Debate pelos cinco anos da Brasiliana Fotográfica – link de acesso e para fotografias mostradas durante o encontro

 

O debate que a Brasiliana Fotográfica promoveu para celebrar o seu aniversário de cinco anos, dentro do contexo da atual pandemia do coronavírus, foi muito bem sucecido, tendo sido assistido por centenas de pessoas numa live transmitida no dia 17 de abril de 2020, às 17h30m. Pode ser acessado no link https://www.facebook.com/institutomoreirasalles/videos/547559385897022/ . Os debatedores foram o historiador Jaime Benchimol, a pneumologista Margareth Dalcolmo e o urbanista e arquiteto Guilherme Wisnik.

O portal mais uma vez agradece a seus leitores pela audiência e entusiasmo! Também destacamos nessa publicação todas as fotografias mostradas durante o encontro, além de outras que se relacionam com os temas abordados.

 

 

Grupos de imagens: 

 

1 - Avenida Central

2 – Gripe Espanhola, links do arquivo do dr. Moncorvo Filho, do arquivo da Fiocruz

Doutor Maurity Santos examinando paciente com pneumonia durate a epidemia de gripe espanhola de 1918

Dr. Maurity e enfermeiras atendendo enfermo no Morro do Salgueiro

Doutores Moncorvo Filho e Orlando de Goes atendendo pacientes no surto de gripe espanhola de 1918

Moncorvo Filho consultando criança durante a epidemia de gripe espanhola de 1918

Moncorvo Filho consultando um bebê

Moncorvo Filho e auxiliares no Posto de Assistência à Infância durante o surto de gripe espanhola

Prédio que serviu para socorrer vítimas da gripe espanhola em 1918

Socorro a um homem enfermo no Morro da Mangueira

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

As doenças do Rio de Janeiro no início do século XX e a Revolta da Vacina em 1904

No início do século XX, no Rio de Janeiro, providências em torno do combate de diversas doenças já provocavam grandes polêmicas. A campanha de combate à varíola resultou, em novembro de 1904, em uma revolta popular e militar, a Revolta da Vacina ou Quebra-Lampiões – um protesto contra a lei que tornava obrigatória a vacinação em massa contra a doença, instituída pelo prefeito Pereira Passos e colocada em prática pelo então Diretor Geral de Saúde Pública, Oswaldo Cruz, contratado para o cargo para combater a varíola, assim como a peste bubônica e a febre amarela, que grassavam na cidade. Vamos contar um pouco dessa história.

 

 

Em 30 de dezembro de 1902, por decreto, Francisco Pereira Passos (1836 – 1913) foi nomeado prefeito do então Distrito Federal, o Rio de Janeiro, pelo presidente Rodrigues Alves (1848 – 1919), que prometia marcar seu governo pela modernização e pelo saneamento. Assumiu no mesmo dia (Gazeta de Notícias, 31 de dezembro de 1902, na sexta coluna), sucedendo Carlos Leite Ribeiro (1858 – 1945). Ocupou o cargo até 16 de novembro de 1906, quando foi sucedido por Francisco Marcelino de Sousa Aguiar (1855 – 1935) (O Paiz, 17 de novembro de 1906, na sexta coluna). Durante seu mandato, o prefeito Pereira Passos realizou uma significativa reforma urbana na cidade.

Para saneá-la e modernizá-la realizou diversas demolições, conhecidas popularmente como a política do “bota-abaixo”, que contribuiu fortemente para o surgimento do Rio de Janeiro da Belle Époque, sendo a abertura da Avenida Central dos seus maiores símbolos, festejada em uma crônica de Olavo Bilac (1865 – 1918) (Kosmos, março de 1904) . Essas transformações foram definidas por Alberto Figueiredo Pimentel (1869-1914), autor da seção “Binóculo”, da Gazeta de Notícias, com a máxima “O Rio civiliza-se”, que se tornou o slogan da reforma urbana carioca. Foi também Pereira Passos que contratou, em 1903, o primeiro fotógrafo oficial da prefeitura, Augusto Malta (1864 – 1957), justamente para documentar todas essas inúmeras e radicais mudanças na cidade.

