, em 12 de outubro, produzida por Holland especialmente para a revista.

1932-  Holland envolveu-se na Revolução de 1932 e pouco depois deixou o Brasil.

1936 – Holland faleceu, em dezembro, quando combatia na Guerra Civil Espanhola em um avião vermelho de bombardeio ao lado das tropas governamentais da Espanha. Na primeira patrulha contra os americanos, Holland foi abatido dentro das linhas do general Franco. Também morreram os dois outros tripulantes do avião: um russo que o pilotava e um observador espanhol. Com Holland foram encontradas duas cartas, um cheque de 15 libras e duas notas de 100 pesetas. Em uma das cartas, escrita na véspera de sua morte, o aviador comentou que pilotava um aparelho não muito bom, e reclamou da desorganização vermelha, do atraso de seu pagamento, que havia sido acertado com o embaixador da Espanha em Londres na ocasião de seu alistamento; e também da falta de aquecimento no campo de aviação em que servia. Os documentos do piloto foram remetidos para a sua esposa em Londres inclusive as promessas dos vermelhos espanhóis de pagar aos seus herdeiros a importância de 1.500 libras, no caso em que ele morresse. Holland integrava a primeira esquadrilha yankee, formada por 4 aviadores norte-americanos e por diversos pilotos voluntários ingleses, cuja base ficava perto da cidade espanhola de Bilbao (Correio da Manhã, 16 de dezembro de 1936, terceira coluna; e O Jornal, 20 de dezembro de 1936 )

‘O chefe de três ataques simultâneos estava no setor de Bondilla, noroeste de Madri. Mouros e recém chegados alemães atacaram com tanques e aviões. Os legalistas venceram após 5 horas, matando 200 e ferindo vários. Sydney Henry Holland, que recentemente havia ido para a Espanha com outros aviadores britânicos, foi morto no front Vittoria quando os rebeldes revidaram um ataque no aeródromo contra 11 máquinas legalistas. O avião de Holland, pilotado por um russo, com um observador espanhol, foi derrubado por rajadas de metralhadoras. Os ocupantes morreram queimados. O correspondente do Daily Mail de Salamanca revelou que os documentos encontrados com Holland mostravam que o governo o havia empregado em 27 de novembro de 1936 com um salário de 220 libras por mês, subsídios de 24 libras, passagem de primeira-classe, um prêmio de 300 libras por cada máquina rebelde abatida, compensação por incapacitação por ferimentos, e 1500 libras para seu parente mais próximo em caso de morte… (Trove Advocate, 18 de dezembro de 1936).

 

 

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Dicionário Cravo Albim

ERMAKOFF , George. Rio de Janeiro 1900 – 1930 – Uma crônica fotográfica. Rio de Janeiro: G. Ermakoff Casa Editorial, 2006.

Ernst Udet y sus aviones en Argentina

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Site Air History

Site The Kings Candlesticks – families trees

O sanitarista Belisário Penna (1868-1939), um dos protagonistas da história da saúde pública no Brasil

O sanitarista mineiro Belisário Penna (1868 – 1939) foi um dos protagonistas da história da saúde pública no Brasil. Após atuar como médico e ter se dedicado ao comércio, Belisário foi selecionado, em 1904, para atuar como inspetor sanitário da Diretoria Geral de Saúde Pública do Rio de Janeiro, gerida pelo cientista Oswaldo Cruz (1872 – 1917). No ano seguinte, foi transferido para o Serviço de Profilaxia da Febre Amarela. Combateu as epidemias de varíola e de febre amarela, no Rio de Janeiro, e o impaludismo, em Minas Gerais, onde permaneceu por três anos, tendo participado da principal descoberta médica do período: a descrição da etiologia da moléstia ainda desconhecida, a tripanossomíase americana. Participou de diversas expedições científicas por diversas regiões do país, uma delas a Porto Velho, onde estava sendo construída a ferrovia Madeira-Mamoré. Na ocasião, com Oswaldo Cruz, estudou as condições sanitárias e propôs um plano de combate à malária. Assumiu interinamente o Ministério da Educação e Saúde Pública, em 1931 e em 1932. É a trajetória de Belisário Penna que Ricardo Augusto dos Santos, pesquisador da Fiocruz, traz para os leitores da Brasiliana Fotográfica. A Fiocruz é uma das instituições parceiras do portal.

