Vincenzo Pastore (Casamassima, Itália 5 de agosto de 1865 – São Paulo, Brasil 15 de janeiro de 1918)

Vincenzo Pastore. Autorretrato de Vincenzo Pastore, c. 1910. São Paulo / Acervo IMS

A obra do fotógrafo italiano Vincenzo Pastore, importante cronista visual de São Paulo da segunda metade do século XIX e do início do século XX, ficou, durante décadas, em uma caixa de charutos, sem negativos. As ampliações foram produzidas pela própria mulher do fotógrafo, Elvira, que o ajudava no estúdio. Mas o segredo de família chegou ao fim quando as fotografias foram herdadas por seu neto, o pianista e professor Flávio Varani, que as doou – 137 imagens – para o Instituto Moreira Salles, em 1997.

Com sua câmara, Pastore, capturava tipos e costumes de um cotidiano ainda pacato de São Paulo, uma cidade que logo, com o desenvolvimento econômico, mudaria de perfil. Captava as transformações urbanas e humanas da cidade, que passava a ser a metrópole do café. Com seu olhar sensível, o bem sucedido imigrante italiano flagrava trabalhadores de rua como, por exemplo, feirantes, engraxates, vassoureiros e jornaleiros, além de conversas entre mulheres e brincadeiras de crianças. Pastore, ao retratar pessoas simples do povo, realizou, na época, um trabalho inédito na história da fotografia paulistana.

Registrou cenas de ruas de São Paulo com uma câmara de pequeno formato, produzindo imagens diferentes das realizadas, durante o século XIX, com câmeras de grande formato sobre tripés, tendo sido um dos pioneiros da nova linguagem da fotografia do século XX – “a linguagem do instantâneo produzida pelas emulsões fotográficas de maior sensibilidade à luz, que libertaram as câmeras fotográficas dos tripés e permitiram também a simultânea diminuição no tamanho dos aparelhos fotográficos, possível em função dos papéis fotográficos mais sensíveis que possibilitavam a ampliação dos negativos de menor formato em laboratório por meio do emprego de fontes de luz artificial”(Site do IMS).

É o autor de uma panorama de São Paulo a partir do Largo de São Bento e também fotografou eventos e prédios da capital paulista. Em seu estúdio, dedicava-se, com sucesso, ao retrato. Produzia retratos mimosos, que tinham como padrão o recorte losangular, mas os tamanhos e os tipos de cartões variavam. Oferecia serviços variados como imagens em esmaltes para broches, autocromos, platinotipias e fotominiaturas. Fazia montagens com desenhos e retratos de múltipla exposição, revelando um traço de humor. Também contemplou temas bucólicos e produziu ensaios com temas religiosos, muitas vezes com o uso de composições alegóricas. 

Link para a obra de Vincenzo Pastore na Brasiliana Fotográfica.

 

Cronologia de Vincenzo Pastore

 

Vincenzo Pastore. Retrato de Ferreiro, c. 1910. São Paulo

Vincenzo Pastore. Retrato de Ferreiro, c. 1910. São Paulo / Acervo IMS

5 de agosto de 1865 – nasce Vincenzo Pastore, em Casamassima, na região de Puglia, na Itália, filho de Francesco Pastore e Costanza Massara.

1890 – chega ao Brasil, em São Paulo, provavelmente no início dessa década, quando houve um grande fluxo de imigração de italianos para a cidade, em busca de novas oportunidades de trabalho. Entre sua chegada ao Brasil e sua morte, em 1918, volta algumas vezes à Itália.

1894 – inicia suas atividades de fotógrafo em São Paulo.

1898 – Pastore tem um estabelecimento fotográfico na Itália, em Potenza, na região de Basilicata. Casa-se com Elvira Leopardi Pastore (1876-1972). O casal tem 10 filhos: Costanza (1899-?), Beatriz (1902-?), Maria Lucia (1903-1988), Francisco (1905-1985), Pion Donato (1906-?), Eleonora ( 1908-1992), Olga (1909-?), Carmelita (1910 -?), Dante (1912-?) e Redento (1915-1918).

1899 - volta para São Paulo. Recebe uma carta protocolada do município de Potenza, transcrevendo carta do prefeito agradecendo pelo retrato do rei, que seria colocado na sala do Conselho Provincial.

1900 – possui um estabelecimento fotográfico na Rua da Assembleia, nº 12 (depois rua Rodrigo Silva), onde também reside. Em nota no Estado de São Paulo, edições de 22 e 23 de outubro de 1900, anuncia: “Dá de presente aos seus clientes seis photographias / novo formato Elena, em elegantíssimos cartõezinhos ornados, só 4$500 e por poucos dias”. Sua esposa, Elvira, trabalha no estúdio e é a responsável pelos serviços de fotopintura e acabamento. É ela, também, que registra em um caderno de anotações, intitulado “A arte de fotografar e revelar”, o trabalho realizado no laboratório e as técnicas de fotopintura.

1905 – recebe uma carta do consulado geral da Itália em São Paulo, transmitindo os agradecimentos do Ministro da Casa Real pelo envio de fotos de índios bororós.

1906 - recebe uma carta de Giacomo della Chiesa, futuro papa Bento XV, agradecendo o envio de fotografias de índios bororós para o papa Pio X.

1907 – novo estúdio, na Rua Direita nº 24-A. Em notas sobre a abertura do novo estabelecimento, é anunciada a distribuição de Retratos Mimosos, pequenas fotos com moldura especial de flores e arabescos, a cada visitante. Posteriormente, Pastore abre um novo estúdio na Praça da República, nº 95.

