Pelas fronteiras do Brasil

Durante o governo do presidente do Brasil Washington Luiz foi criado o Serviço de Inspeção de Fronteiras para vigiar e nacionalizar as fronteiras. Para chefiá-lo foi nomeado o general Cândido Mariano da Silva Rondon. Foram visitadas as fronteiras do Oiapoque, girando para oeste e para o sul através das fronteiras da Guiana Francesa, Guiana, Suriname, Venezuela, Colômbia, Peru, Bolívia, Paraguai e Argentina e Uruguai. É sobre essa história o artigo que Maria Elizabeth Brêa Monteiro, pesquisadora do Arquivo Nacional, uma das instituições parceiras do portal, escreveu para a Brasiliana Fotográfica. Além do texto, foram disponibilizadas fotografias de um álbum produzido durante a Campanha de 1929-1930 da Inspeção de Fronteiras. São de autoria de Benjamin Rondon, engenheiro-topógrafo e filho de Rondon, e do fotógrafo e cinegrafista José Louro.

 

 

 

Pelas fronteiras do Brasil

Maria Elizabeth Brêa Monteiro*

 

“Nenhum córrego ou morro à tua vista escapa,
Nem salto ou corredeira, ou charco ou terrapleno.
E o Brasil que Rio Branco ampliou sobre o mapa,
Vais, milha a milha, demarcando no terreno.”
(Ode em louvor de Rondon, de Bastos Tigre)

 

Desde o final do século XIX a soberania e a preservação do espaço nacional ensejavam preocupação dos dirigentes da recém-instalada República. Ao mesmo tempo que as vastas dimensões territoriais do país constituíam um valor positivo, a necessidade de integração de regiões afastadas situadas em faixas de fronteira deram origem a projetos de controle e reconhecimento territorial.

Os trabalhos da Comissão de Linhas Telegráficas e Estratégicas de Mato Grosso ao Amazonas, iniciados nos anos de 1890, já contemplavam objetivos de estabelecer comunicação entre o sertão e os centros urbanos e introduzir à dinâmica espacial do país áreas a noroeste e domínio sobre zonas de fronteira. A Comissão revestia-se de um caráter estratégico “não só como fator de desenvolvimento, mas também como motor para a ocupação da região, incentivando a migração, e para a garantia da defesa das fronteiras brasileiras, ‘nacionalizando’ os povos indígenas.” (Moreira Neto, 2005: 83)

Acessando o link para as fotografias do álbum referente à Campanha de 1929-1930 da Inspeção de Fronteiras disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Nesse contexto, foi criado em 1927, diretamente subordinado ao Estado Maior do Exército, o Serviço de Inspeção de Fronteiras, que tinha a atribuição de proceder à vigilância e à nacionalização das fronteiras. Para essa missão de inspecionar mais de 10 mil quilômetros de limites, desde a Guiana Francesa ao Uruguai, o ministro da Guerra, atendendo determinação do presidente Washington Luís para que fossem realizadas as inspeções das fronteiras do Brasil até o final de seu governo, com o objetivo de estudar as condições de seu povoamento e segurança, nomeou o general Cândido Mariano da Silva Rondon, que mobilizou antigos companheiros de jornadas pelo “hinterland” como Boanerges Lopes de Sousa, Amílcar Botelho de Magalhães, João Barbosa de Faria e Luiz Thomaz Reis.

O objetivo de sua criação foi, então, proceder ao exame das fronteiras brasileiras do ponto de vista geográfico, econômico e militar. Foram visitadas as fronteiras do Oiapoque, girando para oeste e para o sul através das fronteiras da Guiana Francesa, Guiana, Suriname, Venezuela, Colômbia, Peru, Bolívia, Paraguai e Argentina e Uruguai.

 

 

Rondon, em discurso proferido no Pará em setembro de 1928, salienta sua visão quanto ao papel da Comissão de Inspeção de Fronteiras:

(…) tornar conhecidas as nossas terras, firmando a geografia territorial; e as possibilidades econômicas e de colonização, ao mesmo tempo que fornece ao estado-maior do exercito os elementos de que carece para a defesa nacional.(O Paiz, 5.09.1928.)

