Após encantar-se com Molière e Giulietta Dionesi, o imperador Pedro II sofre um atentado

Dom Pedro II (1825 – 1891) foi alvo de um atentado quando saía do Theatro Sant´Anna, no Rio de Janeiro, com alguns membros de sua família, em 15 de julho de 1889. Foi o primeiro governante do Brasil a sofrer um atentado!

 

 

Pela primeira vez, após um reinado de mais de meio século, fora quebrado o respeito que sempre cercou a pessoa do imperador”. 

                                                                                                                                                                   O Paiz, 17 de julho de 1889

 

Na verdade, Pedro II, um Habsburgo perdido nos trópicos, cuja figura de 1,90m, louro e de olhos azuis contrastava com a aparência da maioria da população do Brasil, governou por quase 50 anos e não por mais de meio século – foram 49 anos, três meses e 22 dias. Só foi superado por duas inglesas e rainhas do Reino Unido: Vitória (1817 – 1901), que reinou de 1837 até sua morte, em 1901; e Elizabeth II (1926 -), que ocupa o trono desde 1952. Pedro II governou o Brasil, país pelo qual era apaixonado, de 23 de julho de 1840 a 15 de novembro de 1889 e, segundo José Murilo de Carvalho, o fez “com os valores de um republicano, com a minúcia de um burocrata e com a paixão de um patriota. Foi respeitado por quase todos, não foi amado por quase ninguém”.

 

 

Na noite de 15 de julho de 1889, houve a apresentação de uma jovem violinista italiana e a encenação de uma peça,  no Theatro Sant´Anna. O imperador Pedro II (1825 – 1891), acompanhado da imperatriz Teresa Cristina (1822 – 1889), de sua filha, a princesa Isabel (1846 – 1921), e do príncipe Pedro Augusto (1866 – 1934), seu neto mais velho, estiveram presentes.

 

Acessando o link para as fotografias de dom Pedro II disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas. 

 

O Theatro Sant´Anna localizava-se onde anteriormente ficava o Theatro Casino Franco-Brésilien. Foi reinaugurado em 29 de outubro de 1880, com a opereta do alemão Jacques Offenbach (1819 – 1880), La fille du tambour major, executada pela Companhia Lírica Francesa. Era, desde então, um dos palcos mais importantes do Rio de Janeiro. Ficava na Praça da Constituição, atual Praça Tiradentes (Revista Musical e de Bellas Artes, 30 de outubro de 1880, segunda coluna). Em 26 de janeiro de 1905, já propriedade do empresário Paschoal Segreto (1868 – 1920), foi reinaugurado com o nome de Theatro Carlos Gomes com a encenação da peça Papa Lebonnard, de Jean Aicard (1848 – 1921), com a Companhia Christiano de Souza e Lucinda Simões (O Malho, 21 de janeiro de 1905).

Voltando à noite de 15 de julho de 1889. O Sant’Anna achava-se repleto: platéia e camarotes ocupados por pessoas da melhor sociedade; as galerias cheias da gente que de ordinário a freqüenta (Novidades, 16 de julho de 1889, quinta coluna). Foi apresentada a comédia Escola de Maridos (1661), do célebre dramaturgo francês Molière (1622 – 1673), traduzida pelo jornalista e dramaturgo maranhense Arthur de Azevedo (1855 – 1908), que em um dos intervalos foi chamado ao camarote do imperador, que felicitou seu trabalho e manifestou o desejo de possuir uma cópia de sua excelente tradução (Gazeta de Notícias, 16 de julho de 1889, quarta coluna). Arthur de Azevedo foi, anos depois, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e algumas de suas peças de maior sucesso foram A Capital Federal e O Mambembe.

 

 

Nos intervalos da peça, a violinista Giulietta Dionesi (c. 1877 – 1911), com a apenas 11 anos e já considerada uma virtuose do instrumento, executou a Grande Marcha Militar, do belga Hubert Leonard (1819 – 1890); e o Andante e Polonesa de Concerto, do francês Charles Dancla (1817 – 1907). Foi acompanhada por seu irmão, 10 anos mais velho do que ela, o maestro e pianista Romeu Dionesi (c. 1867 – ?). A apresentação foi um sucesso (Gazeta de Notícias14 de julho de 1889, quarta coluna; e 17 de julho de 1889, penúltima coluna).