 

 

Mas as reformas urbanas não eram o bastante para mudar o perfil do Rio de Janeiro, na época uma cidade bastante insalubre, assolada por doenças e sem saneamento básico, certamente obstáculos para o estabelecimento de uma sociedade moderna e cosmopolita nos moldes das capitais europeias. O Rio de Janeiro era inclusive conhecido internacionalmente como “túmulo dos estrangeiros”, possivelmente devido a versos sobre o verão carioca atribuídos ao escritor suíço Ludwig Ferdinand Schmid (1823-1888), que havia sido cônsul no Rio de Janeiro na década de 1860:

Oh! sombra, sobre a imagem encantada / Cores escuras pousam sobre os campos e florestas / O mal da natureza paira, poderoso / Sobre a florida superfície tropical /O poder supremo/ Deste Império não é de nenhum Herodes / No entanto é a terra da morte diária / Túmulo insaciável do estrangeiro”.

Pereira Passos aliou a reforma urbanística e arquitetônica da cidade – que incluiria a construção de um novo porto, de novas avenidas, o aterramento de praias, o desmonte de morros, a derrubada de casas e cortiços e o embelezamento de praças e jardins, que não deixou de ter seu lado excludente e criticado, deslocando parte da população do centro para o subúrbio e também contribuindo para o surgimento das favelas – a uma nova política higienista. Para implementar medidas sanitárias arrojadas foi nomeado pelo presidente Rodrigues Alves para a direção geral de Saúde Pública o jovem médico Oswaldo Cruz (1872 – 1917), que tomou posse em 23 de março de 1903. Ficou no cargo até 1909.

 

Oswaldo Cruz havia estudado microbiologia, soroterapia e imunologia no Instituto Pasteur, e medicina legal no Instituto de Toxicologia, na França, entre 1897 e 1898. Quando voltou ao Brasil, tomou posse, em 24 de agosto de 1899, na Academia Nacional de Medicina, e, em 1900, assumiu a direção técnica do Instituto Soroterápico Federal, o qual passou a dirigir em 1902.

 

 

Os principais problemas que Oswaldo Cruz teve que enfrentar como Diretor Geral de Saúde Pública foram a febre amarela, a peste bubônica e a varíola. Um de seus colaboradores foi o sanitarista Belisário Penna (1868 – 1939).

 

 

A febre amarela

 

 

Em 1902, a febre amarela havia sido responsável pela morte de cerca de mil pessoas no Rio de Janeiro. Oswaldo Cruz era adepto da teoria do médico cubano Carlos Finlay (1833 – 1915) sobre a transmissão da febre amarela pelos mosquitos Stegomyia fasciata. Para exterminá-los, em abril de 1903, iniciou a campanha de combate à doença. Em 15 de abril, foi criado o Serviço de Profilaxia Específica da Febre Amarela (O Paiz, 18 de abril de 1903, sexta coluna; 22 de abril de 1903, quarta coluna; 25 de abril, quinta coluna; e 29 de abril, quarta coluna).

 

 

 

A execução dessa profilaxia foi regulamentada pelas “Instruções para o Serviço de Profilaxia Específica de Febre-Amarela” nos primeiros dias de maio de 1903, do ministro da Justiça e Negócios Interiores, J.J. Seabra (1855 – 1942) (O Paiz, 7 de maio de 1903, penúltima coluna).

 

 

Foram criadas as brigadas sanitárias, que “eram constituídas por 1 inspetor do serviço, responsável por toda a execução das atividades e nomeado por decreto; 10 médicos que o auxiliam, destacados dentre os inspetores sanitários pelo diretor geral de saúde pública, mediante indicação do inspetor do serviço; 70 auxiliares acadêmicos e 9 chefes de turma, nomeados pelo diretor geral de saúde pública; 1 administrador do serviço, 1 almoxarife e 1 escrituario-arquivista, nomeados por portaria do Ministro; 200 capatazes, 18 guardas de saúde de primeira classe e 18 de segunda classe, 18 carpinteiros e pedreiros, bombeiros, cocheiros, nomeados pelo inspetor do serviço; e quantos mais trabalhadores fossem necessários” (BRASIL, 1905).