A Comissão de Inspeção de Fronteiras era organizada com um Estado-Maior, um ajudante de ordem, serviço cinematográfico, serviço radiotelegráfico, serviço sanitário, serviço telefotográfico, serviço de trabalhos censitários dos povos indígenas, serviço de geologia e serviço de botânica, que envolviam professores e pesquisadores do Museu Nacional para onde foram encaminhadas peças arqueológicas e de cultura material indígena, itens da flora e fauna e outros artigos. Distribuída em várias turmas, procederam ao levantamento dos rios, dos marcos de fronteiras, das fortificações, das linhas fronteiriças, recensearam as populações encontradas, contataram diversos povos indígenas, visitaram empreendimentos econômicos e produziram vasta documentação.
Em 1927, durante a primeira campanha de inspeção das fronteiras com a Venezuela, Colômbia e Guianas Francesa e Inglesa, Rondon fez uso de todos os meios de transporte numa viagem ininterrupta de 257 dias, na primeira fase dos trabalhos que percorreu 10.702 km por via marítima e fluvial; 1.801 km a cavalo, 2.917 km em automóvel; 1.896 km em estrada de ferro, totalizando 18.316 km.

A segunda campanha chefiada, primeiramente, por Boanerges Lopes de Sousa, que se estendeu de julho de 1928 a fevereiro de 1929, cobriu os estados do Amazonas e Pará, na divisa com Venezuela, Colômbia e Suriname. Percorreu os rios Negro, Içana, Urupês, Javari, Juruá, Breu, Purus, Acre, Abunã, Japurá, Trombetas e Cuminá, alcançando a fronteira com o Suriname.

Em setembro de 1929, teve início a terceira campanha que, saindo do Rio de Janeiro, seguiu até Cuiabá passando pela ilha do Bananal, em direção a Belém e Manaus. Nessa última expedição, Rondon vai ao Acre, Rondônia e Mato Grosso, verifica as fronteiras com o Paraguai no rio Apa, desce o rio Paraná, visita o salto de Sete Quedas e Foz do Iguaçu, chegando à fronteira da Argentina pela ponte internacional sobre o rio Peperiguaçu. (Lasmar, 2008) De acordo com reportagem do Jornal do Brasil de 9 de agosto de 1938, nesta última etapa, seu esforço foi insuperável, pois tendo partido de automóvel com destino a Registo do Araguaia, alcançava Marcelino Ramos, na fronteira de Santa Catarina com o Rio Grande, a 3 de outubro de 1930.

 

 

Ao longo dessa última expedição pela Inspeção de Fronteiras, visitou diferentes áreas indígenas, destacamentos e quartéis militares e empreendimentos econômicos, como as instalações da Fundação Ford, da Guaporé Rubber Company e da Companhia Mate Laranjeira. Refez marcos de limites e reavivou outros, passou por ruínas de antigas fortificações como os fortes Príncipe da Beira e Coimbra, na fronteira entre Bolívia e o estado do Mato Grosso, e de velhas igrejas como a de Santo Antonio dos Militares ou a da povoação de Casalvasco, na região do Guaporé, Mato Grosso.

 

 

As atividades da Comissão de Inspeção de Fronteiras foram interrompidas com a Revolução de 1930 e a detenção de Rondon no Rio Grande do Sul. Na ocasião, o general Juarez Távora, comandante do movimento revolucionário e responsável pelo Ministério da Viação e Obras Públicas do governo provisório, fez declarações detratoras sobre os trabalhos realizados por Rondon, em contraste, por exemplo, com o ex-presidente dos Estados Unidos, Theodore Roosevelt, que, ao longo de uma célebre expedição científica pela Amazônia empreendida nos anos 1913-1914, reconhecia seu pioneirismo e afinco na instalação de linhas de comunicação pelo interior mais interno do Brasil. As declarações do general Távora levaram Rondon a pedir sua reforma do Exército. Em seu diário escreve:

“Enxovalhado na minha honra de soldado e homem público por um dos chefes da Revolução, com mais de anos de contínuos trabalhos no interior do paiz, 49 de serviço militar, já no fim de minha carreira pública, peço minha reforma de acordo com a Lei.”

Por solicitação do chefe do Estado Maior do Exército e do ministro, reconsiderou seu pedido de reforma. Sobre a declaração de Juarez Távora, Getúlio Vargas teria dito: “É a opinião de um homem, mas não é da Nação”.