O sanitarista Belisário Penna (1868-1939)

Ricardo Augusto dos Santos* 

Dezenas de pesquisadores escreveram trabalhos sobre Belisário Penna e sua importância para as políticas públicas de saúde e educação. Após inúmeros textos sobre o sanitarista, haverá alguma revelação? Certamente. Além das descobertas propiciadas por documentos desconhecidos, sempre existirá a possibilidade de interpretações e correção de equívocos, quase sempre, devido a citações baseadas apenas em leituras bibliográficas, sem pesquisa empírica. Seria cansativo enumerar as passagens em artigos referindo-se à “Belisário Penna, cientista do IOC”. Ele nunca pertenceu aos quadros do Instituto Oswaldo Cruz e, tampouco, podemos afirmar que ele era cientista. Sua trajetória é um campo privilegiado para investigar os intelectuais daquele período. Um conjunto deles era representante das famílias abastadas, algumas em decadência econômica desde meados do período monárquico. Muitos eram filhos de proprietários de terras, mas sem capital financeiro e articulação com outras frações de classes em expansão graças à criação de indústrias. Devido aos conhecimentos adquiridos nos cursos superiores (Medicina, Direito e Engenharia) e relações pessoais, gradativamente, passaram a ocupar postos relevantes na administração pública. A capacidade de manejar capitais simbólicos, acumulados pelos diplomas, em associação com as relações pessoais (amizades, casamentos), permitiam operar com desenvoltura entre os cargos de poder.

Belisário Augusto de Oliveira Penna nasceu em 29 de novembro de 1868, em Barbacena, Minas Gerais. Filho homônimo do Visconde de Carandaí e de Lina Leopoldina Lage Duque. Ambos descendentes de grandes proprietários de terras. O casal teve oito filhos, criados em ambiente nobre, no qual não faltavam criados falando francês. Fez os cursos primário e ginasial em sua cidade natal no tradicional Colégio Abílio. Matriculou-se, em 1886, na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, concluindo o curso na Faculdade de Medicina da Bahia, no último ano. Terminando o curso, se casou com Ernestina Rodrigues Chaves, filha de João Rodrigues Chaves, fundador e diretor da faculdade de Direito (Salvador). Voltando a Barbacena, trabalhou como médico numa região tomada de agricultores de origem italiana. Também tentou a clínica em localidades próximas, acabando por fixar-se em Juiz de Fora, em 1896, onde assumiu as funções de médico da Hospedaria dos Imigrantes, demitindo-se ao final de um ano. Sua primeira esposa morreu de febre amarela. Dos quatro filhos que ela lhe deu sobreviveram dois: Maria e Celina. No ano seguinte, 1898, retornou à Bahia e, ao visitar os sogros, reafirmou os laços de parentesco: casou-se com a irmã de sua primeira esposa, Maria Augusta Chaves, com quem teve nove filhos. Retornando a Juiz de Fora, o trabalho não lhe dando o suficiente para a manutenção da família, dedicou-se ao comércio, abrindo uma firma de produtos alimentícios. A Belisário Penna & Cia. não prosperou. Mesmo elegendo-se vereador na cidade, o médico viveu com precariedade de recursos, recorrendo ao auxílio da família.

Acessando o link para as fotografias de Belisário Penna disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Após a entrada de Oswaldo Cruz na DGSP (Diretoria Geral de Saúde Pública), realizaram-se concursos para as campanhas sanitárias de combate às doenças que assolavam o Rio de Janeiro (peste bubônica, febre amarela e varíola). Aprovado na seleção, Belisário tomou posse como inspetor sanitário. Em maio de 1904, iniciava suas atividades no centro da cidade, nas ruas Marquês de Sapucaí, Santana, General Pedra, Senador Eusébio, Visconde de Itaúna, São Leopoldo, Alcântara e Marquês de Pombal. Área de pequeno comércio e inúmeros cortiços, região habitada pelos descendentes dos negros escravizados e imigrantes (italianos, judeus, portugueses). A capital federal vivia, naquele momento, intensa epidemia de varíola que, no distrito a seu cargo, Belisário conseguiu dominar, recorrendo à vacinação de todos os moradores. Ocupando-se da vigilância médica e vacinação, inicialmente encontrou relutância da população, que logo foi superada, “graças ao seu jeito especial de lidar com o povo”. Sua maneira especial constituía em ameaçar recolher aos hospitais aqueles que não se vacinassem. Devido ao receio de ser conduzido a um lugar identificado com a morte, os habitantes daquela localidade pobre da cidade aceitavam a vacinação. No ano seguinte, foi transferido para o Serviço de Profilaxia da Febre Amarela, trabalhando nos bairros da Saúde e Gamboa.