 

GIULIETA1

A violinista italiana Giulietta Dionesi, aos 11 anos, em gravura da revista Pantheon

 

Os Dionesi haviam chegado em junho no Rio de Janeiro, após uma bem sucedida excursão pela Itália, Espanha e Portugal. No dia 6 de julho, Giulieta foi cumprimentar o imperador que, segundo noticiado, a recebeu com benéfico acolhimento e pediu que ela deixasse com ele o álbum com os artigos que a imprensa havia publicado sobre ela. Os irmãos ficaram órfãos de mãe e fugiram da Itália devido à exploração que o pai fazia do talento dos dois (Gazeta de Notícias, 29 de junho de 1889, quinta coluna; e 7 de julho de 1889, quinta coluna).

Enfim, a noite no Teatro Sant´Anna havia sido um sucesso absoluto! O espetáculo correu na melhor ordem. A atitude do povo era de todo o ponto pacífica e cortês. Porém, quando dom Pedro II e seus familiares, ao fim do espetáculo, chegaram ao saguão do teatro, houve uma manifestação contra a família imperial. Alguém gritou “Viva o Partido Republicano!”, abafado imediatamente esses gritos sediciosos aos aplausos de Viva o imperador! Viva a família imperial! Viva a monarquia! ((Novidades, 16 de julho de 1889, quinta coluna; e Novidades, 17 de julho de 1889, quinta coluna).

Causou a mais viva impressão a notícia da deplorável ocorrência de ontem à noite, às portas do teatro Sant’Anna e suas circunvizinhanças. Um grupo, quando o Imperador saía do teatro em companhia de sua augusta família, levantou vivas à república, o que produziu a maior confusão no povo, que em desafronta de Sua Magestade levantou vivas ao imperador. Sua Magestade embarcou em seguida no seu coche, que partiu a trote largo, e afirmam várias pessoas que, no momento de passar aquele por defronte da Maison Moderne, ou Stat-Coblentz, ouviu-se a detonação de um tiro” (Cidade do Rio, 16 de julho de 1889).

 

 

Foi na frente do restaurante Maison Moderne, localizado na própria Praça da Constituição, entre a rua Espírito Santo e a Travessa da Barreira, que foram disparados tiros na direção da carruagem imperial, que seguiu pela rua da Carioca em direção ao Paço Imperial.

 

 

Ainda na madrugada do dia 16 de julho, o 1º delegado de polícia, Bernardino Ferreira da Silva, começou as investigações. O primeiro detido, logo liberado, foi Germano Hasslocher. Depois compareceu à delegacia Eduardo José de Freitas informando que um funcionário da Maison Moderne, Antônio José Nogueira, conhecia o autor dos disparos, Adriano Augusto do Valle. Assim, o delegado Bernardino prendeu o acusado em um bonde da Companhia de Botafogo, na rua de Gonçalves Dias. Ele tinha 20 ou 21 anos, era natural de Coimbra, filho de Adriano Francisco Augusto do Valle e trabalhava desde maio como primeiro caixeiro do estabelecimento de pedras açorianas e máquinas para lavoura dos Srs. Ferreira & C., na rua Teófilo Otoni, nº 119, mesma rua onde residia, no nº 128. Na edição de O Paiz de 17 de julho de 1889, foram publicados alguns antecedentes do acusado que, segundo o periódico, há algum tempo discutia assuntos políticos , mostrando-se extremado em suas opiniões. Noticiou também o boato de que Adriano já havia dado um tiro em um retrato do conde d´Eu (1842 – 1922), marido da princesa Isabel, dizendo que sentia não poder fazer o mesmo, por enquanto, na pessoa desse príncipe (O Paiz, de 17 de julho de 1889; e Diário do Commércio, 17 de julho de 1889, terceira coluna).