 

 

Guardas “mata-mosquitos” visitavam casas nas diversas regiões da cidade, muitas vezes acompanhados por soldados da polícia. A cidade foi dividida em distritos sanitários, sob jurisdição das delegacias de Saúde, que recebiam notificações dos enfermos, aplicavam multas e intimavam os donos de imóveis considerados insalubres a reformá-los ou até mesmo a demoli-los. Providenciava-se a remoção de pessoas infectadas para hospitais, o isolamento domiciliar dos enfermos assim como a desinfecção dos ambientes. Ao mesmo tempo, Oswaldo Cruz fazia circular na imprensa os folhetos Conselhos ao Povo, de divulgação das medidas adotadas.

 

 

A doença foi perdendo a força e, em 1907, Oswaldo Cruz escreveu ao presidente Afonso Pena (1847 – 1909): “graças à firmeza e vontade do governo, a febre amarela já não mais devasta sob a forma epidêmica a capital da República”. Nesse mesmo ano, a delegação brasileira de cientistas de Maguinhos, liderada por Oswaldo Cruz, recebeu a medalha de ouro no XIV Congresso Internacional de Higiene e Demografia de Berlim.

 

 

Acessando o link para as fotografias relativas à febre amarela disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Aline Lopes de Lacerda, historiadora e chefe do Departamento de Arquivo e Documentação da COC/Fiocruz,  escreveu o artigo Febre amarela: imagens da produção da vacina no início do século XX, publicado na Brasiliana Fotográfica, em 25 de março de 2018. Cristiane d’Avila, jornalista do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz, escreveu Vacinação no Brasil, uma história centenária, publicado em 17 de agosto de 2018. Ricardo Augusto dos Santos, pesquisador titular da Fundação Oswaldo Cruz, escreveu o artigo O sanitarista Belisário Penna (1868-1939), um dos protagonistas da história da saúde pública no Brasil, também publicado no portal, em 28 de setembro de 2018. A Fiocruz é uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica.

 

A peste bubônica

 

 

A peste bubônica, doença transmitida pela picada de pulgas infectadas por ratos contaminados pela bactéria Yersinia pestis, o bacilo descoberto pelo suíço Alexandre Yersin (1863 – 1943) e pelo japonês Shibasaburo Sato (1852 – 1931), em 1894, chegou ao Brasil, pelo porto de Santos, em 1900. Foi combatida por Oswaldo Cruz e as medidas contra a peste bubônica não encontraram resistência da população. Foi intensificada a limpeza urbana e a notificação dos doentes era compulsória, o que ajudava no isolamento e no tratamento dos mesmos com o soro fabricado no Instituto Soroterápico Federal. Foi também promovida a vacinação de pessoas residentes nas áreas mais atingidas e uma abrangente campanha de desratização foi realizada: os funcionários destacados para a função tinham que recolher 150 ratos por mês, pelos quais recebiam 60 mil-réis.

A Diretoria Geral de Saúde Pública (DGSP) passou a comprar ratos: para cada animal morto apresentado, pagava-se a quantia de duzentos réis, o que ocasionou o surgimento da profissão de “ratoeiro” – compravam ratos a baixo preço ou até mesmo os criavam em casa e os revendiam para a DGSP. A “guerra aos ratos” virou motivo de piada, de críticas (Revista da Semana, 21 de agosto de 1904Kosmos, outubro 1904) e até uma música sobre o tema, a polca Rato, rato, composta por Casemiro da Rocha (1880 – 1912), integrante da banda do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro, com letra de Claudino Costa, foi um grande sucesso no carnaval de 1904. Foi gravada na Casa Edison.

 

 

O fato é que as mortes por peste bubônica que, em 1903, atingiram o índice de 48,74 mortes para cada 100 mil habitantes, caíram vertiginosamente e quando Oswaldo Cruz deixou a Diretoria Geral de Saúde Pública, em 1909, esse índice chegou ao seu mais baixo patamar: 1,73.