Em 1906, partiu para combater o impaludismo entre os operários que construíram uma ferrovia, no norte de Minas Gerais. Permaneceu por três anos, participando da principal descoberta médica do período: a descrição da etiologia da moléstia ainda desconhecida, a tripanossomíase americana. Caso raro na história da medicina, Carlos Chagas descreveu todo o ciclo evolutivo da doença: o micro-organismo causador da enfermidade, os hospedeiros, o inseto vetor (barbeiro) e as manifestações clínicas no homem. Nos anos seguintes, no entanto, alguns médicos contestaram as afirmações de Chagas, o que gerou controvérsias sobre a descoberta. O alemão Rudolf Krauss questionou a abrangência da doença e suas relações com o bócio e o cretinismo, e um grupo da Academia Nacional de Medicina levantou dúvidas sobre a autoria da descoberta. Belisário recordaria os fatos acontecidos em 1909, manifestando solidariedade com Chagas. Contudo, declarava as diferenças que possuía com Chagas. Segundo os relatos, ele teria abandonado a direção do Departamento de Saneamento e Profilaxia Rural, órgão ligado ao DNSP (Departamento Nacional de Saúde Pública), criado em 1920 e tendo Chagas como diretor geral, por não concordar com a “interferência política” em seu trabalho.

No arquivo pessoal de Belisário Penna, encontramos documentos pessoais, fotografias, relatórios, textos e cartas. Em todos os itens, reconhecemos a presença do discurso apoteótico da campanha sanitarista. No entanto, nos recortes de jornais, constatamos a crítica às nomeações políticas que ele também fazia uso. É muito presente nas produções intelectuais do sanitarista a crença na racionalidade científica organizando a administração pública, independentemente dos conflitos políticos. Entretanto, sabemos que, muitas vezes, isso também é uma retórica política. Se Carlos Chagas realizou nomeações tendo em vista indicações políticas, Belisário Penna também não esteve imune a esta “epidemia” nacional.

Em 1910, vamos encontrá-lo, acompanhando Oswaldo Cruz na consultoria sobre a profilaxia da malária, que matava, segundo dizia-se, um operário para cada dormente assentado na construção da ferrovia Madeira-Mamoré. Durante o mês em que permaneceram em Porto Velho, Cruz e Belisário estudaram as condições sanitárias da região e propuseram um plano de combate à malária que prescrevia o uso diário, compulsório, de quinina pelos trabalhadores, sob pena de não receberam os salários caso não tomassem suas doses. O plano foi posto em prática pela empresa norte-americana ainda com a presença dos dois médicos. Após várias tentativas frustradas de construção da ferrovia, ela foi abandonada. Retornando ao Rio de Janeiro, na passagem por Belém, Cruz foi contratado pelo governo do Pará para combater a febre amarela na cidade. Implantou a Comissão de Profilaxia da Febre Amarela na capital paraense, no mesmo ano. Convocou vários médicos para a empreitada, entre as quais o próprio Belisário.

Ele percorreu, junto com Arthur Neiva, do Instituto Oswaldo Cruz, em 1912, o norte da Bahia, sudeste de Pernambuco, sul do Piauí e nordeste de Goiás, com o fim de estudar as condições sanitárias e os problemas de saúde existentes na região. Viajaram durante sete meses, registrando não apenas as doenças encontradas, mas também aspectos sociais, econômicos e culturais das populações locais. Este momento é exposto como ponto de inflexão da carreira do sanitarista. Em 1913, visitaria os estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Depois reassumiu o cargo de inspetor sanitário no Rio de Janeiro, passando a trabalhar nos subúrbios da Leopoldina. Em março de 1916, foi instalado em Vigário Geral (RJ), aquele que foi considerado o primeiro posto de profilaxia rural do Brasil. A partir deste momento, o chamado movimento sanitarista ganhou força. A fundação da Liga Pró-Saneamento do Brasil, que congregou vários intelectuais e políticos, foi resultado da repercussão alcançada pelo livro Saneamento do Brasil de Belisário Penna. Constituído pelos artigos de jornal, publicados em 1916 no jornal O Correio da Manhã, marcaram o percurso de Belisário como incansável militante da causa sanitarista no Brasil. Como decorrência da campanha do movimento sanitarista, o presidente Wenceslau Brás, em maio de 1918, teria ficado impressionado e criado o Serviço de Profilaxia Rural, nomeando o sanitarista para dirigi-lo.

 

 

Em 1924, em carta aberta aos filhos, apoiou a revolta tenentista de 5 de julho daquele ano, em São Paulo. Preso, foi enviado à capital paulista e, em seguida transferido para o Rio de Janeiro, onde ficou detido por seis meses. Foi suspenso de suas funções como delegado de saúde, sendo reintegrado apenas em 1927. Posto em disponibilidade, ele prosseguiu na campanha pelo saneamento pela imprensa. Mas, foi como empregado do Laboratório Daudt, Oliveira & Cia., que percorreu novamente o país, realizando conferências e anunciando os produtos desta empresa farmacêutica. Belisário retornaria em 1927 à administração pública, como inspetor de Propaganda e Educação Sanitária. Percorreu então os estados de Minas Gerais, Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, até ser requisitado pelo presidente do estado do Rio Grande do Sul, Getúlio Vargas, para organizar o serviço estadual de higiene. No Sul, iniciou um período de trabalho intenso, proferindo conferências e formulando o seu Plano de Educação Higiênica, indicando providências relativas a problemas de saúde. Merece destaque seu engajamento na Revolução de 1930. Após a vitória do movimento, foi nomeado diretor do Departamento Nacional de Saúde Pública.