 

 

Segundo alguns relatos, pouco antes do atentado, junto com outros rapazes, em bebedeira, Adriano do Valle teria afirmado ter coragem de dar “Vivas a República” diante do imperador. Foi incentivado pelos colegas, atirou e fugiu. Tentou se esconder em diversos hotéis, mas todos estavam cheios. No Hotel Provenceaux, pediu que o caixeiro Antônio Gonçalves guardasse os dois revólveres que possuía. Durante o interrogatório, confessou seu crime e declarou:

 

 

Houve um clima de consternação geral. O atentado causou polêmica em torno da imigração estrangeira, em crescimento durante a década de 1880, já que o criminoso era português, pertencendo à maior colônia de imigrantes da Corte e também à comunidade mais rica da cidade do Rio de Janeiro; e do movimento republicano.

Os republicanos imediatamente declararam-se contra o atentado, dissociando-se da ação criminosa. Quintino Bocaiuva (1836 – 1912 ), chefe do Partido Republicano e redator-chefe do jornal O Paiz, publicou o editorial “Os dois fatos“(O Paiz, 17 de julho de 1889, terceira coluna).

 

 

Outros jornais também se pronunciaram nesse sentido:

Infelizmente, houve ontem um atentado que não podemos atribuir senão à inconsciência de quem o praticou: ou loucura ou embriaguez, pois, por honra do partido republicano, não acreditamos que tal ato dele partisse. Esse triste acontecimento é ainda uma das consequências da profunda anarquia que lavra nos espíritos do Brasil, onde todas as noções de direito, dever e liberdade acham-se completamente obliteradas”. Tal ato contrariaria a “brandura do coração brasileiro e dos nossos costumes” (Gazeta da Tarde, 16 de julho de 1889, segunda coluna). 

“Revolucionários, sim, assassinos, nunca!”

“O Partido Republicano não tem a menor responsabilidade pelo desacato cometido contra S.S.M.M… O desacato que sofreu o chefe do estado, alquebrado pelos anos e pela moléstia, junto à santa senhora que o acompanhava só pode ser levado à conta da loucura daqueles que a todo transe procuram indispor e vilipendiar o nosso partido. Apelamos para o próprio imperador, e ele, que com cosciência nos diga, se julga que haja nesta terra um “verdadeiro republicano” que seja capaz de atentar contra a sua vida! Revolucionários, sim, assassinos, nunca!” (República Brazileira, 17 de julho de 1889, primeira coluna).

O próprio dom Pedro II, que no dia seguinte ao atentado foi com a imperatriz para o Palacete Itamaraty, no Alto da Boa Vista, procurou minimizar publicamente a importância do ocorrido, descartando a possibilidade de Adriano fazer parte de uma trama para sua deposição: “Não foi nada, foi um tiro de louco!” teria exclamado, na tentativa de encerrar o caso. Na ocasião, recebeu diversas visitas em desagravo ao ocorrido (O Paiz, 17 de julho de 1889, última coluna).

 

 

Devido à nacionalidade do acusado, o conselheiro Nogueira Soares, ministro de Portugal no Brasil, convocou seus compatriotas a uma reunião para a discussão sobre o atentado contra o imperador (Gazeta de Notícias, 21 de julho de 1889, sexta coluna). Associados das caixas beneficentes e associações portuguesas lançaram uma nota de repúdio ao crime e a diretoria do Liceu Literário Português anunciou seu total desacordo com o ato cometido contra o imperador: “Este ato manou de um louco, e os loucos não têm pátria” (Gazeta de Notícias, 18 de julho de 1889, terceira coluna).

Na reunião do ministério de Portugal, realizada no Gabinete Português de Leitura, no dia 24 de julho, o ministro Nogueira Soares leu um retrospecto dos acontecimentos acerca do atentado e fundamentou a seguinte proposta:

 

 

A Gazeta de Notícias publicou um editorial contra a posição aprovada por parte da colônia portuguesa durante a reunião (Gazeta de Notícias, 26 de julho de 1889, primeira coluna). O jornal O Paiz, cujo dono era o português João José dos Reis Junior, também se pronunciou afirmando que “A nacionalidade portuguesa não pode de modo algum ser lastimada pelo acidente da origem do jovem presumido criminoso” e desaprovando o ato de Nogueira Soares classificando- o de”azáfama de zumbaias à monarquia” e de “ostenstação de desprezo e de abandono para com o desventurado moço português (O Paiz, 28 de julho de 1889, quarta coluna).

