Os Arcos da Lapa e os bondes de Santa Teresa

Importante obra arquitetônica do período colonial do Brasil, os Arcos da Lapa, situados no bairro da Lapa, um dos redutos da boemia carioca, são um dos símbolos mais importantes do Rio de Janeiro Antigo e também um dos mais famosos cartões-postais da cidade. Foram inaugurados em 1750, durante o governo de Antônio Gomes Freire de Andrade (1685 – 1763), futuro primeiro conde de Bobadela*, substituindo um aqueduto que existia desde 1723. Seu projeto é atribuído ao brigadeiro português José Francisco Pinto Alpoim (1700 – 1765). Em estilo romano, têm 270 metros de extensão com 42 arcos duplos de alvenaria, e distribuíam à população carioca as águas da nascente do Rio Carioca a partir de um chafariz em mármore com 16 bicas de bronze aos pés do Convento de Santo Antônio.

Acessando o link para as fotografias dos Arcos da Lapa e dos bondes de Santa Teresa disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

A partir de 1º de setembro de 1896 (O Paiz, 2 de setembro de 1896), os Arcos da Lapa passaram a ser utilizados como viaduto para os também famosos bondes de ferro da Companhia de Carris Urbanos, meio de acesso do centro do Rio ao charmoso bairro de Santa Teresa, que se tornou um dos pólos artísticos da cidade e também destino de milhares de turistas. Tanto os Arcos da Lapa como os bondes de Santa Teresa foram registrados por importantes fotógrafos, dentre eles  Augusto Malta (1864 – 1957), Georges Leuzinger (1813 – 1892), Marc Ferrez (1843 – 1923) e também por anônimos.

 

 

As imagens dos Arcos da Lapa, assim como as do Pão de Açúcar e as do outeiro da Glória, locais que se tornaram marcos da fotografia de paisagem no Rio de Janeiro, foram popularizadas no livro Brasil Pitoresco (1861)primeiro livro de fotografia realizado na América Latina, com imagens produzidas pelo francês Jean Victor Frond (1821 – 1881), entre 1858 e 1860. Segundo Pedro Vasquez, o livro-álbum de Frond foi o “mais ambicioso trabalho fotográfico realizado no país, durante o século XIX”. Foi um importante marco para o fotografia e para as artes gráficas no Brasil. Nele, as fotografias de Frond se tornaram reproduções litográficas executadas em Paris, na Maison Lemercier, por artistas como Charpentier, Aubrun e Cicéri, dentre outros.  O texto do Brasil Pitoresco foi escrito pelo jornalista e político francês Charles Ribeyrolles (1812-1860).

 

 

 

 

*O primeiro conde de Bobadela governou o Rio de Janeiro entre 1733 e 1763. Recebeu o título em 1758.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Bairros da cidade

Biografia de Gomes Freire de Andrade

Brasiliana Fotográfica – Jean Victor Frond (França, 1/11/1821 – França, 16/1/1881)

Diário do Rio

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Correio da Manhã, 23 de junho de 1963

Correio da Manhã, 21 de junho de 1964

Jornal do Brasil, 26 de junho de 1963

Jornal do Commercio, 16 de setembro de 1896

O Paiz, 2 de setembro de 1896

RODRIGUES, Helio Suevo. A formação das estradas de ferro no Rio de Janeiro – o resgate de sua memória. Rio de Janeiro: Sociedade de Pesquisa para Memória do Trem, 2004.

Site do IPHAN

Site Infopatrimônio

Site Inventário dos Monumentos

Site Monumentos do Rio

 

A primeira passagem do Graf Zeppelin pelo Rio de Janeiro, em 1930, e registros de outras viagens

A chegada do Graf Zeppelin ao Rio de Janeiro foi um grande acontecimento. Sua passagem silenciosa pelo céu da cidade parecia uma visão de sonho e deslumbrou a população causando uma verdadeira comoção. O fotógrafo Jorge Kfuri (1893 – 1965) registrou o evento e a Brasiliana Fotográfica relembra o fato destacando imagens que pertencem à Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, uma das parceiras do portal. São 10 fotografias aéreas do dirigível alemão sobrevoando diversos bairros e locais da Cidade Maravilhosa, dentre eles o Bairro Peixoto, Botafogo, Copacabana, Humaitá, a Lagoa Rodrigo de Freitas, o Pão de Açúcar e o Campo dos Afonsos, onde aterrissou. Kfuri produziu as imagens a bordo do avião Consul Dayte nº 332, da Marinha de Guerra, pilotado pelo capitão-tenente Antônio Dias Costa (? – 1930), que faleceu dois dias depois em um acidente de avião (Diário da Noite, 26 de maio, quarta coluna e 28 de maio de 1930).

A Brasiliana Fotográfica reuniu também registros de outras passagens tanto do Graf Zeppelin como do dirigível Hindenburg pelo Rio de Janeiro, que pertencem ao acervo do Instituto Moreira Salles – são de autoria do fotógrafo amador Guilherme Santos (1871 – 1966) e de fotógrafos ainda não identificados. Há também uma fotografia, de autoria do fotógrafo húngaro Alfredo Krausz (1902 – 1953), de uma passagem do Graf Zeppelin por São Paulo tendo ao fundo o Edifício Martinelli. A Brasiliana Fotográfica também resgatou a crônica O morro em polvorosa, de Manuel Bandeira (1886 – 1968), sobre o impacto da presença do zepelim nos céus do Rio de Janeiro, publicada no Diário Nacional de 31 de maio de 1930.

Sérgio Burgi, coordenador de Fotografia do Instituto Moreira Salles e um dos curadores do portal, fez uma apreciação das fotografias selecionadas para essa publicação*.

 

 

Várias fotografias creditadas ao tenente J. Kfuri, do Serviço Fotográfico da Aviação Naval, foram publicadas na revista O Cruzeiro, de 7 de junho de 1930. Acima delas, os títulos eram exuberantes e líricos: “Na escuridão da noite como um meteoro…“, “Como um pássaro maravilhoso a aeronave parece voar entre as nuvens e as neblinas matinares” e “O refulgente pássaro aéreo voa sobre os bairros da cidade“, entre outros.

 

 

Na mesma edição, como as admiráveis fotografias do tenente Kfuri pediam um texto de excepcional significação, foi publicado o artigo Palavras do Ar, do engenheiro e professor Vicente Licínio Cardoso (1889 – 1931), único passageiro brasileiro do Graf Zeppelin. Estava na Europa como delegado da Federação Nacional das Sociedades da Educação, quando foi convidado pela Companhia Zeppelin para representar o país no primeiro voo da aeronave para o Brasil.

 

 

Acessando o link para as fotografias do Graf Zeppelin no Rio de Janeiro pertencentes ao acervo da Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha que estão disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Acessando o link para as fotografias de passagens de zepelins pelo Brasil pertencentes ao acervo do Instituto Moreira Salles que estão disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

 O primeiro voo do Graf Zeppelin ao Brasil

Ferdinand von Zeppelin

Batizado pela filha do pioneiro dos dirigíveis, o conde Ferdinand Graf von Zeppelin (1838 – 1917), em 8 de julho de 1928, data em que ele completaria 90 anos, o Graf Zeppelin D – LZ127  – graf significa conde – realizou seu primeiro voo em 18 de setembro do mesmo ano. O primeiro voo comercial aconteceu em 11 de outubro, também em 1928. Tinha aproximadamente 236 metros de comprimento e cerca de trinta metros de altura. Seu luxo, tamanho e velocidade encantaram seus passageiros e as populações por onde passava. Sua presença nos céus cariocas foi referido em uma crônica de Manuel Bandeira (1886 – 1968) como um acontecimento empolgante e inédito…um espetáculo…perturbantemente inédito (Diário Nacional, 31 de maio de 1930).