Alguns autores mencionam a atenção que Rondon sempre devotou à divulgação dos trabalhos sobre seu comando e das conquistas por ele alcançadas. Com frequência concedia entrevistas a jornais, fazia conferências e participava de encontros em institutos de estudos. Importantes jornais com O Paiz, Jornal do Commercio, Jornal do Brasil, por exemplo, divulgavam os trabalhos do “eminente desbravador dos nossos sertões”, como se refere Loureiro Sobrinho em entrevista publicada em 2 de junho de 1927 em O Paiz. Mas essa atenção se fez mais concreta na produção e arranjo de copiosa documentação que Rondon e seus colaboradores empreenderam. De acordo com Fernando Tacca, “os álbuns, os artigos publicados nos principais jornais do país e principalmente as apresentações dos filmes seguidas de conferências, funcionavam como uma espécie de marketing pessoal e uma forma de persuasão para a continuidade das atividades da comissão.” (2011: 206)

 

 

Desde a Comissão de Linhas Estratégicas havia um cuidado com a organização e preservação dos registros das atividades levadas a efeito. A publicação de relatórios, álbuns fotográficos, entre outros elementos, revela a importância e a intenção em preservar a memória dessas iniciativas e também dar visibilidade às ações por vezes revestidas de uma tenacidade, característica atribuída, com frequência, a Rondon.

Em seu livro A Nação por um fio, Laura Antunes Maciel menciona, a respeito das imagens produzidas durante as expedições lideradas por Rondon, a dificuldade de dissociá-las das atividades às quais Rondon esteve vinculado desde a Comissão de Linhas Telegráficas, o Serviço de Proteção aos Índios-SPI, até a Comissão de Inspeção de Fronteiras, no período de 1890 a 1930. Fotógrafos, cinegrafistas, companheiros do exército com frequência integravam-se às diferentes missões ele consagradas. Esse amálgama entre a Comissão Rondon e a Comissão de Inspeção de Fronteiras, por exemplo, se fez sentir até mesmo nas instalações físicas. Alojada numa sala do Instituto Benjamin Constant, no Rio de Janeiro, onde funcionou o escritório central da Comissão Rondon, a Inspetoria de Fronteiras herdou o arquivo e toda a infraestrutura dessa Comissão, utilizando-se, assim, dos serviços cartográficos e topográficos que tornaram possível a organização das cartas das regiões de fronteiras.

 

 

Os álbuns seguem um padrão temático, privilegiando imagens dos grupos de trabalho, dos grupos étnicos, aspectos das vilas e cidades percorridas, prédios públicos, dos meios de transporte, de marcos de demarcação de limites e antigas construções. Apresentam também uma grande quantidade de imagens privilegiando a paisagem e aspectos geográficos que confirmam a intenção de se avaliar a natureza da região que deve servir para o reconhecimento das fronteiras brasileiras, assim como as áreas que devem receber intervenção do Estado. (Rodrigues, 2017)

 

 

 

 

É importante frisar que as fotografias não tinham a função de ilustrar ou divulgar paisagens pitorescas e exóticas. Constituíam parcela significativa do processo de construção de um ideal de nação, de expansão de valores e visões.

Logo cedo Rondon percebeu o alcance político que continham os registros fotográficos e cinematográficos. As viagens empreendidas pela Inspetoria de Fronteiras geraram álbuns, filmes e publicações. A terceira campanha, objeto do álbum ora apresentado, está editada, em sua maior parte, no filme “Ao Redor do Brasil – Aspectos do Interior e das Fronteiras Brasileiras”, de 1932, e nas películas “Posto Alves de Barros” (1930), “Mato Grosso e Paraná” (1931). As imagens realizadas nessa expedição também estão publicadas no livro Índios do Brasil, volumes 1 e 3. (Lasmar, 2008)

Este álbum referente à Campanha de 1929-1930 da Inspeção de Fronteiras parece ter sido elaborado a pedido do inspetor Cândido Rondon para o então chefe do Governo Provisório, Getulio Vargas. Ainda que, ao longo das expedições realizadas por Rondon como inspetor de fronteiras, sejam numerosos os registros de povos indígenas, neste volume as imagens se concentram nas ações de reconhecimento do território e de fixação de limites, visando formar “uma consciência geográfica da nação, criando os instrumentos para ordenação e controle e para a defesa da soberania brasileira face aos países limítrofes”. (Maciel, 1998:189)

