100 anos do Castelo da Fiocruz: os pedreiros do Castelo da Avenida Brasil

No segundo texto publicado na Brasiliana Fotográfica sobre o centenário do Castelo da Fiocruz, o pesquisador Ricardo Augusto dos Santos, da Fiocruz, uma das instituições parceiras do portal, aborda a construção do castelo mas, dessa vez, o foco são os pedreiros que trabalharam na obra. Inaugurado em 28 de fevereiro de 1918, o Castelo da Fiocruz é o local de trabalho de pesquisadores e técnicos que pesquisam, ensinam ciência e saúde pública; e que também fabricam medicamentos essenciais para a população. Projetado pelo arquiteto Luiz Moraes Junior (1872 – 1955), o edifício começou a ser erguido em 1905 e foi concluído em 1918. O próximo e último texto sobre o centenário do edifício será escrito pelo também pesquisador da Fiocruz, Renato da Gama-Rosa Costa, com detalhes sobre sua construção e sobre seu projeto arquitetônico. O primeiro texto, 100 anos do Castelo da Fiocruz: a ocupação de Manguinhos, é de autoria de Cristiane d´Avila, jornalista do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz.

 

Os pedreiros do castelo da avenida Brasil

Ricardo Augusto dos Santos*

 

Quem construiu as pirâmides? Quem carregou as pedras? Quais os nomes dos desconhecidos trabalhadores? Em memorável poema, o dramaturgo Bertold Brecht (1898-1956) indagava: no dia em que ficou pronta a Muralha da China, para onde foram os seus pedreiros? Perto do bairro de Bonsucesso, existe um castelo. Centenas de milhares de pessoas passam na Avenida Brasil, entrando ou saindo do Rio de Janeiro, ou vindo dos subúrbios para o centro da cidade e perguntam: que castelo é esse? O prédio é parte do monumental conjunto que compõe a Fundação Oswaldo Cruz.

 

 

Mas não foi moradia de nobres portugueses? Não. É local de trabalho de pesquisadores e técnicos que pesquisam, ensinam ciência e saúde pública. Também fabricam medicamentos essenciais para a população. No final do século XIX, a fazenda, situada na zona norte do Rio de Janeiro, destinava-se à queima do lixo. Devido às epidemias – febre amarela, varíola e peste – que atacavam a cidade, iniciou-se uma série de ações que visavam a combater estas doenças.

Acessando o link para as imagens de operários da construção do Castelo da Fiocruz disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

O Castelo da Fiocruz, como é mais conhecido o Pavilhão Mourisco, começou a ser construído em 1905, mas sua completa edificação terminaria somente em 1918. O desenho inicial foi feito pelo próprio Oswaldo Cruz (1872-1917) e, a partir da idéia, o arquiteto português Luís de Moraes (1868-1955) chegou ao projeto final. A construção está localizada no alto da colina principal da antiga fazenda, e sua fachada está voltada para o mar, que na primeira década do século XX, chegava próximo do terreno.

Desde 1981, o belo conjunto está tombado pelo Patrimônio Histórico e Artístico. O estilo mourisco foi inspirado no Palácio de Alhambra, em Granada, na Espanha. Os equipamentos elétricos funcionavam a partir de um gerador e o elevador, instalado em 1909, é o mais antigo em operação na cidade. Possuía sistemas de telefonia, refrigeração, relógios e termômetros sofisticados para a época. Ele apresenta tom vermelho nos tijolos das paredes externas. As varandas são revestidas de azulejos portugueses, o piso é coberto de mosaicos que lembram tapetes orientais. Os materiais utilizados na obra – tijolos, azulejos, cimento e mármores – foram importados da Europa. Muitos dos seus operários eram portugueses, espanhóis e italianos. Mas, também havia brasileiros.