O Graf Zeppelin tinha 10 cabines duplas, dois lavabos, banheiros masculino e feminino, restaurante, cozinha, sala de rádio, sala de navegação e sala de controle. Foi o primeiro balão dirigível a vir ao Brasil, o primeiro a transpor a linha equatorial atravessando o oceano Atlântico no hemisfério sul. Veio em voo experimental e seu destino era o Rio de Janeiro. Prateado, partiu da base de Friedrichshafen, na Alemanha, em 18 de maio de 1930, e fez na manhã do dia seguinte uma parada em Sevilha, na Espanha. Sobrevoou os céus do Recife, primeira parada em terras brasileiras, após um voo de 59 horas conduzido pelo comandante Hugo Eckener (1868 – 1954).  Aterrissou no Aeroporto do Jiquiá, na capital pernambucana, em 22 de maio de 1930, onde era esperado por uma multidão estimada em 15 mil pessoas – a data havia sido decretada feriado pelo prefeito do Recife, Francisco da Costa Maia. A chegada da aeronave foi saudada pelo sociólogo Gilberto Freyre (1900 – 1987), então oficial de gabinete do governador Estácio Coimbra (1872 – 1937) (Diário de Pernambuco, 22 e 23 de maio de 1930). Houve tumulto entre a multidão e a polícia e o cônsul da Inglaterra e sua esposa foram atropelados pela cavalaria (Correio da Manhã, 25 de maio de 1930, terceira coluna). Fotografias sobre a passagem do dirigível por Recife foram publicadas em O Cruzeiro de 7 de junho de 1930.

 

Lista dos passageiros:

 

 

O Graf Zeppelin foi reabastecido com gás e seguiu para o Rio de Janeiro à meia-noite de 23 de maio (Diário de Pernambuco, 24 de maio de 1930).  Finalmente, a aeronave atingiu a cidade às 23:30 do dia 24 e durante toda a madrugada bordejou fora da barra com seus motores parados para não incomodar com barulho os habitantes do Rio. Seu sobrevoo à cidade, na manhã do dia 25 de maio, descrito como empolgante, como um dos mais imponentes espetáculos que poderia ser proporcionado pela aviação moderna, foi assistido por quase toda a população carioca. A espera pelo evento foi como a espera por um convidado de honra, um convidado para quem se reservam todas as atenções, todas as fidalguias, as fidalguias a que se dispensam aos grandes personagens que propositadamente se fazem aguardar com curiosidade…O prefeito Antônio da Silva Prado Junior (1880 – 1955) e outras autoridades, dentre elas o embaixador Morgan, dos Estados Unidos, foram receber o comandante Eckener ainda a bordo do zeppelin (Correio da Manhã, 26 de maio de 1930).

 

 

O conde Pereira Carneiro (1877 – 1954) e sua esposa, além do comandante Trompovsky e do capitão Fontenelle, representando o Ministro da Viação, embarcaram no dirigível (Correio da Manhã, 26 de maio de 1930, primeira coluna), que, cerca de uma hora depois da aterrissagem, voltou ao Recife, onde chegou no dia 26 (Correio da Manhã, 27 de maio de 1930). Dois dias depois, iniciou seu retorno à Alemanha. Ao sobrevoar Natal, a tripulação jogou uma coroa de flores sobre a estátua de um dos pioneiros da aviação, Augusto Severo (1864 – 1902), com a mensagem “A Alemanha ao Brasil na pessoa de seu grande filho Augusto Severo” (Correio da Manhã, 29 de maio de 1930). No fim do dia, cruzou a linha do Equador. A passagem por Havana, previamente programada, foi suspensa (Correio da Manhã, 31 de maio de 1930), e o Zeppelin chegou ao Aeroporto de Lakehurst, nos Estados Unidos, em 31 de maio (Correio da Manhã, 1º de junho de 1930). No dia 2 de junho partiu para Sevilha (Correio da Manhã, 3 de junho de 1930), onde chegou no dia 5 (Correio da Manhã, 6 de junho de 1930). Alcançou seu destino final, Friedrichshafen, em 6 de junho de 1930, após 19 dias desde o início de sua viagem tricontinental (Correio da Manhã, 7 de junho de 1930).

 

 

A história dos zeppelins foi interrompida pela explosão do dirigível Hindenburg, ocorrida, 77 horas depois da decolagem em Frankfurt, no final de uma tarde chuvosa, em Lakehurst, em Nova Jeresey, nos Estados Unidos, em 6 de maio de 1937, matando 36 pessoas – 13 passageiros, 22 tripulantes e um membro da equipe de terra (O Jornal, 7 de maio de 1937 e Revista da Semana, 15 de maio de 1937). Realizou 63 voos desde seu primeiro, em 4 de março de 1936. Segundo Claudio Lucchesi, autor do livro Loucos e heróis: fatos curiosidades da história da aviação, o Hindenburg fez 6 voos para o Brasil.

Após cerca de uma década, nenhum acidente foi registrado envolvendo o Graf  Zeppelin. Porém, após a tragédia com o Hindenburg, ainda em 1937, foi retirado de operação e ficou exposto em um hangar de Frankfurt (O Jornal, 19 de junho de 1937, quarta coluna). Foi desmanchado em março de 1940 por ordem de Hermann Goering (1893 – 1946), comandante-chefe da Luftwaffe, a força aérea alemã. Em nove anos de operação, o Graf Zeppelin realizou 590 voos transportando milhares de passageiros e centenas de quilos de carregamentos e correspondência.

 

 

A chegada do Graf Zeppelin ao Rio de Janeiro foi uma notícia de destaque em vários jornais da época:

A semana ZeppelinFon-Fon, 24 de maio de 1930

O Conde Zeppelin no Rio de Janeiro – Correio da Manhã, 26 de maio de 1930

O rápido pouso do Zeppelin – Como A Noite soube que o dirigível não aterraria no Campo dos AfonsosA Noite, 26 de maio de 1930

O Rio de Janeiro viveu momentos de intensa emoção e entusiasmo com a visita do “Graf Zeppelin”O Jornal, 26 de maio de 1930

Sob aclamação delirante, o povo carioca consagra a jornada audaz do comandante Eckner – O raid triunfante do “Graf Zeppelin’Gazeta de Notícias, 26 de maio de 1930

O entusiasmo que despertou o empolgante espetáculo da chegada do “Conde Zeppelin” – Jornal do Brasil, 27 de maio de 1930

O “Graf” Zeppelin em visita ao Brasil – Continuando a sua rota magnífica, após ter sido aclamado pela população carioca, chegou ontem, pela manhã, a Recife, o grande dirigível alemão – O Paiz, 27 e 28 de maio de 1930

O “Graf” Zeppelin no BrasilO Cruzeiro, 31 de maio de 1930

O morro em polvorosa, por Manoel Bandeira – Diário Nacional, 31 de maio de 1930

A viagem do ZeppelinO Malho, 31 de maio de 1930

De Ícaro a Zeppelin, por Escragnole Dória – Revista da Semana, 31 de maio de 1930

A viagem do “Graf” Zeppelin ao Brasil – O Cruzeiro, 7 de junho de 1930

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Airships.net

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

LAUX Paulo F. A memorável passagem do Zeppelin pelo Brasil, 2012. Aeromagazine, 3 de outubro de 2012.

LINS, Fernando Chaves. Por céus nunca d´antes navegados, 2006. Recife: Universidade Federal de Pernambuco

LUCCHESI, Claudio. Loucos e heróis: fatos curiosidades da história da aviação, 1996.

O Estado de São Paulo, 9 de junho de 2015

O Globo, 2 de julho de 2013

 

 

 

De Sérgio Burgi, coordenador de Fotografia do Instituto Moreira Salles e curador da Brasiliana Fotográfica:

Vejam as imagens, verdadeiramente oníricas, dos primeiros vôos dos dirigíveis nos céus do Brasil, fotografados do ar por Jorge Kfury e do solo, em estereoscopias, por Guilherme Santos, entre outros registros preciosos sobre o tema, que integram a Brasiliana Fotográfica. 
Somam-se nestas imagens muitos pioneirismos que marcaram o início do século XX: a aviação, vivendo ainda a convivência entre as duas grandes modalidades das quais Santos Dumont foi pioneiro, os balões dirigíveis e aviões a motor; a fotografia aérea, que concretizou e expandiu as ambições, desde as imagens pioneiras em balão de Nadar, de se realizar registros fotográficos a “olho de pássaro” de todo o território. É neste momento também que a fotografia estereoscópica se une à fotografia aérea para o início dos levantamentos aerofotogramétricos que revolucionariam toda a cartografia mundial.
E no solo, a fotografia estereoscópica era também redescoberta por uma legião de fotógrafos, amadores e profissionais, que, como o carioca Guilherme Santos, dedicaram-se a produzir verdadeiras crônicas visuais de seu tempo. Imagens de uma fotografia documental e direta, em chapas de vidro, porém já fortemente marcadas pelas inovações da época, que levariam a fotografia a novos horizontes de linguagem e representação ao longo do século XX.

