O Parque Lage no Rio de Janeiro

 

 

A Brasiliana Fotográfica destaca uma imagem aérea do Parque Lage, um importante parque público do Rio de Janeiro, produzida pelo aviador e fotógrafo britânico Sidney Henry Holland (1882 – 1936), por volta de 1930, período em que atuou no Brasil. As informações sobre Holland ainda são esparsas e a Brasiliana Fotográfica pretende, em breve, publicar um artigo sobre ele, que era constantemente visto nos céus do Rio de Janeiro, pilotando seu avião e fazendo propaganda de peças teatrais, de lojas, de filmes cinematográficos e de candidaturas políticas. Além disso, comercializava imagens aéreas que produzia de paisagens e de aspectos da cidade, principalmente, no formato de cartões-postais. O Parque Lage localiza-se no bairro do Jardim Botânico, aos pés do Morro do Corcovado, e ocupa uma área de cerca de 523 mil metros quadrados. É formado por jardins, florestas, grutas, um torreão, o calabouço dos escravos, lagos, represas, por ruínas de um mirante e por um casarão. Originalmente era o Engenho Del Rey, um engenho de açúcar, que pertencia, no século XVI, ao português Antonio Salema (? – 1586), governador do Rio de Janeiro entre 1575 e 1578.

 

Em meados do século XIX, a família Rodrigo de Freitas, então dona das terras, contratou o inglês John Tyndale para modernizar os jardins da propriedade. O paisagista transformou o que era uma floresta em jardins românticos no estilo europeu. Em 1859, parte da fazenda foi adquirida por Antonio Martins Lage (1825 – 1900) pela quantia de oito mil réis e passou a chamar-se Chácara dos Lages. Antônio a transferiu para seus três filhos, Alfredo, Roberto e Antônio Filho, em 21 de novembro de 1900. Em 1913, a chácara foi comprada por César de Sá Rabello, mas, em 1920, o armador e amante das artes Henrique Lage (1881 – 1941), neto de Antonio, tomou posse da propriedade. Ainda na década de 20, contratou o arquiteto italiano Mário Vodrel para projetar o casarão, de estilo eclético. Foram utilizados em seu interior muitos materiais importados da Itália e as pinturas decorativas de seus salões foram realizadas pelo paulista Salvador Paylos Sabaté (1898 – 1965). Os jardins foram  restaurados, em 1926, pelo engenheiro agrônomo mineiro Leonam de Azevedo Penna (1903 – 1979). Henrique Lage casou-se com a cantora lírica italiana Gabriela Besanzoni (1888 -1962), em 1925 (Revista da Semana, 14 de fevereiro de 1925, primeira coluna), e o casal passou a viver no casarão, onde promoviam concorridos saraus e festas, que tornaram a mansão o epicentro da vida social do Rio de Janeiro. Em várias dessas ocasiões, a anfitriã tocava piano e cantava para os convidados. Henrique e Gabriella não tiveram filhos, ele faleceu em 1941 (Jornal do Commercio, 3 de julho de 1941, segunda coluna) e, como estrangeira, Gabriella não pode herdar grande parte dos bens de seu marido. Poucos anos depois, retornou à Itália e passou a lecionar canto. Ela faleceu em 1962 (Tribuna da Imprensa, 20 de julho de 1962, quarta coluna).

O Parque Lage foi alvo de especulação imobiliária em 1956, quando os herdeiros de Henrique cogitaram lotear a mais bela propriedade particular do Rio. A ideia de sua preservação partiu do Conselho Florestal que apelou ao Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Diário de Notícias, 4 de janeiro de 1956, primeira coluna, e O Semanário, 27 de setembro a 4 de outubro de 1956). Cerca de um ano depois, em 14 de junho de 1957, a propriedade foi tombada pelo IPHAN como patrimônio paisagístico, ambiental e cultural. No casarão do século XIX, funciona desde 1975 a Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV), uma importante referência para as artes no Brasil. A EAV substituiu o Instituto de Belas Artes, criado em 1950, que funcionava na mansão do Parque Lage desde 1966 (Diário de Notícias, 18 de fevereiro de 1966, primeira coluna, sob “Matrículas” e Jornal do Brasil, 5 de dezembro de 1975). Em 1976, o parque passou ao domínio da União que, cerca de um ano depois, cedeu-o ao IBDF, atual IBAMA, através do Decreto Presidencial 80494. É uma das principais áreas de lazer do Rio de Janeiro.

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Memória Lage

Parque Lage em 1944 – por Roberta Mociaro Zanatta com pesquisa de Joanna Balabran – Por dentro do acervo – Blog do IMS

O início dos negócios da família Lage – Revista Navio e Portos – A História da Marinha Mercante Brasileira

Site da Escola de Artes Visuais do Parque Lage

Site do IPHAN

Site Rio & Cultura

A Escola de Aprendizes-Marinheiros do Ceará

No ano de 1864, o Decreto Imperial nº 3.347, de 26 de novembro, criou a Companhia de Aprendizes-Marinheiros do Ceará. Estas companhias surgiram como parte do projeto de reformulação da Marinha Imperial em meados do século XIX e, no decorrer da segunda metade daquele século, foram estabelecidas 17 unidades pelo litoral do Império e uma na província do Mato Grosso.  O objetivo da instituição era recrutar crianças e jovens a fim de formá-los para ingresso no serviço da Armada Imperial, empregando-os no Corpo de Imperiais Marinheiros. É essa história que Wagner Luiz Bueno dos Santos, pesquisador na Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha – DPHDM -, uma das parceiras da Brasiliana Fotográfica, traz hoje para os leitores do portal com o artigo A Escola de Aprendizes-Marinheiros do Ceará na consolidação da educação e formação profissional de marinheiros. As 19 imagens da Escola de Aprendizes-Marinheiros que estão no acervo da Brasiliana Fotográfica podem ser acessadas e magnificadas.

A Escola de Aprendizes-Marinheiros do Ceará na consolidação da educação e formação profissional de marinheiros 

Wagner Luiz Bueno dos Santos*

 

No ano de 1864, o Decreto Imperial nº 3.347, de 26 de novembro, criou a Companhia de Aprendizes-Marinheiros do Ceará. Estas companhias surgiram como parte do projeto de reformulação da Marinha Imperial em meados do século XIX e, no decorrer da segunda metade daquele século, foram estabelecidas 17 unidades pelo litoral do Império e uma na província do Mato Grosso. O objetivo da instituição era recrutar crianças e jovens a fim de formá-los para ingresso no serviço da Armada Imperial, empregando-os no Corpo de Imperiais Marinheiros. A combinação entre aprendizado nas primeiras letras e instrução militar formava a estrutura de ensino nas Companhias de Aprendizes-Marinheiros. Para complementar a formação do aprendiz-marinheiro, o ensino teórico era acompanhado por treinamento prático nos navios de guerra da Armada Imperial, considerado como um estágio importante pela Administração Naval, pois era o momento em que os aprendizes-marinheiros recebiam treinamento prático durante as rotinas dos navios.
Durante a segunda metade do século XIX, os meninos ingressavam na instituição de diversas formas. Alguns eram levados pelos pais e parentes próximos, e outros por tutores ou responsáveis financeiros dos meninos. Porém, boa parte chegava pelas mãos das autoridades locais – delegados de polícia, juízes de paz, presidentes das províncias e inspetores dos arsenais. Em uma perspectiva mais ampla, guardadas suas especificidades, as Companhais de Aprendizes-Marinheiros compuseram os mecanismos de recrutamento da época, surgindo e se consolidando em um período em que a maioria dos marinheiros ingressava na Marinha Imperial por meio do recrutamento forçado. Na tentativa de abandonar esta prática, e solucionar seus problemas inerentes, as companhias deveriam funcionar como espaço de formação de um novo marinheiro. Por isso seu alvo foi a infância e a adolescência o recrutamento era feito nas cidades, nas vilas e nos lugarejos do extenso litoral do Império.

 

 

Acessando o link para as fotografias da Escola de Aprendizes-Marinheiro do Ceará disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Desde sua criação, as Companhias passaram por reformulações e alterações em seu regulamento, mas foi no ano de 1885 que a instituição sofreu sua maior mudança. As companhias passaram a ter a denominação de Escolas de Aprendizes-Marinheiros e uma das mais significativas mudanças foi a redução do número de unidades. Naquele ano, das 18 unidades existentes, 12 continuaram em funcionamento.

Alterações no regulamento das escolas também foram feitas no início do século XX. Um período marcado por constantes reduções e aumento do número de unidades, seja por junção ou extinção, de modo que a quantidade de escolas oscilou à medida que eram traçadas metas para o recrutamento de marinheiros. Ao mesmo tempo que se percebia a incapacidade de completar as vagas que a Marinha necessitava, identificou-se as deficiências na aprendizagem em algumas unidades. Apesar de todas essas alterações e mudanças sofridas pela instituição, onde algumas deixaram de existir, a Escola de Aprendizes do Ceará permaneceu em atividade.

No final de 1917, segundo o relatório do Ministro da Marinha publicado em 1918, das cem vagas disponíveis na escola do Ceará, havia somente 33 meninos matriculados. Naquela época, a instituição já havia deixado sua antiga sede na região do antigo porto da cidade de Fortaleza e se encontrava instalada em Jacareacanga. Para o ingresso nas Escolas, de acordo com o regulamento em vigor, estabelecido pelo Decreto nº 11.479, de 10 de fevereiro de 1915, era necessário ter entre 14 e 16 anos de idade, apresentar documentos que confirmassem a nacionalidade brasileira e passar por avaliações médicas para comprovação de aptidões físicas com laudo sanitário proferido pelo médico da escola. O Regulamento orientava ainda que os candidatos a uma vaga em uma das 20 unidades das Escola de Aprendizes-Marinheiros, dispostas no território brasileiro na época, poderiam ser entregues por seus pais ou tutores. No caso de órfãos, estes deveriam ser apresentados por seus tutores ou juiz competente e, no caso de órfãos asilados, deveriam ser apresentados pela direção dos asilos. Após a matrícula, o menino ficaria em observação por oito dias e só após esse período seria alistado como aprendiz-marinheiro.

O ensino nas Escolas de Aprendizes-Marinheiros compreendia um período de dois anos, dividido cada ano em duas séries. Os aprendizes-marinheiros passariam por um processo de aprendizagem estabelecido em três segmentos: elementar, profissional e acessório. O ensino elementar nas escolas incluía noções de língua portuguesa; ensino de matemática com noções de operações fundamentais, geometria e sistema métrico decimal; geografia e história do Brasil; educação física; educação musical e desenho. O ensino profissional, que era o início da preparação do aprendiz-marinheiro para o exercício das funções a bordo, constituía-se por disciplinas que abordavam noções elementares dos aparelhos dos navios modernos, classificação de navios modernos, sua categoria, noções de navegação, regimento de bandeiras e sinais semafóricos. O objetivo dessas disciplinas, ditas modernas, era acompanhar a evolução da construção naval da época. O ensino acessório tratava-se de um conjunto de atividades para o desenvolvimento físico do aprendiz-marinheiro e sua formação militar, incluindo exercícios de ginástica, de escaleres a remos e a vela, de esgrima, de natação, jogos escolares ao ar livre, execícios de infantaria e de baioneta.

A Escola de Aprendizes-Marinheiros do Ceará teve suas atividades encerradas em 1931 e foi reaberta, em 1940, com instalações novas e ampliadas para proporcionar melhores condições de alojamento e aprendizagem aos alunos. Na ocasião, os jornais da cidade deram destaque para a chegada do futuro comandante da Escola de Aprendizes, o então Capitão-Tenente Clóvis de Oliveira, que visitou as novas instalações para traçar um plano de abertura da antiga escola. Atualmente, a Escola de Aprendizes-Marinheiros do Ceará tem capacidade para formar 500 marinheiros por ano e a forma de ingresso é feita por concurso público para brasileiros entre 18 e 22 anos, que não tenham contraído matrimônio ou outra forma de união.

 

*Wagner Luiz Bueno dos Santos é historiador e pesquisador na Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha – DPHDM.

 

 

O fotógrafo açoriano Christiano Junior (1832 – 1902) e sua importante atuação no Brasil e na Argentina

 

O fotógrafo açoriano José Christiano de Freitas Henriques Júnior nasceu na Ilha das Flores, em 1832. Foi um dos maiores e mais versáteis fotógrafos dos oitocentos, além de empresário atuante em diversos ramos. Chegou ao Brasil, em 1855, com sua esposa, Maria Jacinta Fraga, e com os dois filhos do casal: os futuros fotógrafos José Virgílio e Frederico Augusto. Na década de 1860, quando a fotografia se popularizou no país e passou a ser comercializada em ateliês, Christiano dedicou-se aos retratos de estúdio e tornou-se famoso por seus registros de tipos negros, tendorealizado imagens exclusivamente de escravizados, vendidas, em geral, no formato de cartes de visite. Eram geralmente vendidas para estrangeiros que voltavam à Europa.

Christiano Junior trouxe os escravizados para dentro do estúdio e em seus registros há closes e retratos deles em uma situação de simulação de suas atividades profissionais mostrando, sobretudo, carregadores e os chamados negros de ganho, que trabalhavam como vendedores nas ruas da cidade e entregavam o lucro para seus proprietários. Os escravizados eram identificados como tipos negros e eram fotografados normalmente de frente ou de perfil e enquadrados no centro, deixando bem evidentes suas características físicas, suas vestimentas e instrumentos de trabalho. Às vêzes, Christiano os retratava diante de fundos pintados com paisagens europeias.

Também produziu no Brasil e na Argentina uma significativa produção de retratos de tipos locais. Também foi o autor de uma série de fotografias médicas.

 

 

A primeira notícia que se tem até hoje do início da atuação de Christiano Junior na fotografia no Brasil é de 1862, quando anunciou, em Maceió, Alagoas, seus retratos fotográficos sobre vidro, papel, pano e encerado. No mesmo ano, chegou ao Rio de Janeiro e em anúncio ofereceu seus serviços de fotógrafo.