 

 

Em 1o de setembro de 1931, assumiu interinamente o Ministério da Educação e Saúde Pública, recém-criado pelo governo federal, substituindo Francisco Campos por três meses. O ‘caixeiro-viajante da higiene’ alcançava, após décadas de atuação, o cargo máximo na área da saúde pública. Belisário ainda voltou a exercer interinamente a chefia do ministério, em dezembro de 1932. No início do ano seguinte, solicitou aposentadoria. Em uma das suas últimas manifestações públicas, compareceu, com uniforme integralista, cercado pelos companheiros camisas-verdes, a um encontro com o Getúlio Vargas. Foram comunicar ao presidente da República, o resultado da escolha de Plínio Salgado como candidato a uma provável eleição presidencial. O sanitarista era filiado a Ação Integralista Brasileira (AIB). Membro da Câmara dos 40, órgão político do movimento. Em 1938, após a tentativa de golpe desfechada pelos integralistas, o movimento foi reprimido e ele retirou-se da política para viver em sua fazenda, no interior do estado do Rio de Janeiro. Faleceu em 4 de novembro de 1939.

 

 

 

*Ricardo Augusto dos Santos é Pesquisador Titular da Fundação Oswaldo Cruz

 

Fontes:

DOS SANTOS, Ricardo Augusto. O Plano de Educação Higiênica de Belisário Penna: 1900-1930. Dynamis, v. 32, p. 45-68, 2012.

Lunara (1864 – 1937), um fotógrafo amador e fotoclubista de Porto Alegre

A Brasiliana Fotográfica apresenta o álbum Vistas de Porto Alegre – Fotografias Artísticas, com 20 imagens assinadas pelo fotógrafo amador gaúcho Lunara (1864 – 1937), e produzido pelos Editores Krahe & Cia. As fotografias nos revelam uma Porto Alegre bucólica de fins do século XIX, início do século XX.  Lunara era um dos pseudônimos do comerciante Luiz do Nascimento Ramos (1864 – 1937). Pseudônimo composto a partir das primeiras sílabas de seus três nomes e que ele usava para expor suas fotos e também para participar de concursos fotográficos. Mas Lunara não foi seu único pseudônimo: quando escrevia crônicas para O Athleta (1883 – 1889), semanário do Clube Caixeiral Porto Alegrense, assinava com os pseudônimos Bitu ou Sancho.  Em torno de 1899, como fotógrafo amador passou a integrar a associação Sploro Photo-Club, em Porto Alegre, um dos fotoclubes pioneiros do Brasil.

 

 

Segundo Denise Burges Stumvoll, mestre em Artes Visuais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e autora da dissertação Fotografia e aproximações com a arte no início do século xx : um olhar para as narrativas visuais de Lunara, o álbum Vistas de Porto Alegre “…propõe um percurso realizado pelo fotógrafo, em que somos conduzidos pelas bordas e margens da cidade, bem como aos lugares e às pessoas que ali viveram, como se interessasse, ao autor das imagens, produzir uma metáfora da marginalidade, social e cultural, revelando o que geralmente ficava à sombra da memória visual sobre a modernidade na paisagem urbana.”

Participante ativo da vida cultural e econômica da cidade, adotou a fotografia como um hobby. Aos domingos, Lunara costumava sair com sua máquina fotográfica, um tripé e várias chapas de vidro 13 x 18cm. Uma de suas companhias mais constantes nesses passeios por Porto Alegre era seu amigo, o pintor Pedro Weingartner (1853 – 1929), um dos mais importantes artistas do sul do Brasil. Seus destinos favoritos eram as margens do rio Guaíba ou dos arroios Cascatinha e Dilúvio. A convivência entre Weingartner e Lunara é um exemplo de uma relação estreita entre fotógrafos e pintores, o que ajudou a sedimentar “o papel de vanguarda dos estúdios fotográficos na disseminação da arte moderna” (1).  Ainda sobre a a proximidade dos dois: “Suas pinceladas minuciosas e cheias de detalhes assemelham-se , em seu estilo, à precisão realista das imagens de Lunara, que reitera as qualidades miméticas da linguagem fotográfica para constituir um registro histórico de grande relevância para sua cidade”. Outros exemplos da interação entre fotógrafos e pintores são o apoio do fotógrafo francês Félix Nadar (1820 – 1910) à exposição dos pintores impressionistas em 1874, em Paris; e o trabalho do fotógrafo norte-americano Alfred Stieglitz (1864 – 1946) na realização das mostras de artistas como o espanhol Pablo Picasso (1881 – 1973) e o francês Georges Braque (1882 – 1966), em Nova York