*A apreciação de Sérgio Burgi foi integrada à publicação em 26 de maio de 2018.

A Exposição Nacional de 1908 na Coleção Família Passos

Há cerca de 110 anos, em 11 de agosto de 1908, era inaugurada a Exposição Nacional de 1908, na região da Urca, no Rio de Janeiro, em comemoração ao centenário da Abertura dos Portos às Nações Amigas, decretada em 28 de janeiro de 1808, pelo então príncipe regente de Portugal, dom João de Bragança, futuro dom João VI (1767 – 1926)(O Paiz, 11 de agosto de 1908). A exposição exibiu um “inventário” do Brasil através de seus produtos industriais, agrícolas, pastoris e artísticos. Promovida pelo governo federal, apresentou a cidade do Rio de Janeiro, recém urbanizada e saneada pelo então prefeito Francisco Pereira Passos (1936 – 1913) e  pelo cientista Oswaldo Cruz (1872 – 1917), respectivamente. O evento foi encerrado em 15 de novembro de 1908 (O Paiz, 16 de novembro de 1908, sexta coluna). A Brasiliana Fotográfica lembra a iniciativa publicando um texto da historiadora Carla Costa, do Museu da República, uma das instituições parceiras do portal, ilustrado com fotografias de Augusto Malta (1864 – 1957), que pertencem à Coleção Família Passos.

 

A Exposição Nacional de 1908 na Coleção Família Passos

Carla Costa*

 

Na coleção Família Passos do Museu da República destacam-se as imagens realizadas por Augusto Malta (1864 – 1957), fotógrafo oficial da Prefeitura do Rio de Janeiro, entre elas as fotografias sobre a Exposição Nacional de 1908 – Agrícola, Industrial, Pastoril e de Artes Liberais – comemorativa ao Centenário de Abertura dos Portos às Nações Amigas, localizada na Praia Vermelha, na região da Urca.

Nessa coleção temos as fotografias de construções imponentes da Exposição de 1908, em muitos estilos arquitetônicos, em particular o ecletismo, com destaque para a Porta Monumental, o Palácio da Indústria, o Pavilhão do Distrito Federal, o Pavilhão de São Paulo, o Pavilhão de Minas Gerais, o Anexo das Belas Artes, e o Pavilhão da Fábrica Bangu, além de panoramas e vistas de toda a área da Exposição com os morros e praias da região.

Acessando o link para as imagens da Exposição Nacional de 1908 pertencentes à Coleção Família Passos disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

A cidade do Rio de Janeiro depois da reforma urbana realizada na gestão do prefeito Francisco Pereira Passos (1936 – 1913), entre 1903 e 1906, passou a ser considerada a capital que encarnava a civilização dentro do Brasil, portanto lugar ideal para sediar uma exposição que mostrasse o progresso, a ciência e a técnica alcançados pela agricultura, pecuária, indústria e artes do país diante dos brasileiros e de outras nações.

A Exposição Nacional de 1908 foi o grande evento final do programa de reforma urbana e sanitária que transformou o Rio de Janeiro no sentido da modernidade cosmopolita: a construção do novo porto; a construção de avenidas retilíneas e largas – como Francisco Bicalho, Rodrigues Alves, Avenida Central e Beira-Mar; o aterramento de enseadas e praias; o desmonte do morro do Senado e parte do morro do Castelo; a abertura e embelezamento de praças e jardins – Praça Quinze, Tiradentes, Passeio Público e Campo de Santana; a derrubada de milhares de casas e habitações coletivas e a campanha de saneamento.

A abertura dos portos ao livre comércio (1808) e mais tarde a declaração de independência (1822) romperam o pacto colonial Brasil-Portugal e inseriram o país na rede das economias capitalistas globais contemporâneas.

 

Imagem do original

Imagem do original do Decreto de Abertura dos Portos às Nações Amigas

 

Os governos republicanos perceberam que realizar exposições universais em comemoração ao centenário de datas nacionais históricas conquistava corações e mentes para a integração de brasileiros dentro de um ideário de país moderno que começava o novo século XX, livre do atraso da monarquia e da escravidão.

A Exposição Nacional de 1908 foi uma celebração do comércio e desenvolvimento industrial que exibiu um “inventário” do Brasil através dos produtos industriais, agrícolas, pastoris e artísticos montados no Palácio da Indústria, no Palácio dos Estados, no Pavilhão do Distrito Federal e nos pavilhões de São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Santa Catarina. E também mostrou a modernização dos novos serviços públicos municipais e federais entre eles  o Pavilhão do Corpo de Bombeiros, o Pavilhão dos Telégrafos e Correios, o Jardim Botânico, o Pavilhão do Café e Cacau, a Inspetoria de Matas e Jardins. Após o encerramento da Exposição, todos os prédios foram demolidos com exceção do Palácio dos Estados e do Pavilhão das Máquinas.

O único país estrangeiro participante foi Portugal, que construiu o Palácio Manuelino e um segundo pavilhão menor chamado Anexo Belas Artes.

 

 

Margareth Silva Pereira (2010) argumentou que durante o século XIX diversos modos de olhar foram se desenvolvendo e educando visualmente as populações das cidades. Entre eles estão os panoramas, os álbuns pitorescos, as exposições universais, as fotografias, os postais e o cinematógrafo.

Essas exposições universais eram os grandes espaços educativos onde as massas urbanas aprenderam a olhar, comparar e julgar países e culturas baseados em construções efêmeras com estilos neogótico, neomourisco, neo greco-romano – pavilhões e palácios – e também no desenvolvimento técnico dos produtos. Ao flanar pelos espaços, o visitante construía uma hierarquia de avaliação do progresso e civilidade das atividades humanas de diferentes regiões numa perspectiva evolucionista e eurocêntrica.

Em 1851, em Londres, a indústria privada organizou a primeira Exposição Universal como uma grande feira com pavilhões e milhares de estandes que mostraram atividades manufatureiras, industriais e comerciais de vários países em quatro seções – matéria prima, máquinas, manufaturas e belas artes. O ineditismo da mostra e a monumentalidade do prédio temporário feito de ferro, madeira e vidro, que ficou conhecido como Palácio de Cristal, – espaço e símbolo de um sistema industrial – atraiu milhões de visitantes.

Em Paris, em 1855, a Exposição Universal teve dimensões novas: foi organizada pelo Estado e, além do Palácio da Indústria e da Galeria das Máquinas, foi construído um pavilhão especializado para abrigar um Salão de Belas Artes com parte das obras vindas do Museu do Louvre.  O Salão influenciou a abertura de várias escolas de desenho com o intuito de desenvolver a capacidade técnica dos artesãos e artistas para ampliar a oferta de objetos artesanais e manufaturados.

Os visitantes passeavam pelos pavilhões e galerias comparando naturalmente culturas remotas, mundos urbanos e costumes rurais de todos os continentes que eram exibidos lado a lado, conforme a descrição de Margareth Pereira (2010): o rito do chá no Japão, o uso dos narguilés de Istambul, o modo de vida dos marajás, da África aos Bálcãs, de Liverpool a Viena.

Essa comparação das culturas e povos baseada numa visualidade de objetos e edifícios consolidou novas ações: exibir, admirar e consumir. Os países exibiam produtos manuais, industriais, artísticos e invenções locais e exóticas que atraíam admiradores/consumidores e possibilitavam contatos entre técnicos, artistas e cientistas, consolidando um liberalismo que valorizava o comércio, a racionalidade e a tecnologia.