Dois anos depois, era um dos proprietários da Photographia do Commercio, na rua São Pedro, 69 e seu sócio era Fernando Antônio de Miranda. Mudou-se sozinho para a rua da Quitanda, 45, em 1965. A partir do dia 1º de dezembro de 1866, seu amigo Bernardo José Pacheco tornou-se seu sócio em seu estabelecimento fotográfico, que passaria a funcionar com a razão Christiano Junior & Pacheco.

Em 1867, abriu um ateliê fotográfico, em Mercedes, no Uruguai e, no mesmo ano, em 1º de dezembro, inaugurou em Buenos Aires, um bem sucedido estúdio de fotografia, na rua Florida, nº 159. Na Argentina, celebrizou-se por fotografar tipos locais e paisagens, tendo realizado uma significativa produção de retratos. É considerado um dos mais importantes fotógrafos que atuaram na Argentina durante o século XIX. Em 1878, vendeu seu estúdio em Buenos Aires para Witcomb & Mackern, tendo deixado no arquivo do ateliê um acervo de mais de 170 vistas. Entre 1879 e 1883, viajou pelo interior da Argentina, fotografando várias províncias do país.

Em 1883, Christiano Junior desvinculou-se de seu último ateliê, em Corrientes. Abandonou temporariamente a fotografia, dedicando-se à produção e comércio de vinhos e licores, os quais vendia ao Brasil, à Argentina e ao Paraguai.

 

Faleceu em 19 de novembro, em Assunção, no Paraguai, e seu necrológio foi publicado na revista argentina Caras Y Caretas de 13 de dezembro de 1902, na página 28.

 

Em Assunção do Paraguai, onde vivia retirado há muitos anos pintando fotografias, faleceu na semana passada o velho fotógrafo don Christiano Junior, cuja arte para retratar a antiga família portenha era famosa em seu tempo. Junior foi o antecessor de Witcomb e diante de sua objetiva desfilaram as mais conhecidas damas e cavalheiros daquela época. Morreu pobre, privado quase por completo de sua visão, e deixa uma lembrança agradável em todos os que conheceram.’

Acessando o link para as fotografias de Christiano Júnior disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Grande parte da obra de Christiano Junior está sob a guarda da Biblioteca Nacional, do Museu Histórico Nacional, do Arquivo Nacional, do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e do Instituto Moreira Salles.

 

  Cronologia de Christiano Júnior 

Retrato de Christiano Junior, c. 1895

1832 – O português José Christiano de Freitas Henriques Junior nasceu na Ilha das Flores, no Arquipélago dos Açores, em 21 de julho de 1832.

1855 - Chegou ao Brasil com sua esposa, Maria Jacinta Fraga, e com os dois filhos do casal: os futuros fotógrafos José Virgílio (1851 -?) e Frederico Augusto (1853-?).

1862 – Christiano Junior anunciava, em Maceió, em Alagoas, seus retratos fotográficos sobre vidro, papel, pano e encerado.

Chegou no Rio de Janeiro e em anúncio ofereceu seus serviços de fotógrafo. Seus trabalhos estariam expostos na casa do sr. Bernasconi e chamados escritos deveriam ser enviados para o Hotel Brysson, na rua d´Ajuda, 57 B. Também aceitava pedidos de quadros e cestas de flores e frutas de cera, imitando perfeitamente o natural (Correio Mercantil, e Instrutivo, Político, Universal, 2 de dezembro de 1862, quinta coluna).

1864 - Era um dos proprietários da Photographia do Commercio, na rua São Pedro, 69. Seu sócio era Fernando Antônio de Miranda (Jornal do Commercio, 17 de julho de 1864).

 

1865 - O endereço do estabelecimento fotográfico de Christiano e Miranda mudou para rua da Quitanda, 53 (Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1865).

Christiano mudou-se sozinho para a rua da Quitanda, 45. Anunciou que em seu estabelecimento, a Photographia e Pintura, fazia cartões de visita, ambrótipos, cenótipos, fotografias coloridas a óleo, aquarela ou pastel, além de retratos para broches e medalhas. Também anunciou a venda de coleções dos costumes dos pretos nessa corte e no interior da província, em cartões para álbuns, coisa muito própria para quem se retira para a Europa  (Jornal do Commercio, 2 de abril de 1865 e Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1866).

Exposição na Casa Bernasconi de quatro molduras contendo 48 fotografias de autoria de Christiano. Delas 12 costumes de pretos de ganho, vendilhões e outras 12 representam tipos de diferentes nações da raça africana. Essas 24 imagens foram oferecidas a d. Pedro II (1825 – 1891). Seriam enviadas à exposição do Porto (Correio Mercantil, 22 de julho de 1865, penúltima coluna).

Participou da Exposição Internacional do Porto e suas obras, assim como as do fotógrafo Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912), foram expostas na seção de Belas-Artes (Jornal do Commercio, de 1865, terceira coluna).

Christiano Jr, identificado como fotógrafo bastante conhecido pelos excelentes trabalhos executados em sua oficina, doou 400 fotografias do falecido cônsul de Portugal, Antonio Emilio Machado Reis, para ajudar à família do diplomata. Houve uma exposição das fotos na sociedade Madrepora, instituída por Machado Reis (Correio Mercantil, 1º de novembro de 1865, terceira coluna).

1866 - Publicação de anúncio da Galeria Photographica e de Pintura na seção de “Notabilidades” do Almanaque Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro. Christiano Junior anunciava que havia reaberto seu estabelecimento fotográfico após uma reforma e oferecia timbres-postes, fotografias em diversas dimensões – até a natural -, podendo ser coloridas por várias técnicas, retratos em cenótipos, fotografias de homens célebres, além de uma variada coleção de costumes e tipos de pretos, coisa muito própria para quem se retira para a Europa.

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Estabelecido na rua da Quitanda, 45, Christiano fez uma exibição de retratos para cartas, uma nova e interessante aplicação da fotografia, realizada a partir de um instrumento que em 15 segundos dá 12 e 24 retratos, pequenos, mas nem por isso menos parecidos. Os retratos seriam usados para marcar o papel de carta, o que anteriormente era feito com a iniciais do remetente (Diário de São Paulo, 4 de fevereiro de 1866, segunda coluna).

 

No verso de uma de suas cartas de visita oferecia retratos em lenço, costumes e tipos de índios, cópias de gravuras de Morgado de Mateus reproduzidas de uma rara edição de Os Lusíadas, retratos em porcelana, e em marfim, retratos em vidro para ver por transparências, vistas para estereoscópios, retratos de homens célebres, monarcas, guerreiros, literatos, etc.

Participou da II Exposição Nacional e o que apresentou foi saudado como excelentes retratos e perfeitíssimas reproduções de uma dúzia de gravuras. Conquistou a medalha de bronze (Semana Ilustrada, 18 de novembro de 1866, segunda coluna e Diário do Rio de Janeiro, 1º de fevereiro de 1867, última coluna).

Christiano Pacheco participou que, a partir do dia 1º de dezembro de 1866, seu amigo Bernardo José Pacheco passaria a ser seu sócio em seu estabelecimento fotográfico, na rua da Quitanda, 45, que passaria a funcionar com a razão Christiano Junior & Pacheco (Jornal do Commercio, 3 de dezembro de 1866, quarta coluna e Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1867).

 

 

 

Em torno desse ano, realizou uma série de fotografias médicas.

 

1867 – Christiano Junior estava em Desterro, atual Florianópolis, e abriu um ateliê fotografico na rua Augusta, 26. Anunciou sua pretensão de fazer algumas vistas da cidade e também de vistas para estereoscopos, além de informar que pretendia ficar apenas por um mês na cidade porque estaria de passagem para o rio da Prata (O Despertador, 1º de fevereiro de 1867O Mercantil, 28 de fevereiro de 1867).

 

 

 

 

Abriu um ateliê fotográfico, em Mercedes, no Uruguai.

Christiano Junior começou a tentar expandir suas atividades na Argentina. Em 1º de dezembro, em Buenos Aires, inaugurou um bem sucedido estúdio de fotografia, na rua Florida, nº 159. Iniciou uma significativa produção de retratos e, segundo os pesquisadores argentinos Abel Alexander e Luis Priano, que examinaram os álbuns relativos ao seu trabalho que estão depositados no Archivo General de la Nación, estima-se que foram produzidos por ele mais de 4 mil retratos entre 1873 e 1875.

No censo de 1869 de Buenos Aires, constavam os nomes de Christiano e de seus dois filhos. O de sua esposa não, o que indica que provavelmente estavam separados ou ele tinha enviuvado.

1870 - Em um anúncio, Christiano Junior & Pacheco avisavam que à vista dos mesquinhos preços a que alguns de nossos colegas têm reduzido a fotografia, vemo-nos também obrigados a baixar nossos preços. Informava ainda que Christiano Junior havia trazido de sua casa, em Buenos Aires, um novo sistema, a imitação porcelana, por ele introduzida lá e aqui (Jornal da Tarde, 18 de agosto de 1870).

 

 

Em francês, anúncio da venda de um produto de combate à umidade na Maison Christiano Junior & Cia. O produto teria sido descoberto por um associado de Christiano em Paris, o pintor químico M. Regnault. A propaganda foi publicada outras vezes (Ba-Ta-clan, 27 de agosto de 1870).

Christiano Junior & Pacheco anunciavam uma novidade fotográfica, a imitação da porcelana – unicamente se fazem na rua da Quitanda, 45 (Jornal do Commercio, 28 de agosto de 1870, terceira coluna).

Christiano Junior montou um estúdio fotográfico voltado ao público infantil, a Fotografia de la Infancia, na rua de Las Artes, n. 118, em Buenos Aires.

Em torno desse ano, fotografou o Conde d´Eu(1842 – 1922), marido da princesa Isabel (1846 – 1921).

 

 

1871 – Recebeu a medalha de ouro na primeira Exposição Nacional da Argentina, na cidade de Córdoba, com a série de fotos Vistas y costumbres de la Republica Argentina. 

1873 - Publicação de um anúncio da Photographia de Christiano Junior & Pacheco no Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1873 .

 

 

1874 – Christiano Junior & Pacheco eram réus em uma ação movida por Olímpio Militão Vieira na Primeira Vara Cível (Diário do Rio de Janeiro, 10 de dezembro de 1874, primeira coluna).

1875 – O estabelecimento fotográfico de Christiano Junior & Pacheco foi anunciado pela última vez no Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1875, no endereço rua da Quitanda, 39 a 41.

Seu ateliê fotográfico voltado ao público infantil, a Fotografia de La Infância, era, segundo anúncio publicado no jornal La Prensa de 04 de fevereiro de 1875, possuidor de máquinas instantâneas que permitem tirar retratos de criaturas inquietas e travessas. O ateliê foi destruído por um incêndio em março de 1875, e foi reaberto pouco depois, à rua Victoria 296, agora gerenciado por seu filho José Virgílio, que havia sido seu ajudante.

Manoel Garcia Vidal, ex-sócio de Christiano Junior & Pacheco, anunciou a abertura de um estabelecimento fotográfico na rua Sete de Setembro, 76, esquina com Gonçalves Dias (Jornal do Commercio, 17 de março de 1875, sexta coluna).

Um incêndio destruiu o prédio número 41 da rua da Quitanda, de propriedade da Santa Casa de Misericórdia. No segundo andar ficava o estabelecimento Christiano Junior & Pacheco (Jornal de Recife, 29 de março de 1875, segunda coluna). Eles passaram a atender no ateliê do renomado fotógrafo português José Ferreira Guimarães (1841 – 1924), na rua do Ourives, 38 (Jornal do Commercio, 21 de março de 1875).

A Photographia de Pacheco, Menezes e Irmão era anunciada como sucessora de Christiano Junior & Pacheco, na rua da Quitanda, 39 (Gazeta de Notícias, 10 de agosto de 1875, terceira coluna).

 

 

Christiano tornou-se fotógrafo oficial da Sociedade Rural Argentina e realizou sua primeira exposição pela entidade, da qual se desligaria em 1878.

1876 – Lançou o primeiro volume da coleção intitulada Album de Vistas e Costumes de La Argentina, que trazia 16 imagens de Buenos Aires acompanhadas por textos explicativos em quatro idiomas. Primeiro trabalho com essas características produzido na Argentina, o material foi, em parte, formado pelo aproveitamento de vistas anteriormente colocadas à venda em seu ateliê. Christiano Júnior nesse trabalho mesclou imagens da Argentina colonial e pastoril com as de uma nova nação, representada sobretudo pelas novas construções.

Para introduzir o álbum afirmou: ‘Meu plano é vasto e quando estiver completo a República Argentina não haverá nem pedra nem árvore histórica, do Atlântico até os Andes, que não tenha sido submetido ao foco vivificador da câmara escura.’

Ganhou a medalha de ouro na segunda exposição anual da Sociedade Científica Argentina.

Participou da Exposição Universal da Filadélfia de 1876.

1877 - Foi lançado o segundo volume de seu trabalho, contando com doze retratos de tipos populares urbanos e com vistas de construções modernas e históricas.

Produziu uma série que retratava a nova penitenciária de Buenos Aires, trabalho que foi vendido de forma avulsa e em álbum encadernado.

No catálogo da primeira exposição do Club Industrial de Buenos Aires, em 1877, na qual participou, Christiano Junior escreveu acerca de suas fotos médicas, realizadas no Brasil, que segundo o parecer dos médicos nacionais e estrangeiros, nenhum fotógrafo, até aquela data [1866] havia tirado do natural um trabalho semelhante.

1878 - Vendeu seu estúdio em Buenos Aires para Witcomb & Mackern. Deixou no arquivo do ateliê um acervo de mais de 170 vistas.

Participou da Exposição Universal de Paris de 1878.