Alguns dos temas mais abordados nas fotografias de Lunara foram os ex-escravizados, cenas de família, os carreteiros, as aguadeiras e os viajantes. Seus registros eram influenciados pelo movimento pictorialista internacional, movimento que se desenvolveu a partir do surgimento dos fotoclubes e que caracterizava-se pelo resultado da fotografia, que se aproximava da pintura. Em suas imagens, Lunara, com um olhar artístico que acentuava aspectos bucólicos, mostrava seu universo familiar com sensibilidade e humor. Suas fotografias revelavam também a incipiente modernização da capital gaúcha.

 

 

Na Gazeta do Comércio de Porto Alegre, de 25 de março de 1903, o jornalista Artur Pinto da Rocha (1864 – 1930) escreveu sobre o fotógrafo:

Lunara é outro incorrigível amador da fotografia, que trata simultaneamente de açúcar e de tudo quanto passa… na Praça. Laureado nos concursos a que tem comparecido, é um artista que faz honra ao nosso meio. Tem sobre todos os seus brilhantes colegas a qualidade superior de descobrir na natureza os melhores assuntos e de saber vê-los através da objetiva com uma perfeição inexcedível de arte. E, vistos os motivos e interpretadas as cenas e observada a perspectiva e encantadoramente preparado o conjunto com uma empolgante sobriedade de elementos, Lunara tem ainda o soberbo dom de aplicar a seus trabalhos o título preciso e flagrante, com verve, com verdade e com justeza de conceito‘.

Nas fotografias selecionadas pela Brasiliana Fotográfica, alguns desses títulos inspirados, que ajudam a exprimir a visão e o objetivo do fotógrafo, podem ser apreciados, dentre eles Nhô João deixa disso, As cantigas do vovô e Mourejando.

Acessando o link para as fotografias de Lunara disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas. 

 

 

Outro amigo de Lunara, Geraldino Silveira, publicou no O Athleta , em 1886, um pequeno perfil de Lunara, no qual fica evidente seu bom temperamento e gosto pelas mulheres. Revela também que ele tinha um problema de vista:

Luiz Ramos. Acanho-me em tratar deste bom amigo. Eu quisera dizer aqui tudo que sei a seu respeito; descobrir-lhe os segredos que povoam-lhe o coração. Um coração afeito a todas as doçuras do amor, moldado para a conquista dos sorrisos castos. Mas para quê?; prefirom guardar comigo a história de nossas confidências, a história de suas aventuras, como ele guarda consigo a ventura de seus afetos, o juramento de suas belas. É o fraco do Luiz; morre por um olhar de mulher, que é para ele o supremo ideal da vida. Se depois de um jejum de oito dias pusessem diante do Ramos um bife ensanguentado e uma mulher formosa, ele jamais olharia para o bife enquanto a deusa olhasse para ele.

Alimenta-se do belo; arrebatasse ante a plástica de uns contornos lânguidos e abundantes de carne. Jesus foi sacrificado sobre o Calvário; o Luiz também há de ter um dia o seu Calvário sobre a montanha azul de um amor imenso. Seria esse o ponto mais saliente da vida do Ramos, se ela não gostasse de literatura; se ele também já não tivesse produzido belas páginas de prosa; uma prosa temperada de verve e de elegância. Quem não tgerá aí lido o Bitu ou o Sancho?

Tem talento; mas um talento abandonado à fantasia dos diálogos romanescos dos salões de baile. Pouco estuda; um incômodo de olhos privou-o dos livros e o vidro azul dos óculos que traz sobre o nariz, enche-lhe a imaginação de volúpia e a alma de ternura. Tem facilidade admirável para o estudo das línguas; poderia vir a ser um filólogo se não estivesse diariamente debruçado sobre a escrivaninha de um escritório comercial. Gosta de preferência de falar o italiano; pudera, se o italiano é a língua dos amores, da música e das paixões enormes.

Nunca vi o Ramos incomodado; é um todo de bondade e de indulgênica. Se alguma vez o spleen o assoberba, embriaga-se à fumaça de um caporal e pouco fala. Nesse estado finge sorrir, mas nem mesmo ri. O céu do coração também tem suas tormentas…

É este o Luiz de que vos falo, e que agora desfruta a primavera de seus vinte e dois anos. No mais, um bom amigo, sincero, delicado e simpático.’

 

 

Cronologia do fotógrafo Luiz do Nascimento Ramos, conhecido como Lunara (1864 – 1937)

1864 - Luiz do Nascimento Ramos nasceu, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.