 

A varíola e a Guerra da Vacina

 

 

Até meados de 1904, as internações causadas pela varíola já chegavam a 1800 no Hospital São Sebastião. Oswaldo Cruz pretendeu controlar a doença com a vacinação em massa da população. Pediu que fosse enviado ao Congresso Nacional um projeto de lei para resgatar a obrigatoriedade da vacinação e revacinação antivariólica. A vacinação já estava contemplada em uma lei em vigor desde 1837, mas que nunca havia sido cumprida.

 

 

 

A medida enfrentou a oposição liderada pelo senador paraense Lauro Sodré (1858 – 1944), líder do Partido Republicano Federal, e pelos deputados pernambucano Barbosa Lima (1862 – 1931) e gaúcho Alfredo Varela (1864 – 1943), todos contra o governo do presidente Rodrigues Alves, do Partido Conservador. O Apostolado Positivista do Brasil, liderado por Raimundo Teixeira Mendes (1855 – 1927), também se opôs à lei.

 

 

 

 

Jornais e políticos lançaram uma campanha contra a medida, incitando a desobediência à lei, que eles classificavam como despótica e ameaçadora, já que estranhos tocariam nas pessoas no caso da vacinação, além de entrarem nas casas para desinfecção. Além disso, a vacina, que consistia no líquido de pústulas de vacas doentes, era rejeitada pelas camadas populares – havia um boato de que os vacinados adquiriam feições bovinas…

 

 

 

Finalmente, foi promulgada, em 31 de outubro de 1904, uma lei que tornou a vacinação e a revacinação contra a varíola obrigatória.

 

Lei n° 1.261, de 31 de outubro de 1904

 

Torna obrigatorias, em toda a Republica, a vaccinação e a revaccinação contra a variola.

O Presidente da Republica dos Estados Unidos do Brazil:
Faço saber que o Congresso Nacional decretou e eu sancciono a lei seguinte:

     Art. 1º A vaccinação e revaccinação contra a variola são obrigatorias em toda a Republica.

     Art. 2º Fica o Governo autorizado a regulamental-a sob as seguintes bases:

     a) A vaccinação será praticada até o sexto mez de idade, excepto nos casos provados de molestia, em que poderá ser feita mais tarde;

     b) A revaccinação terá logar sete annos após a vaccinação e será repetida por septennios;

     c) As pessoas que tiverem mais de seis mezes de idade serão vaccinadas, excepto si provarem de modo cabal terem soffrido esta operação com proveito dentro dos ultimos seis annos;

     d) Todos os officiaes e soldados das classes armadas da Republica deverão ser vaccinados e revaccinados, ficando os commandantes responsaveis pelo cumprimento desta;

     e) O Governo lançara mão, afim de que sejam fielmente cumpridas as disposições desta lei, da medida estabelecida na primeira parte da lettra f do § 3º do art. 1º do decreto n. 1151, de 5 de janeiro de 1904;

     f) Todos os serviços que se relacionem com a presente lei serão postos em pratica no Districto Federal e fiscalizados pelo Ministerio da Justiça e Negocios Interiores, por intermedio da Directoria Geral de Saude Publica.

     Art. 3º Revogam-se as disposições em contrario.

Rio de Janeiro, 31 de outubro de 1904, 16º da Republica.

FRANCISCO DE PAULA RODRIGUES ALVES.
J. J. Seabra.

 

 

 

 

Em um encontro presidido pelo senador Lauro Sodré, no Centro das Classes Operárias, em 5 de novembro de 1904, foi fundada a Liga Contra a Vacina Obrigatória (O Paiz, 6 de novembro de 1904, penúltima coluna). O descontentamento popular se agravou quando, no dia 9 de novembro de 1904, o governo divulgou seu plano de regulamentação da aplicação da vacina obrigatória contra a varíola (Gazeta de Notícias, 10 de novembro de 1904, quinta coluna). Nos dias 10 e 11, no Largo de São Francisco, estudantes contrários à lei se reuniram e, no dia 13 de novembro, acirrou-se a rebelião popular, que ficou conhecida como , da Vacina, marcada por diversos distúrbios urbanos em várias regiões da cidade, embates com a polícia e prisões. Mais de 20 bondes da Companhia Carris Urbanos e muitos lampiões da iluminação pública foram destruídos, daí o apelido Quebra Lampiões atribuído ao movimento (Gazeta de Notícias, 14 de novembro de 1904; e Jornal do Brasil, 14 de novembro de 1904).