As imagens selecionadas mostram o sertão como uma região promissora que abriga empreendimentos econômicos e obras de engenharia e também revisitam áreas históricas de relevância para a constituição territorial do país. As fotografias de Vila Bela, primeira sede da capitania de Mato Grosso, as ruínas do Forte Príncipe da Beira, construído no século XVIII para assegurar o domínio português sobre as minas do Guaporé, os registros do Palácio dos Capitães Generais, residência dos governadores dessa capitania, sugerem uma refundação dos limites do Brasil por essa Comissão. Cabe registrar ainda as menções a Ricardo Franco de Almeida Serra, importante engenheiro militar no levantamento das fronteiras do Brasil e fundador do Forte Coimbra, do também militar Hermenegildo Porto Carrero (barão do Forte de Coimbra) e do pintor e desenhista Amado Adriano Taunay, que esteve na região do Mato Grosso como integrante da expedição Langsdorff documentando os mais variados aspectos de sua natureza e sociedade, constituindo um relevante inventário do Brasil.

 

 

 

 

Assinam as fotografias Benjamin Rondon, engenheiro-topógrafo e filho de Rondon, e José Louro, fotógrafo e cinegrafista experiente, que, a serviço do SPI, documentou contatos com os grupos indígenas da região do Amazonas, além de ter participado das campanhas da Inspeção de Fronteiras juntamente com o major Thomaz Reis.

As 92 imagens das atividades de Inspeção de Fronteiras estão reproduzidas em 80 pranchas em papel fotográfico, compondo este volume de esmerada encadernação em couro e revestimento em papel kraft marmorizado com guardas e espelhos em tecido tafetá, elaborada pela empresa Drux & Filho, especializada em marroquinaria, instalada à rua Uruguaiana, no centro do Rio de Janeiro.

 

* Maria Elizabeth Brêa Monteiro é Mestre em História (UERJ) | Pesquisadora do Arquivo Nacional

 

Fontes:

BIGGIO, Elias dos Santos. Cândido Rondon: a integração nacional. Rio de Janeiro: Contraponto, Petrobras, 2000.

LASMAR, Denise Portugal. O acervo imagético da Comissão Rondon no Museu do Índio 1890-1938. Rio de Janeiro: Museu do Índio, 2008.

LOUREIRO SOBRINHO. As fronteiras do Brasil. O Paiz, 02.05.1927. Disponível em: <https://bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital/>. Acesso em: 04 jul. 2019.

MACIEL, Laura Antunes. A nação por um fio: caminhos, práticas e imagens da “Comissão Rondon”. São Paulo: EDUC, 1998.

MAGALHÃES, Amilcar A. Botelho de. Pelos sertões do Brasil. 2.ed.Rio de Janeiro: Companhia Editora Nacional, 1941.

MOREIRA NETO, Carlos de Araujo. Índios e fronteiras. Revista de Estudos e Pesquisas, FUNAI, Brasília, v.2, n.2, p. 79-87, dez. 2005.

O Paiz, 5.09.1928. Disponível em: <https://bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital/>. Acesso em: 4 jul. 2019.

PAIVA, Mário Garcia de (org.). A grande aventura de Rondon. Rio de Janeiro: INL, 1971.

RODRIGUES, F. da S. Marechal Rondon e a trajetória de um militar sertanista na Primeira República brasileira. Atores e Trajetórias do campo indigenista nas Américas. Estudos ibero-americanos, Porto Alegre, v. 43, n. 1, p. 122-134, jan./abr. 2017.

RODRIGUES, Fernando da Silva e Arias Neto, José Miguel. Fotografia, história e poder: investigando os alguns da Comissão de Inspeção de Fronteiras (1927-1930). In: Rodrigues, Fernando da

SILVA E ARIAS NETO, José Miguel (org.). História militar: entre o debate local e o nacional. Série Estudos Reunidos, v. 51, Paco Editorial, 2019. Acesso em 30 maio 2019.

TACCA, Fernando de. O índio na fotografia brasileira: incursões sobre a imagem e o meio. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v.18, n.1, jan.-mar. 2011, p.191-223.

Os 180 anos da invenção do daguerreótipo – Os álbuns da Comissão Geológica do Império com fotografias de Marc Ferrez

Para comemorar os 180 anos do daguerreótipo, invento que revolucionou em pouco tempo e para sempre a forma do registro do mundo e de seus habitantes, inundando nosso planeta de imagens fotográficas, a Brasiliana Fotográfica apresenta a seus leitores dois artigos. Nesse segundo, o portal traz para seus leitores os dois álbuns da Comissão Geológica do Império, que pertencem ao J. Paul Getty Museum, localizado em Los Angeles, nos Estados Unidos. Foram disponibilizados em alta resolução através do Programa de Conteúdo Aberto do Getty e as fotografias foram produzidas por Marc Ferrez (1843 – 1923), que integrou a expedição, chefiada por Charles Frederick Hartt (1840 – 1878).