 

 

Os países ou estados ou regiões apresentavam na exposição o conjunto de trabalhos manuais, mecânicos e artísticos – a indústria – que eram divididos em classes, gêneros e tipos de atividades com uma organização hierárquica que ao fim e ao cabo privilegiava o progresso versus o atraso; a civilização versus a barbárie.

Durante todo século XIX, o Brasil participou com pavilhões nacionais das Exposições Universais na Europa e nos Estados Unidos.  Essas exposições universais são estimuladas inicialmente pelo avanço do transporte marítimo, do sistema ferroviário, dos telégrafos e serviços postais e depois pela eletricidade, telefonia e automóvel que desenvolveram redes de intercâmbios econômicos e culturais.

No Brasil, a Exposição de 1908, que comemorava a abertura dos portos, foi uma celebração das redes internacionais de comércio e do modo de vida capitalista e industrial que se consolidou no século XX.  Ela representou um inventário de todo o país que possibilitou uma reflexão interna sobre os problemas e questões para o estabelecimento de políticas públicas tendo em vista suas potencialidades.

Na presidência de Afonso Pena (1847 – 1909), o ministro da Indústria, Comércio, Viação e Obras Públicas Miguel Calmon (1879 – 1935), o prefeito Marcelino de Souza Aguiar (1855 – 1935) e uma Comissão Construtora chefiada pelo engenheiro José Sampaio Corrêa (1875 – 1942) escolheram na Urca, na zona sul da cidade, numa região entre a Praia da Saudade (atual Avenida Pasteur) e a Praia Vermelha, um grande terreno entre o morro da Urca e o morro da Babilônia para sediar a Exposição Nacional de 1908. O terreno tinha 182.000 m², sendo que 140.000 m² foram destinados para os palácios e pavilhões temporários entre a Porta Monumental e o Palácio da Indústria; e 42.000 m², entre o Palácio da Indústria e a Praia Vermelha, foram escolhidos para o setor de diversões do evento.

Entre o mar e a montanha, a área da Exposição de 1908 foi valorizada pelas belas paisagens e pelo plano de urbanização de Sampaio Correa (1875 – 1942), que realizou grandes aterros hidráulicos com valorização dos terrenos da orla da Urca. A fim de facilitar o acesso dos visitantes, a Inspeção de Obras Públicas construiu a Estação Marítima, no cais da Urca, que recebia as barcas da Cantareira, e uma Estação da Companhia Ferro-Carril Jardim Botânico para os bondes elétricos da Light.

 

 

Na região existiam, na Praia da Saudade, apenas duas instituições construídas em prédios neoclássicos, no século XIX, em pleno funcionamento: o Hospício de Alienados D. Pedro II (atualmente abriga o Fórum de Ciência e Cultura e quatro unidades acadêmicas da UFRJ) e o Instituto Benjamin Constant, que prestava assistência a deficientes visuais.

Mas existiam dois edifícios federais vazios que podiam ser aproveitados para sediar os dois palácios mais importantes da Exposição de 1908 – o Palácio das Indústrias e o Palácio dos Estados. Um era o prédio da antiga Escola Militar construído em 1864, na Praia Vermelha, e o outro, na Praia da Saudade, era uma construção que fora projetada pelo engenheiro Antônio de Paula Freitas (1843 – 1906) para ser uma universidade, com pedra fundamental lançada na presença de dom Pedro II (1825 – 1891), em 1881, mas cujas obras foram interrompidas por falta de recursos.

O arquiteto René Barba (18? -19?) projetou o Palácio das Indústrias reconstruindo o prédio da antiga Escola Militar com redução do corpo principal e desenhando jardins no lugar dos corpos demolidos. O projeto deu ao edifício uma aparência exuberante com novas fachadas, cúpula central e uma fonte com chafarizes em forma de castelo de águas. O Palácio das Indústria foi um dos prédios demolidos após o encerramento da Exposição de 1908.

O engenheiro Sampaio Correa (1875 – 1942) dirigiu as obras do Palácio dos Estados que ocupou o antigo edifício universitário abandonado de 1881 e, com a participação do arquiteto Francisco Isidro Monteiro (18?-19?), redesenhou as plantas de Paula Freitas (1843 – 1906). O novo prédio adquiriu um corpo central com três pavimentos, corpos recuados com dois andares e uma escadaria de granito na fachada principal com degraus ladeados por pedestais com dois leões no lado externo e duas águias em cimento na parte interna.

O Palácio dos Estados tinha uma dupla função e caráter: espaços monumentais de exposição com estandes com produtos de todos os estados da Federação exibidos nos dois pavimentos e espaços de luxo nos salões de festas e recepções da elite política brasileira. Com estilo neoclássico e ornamentos e composição de características greco-romanas, foi mantido após o encerramento da Exposição de 1908 e atualmente abriga a CPRM – Comissão de Pesquisa de Recursos Minerais, empresa vinculada ao Ministério das Minas e Energia.

A Porta Monumental era um arco do triunfo simbólico, que tinha o caráter da suntuosidade e a função de entrada com roletas separadas do público e de autoridades, localizando-se próxima ao muro do Instituto Benjamin Constant e ao início do cais da Urca.  Ela fazia o fechamento da principal avenida da exposição, a Avenida dos Estados (atual Avenida Pasteur) que se estendia por 560 m até o Palácio da Indústria, com os pavilhões e palácios às suas margens e com pequenas ruas e avenidas transversais, que foram nomeadas com datas históricas republicanas.

O Distrito Federal e os estados de São Paulo, Minas Gerais, Bahia e Santa Catarina edificaram pavilhões individuais; a indústria têxtil estava representada pela  fábrica Bangu e, as atividades agrícolas, pela Sociedade Nacional de Agricultura.

As imagens produzidas pelo fotógrafo da prefeitura do Rio de Janeiro, Augusto Malta, exibem construções majestosas de diferentes estilos arquitetônicos erguidas em madeira, estuque ou concreto, idealizadas pelos arquitetos e engenheiros Raphael Rebecchi (1?-1922), René Barba (18? – 19?) e Francisco Oliveira Passos (1878 – 1958), que participaram da construção dos prédios da Avenida Central (atual Avenida Rio Branco) ou concorreram no concurso de fachadas.

Para realizar seu trabalho, Malta utilizava câmaras que usavam grande formato de negativo (24×30 cm, 18x24cm ou 13x18cm), em chapas de vidro à base de gelatina, onde escrevia com nanquim o local, a data e o número e, eventualmente, legendas-comentários sobre o tema da foto, além de sua assinatura.

O conjunto dos pavilhões e palácios da Exposição formou um cenário de encantamento que atraiu um grande público fascinado pelo exotismo e extravagância da arquitetura e pela queima de fogos de artifício; festas e bailes; batalhas de flores; espetáculos de teatro e música realçados pela novidade da iluminação feérica dos espaços. Durante os três meses de duração, a exposição foi visitada por um público de cerca de um milhão de pessoas seduzidas pelos espaços de lazer e entretenimento: cinematógrafo, teatros, ringue de patinação, restaurantes, quiosques e coretos.

Para Gustavo Rocha-Peixoto (2000), marcadas pela arquitetura do Ecletismo, as edificações efêmeras da Exposição associaram estilos de diferentes origens e tempos históricos, possibilitando que os visitantes realizassem uma viagem romântica sonhadora e fantasista.

O belo ensaio de Renato Gomes (2008) sobre o Rio de Janeiro nos leva a refletir sobre como as fotos de Augusto Malta legitimaram e difundiram simbolicamente o sonho da cidade moderna, cosmopolita, higiênica, feérica feito pelos donos do poder representando os tempos modernos e encenando a oposição civilização/barbárie que se desdobra em progresso/atraso, novo/velho, sublime/grotesco, alto/baixo.

No centro da cena, ficou a cidade ideal da Exposição de 1908 e sua cenografia que era um modelo da elegância, civilização, um novo modo de vida e uma nova sociabilidade urbana: prédios com estilos arquitetônicos ecléticos; postes de iluminação que facilitavam o divertimento noturno; restaurantes elegantes, jardins, coretos e quiosques, e uma avenida pavimentada e larga para o footing.