1879 a 1883 – Viajou pelo interior da Argentina, fotografando várias províncias do país, continuando a série de álbuns de Vistas e Costumes da República Argentina. Passou pelas cidades de Rosário, Córdoba, Río Cuarto, Mendoza, San Juan, San Luis, Catamarca, Tucumán, Salta e Jujuy. Antes de chegar às cidades, anuncia nos jornais locais que ali prestará seus serviços. Monta seu estúdio associado a um fotógrafo local e, em alguns casos, acompanhado de seu  filho. Uma vez instalado na localidade, dá início ao trabalho no ateliê e, paralelamente, desenvolve seu projeto maior: os álbuns de vistas.

1882 – Participou da Exposição Continental de Buenos Aires em 1882.

1883 – Anúncio do estabelecimento fotográfico de Menezes & Irmão, sucessores de Christiano Junior & Pacheco (Gazeta da Tarde, 5 de junho de 1883, última coluna).

Christiano Junior desvinculou-se de seu último ateliê, localizado na cidade de Corrientes. Abandonou temporariamente a fotografia, dedicando-se à produção e comércio de vinhos e licores, os quais vendia ao Brasil, à Argentina e ao Paraguai.

1890 – De Buenos Aires, Christiano Junior importou 382 fardos feno, que chegaram no vapor francês Bearn (Jornal do Commercio, 28 de janeiro de 1890, penúltima coluna).

De Buenos Aires, Christiano Junior importou quatro sacos de alpiste, 10 de cevada, 10 de linhaça, seis de milho e 40 caixas de passas e nove de vinho que chegaram no vapor francês Bretagne (Jornal do Commercio, 23 de abril de 1890, quarta coluna).

1892 – Pelo decreto de 21 de dezembro de 1892, foi concedida, por 15 anos, a Christiano Junior, a patente da invenção do processo aperfeiçoado de fabricar vinho de cana (Minas Gerais, Órgão Oficial dos Poderes do Estado, 24 de dezembro de 1992, terceira colunaJornal do Brasil, 26 de dezembro de 1892, quarta coluna, e Relatório do Ministério da Agricultura de 1993).

1901/1902 – Entre esses anos, Christiano Júnior escreveu ainda oito textos autobiográficos publicados no jornal La Provincia: Sueños raros (14/12/1901); Recuerdos de mi tierra, dedicado a seu neto Augusto (1/1/1902), Tempora mutantur (Buenos Aires de 1866 a 1900), dedicado a sua neta Telma (15, 18, 21, 25/1/1902); Un carnaval en mi tierra, dedicado a Pedro Benjamín Serrano ( 8/2/1902); En los Andes, dedicado a Félix M Gómez (1/3/1902); Informalidad y mentira, dedicado a Manuel V. Figuerero (26/3/1902); Brasil de 1855 a 1870, dedicado a Guillermo Rojas ( 5/4/1902), e De Corrientes (17/5/1902) (Recordando Christiano).

1902 – Christiano Junior faleceu em 19 de novembro, em Assunção, no Paraguai. Seu necrológio foi publicado, em 13 de dezembro de 1902, na revista argentina Caras Y Caretas, página 28 :

Em Assunção do Paraguai, onde vivia retirado há muitos anos pintando fotografias, faleceu na semana passada o velho fotógrafo don Christiano Junior, cuja arte para retratar a antiga família portenha era famosa em seu tempo. Junior foi o antecessor de Witcomb e diante de sua objetiva desfilaram as mais conhecidas damas e cavalheiros daquela época. Morreu pobre, privado quase por completo de sua visão, e deixa uma lembrança agradável em todos os que conheceram.’

 

anuncio12 Caras y Caretas, 13 de dezembro de 1902

 

Posteriormente, seus restos mortais foram levados para Buenos Aires e sepultados no cemitério de Olivos.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ALEXANDER, Abel & PRIAMO, Luis. Recordando a Christiano: un país en transición – fotografías de Buenos Aires, cuyo y el Noroeste. Christiano Júnior 1867 – 1883. Buenos Aires: Ediciones Fundación Antorchas, 2002.

AZEVEDO, Paulo César de & LISSOVSKY, Maurício. Escravos brasileiros do século XIX na fotografia de Christiano Jr. (1864-1866) [et ali.]. São Paulo: Ex. Libris, 1988.

BEAUGÉ, Gilbert. A fotografia argentina no século XIX. In: SAMAIN, Etienne (Org.). O fotográfico. São Paulo: HUCITEC, 1998.

ERMAKOFF , George. Rio de Janeiro 1840 – 1900 – Uma crônica fotográfica. Rio de Janeiro: G. Ermakoff Casa Editorial, 2006.

FERREZ, Gilberto. A fotografia no Brasil. Rio de Janeiro: Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, 1953.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

HIRSZMAN, Maria Lafayette Aureliano. Entre o tipo e o sujeito – Os retratos de escravos de Christiano Junior. Disseração apresentada na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, sob a orientação de Domingos Tadeu Chiarelli.

Jornal Açoriano Oriental, 20 de novembro de 2014

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

KOSSOY, Boris. Origens e expansão da fotografia no Brasil : século XIX. Prefácio Boris Kossoy. Rio de Janeiro: Funarte, 1980. 128 p.

KOUTSOUKOS, Sandra Sofia Machado. No estúdio do fotógrafo: um estudo da (auto) representação de negros livres e escravos no Brasil da segunda metade do século XIX. Campinas, Instituto de Artes da Unicamp, 2002

LEITE, Marcelo EduardoOs múltiplos olhares de Christiano Junior – Revista Studium,- Unicamp, edição 39.

Revista La Nacion, 21 de abril de 2002

Site da Enciclopédia Itaú Cultural

SOARES, Carlos Eugênio Libano. Christiano Junior e a face escrava do Brasil. Biblioteca Nacional Digital.

TELL, Veronica. Autor fotográfico y obrero del progreso: notas sobre el trabajo de Christiano Junior en la Argentina. Critica Cultural, junho 2009.

 

 

 

O primeiro Palácio da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro

 

De 1892 até hoje a Prefeitura do Rio de Janeiro já ocupou sete sedes. A Brasiliana Fotográfica destaca uma imagem da primeira delas, produzida por Marc Ferrez (1843 – 1923), na década de 1890. O presidente da República Floriano Peixoto (1839 – 1895) assinou a Lei Orgânica do Distrito Federal, em 20 de setembro de 1892, estabelecendo a Prefeitura do Rio de Janeiro e sua sede foi instalada em um palacete situado no Campo de Santana, onde permaneceu por 50 anos. Esse prédio foi demolido nos anos 1940 devido às obras de construção da avenida Presidente Vargas.

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

 Fontes:

ABREU, Alzira Alvares (coordenação geral). Dicionário histórico-biográfico da Primeira República (1889-1930) (recurso eletrônico): 1889 – 1930. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2015.

O Globo, 2 de janeiro de 2017

Site da Câmara Federal

 

Lunara (1864 – 1937), um fotógrafo amador e fotoclubista de Porto Alegre

A Brasiliana Fotográfica apresenta o álbum Vistas de Porto Alegre – Fotografias Artísticas, com 20 imagens assinadas pelo fotógrafo amador gaúcho Lunara (1864 – 1937), e produzido pelos Editores Krahe & Cia. As fotografias nos revelam uma Porto Alegre bucólica de fins do século XIX, início do século XX.  Lunara era um dos pseudônimos do comerciante Luiz do Nascimento Ramos (1864 – 1937). Foi composto a partir das primeiras sílabas de seus três nomes e ele o usava para expor suas fotos e também para participar de concursos fotográficos. Mas Lunara não foi seu único pseudônimo: quando escrevia crônicas para O Athleta (1883 – 1889), semanário do Clube Caixeiral Porto Alegrense, assinava com os pseudônimos Bitu ou Sancho.  Em torno de 1899, como fotógrafo amador passou a integrar a associação Sploro Photo-Club, em Porto Alegre, um dos fotoclubes pioneiros do Brasil.

 

 

Segundo Denise Burges Stumvoll, mestre em Artes Visuais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e autora da dissertação Fotografia e aproximações com a arte no início do século xx : um olhar para as narrativas visuais de Lunara, o álbum Vistas de Porto Alegre “…propõe um percurso realizado pelo fotógrafo, em que somos conduzidos pelas bordas e margens da cidade, bem como aos lugares e às pessoas que ali viveram, como se interessasse, ao autor das imagens, produzir uma metáfora da marginalidade, social e cultural, revelando o que geralmente ficava à sombra da memória visual sobre a modernidade na paisagem urbana.”

Participante ativo da vida cultural e econômica da cidade, adotou a fotografia como um hobby. Aos domingos, Lunara costumava sair com sua máquina fotográfica, um tripé e várias chapas de vidro 13 x 18cm. Uma de suas companhias mais constantes nesses passeios por Porto Alegre era seu amigo, o pintor Pedro Weingartner (1853 – 1929), um dos mais importantes artistas do sul do Brasil. Seus destinos favoritos eram as margens do rio Guaíba ou dos arroios Cascatinha e Dilúvio. A convivência entre Weingartner e Lunara é um exemplo de uma relação estreita entre fotógrafos e pintores, o que ajudou a sedimentar “o papel de vanguarda dos estúdios fotográficos na disseminação da arte moderna” (1).  Ainda sobre a a proximidade dos dois: “Suas pinceladas minuciosas e cheias de detalhes assemelham-se , em seu estilo, à precisão realista das imagens de Lunara, que reitera as qualidades miméticas da linguagem fotográfica para constituir um registro histórico de grande relevância para sua cidade”. Outros exemplos da interação entre fotógrafos e pintores são o apoio do fotógrafo francês Félix Nadar (1820 – 1910) à exposição dos pintores impressionistas em 1874, em Paris; e o trabalho do fotógrafo norte-americano Alfred Stieglitz (1864 – 1946) na realização das mostras de artistas como o espanhol Pablo Picasso (1881 – 1973) e o francês Georges Braque (1882 – 1966), em Nova York

Alguns dos temas mais abordados nas fotografias de Lunara foram os ex-escravizados, cenas de família, os carreteiros, as aguadeiras e os viajantes. Seus registros eram influenciados pelo movimento pictorialista internacional, movimento que se desenvolveu a partir do surgimento dos fotoclubes e que caracterizava-se pelo resultado da fotografia, que se aproximava da pintura. Em suas imagens, Lunara, com um olhar artístico que acentuava aspectos bucólicos, mostrava seu universo familiar com sensibilidade e humor. Suas fotografias revelavam também a incipiente modernização da capital gaúcha.

 

 

Na Gazeta do Comércio de 25 de março de 1903, o jornalista Artur Pinto da Rocha (1864 – 1930) escreveu sobre o fotógrafo:

“Lunara é outro incorrigível amador da fotografia, que trata simultaneamente de açúcar e de tudo quanto passa… na Praça. Laureado nos concursos a que tem comparecido, é um artista que faz honra ao nosso meio. Tem sobre todos os seus brilhantes colegas a qualidade superior de descobrir na natureza os melhores assuntos e de saber vê-los através da objetiva com uma perfeição inexcedível de arte. E, vistos os motivos e interpretadas as cenas e observada a perspectiva e encantadoramente preparado o conjunto com uma empolgante sobriedade de elementos, Lunara tem ainda o soberbo dom de aplicar a seus trabalhos o título preciso e flagrante, com verve, com verdade e com justeza de conceito”.

Nas fotografias selecionadas pela Brasiliana Fotográfica, alguns desses títulos inspirados que ajudam a exprimir a visão e o objetivo do fotógrafo podem ser apreciados, dentre eles “Nhô João deixa disso“, “As cantigas do vovô” e “Mourejando“.

Acessando o link para as fotografias de Lunara disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas. 

 

 

Outro amigo de Lunara, Geraldino Silveira, publicou no O Athleta , em 1886, um pequeno perfil de Lunara, no qual fica evidente seu bom temperamento e gosto pelas mulheres. Revela também que ele tinha um problema de vista:

“Luiz Ramos. Acanho-me em tratar deste bom amigo. Eu quisera dizer aqui tudo que sei a seu respeito; descobrir-lhe os segredos que povoam-lhe o coração. Um coração afeito a todas as doçuras do amor, moldado para a conquista dos sorrisos castos. Mas para quê?; prefirom guardar comigo a história de nossas confidências, a história de suas aventuras, como ele guarda consigo a ventura de seus afetos, o juramento de suas belas. É o fraco do Luiz; morre por um olhar de mulher, que é para ele o supremo ideal da vida. Se depois de um jejum de oito dias pusessem diante do Ramos um bife ensanguentado e uma mulher formosa, ele jamais olharia para o bife enquanto a deusa olhasse para ele.

Alimenta-se do belo; arrebatasse ante a plástica de uns contornos lânguidos e abundantes de carne. Jesus foi sacrificado sobre o Calvário; o Luiz também há de ter um dia o seu Calvário sobre a montanha azul de um amor imenso. Seria esse o ponto mais saliente da vida do Ramos, se ela não gostasse de literatura; se ele também já não tivesse produzido belas páginas de prosa; uma prosa temperada de verve e de elegância. Quem não tgerá aí lido o Bitu ou o Sancho?

Tem talento; mas um talento abandonado à fantasia dos diálogos romanescos dos salões de baile. Pouco estuda; um incômodo de olhos privou-o dos livros e o vidro azul dos óculos que traz sobre o nariz, enche-lhe a imaginação de volúpia e a alma de ternura. Tem facilidade admirável para o estudo das línguas; poderia vir a ser um filólogo se não estivesse diariamente debruçado sobre a escrivaninha de um escritório comercial. Gosta de preferência de falar o italiano; pudera, se o italiano é a língua dos amores, da música e das paixões enormes.

Nunca vi o Ramos incomodado; é um todo de bondade e de indulgênica. Se alguma vez o spleen o assoberba, embriaga-se à fumaça de um caporal e pouco fala. Nesse estado finge sorrir, mas nem mesmo ri. O céu do coração também tem suas tormentas…

É este o Luiz de que vos falo, e que agora desfruta a primavera de seus vinte e dois anos. No mais, um bom amigo, sincero, delicado e simpático.”

 

 

Cronologia do fotógrafo Luiz do Nascimento Ramos, conhecido como Lunara (1864 – 1937)

1864 - Luiz do Nascimento Ramos nasceu, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, em 1864.