1883 - Passou a integrar a comissão editorial do jornal O Athleta (1883-1889), vinculado ao Club Caixeiral Porto Alegrense. No período de existência do jornal, escrevia e publicava crônicas bem-humoradas sob os pseudônimos Bitu ou Sancho. O Club Caixeiral Porto Alegrense foi fundado, em 1882, por imigrantes alemães vinculados ao comércio.

1886 – Era um dos integrantes do Club Caixeral que seria homenageado com um espetáculo de gala em honra da simpática e brisosa classe caixeiral, no Theatro São Pedro (A Federação, Orgam do partido Republicano, 17 de maio de 1886).

1888 – De novo os comerciários foram homenageados com um espetáculo de ópera no Theatro São Pedro e os integrantes do Club Caixeral, dentre eles Lunara, representaram a classe (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 10 de março de 1888).

Década de 1890 – Em fins dessa década, sua fotografia intitulada Aguadeira foi publicada na revista francesa Photo-Gazette .

 

 

1891 – Trabalhava na firma Caetano Pinto & Franco (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 17 de fevereiro de 1891).

1894 - Contratou casamento com Maria Isabel Borges Ramos (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 10 de maio de 1894, segunda coluna).

1896 - Associou-se a Adwaldo Franco e abriu a firma de importações Franco, Ramos & Cia. Também trabalhava como contador contábil em outras empresas.

c. 1899- Registrava a periferia da cidade aos domingos e utilizava o pseudônimo Lunara para expor suas imagens.

Como fotógrafo amador passou a integrar a associação Sploro Photo-Club, em Porto Alegre, um dos fotoclubes pioneiros do Brasil. Funcionava na Drogaria Ingleza , que pertencia a Sépia, também fotógrafo amador.

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Acervo de Imprensa da Museu de Comunicação Hipólito José da Costa, 1901

1899 –  Ele fotografou as festas da inauguração do velódromo da União Velocipédica e algumas ficaram expostas nas vitrines da Drogaria Ingleza, em Porto Alegre. Seu amigo, o fotógrafo Virgílio Callegari (1868 – 1937) faria as ampliações (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 23 de novembro de 1899, segunda coluna).

Lunara participou de um evento promovido pela associação Sploto Photo-Club, na Drogaria Ingleza. O júri do evento era formado por Augusto Daisson, Miguel Weingartner e Virgilio Callegari.

Década de 1900 - Foi editado e publicado o álbum Vistas de Porto Alegre – Fotografias Artísticas, com 20 imagens assinadas pelo fotógrafo amador gaúcho Lunara (1864 – 1937), e produzido pelos Editores Krahe & Cia, cuja loja e livraria ficavam na rua dos Andradas, em Porto Alegre.

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Acervo de Imprensa da Museu de Comunicação Hipólito José da Costa, 1901

1900 - Endereçou à Repartição Central da Secretaria de Estado de Negócios do interior e exterior em Porto Alegre uma carta sugerindo a adoção de um novo método marcas e sinais para gado (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 27 de agosto de 1900).

Nascimento de seu filho, Áureo.

1901 – Lunara já era um próspero comerciante e membro da diretoria da Associação Comercial de Porto Alegre.

Recebeu a medalha de bronze no segundo concurso para amadores da fotografia realizado nos salões da fotografia Leterre, na rua da Carioca, com um registro do busto de perfil da filha de um amigo. Fazia parte do júri o fotógrafo Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912), além do escultor Rodolfo Bernardelli (1852 – 1931) e do pintor Hilarião Teixeira (1860 – 1952). Nos dois primeiros lugares ficaram o carioca Narciso Braga e o gaúcho Luiz Manuel de Souza Filho (Jornal do Brasil, de 2 de março de 1901, sexta coluna e A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 9 de março de 1901, segunda coluna).

Realização da Exposição Estadual no Campo da Redenção, quando foi exibido o desenvolvimento da indústria e do comércio do Rio Grande do Sul. Luiz do Nascimento Ramos foi membro do júri do concurso de fotografias que integrava o evento. Os outros membros do júri foram Balduíno Rohrig e Luiz Manuel de Souza Filho (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 10 de março de 1901, quinta coluna). Na ocasião, fotografou todos os pavilhões da exposição. Forneceu as fotografias publicadas na  Revista da Semana, 5 de maio de 1901, uma edição especial comemorativa da Exposição Estadual Riograndense.

1902 – Publicação do artigo intitulado “Artigo Infamante – Aos Amadores de Fotografia no Brasil – Aos profissionais e a meus clientes e amigos “, de autoria de A. Laterre  em resposta a uma publicação de 5 de abril d e 1902 na Gazeta do Commercio, em Porto Alegre, que relatava que durante uma reunião do Sploro Photo-Club, da qual Lunara participou, haviam sido feitos protestos contra um artigo publicado pela revista parisiense Photographie Française, de janeiro de 1902, e também protestos contra o fotógrafo sr. A. Leterre, acusado de prejudicar os fotógrafos amadores do Rio Grande nos concursos que promovia. Nele o fotógrafo Joaquim Insley Pacheco, um dos juízes dos concursos, era mencionado (Jornal do Brasil, 20 de abril de 1902).