 

 

 

Paralelamente à revolta popular, aconteceu um movimento militar orquestrado pelos generais Silvestre Travassos (? – 1904) e Olímpio da Silveira (1887 – 1935), Lauro Sodré, Barbosa Lima, o major Gomes de Castro e o capitão Augusto Mendes de Moraes, que se reuniram no dia 14 de novembro de 1904, no Clube Militar. Tinham por objetivo derrubar o governo de Rodrigues Alves, que foi aconselhado a ir para um navio de guerra, onde teria mais segurança – ele recusou.

Houve no mesmo dia uma tentativa fracassada de levante na Escola de Tática do Realengo, sufocada pelo então diretor da instituição, general Hermes da Fonseca (1855 – 1923), futuro presidente do Brasil. O comandante da Escola Militar de Realengo, o general Alípio Costallat (c. 1853 – 1933), foi deposto pelo general Travassos que liderou, durante a noite, a marcha dos alunos em direção ao Palácio do Catete. Os revoltosos trocaram tiros com uma brigada de ataque enviada pelo govenro, na rua da Passagem, em Botafogo. O tiroteio, de cerca de meia hora, matou um aluno da Escola Militar, Silvestre Cavalcanti, e um sargento da tropa legalista, chamado Camargo. O general Travassos ficou gravemente ferido e faleceu oito dias depois. A Escola Militar, bombardeada durante a noite por navios de guerra posicionados na baía de Guanabara, foi ocupada pelo ministro da Guerra, o marechal Francisco de Paula Argollo (1847 – 1930) e pelo ministro da Indústria, Viação e Obras Públicas, Lauro Müller (1863 – 1926). Seus alunos foram presos, expulsos da Escola e levados para portos na região Sul do país. Obviamente, o desfile comemorativo dos 15 anos da Proclamação da República foi cancelado (Gazeta de Notícias, 15 de novembro de 1904Jornal do Brasil, 15 de novembro de 1904; Gazeta de Notícias, 16 de novembro de 1904; Jornal do Brasil, 16 de novembro de 1904).

No dia 16 de novembro, foi decretado o estado de sítio e revogada a obrigatoriedade da vacinação. Com isso, o movimento popular arrefeceu, os serviços voltaram a funcionar e a cidade se apazigou. Saldo do movimento: 945 prisões, 461 deportações, 110 feridos e 30 mortos (Gazeta de Notícias, 17 de novembro de 1904 e 18 de novembro de 1904).

 

 

Segundo o historiador Jaime Larry Benchimol: Todos saíram perdendo. Os revoltosos foram castigados pelo governo e pela varíola. A vacinação vinha crescendo e despencou, depois da tentativa de torná-la obrigatória. A ação do governo foi desastrada e desastrosa, porque interrompeu um movimento ascendente de adesão à vacina”.

Apenas nove pessoas morreram por varíola em 1906 no Rio de Janeiro. Porém, dois anos depois, em 1908, uma violenta epidemia da doença ocorreu na cidade, causando mais de 6.500 casos.

 

 

Link para músicas sobre Oswaldo Cruz e também sobre as campanhas de combate à febre amarela, à peste bubônica e à vacinação obrigatória contra a varíola, publicadas na Biblioteca Virtual Oswaldo Cruz

 

Retrospectiva das pandemias do século XX e XXI

 

O mundo, ao longo dos séculos XX e XXI, enfrentou cinco pandemias: a Gripe Espanhola, em 1918, tema de uma recente publicação da Brasiliana Fotográfica, E o ex e futuro presidente do Brasil morreu de gripe…a Gripe Espanhola de 1918; a Gripe Asiática, em 1957; a Gripe de Hong Kong, em 1968, a identificação de um novo vírus da influenza do tipo A pandêmico que desencadeou a Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional, decretada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2009; e cerca de 11 anos depois, em 11 de abril de 2020, a OMS declarou uma pandemia do novo coronavírus, chamado de Sars-Cov-2, causador da Covid-19, surgido na cidade de Wuhan, na China, em fins de 2019.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

 

BENCHIMOL, Jaime Larry. Pereira Passos: um Haussmann Tropical. A renovação urbana na cidade do Rio de Janeiro no início do século XX. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, Departamento Geral de Documentação e Informação Cultural, 1992.