Enquanto isso, o imperador seguiu recebendo, entre os meses de julho e agosto, vários telegramas o felicitando por ter sobrevivido ao atentado. Pelo mesmo motivo, também foram oferecidas diversas missas em Ação de Graças. Mas o fato é que a monarquia estava mesmo em seus estertores no Brasil. Em 9 de novembro, foi realizado o baile da Ilha Fiscal (Gazeta de Notícias, de 11 de novembro de 1889), que passou à história como o último baile do regime monárquico no país. Dias depois, em 15 de novembro, foi proclamada a República (Gazeta de Notícias, 16 de novembro de 1889).  Em 17 de novembro, a família real partiu para o exílio, na Europa, a bordo do Alagoas (Gazeta de Notícias, edição de 18 de novembro de 1889, sob o título “O Embarque do Imperador”, na segunda coluna).

Cerca de uma semana depois, no dia 23 de novembro de 1889, aconteceu o julgamento de Adriano do Valle perante o júri. Foi presidida pelo juiz Hollanda Cavalcanti. O reú compareceu acompanhado por seu curador, Julio Ottoni, e por seu defensor Ferreira Lima. O promotor do caso foi Lima Drummond. A defesa alegou que o grito de “Viva o Partido Republicano” tornara-se irrelevante devido à mudança de regime de governo ocorrido no Brasil; que Adriano não havia atirado contra a carruagem imperial já que nem os cocheiros nem os membros do piquete haviam ouvido disparos; e que não havia marca de tiros na carruagem. Argumentaram também que Adriano do Valle havia ingerido absinto, um dos motivos de ter tomado uma atitude irracional. O juiz Hollanda Cavalcanti fez 10 perguntas para os jurados, sendo a primeira “O acusado atirou no carro do imperador?” As demais estavam associadas a ela. Por 10 votos a 0, os jurados responderam “não” à primeira questão. As seguintes perderam o sentido e Adriano do Valle foi então, poucos dias após a proclamação da República, absolvido e posto em liberdade (Gazeta de Notícias, 24 de novembro, penúltima coluna).

Pedro II faleceu, no exílio, em Paris, em 5 de dezembro de 1891, no Hotel Bedford, na rua Arcade, no oitavo arrondissement da cidade. Foi retratado pelo renomado fotógrafo Nadar e seu atestado de óbito foi assinado por Jean Marie Charcot (1825 – 1893), Charles Jacques Bouchard (1837 – 1915) e por seu médico e amigo pessoal, Cláudio Velho da Motta Maia (1843 – 1897). A causa da morte foi pneumonia aguda no pulmão esquerdo.

 

Registro de morte de dom Pedro II

Registro de morte de dom Pedro II

Tradução do registro de morte do imperador:

Nós, abaixo assinados, Professores da Faculdade de Medicina e doutores em medicina, certificamos que Dom Pedro II d’Alcantara morreu em 5 de Dezembro de 1891 à meia noite e 35 (da manhã) no hotel Bedford, 17 rue de l’Arcade, em Paris, em conseqüência de uma pneumonia aguda do pulmão esquerdo.

Paris, 5 de dezembro de 1891

J.M Charcot

C. de Motta Maia

Bouchard”

Link para o registro da morte de Pedro II.

 

 

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Academia Brasileira de Letras

CPDOC

BESOUCHET, Lídia. Exílio e morte do Imperador. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1975

CARVALHO, José Murilo de. Os bestializados, o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo: Cia. das Letras, 1987.

CARVALHO, José Murilo. Pedro II: ser ou não ser. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

Enciclopédia Britannica

HARING, Bertita. O Trono do Amazonas – a história dos Braganças no Brasil – José Olympio, RJ, 1944.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Jornal da Manhã de Uberaba, 20 de setembro de 1918

MEDEIROS, Karla Armani. Giulietta Dionesi, a jovem violinista. O Diário de Barretos, 8 de janeiro de 2019.

OLIVEIRA, Olga Maria Frange de. O atentado e o resgate de um gênioJornal da Manhã (Uberaba), 20 de setembro de 2018.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

Site Naxos

Site Theatros do Centro Histórico do Rio de Janeiro

Site ViolinMan.com

VIDIPÓ, George. Um processo criminal nos jornais do século XIX: o atentado contra dom Pedro II. Anais do Encontro Internacional XVII Encontro de História da Anpuh-Rio: História e Parcerias, 2018.