Segundo Sérgio Burgi, coordenador de Fotografia do Instituto Moreira Salles, já com pleno domínio de sua virtuosidade técnica, Ferrez realizou para a comissão um primoroso trabalho documental e paisagístico:

‘…Seu domínio da luz, sua precisão na escolha do ponto de vista, sempre buscam ressaltar os aspectos mais formais e abstratos da cena sendo registrada. É igualmente importante ressaltar que em diversas imagens realizadas por Ferrez, sempre o elemento humano participa de maneira discreta porém marcante, conferindo escala aos cenários naturais e urbanos, e principalmente nos convidando a percorrer a imagem em todas as suas dimensões…Os trabalhos realizados em Paulo Affonso, Pernambuco, Recôncavo Baiano, Abrolhos e sul da Bahia representam um grande esforço documental e registram, além dos aspectos mais claramente geológicos, paisagens naturais e vistas urbanas de grandes cidades e pequenas povoações daquelas regiões, além de elementos antropológicos e etnográficos, como a série dos índios botocudo… Essas imagens também foram utilizadas para ilustrar  a conferência do professor Charles Frederick Hartt durante a IV Exposição Nacional, no Rio de Janeiro… Da mesma maneira, diversas imagens fizeram parte da Exposição Universal da Filadélfia, EUA, em 1876, que contou com a presença de D. Pedro II…’

 

Links para os álbuns da Comissão Geológica do Império, que pertencem ao J. Getty Museum e estão no site da instituição: Primeiro álbum e Segundo álbum

Links para os pdfs dos álbuns da Comissão Geológica do Império, que pertencem ao J. Getty Museum:  Primeiro álbum e Segundo álbum

 

 

Um pouco da história da Comissão Geológica do Império (1875 – 1878), de seu chefe, Charles Frederick Hartt (1840 – 1878), e da participação de Marc Ferrez (1843 – 1923) como fotógrafo da expedição

 

 

Em 1874, Charles Frederick Hartt (1840 – 1878), realizou uma expedição científica ao Brasil, durante a qual convenceu as autoridades brasileiras da importância da elaboração de um mapa geológico do Império. Antes, Hartt havia vindo ao Brasil quatro vezes. Pela primeira vez, como membro da Expedição Thayer, entre 1865 e 1866, financiada pelo empresário e filantropo norte-americano Nathaniel Thayer, Jr. (1808-1883) e chefiada por seu ex-professor no Museu de Zoologia Comparada, em Harvard, o suíço Louis Agassiz (1807 – 1873), quando ocupou-se sobretudo em fazer um mapeamento geológico da área do Rio de Janeiro até o norte da Bahia. Em 1867, já estabelecido como conferencista no Instituto Cooper, em Nova York, voltou ao Brasil, de maneira independente, e durante três meses examinou a costa entre Pernambuco e Rio, explorando mais particularmente as vizinhanças da Bahia e as ilhas e recifes do coral dos Abrolhos. EEm 1868, tornou-se professor de História Natural no Vassar College e também da Universidade de Cornell.  Em 1870 e em 1871, chefiou as Expedições Morgan ao Amazonas, financiadas pelo político norte-americano Edwin D. Morgan (1811- 1883) .

Além de ter obtido sucesso em seu pleito junto ao Governo Imperial, Hartt conseguiu criar a Comissão Geológica do Império, pelo Aviso de 30 de abril de 1875. Como a comissão estaria ligada ao Ministério da Agricultura, o desenvolvimento das atividades agrícolas e mineradoras a partir do conhecimento que a geologia propiciaria foi um argumento decisivo para sua criação. Foi convidado para chefiá-la e foram nomeados como seus assistentes os geólogos Orville Adalbert Derby (1851 – 1915) e Richard Rathbun (1852-1918) – ambos da Universidade de Cornell -, que chegaram ao Brasil em fins de 1875; John Casper Branner (1850-1922), do Departamento de Botânica e Geologia da Universidade de Indiana; e os brasileiros Elias Fausto Pacheco Jordão (1849 – 1901), que havia se doutorado em 1874 em engenharia civil na Universidade de Cornell, e Francisco José de Freitas, assistente geral e tradutor. Integraram, também, o corpo técnico da comissão os geólogos Luther Wagoner, substituto de Pacheco Jordão, em 1876, que foi posteriormente substituído por Frank Carpenter; o naturalista Herbert Huntington Smith (1851-1919), e o fotógrafo Marc Ferrez (1843-1923). Segundo Gilberto Ferrez, foi durante as viagens que fez com a Comissão Geológica que Marc Ferrez contraiu uma doença no fígado, da qual nunca se curou.