Publicação da fotografia “Sono Pesado”, de sua autoria, na Revista da Semana de 16 de novembro de 1902.

1903 - Conquistou medalha de ouro na Mostra Grupal de Artes Plásticas, promovida pelo jornal Gazeta do Comércio. Concorreu com diversas fotografias, dentre elas Águas correntes, Dois Filósofos e Nhô João, deixa disso…, que fazem parte do álbum Vistas de Porto Alegre.

Nascimento de sua filha, Zaida (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 28 de julho de 1901, terceira coluna).

1904 – Foi eleito para integrar o conselho fiscal da companhia de seguros marítimos e terrestre Phenix de Porto Alegre (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 11 de março de 1904, terceira coluna).

Foi eleito em 9 de outubro, conselheiro fiscal do Club Caixeiral Porto Alegrense (Almanak Laemert, 1905).

Recebeu 1 voto na eleição municipal para intendente e conselheiro (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 11 de outubro de 1904, terceira coluna).

1904 /1905 – Foram publicados cartões-postais colorizados de Lunara. A maioria pelos Editores Krahe &  Cia.

1905 – Foi eleito diretor da Praça do Comércio de Porto Alegre (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 1 de janeiro de 1905, quinta coluna).

1908 – Foi noticiada a chegada do negociante Luiz Nascimento Ramos ao Rio de Janeiro (O Século, 19 de setembro de 1908, quarta coluna).

Década de 10 – Publicava regularmente seu trabalho na revista Máscara.

1910 – Fotografou uma excursão automobilística (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 14 de novembro de 1910, primeira coluna).

1913 – Lunara foi o testamenteiro do pintor Pedro Weingartner (1853 – 1929).

1922 -Recebeu o prêmio da publicação La Revue de Photographie, de Paris, pela fotografia O Lago (Illustração Brasileira, 24 de junho de 1922).

Publicação da fotografia Sono pesado, de autoria de Lunara (Illustração Brasileira, 15 de agosto de 1922).

1937 – Faleceu em Porto Alegre e, durante décadas, sua obra permaneceu guardada por familiares.

1976 – A jornalista e fotógrafa gaúcha Eneida Serrano (1952 – ) entrou em contato com o filho de Lunara, Áureo, de 76 anos, que mostrou a ela o acervo de seu pai: uma máquina fotográfica, recortes de jornais, 15 chapas de vidro, 13 x 18cm, e dois álbuns com 60 fotografias de sua autoria.

1979 – Eneida Serrano realizou a exposição Lunara – Amador 1900, no Museu de Comunicação Hypólito José da Costa, em Porto Alegre.

2001 – Em homenagem ao fotógrafo, foi inaugurado no centro cultural Usina do Gasômetro, na capital gaúcha, a Galeria Lunara, espaço especializado em fotografias.

Suas fotos foram reunidas no livro Lunara Amador 1900, de Eneida Serrano.

2018 – Exposição, no Museu de Arte do Rio Grande do Sul, de 20 fotografias de autoria de Lunara na 11ª Bienal de Artes Visuais do Mercosul, realizada em Porto Alegre e Pelotas. As imagens fazem parte do álbum Vistas de Porto Alegre – Photographias Artísticas, do acervo fotográfico do Museu da Comunicação Hipólito José da Costa.

 Duas crônicas de Lunara com os pseudônimos Bitu e Sancho

(transcritas do livro Lunara Amador 1900, de Eneida Serrano)

É moda 

Tudo é moda, até dizer-se o que não se sente e sentir-se o que não se diz.

Não sei quem disse isto; mas quem disse tinha razão.

Uma moça conversando com um rapaz bem desempenado, de fácil verbiagem, dizia-lhe com o ar todo afetado:

- Sr. F… pelo o que o sr. acaba de dizer-me, detesta a maneira exagerada de usarem as modas hoje em dia?…

- Na verdade, minha senhora: e mil vezes bem digo a sorte por ter nascido homem, quando vejo passar-me pela frente essas moças, todas cheia de barbatanas, polvilhos, tintas, algodões e de tantas outras composições, que as francesas têm inventado para fazer do feio belo, do gordo magro, do pardo branco…

- Pois pensa inteiramente como eu… são coisas estas, que não só aborreço como também detesto.