 

A Revolta da Armada

“Grave notícia se espalhou desde manhã cedo pela cidade: uma parte da força armada da nação se sublevara, e havia uma greve assustadora na estrada de ferro Central.

Nem tudo isso era verdade. Os sucessos ocorridos na estrada não tinham a gravidade que se anunciava; mas era certo que a esquadra se achava em atitude francamente hostil ao governo”.

 

 

Assim a Gazeta de Notícias, de 7 de setembro de 1893, iniciava a matéria sobre a Revolta da Armada, rebelião da última década do século XIX, que evidenciou algumas das cisões da então incipiente República brasileira.

A Brasiliana Fotográfica traz para seus leitores registros fotográficos desse acontecimento produzidos pelo importante fotógrafo Marc Ferrez (1843-1923), que foi fotógrafo da Marinha brasileira, e pelo espanhol Juan Gutierrez (?-1897), que chegou ao Brasil, provavelmente, na década de 1880, e foi um dos últimos profissionais que recebeu o título de “Fotógrafo da Casa Imperial, em 1889.

 

Galeria da Revolta da Armada

 

Acessando o link para as fotografias da Revolta da Armada disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

O Comitê Nacional do Brasil do Programa Memória do Mundo da UNESCO, o MoWBrasil, reunido em Sessão Plenária com a maioria de seus membros, entre os dias 2 e 3 de outubro de 2017, na cidade de Belo Horizonte, escolheu 10 das 22 candidaturas recebidas ao Edital MoWBrasil 2017, para serem inscritas no Registro Nacional do Brasil do Programa Memória do Mundo da UNESCO. Os registros iconográficos da Revolta da Armada (1893 – 1894), cuja inscrição foi proposta pelo Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, pelo Instituto Moreira Salles e pelo Museu Histórico Nacional*, foi um dos selecionados. O IMS é um dos fundadores da Brasiliana Fotográfica e o Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro é parceiro do portal.

Os outros escolhidos cujos proponentes são parceiros ou fundadores da Brasiliana Fotográfica foram o Arquivo Lima Barreto, da Fundação Biblioteca Nacional; a Coleção Família Passos, do Museu da República; a Correspondência original dos governadores do Pará com a corte. Cartas e anexos (1764-1807), do Arquivo Nacional; o Formulário médico manuscrito atribuídos aos jesuítas e encontrado em uma arca da igreja de São Francisco de Curitiba, da Fundação Oswaldo Cruz.

Também foram selecionados: Atas do Montepio Geral de Economia dos Servidores do Estado – o início da Previdência no Brasil, da Mongeral Aegon Seguros e Previdência; a Coleção Tribunal de Segurança Nacional: a atuação do Supremo Tribunal Militar como instância revisional, 1936-1955, do Superior Tribunal Militar; a Coleção Vladimir Kozák: acervo iconográfico, filmográfico e textual de Povos Indígenas Brasileiros (1948 – 1978), do Museu Paranaense; os Livros de registros da Polícia Militar da Bahia, da Polícia Militar da Bahia; e o Testamento do senhor Martim Afonso de Souza e de sua mulher dona Ana Pimentel, da Universidade Federal de Minas Gerais.

A cerimônia de entrega dos certificados ocorrerá no dia 7 de dezembro, no Rio de Janeiro, no Forte de Copacabana.

 

Um pouco da história da Revolta da Armada

 

As origens da Revolta da Armada remontam a novembro de 1891 (Gazeta de Notícias, de 5 de novembro de 1891, na primeira coluna), quando o marechal Deodoro da Fonseca (1827-1892), primeiro presidente do Brasil, fechou o Congresso Nacional por não conseguir negociar com as bancadas de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, estados produtores de café. Sob a liderança do contra-almirante Custódio de Mello (1840 – 1902), unidades da Marinha se sublevaram e ameaçaram bombardear o Rio de Janeiro. Vinte dias depois, em 23 de novembro, Deodoro renunciou e o vice-presidente, marechal Floriano Peixoto (1839-1895), assumiu a presidência (Gazeta de Notícias, de 24 de novembro de 1891). Porém, não convocou eleições presidenciais conforme previa a Constituição em vigor. Foi acusado de ocupar ilegalmente a presidência.

Em 1892, ocorreu o primeiro movimento de oposição: 13 oficiais-generais divulgaram um manifesto exigindo a convocação de eleições. Os líderes do movimento foram presos e parte deles foi mandada para o interior do estado do Amazonas, na cidade de Tabatinga (Diário de Notícias, 23 de abril de 1892, sob os títulos “Manifesto” e “Habeas Corpus”).

Em  6 de setembro de 1893, um grupo de oficiais da Marinha, liderados pelo ministro da Marinha e da Guerra, o contra-almirante Custódio de Mello (1840 – 1902), que pretendia se candidatar à sucessão de Floriano Peixoto, voltou a se rebelar. Iniciava-se assim a Revolta da Armada, na Baía de Guanabara, com os navios Aquidabã, Javari, TrajanoRepública. Custódio de Mello divulgou um manifesto acusando o governo de ter “armado brasileiros contra brasileiros” e de ter iludido “a Nação, abrindo com mão sacrílega as arcas do erário público a uma política de suborno e corrupção”(Gazeta de Notícias, 8 de setembro de 1893, na quinta coluna). Também fazia parte do grupo o almirante Eduardo Wandenkolk (1838 – 1902), que havia sido ministro da Marinha do governo de Deodoro da Fonseca e que, um ano antes, havia sido um dos oficiais presos por ter assinado o manifesto dos 13 generais.  Além das acusações contra a política de Floriano Peixoto, os oficiais da Marinha também se ressentiam de seu desprestígio em relação aos oficiais do Exército.

Em 13 de setembro, os fortes fluminenses, em poder do Exército, começaram a ser bombardeados (Gazeta de Notícias, 14 de setembro de 1893, sob o título “A Revolta”). A frota das forças rebeldes era formada por embarcações da Marinha de Guerra e por navios civis de empresas brasileiras e estrangeiras.

 

 

 

Na Marinha os revoltosos eram maioria, porém enfrentavam forte oposição no Exército, onde milhares de jovens aderiam aos batalhões que apoiavam o presidente Floriano. As elites dos estados, principalmente a de São Paulo, também eram favoráveis a Floriano.

Na madrugada de 1º de dezembro, Custódio de Mello, no Aquidabã, seguido do República e de cruzadores auxiliares, foi para o sul para unir-se aos federalistas (O Paiz, 2 de dezembro de 1893, sob o título “A Revolta”). Na época acontecia a Revolução Federalista, uma disputa entre os federalistas (maragatos) e republicanos (pica-paus), esses últimos apoiados por Floriano. A cidade de Desterro, como se chamava então a capital de Santa Catarina, foi dominada pelos revoltosos.

 

 

Em 7 de dezembro, o contra-almirante Luís Filipe Saldanha da Gama (1846 – 1895), então diretor da Escola Naval, aderiu ao movimento, assumindo o comando dos revoltosos no Rio de Janeiro, dando início à segunda fase da Revolta da Armada (Gazeta de Notícias, 15 de dezembro de 1893, na segunda coluna). A essa altura, os rebelados contavam com pouca munição e não dispunham de víveres. A Fortaleza de São José, na Ilha das Cobras, foi praticamente destruída pelas tropas legalistas e, em 9 de fevereiro de 1894, quando os rebelados, sob o comando de Saldanha da Gama, desembarcaram na Ponta da Armação, em Niterói, foram derrotados. Também foram vencidos na Ilha do Governador (Gazeta de Notícias, 10 de fevereiro de 1894, sob o título “A Revolta”).

Niterói, que era a capital do estado do Rio de Janeiro, teve seus sete fortes bombardeados. Em 20 de fevereiro de 1894 , a sede do governo foi então transferida para Petrópolis, cidade serrana fora do alcance dos canhões da Marinha (Gazeta de Petrópolis, 24 de fevereiro de 1894). Niterói só voltaria a sediar a capital em 1903.