A Comissão, criada em abril de 1875, iniciou seus trabalhos ativos em 10 de junho de 1875 e percorreu os atuais estados de Alagoas, Bahia, Fernando de Noronha, Paraná, Pernambuco, Rio Grande do Norte, São Paulo, Santa Catarina, Sergipe, e parte da região amazônica nessa importante missão científica realizada no Brasil sob os auspícios do governo imperial, que gerou a primeira grande representação fotográfica de diversas regiões do território brasileiro (Illustração Brasileira, 1º de agosto de 1876). O governo decretou o fim da Comissão em 1º de julho de 1877 (Diário do Rio de Janeiro, 7 de julho de 1877, quarta coluna). Segundo Rathbun, o fato aconteceu devido a motivos econômicos e a discordâncias em torno do volume e do valor do trabalho realizado até ali pela comissão. Porém Hartt conseguiu seis meses de prorrogação nos trabalhos. No início de janeiro de 1878, com a formação do novo gabinete liberal, sob o comando do primeiro-ministro João Lins Vieira de Cansanção, o visconde de Sininbu (1810 – 1906), que também era ministro da Agricultura, sua extinção foi efetivada. Segundo Hartt, em junho de 1877,  as coleções zoológicas, geológicas e etnográficas feitas pela Comissão Geológica possuíam cerca de 500 mil espécimes.

Hartt foi contratado como naturalista-viajante do Museu Nacional do Rio de Janeiro, por volta de 1874. Em 1876, assumiu a Seção de Geologia, criada pela reforma do botânico Lasdilau de Souza Mello Netto (1838 – 1894), e reorganizou as coleções e preparou a mostra mineralógica brasileira apresentada na Exposição Universal de Filadélfia de 1876. Faleceu em 18 de março de 1878, um domingo, no Rio de Janeiro, de febre amarela, em sua casa no número 44 da rua da Princesa, atual Correia Dutra, no Flamengo (O Vulgarizador, 15 de maio de 1878) . Os professores e demais funcionários do Museu Nacional deliberaram tomar luto por oito dias (Gazeta de Notícias, 19 de março de 1878, segunda e penúltima colunaJornal do Commercio, 19 de março de 1878, quarta colunaRevista Illustrada, 30 de março de 1878; e O Vulgarizador, 15 de maio de 1878). Morreu sem sua família porque  sua mulher, Lucy Lynde Hartt, com quem havia se casado em 1869, havia voltado com os dois filhos do casal, Mary and Rollin, para Buffalo, nos Estados Unidos, em dezembro de 1876  – não suportou os períodos de solidão, os mosquitos, as doenças e os desconfortos do Rio de Janeiro. Quando partiu do Brasil, ela estava grávida de gêmeos mas a gravidez não se completou, o que trouxe grande tristeza para o casal. Hartt foi enterrado no cemitério de São Francisco Xavier mas, a pedido de sua esposa, seu corpo foi transladado para os Estados Unidos, em 1883.

Suas coleções foram colocadas sob a guarda do Museu Nacional do Rio de Janeiro, única instituição da época capaz de receber intelectual e fisicamente todo o trabalho da Comissão Geológica.

Acessando o link para as fotografias de Marc Ferrez realizadas para a Comissão Geológica do Império disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Breve cronologia da participação de Marc Ferrez nos trabalhos da Comissão Geológica do Império

 

 

1875 – Ferrez começou a trabalhar como fotógrafo da Comissão Geológica do Império, chefiada pelo norte-americano Charles Frederick Hartt (1840 – 1878), que se tornaria diretor da Seção de Geologia do Museu Nacional em 1876. Percorreu os atuais estados de Alagoas, Bahia, Pernambuco e parte da região amazônica numa importante missão científica realizada no Brasil sob os auspícios do governo imperial, que gerou a primeira grande representação fotográfica de diversas regiões do território brasileiro.

Marc Ferrez e outros membros da Comissão Geológica do Império embarcaram no paquete Parácom destino a Pernambuco (Jornal do Commercio, 10 de julho de 1875, na segunda coluna). Ele, Elias Fausto Pacheco Jordão, Francisco José de Freitas e Charles Frederick Hartt, todos membros da Comissão, agradeceram, publicamente, ao “digno comissário” J. Feliciano Gomes, que os recebeu no navio (Jornal do Recife, 26 de julho de 1875, na quarta coluna).

Foi publicado o relatório preliminar dos trabalhos da Comissão Geológica na província de Pernambuco, de autoria de Hartt. Ferrez foi mencionado (Diário de Pernambuco, 25 de novembro de 1875, na primeira coluna).

As fotografias produzidas por Marc Ferrez para a Comissão Geológica, mostradas durante uma visita do governador, do chefe da Polícia e do Diretor de Obras de Pernambuco na residência de Haart no Recife, foram muito elogiadas: “Rara vez um fotógrafo é tão feliz na reprodução dos quadros naturais como o Sr. Ferrez o foi neste trabalho, do qual com justiça se deve se regozijar” (Diário do Rio de Janeiro, 30 de novembro de 1875, segunda coluna).

 

 

Na residência do inspetor do arsenal de Marinha, em Recife, o chefe da Comissão Geológica do Império, Charles Frederick Hartt, fez uma conferência sobre os arrecifes e outros aspectos de Pernambuco como o cabo de Santo Agostinho, praias, o rio São Francisco e a cachoeira de Paulo Afonso, ilustrados com fotografias de Marc Ferrez (Diário do Rio de Janeiro, 2 de dezembro de 1875, nas quinta e sexta coluna, sob o título “Norte do Império”).

Ferrez  apresentou na seção de Obras Públicas da IV Exposição Nacional, dois álbuns com imagens dos recifes de Pernambuco, do baixo São Francisco e da cachoeira de Paulo Afonso, além de registros de corais e madrepérolas. As imagens produzidas durante a viagem da Comissão Geológica foram projetadas por Ferrez durante uma conferência do professor Hartt (Diário do Rio de Janeiro, 27 e 28 dezembro de 1875, primeira colunaO Globo, 4 de janeiro de 1876, na penúltima coluna, e Diário do Rio de Janeiro, 3 de fevereiro de 1876, quarta coluna).

1876 -  Apresentou na Exposição Universal da Filadélfia, aberta em 10 de maio, panoramas do Rio de Janeiro e fotografias realizadas para a Comissão Geográfica do Império, que foram premiadas. O New York Commercial Advertiser, de 29 de maio de 1876, publicou um artigo que informava que “riquíssimas fotografias da exploração geológica a cargo do professor Hartt” haviam sido apresentadas pelo Brasil na exposição. Uma curiosidade: a comissão de organização da Exposição da Filadéfia modificou as regras da premiação: os ganhadores receberiam um diploma, uma medalha de bronze e uma cópia certificada do parecer do júri, rompendo com o padrão de premiação hierárquica.

Foi publicada uma fotografia de autoria de Ferrez da cachoeira de Paulo Afonso na Revista Ilustração Brasileira, 1º de agosto de 1876, acompanhada por um texto de Charles Frederick Hartt (1840 – 1878), chefe da Comissão Geológica do Império. Na mesma edição, publicação de matéria sobre a Comissão Geológica do Império.

Ferrez havia chegado do sul da Bahia com o geólogo Richard Rathbum, também ajudante da Comissão Geológica, com diversas fotografias dos índios botocudo, dentre outras (Revista Ilustração Brasileira, 1º de novembro de 1876, na última coluna). Essas teriam sido as primeiras imagens desses índios produzidas no Brasil (Palcos e Telas, 8 de abril de 1920). Botocudo foi um termo genérico utilizado pelos colonizadores portugueses para denominar diversos grupos indígenas integrantes do tronco macro-jê (grupo não tupi), caracterizados pelo uso de botoques labiais e auriculares, habitantes originais do sul da Bahia e região do vale do rio Doce, incluindo o norte do Espírito Santo e Minas Gerais. A série de fotografias de indígenas tirada por Marc Ferrez na Bahia, durante uma segunda etapa de viagens realizadas por ele para a Comissão Geológica do Império do Brasil, no final de 1876, compõe um conjunto de  registros fotográficos pioneiros e raros dessas tribos, que se mantiveram isoladas e resistentes ao contato com os brancos, sendo violentamente perseguidas e praticamente  dizimadas nas primeiras décadas do século XX.

 

 

 

 

1877 – Publicação da fotografia do farol da Barra da Bahia, de autoria de Marc Ferrez, na capa da Revista Ilustração Brasileira, 15 de janeiro de 1877.

 

 

 

O governo decretou o fim da Comissão em 1º de julho de 1877 e em janeiro do ano seguinte sua extinção foi efetivada.

Publicação de uma matéria sobre o trabalhos da Comissão Geológica do Império e sobre o local onde estavam guardados e onde os membros da comissão cuidavam de sua classificação, estudo e do desenvolvimento, na rua da Constituição, nº 41, visitado pelo imperador Pedro II, no dia 27 de outubro. Foi mencionada a existência de um laboratório fotográfico, “grande e espaçoso…nele estão guardados algumas centenas de clichês , feitos no campo pelos Srs. Ferrez e Branner e no laboratório pelo Sr. Ratbunn (Rathbun), que hoje toma conta dessa parte do serviço da comissão” (O Vulgarizador, 3 de novembro de 1877). O imperador já havia visitado o local dos trabalhos da Comissão, em 30 de julho de 1877 (Diário do Rio de Janeiro, 31 de julho de 1877, segunda coluna).

1878 – No Almanak Laemmert de 1878, Ferrez foi identificado como fotógrafo da Marinha Imperial e da Comissão Geológica. Seu estabelecimento ficava na rua São José, 88 com depósito na rua do Ouvidor, 55.

Foi noticiada a morte de Charles Frederick Hartt, que havia sido o chefe da Comissão Geológica do Império. Ferrez foi mencionado (A Boa Nova, 24 de abril de 1878, na terceira coluna).

1879 -  Em inglês, foram publicados anúncios das fotografias de Ferrez no jornal Rio News de 5 de agosto, de 15 de setembro15 de outubro5 de novembro, mencionando que ele havia recebido uma medalha na Exposição da Filadélfia e que havia sido fotógrafo da Comissão Geológica do Império. Os anúncios seguiram sendo publicados em 1880 e 1881.

 

 

Publicações da Brasiliana Fotográfica em torno da obra do fotógrafo Marc Ferrez 

O Rio de Janeiro de Marc Ferrez, publicada em 30 de junho de 2015

Obras para o abastecimento no Rio de Janeiro por Marc Ferrez , publicada em 25 de janeiro de 2016

O brilhante cronista visual Marc Ferrez (7/12/1843 – 12/01/1923), publicada em 7 de dezembro de 2016

Do natural ao construído: O Rio de Janeiro na fotografia de Marc Ferrez, de Sérgio Burgi, publicada em 19 de dezembro de 2016

No primeiro dia da primavera, as cores de Marc Ferrez (1843 – 1923), publicada em 22 de setembro de 2017

Marc Ferrez , a Comissão Geológica do Império (1875 – 1878) e a Exposição Antropológica Brasileira no Museu Nacional (1882), publicada em 29 de junho de 2018

O quiosque Chopp Berrante no Passeio Público, Ferrez, Malta e Charles Dunlop, publicada em 20 de julho de 2018

Uma homenagem aos 175 anos de Marc Ferrez (7 de dezembro de 1843 – 12 de janeiro de 1923), publicada em 7 de dezembro de 2018 

Pereira Passos e Marc Ferrez: engenharia e fotografia para o desenvolvimento das ferrovias, publicado em 5 de abril de 2019

Fotografia e ciência: eclipse solar, Marc Ferrez e Albert Einstein, publicado em 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

 

CASTRO, Danielle Ribeiro. Photographos da Casa Imperial: a Nobreza da Fotografia no Brasil do Século XIX, 2013

Charles F. Hartt e a Comissão Geológica do Império (Youtube)

FREITAS, Marcus Vinícius. Hartt: expedições pelo Brasil Imperial 1870 – 1878, 2001. São Paulo : Metalivros

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

SANJAD, Nelson. Charles Frederick Hartt e a institucionalização das ciências naturais no Brasil, maio/agosto de 2004. Rio de Janeiro: História, Ciências, Saúde-Manguinhos, volume 11, nº2

SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

Serviços Geológicos nos trópicos: a experiência brasileira