BENCHIMOL, Jaime Larry. Reforma urbana e Revolta da Vacina na cidade do Rio de Janeiro. In: Jorge Ferreira e Lucilia de Almeida Neves Delgado (org.) O Brasil Republicano. O tempo do liberalismo excludente. Da proclamação da República à Revolução de 1930. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

BIBEL, David J.; CHEN, T.H. Diagnosis of Plague: an Analysis of the Yersin-Kitasato Controversy. American Society for Microbiology, 1976.

Biblioteca Virtual Oswaldo Cruz

BRASIL. Ministério da Justiça. Relatório 1904 – 1905. Imprensa Nacional, Rio de Janeiro, 1905.

CARVALHO, José Murilo de: Os Bestializados – O Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo : Companhia das Letras, 1987.

COSTA, Zouraide; ELKHOURY, Ana; FLANNERY, Brendan; ROMANO, Alessandro. Evolução histórica da vigilância epidemiológica e do controle da febre amarela no Brasil, 2011.

CURY, Bruno da Silva Mussa. Combatendo ratos, mosquitos e pessoas: Oswaldo Cruz e a saúde pública na reforma da capital do Brasil (1902-1904). / Bruno da Silva Mussa Curry. – 2012. 160 f. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Programa de Pós-graduação em História, Rio de Janeiro, 2012.

Dicionário Cravo Alvim

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Ministério da Saúde

Nosso Século. São Paulo : Abril Cultural, 1980.

Portal Fiocruz – A trajetória do médico dedicado à ciência

Portal Fiocruz  – A Revolta da Vacina

Projeto Memória – Fundação Banco do Brasil

ROCHA, Oswaldo; CARVALHO, Lia de Aquino. A era das demolições Habitações Populares. Rio de Janeiro : Biblioteca Carioca, 1986

SEVCENKO, Nicolau. A Revolta da Vacina: mentes insanas em corpos rebeldes. São Paulo: Cosac Naify, 2010.

Site CPDOC

Site Multirio

E o ex e futuro presidente do Brasil morreu de gripe…a Gripe Espanhola de 1918

 

 

E o ex e futuro presidente do Brasil, Francisco de Paula Rodrigues Alves (1848 – 1919), faleceu de Gripe Espanhola! Logo ele que em seu mandato como o quinto presidente da República do Brasil, exercido entre 1902 e 1906 (Gazeta de Notícias, 16 de novembro de 1902, sexta colunaGazeta de Notícias, 16 de novembro de 1906, segunda coluna), designou o médico e sanitarista Oswaldo Cruz (1872 – 1917) para a chefia do Departamento Nacional de Saúde Pública, justamente para melhorar as condições sanitárias do Rio de Janeiro deflagrando a reforma sanitária da capital, combatendo primordialmente a febre amarela, a peste bubônica e a varíola.

Além de Oswaldo Cruz, os engenheiros Francisco Pereira Passos (1836 – 1913), nomeado por Alves prefeito do Rio de Janeiro, em dezembro de 1902 (Gazeta de Notícias, 31 de dezembro de 1902, na sexta coluna), e Paulo de Frontin  (1860 – 1933) foram fundamentais durante o governo de Rodrigues Alves: Passos foi o prefeito do “bota-abaixo” e Frontin, presidente do Clube de Engenharia, o engenheiro-chefe da construção da Avenida Central.