- Pois então somos dois a pensar da mesma forma?!…

- Oh! naturalmente…

-Pois creia minha senhora…

Nisto entra o moleque da casa com um embrulho, e depositando-o sobre uma cadeira, diz todo vitorioso: “nhnhãsinha, o seu Juca deu a anquinha por um patacão, e mandou dizer prá nhanhãsinha que recebeu daqueles pós que nhanhãsinha…

- Minha senhora, sente-se incomodada? está vermelha…o que tem…

- Não é nada, costumo… sim… a enxaqueca…

- Queira receber as minhas despedidas e permita-me vir amanhã, saber de sua apreciável saúde…

- Pois não…quero dizer, queira não incomodar-se…

Saiu o homem… atravessou a rua… quis fazer um cumprimento ainda à moça da anquinha e teve a decepção de ver a sua cabeleira descolar-se do seu caco nu e descrever um semicírculo na sua frente…

Oh! malditas anquinhas!…

Impagabilíssimos chinós!…

Publicado no O Athleta de 14 de julho de 1886 e assinado Sancho (um dos pseudônimos de Luiz Nascimento Santos)

No baile do recreio

 Vi-a pela primeira vez, ainda me lembro bem, foi numa quinta-feira. Ela negociava uma caixinha de pós de arroz, com o Gama, na loja do Felizardo. Pisquei-lhe um olho, ela compreendeu.

A negrita que acompanhava a família estava à porta. Dei-lhe um níquel e fiquei logo ciente que Iaiá ia ao baile do Recreio.

Chegara o sábado. O Cosmopolita estava repleto das mais esplêndidas flores do nosso jardim.

Magnífica soirée.

Dançava-se com frenesi.

Fazia as honras da sala o simpático diretor, o roliço Guilherme.

Iaiá lá estava. Cumprimentei-a e tirei-a para uma valsa.

Ressoaram no salão as notas brilhantes de uma composição de Strauss. Cingindo aquela cinturinha breve, quis falar-lhe do meu amor. Pela primeira vez achei-me acanhado e senti que a amava deveras.

Guardaria-me para a quinta quadrilha. Armaria-me de coragem e estabeleceríamos as bases do nosso casamento.

Passeávamos na sala acalentando eu essa ideia, que me viera tirar de uma crítica posição.

Chega-se a nós, choramingas a morder um esquecido, uma encantadora criancinha. Agarra-se ao vestido da Iaiá, e com a mão esquerda a coçar-lhe o canto da vista repete-lhe três vezes:

– Eu quero ir pra casa, eu tô cum sono.

– Que belo irmãozinho

– Não tenho irmãos. Este é o meu filhinho mais velho.

Fiquei enfiado e viria para casa sem chapéu se o marido de Iaiá não me dissesse a chacotear.

– O Sr, vai sem cabeça?!…

Publicado no O Athleta de 24 de outubro de 1886 e assinado Bitu (um dos pseudônimos de Luiz Nascimento Santos)

A fotografia abaixo, Nhô João, deixa disso!,  inspirou o texto homônimo de Elvia Bezerra, coordenadora de Literatura do IMS, que foi publicado na Brasiliana Fotográfica, no Dia dos Namorados, 12 de junho de 2018.

 

Links para artigos já publicados na Brasiliana Fotográfica sobre fotógrafos amadores:

Ipanema, que completa 122 anos, pelas lentes de José Baptista Barreira Vianna (1860 – 1925), publicado em 26 de abril de 2016

O fotógrafo amador Guilherme Santos (1871 – 1966), publicado em 28 de julho de 2016

 

(1)  PEREGRINO, Nadja Fonseca; MAGALHÃES, Ângela. Fotoclubismo no Brasil: o legado da Sociedade Fluminense de Fotografia, pág. 119.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Hemeretoteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário Histórico-Fotográfico Brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

PEREGRINO, Nadja Fonseca; MAGALHÃES, Ângela. Fotoclubismo no Brasil: o legado da Sociedade Fluminense de Fotografia. Rio de Janeiro: Senac Nacional, 2012, 336 p.II.

SANTOS, Alexandre. O gabinete do Dr. Cellegari: considerações sobre um bem-sucedido fabricante de imagens. In: ACHUTTI, Luiz (org). Ensaios sobre o fotográfico. Porto Alegre: Unidade Editorial, 1998.

SERRANO, Eneida. Lunara amador 1900. Porto Alegre: E.S..,2002.

Site Enciclopédia Itaú Cultural

Site GaúchaZH Artes

Site Metropolitan Museum of New York

Site UFRGS Ciência

STUMVOLL, Denise Bujes. Fotografia e aproximações com a arte no início do século xx : um olhar para as narrativas visuais de Lunara. Dissertação de mestrado, 2014. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Instituto de Artes. Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais.

 

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Virgilio Calegari. Retrato de Luis do Nascimento Santos, c. 1900. Porto Alegre, Rio Grande do Sul / Fototeca Sioma Breitman / Museu Joaquim Felizardo