1883 - Passou a integrar a comissão editorial do jornal O Athleta (1883-1889), vinculado ao Club Caixeiral Porto Alegrense . No período de existência do jornal, escrevia e publicava crônicas bem-humoradas  sob os pseudônimos Bitu ou Sancho. O Club Caixeiral Porto Alegrense foi fundado, em 1882, por imigrantes alemães vinculados ao comércio.

1886 – Era um dos integrantes do Club Caixeral que seria homenageado com um espetáculo de gala em honra da simpática e brisosa classe caixeiral, no Theatro São Pedro (A Federação, Orgam do partido Republicano, 17 de maio de 1886).

1888 – De novo os comerciários foram homenageados com um espetáculo de ópera no Theatro São Pedro e os integrantes do Club Caixeral, dentre eles Lunara, representaram a classe (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 10 de março de 1888).

década de 1890 – Em fins dessa década, sua fotografia intitulada Aguadeira foi publicada na revista francesa Photo-Gazette .

 

 

1891 – Trabalhava na firma Caetano Pinto & Franco (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 17 de fevereiro de 1891).

1894 - Contratou casamento com Maria Isabel Borges Ramos (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 10 de maio de 1894, segunda coluna).

1896 - Associou-se a Adwaldo Franco e abriu a firma de importações Franco, Ramos & Cia. Também trabalhava como contador contábil em outras empresas.

c. 1899- Registrava a periferia da cidade aos domingos e utilizava o pseudônimo Lunara para expor suas imagens.

Como fotógrafo amador passou a integrar a associação Sploro Photo-Club, em Porto Alegre, um dos fotoclubes pioneiros do Brasil. Funcionava na Drogaria Ingleza , que pertencia a Sépia, também fotógrafo amador.

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Acervo de Imprensa da Museu de Comunicação Hipólito José da Costa, 1901

1899 –  Ele fotografou as festas da inauguração do velódromo da União Velocipédica e algumas ficaram expostas nas vitrines da Drogaria Ingleza, em Porto Alegre. Seu amigo, o fotógrafo Virgílio Callegari (1868 – 1937) faria as ampliações (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 23 de novembro de 1899, segunda coluna).

Lunara participou de um evento promovido pela associação Sploto Photo-Club, na Drogaria Ingleza. O júri do evento era formado por Augusto Daisson, Miguel Weingartner e Virgilio Callegari.

Década de 1900 - Foi editado e publicado o álbum Vistas de Porto Alegre – Fotografias Artísticas, com 20 imagens assinadas pelo fotógrafo amador gaúcho Lunara (1864 – 1937), e produzido pelos Editores Krahe & Cia, cuja loja e livraria ficavam na rua dos Andradas, em Porto Alegre.

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Acervo de Imprensa da Museu de Comunicação Hipólito José da Costa, 1901

1900 - Endereçou à Repartição Central da Secretaria de Estado de Negócios do interior e exterior em Porto Alegre uma carta sugerindo a adoção de um novo método marcas e sinais para gado (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 27 de agosto de 1900).

Nascimento de seu filho, Áureo.

1901 – Lunara já era um próspero comerciante e membro da diretoria da Associação Comercial de Porto Alegre.

Recebeu a medalha de bronze no segundo concurso para amadores da fotografia realizado nos salões da fotografia Leterre, na rua da Carioca, com um registro do busto de perfil da filha de um amigo. Fazia parte do júri o fotógrafo Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912), além do escultor Rodolfo Bernardelli (1852 – 1931) e do pintor Hilarião Teixeira (1860 – 1952). Nos dois primeiros lugares ficaram o carioca Narciso Braga e o gaúcho Luiz Manuel de Souza Filho (Jornal do Brasil, de 2 de março de 1901, sexta coluna e A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 9 de março de 1901, segunda coluna).

Realização da Exposição Estadual no Campo da Redenção, quando foi exibido o desenvolvimento da indústria e do comércio do Rio Grande do Sul. Luiz do Nascimento Ramos foi membro do júri do concurso de fotografias que integrava o evento. Os outros membros do júri foram Balduíno Rohrig e Luiz Manuel de Souza Filho (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 10 de março de 1901, quinta coluna). Na ocasião, fotografou todos os pavilhões da exposição. Forneceu as fotografias publicadas na  Revista da Semana, 5 de maio de 1901, uma edição especial comemorativa da Exposição Estadual Riograndense.

1902 – Publicação do artigo intitulado “Artigo Infamante – Aos Amadores de Fotografia no Brasil – Aos profissionais e a meus clientes e amigos “, de autoria de A. Laterre  em resposta a uma publicação de 5 de abril d e 1902 na Gazeta do Commercio, em Porto Alegre, que relatava que durante uma reunião do Sploro Photo-Club, da qual Lunara participou, haviam sido feitos protestos contra um artigo publicado pela revista parisiense Photographie Française, de janeiro de 1902, e também protestos contra o fotógrafo sr. A. Leterre, acusado de prejudicar os fotógrafos amadores do Rio Grande nos concursos que promovia. Nele o fotógrafo Joaquim Insley Pacheco, um dos juízes dos concursos, era mencionado (Jornal do Brasil, 20 de abril de 1902).

Publicação da fotografia “Sono Pesado”, de sua autoria, na Revista da Semana de 16 de novembro de 1902.

1903 - Conquistou medalha de ouro na Mostra Grupal de Artes Plásticas, promovida pelo jornal Gazeta do Comércio. Concorreu com diversas fotografias, dentre elas Águas correntes, Dois Filósofos e Nhô João, deixa disso…, que fazem parte do álbum Vistas de Porto Alegre.

Nascimento de sua filha, Zaida (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 28 de julho de 1901, terceira coluna).

1904 – Foi eleito para integrar o conselho fiscal da companhia de seguros marítimos e terrestre Phenix de Porto Alegre (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 11 de março de 1904, terceira coluna).

Foi eleito em 9 de outubro, conselheiro fiscal do Club Caixeiral Porto Alegrense (Almanak Laemert, 1905).

Recebeu 1 voto na eleição municipal para intendente e conselheiro (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 11 de outubro de 1904, terceira coluna).

1904 /1905 – Foram publicados cartões-postais colorizados de Lunara. A maioria pelos Editores Krahe &  Cia.

1905 – Foi eleito diretor da Praça do Comércio de Porto Alegre (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 1 de janeiro de 1905, quinta coluna).

1908 – Foi noticiada a chegada do negociante Luiz Nascimento Ramos ao Rio de Janeiro (O Século, 19 de setembro de 1908, quarta coluna).

Década de 10 – Publicava regularmente seu trabalho na revista Máscara.

1910 – Fotografou uma excursão automobilística (A FederaçãoOrgam do partido Republicano, 14 de novembro de 1910, primeira coluna).

1913 – Lunara foi o testamenteiro do pintor Pedro Weingartner (1853 – 1929).

1922 -Recebeu o prêmio da publicação La Revue de Photographie, de Paris, pela fotografia O Lago (Illustração Brasileira, 24 de junho de 1922).

Publicação da fotografia Sono pesado, de autoria de Lunara (Illustração Brasileira, 15 de agosto de 1922).

1937 – Faleceu em Porto Alegre e, durante décadas, sua obra permaneceu guardada por familiares.

1976 – A jornalista e fotógrafa gaúcha Eneida Serrano (1952 – ) entrou em contato com o filho de Lunara, Áureo, de 76 anos, que mostrou a ela o acervo de seu pai: uma máquina fotográfica, recortes de jornais, 15 chapas de vidro, 13 x 18cm, e dois álbuns com 60 fotografias de sua autoria.

1979 – Eneida Serrano realizou a exposição Lunara – Amador 1900, no Museu de Comunicação Hypólito José da Costa, em Porto Alegre.

2001 – Em homenagem ao fotógrafo, foi inaugurado no centro cultural Usina do Gasômetro, na capital gaúcha, a Galeria Lunara, espaço especializado em fotografias.

Suas fotos foram reunidas no livro Lunara Amador 1900, de Eneida Serrano.

2018 – Exposição, no Museu de Arte do Rio Grande do Sul, de 20 fotografias de autoria de Lunara na 11ª Bienal de Artes Visuais do Mercosul, realizada em Porto Alegre e Pelotas. As imagens fazem parte do álbum Vistas de Porto Alegre – Photographias Artísticas, do acervo fotográfico do Museu da Comunicação Hipólito José da Costa.

 Duas crônicas de Lunara com os pseudônimos Bitu e Sancho

(transcritas do livro Lunara Amador 1900, de Eneida Serrano)

É moda 

Tudo é moda, até dizer-se o que não se sente e sentir-se o que não se diz.

Não sei quem disse isto; mas quem disse tinha razão.

Uma moça conversando com um rapaz bem desempenado, de fácil verbiagem, dizia-lhe com o ar todo afetado:

- Sr. F… pelo o que o sr. acaba de dizer-me, detesta a maneira exagerada de usarem as modas hoje em dia?…

- Na verdade, minha senhora: e mil vezes bem digo a sorte por ter nascido homem, quando vejo passar-me pela frente essas moças, todas cheia de barbatanas, polvilhos, tintas, algodões e de tantas outras composições, que as francesas têm inventado para fazer do feio belo, do gordo magro, do pardo branco…

- Pois pensa inteiramente como eu… são coisas estas, que não só aborreço como também detesto.

- Pois então somos dois a pensar da mesma forma?!…

- Oh! naturalmente…

-Pois creia minha senhora…

Nisto entra o moleque da casa com um embrulho, e depositando-o sobre uma cadeira, diz todo vitorioso: “nhnhãsinha, o seu Juca deu a anquinha por um patacão, e mandou dizer prá nhanhãsinha que recebeu daqueles pós que nhanhãsinha…

- Minha senhora, sente-se incomodada? está vermelha…o que tem…

- Não é nada, costumo… sim… a enxaqueca…

- Queira receber as minhas despedidas e permita-me vir amanhã, saber de sua apreciável saúde…

- Pois não…quero dizer, queira não incomodar-se…

Saiu o homem… atravessou a rua… quis fazer um cumprimento ainda à moça da anquinha e teve a decepção de ver a sua cabeleira descolar-se do seu caco nu e descrever um semicírculo na sua frente…

Oh! malditas anquinhas!…

Impagabilíssimos chinós!…

Publicado no O Athleta de 14 de julho de 1886 e assinado Sancho (um dos pseudônimos de Luiz Nascimento Santos)

No baile do recreio

 Vi-a pela primeira vez, ainda me lembro bem, foi numa quinta-feira. Ela negociava uma caixinha de pós de arroz, com o Gama, na loja do Felizardo. Pisquei-lhe um olho, ela compreendeu.

A negrita que acompanhava a família estava à porta. Dei-lhe um níquel e fiquei logo ciente que Iaiá ia ao baile do Recreio.

Chegara o sábado. O Cosmopolita estava repleto das mais esplêndidas flores do nosso jardim.

Magnífica soirée.

Dançava-se com frenesi.

Fazia as honras da sala o simpático diretor, o roliço Guilherme.

Iaiá lá estava. Cumprimentei-a e tirei-a para uma valsa.

Ressoaram no salão as notas brilhantes de uma composição de Strauss. Cingindo aquela cinturinha breve, quis falar-lhe do meu amor. Pela primeira vez achei-me acanhado e senti que a amava deveras.

Guardaria-me para a quinta quadrilha. Armaria-me de coragem e estabeleceríamos as bases do nosso casamento.

Passeávamos na sala acalentando eu essa ideia, que me viera tirar de uma crítica posição.

Chega-se a nós, choramingas a morder um esquecido, uma encantadora criancinha. Agarra-se ao vestido da Iaiá, e com a mão esquerda a coçar-lhe o canto da vista repete-lhe três vezes:

– Eu quero ir pra casa, eu tô cum sono.

– Que belo irmãozinho

– Não tenho irmãos. Este é o meu filhinho mais velho.

Fiquei enfiado e viria para casa sem chapéu se o marido de Iaiá não me dissesse a chacotear.

– O Sr, vai sem cabeça?!…

Publicado no O Athleta de 24 de outubro de 1886 e assinado Bitu (um dos pseudônimos de Luiz Nascimento Santos)

A fotografia abaixo, Nhô João, deixa disso!,  inspirou o texto homônimo de Elvia Bezerra, coordenadora de Literatura do IMS, que foi publicado na Brasiliana Fotográfica, no Dia dos Namorados, 12 de junho de 2018.

 

Links para artigos já publicados na Brasiliana Fotográfica sobre fotógrafos amadores:

Ipanema, que completa 122 anos, pelas lentes de José Baptista Barreira Vianna (1860 – 1925), publicado em 26 de abril de 2016

O fotógrafo amador Guilherme Santos (1871 – 1966), publicado em 28 de julho de 2016

 

(1)  PEREGRINO, Nadja Fonseca; MAGALHÃES, Ângela. Fotoclubismo no Brasil: o legado da Sociedade Fluminense de Fotografia, pág. 119.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Hemeretoteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário Histórico-Fotográfico Brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

PEREGRINO, Nadja Fonseca; MAGALHÃES, Ângela. Fotoclubismo no Brasil: o legado da Sociedade Fluminense de Fotografia. Rio de Janeiro: Senac Nacional, 2012, 336 p.II.

SANTOS, Alexandre. O gabinete do Dr. Cellegari: considerações sobre um bem-sucedido fabricante de imagens. In: ACHUTTI, Luiz (org). Ensaios sobre o fotográfico. Porto Alegre: Unidade Editorial, 1998.

SERRANO, Eneida. Lunara amador 1900. Porto Alegre: E.S..,2002.

Site Enciclopédia Itaú Cultural

Site GaúchaZH Artes

Site Metropolitan Museum of New York

Site UFRGS Ciência

STUMVOLL, Denise Bujes. Fotografia e aproximações com a arte no início do século xx : um olhar para as narrativas visuais de Lunara. Dissertação de mestrado, 2014. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Instituto de Artes. Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais.