 

Porta Monumental 

 

 

Ruth Levy (2008) analisou em profundidade a arquitetura dos palácios e pavilhões da Exposição de 1908 afirmando que o arquiteto René Barba construiu a Porta Monumental da Exposição de 1908 em madeira, com inspiração na Porta da Exposição de Paris, de 1889. Na chegada, os visitantes eram impactados pela imponência e suntuosidade da composição – um arco central de 16 m de altura com apoio em dois pilares de cada lado e, nas extremidades, outros dois grandes pilares que eram encimados por dois torreões com flechas alongadas. Em cima do arco, as armas da República eram valorizadas por um grupo de lâmpadas elétricas que compunham, à noite, a iluminação feérica da Porta.

A Avenida dos Estados (atual parte da Avenida Pasteur), com 30 m de largura e 560 m de extensão, partia da Porta Monumental e conduzia os visitantes aos diversos pavilhões dos estados e à praça em frente ao castelo de águas do Palácio da Indústria. 

 

Palácio da Indústria

 

 

O arquiteto René Barba criou novas fachadas e conservou o pavimento térreo como base para o novo Palácio da Indústria. Na cúpula principal, havia a alegoria da Fama e, no centro da fachada principal, via-se um elemento emblemático das exposições universais: uma fonte luminosa com chafarizes formando um castelo de águas sinuoso, com seis bacias em planos sucessivos com repuxos. Antes de 1908, esse edifício foi uma fortaleza do século XVIII e mais tarde, em 1864, o prédio abrigou as instalações da Escola Militar. No momento da Exposição de 1908, ele estava disponível e foi reconstruído para sediar o Palácio da Indústria quando sofreu uma redução do corpo principal – área de 200 m de comprimento e 12 m de largura – que possuía dois lados, uma face voltada para a Praia da Saudade (atual Avenida Pasteur) e outra voltada para a Praia Vermelha. Quatro esculturas de sereias ornamentavam as bacias e, nas laterais, duas escadarias que conduziam à entrada mostravam esculturas de alegorias do Trabalho e do Progresso, com assinatura da artista Nicolina de Assis (1874 – 1941). Esse Palácio foi decorado com ornamentos típicos do ecletismo e não tinha vínculos com avanços da indústria brasileira no ramo da construção, ao contrário dos similares estrangeiros edificados em exposições universais de Londres e Paris.

 

Pavilhão do Distrito Federal 

 

 

O Pavilhão do Distrito Federal foi construído na praça que ficava no centro do terreno da Exposição de 1908, com área de 1.100 m², pelo engenheiro Francisco Oliveira Passos, também responsável pelo projeto do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. O edifício possuía ampla rotunda com uma cúpula em vidro transparente com uma flecha encimada pela bandeira do Distrito Federal; sua decoração era sóbria e os ornamentos eram as armas municipais e a alegoria da República, representada por uma cabeça feminina.

Os dois pavimentos do edifício possuíam salas de exposição que exibiam as realizações dos gestores municipais nos setores da saúde, educação primária e profissional e obras urbanas, além de um salão central, salas do Prefeito e do Comissário do Distrito Federal e outras destinadas às autoridades.

 

Pavilhão de Minas Gerais e Pavilhão de São Paulo

 

 

O edifício do Pavilhão de Minas Gerais foi considerado sem estilo definido, mas com uma ornamentação marcada pela riqueza e elegância, composta de escadaria, torre, estatuária e fontes. Com área de 650 m², foi projetado pelo arquiteto Raphael Rebecchi com um torreão de 62 metros encimado por um intenso foco luminoso. A construção possuía um corpo central e dois laterais com fontes debaixo dos arcos das galerias internas que ligavam os salões; e dois pavimentos: o primeiro foi destinado à exposição de produtos e, no segundo, ficavam os salões de recepção e festa.  Nos corpos laterais destacavam-se duas figuras femininas que dominavam cavalos no espaço.

O Pavilhão de São Paulo foi premiado no Concurso de Pavilhões promovido pelo Jornal do Comércio junto ao público. Era o maior e mais luxuoso pavilhão com 1.500 m² de área e foi projetado por Ramos de Azevedo e Ricardo Severo e executado pelo arquiteto Domiziano Rossi. Maior que o Pavilhão do Distrito Federal, ele possuía uma base octogonal com duas entradas principais e, no centro, existia uma grande cúpula de 35 m de altura encimada por um holofote que iluminava os vidros opalinos da construção. Exibia uma decoração opulenta com esculturas, relevos e doze cúpulas. Apresentava salas destinadas às festas, conferências, recepção às autoridades e exposições de produtos e também uma sala que exibia outro modo de olhar: um grande panorama da cidade de São Paulo feito pelo fotógrafo Valério Vieira (1862 – 1941), com onze metros de extensão.

Os produtos de São Paulo eram tão amplos e diversificados que foram usadas alas em dois andares do Palácio dos Estados, com estandes e quiosques que exibiram, além da produção agrícola, tecidos, maquinário, couro, cerâmica e desenhos arquitetônicos.

 

Teatro João Caetano

 

 

Com projeto de Francisco Isidro Monteiro, o Teatro João Caetano foi construído em madeira revestida de estuque ocupando uma área de 870 m² com capacidade para 800 espectadores. Vários espetáculos do dramaturgo Arthur Azevedo (1855 – 1908) foram montados num espaço confortável organizado em platéia, galeria e camarotes. A decoração interna em tons de verde e com capitéis dourados foi realizada por Raul Pederneiras (1874 – 1953) e equipe.

 

Pavilhão da Fábrica Bangu

 

 

O Pavilhão da Fábrica Bangu foi construído pelos operários e mestres da fábrica de tecidos como uma pequena mesquita mourisca com quatro cúpulas. O diretor técnico da empresa José Villas Boas idealizou o projeto e Martinho Dumiense – formado pela Escola de Belas Artes – encarregou-se da decoração do prédio. Os produtos foram exibidos em vitrines confeccionadas pelos artesão da fábrica dentro de um salão com paredes e teto de revestidos de tecido.

 

Pavilhões das Máquinas

 

 

O Pavilhão das Máquinas estava localizado atrás do Palácio dos Estados e o edifício possuía uma planta retangular que formava um grande salão medindo 30m x 50 m.  O conjunto dos maquinismos era formado por máquinas americanas e máquinas de beneficiamento de arroz e café.  Ao contrário dos pavilhões das máquinas de exposições internacionais que demonstravam pujança industrial e prédios de arquitetura arrojada e grandiosa, o pavilhão da Exposição de 1908 é muito modesto e convencional.  O prédio foi mantido e embora esteja muito descaracterizado, atualmente ele abriga a Escola de Teatro da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio).

 

Anexo Belas Artes

 

 

O Pavilhão de Portugal chamado Palácio Manuelino abrigou os produtos da indústria portuguesa mas foi considerado insuficiente para mostrar também as obras de arte que foram alocadas num novo pavilhão menor: o Anexo Belas Artes. Os quadros e esculturas compuseram a decoração rica e magnificente do anexo, assinada por Jorge Colaço.

 

Panoramas e vistas 

 

Grande apreciador da linguagem dos panoramas − paisagens em grande perspectiva vistas à distância − Augusto Malta registrou com uma câmara especial de lenta velocidade a Porta Monumental, o Palácio dos Estados, o Palácio da Indústria, o Pavilhão do Distrito Federal, o Pavilhão de São Paulo, o Pavilhão de Minas Gerais, o Pavilhão da Bahia, o Anexo Belas Artes, o Pavilhão da Fábrica Bangu e a exposição do Jardim Botânico. Além de panoramas e vistas que mostram o morro da Urca, o morro da Babilônia, o morro do Pão de Açúcar, a Baía de Guanabara, a praia Vermelha e a praia da Saudade (atual Avenida Pasteur). Ao longo do tempo, essas imagens dotadas de forte aura foram sendo divulgadas em postais e livros sobre a história do Rio de Janeiro.

 

 

 

 

 

 

 

*Carla Costa é historiadora do Museu da República

 

Fontes: 

GOMES, Renato Cordeiro.  Todas as cidades, a cidade: literatura e experiência urbana. Rio de Janeiro: Rocco, 2008.