1908 – participa da Exposição Nacional, realizada no Rio de Janeiro, em comemoração ao centenário da abertura dos portos no Brasil, com um conjunto de fotopinturas e trabalhos de grandes dimensões. Realiza também um concurso de beleza infantil, do dia 10 de maio a 10 de julho, em seu ateliê fotográfico de São Paulo (O Paiz, edição de 8 de maio de 1908, última nota da primeira coluna).

1911 – ganha a medalha de bronze na Espozione Internazionale delle industrie e dell lavoro, em Torino, na Itália.

1914 – viaja com a família para a Europa (Correio Paulistano, edição de 10 de fevereiro de 1914, na terceira coluna, sob o título “Hóspedes e Viajantes” ). Em novembro, inaugura o estabelecimento Fotografia Italo-Americana – ai Due Mondi, na Via Sparano, nº 117, em Bari, na Itália. O nome do estúdio italiano indica sua condição de imigrante bem sucedido, que pertence a dois mundos. Realiza uma grande exposição de fotografias.

1915 – devido à Primeira Guerra Mundial, encerra as atividades na Itália e volta a São Paulo.

1916 - sob os títulos “Bellezas Paulistanas”, “Melancholia”, “Quem é a moça dos óculos pretos? e “Oração”, são publicadas fotografias de autoria de Pastore, na revista Cigarra, nas edições  de 31 de março,  30 de abril  , 17 de agosto, 14 de setembro e 26 de outubroque pertencem ao acervo do Arquivo do Estado de São Paulo. No dia 17 de junho, é publicada no O Estado de São Paulo, a seguinte nota: “O Sr. Vincenzo Pastore, proprietario da Photographia Pastore, a rua Direita, recebeu communicação official, do sr. Giannetto Cavasola, ministro da Agricultura da Italia, e do prefeito da provincia de Bari, de que, a 4 de maio passado, foi nomeado pelo duque de Genova, principe regente, cavalheiro da Ordem da Corôa da Italia. O sr. Pastore é muito conhecido nesta capital, onde conta com muitas amizades. Em 1914, o sr. Pastore fez, em Bari, uma grande exposição italo-brasileira de photographias, que mereceu francos elogios da imprensa. Os seus esforços acabam de ser merecidamente recompensados”. Em 18 de dezembro, o prêmio é concedido.

1918 – em 15 de janeiro, falece, em São Paulo, devido a complicações após uma cirurgia de hérnia. Era alérgico e foi anestesiado com clorofórmio (Correio Paulistano, 19 de janeiro de 1918, na terceira coluna).

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Fontes:

Cadernos de Fotografia Brasileira. Número 2: São Paulo, 450 Anos (jan.04; 2.ed., ago 04). IMS, 2004.

Catálogo São Paulo de Vincenzo Pastore – IMS, 1997.

Depoimentos de familiares feitos ao pesquisador Ricardo Mendes, na década de 90.

Dois países sob o olhar do fotógrafo-cronista Vincenzo Pastore, estudo de Atilio Avancini, publicado em 2005, na revista PJ:BR.

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002. 408 p., il. p&b.

Site do Instituto Moreira Salles

 

Galeria de Vincenzo Pastore

7 pensamentos sobre “Vincenzo Pastore (Casamassima, Itália 5 de agosto de 1865 – São Paulo, Brasil 15 de janeiro de 1918)

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  • 10 de agosto de 2015 em 07:13
    Permalink

    Blz!, essas fotografias do Vincenzo. Gostei.
    Parabéns pela publicação.
    Ruy.

    Responder
  • 10 de agosto de 2015 em 16:26
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    Boa tarde!
    Ele era meu bisavô.
    Incrível eu ter achado esta publicação, eu sou neta da Olga Pastore e filha da Elisabeth Pastore (falecida), eu estou há algum tempo tentando encontrar uma foto da minha avó Olga que faleceu muito jovem, mas perdi totalmente o contato com a família após a morte da Clara Pastore ( Tia Clara) que era casada com Francisco Pastore ( Tio Chico), minha mãe faleceu querendo muito ver uma foto da sua mãe e agora eu estou tentando resgatar esta foto para mim e para minha Tia que ainda está viva.
    Agora vai ficar mais fácil o caminho.
    Muito obrigada e parabéns!

    Responder
    • 10 de agosto de 2015 em 16:37
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      Prezada Nidia, a Brasiliana Fotográfica agradece seu elogio.

      Responder
    • 10 de agosto de 2015 em 17:00
      Permalink

      Prezada Mônica, a Brasiliana Fotográfica fica muito contente com o seu comentário! Obrigada.

      Responder
  • 10 de agosto de 2015 em 16:29
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    Maravilha esse registro da efervescência de São Paulo em pleno Ciclo do Café! Tempo, talvez, em que tenha se forjado o DNA da pólis, um salto no desenvolvimento. Fantástico!

    Responder
  • 8 de setembro de 2016 em 14:09
    Permalink

    Vicenzo Pastore é, sem dúvida, o grande fotógrafo do início do séc. XX em São Paulo. De altíssima sensibilidade, preocupou-se principalmente em registrar o povo das ruas, a gente humilde, os engraxates, o jornaleiro, o vendedor de rua. Se décadas antes Militão nos deu a paisagem, Vicenzo Pastore nos deu a alma do paulistano da época. Exatamente o que faria anos depois e com igual sensibilidade, Hildegard Rosenthal. Nem tudo está perdido, existe a Brasiliana Fotográfica!

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