 

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Virgilio Calegari. Retrato de Luis do Nascimento Santos, c. 1900. Porto Alegre, Rio Grande do Sul / Fototeca Sioma Breitman / Museu Joaquim Felizardo

Bares e restaurantes das primeiras décadas do século XX

 

A Brasiliana Fotográfica traz para seus leitores uma seleção de imagens de bares e restaurantes produzidas, em sua maioria, nas primeiras décadas do século XX, no Brasil.  A única exceção é o registro de Samuel Boote (1844-1921), Quiosque para a distribuição grátis do café do Brasil, feito durante a Exposição Continental de 1882, em Buenos Aires. Os autores das outras imagens foram Augusto Malta (1864 – 1957), Chichico Alkmim (1886 – 1978)Guilherme Gaensly (1843 – 1928), e fotógrafos ainda não identificados. Eles fotografaram estabelecimentos do Rio de Janeiro, de Minas Gerais e de São Paulo.

 

 

Acessando o link para as fotografias de bares e restaurantes disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

A Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro por Cássio Loredano

A Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro é uma das obras-primas da arquitetura portuguesa do período do Brasil colonial. Sabendo que a edificação é a preferida do caricaturista Cássio Loredano no Rio de Janeiro, inclusive tendo sido desenhada por ele para o livro “Rio, papel e lápis” (2015), a Brasiliana Fotográfica selecionou duas fotos do prédio, uma de Augusto Stahl (1828 – 1877) e outra de Georges Leuzinger (1813 – 1892), ambas produzidas em torno de 1865, e as mostrou para ele que, inspirado pelas imagens e por sua predileção, escreveu o texto que o portal publica no mês da festa de Nossa Senhora da Glória, que se comemora no dia 15 de agosto.

 

A Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro por Cássio Loredano

Cássio Loredano*

 

Antes de mais nada, uma pergunta em dois tempos. E um registro de protesto provindo de altíssima esfera. A pergunta: que necessidade terão tido os católicos cariocas de erigir, a poucas centenas de metros um do outro, dois templos em louvor da mesma virgem, Nossa Senhora da Glória? Por que a igreja do Largo do Machado se, desde pelo menos 1739, já pairava maravilhosa a outra, no alto do Outeiro, pequenina jóia incrustada no cenário prodigioso da baía?

 

 

Talvez outra irmandade devota da mesma virgem, talvez a necessidade de mais espaço e para fiéis que não desejassem sofrer subidas… E o protesto, de ninguém menos do que de Joaquim Maria Machado de Assis. O ‘bruxo’ simplesmente arrenegava daquele “templo grego imitado da Madeleine, com uma torre no meio imitada de coisa nenhuma” e desviava daquilo os olhos e o pensamento toda vez que passava pelo Largo, escreveu, para evitar o pecado de mandar templo e torre aos diabos. E tinha que fazê-lo pelo menos duas vezes ao dia, no bonde que o trazia do Cosme Velho à repartição e no que o levava de volta a casa. Mas chega. Não percamos mais tempo com a fealdade da Glória da praça, desviemos por nossa vez o pensamento e dirijamos o olhar para o Outeiro.

Acessando o link para as fotografias da Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas. 

Ótimo ponto de vista é a esquina da rua da Glória com Cândido Mendes, pelo vão que a folhagem dos plátanos abre ali. É agosto, é meio-dia e é domingo, suponhamos, dia da feira da Augusto Severo, a mais simpática da cidade. Os sinos se esganiçam e puxam-nos o olhar para o alto. Céu de inverno, nuvem nenhuma, o azul profundo que um jato estraga com uma risca de giz. Como é agosto, a igrejinha está toda engalanada para a festa do dia 15. A dez de seus dezoito coruchéus foram fixados os mastros das bandeiras, duas de cada, do Brasil, de Portugal, a branca e a amarela do Vaticano e as do Rio, estado e cidade. Aí, nesse domingo ideal, vinha uma brisa empurrar de leve os panos coloridos, só para sublinhar a sempre repetida leveza da construção. Banhada de sol, a cal da fachada brilha que ofusca contra aquele fundo de cobalto.
Não foram justos com a Glória os pintores viajantes que a retrataram dezenas de vezes nas vistas que fizeram da baía de Guanabara. Ou porque de muito longe não lhe vissem com clareza os detalhes ou pelo que fosse, nunca acertaram com sua forma, com sua elegância, com sua sobriedade, com sua graça. Menos o grande Thomas Ender, aquarelista que a princesa Leopoldina trouxe consigo e que voltou para Viena com o tesouro do Rio e um pouco do Brasil da segunda década do Oitocentos em seus desenhos e aquarelas. Ender e depois, é claro, a fotografia.

 

Fotografias antigas mostram então como foi se enchendo de ruído a placidez em que a Glória está nos óleos e aquarelas. Entre o sopé do outeiro e o monumento a Cabral e Pero Vaz, foi-se aglomerando um casario desordenado, houve depois um mercado e até uma chaminé. Manuel Bandeira levou a vida se lamentando de tudo o que vinha estorvar aquele silêncio antigo, coroando com a competição desonesta que a mole do Hotel Glória veio fazer à igreja na paisagem. (Agora, temos a mole – e depenada pelo infeliz que soltaram e cuja dívida fica para ser paga no Hades.) Ao menos nos vimos livres daquele certo mafuá que tinha se formado no entorno imediato do outeiro. E veio Lúcio Costa com seu tino certeiro para assuntos de patrimônio e construiu aquelas belas rampas de acesso ao adro da igreja com as pedras retiradas do cais do Flamengo com a construção do Aterro.

 

As rampas e seus patamares, quando o portão verde está aberto, são a subida mais bonita. Pelo lado da rua do Russel, existe para constar um plano inclinado que nunca está funcionando. Então, é subir pela Ladeira da Glória, que arranca do início da rua do Catete. A partir da praça de Nossa Senhora da Glória, lá em cima, a rua muda de nome e desce mais comprida, portanto menos íngreme, como Ladeira de Nossa Senhora, para desaguar no exosqueleto do Hotel Glória. É outra opção de subida.

 

Chegados à praça, damos, no centro do muro de arrimo do adro, com uma imagem sem interesse da virgem dentro de uma vitrine. De cada lado da vitrine estão os portões das escadas que convergem para a entrada do adro. Aberto está sempre só o da esquerda. O adro da Glória do Outeiro, um retângulo com os ângulos chanfrados, não é imenso mas é amplo em relação ao diminuto templo. É um dos espaços arquitetônico-urbanísticos mais generosos e felizes da cidade e a sensação de ali estar é das mais agradáveis possíveis, sensação de plenitude, de comunhão com a maravilhosa vista que dali se tem. (Neste espaço, José de Alencar imaginou a primeira cena de Lucíola, num entardecer de 15 de agosto, a festa da Glória. Em meio ao povaréu que está no adro, duas personagens masculinas põem-se a falar de linda dama desacompanhada que observam e que só um deles conhece. E mais não digo, para não bancar o spoiler.)

 

Eis a igreja, em suas delicadas proporções. A torre única, central, de base quadrada, se eleva a partir de um pórtico em cantaria de pedra com uma abertura frontal e duas laterais, todas em arcos plenos. A partir da altura do coro, a torre sobe em pilastras de pedra e alvenaria caiada até a cimalha e daí sai a sineira de alvenaria entre cunhais de pedra, tudo arrematado por quatro coruchéus e um bulbo de base octogonal com seu galo e sua cruz. Este bulbo foi a principal pedra no sapato daqueles pintores viajantes. Mas não acertaram mesmo. Só o austríaco.

 

A portada principal, a do pórtico, e as duas laterais de acesso à nave da igreja só se abrem em dias de serviço, casamentos, batismos, encomenda de almas. Em dias normais, a entrada é por trás, por uma das portas da sacristia. É preciso contornar a igreja. E mesmo que assim não fosse, a generosidade do adro nos convida, quase que nos obriga a essa volta em torno da construção. O espaço e a própria forma da igreja. Sua planta a partir do quadrado do pórtico/torre são dois octógonos irregulares, oblongos, um maior, o da nave, e outro menor, o da sacristia, interligados por uma cintura entre eles. O da nave é mais alto, contém o térreo e o nível do coro e das galerias que levam às tribunas, enquanto o da sacristia só tem térreo. Esses catorze ângulos externos dão ao corpo da igreja um dinamismo único e de cada um sobe uma pilastra de cantaria até a cimalha e seus catorze coruchéus ou pináculos.

 

Mas entremos pela sacristia. Mosaico xadrez preto e branco no chão; o grande aparador de madeira castanha escura com seus gavetões; os paramentos; a alfaia rebrilhando. A toda a volta, nas paredes, uma barra de azulejos de onze quadrados de altura – na nave, a altura da barra sobe para dezesseis azulejos -, que o BNDES fez restaurar há alguns anos. Mandou vir a equipe que fizera a restauração da azulejaria de São Francisco da Penitência da Bahia. Para os níveis mais baixos dos painéis, o pessoal tinha que trabalhar deitado no chão. “Não foram baianos”, alguém brincou. Quando na verdade a posição era extremamente desconfortável e dolorosa para braços e pescoços.

 

Dois corredores, que saem da sacristia um para cada lado e envolvem por fora a capela-mor lá dentro, conduzem às passagens que dão ingresso à nave. Muito do que aqui se fez até agora foi repetir as lições magistrais da professora Sandra Alvim em seus três volumes da Arquitetura religiosa colonial no Rio de Janeiro (Editora da UFRJ/IPHAN/Prefeitura do Rio/Faperj,1997/1999/2014). Uma vez dentro da igreja, é melhor darmos-lhe diretamente a palavra para que nos guie o olhar e nos ensine a ver a beleza daquela austeridade inaugural, na contramão da tendência do século ao luxo da talha e do ouro, dos forros coloridos, do ornamento em suma.

 

“A Igreja da Glória é uma das poucas do Rio de Janeiro na qual o espaço interno é definido pela construção propriamente dita. Não é a talha que organiza o espaço, e sim as superfícies das paredes estruturais e os elementos arquitetônicos de cantaria. O aspecto de obra acabada do seu interior foi tão forte e excepcional que não necessitou do preenchimento posterior com ornamentação em talha. Esta se restringiu aos altares e elementos complementares como os púlpitos, o coro e as sanefas. Até mesmo os nichos para os retábulos laterais foram definidos por arcos de cantaria, posteriormente encobertos pela talha dos altares. Outra importante característica da Igreja da Glória é a sua abundante iluminação natural, fato inédito entre as igrejas locais. Esse fato define uma mudança radical em relação às igrejas escuras da primeira fase [da arquitetura religiosa no Brasil] e revela também o apuro técnico de sua construção. Isso porque as grandes janelas laterais da nave foram abertas nas altas paredes que sustentam o empuxo exercido pela abóbada, sem comprometer suas funções estáticas.”

 

Tal domínio técnico e a qualidade formal da construção tornaram desnecessário o “uso de talha contínua para esconder as incorreções construtivas e a deficiência compositiva, como ocorria nas igrejas que então se realizavam”. À madeira, ao ouro, às cores, preferiu-se e se decidiu por deixar nuas a pureza de linhas e a perfeição estrutural do projeto atribuído ao tenente-coronel engenheiro José Cardoso Ramalho.
Um pouco de história e uma fofoca. Imagine-se a esquadra que trazia a família real em 1808 entrando na barra, entre a fortaleza de Santa Cruz e o Pão de Açúcar. O outeiro e a pequenina Glória são a primeira coisa da velha cidade que dali se avista, na época ainda diretamente debruçados sobre a baía, sem nenhum dos vários aterros que agora os mantêm tão apartados da água. Só pouco depois aparecem as igrejas do Castelo: São Sebastião e o Colégio dos Jesuitas.
Pedro, filho do regente d. João, que também vem embarcado, tem nove para dez anos. Vai se casar dali a nove anos com Leopoldina, a princesa austríaca que trará consigo aquele nosso Thomas Ender. O novel casal, certamente encantado com a mimosa igrejinha, elegerá a Glória para batizar todas as primeiras crianças brasileiras das casas de Bragança e Habsburgo, esta a linhagem dos ‘Áustrias’.

 

Parêntese, para tentar acabar com essa história de nossas matas, nosso ouro. Quem desenhou a bandeira do Brasil independente, depois de 1822, foi Debret, um daqueles artistas napoleônicos que ficaram desempregados depois de Waterloo e vieram bater às portas de palácios brasileiros, – e para quem arranjaram o eufemismo de “missão” francesa. Inspirado talvez nos estandartes dos regimentos napoleônicos, Debret botou um losango na bandeira, losango amarelo, cor dos Habsburgo, dentro do campo verde da casa de Bragança, sendo ainda o losango em heráldica a forma em que tradicionalmente se inscrevem os brasões das damas. Diz João Guilherme C. Ribeiro, em Bandeiras que contam histórias (ed. Zit, 2003), que “provavelmente a brasileira foi a primeira bandeira nacional a honrar uma mulher”.

 

Mas voltando. Na Glória foi batizado por exemplo o menino Pedro, futuro segundo imperador, mas antes dele a primogênita de Pedro e Leopoldina, Maria da Glória. Esta brasileirinha terá grande importância na história de Portugal. Quando d. João VI morreu em Lisboa em 1826, d. Pedro, que tinha sobre a cabeça a coroa brasileira, abdicou do trono português em favor de Maria da Glória, que tinha só sete anos. Propôs o casamento da garota com seu tio Miguel, irmão mais novo dele, Pedro, e determinou que o consorte fosse o regente da futura esposa até a maioridade desta. Mas Miguel se auto-coroou rei ele mesmo e Pedro ficou fulo do lado de cá do Atlântico. Abdicou de novo, dessa vez do trono brasileiro e partiu para guerrear o irmão. Ganhou – e o nosso Pedro I é o Pedro IV de lá. Oficialmente, foi uma guerra civil portuguesa de três anos entre absolutistas, os miguelistas, e liberais, os partidários de Pedro. Mas Evaldo Cabral de Melo bota pimenta no assunto. Diz que Miguel era só meio-irmão de Pedro. E não era por parte de pai, mas sim só da espanhola. Ora, não sendo filho do rei morto… Vá saber.