LEVY, Ruth.  Entre palácios e pavilhões: a arquitetura efêmera da Exposição Nacional de 1908.  Rio de Janeiro: EBA/UFRJ, 2008.

PEREIRA, Margareth da Silva. A exposição de 1908 ou o Brasil visto por dentro. In: ARQTEXTO 16. 2010. Disponível em http://ufrgs.br/propac/publicacoes/fr_arqtexto16.htm. Acesso em 14/03/2018.

ROCHA-PEIXOTO, Gustavo. O ecletismo e seus contemporâneos na arquitetura do Rio de Janeiro. In: CZAJKOWSKI, Jorge (org.). Guia da arquitetura eclética no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Centro de Arquitetura e Urbanismo, 2000.

A Praça XV na coleção Família Passos

A Brasiliana Fotográfica destaca, a partir de um texto do pesquisador Paulo Celso Corrêa, do Museu da República, uma das instituições parceiras do portal, uma série de imagens pertencentes à coleção Família Passos/Museu da República retratando a Praça XV de Novembro. São registros de autoria do alagoano Augusto Malta (1864 – 1957), fotógrafo da prefeitura do Rio de Janeiro entre 1903 e 1936. As imagens foram reproduzidas em cartões postais que, no início do século XX, eram um meio popular de circulação e difusão em massa da fotografia.

A Praça XV na coleção Família Passos

Paulo Celso Corrêa*

Esta série de imagens pertencentes à coleção Família Passos/Museu da República retrata a Praça XV de Novembro, no Rio de Janeiro, que acabara de receber alterações urbanísticas promovidas pela administração do prefeito Pereira Passos (1902-1906). De autoria de Augusto Malta(1864 – 1957), as fotos foram reproduzidas em cartões postais, três dos quais foram enviados por Passos a suas netas Maria e Ernestina. No início do século XX, os postais eram um meio popular de circulação e difusão em massa da fotografia, numa época em que jornais e revistas ainda não dispunham de meios técnicos para reprodução de imagens em grande quantidade. Os postais mostravam cenas da paisagem urbana e do cotidiano de seus habitantes, servindo como lembrança de viagens e fonte de informações e entretenimento.

Acessando o link para as fotografias da Praça Quinze de autoria de Augusto Malta pertencentes  à coleção Família Passos/Museu da República disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

A circulação de imagens do Rio de Janeiro nesse formato servia também como propaganda das grandes obras promovidas na cidade pelo governo do presidente Rodrigues Alves e pela prefeitura do Distrito Federal, a cargo de Pereira Passos. Os postais representavam o Rio de Janeiro como uma capital moderna, urbanizada, integrada cultural e economicamente na ordem internacional capitalista, a despeito de o Brasil continuar a ser economicamente agroexportador, de população ainda majoritariamente rural e analfabeta. O caráter oficioso das imagens é reforçado pelo olhar de Augusto Malta sobre a cidade, como fotógrafo oficial da prefeitura. Nos postais aqui apresentados, Malta retratou uma região tradicional da cidade do Rio de Janeiro, que na administração Pereira Passos recebeu tratamento urbanístico com o plantio de árvores, instalação de postes de iluminação, a inauguração de um coreto e o início da construção da nova estação das barcas Rio-Niterói e de um Mercado Municipal, ambos em 1904.

A região do centro do Rio de Janeiro conhecida como Praça XV de Novembro surgiu ainda no século XVII, a partir da expansão da ocupação do Morro do Castelo rumo às áreas pantanosas adjacentes. Primeiramente, foi chamada Terreiro do Ó, devido à ermida de Nossa Senhora do Ó, de 1585; depois, Terreiro da Polé, já que ali havia um pelourinho para açoite de escravos. O nome posterior de Largo (ou praça) do Carmo surgiu no século XVII devido à presença do convento e das igrejas da Ordem Terceira do Carmo, incluindo aquela que em 1770 se tornou a primeira Sé do Rio de Janeiro. Mais tarde, a região passou a se chamar Largo do Paço pois ali se encontrava o edifício que foi residência dos Governadores Gerais (1743), dos Vice-Reis (1763), da Corte Real portuguesa (1808) e do Império (1822). O nome atual, Praça XV de Novembro, foi oficializado em 21 de fevereiro de 1890 para homenagear a data da proclamação da República e, do ponto de vista simbólico, reafirmar o novo regime em um espaço que havia sido o centro dos poderes econômico, religioso e administrativo da colônia e do Império.

Uma dos elementos mais característicos da região é o Chafariz da Pirâmide, de autoria do Mestre Valentim, construído nos anos 1750 para abastecer de água os trabalhadores e as embarcações que ancoravam próximo ao cais, quando o mar ainda chegava até ali. Esse cais, por sua vez, foi o primeiro da cidade do Rio de Janeiro e, por ali, chegavam e partiam navios de todos os tipos, transportando mercadorias, viajantes e escravos. Posteriormente, passou a ser conhecido como Cais do Pharoux por causa do luxuoso Hotel Pharoux, ali instalado na primeira metade do século XIX por um imigrante francês que deu seu sobrenome ao estabelecimento. Na área do cais, de um lado, estava a praia do Peixe, onde existia o Mercado Municipal da Candelária (1841), ao qual se refere o nome da atual Rua do Mercado; e, do outro lado, a praia de Dom Manuel. Já o Arco do Teles, que liga a Praça XV à Rua do Ouvidor, data do século XVIII, quando o juíz português Antônio Telles Barreto de Menezes ali construiu um conjunto de casas destinadas ao aluguel do comércio e da gente de alta sociedade.

 

Descrição das fotos

1

 

O fotógrafo está posicionado no cais, olhando em direção à Igreja da Candelária, cuja cúpula e torres aparecem ao fundo da foto. Em primeiro plano aparece o chafariz monumental em ferro fundido de Louis Sauvageau, comprado em Viena em 1878 por D. Pedro II, depois transferido para a Praça da Bandeira devido à construção do viaduto da Perimetral e, finalmente, para a praça que antes abrigava o Palácio Monroe na Cinelândia, onde se encontra atualmente. Logo atrás, se vê o chafariz do Mestre Valentim. Alguns transeuntes aparecem na cena, dois deles com um carro de cargas, um outro com um feixe de feno nas costas; provavelmente são trabalhadores nas obras da estação das barcas. Nota-se que várias árvores jovens foram plantadas ao redor da praça. Ao fundo, à esquerda, se vê a entrada do Arco do Teles. Em meio aos telhados, é possível ver a torre da Igreja da Boa Lapa dos Mercadores e a cruz da Igreja de Santa Cruz dos Militares.

Carimbo no verso com a data 30/04/1904.

Indicação de fabricação pela Societé Lumiére – Lyon, França, de propriedade da família de mesmo nome, especializada em cinema e fotografia.

 

2

 

 

Um aspecto do Cais Pharoux remodelado, com árvores ainda jovens e postes de iluminação. Algumas pessoas estão paradas na murada à beira-mar. No fundo, é possível ver a Ilha das Cobras. Data manuscrita no postal: 08/01/1904.

 

3

 

 

Foto tirada em direção ao mar, mostrando o estágio inicial de construção da estação Cais do Pharoux das barcas Rio-Niterói, obra que só seria concluída em 1912. No mar, ao fundo, se veem várias embarcações e a Ilha Fiscal.

Carimbo no verso com a data 30/04/1904.

Indicação de fabricação pela Societé Lumiére – Lyon.

 

4

 

 

 

Foto tirada a partir da rua Primeiro de Março provavelmente da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, primeira Sé do Rio de Janeiro em 1770. Em primeiro plano, aparece a praça onde ao centro está o monumento ao General Osório, de autoria de Rodolfo Bernardelli e inaugurado em 12 de novembro de 1894. Alega-se que este foi o primeiro monumento público inaugurado após a proclamação da República; ironicamente, homenageia um herói militar do Império, no largo que sediava o poder imperial.