 

 

Nas raras fotografias destes homens aparecem os rostos destes trabalhadores. Não eram nem reis nem rainhas. Ajudaram a formar uma história centenária. Neste castelo, a ciência e a saúde pública formaram uma sólida tradição. Na imagem, estes operários estão em frente ao prédio em obras. Seus nomes? Alguns tiveram seus registros nos cantos da história. Após a conclusão dos trabalhos, foram aproveitados em várias funções na própria instituição. Basilio Aor, austríaco, mestre de obras, homem de confiança de Luís de Moraes, continuou trabalhando como arquiteto em outros trabalhos. Faleceu em 1919. Um dos seus sete filhos, Hamlet William Aor (1910-1986), viria a trabalhar no Instituto Oswaldo Cruz.

 

 

Para onde foram os pedreiros do Castelo da Fiocruz? Teriam ido morar nas redondezas. Na área conhecida hoje como Parque Amorim, rua Sizenando Nabuco, situada entre o Campus da Fiocruz e a Linha Amarela.

 

 

*Ricardo Augusto dos Santos é Pesquisador Titular da Fundação Oswaldo Cruz

Acessando o link para as fotografias de aspectos da construção do Castelo da Fiocruz que estão disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Outras publicações sobre o tema na Brasiliana Fotográfica:

100 anos do Castelo da Fiocruz: a ocupação da Fazenda de Manguinhos

 

O fotógrafo Joaquim Pinto da Silva, o J. Pinto (1884-1951) e a Fundação Oswaldo Cruz

Ricardo Augusto dos Santos*

 

 

A história da fotografia brasileira possui seus atores emblemáticos, como Marc Ferrez (1843 – 1923) e Augusto Malta (1864 – 1957). Mas, também, tem seus heróis quase desconhecidos ou anônimos que, encantados com a possibilidade de registrar em imagens a realidade, nos deixaram documentos relevantes para a memória e a história do país. Um expressivo número de fotografias do acervo da Fundação Oswaldo Cruz foi produzido por Joaquim Pinto da Silva, o J. Pinto (1884 – 1951), como ficou conhecido. Este fotógrafo produziu milhares de imagens, documentando os trabalhos científicos, os primeiros prédios e as transformações urbanas da região onde seria construído o centro de pesquisa, ensino e produção de medicamentos.

 

Acessando o link para as fotografias de autoria de J. Pinto disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

Acessando o link para as fotografias em que J. Pinto ou sua família aparecem disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Inicialmente, J. Pinto ocupou um acanhado e improvisado chalé, onde o laboratório fotográfico dividia espaço com a biblioteca do recém-criado Instituto Oswaldo Cruz (IOC). Em 1911, quase finalizado o Pavilhão Mourisco, J. Pinto seria instalado no belo castelo. Podemos observar, em seu trabalho, um notável domínio das técnicas fotográficas. Autor de inúmeras imagens, negativos em vidro e microfotografias científicas, J. Pinto, em final de 1928, enviou aos amigos um cartão desejando um feliz ano novo, contendo a imagem de seu rosto reproduzida cinco vezes. Este fato remete à original fotografia conhecida como Os trinta Valérios, realizada por Valério Vieira (1862-1941), em torno de 1901. O registro, um marco na história da fotografia, traz 30 imagens de Valério Vieira.

 

 

Pouco se sabe da vida deste importante personagem do IOC. Em final dos anos 1980, um grupo de pesquisadores da Casa de Oswaldo Cruz entrevistou um dos filhos de J. Pinto, Wilson Pinto, que forneceu algumas informações sobre seu pai. Infelizmente, idoso, sua saúde precária impossibilitava um depoimento fidedigno, assim como sua irmã Edna, que também quase nada dizia com exatidão sobre a vida de Joaquim Pinto. Porém, naquela tarde, obtivemos registros raros do fotógrafo e de sua família. No próprio acervo da Fiocruz, J. Pinto pouco aparece, a não ser em fotos de uma provável caçada em companhia de Carlos Chagas, ou em seu laboratório fotográfico.