 

O fato é que Maria da Glória foi d. Maria II de Portugal. (Maria I foi sua bisavó, a louca, que morreu no Brasil.) D. Pedro IV é o nome oficial do Rossio, praça-umbigo de Lisboa. Está ele no centro da praça, de pé sobre altíssima coluna, olhando para a fachada do Teatro D. Maria II, o ‘municipal’ lá deles.

 

Irmão mais novo da brasileira rainha de Portugal, nosso Pedro II também batizou a filharada toda no Outeiro, inclusive a Redentora. E concedeu à irmandade dona da igreja o direito de usar ‘imperial': Imperial Irmandade de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, oficialmente. O brasão da família imperial está entalhado em madeira com detalhes em dourado no alto do arco-cruzeiro da igreja.

 

*Cássio Loredano é caricaturista.

 

Pequena cronologia da Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro

Cássio Loredano. A Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, 2015. Do livro “Rio, papel e lápis”(2015)

 

1608 – Segundo o site oficial da Imperial Irmandade de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, “alguns anos após a fundação da cidade, quando no ano de 1608, um certo Ayres colocou uma pequena imagem da Virgem numa gruta natural existente no morro”. Assim começava no Rio de Janeiro a devoção à Nossa Senhora da Glória.

1671 - Ainda segundo o site oficial,  as origens históricas remontam a a esse ano quando o “ermitão Antonio Caminha, natural do Aveiro, esculpiu a imagem da Virgem em madeira e ergueu uma pequena ermida no “Morro do Leripe”, onde já existia a gruta, formando-se em torno um círculo de devotos”.

1699 – Em 20 de junho, as terras com o nome de Chácara do Oriente, que compreendiam o outeiro, e que pertenciam a Cláudio Gurgel do Amaral, irmão da Ordem 3ª da Penitência e da Santa Casa de Misericórida, foram doadas à confraria de Nossa Senhora em escritura pública com a condição de que se fosse construída uma capela permanente e que nela fossem sepultados o doador e seus descendentes.

1701 – O padre João Caminha, filho de Antônio, foi designado em documento de 1º de abril capelão do coro da ermida.

1714 –  Segundo o Santuário Mariano, a Irmandade para cultuar Nossa Senhora da Glória possuía, nesse ano, quando foi iniciada a construção da Igreja da Glória, “quantidade de dinheiro para dar princípio a uma nova e grande igreja de pedra e cal, porque a primeira que se fez foi de madeira e barro.”

1739 – Conclusão da contrução da Igreja da Glória. Seu projeto é atribuído ao tenente-coronel José Cardoso Ramalho.

Instituição canônica da Irmandade de Nossa Senhora da Glória, em 10 de outubro, por ato do bispo do Rio de Janeiro, Frei Antonio de Guadalupe.

1808 – Chegada da família real portuguesa ao Rio de Janeiro, em 8 de maio. A predileção da Corte Portuguesa pela Igreja da Glória deu a ela muito prestígio.

1819 – A neta de D. João VI (1767 – 1826), filha de d. Pedro I (1798 – 1934), a princesa Maria da Glória (1819 – 1853), foi consagrada à Virgem da Glória e a partir de então os membros da família Bragança, nascidos no Brasil, são consagrados a ela.

1849 –  D. Pedro II outorgou o título de “Imperial” à Irmandade Nossa Senhora da Glória, em 27 de dezembro. Após esta data todos seus descendentes nascidos no Brasil são membros da mesma.

1937 – A Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro foi, durante o governo de Getúlio Vargas (1882 – 1954), declarada Monumento Nacional.

1938 – O tombamento definitivo da Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro está inscrito no Livro Tombo do Ministério de Educação, de 4 de maio de 1938, assinado por Rodrigo de Franco de Andrade (1898 – 1969), então presidente do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN, atual IPHAN).

1939 - Comemoração dos 200 anos da Irmandade de Nossa Senhora da Glória (Jornal do Brasil, 4 de outubro de 1939, segunda coluna, e Jornal do Brasil, 11 de outubro de 1939, quinta coluna).

1950 – Em 1° de novembro de 1950, o Papa Pio XII (1876 – 1958) proclamou o Dogma da Assunção da Virgem Maria e conferiu à Igreja da Glória o título de Basílica Nacional da Assunção (Correio da Manhã, 2 de novembro de 1950).

1965 - Dentro da programação de celebração do 4º Centenário da Fundação do Rio de Janeiro, foi construída pela administração estadual uma nova rampa de acesso à Igreja da Glória intercalada por terraços, um projeto do arquiteto Lúcio Costa (1902 – 1998), defensor da obra desde a década de 40.

Uma curiosidade: na revista O Cruzeiro de 27 de maio de 1961, foi publicada a matéria Um aquarelista inglês no Rio Imperial, sobre o pintor Emerica Essex Vidal (1791 – 1861), ilustrada com o trabalho Igreja da Glória em 1937.

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Fontes:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Outeiro da Glória: marco na história da cidade do Rio de Janeiro…[et al]: organizado por [Roberto Padilla]: fotografias de [Zeca Pinheiro Guimarães…et al]. – João Pessoa: Artepadilla, 2015.

Portal do IPHAN

Site Infopatrimônio

Site oficial da Imperial Irmandade Imperial de Nossa Senhora da Glória do Outeiro

SUZUKI, Marcelo. As rampas do Outeiro da Glória. Artigo da revista ArqTexto, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

TELLES, Augusto C. da Silva. Nossa Senhora da Glória do Outeiro. Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora, 1969.

Paris, 1889: o álbum do Brasil na exposição universal

Segundo a historiadora e pesquisadora Claudia Beatriz Heynemann, o álbum “Exposição Universal de Paris 1889 – Exposição Brasileira “, conservado pelo Arquivo Nacional, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, “é um acontecimento em si, o da difusão da linguagem fotográfica, instaurando a visualidade de uma época, não apenas pelo que escolhe mostrar, mas lançando sobre esses cenários a aura de modernidadede que se revestiam aquelas sociedades”. Composto de sessenta e uma fotografias, o álbum é dedicado à participação do Brasil no evento, que celebrou o centenário da Revolução Francesa e da República e atraiu 32 milhões de visitantes. As exposições universais disseminavam os avanços da indústria, do comércio e o cosmopolitismo.

 

Paris, 1889: o álbum da exposição universal

Claudia Beatriz Heynemann*

A vista obtida entre os diferentes pilares da Torre Eiffel, em vários ângulos, com a estrutura nem sempre visível, pontua boa parte do álbum da participação brasileira na exposição universal de Paris em 1889. Referência até de tomadas internas do pavilhão nacional segundo as legendas, a Torre era o que havia de moderno na engenharia, na arquitetura do ferro, enfrentando críticas de alguns e a admiração de muitos. Distribuídos sobre uma superfície de 96 hectares envolvendo o Campo de Marte, e as regiões do Trocadero e da Esplanada dos Inválidos – 35 países participaram da festa que reuniu 61.722 expositores, atraindo 32 milhões de visitantes. [1]

 

 

Entre 6 de maio e 31 de outubro, a quarta exposição universal organizada pela França celebrou o centenário da Revolução Francesa e da República, e era também demonstrativa do lugar conquistado pela França e seu império colonial naquele fim de século. A expressão corresponde ao intervalo entre 1870 e 1914: marcado por agitações políticas compreende outras balizas tradicionais, como a conclusão dos processos de unificação alemã e italiana até a 1ª Guerra Mundial. A belle époque, outra delimitação aplicada à virada do século XIX ao XX, ficaria assim conhecida dados os signos de progresso de que se imbui o século XIX, uma perspectiva otimista como adverte Francisco Falcon e que contrasta com a “face sombria e trágica” da época. Uma nova compreensão desses anos leva a que se fixe o princípio da época contemporânea a partir dos 1900, uma fronteira deslocada do marco da Revolução Francesa. De todo modo, lembra o autor, “a passagem de um século a outro é importante por tudo que ela antecipa de ameaçador no século que se inicia, em contraste com certa imagem literária de paz, prazer de viver, domesticação dos conflitos e dos sentidos”.[2]

Poucas décadas antes, o poeta Charles Baudelaire (1821-1867) relacionaria a modernidade com o transitório, a moda, a decoração, a representação do presente, e o espetáculo das multidões que aspiravam a poeira das fábricas. E também com a fotografia que logo assumirá uma escala industrial, linguagem moderna, presente, por excelência. Assim, o moderno será relacionado, no Oitocentos, à mecanização e à indústria, ao progresso da ciência, ao progresso enfim, antes que se impusesse o discurso da modernidade na economia, substituindo-o pelo termo do desenvolvimento. O século XIX se constitui sob esse aspecto por inovações até ali impensáveis, que se dão de modo cada vez mais acelerado, ritmo que se imprime à própria percepção do tempo histórico.

Acessando o link para as fotografias da exposição brasileira na Exposição Unversal de Paris de 1889 disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas. 

As exposições universais ultrapassaram o objetivo primeiro de disseminar os avanços da indústria, do comércio entre as nações, de um padrão de comportamento, e de impor uma pedagogia do progresso às massas para se tornarem “manifestações de todo um pensamento” sendo preciso, assinala Helena Barbuy, que se entenda as exposições universais como algo muito maior do que meras feiras comerciais, a despeito de seu caráter industrial. Eram antes salões de arte que privilegiavam as manifestações intelectuais, mais do que o comércio ou as atividades produtivas, o que se poderia constatar na própria premiação por meio de medalhas e honras, e não por valores em dinheiro. [3] Para Nelson Sanjad, no entanto o que prevalece afinal é um sistema ditado pela classificação dos objetos. Ao avaliar a historiografia das exposições o autor destaca a importância de se reconhecer essa lógica de organização, que se voltará não para uma apreciação intelectual que considerasse a matéria prima e as técnicas utilizadas, mas para a valorização de objetos, da produção, de atividades industriais. Apesar das críticas, o principal esquema aplicado guiava-se pela utilidade dos itens expostos, obedecendo a um princípio pragmático. [4] A adoção desse método conduz a outras escolhas como edificações, circuito obedecido, arquitetura dos pavilhões, no âmbito de “uma cultura das exposições” a que se refere o autor.

 

A exposição brasileira

Composto de sessenta e uma fotografias, [5]o exemplar do álbum “Exposição Universal de Paris 1889 – Exposição Brasileira” conservado pelo Arquivo Nacional [6] é dedicado à participação do país no evento, o que inclui as tomadas externas em que vemos parte da circulação do público, quiosques e a Torre Eiffel, algumas fachadas de outros pavilhões latino-americanos como México e Argentina, os três pavimentos da edificação e as áreas internas formadas pelo jardim, lago, estufa e as galerias de ligação.

 

O público e o staff envolvidos na organização da exposição brasileira aparecem sempre ao ar livre, enquanto as salas reservadas aos produtos permanecem vazias, possibilitando uma melhor apreciação. A série chama a atenção pela própria intenção do registro, como o “estudo do arco”, dedicado à claraboia e à decoração acima do arco, explorando o efeito de luz da iluminação natural no ambiente. Outros exemplos são a “vista longitudinal” e um “estudo de perspectiva” sobre a sala do Conselho.

 

 

Além da tarefa de documentar a montagem da exposição brasileira pelos pavimentos, posaram para o fotógrafo não identificado, grupos de zeladores, jardineiros, empregados no quiosque de degustação de café[7], membros da Comissão Brasileira de Estudos, além dos integrantes do Comitê Franco-Brasileiro que organizou o evento. Formado por jornalistas e escritores, com o apoio do governo imperial, foi responsável pela participação de uma das poucas monarquias presentes ao evento comemorativo de uma república, o império do Brasil. A demora em confirmar a participação do país, iniciada somente em junho, a exemplo de outros governos latino-americanos, fez com que as respectivas representações ocupassem o terreno antes reservado a jardins e restaurantes, aos pés da Torre Eiffel, na “aleia do sol”, conforme Helena Barbuy. [8]

 

 

Reunidos na sala da rua Lafayette, cinco membros do Comitê se debruçam atarefados sobre a mesa enquanto uma criada permanece à porta. Roupas e decoração, armários e vitrines constituem mais um motivo de interesse para os que se dedicarem a essas imagens, signos de uma civilização que então se celebrava e a qual a classe dirigente brasileira pretendia se integrar. Nesse sentido, uma das principais abordagens sobre a participação de nações como o Brasil nas exposições universais refere-se ao descompasso com o centro evidenciado nas vitrines dos exportadores de matérias-primas.

 

 

 

Entendidas de modo geral como espetáculos da ordem burguesa no âmbito de uma cartografia estabelecida pela expansão do capitalismo e do imperialismo, essas exposições contaram em sua maioria com expositores brasileiros e se estruturaram a partir de 1876, em Filadélfia, com pavilhões edificados, quando se adotou esse modelo para as exposições internacionais. Em torno da exibição nos Estados Unidos construiu-se uma interpretação do lugar do Brasil nesse cenário, na qual se admite a predominância de produtos agrícolas, minerais, da flora e da fauna brasileiras, além da exploração de um “exotismo” das populações indígenas, o que, no entanto, não é paradoxal. Isso porque o Império e suas vitrines eram parte de uma mesma lógica: “não se tratava, portanto, de um antagonismo entre invenções/tecnologia versus recursos naturais, mas pensá-los dentro de um mesmo plano de análise ligado a diferentes projetos de modernidade que cabiam a cada uma das nações no capitalismo internacional naquele momento”.[9]

Ainda sob esse aspecto, jornalistas e outros observadores teriam percorrido o pavilhão brasileiro com a atenção voltada para os produtos primários que lideravam a pauta de exportações do Império. Tendo entre os membros da Comissão, o célebre paisagista Auguste Glaziou (1833 – 1906), responsável, entre muitas obras, pela reforma do Passeio Público e do Campo de Santana no Rio de Janeiro, o Pavilhão brasileiro incluía um jardim com plantas exóticas, o lago da Vitoria Régia e uma estufa, o que teria dado a alguns críticos franceses contemporâneos a impressão do Brasil como “uma grande plantação”. [10]

 

 

Esse veredito contrariava em muito a provável expectativados expositores, pois considerando a valorização de jardins e florestas pelo Império, pode-se enxergar nessa composição o discurso científico contraposto à ideia de barbárie e destruição da natureza, além do consagrado papel distintivo que as riquezas naturais tiveram entre os letrados brasileiros do século XIX.

Das inúmeras narrativas que o álbum oferece impõe-se aquela que organiza a trama da derrocada do Império e da Proclamação da República, ocorrida quinze dias após o final da exposição. É então que se olha para as tomadas do primeiro e segundo andar do pavilhão de onde se vê a bandeira imperial. Na parede da sala do Conselho o retrato do Imperador encimando a entrada soa já como anacrônico naquele momento, diante do desfecho político iminente. Tampouco se pode esquecer a abolição do trabalho escravo, ocorrida menos de um ano antes e que tem como um de seus indícios na exposição brasileira, o incentivo à imigração europeia, alardeada não apenas como um substituto da mão de obra, mas como um meio para o “branqueamento” da população. Não deixa de ser interessante do ponto de vista da historiografia sobre a inserção brasileira em suas potenciais contradições que nesse caso já se vivesse um momento pós-abolição. Não era mais a “monarquia escravista”, mesmo que permaneça válido o quadro embaraçoso de uma população miserável, desprovida de educação, assolada por epidemias que desestabilizava o outro quadro, o da sociedade moderna, das aquisições tecnológicas, da alta cultura, como escreve Nelson Sanjad.

 

 

Outro sintoma desse desajuste estaria na exposição de artefatos indígenas, como os instrumentos de pesca e cestaria, além de outros itens extraídos da cultura material desses grupos, lembrando que um pavilhão amazônico foi construído e figura em algumas fotografias. Ainda para Sanjad, “havia constrangimento, tanto no sentido de condensação, redução quanto no de embaraço provocado por situação moralmente desconfortável, em apresentar a diversidade social e cultural desses países em um contexto imperialista, colonialista, racista e eurocêntrico, o que levava à idealização das populações locais em chave positiva ou negativa, mas sempre representadas de maneira a-histórica, homogeneizadas, desterritorializadas, às vezes propositalmente invisibilizadas”. [11]

 

 

O álbum é um acontecimento em si, o da difusão da linguagem fotográfica, instaurando a visualidade de uma época, não apenas pelo que escolhe mostrar, mas lançando sobre esses cenários a aura de modernidadede que se revestiam aquelas sociedades. As belas imagens do Pavilhão das máquinas, [12] dos armários e bancadas repletos de panos de algodão, mate, café, perfumes e quadros documentam a Exposição de Paris também por sua definição como imagem técnica: imbuídas de um pressuposto de confiabilidade, registro do real, objetos de exibição nas exposições universais, experimentadas como suvenir, arquivo, memória.

 

 

[1]L’ExpositionUniverselle de Paris 1889 | Un Jour de plus à Paris. Disponível em <http://www.unjourdeplusaparis.com/paris-reportage/exposition-universelle-1889> Acesso em 8 de maio de 2018

[2]Cf. FALCON, Francisco José Calazans. De um século a outro: uma nova época ou um novo mundo? Acervo, [S.l.], v. 22, n. 1 jan-Jun, p. 7-18, nov. 2011. ISSN 22378723. Disponível em: <http://revista.arquivonacional.gov.br/index.php/revistaacervo/article/view/97>. Acesso em: 03 Jul. 2018.

[3]BARBUY, Heloisa. O Brasil vai a Paris em 1889: um lugar na Exposição Universal. Anais do Museu Paulista. São Paulo. N. Sér. v.4 p.211-61 jan./dez. 1996. Disponível em <http://www.revistas.usp.br/anaismp/article/viewFile/5342/6872> Acesso em 20 de junho de 2018

[4]SANJAD, Nelson. Exposições internacionais: uma abordagem historiográfica a partir da América Latina. Hist. cienc. saude-Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 24, n. 3, p. 785-826, set. 2017. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702017000300785&lng=pt&nrm=iso> Acessos em 03 jul. 2018, p. 790.

[5]A edição em francês permitia atingir autoridades e empresários na França e demais nações

[6]Agradecemos a Mauro Domingues que tratou e formatou esse álbum, além de muitos outros registros da coleção Arquivo Nacional inseridos na Brasiliana Fotográfica, permitindo assim a sua difusão.

[7] A degustação de café já fora promovida na Exposição Continental de Buenos Aires. Conferir “A festa do progresso: o Brasil na Exposição Continental, Buenos Aires, 1882”, de Maria do Carmo Rainho. Disponível em http://brasilianafotografica.bn.br/?p=11486

[8] Cf. BARBUY, H. Op. cit.

[9] MACHADO, Marina Monteiro; MARTINS, Monica de Souza Nunes. A modernidade nas teias da floresta: o Brasil na exposição Universal da Filadélfia de 1876. Geosul, Florianópolis, v. 32, n. 65, p. 68-86, nov. 2017. ISSN 2177-5230. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/geosul/article/view/2177-5230.2017v32n65p68>. Acesso em: 04 jul. 2018. Para essas autoras deve-se igualmente atentar para a transformação que se opera ao longo do tempo nas exposições, sua dimensão do ponto de vista da cultura de massas e a entrada em cena de artigos consumidos pelas classes trabalhadoras, indicando uma popularização desses eventos.

[10] Cf. BARBUY, H. Op. cit.

[11]SANJAD, N. Op. cit

[12] O Brasil foi representado nesse espaço, em que ficavam agrupados equipamentos e eram efetuadas as demonstrações, pelas máquinas de Alfredo Michel, dentre elas “um novo systema de alambique para a destillação no vácuo”. Cf. DANTAS, Regina Maria M. Costa. A participação do Museu Nacional na Exposição Universal Internacional de 1889. Tese (Doutorado em História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia) – Programa de Pós-graduação em História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia/Universidade Federal do Rio de Janeiroem Paris. Disponível em http://www.museunacional.ufrj.br/semear/docs/Teses_dissertacoes_tcc/Tese_DANTASREGINA.pdf Acesso em 5 de julho de 2018.

*Claudia Beatriz Heynemann é Doutora em História e Pesquisadora do Arquivo Nacional

 

 

 

O quiosque Chopp Berrante no Passeio Público, Ferrez, Malta e Charles Dunlop

Antigamente no passeio público a esquerda de quem entrava pelo portão da rua do Passeio, existia um bar ao ar livre, dos apelidados pelo público de “Chopp Berrante”. Nesse bar havia um teatrinho, onde aos domingos acorria a garotada e todas as noites se exibiam cançonetistas acompanhados ao piano. A consumação obrigatória pagava o espetáculo. O bar era arrendado pela prefeitura ao senhor Arnaldo Gomes de Souza’.

Assim Charles Julius Dunlop (1908–1987), escritor e entusiasta do Rio Antigo, começava seu texto intitulado O Chopp Berrante do Passeio Público, publicado na Revista G.E., em 1956. Dunlop trabalhou entre 1927 e 1976 no departamento jurídico da Light, empresa onde conheceu, em meados da década de 30, o fotógrafo Augusto Malta (1864 – 1957), que trabalhava na Prefeitura do Rio de Janeiro, e havia sido designado para cobrir a inauguração de uma usina de força da empresa. Esse encontro foi decisivo no interesse de Dunlop por fotografias e histórias cariocas. Entre 1952 e 1955, ele publicou a coluna “Rio Antigo”, no jornal Correio da Manhã, muitas vezes ilustrada por fotos de Malta (Correio de Manhã, 30 de maio de 1952).

 

 

Acessando o link para as fotografias de autoria de Augusto Malta disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Um pouco da história do quiosque Chopp Berrante e da parceria entre Arnaldo Gomes e Marc Ferrez – os primórdios do cinema no Brasil

Localizava-se no Passeio Público, concorrido ponto de encontro da população carioca nos séculos XVIII e XIX e primeiro parque ajardinado do Brasil. Já no século XX, entre 1902 e 1906, na gestão do prefeito Francisco Pereira Passos (1836 – 1913), o Passeio Público recebeu diversos melhoramentos e foi inaugurado o primeiro aquário de água salgada da América do Sul, em 18 de setembro de 1904 (Gazeta de Notícias, 19 de setembro de 1904, na última coluna sob o título “O Aquarium”). Possivelmente, o Chopp Berrante no Passeio Público foi inaugurado em 1900, quando esse tipo de estabelecimento era um dos locais do universo de entretenimento da belle époque. Acredita-se que Catulo da Paixão Cearense (1866 – 1946) tenha sido um dos muitos músicos que se apresentaram no Chopp Berrante no Passeio Público.

 

 

O dono do Chopp Berrante no Passeio Público, Arnaldo Gomes de Souza, é o senhor de calça branca retratado na imagem acima. O fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923) vendia aí seus filmes para que Arnaldo os exibisse em lençóis estendidos entre as árvores, no jardim do parque. No final de 1905, a Casa Marc Ferrez & Filhos passou a ser a fornecedora exclusiva do cinematógrafo ao ar livre Passeio Público, que existiu entre em 28 de outubro de 1905 e 2 de novembro de 1906. Apesar de ter um repertório pouco variado, o cinematógrafo do Passeio Público aumentou a concorrência do quiosque que, segundo Dunlop, passou a ser ponto obrigatório dos primeiros fãs de cinema da cidade.

Em sociedade com Arnaldo, Ferrez arrendou os prédios de número 145 e 149 da Avenida Central e inaugurou, em 18 de setembro de 1907, o Cinema Pathé, o terceiro da cidade (Gazeta de Notícias, 18 de setembro de 1907, nas sexta e sétima colunas). O primeiro, Chic, foi inaugurado em 1º de agosto de 1907; o segundo, Parisiense, foi aberto em 9 de agosto do mesmo ano.

A firma de Arnaldo e Ferrez chamava-se Arnaldo & Cia, omitindo a participação de Ferrez porque Charles Pathé (1863 – 1957), um dos proprietários da Pathé Frères, proibia que seus distribuidores e representantes possuíssem cinematógrafos. Em 1908, a sociedade de Ferrez com Arnaldo Gomes de Souza foi denunciada pelo concorrente de Ferrez, Jácomo Rosário Staffa, proprietário do cinema Parisiense. Ainda nesse ano, Ferrez e Arnaldo Gomes de Souza produziram o filme, Nhô Anastácio chegou de viagem, dirigido por Julio Ferrez. É considerada a primeira comédia cinematográfica brasileira e foi estrelada por Antônio Cataldi, José Gonçalves Leonardo e Ismênia Matteo. Em 1911, a sociedade de Marc Ferrez com Arnaldo Gomes de Souza foi desfeita.

 

 

Acessando o link para as fotografias de autoria de Mar Ferrez disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

A revista O Cruzeiro publicou ao longo de 1951 uma série de matérias intituladas Fotografias do Rio Antigo sobre a obra de Marc Ferrez na segunda metade do século XIX. As compilações e a legendas das imagens assim como os textos das matérias foram feitos pelo neto do fotógrafo, Gilberto Ferrez (1908 – 2000), o primeiro historiador da fotografia no Brasil. Muitas imagens reproduzidas nessas matérias estão no acervo da Brasiliana Fotográfica.

Seguem os links para as matérias:

O Cruzeiro, 9 de junho de 1951 

O Cruzeiro, 16 de junho de 1951 

O Cruzeiro, 30 de junho de 1951 

O Cruzeiro, 14 de julho de 1951 

O Cruzeiro, 28 de julho de 1951 

O Cruzeiro, 11 de agosto de 1951 

O Cruzeiro, 25 de agosto de 1951

O Cruzeiro, 22 de setembro de 1951 

O Cruzeiro, 13 de outubro de 1951

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

DUNLOP, Charles. Apontamentos históricos – O Chopp Berrante do Passeio Público in Revista G.E., outubro, novembro e dezembro de 1956

FERLIM, Uliana dias Campos. A polifonia das modinhas: diversidades e tensões musicais no Rio de Janeiro na passagem do século XIX ao XX, 2006. Campinas: Unicamp

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

SAMPAIO, Lilian Alves. Vaidade e ressentimento dos músicos populares e o universo musical do Rio de Janeiro no início do século XX, 2011. São Paulo: USP

Site da Editora Rio Antigo

A criação de uma vacina para a peste da manqueira, um marco na história da veterinária brasileira e mundial

Cristiane d’Avila, jornalista do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz, uma das parceiras da Brasiliana Fotográfica, conta a história da criação da vacina para a peste da manqueira. Foi por iniciativa de Oswaldo Cruz que as pesquisas sobre o assunto começaram a ser feitas no Brasil, no início do século XX, quando ele acumulava a função de diretor do Serviço de Profilaxia da Febre Amarela da Diretoria Geral de Saúde Pública e também do Instituto Soroterápico Federal, que viria a ser denominado Instituto Oswaldo Cruz, em 1908, e, posteriormente, Fundação Oswaldo Cruz. Ele convocou seus colegas Ezequiel Dias e Henrique Rocha Lima para investigarem a moléstia, mas, após 1905, o cientista Alcides Godoy tornou-se o responsável pelo projeto. A partir de 1908, o Instituto Oswaldo Cruz passou a produzir e fabricar em escala comercial a primeira vacina veterinária brasileira de combate a doenças infectocontagiosas. Um marco na história da veterinária brasileira e mundial.

Cristiane d’Avila *

“Peste da manqueira”, “mal do ano”, “mal do quarto inchado”, “blackleg” (nos países de língua inglesa). Os nomes populares atribuídos a doenças dizem muito sobre os danos à saúde humana e animal ou mesmo sobre os prejuízos financeiros que podem provocar. Em tais situações, somam-se esforços para que se encontrem respostas, antídotos e tratamentos que debelem as causas e minimizem os efeitos provocados por elas. No caso do carbúnculo sintomático, não foi diferente.

Era início do século XX. Pecuaristas mineiros, atônitos com a moléstia que acometia os bezerros e bovinos jovens, causando imensa mortandade e prejuízos galopantes, buscavam soluções para a situação. A doença, letal, iniciava-se com febre e inchaço da musculatura, especialmente das regiões chamadas “quartos” dos bovinos, atrofiando-as e provocando o andar manco. Não à toa, recebeu denominações que a classificaram popularmente como “peste” e “mal”.

Durante muito tempo confundido com o antraz, o carbúnculo sintomático não abatia apenas os rebanhos brasileiros. Tratava-se de uma doença de impacto mundial, porém mais ativa em países tropicais, que apresentava como vetor o microrganismo anaeróbico Clostridium chauvei. O germe havia sido cultivado e analisado pela primeira vez, em 1887, pelo bacteriologista francês Émile Roux, do Instituto Pasteur de Paris. Antes disso, foi estudado por Arloing, Cornevin e Thomas, que de 1887 a 1894 investigaram exaustivamente a etiologia, a epizootiologia, a manifestação clínica ea  patologia da doença. Em 1887, o trio publicou o livro Le Charbon symptomatique d uboeuf, porém não obteve sucesso na produção de um imunizante para o mal.

Em 1903, Oswaldo Cruz, já interessado em pesquisas sobre o carbúnculo sintomático, convidou o então estudante de medicina Alcides Godoy (1880 – 1950) para ingressar, como auxiliar acadêmico, no Serviço de Profilaxia da Febre Amarela da Diretoria Geral de Saúde Pública, a fim de trabalhar na produção de soros e vacinas. Nesse período, Cruz acumulava a função de diretor deste serviço e também do Instituto Soroterápico Federal (que viria a ser denominado Instituto Oswaldo Cruz, em 1908, e, posteriormente, Fundação Oswaldo Cruz).

 

 

Atento às pesquisas em curso no exterior, Oswaldo Cruz já havia adquirido e consultado a obra de Arloing, Cornevin e Thomas. Incansável na busca por respostas, colocou os colegas do Instituto Ezequiel Dias e Rocha Lima para investigarem a moléstia, mas após 1905 Godoy tornou-se o responsável pelo projeto. Enquanto isso, Henrique da Rocha Lima, pesquisador e “braço direito” de Oswaldo Cruz, usando técnica aprendida durante uma estadia na Alemanha, obteve colônias anaeróbicas do germe, cedendo-as a Godoy para investigação científica.

 

Voltado totalmente à pesquisa, Godoy (na foto ao lado) foi original: empregou um meio de cultura especial para bactérias anaeróbicas, com uso de glicose, a fim de obter uma “raça” diferenciada de bactérias de virulência atenuada, criando uma vacina com o clostridiumchauvoei vivo. Logo que foram confirmadas, em laboratório, as propriedades vacinantes de suas culturas, Godoy viajou, em 1906, para Juiz de Fora, Minas Gerais, em companhia dos pesquisadores do Instituto Rocha Lima e de Carlos Chagas, para executar os testes finais. A primeira demonstração pública da vacina, entretanto, não obteve o resultado esperado e alguns animais faleceram.

De volta a Manguinhos, Godoy descobriu a causa do insucesso: uma maior virulência do lote da vacina preparada para o teste. Corrigida a falha, novas inoculações foram feitas, desta feita com absoluto sucesso. A descoberta fez o então Instituto Oswaldo Cruz produzir e fabricar em escala comercial, a partir de 1908, a primeira vacina veterinária brasileira de combate a doenças infectocontagiosas. Um marco na história da veterinária brasileira e mundial.

 

 

Acima, a foto emblemática do fotógrafo J. Pinto (1884 – 1951) registra o trabalho de embalagem dos frascos e acondicionamento das vacinas em caixas, no IOC. Para o fotógrafo Roberto Jesus Oscar, do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz, onde a foto original de J. Pinto está depositada, essa imagem, gerada a partir de negativo de vidro, esbanja composição, enquadramento e equilíbrio de contrastes, enchendo a imagem de luz, volume e textura. Aos olhos de hoje a imagem pode causar estranheza, mas trata-se de uma ótima representação da história de Manguinhos, um ícone do acervo da Instituição.

É importante ressaltar que após a obtenção do registro da patente da vacina, Godoy efetuou uma escritura de cessão que transferia sua descoberta para o IOC, com o propósito de incentivar as atividades de exploração industrial do imunizante. A verba obtida com a venda da vacina auxiliou a instituição a cobrir gastos com o ensino, a pesquisa e a produção, sem submeter-se à burocracia governamental vigente, ao mesmo tempo em que representou um estímulo aos pesquisadores para o desenvolvimento de produtos biológicos a serem patenteados e vendidos (CHAMAS, 2006). Até 1917, ano da morte de Oswaldo Cruz, Godoy recebeu 5% da renda obtida com a venda das vacinas. A partir dessa data, esse percentual passou para 8% do total das vendas da vacina.

De acordo com um quadro elaborado por Oscar Meira, e apresentando por Benchimol, no período de 1906 a 1918 o Instituto produziu 7.111.698 doses da vacina contra a peste da manqueira. No mesmo período, a vacina foi o produto biológico mais produzido, perdendo apenas, em 1918, para a maleína, uma substância empregada no teste (prova de maleína) para diagnóstico do mormo, uma doença infectocontagiosa que acomete cavalos. (MORAES, 2008)

 

 

A princípio, a distribuição da vacina ficava a cargo do Ministério da Agricultura e de alguns órgãos públicos da esfera estadual e municipal. Cioso da importância da tarefa e obcecado com a eficiência deste processo, em 1913, Oswaldo Cruz (de chapéu branco, ao centro) cria a Seção de Propaganda da Vacina contra a Peste da Manqueira, assumindo totalmente a distribuição. Godoy está de pé, na ponta direita da foto.

A pesquisadora Alice Ferry de Moraes destaca o depoimento de Delfim Moreira, deputado estadual por Minas Gerais de 1894 a 1902, Secretário do Interior de Minas Gerais de 1914 a 1918 e, mais tarde, presidente do Brasil no período de 1918 a 1919, sobre o impacto da vacina (MORAES, 2008):

Se nós somos um país exportador de carne devêmo-lo (sic) a Manguinhos. Desse infalível produto, tirou Oswaldo Cruz, na época da pobreza daquele grande Instituto, o necessário para sua biblioteca, para as pesquisas, para o contrato de funcionários técnicos, enfim, todos os meios de progredir e realizar. (MAGALHÃES apud MORAES, 2008)

As vacinas foram produzidas pelo IOC até 1939. Em razão da promulgação de uma lei que proibia os cientistas lotados em instituições públicas de receberem dinheiro por suas patentes, Godoy fundou a Produtos Veterinários Manguinhos Ltda., juntamente com o pesquisador Astrogildo Machado, com quem criou outra vacina também importante – a vacina contra o Carbúnculo Hemático ou Verdadeiro, conhecido como Antraz, patenteada sob o n.º 9.981, em 1918 (CHAMAS, 2006).

 

Abaixo o texto de Oswaldo Godoy, filho de Alcides Godoy, publicado na Agência Fiocruz de Notícias em 15 de agosto de 2008, ano do centenário da primeira patente registrada pelo IOC:

 

‘A vacina contra a manqueira começou a ser distribuída e vendida já em 1906. Ela imunizava o gado com uma só aplicação. Na exposição de demografia e higiene realizada de Berlim, em junho de 1907, na qual o Instituto obteve a medalha de ouro, a vacina da manqueira foi um dos destaques selecionados, dentre os produtos fabricados para representar as atividades do IOC.

A premiação em Berlim foi determinante para que o Ministério da Justiça e Negócios Interiores aprovasse um novo regulamento, proposto por Oswaldo Cruz, visando expandir de modo expressivo as atribuições do Instituto, que passaria a gozar de considerável autonomia administrativa e financeira, sendo esta última garantida, principalmente, pela renda advinda da venda da vacina na manqueira. Tais recursos, que permitiam ao Instituto não depender apenas do orçamento governamental, foram fundamentais para contratar novos pesquisadores e, assim, ampliar o quadro de pessoal da instituição.

O próprio Oswaldo Cruz, em função da repercussão e da originalidade do processo desenvolvido por Godoy, aconselhou-o a patentear em seu nome a invenção. A carta patente nº 5.566 foi obtida em 24 de novembro de 1908. A publicação no Diário Oficial se deu em 6 de dezembro daquele ano. Ainda em 1908, cedeu, por escritura pública, ao Instituto Oswaldo Cruz, representado por seu diretor Oswaldo Cruz, os direitos de exploração comercial do seu privilégio de invenção (a vacina contra a manqueira).

No mesmo ano de 1908, Godoy publicou, com a colaboração de Gomes de Faria (que havia sido recentemente contratado pelo IOC), um trabalho analisando as variáveis no meio de cultura que poderiam ter causado a maior virulência da vacina responsável pelos problemas em Juiz de Fora, confirmando-se que a concentração da glicose havia sido a responsável pela redução da virulência da vacina (aspecto que havia sido identificado e solucionado por Godoy naquela ocasião, em 1906).

Além de dedicar-se ao tema da manqueira, como sua atividade principal, Godoy desenvolvia outras atividades – como era de praxe entre todos os pesquisadores de Manguinhos –, como a produção dos soros antidiftérico e antitetânico, e na dosagem do soro antipestoso. Com Astrogildo Machado, desenvolveu, em 1918, outra importante vacina produzida e comercializada pelo IOC, contra o carbúnculo hemático.

Outra frente importante de trabalho de Godoy em Manguinhos foi a criação de diversos dispositivos e aparelhos para facilitar e aperfeiçoar os procedimentos de produção, como o “frasco Dr. Godoy”, desenvolvido por ele para facilitar a coleta de mosquitos pelos “mata-mosquitos” que atuavam nas campanhas sanitárias.

Numa época em que as atividades de produção, ensino e pesquisa eram realizadas de modo bastante conjugado pelos pesquisadores, Godoy foi também professor do curso de aplicação do Instituto, criado em 1908 para oferecer treinamento experimental nas áreas de microbiologia e zoologia médica.

Godoy fez três viagens de estudo à Europa. Em 1912, foi enviado aos Laboratórios de Leipzig, na Alemanha, a fim de acompanhar pesquisas concernentes a questões de físico-química aplicada à ciência médica. Em 1919, permaneceu quatro meses na Europa; foi designado para esta viagem a partir da solicitação, feita a Manguinhos pela representação diplomática inglesa, para que algum médico embarcasse num navio inglês aportado no Rio cujo médico de bordo havia adoecido. Esta foi, conforme relatou certa ocasião, a única vez que exerceu a clínica médica. Finalmente, em 1925, esteve na Itália acompanhando Carlos Chagas no 1º Congresso de Malariologia, realizado em Roma, e para estudar os modernos processos de profilaxia da malária empregados naquele país.

Integrante do chamado “jardim da infância da ciência”, como Oswaldo Cruz carinhosamente chamava o grupo inicial de pesquisadores de Manguinhos, Godoy sempre gozou da confiança e apreço tanto de Cruz quanto de seu sucessor, Carlos Chagas, substituindo-os, várias vezes, em suas ausências, na direção do instituto.

Em 1923, Carlos Chagas solicitou ao Ministério da Justiça a renovação da patente da vacina da manqueira por mais 15 anos. Foi o segundo produto que obteve no Brasil a renovação da Patente, fato só obtido anteriormente pela Fornicída Matarazzo. Em 1937, como conseqüência da reforma implementada por Gustavo Capanema no Ministério da Educação e Saúde (criado em 1930, no âmbito da Revolução de 1930), foi vedada ao IOC a fabricação e comercialização desse e outros produtos veterinários.

Em 26 de junho de 1938, Godoy e Machado pediram o registro da marca genérica para produtos veterinários Manguinhos. Suas famílias fundaram em 25 de janeiro de 1939, uma firma que se chamou Produtos Veterinários Manguinhos Ltda, para fabricar e comercializar a vacina da manqueira, do carbúnculo hemático, e posteriomente a vacina contra a pneumoenterite dos porcos. O primeiro lugar em que estabeleceram o laboratório foi em prédio nos fundos do Hospital Gaffrée Guinle, na Rua Silva Ramos 20. Tiveram por muitos anos escritório na Rua Uruguaiana 33. Na década de 40 construíram um laboratório na Rua Licinio Cardoso 91 (hoje Rua Francisco Manuel), em Benfica.

Godoy casou-se com Dulce Leite de Castro em 5 setembro de 1923 e tiveram dois filhos: Oswaldo Tarcisio, que veio a se formar em Química Industrial e Engenharia Química e Margarida Maria, que estudou música, tocava piano e estudou na Europa. Faleceu em 30 de janeiro de 1950, aos 70 anos. Na década de 60 a família Godoy saiu da sociedade, que ficou com a família de Machado. A firma, que continua a fabricar a vacina da manqueira, foi vendida recentemente pelos seus descendentes e pertence hoje à empresa Bravet’.

 

* Cristiane d’Avila é jornalista do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz

 

Fontes:

BENCHIMOL, Jaime L. Manguinhos do sonho à vida: a ciência na belle époque. Rio de Janeiro: Casa de Oswaldo Cruz; Fiocruz, 1990.

CHAMAS, Claudia Inês. A Propriedade Intelectual e a Vacina contra a Peste da ManqueiraRevista Brasileira de Inovação, [S.l.], v. 5, n. 1 jan/jun, p. 203-218, junho 2006. ISSN 2178-2822.

GODOY, Alcides. Primeira vacina veterinária desenvolvida e fabricada no Brasil completa 100 anos. Agência Fiocruz de Notícias.

MAGALHÃES, Octávio de. Alcides Godoy. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, t. 49, mar. 1951. p. 1-6.

MORAES, Alice Ferry de. A inovação e a vacina da peste da manqueira. Inf. &Soc.:Est., João Pessoa, v.18, n.3, p. 97-103, set./dez. 2008. ISSN 1809-4783