À esquerda, se vê parte do telhado do Hotel de France, na esquina com a rua Primeiro de Março, onde vários carros de aluguel puxados a cavalo aguardam passageiros. Do lado direito desta primeira praça, ao fundo, aparece o Paço Imperial, que nessa época abrigava a Repartição Central dos Correios e Telégrafos. Em segundo plano, há uma praça menor ao redor do chafariz do Mestre Valentim e, ao lado, o coreto inaugurado em 1903. A presença de um coreto era a marca de uma nova idéia de ocupação do espaço público, voltada para hábitos cívicos, culturais e artísticos. Ao lado do coreto, no mesmo plano, se vê o prédio da Secretaria de Indústria, Viação e Obras Públicas.

Em direção ao mar, se vê o chafariz de Sauvageau e o cais Pharoux, ao fundo. Ainda não é possível ver as torres do Mercado Municipal, que começou a ser construído em 1904 mas só seria concluído em 1907. O postal tem uma legenda com o nome da praça e do fotógrafo Augusto Malta.

Não há destinatário ou selo no verso deste postal.

Na coleção do Instituto Moreira Salles no acervo da Brasiliana Fotográfica há uma foto de 12 de novembro de 1907, tirada do mesmo ângulo e lugar que esta, onde é possível observar algumas diferenças, como as árvores que já estão crescidas e as torres do Mercado Municipal que já aparecem ao fundo.

 

 

 

*Paulo Celso Corrêa é pesquisador do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República/IBRAM

A Batalha de Flores

A Brasiliana Fotográfica traz imagens da Batalha de Flores produzidas por Augusto Malta (1864 – 1957) que foi, de 1903 a 1936, o fotógrafo oficial da prefeitura do Rio de Janeiro. A Batalha de Flores é uma tradição do carnaval de Nice, na França, desde 1876. A festa chegou ao Brasil, em Petrópolis, em 1888. As imagens destacadas são da primeira década do século XX: de 1902; do dia 15 de agosto de 1903, quando aconteceu a primeira Batalha de Flores promovida pelo então prefeito do Rio de Janeiro, Francisco Pereira Passos (1836 – 1913), no Campo da Aclamação, atual Campo de Santana (Gazeta de Notícias, 16 de agosto de 1903); do dia 2 de setembro de 1906 (Gazeta de Notícias, 3 de setembro de 1906, terceira coluna, O Paiz, 2 de setembro  e 3 de setembro de 1906) e de 17 de outubro de 1909 (Gazeta de Notícias, 18 de outubro de 1909, penúltima coluna). As fotografias de Malta mostram as carruagens bastante enfeitadas com flores e uma grande quantidade de pessoas participando do evento.

 

 

Acessando o link para as fotografias da Batalha de Flores do acervo do Museu da República e da Biblioteca Nacional que estão disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 O início

No jornal O Mercantil, foi publicada uma descrição da Batalha de Flores, transcrita do Correio Imperial, jornal redigido pelo príncipe D. Luis Maria de Orléans e Bragança (1878 – 1920), filho da princesa Isabel, e ao final, era sugerido que Petrópolis adotasse a celebração carnavalesca e que se sepultasse  o entrudo com seu cortejo defluxos e selvagerias (O Mercantil, 25 de janeiro de 1888, primeira coluna). A sugestão foi aceita e, no mesmo ano, em 12 de fevereiro de 1888, aconteceu em Petrópolis, sob chuva, a primeira Batalha de Flores de que se tem notícia no Brasil, com a participação da princesa Isabel, promotora da festa, de seu marido, o conde d´Eu  (1842-1922), e de seus filhos. O préstito saiu do Largo de D. Afonso, seguiu pela rua Bourbon, do Imperador, pela ponte da Imperatriz e retornou a seu ponto de partida. A Batalha de Flores substituiu o entrudo, que passou a ser considerado pela população petropolitana  menos digno do seu chic, pouco elegante e perigoso. O ministro da Agricultura, Rodrigo Silva (1833 – 1899), também participou do evento (Gazeta de Notícias, 2 de fevereiro de 1888, primeira coluna e 14 de fevereiro, na penúltima coluna; Cidade do Rio, 15 de fevereiro de 1888).

 

 

 

No mesmo ano, em viagem pela Europa, Dom Pedro II e a imperatriz Teresa Cristina assistiram à Batalha de Flores de Nice, na França (Gazeta de Notícias, 13 de fevereiro de 1888, terceira coluna e 9 de março de 1888, quinta coluna). No Rio de Janeiro, a Batalha de Flores batizou, um ano depois, um baile à fantasia no Club dos Democráticos (Jornal do Commercio,  1º de fevereiro de 1889).

Nos últimos anos do século XIX e nos primeiros anos do século XX, a Batalha de Flores era realizada na Praça da República fora do período carnavalesco (Gazeta de Notícias28 de abril de 1896, quarta coluna, e de 18 de setembro de 1903, quinta coluna).

 

Em 1903, a primeira Batalha de Flores promovida pela prefeitura do Rio de Janeiro 

Na matéria publicada pela Gazeta de Notícias sobre a Batalha de Flores no Rio de Janeiro de 1903, publicada no dia seguinte à realização do cortejo, foram mencionadas festas semelhantes que aconteciam na avenida das Acácias em Paris, consideradas discretas, as de Nice, que se caracterizavam pela suntuosidade, e a ardente alegria das de Palermo, na Argentina. A festa no Rio de Janeiro foi um sucesso: mais de 20 mil entradas foram registradas e por vezes o movimento era tão grande que o desfile era interrompido. Segundo o jornal, foi uma festa com um cunho todo pessoal de refinada beleza e antes de tudo de uma grande alegria, de uma extraordinária simpatia, em que o bom povo fluminense, ávido de prazer e de festas, aclamava a cada passo, batia palmas, gritava entre as rosas desfolhadas e o riso de todos (Gazeta de Notícias, 16 de agosto de 1903). O Jornal do Brasil de 16 de agosto de 1903, saudou o evento como o início de uma era nova.

 

 

Foi publicado o roteiro que as carruagens deveriam seguir durante a Batalha de Flores de agosto de 1903, no Campo da Aclamação, no Rio de Janeiro (Jornal do Brasil, 14 de agosto de 1903).

 

Na avenida Beira-Mar

 

Thumbnail

Augusto Malta. Batalha das Flores, 17/10/1909. Rio de Janeiro, RJ / Acervo Museu da República

 

Em 1907, na recém inaugurada avenida Beira-Mar, no Rio de Janeiro, e por sugestão da Gazeta de Notícias, a Batalha de Flores passou a ser uma batalha de confetes e acontecia, também, nas segundas-feiras do carnaval (Gazeta de Notícias, 26 de janeiro,  primeira coluna, 11 de fevereiro e 12 de fevereiro de 1907). No cortejo, que representava o carnaval da elite carioca, os foliões fantasiados desfilavam em carruagens ou carros enfeitados e atiravam flores, confetes ou serpentinas uns nos outros. O desfile foi incentivado pelo prefeito Pereira Passos (1836 – 1913), que modernizava o Rio ao estilo de Paris. Foi a origem da celebração do carnaval brasileiro com carros alegóricos.

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

COSTA, Haroldo. 100 anos de carnaval no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Irmãos Vitale, 2001.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

LIRA NETO. Uma história do samba – as origens. São Paulo:Companhia das Letras, 2017.

O Globo, 28 de fevereiro de 2017.

Site A Vida Francesa

Site do Governo do Brasil

 

 

O carnaval do Cordão da Bola Preta

 

A Brasiliana Fotográfica destaca uma fotografia do Cordão da Bola Preta no ano do centenário do mais antigo bloco carnavalesco do Rio de Janeiro. A imagem, que pertence à Biblioteca Nacional, uma das parceiras do portal, revela a irreverência e a alegria dos componentes da agremiação, cuja criação tem origem em 1917, quando um grupo de ex-integrantes do tradicional Clube dos Democráticos se uniu sob a liderança de Álvaro Gomes de Oliveira, o Caveirinha, para formar o cordão Só Bebe Água, cujo logotipo trazia um barril de chope com 18 torneiras ligadas à boca de seus componentes.

O Bola Preta foi fundado em 31 de dezembro de 1918, por Caveirinha, Francisco Brício Filho, o Chico Brício, Eugênio Ferreira, João Torres, e pelos três irmãos Oliveira Roxo. Um dos ícones do carnaval carioca, o Bola Preta tornou-se, pelo Decreto n° 27594 de 14 de fevereiro de 2007, da Prefeitura do Rio de Janeiro, patrimônio cultural imaterial da cidade. Em 2014, o Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH), entregou ao bloco mais antigo da cidade a placa que o identifica como um lugar importante para a história e memória do patrimônio cultural carioca (O Globo, 28 de fevereiro de 2014).

A versão popular da origem do nome do bloco carnavalesco conta que foi um de seus fundadores, o Caveirinha, que, no dia 31 de dezembro de 1918, confraternizando com outros amigos na Galeria Cruzeiro do Hotel Avenida, localizado na avenida Central, avistou uma linda mulher trajada com um vestido branco com bolas pretas. Porém, o pesquisador André Diniz, organizador do livro Vem pro Bola, meu bem: crônicas e histórias do Cordão da Bola Preta revelou que, em depoimento ao Museu da Imagem e do Som,  Caveirinha declarou que a origem do nome havia sido outra: os fundadores do bloco decidiam quem poderia ou não entrar no clube exibindo bolas pretas ou brancas.

Último representante dos cordões carnavalescos cariocas do início do século XX e um dos mais antigos do Brasil, possui uma marchinha muito conhecida, composta por Nelson Barbosa e Vicente Paiva (1908 – 1964): a Marcha do Cordão da Bola Preta (1935), famosa pelo verso Quem não chora, não mama! Segura, meu bem, a chupeta. É com essa música, considerada o hino da agremiação, que os desfiles do Bola Preta, nos sábados de carnaval, são abertos.

 

 

Marcha do Cordão da Bola Preta 

(gravação de Carmen Costa para o carnaval de 1962)

Compositores: Nelson Barbosa e Vicente Paiva

Quem não chora não mama!

Segura, meu bem, a chupeta.

Lugar quente é na cama

Ou então no Bola Preta.

Vem pro Bola, meu bem,

Com alegria infernal!

Todos são de coração!

Todos são de coração.

(Foliões do carnaval).

(Sensacional!)

 

Para apreciar mais fotografias sobre o carnaval, acesse o post O carnaval nas primeiras décadas do século XX, publicado na Brasiliana Fotográfica durante o carnaval de 2017.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes: 

Diário do Rio.com

Guia Cultural do Centro Histórico do Rio de Janeiro

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

O Globo, 19 de janeiro de 2018

Site do Cordão da Bola Preta

Site do Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira

 

 

Manguinhos e a cidade do Rio de Janeiro

 

 

A região de Manguinhos vem acompanhando, há mais de cem anos, as transformações de uma cidade que não para de crescer. Área de difícil acesso e pouco habitada, no início do século XX, ela se tornava ideal para se trabalhar com soros e vacinas. Neste local, se instalaria o Instituto Oswaldo Cruz. Manguinhos era acessada apenas pela estrada de ferro ou por meio de barcos. Ao longo do século XX, passaria por uma série de intervenções, justificadas pela necessidade de sanear e urbanizar os subúrbios cariocas. As fotos apresentadas, de autoria de Joaquim Pinto da Silva (c.1884- 1951), imortalizado como J. Pinto, procuram revelar um pouco do passado da instituição, na sua relação com a cidade do Rio de Janeiro.

Acessando o link para as fotografias relativas a Manguinhos e a cidade do Rio de Janeiro disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

O Hotel Glória – antes e depois

A Brasiliana Fotográfica destaca dois registros dos bairros da Glória e do Flamengo, no Rio de Janeiro, produzidas pelo fotógrafo Jorge Kfuri (1893 – 1965). As imagens são de 1917 e 1922 e mostram a mesma região: na primeira, vemos o terreno em que seria construído o Hotel Glória e, na segunda, já vemos o edifício concluído. O efeito antes e depois é um dos aspectos mais atraentes, interessantes e poderosos da fotografia, capaz de registrar desde as pequenas às grandes transformações da humanidade – por exemplo, suas paisagens, construções e população.

 

 

 

 

O Hotel Glória, aberto em 15 de agosto de 1922, com uma bênção realizada pelo arcebispo D. Sebastião Leme (O Paiz, 16 de agosto de 1922), foi o primeiro cinco estrelas do Brasil e também o primeiro prédio em concreto armado da América do Sul. Sua construção, motivada pelas festas do primeiro centenário da Independência do Brasil, foi uma iniciativa da firma Rocha Miranda & Filhos.

Em estilo clássico, o Hotel Glória abrigava um cassino, um teatro, diversos salões de festas, além de 150 quartos. Seu arquiteto foi o francês Joseph Gire ( 1872 – 1933), responsável por outros importantes prédios cariocas como o do Hotel Copacabana Palace, do Edifício Joseph Gire, mais conhecido como A Noite, e do Palácio das Laranjeiras, em parceria com Armando Silva Telles, dentre outros. Gire, formado pela École Nationale Supérieure des Beaux-Arts de Paris, desembarcou no Rio de Janeiro a convite de Octávio Guinle, em sua época, um dos homens mais ricos do Brasil.

Em março de 2008, o Glória foi comprado pelo empresário Eike Batista, que anunciou uma grande reforma que o tornaria um seis estrelas, um marco na história da hotelaria do Rio. Seria reaberto como Gloria Palace para a Copa do Mundo de 2014. Porém, com a crise no Grupo EBX, de Eike, a reforma foi paralisada, em 2013. No início de 2016, o hotel passou às mãos do fundo árabe Mubadala, de Abu Dhabi.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

A Pedra da Gávea

 

Um dos cartões-postais mais bonitos do Rio de Janeiro, a Pedra da Gávea fica localizada entre as praias de São Conrado e da Barra da Tijuca. Sua beleza não passou despercebida pelos fotógrafos do século XIX. A Brasiliana Fotográfica destaca os registros da Pedra da Gávea produzidos por Augusto Malta (1864 – 1957), Georges Leuzinger (1813 – 1892), José Baptista Ferreira Vianna (1860 – 1925) e Marc Ferrez (1843 – 1923).

 

 

Acessando o link para as fotografias da Pedra da Gávea disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

De acordo com o portal Serviço Geológico do Brasilo rochedo tem esse nome porque visto de longe lembra a gávea das caravelas ou galeões antigos. A gávea é uma plataforma no alto de um grande mastro que permitia a um marinheiro observar à distância. Ao contrário do que acontece em quase todas as elevações do Rio de Janeiro, a Pedra da Gávea apresenta um topo plano em lugar das formas de pirâmides, morros arredondados e picos roliços e aguçados do tipo pão-de-açúcar comuns na paisagem do Rio…Tais rochas foram formadas no mínimo há 500 milhões de anos e, posteriormente deformadas por falhas e dobras no interior da crosta terrestre. Depois de um constante e incansável trabalho de erosão na crosta é que esse maciço aflorou na superfície.

 

 

A Pedra da Gávea tem 844 metros de altura, integra o Maciço da Tijuca e é formada por dois tipos de rocha: gnaisse e granito.

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Aquedutos do Rio de Janeiro

 

 

Com uma seleção de fotografias produzidas por Augusto Malta (1864 – 1957)Georges Leuzinger (1813 – 1892)Marc Ferrez (1843 – 1923)Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886) e por Editores & propriedade de Rodrigues & Co, a Brasiliana Fotográfica destaca imagens de aquedutos pertencentes aos acervos do Arquivo Nacional, do Instituto Moreira Salles, da Leibniz-Institut für Länderkunde e da Fundação Biblioteca Nacional, que integram o portal.

O Aqueduto da Carioca, construído no século XVIII e também conhecido como Arcos da Lapa, é um símbolo do Rio de Janeiro antigo e um dos cartões postais da cidade.

 

 

Acessando o link para as fotografias de aquedutos disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Há também, além de registros de outros aquedutos do Rio de Janeiro, imagens daqueles que foram construídos durante a realização de obras de abastecimento de água, ocorridas entre 1877 e a década de 1880, e que foram documentadas pelo fotógrafo Marc Ferrez.