O governo federal havia adquirido navios de guerra, que foram apelidados de “frota de papelão”. O comando dessa esquadra foi entregue ao almirante Jerônimo Gonçalves (1835 – 1903), veterano da Guerra do Paraguai. Em março de 1894, com o apoio do Exército e do Partido Republicano Paulista (PRP), a Revolta da Armada foi sufocada ( O Paiz, 14 de março de 1894Gazeta de Notícias, 16 de março de 1894). Os rebeldes se asilaram nos navios portugueses Mindelo e Afonso de Albuquerque, terminando a segunda fase da revolta.

A Revolução Federalista continuava no sul, para onde Saldanha da Gama e seus homens foram conduzidos. Custódio de Mello havia tomado o porto de Paranaguá e estava unido ao líder federalista Gumercindo Saraiva (1852 – 1894). Tomaram a cidade da Lapa e as tropas do governo deslocaram-se para o sul. Em 16 de abril de 1894, o encouraçado Aquidabã, dos revoltosos, foi torpedeado, em Santa Catarina, pela torpedeira Gustavo Sampaio, comandada pelo tenente Altino Flavio de Miranda Correia (Gazeta de Notícias, 18 de abril de 1894, sob o título “A Revolta”).

No cruzador República, Custódio de Mello, comandando quatro navios mercantes e dois mil homens, tentou, sem sucesso, desembarcar na cidade do Rio Grande. Foi derrotado pelas tropas do governo de Julio de Castilhos. Os revolucionários da Armada estavam vencidos. Custódio refugiou-se na Argentina, onde entregou os navios (Diário de Notícias, 23 de abril de 1894). Segundo o historiador Helio Silva, o fim da terceira e última fase da Revolta da Armada aconteceu com a morte de Saldanha da Gama, em 25 de junho de 1895, em Campo Osório, no Rio Grande do Sul (Gazeta de Notícias, 26 de junho de 1895).

 

 

Floriano Peixoto ficou conhecido como “Marechal de Ferro” e governou até 15 de novembro de 1894, quando foi sucedido por Prudente de Morais, primeiro presidente civil do Brasil.

 

 

O Decreto nº 310, de 21 de outubro de 1895, anistiou “todas as pessoas que directa ou indirectamente se tenham envolvido nos movimentos revolucionarios occorridos no territorio da Republica até 23 de agosto do corrente anno, com as restricções que estabelece”(Gazeta de Notícias, de 22 de outubro de 1895, sob o título “Amnistia”). Custódio de Mello e outros oficiais envolvidos na Revolta da Armada  retornaram ao Brasil (Gazeta de Notícias, de 24 de outubro de 1895, sob o título “Telegrammas”, e Gazeta de Notícias, de 31 de outubro de 1895, no topo da segunda coluna). Chegaram no Rio de Janeiro em 6 de novembro (Gazeta de Notícias, de 7 de novembro de 1895, na terceira coluna).

 

 

Para a elaboração desse resumo da Revolta da Armada, a Brasiliana Fotográfica pesquisou diversos jornais da Hdmeroteca Digital da Biblioteca Nacional, além do Atlas da Fundação Getúlio Vargas, e dos livros A Revolta da Armada, de Hélio Leôncio Martins; Nasce a República 1888-1894, de Hélio Silva, e “Coleção História Naval Brasileira”.

 

Outras publicações da Brasiliana Fotográfica sobre conflitos no Brasil:

Guerra de Canudos pelo fotógrafo Flavio de Barros

Lampião e outros cangaceiros pelas lentes de Benjamin Abrahão

Registros da Guerra do Paraguai

 

A Brasiliana Fotográfica convida seus leitores para uma visita ao Correio IMS, onde estão publicadas duas cartas que o jurista, escritor e jornalista Rui Barbosa (1849-1923) – opositor de Floriano Peixoto, que o considerava o mentor intelectual da Revolta da Armada – escreveu para sua esposa, Maria Augusta Viana Bandeira (1855-1949), na época da rebelião:

“As “delícias” de ser preso”, de 7 de setembro de 1893

“Não sei como ainda vivo!”, de 19 de setembro de 1893

 

A Brasiliana Fotográfica faz um agradecimento especial ao Departamento de História da Marinha, à socióloga Roberta Zanatta e ao arquiteto Bruno Buccalon, ambos da equipe do IMS. 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

*ERRATA: anteriormente, a Brasiliana Fotográfica havia apontado o Museu da República como um dos proponentes. A correção foi feita em 30 de maio de 2018.