 

 

Nascido em Alagoinhas, na Bahia, em 1884, J. Pinto teria vindo para o Rio de Janeiro com 14 anos. Seus pais eram José Camerino Pinto da Silva e Maria da Purificação. Casou-se com Izaura Costa da Silva e tiveram cinco filhos: Wilson, Milton, Elza, Zeni e Ilda. Depois de morar no Centro da cidade, comprou um terreno no Méier, na Rua Jacinto, número 67, construindo ali sua casa.

 

 

Em 1903, contratado por Oswaldo Cruz na fase inicial das atividades em Manguinhos, ele começou a documentar a construção do que viria a ser um dos principais centros de ciência e saúde do Brasil. Foi fotógrafo da instituição até 1946, quando se aposentou em decorrência de problemas de saúde. Mas as imagens produzidas por ele permaneceram como a memória fotográfica da Fundação Oswaldo Cruz. As fotos de sua autoria também mostram um Rio de Janeiro em processo de urbanização. J. Pinto, que se tornou amigo de Oswaldo Cruz (1872 – 1917) e de Carlos Chagas (1879 -1934), fotografou o aspecto rural de Manguinhos, que foi se transformando. Estão registrados a construção do Castelo, da avenida Brasil, os pesquisadores e instalações físicas. Em seus registros também aparecem construções, como o aquário, demolido, que era ligado à Baía de Guanabara por uma tubulação subterrânea, onde se estudavam organismos aquáticos; a cavalariça e a chaminé da antiga usina de incineração do lixo da cidade, também demolida no início da década de 1940.

 

 

 

*Ricardo Augusto dos Santos é Pesquisador Titular da Fundação Oswaldo Cruz

 

 

Pequena cronologia de Joaquim Pinto da Silva  (1884-1951) 

1884 – O fotógrafo Joaquim Pinto da Silva, que ficou conhecido como J. Pinto, nasceu em Alagoinhas, na Bahia, filho de José Camerino Pinto da Silva e Maria da Purificação.

c. 1898 – Com 14 anos, J. Pinto teria vindo para o Rio de Janeiro.

1903 – Foi contratado pelo médico e sanitarista Oswaldo Cruz na fase inicial das atividades em Manguinhos e começou a documentar a construção do que viria a ser um dos principais centros de ciência e saúde do Brasil.

1910 – Segundo o historiador Eduardo Thielen, que escreveu a dissertação Imagens da saúde no Brasil – A fotografia na institucionalização da saúde pública, J. Pinto teria sido possivelmente o autor do primeiro filme científico feito no Brasil, Chagas em Lassance. A obra, com 9 minutos de duração, era sobre a descoberta da doença de Chagas, feita pelo cientista Carlos Chagas, em Lassance, Minas Gerais, em 1909 (Agência Fiocruz, 15 de agosto de 2008).

1911 – Chagas em Lassance foi exibido por Oswaldo Cruz na Exposição Internacional de Higiene e Demografia de Dresden, na Alemanha (Agência Fiocruz, 15 de agosto de 2008). Também foi exibido o filme sobre as ações de combate à febre amarela no Rio de Janeiro. Esses dois filmes constituem o mais antigo acervo audiovisual científico preservado de que se tem notícia no Brasil. O pavilhão do Brasil, único país das Américas a construir um estande próprio no evento, foi inaugurado em 15 de junho (O Paiz, 16 de junho de 1911, quinta coluna).

1946 - J. Pinto aposentou-se devido a problemas de saúde.

1951 – Em outubro, falecimento de Joaquim Pinto da Silva. Sua missa de 30º dia foi realizada na Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro (Diário de Notícias, 25 e 26 de novembro de 1951).

 

2014 – Lançamento do livro Vida, engenho e arte — O acervo histórico da Fundação Oswaldo Cruz, com imagens produzidas por J. Pinto (O Globo, 6 de junho de 2014).

2016 – Realização da exposição Manguinhos Revelado: um Lugar de Ciência, com cerca de 120 fotografias, a maioria de autoria de J. Pinto (Portal Fiocruz, 8 de novembro de 2016).

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica