O carnaval do Cordão da Bola Preta

 

A Brasiliana Fotográfica destaca uma fotografia do Cordão da Bola Preta no ano do centenário do mais antigo bloco carnavalesco do Rio de Janeiro. A imagem, que pertence à Biblioteca Nacional, uma das parceiras do portal, revela a irreverência e a alegria dos componentes da agremiação, cuja criação tem origem em 1917, quando um grupo de ex-integrantes do tradicional Clube dos Democráticos se uniu sob a liderança de Álvaro Gomes de Oliveira, o Caveirinha, para formar o cordão Só Bebe Água, cujo logotipo trazia um barril de chope com 18 torneiras ligadas à boca de seus componentes.

O Bola Preta foi fundado em 31 de dezembro de 1918, por Caveirinha, Francisco Brício Filho, o Chico Brício, Eugênio Ferreira, João Torres, e pelos três irmãos Oliveira Roxo. Um dos ícones do carnaval carioca, o Bola Preta tornou-se, pelo Decreto n° 27594 de 14 de fevereiro de 2007, da Prefeitura do Rio de Janeiro, patrimônio cultural imaterial da cidade. Em 2014, o Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH), entregou ao bloco mais antigo da cidade a placa que o identifica como um lugar importante para a história e memória do patrimônio cultural carioca (O Globo, 28 de fevereiro de 2014).

A versão popular da origem do nome do bloco carnavalesco conta que foi um de seus fundadores, o Caveirinha, que, no dia 31 de dezembro de 1918, confraternizando com outros amigos na Galeria Cruzeiro do Hotel Avenida, localizado na avenida Central, avistou uma linda mulher trajada com um vestido branco com bolas pretas. Porém, o pesquisador André Diniz, organizador do livro Vem pro Bola, meu bem: crônicas e histórias do Cordão da Bola Preta revelou que, em depoimento ao Museu da Imagem e do Som,  Caveirinha declarou que a origem do nome havia sido outra: os fundadores do bloco decidiam quem poderia ou não entrar no clube exibindo bolas pretas ou brancas.

Último representante dos cordões carnavalescos cariocas do início do século XX e um dos mais antigos do Brasil, possui uma marchinha muito conhecida, composta por Nelson Barbosa e Vicente Paiva (1908 – 1964): a Marcha do Cordão da Bola Preta (1935), famosa pelo verso Quem não chora, não mama! Segura, meu bem, a chupeta. É com essa música, considerada o hino da agremiação, que os desfiles do Bola Preta, nos sábados de carnaval, são abertos.

 

 

Marcha do Cordão da Bola Preta 

(gravação de Carmen Costa para o carnaval de 1962)

Compositores: Nelson Barbosa e Vicente Paiva

Quem não chora não mama!

Segura, meu bem, a chupeta.

Lugar quente é na cama

Ou então no Bola Preta.

Vem pro Bola, meu bem,

Com alegria infernal!

Todos são de coração!

Todos são de coração.

(Foliões do carnaval).

(Sensacional!)

 

Para apreciar mais fotografias sobre o carnaval, acesse o post O carnaval nas primeiras décadas do século XX, publicado na Brasiliana Fotográfica durante o carnaval de 2017.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes: 

Diário do Rio.com

Guia Cultural do Centro Histórico do Rio de Janeiro

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

O Globo, 19 de janeiro de 2018

Site do Cordão da Bola Preta

Site do Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira

 

 

Manguinhos e a cidade do Rio de Janeiro

 

 

A região de Manguinhos vem acompanhando, há mais de cem anos, as transformações de uma cidade que não para de crescer. Área de difícil acesso e pouco habitada, no início do século XX, ela se tornava ideal para se trabalhar com soros e vacinas. Neste local, se instalaria o Instituto Oswaldo Cruz. Manguinhos era acessada apenas pela estrada de ferro ou por meio de barcos. Ao longo do século XX, passaria por uma série de intervenções, justificadas pela necessidade de sanear e urbanizar os subúrbios cariocas. As fotos apresentadas, de autoria de Joaquim Pinto da Silva (c.1884- 1951), imortalizado como J. Pinto, procuram revelar um pouco do passado da instituição, na sua relação com a cidade do Rio de Janeiro.

Acessando o link para as fotografias relativas a Manguinhos e a cidade do Rio de Janeiro disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

O Hotel Glória – antes e depois

A Brasiliana Fotográfica destaca dois registros dos bairros da Glória e do Flamengo, no Rio de Janeiro, produzidas pelo fotógrafo Jorge Kfuri (1893 – 1965). As imagens são de 1917 e 1922 e mostram a mesma região: na primeira, vemos o terreno em que seria construído o Hotel Glória e, na segunda, já vemos o edifício concluído. O efeito antes e depois é um dos aspectos mais atraentes, interessantes e poderosos da fotografia, capaz de registrar desde as pequenas às grandes transformações da humanidade – por exemplo, suas paisagens, construções e população.

 

 

 

 

O Hotel Glória, aberto em 15 de agosto de 1922, com uma bênção realizada pelo arcebispo D. Sebastião Leme (O Paiz, 16 de agosto de 1922), foi o primeiro cinco estrelas do Brasil e também o primeiro prédio em concreto armado da América do Sul. Sua construção, motivada pelas festas do primeiro centenário da Independência do Brasil, foi uma iniciativa da firma Rocha Miranda & Filhos.

Em estilo clássico, o Hotel Glória abrigava um cassino, um teatro, diversos salões de festas, além de 150 quartos. Seu arquiteto foi o francês Joseph Gire ( 1872 – 1933), responsável por outros importantes prédios cariocas como o do Hotel Copacabana Palace, do Edifício Joseph Gire, mais conhecido como A Noite, e do Palácio das Laranjeiras, em parceria com Armando Silva Telles, dentre outros. Gire, formado pela École Nationale Supérieure des Beaux-Arts de Paris, desembarcou no Rio de Janeiro a convite de Octávio Guinle, em sua época, um dos homens mais ricos do Brasil.

Em março de 2008, o Glória foi comprado pelo empresário Eike Batista, que anunciou uma grande reforma que o tornaria um seis estrelas, um marco na história da hotelaria do Rio. Seria reaberto como Gloria Palace para a Copa do Mundo de 2014. Porém, com a crise no Grupo EBX, de Eike, a reforma foi paralisada, em 2013. No início de 2016, o hotel passou às mãos do fundo árabe Mubadala, de Abu Dhabi.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

A Pedra da Gávea

 

Um dos cartões-postais mais bonitos do Rio de Janeiro, a Pedra da Gávea fica localizada entre as praias de São Conrado e da Barra da Tijuca. Sua beleza não passou despercebida pelos fotógrafos do século XIX. A Brasiliana Fotográfica destaca os registros da Pedra da Gávea produzidos por Augusto Malta (1864 – 1957), Georges Leuzinger (1813 – 1892), José Baptista Ferreira Vianna (1860 – 1925) e Marc Ferrez (1843 – 1923).

 

 

Acessando o link para as fotografias da Pedra da Gávea disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

De acordo com o portal Serviço Geológico do Brasilo rochedo tem esse nome porque visto de longe lembra a gávea das caravelas ou galeões antigos. A gávea é uma plataforma no alto de um grande mastro que permitia a um marinheiro observar à distância. Ao contrário do que acontece em quase todas as elevações do Rio de Janeiro, a Pedra da Gávea apresenta um topo plano em lugar das formas de pirâmides, morros arredondados e picos roliços e aguçados do tipo pão-de-açúcar comuns na paisagem do Rio…Tais rochas foram formadas no mínimo há 500 milhões de anos e, posteriormente deformadas por falhas e dobras no interior da crosta terrestre. Depois de um constante e incansável trabalho de erosão na crosta é que esse maciço aflorou na superfície.

 

 

A Pedra da Gávea tem 844 metros de altura, integra o Maciço da Tijuca e é formada por dois tipos de rocha: gnaisse e granito.

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Aquedutos do Rio de Janeiro

 

 

Com uma seleção de fotografias produzidas por Augusto Malta (1864 – 1957)Georges Leuzinger (1813 – 1892)Marc Ferrez (1843 – 1923)Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886) e por Editores & propriedade de Rodrigues & Co, a Brasiliana Fotográfica destaca imagens de aquedutos pertencentes aos acervos do Arquivo Nacional, do Instituto Moreira Salles, da Leibniz-Institut für Länderkunde e da Fundação Biblioteca Nacional, que integram o portal.

O Aqueduto da Carioca, construído no século XVIII e também conhecido como Arcos da Lapa, é um símbolo do Rio de Janeiro antigo e um dos cartões postais da cidade.

 

 

Acessando o link para as fotografias de aquedutos disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Há também, além de registros de outros aquedutos do Rio de Janeiro, imagens daqueles que foram construídos durante a realização de obras de abastecimento de água, ocorridas entre 1877 e a década de 1880, e que foram documentadas pelo fotógrafo Marc Ferrez.

 

 

 

 

 

No primeiro dia da primavera, as cores de Marc Ferrez (1843 – 1923)

 

O fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923) iniciou suas experiências com fotografia colorida, em 1912, utilizando as placas autocromos Lumière, primeiro processo industrializado para esse fim, lançado comercialmente pela fábrica francesa, em 1907. Dedicou-se à fotografia estereoscópica em cores e as primeiras imagens coloridas realizadas nesse período são diferentes das fotografias panorâmicas e de grandes obras públicas, produzidas por ele no século XIX e na primeira década do século XX. São imagens do interior de sua casa e de sua intimidade familiar, onde aparecem sua mulher Marie (c. 1849 – 1914), seu filho Julio (1881 – 1946), sua nora Claire e seus dois netos, Gilberto e Eduardo. Nesse momento, Ferrez também refez, em cores, algumas das fotografias de paisagens, edificações e monumentos que se tornaram clássicas em preto e branco, como a Pedra de Itapuca, vistas do Jardim Botânico, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro , o Palácio Monroe e a Pedra da Gávea, dentre outras.

 

 

Pouco menos de um ano após a morte de sua esposa Marie, em 28 de junho de 1914, Ferrez foi, em abril de 1915, para a Europa. Em Paris, estava, segundo sua correspondência com seus filhos, entusiasmado e distraindo-se com a realização de fotografias coloridas. Já em 1917, referindo-se ao prenúncio do inverno ainda em setembro, ele emitiu em uma carta a seus filhos um dos poucos comentários sobre sua atividade fotográfica na época: “adeus às fotografias coloridas”.

Acessando o link para as fotografias coloridas produzidas por Marc Ferrez disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Ferrez voltou ao Brasil, em fevereiro de 1920, e pouco depois de um ano, em maio de 1921, partiu do Rio de Janeiro, rumo à França, onde permaneceu até agosto de 1922. Em Paris, instalou-se no Hotel Brebant. Em correspondência com Malia, casada com seu filho Luciano Ferrez (1884 – 1955), Marc contou que havia produzido belas fotografias de flores, em sua visita ao roseiral do Parque de La Bagatelle, no Bois de Boulogne, local que frequentava enquanto Luciano e Malia estavam com ele em Paris, em 1919.

 

 

São alguns desses registros em cores produzidos no Rio de Janeiro e na Europa, que a Brasiliana Fotográfica destaca para celebrar com as cores de Ferrez a chegada da primavera, que se inicia hoje às 17h02 e termina em 21 de dezembro de 2017, às 13h28.

 

 

 Pequeno perfil de Marc Ferrez

 

 

Marc Ferrez  foi um brilhante cronista visual das paisagens e dos costumes cariocas da segunda metade do século XIX e do início do século XX. Sua vasta e abrangente obra iconográfica se equipara a dos maiores nomes da fotografia do mundo. Estabeleceu-se como fotógrafo com a firma Marc Ferrez & Cia, em 1867, na rua São José, nº 96, e logo se tornou o mais importante profissional da área no Rio de Janeiro. Cerca de metade da produção fotográfica de Ferrez foi realizada na cidade e em seus arredores, onde registrou, além do patrimônio construído, a exuberância das paisagens naturais.

Ferrez nasceu em 7 de dezembro de 1843, no Rio de Janeiro, cidade onde também faleceu, em 12 de janeiro de 1923. Foi o sexto e último filho de Zépherin (Zeferino) Ferrez (31/07/1797 – 22/07/1851) e Alexandrine Caroline Chevalier (? – 1851). Seu pai, o escultor e gravador francês Zeferino, e seu tio Marc (Marcos) Ferrez (14/09/1788 – 31/03/1850), também escultor, chegaram ao Rio de Janeiro, via Nova York, conforme informado nos livros da polícia de Registros Estrangeiros guardados no Arquivo Nacional. Eram formados pela Escola de Belas Artes de Paris e passaram a integrar a Missão Francesa, um dos marcos do desenvolvimento das artes no Brasil, que havia se instalado na cidade em 1816, chefiada por Joachim Le Breton (1760 – 1819).

 

Acessando o link para as fotografias de Marc Ferrez disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

Publicações da Brasiliana Fotográfica em torno da obra do fotógrafo Marc Ferrez: 

 

O Rio de Janeiro de Marc Ferrez, publicada em 30 de junho de 2015

Obras para o abastecimento no Rio de Janeiro por Marc Ferrez , publicada em 25 de janeiro de 2016

O brilhante cronista visual Marc Ferrez (7/12/1843 – 12/01/1923), publicada em 7 de dezembro de 2016

Do natural ao construído: O Rio de Janeiro na fotografia de Marc Ferrez, de Sérgio Burgi, publicada em 19 de dezembro de 2016

Marc Ferrez e a Exposição Antropológica Brasileira no Museu Nacional em 1882, publicada em 29 de junho de 2018

 

Colaboraram nessa pesquisa Ileana Pradilla Ceron e Mariana Newlands, ambas da equipe do Instituto Moreira Salles.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Novos acervos: Museu da República

A Reforma Urbana do Rio de Janeiro na Coleção Família Passos

Magaly Cabral*

No município do Rio de Janeiro, o primeiro grande projeto de intervenção na configuração espacial e funcional da cidade, após a instauração da República, em 1889, se deu na gestão de Francisco Pereira Passos (1836-1913) como prefeito do Distrito Federal (1902-1906). Passos era um engenheiro experiente e foi nomeado para este cargo pelo presidente Rodrigues Alves (1848 – 1919), que governou o Brasil de 1902 a 1906. Sua missão como prefeito era bem definida: transformar o Rio em uma cidade moderna, cosmopolita e civilizada, digna de ser a capital da jovem república brasileira e atrair para cá visitantes, mão-de-obra imigrante e negócios.

A reforma urbana executada por Passos aconteceu em associação com as obras de modernização do porto do Rio de Janeiro e da construção da Avenida Central (atual Rio Branco), promovidas pelo governo federal, visando à melhoria na capacidade de escoamento e circulação de produtos, principalmente os importados. Como a capital federal era a principal consumidora desse tipo de produto e como a União tinha competência exclusiva sobre os impostos de importação, as reformas na cidade eram fundamentais para o equilíbrio orçamentário da federação.

Acessando o link para as fotografias do acervo do Museu da República disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Além das alterações no traçado viário, das melhorias de infraestrutura e das novidades urbanísticas e arquitetônicas na cidade, a “Reforma Passos” também alterou costumes do carioca e suas relações com o espaço. Novas posturas municipais buscaram implementar hábitos de higiene e comportamento na população. O centro da cidade, onde até então moravam muitas pessoas de baixa renda, teve seus cortiços e estreitas vielas coloniais arrasados para se transformar num espaço de cultura, comércio, negócios e governo. A falta de moradia, por sua vez, levou ao processo de favelização dos morros. O grave problema das epidemias foi neutralizado através da vacinação obrigatória, resultando na “Revolta da Vacina” de 1904. O caráter modernizador, mas também excludente, da Reforma Passos (lembrada como “bota-abaixo”) gerou questões que até hoje se impõem quando pensamos nos processos de transformação urbana acontecidos ao longo do século XX e das primeiras décadas do XXI.

 

 

Aqui, iremos apresentar um recorte temático de 118 fotografias pertencentes à Coleção Família Pereira Passos, uma das mais importantes sob guarda do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República. Ela é formada por cerca de 5.592 documentos textuais e 1.147 fotografias, produzidos entre 1806 e 1960, pelo titular e seus familiares. A coleção faz parte do acervo do Museu da República desde 1965, quando a primeira e maior leva de documentos foi doada pela família de Pereira Passos. Em 1966, foi acrescida através de novas doações de sua neta, Maria Passos, e pela transferência de fotos até então pertencentes ao Museu Histórico Nacional, já em 1980. Essa nova contribuição do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República ao projeto Brasiliana Fotográfica soma-se à Coleção Canudos, registrada pela Unesco, em 2009, na categoria Memória do Mundo e já disponível ao público.

O autor da maioria das fotos aqui apresentadas é o alagoano Augusto Malta (1864 – 1957), contratado por Pereira Passos para documentar a reforma urbana. Essas fotos mostram as obras de mudança no centro da cidade e também em bairros próximos, como Tijuca, Estácio, Cidade Nova, Glória, Catete, Laranjeiras e Botafogo. As fotografias de Luís Musso, sobre a maquete do Teatro Municipal, e finalização de sua construção, também merecem destaque. Musso prestava serviços de documentação para a firma Antônio Januzzi Irmãos e cia, pertencente ao engenheiro italiano de mesmo nome, responsável pela construção da maioria dos prédios da Avenida Central, símbolo das reformas urbanas dos governos Pereira Passos e Rodrigues Alves.

 

Nesse conjunto de fotos, a maioria dos documentos destaca a região central da cidade, a principal área afetada pelas reformas de Pereira Passos. As imagens mostram uma época de tapumes, andaimes e restos de demolições pelas ruas, resgatam a memória de cenários que tiveram que desaparecer para dar lugar a novas ruas e prédios, como é o caso da Igreja de São Joaquim e do chafariz do Largo da Carioca. São lembrados também os elementos da paisagem urbana surgidos naquele momento, mas que já não existem, parcial ou inteiramente, como é o caso dos prédios neoclássicos da Avenida Central e da Avenida Beira-Mar, antes do Aterro do Flamengo.

Embora ruas e prédios pareçam ser as estrelas das fotos, podemos ver nelas a presença do carioca de então. Os operários, os elegantes passeadores das ruas, os homens que se reúnem num quiosque pra conversar e beber e as pessoas que tentam se proteger do calor com sombrinhas em meio a uma inauguração de início de obras. Por falar em pessoas, o próprio Pereira Passos aparece em várias fotos, cortando fitas, sendo homenageado ou em visita à Câmara Municipal, a mesma que permaneceu fechada nos seis primeiros meses de seu mandato, para que ele pudesse, sem obstáculos legislativos, tomar as medidas para a execução de seu ambicioso projeto.

*Magaly Cabral é diretora do Museu da República

Inauguração da Estátua da Amizade em 4 de julho de 1931

 

 

 

Com dois registros do fotógrafo Augusto Malta (1864 – 1957), a Brasiliana Fotográfica lembra a história da Estátua da Amizade. Em 1922, no centenário da independência do Brasil, por iniciativa da Câmara de Comércio Norte-Americana no Brasil, foram angariados cerca de 40 mil dólares para a confecção de um monumento que simbolizasse a amizade entre os dois países. Foi presenteada ao país uma escultura de bronze de uma mulher, em pé, sustentando na mão esquerda os pavilhões norte-americano e brasileiro ornados com folhas de louro e, na direita, uma palma de louros.

Amicitia, que ficou conhecida como Estátua da Amizade, de autoria de Charles Keck (1875 – 1951), tem pouco mais de 4 metros de altura, cerca de 9 toneladas e foi fundida nas oficinas de Henry Bonnard, em Nova York. Na época em que a escultura foi ofertada ao Brasil, o prefeito do Rio de Janeiro era Carlos Sampaio (1861 – 1930). Passaram-se as administrações de Alaor Prata (1882 – 1964) e de Antonio da Silva Prado Júnior (1880 – 1955) e a estátua permanecia guardada nos Armazéns da Companhia Expresso Federal (Correio da Manhã, 21 de outubro de 1930, na penúltima e última colunas).

Em 1931, sob a gestão do interventor federal Adolfo Bergamini (1886 – 1945), atendendo à solicitação de diversas personalidades e instituições, dentre elas o Centro Carioca, por iniciativa de Pedro Viana da Silva, diretor de Arborização e Jardins, o escultor Benevenuto Berna (1865 – 1940) finalmente concebeu um pedestal para a estátua: dois medalhões entrelaçados, com os bustos de George Washington e de José Bonifácio, com duas palmas, representando as duas nações, envolvidas por folhas de hera para simbolizar a amizade.

No dia da comemoração dos 155 anos da independência dos Estados Unidos, 4 de julho de 1931, o monumento foi inaugurado na confluência das avenidas Santos Dumont e presidente Wilson, em frente à igreja de Santa Luzia. Estavam presentes Getúlio Vargas (1882 – 1954), chefe do Governo Provisório, Edwin Morgan, embaixador dos Estados Unidos, Oswaldo Aranha (1894 – 1960), ministro da Justiça e Assuntos Internos, além de várias outras autoridades e diplomatas (Jornal do Brasil, 4 de julho de 1931, e Correio da Manhã, 5 de julho de 1931). Foi um evento muito concorrido na cidade e o fotógrafo da prefeitura, Augusto Malta, não poderia deixar de registrar o acontecimento.

Onze anos depois, em 9 de julho de 1942, com um pedestal bem mais alto, a estátua foi reinaugurada na praça Quatro de Julho, em frente ao atual consulado dos Estados Unidos com a presença de diversas autoridades, dentre elas o prefeito do Rio de Janeiro, Henrique Dodsworth (1895 – 1975), o embaixador norte-americano Jefferson Caffery e o ministro das Relações Exteriores, Oswaldo Aranha (Jornal do Brasil, 10 de julho de 1942).

 

 

 

A via elevada da Perimetral

A via elevada da Perimetral

Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro

Beatriz Kushnir*

É com muito prazer que mais uma vez o Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (AGCRJ) integra a Brasiliana Fotográfica. Para comemorar os dois anos do portal, escolhemos o processo de construção do Elevado da Perimetral e as transformações urbanas em consequência dessa via expressa no Rio de Janeiro. O AGCRJ selecionou dentro do seu acervo, em diferentes fundos e coleções, 53 imagens que mapeiam as etapas dessa obra monumental em escala, tempo, alteração da paisagem e das relações de locomoção na cidade.

Acessando o link para as novas fotografias do acervo do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro que passam a integrar a Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

O primeiro delineamento da Perimetral, em 1946, foi elaborado pelo Departamento de Urbanismo da Prefeitura do Distrito Federal, na administração de Hildebrando de Araújo Góis (1946-7), e previa a inauguração de uma via sem qualquer elevação. À sua concepção acompanhou a execução de outros planos que projetavam o Rio para a volumosa circulação de veículos automotores. Assim, a partir da implantação de um complexo viário que afirmava o predomínio do carro e do ônibus como meios de transporte da cidade, desprezava-se a escala do pedestre.

Par e passo à construção da Perimetral, diversos traçados para esta cidade dos carros foram implementados como as vias expressas do Aterro do Flamengo – inauguradas nos festejos do 4oº Centenário, em 1965, e cuja construção advém do desmonte do morro de Santo Antônio, iniciada, em 1955. Resultou também na abertura da avenida Chile, que cruzando o Centro, prolonga-se pelas avenidas Almirante Barroso e Alfredo Agache, em sentido perpendicular à Perimetral.

 

 

 

 

Essas intervenções incluíram a abertura dos túneis Santa Bárbara, inaugurado em 1963, e Rebouças, concluído em 1967, que redefiniram a ligação da Zona Sul e Zona Norte. A partir destas duas obras, ergueram-se vias expressas elevadas atravessando os bairros do Catumbi e do Rio Comprido, respectivamente. Em outra frente, se implementou a Radial Oeste – que conduz da Praça da Bandeira à Zona Norte –, e se construiu o complexo do Trevo dos Estudantes e do Viaduto dos Marinheiros– que organiza o fluxo contínuo das avenidas Presidente Vargas e Radial Oeste, na região do Canal do Mangue. Concomitantemente, o alargamento das avenidas Suburbana (atual Dom Helder Câmara), Automóvel Clube e Brasil aumentaram a capacidade de fluxo de veículos pela Zona Norte. É da mesma época o planejamento das quatro Linhas, onde a Vermelha só seria construída na década de 1990, cobrindo a tradicional rua Bela, no bairro de São Cristóvão, com um elevado duplo.

 

 

 

 

A Perimetral, para muitos urbanistas e engenheiros do período, era a solução para o avanço do tráfego de veículos na cidade e seguia uma tendência internacional, especialmente dos Estados Unidos, que valorizava o rodoviarismo nas vias urbanas. Iniciada efetivamente em 1957, na gestão do então prefeito do Distrito Federal, Negrão de Lima (1956-58), a administração seguinte, de José Joaquim Sá Freire Alvim (1958-60), deu prosseguimento às obras do período anterior da qual ele havia sido Secretário de Administração. Assim, em 1960, o primeiro trecho da Perimetral, interligando as avenidas General Justo e Presidente Vargas, que se estendia do aeroporto Santo Dumont à Candelária, foi inaugurado pelo presidente Juscelino Kubitscheck.

A segunda etapa que alcançava a Praça Mauá, contornando o Mosteiro de São Bento e passando por cima do Distrito Naval, foi executada na gestão de Negrão de Lima como governador do Estado da Guanabara (1966-71). A última fase da construção, já na década de 1970, chegou à região do Gasômetro e da Rodoviária Novo Rio, junto à avenida Francisco Bicalho, cruzando por cima da Avenida Rodrigues Alves, margeando os armazéns do porto do Rio e cortando os bairros da Saúde e Gamboa, garantindo a ligação com avenida Brasil e a Ponte Rio-Niterói. Inaugurada em 31 de maio de 1978, pelo general-presidente Ernesto Geisel, a manchete do Jornal do Brasil resumia a trajetória: “Obra prioritária chega ao fim após 25 anos”.

 

 

A conclusão do primeiro trecho da Perimetral enfrentou a necessidade da derrubada do antigo Mercado Público, inaugurado em 1907. Foi necessária intervenção judicial para viabilizá-lo até a Candelária. Da grande estrutura de ferro e vidro construída no início do século XX foi preservado um dos seus torreões, onde se manteve sempre um restaurante. Já a construção do viaduto pôs abaixo o edifício histórico do Hotel Pharoux, um dos mais emblemáticos do conjunto da Praça XV.

O segundo intervalo da Perimetral deparou-se com influentes setores de Estado: a Companhia de Navegação Lloyd Brasileiro, que pretendia erguer sua nova sede justamente num trecho da via expressa projetada, e a resistência da Marinha do Brasil, que via risco a passagem viária sobre o terreno junto ao Gabinete do Ministro e o Distrito Naval. Felizmente, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional considerou que a alternativa de um túnel sob o morro que abriga o Mosteiro de São Bento podia ameaçar uma das construções coloniais mais importantes da cidade. Com a concordância da Marinha, a solução implicou na demolição de alguns prédios, entre eles o da Capitania dos Portos.

O terceiro trecho previa não apenas abrir caminho para o fluxo de veículos em direção à avenida Brasil e o acesso à Baixada Fluminense, mas igualmente a perspectiva de construção da Ponte Rio-Niterói. Concluída em 1974, substituiria definitivamente as balsas de carro na praça XV, no coração do Centro da cidade. Neste trecho do elevado, a estrutura de concreto foi substituída por metálica, produzida pela Companhia Siderúrgica Nacional.

A finalização das três etapas da Perimetral ocorreu no segundo choque do petróleo, que colocou em xeque o modelo de desenvolvimento urbano definido a partir dos anos de 1950, no Brasil. A crítica a esse modelo de desenvolvimento urbano conduziu a novas soluções urbanísticas integrando a vida urbana ao meio-ambiente, revalorizando a escala do pedestre e reforçando espaços públicos de encontro e interação. A demolição do Elevado da Perimetral, com os seus sete quilômetros de extensão, começou a ser discutida a partir da gestão do prefeito Luiz Paulo Conde (1997-2000), voltando à baila na última administração do prefeito Cesar Maia (2005-8). As advertências do caos no trânsito, assim como o alto custo da iniciativa, frearam o projeto.

 

 

Na gestão do prefeito Eduardo Paes, iniciada em 2009, no contexto dos projetos de preparação da cidade do Rio de Janeiro para as Olimpíadas de 2016, o projeto de revitalização da Zona Portuária encontrou condições de viabilidade, favorecendo a constituição de alternativas viárias para a promoção do bairro como um novo centro de expansão de atividades profissionais e de moradia na cidade. A demolição da grande estrutura de engenharia viária se definiu em favor de uma ampla frente marítima da cidade para o passeio pedestre contemplativo da paisagem.

No tempo de seu erguimento, o gigantismo e a visibilidade da Perimetral fizeram da obra um monumento da engenharia urbana carioca, mais vinculado a funcionalidade do que a estética. A trajetória de sua construção envolveu uma geração de engenheiros e arquitetos, muitos deles funcionários da Prefeitura da cidade e que reúne nomes, como Emílio Ibrahim, Jorge Bandeira de Melo, Ronald Young, Afonso Canedo, Gilberto Morand Paixão, Armando Abreu, Walter Pinto Costa, entre outros, cuja memória se preserva numa coleção de entrevistas existente no Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, numa parceria com a Seaerj – Sociedade dos Engenheiros e Arquitetos do Estado do Rio de Janeiro. Em seus depoimentos, destacam os vários desafios de engenharia e de política que representou a Perimetral, como também a centralidade do papel governamental executado pela SURSAN – Superintendência de Urbanização e Saneamento –, órgão instituído na administração Negrão de Lima como governador da Guanabara, e cujo presidente foi Raymundo de Paula Soares, também secretário de Obras Públicas. As entrevistas poderão ser conferidas no livro Com régua e compasso, os traços da cidade. Engenheiros e arquitetos do Rio, sua trajetória na administração pública (2017, no prelo).

* Beatriz Kushnir é Doutora em História (Unicamp) e Diretora do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro.

Versões desse texto foram apresentadas no Seminário Internacional “Ponta do Calabouço e Adjacências: história, memória e patrimônio nos 450 anos da cidade do Rio de Janeiro” (Museu Histórico Nacional, 06/10/2015), e compõe um dos verbetes do livro organizado por Paulo Knauss, “Objetos do Rio: 450 anos de história nos acervos públicos da cidade” (no prelo).

 

Becos cariocas

A Brasiliana Fotográfica traz algumas imagens do Rio de Janeiro de antigamente. São fotografias de becos cariocas produzidas pelo fotógrafo Augusto Malta (1864 – 1957) e por seu filho Aristógiton Malta (1904-1954), que pertencem ao acervo do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, um dos parceiros do portal. São registros dos becos da Batalha, dos Ferreiros, da Fidalga, da Música, do Paço e do Rosário, todos no Centro. Alguns deles foram citados pelo historiador e memorialista Luiz Edmundo (1878 – 1961) no livro O Rio de Janeiro do meu tempo (1938), na descrição do aspecto das ruas cariocas do período colonial e do ínicio do século XX: As ruelas que se multiplicam para os lados da Misericórdia – Cotovelo, Fidalga, Ferreiros, Música, Moura e Batalha – são estreitas, com pouco mais de metro e meio de largura. São sulcos tenebrosos que cheiram a mofo, a pau-de-galinheiro, a sardinha frita e suor humano.

Acessando o link para as fotografias de becos cariocas disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Um pouco da história desses becos

 

Beco da Batalha, dos Ferreiros e da Fidalga: ficavam no bairro da Misericórdia e não existem mais. A origem do nome do Beco da Batalha foi a existência de um oratório dedicado à devoção de Nossa Senhora da Batalha no próprio beco ou no largo do mesmo nome. No Beco dos Ferreiros moravam muitos chineses e em suas casas se fumava ópio. No Beco da Fidalga morava dona Maria Antônia de Alencastro, parente do militar português Gomes Freire (1757 -1817).

Beco da Música: também no antigo bairro da Misericórdia, liga a avenida Antônio Carlos à rua Dom Manuel.  Seu nome era Beco do Administrador, mas foi rebatizado como Beco da Música, quando músicos do Regimento do Moura, aquartelados nas vizinhanças, passaram a ensaiar no local onde havia sido a sede da administração do monopólio do sal. Segundo o historiador Felisberto Freire (1858 – 1916), nele estiveram os portões do Rio de Janeiro, no século XVI, quando a cidade “malnascida no Castelo, dispunha embaixo, na várzea, de uma muralha para melhor protegê-la”.

Beco do Paço: ficava perto da rua Dom Manuel e foi destruído para a abertura da rua Erasmo Braga.

Beco do Rosário: fica perto da rua Reitor Azevedo Amaral. Foi em uma lanchonete situada no beco que, em 1967, num sábado de Aleluia, começou um incêndio que destruiu grande parte da Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito.

 

 

Fontes:

EDMUNDO, Luiz. O Rio de Janeiro do meu tempo. Rio de Janeiro:Editora: Imprensa Nacional, 1938.

COSTALLAT, Benjamim. Mistérios do Rio. Rio de Janeiro:Biblioteca Carioca, Secretaria Municipal de Cultura, 1995.

GERSON, Brasil. História das Ruas do Rio. Rio de Janeiro:Bem-Te-Vi, 2013.

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