 

Acessando o link para as fotografias de Rodrigues Alves disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Rodrigues Alves foi eleito presidente do Brasil, pela segunda vez, em 1º de março de 1918. Acometido pela doença, não pode tomar posse no dia 15 de novembro de 1918, tendo seu vice, Delfim Moreira (1868 – 1920), assumido o cargo em seu lugar. Rodrigues Alves faleceu meses depois, em janeiro de 1919, confinado em sua casa na rua Senador Vergueiro, no Flamengo, bairro do Rio de Janeiro (Gazeta de Notícias, 16 de janeiro de 1919Gazeta de Notícias, 17 de janeiro de 1919O Malho , 25 de janeiro de 1919). Foi enterrado em Guaratinguetá, cidade paulista onde nasceu (O Paiz, 18 de janeiro de 1919).

 

“Depois da morte do Barão do Rio Branco, nenhuma outra poderia, sob o ponto de vista nacional, representar prejuízo maior para o Brasil do que a do conselheiro Rodrigues Alves”.

 

 

Ele foi a mais notória vítima brasileira da Gripe Espanhola, que matou cerca de 300 mil pessoas no país. Novas eleições foram convocadas para 13 de abril de 1919 e o paraibano Epitácio Pessoa (1865 – 1942) foi eleito.

 

 

Mas depois da tragédia veio a esbórnia! O que seguiu no Rio de Janeiro, em março, foi um carnaval animadíssimo, como uma vingança contra a terrível doença que havia atingido intensamente a cidade. Foi publicado no Correio da Manhã de 20 de janeiro de 1919:

 

 

 

No 12º capítulo das “Memórias de Nelson Rodrigues” foi publicado, em 10 de março de 1967, no Correio da Manhã: 

“Estou aqui reunindo as minhas lembranças. Aquele Carnaval foi, também, e sobretudo, uma vingança dos mortos mal vestidos, mal chorados e, por fim, mal enterrados. Ora, um defunto que não teve o seu bom terno, a sua boa camisa, a sua boa gravata é mais cruel e mais ressentido do que um Nero ultrajado. E o Zé de S. Januário está me dizendo que enterrou sujeitos em ceroulas, e outros nus como santos. A morte vingou-se, repito, no Carnaval… E tudo explodiu no sábado de Carnaval. Vejam bem: até sexta-feira, isto aqui era o Rio de Machado de Assis; e, na manhã seguinte, virou o Rio de Benjamim Costallat […] Desde as primeiras horas de sábado, houve uma obscenidade súbita, nunca vista, e que contaminou toda a cidade. Eram os mortos da espanhola e tão humilhados e tão ofendidos que cavalgavam os telhados, os muros, as famílias… Nada mais arcaico do que o pudor da véspera. Mocinhas, rapazes, senhoras, velhos cantavam uma modinha tremenda. Eis alguns versos: ‘Na minha casa não se racha lenha,/ Na minha racha, na minha racha./ Na minha casa não há falta d’água,/ Na minha abunda, na minha abunda’”.

 

 

Anos depois, Carlos Heitor Cony (1926 – 2018) escreveu, na Folha de São Paulo de 19 de fevereiro de 1996, um artigo sobre a Gripe Espanhola e o carnaval de 1919:

“No Rio, o sujeito ia atravessar a rua, botava o pé no meio-fio com plena saúde e chegava morto ao meio-fio do outro lado. Era fulminante a gripe, os parentes deixavam os mortos nos bondes, pagavam a passagem deles, como se passageiros fossem. Não havia tempo nem lugar para o enterro. Natural que, depois da fase mortuária, viesse a fase libertária, ou libertina, basta dizer que as delegacias da cidade registraram a queixa de 4.315 defloramentos e outros tantos casos de abandono do lar, adultério e até incesto.”

 

 

Um pouco sobre a Gripe Espanhola, a primeira e mais letal pandemia do século XX 

 

 

A Gripe Espanhola aconteceu, entre 1918 e 1920, em três ondas . Aparentemente, a primeira ocorreu entre março e abril de 1918 ainda durante a Primeira Guerra Mundial. Sua origem é até hoje uma dúvida: teria surgido na Ásia ou em campos militares no interior dos Estados Unidos? O nome Gripe Espanhola é atribuído ao fato de que a Espanha, neutra durante a Primeira Guerra Mundial, ter reconhecido a gripe como problema e ter permitido a divulgação de informações epidemiológicas sobre a doença.

O fato é que a gripe rapidamente se espalhou pela Europa Ocidental e, em julho, já havia chegado à Polônia. Durante o verão do mesmo ano, durante o mês de agosto, em sua segunda onda, uma forma mais letal da doença surgiu – causava pneumonia e, usualmente, dois dias depois do primeiro sintoma, o paciente falecia. A terceira onda ocorreu no inverno de 1919. A pandemia acometeu cerca de 50 % da população mundial e a Organização Mundial de Saúde estima que tenha causando entre 20 e 40 milhões de mortes.

Inicialmente, a repercussão no Brasil da disseminação da doença na Europa foi de despreocupação por parte das autoridades de saúde do país. Imaginaram que a distância entre os continentes, com um oceano os separando, não permitiria a chegada da epidemia em nosso país. Uma nota sem destaque no jornal O Paiz, de 1º de agosto de 1918, referia-se a doença como intensa porém sem gravidade. Em outra nota, também publicada em O País, cinco dias depois, noticiava-se, de novo sem nenhum destaque, a relação entre a gripe infecciosa e o preço do limões.

 

 

Supõe-se que a Gripe Espanhola tenha chegado no Brasil em 9 de setembro de 1918, no navio inglês SS Demerara, que partiu de Liverpool, na Inglaterra e fez escalas em Lisboa, no Recife, em Salvador e no Rio de Janeiro (Jornal do Recife, 10 de setembro de 1918, primeira colunaGazeta de Notícias, 16 de setembro de 1918).

 

 

“A seu bordo, durante a travessia, grassou com caráter epidêmico a tal “hespanhola” ou “dançarina”, influenza há pouco aparecida na Espanha e que tem grassado em uutras cidades da Europa”

Nesse mesmo mês foi noticiado que marinheiros brasileiros que prestavam serviço militar em Dakar, no Senegal, e oficiais da missão médica militar que havia partido no navio Plata tinham contraido a Gripe Espanhola (Jornal do Brasil, 22 de setembro de 1918, A Noite, 23 de setebmro de 1918Jornal do Brasil, 24 de setembro de 1918Revista da Semana, 28 de setembro de 1918Gazeta de Notícias, 5 de outubro de 1918, segunda coluna; e Folha de São Paulo, 1º de abril de 2012).

 

 

Entre os meses de setembro e novembro de 1918, a epidemia assolou o Brasil.  Em outubro, foram diagnosticados casos em Niterói e as primeiras mortes no Estado do Rio foram reportadas em 14 de outubro, quando o número de pacientes chegava já a 20 mil.

 

 

 

O quinino, a canja de galinha, preparados a base de limão, cachaça e outros eram usados contra a doença. A Bayer oferecia a aspirina Fenacetina (O Paiz, 30 de outubro de 1918, quarta coluna) e um laboratório produziu o remédio homeopático Grippina, fórmula do médico Alberto Seabra (A Noite, 10 de outubro de 1918). Balas peitoraes também e gargarejos com Diogexen eram oferecidos como cura para a doença (Careta, 26 de outubro de 1918; e Fon-Fon, 2 de novembro de 1918).

 

 

A essa altura o pânico já tomava conta do Rio de Janeiro, na época capital do Brasil. São Paulo começava também a registrar seus primeiros casos (Correio Paulistano, 17 de outubro de 1918). Outras cidades do Brasil foram atingidas mas nenhuma como o Rio.

 

 

 

O então Diretor Geral de Saúde Pública, Carlos Seidl (1867 – 1929), renunciou.

 

 

Foi substituído por Theóphilo Torres (1863 – 1928) (Gazeta de Notícia, 19 de outubro de 1918, penúltima coluna), que convidou o pesquisador Carlos Chagas (1879 – 1934), que havia assumido a direção do Instituto Oswaldo Cruz em 1917, para atuar no controle da epidemia. Chagas liderou a campanha de combate à doença, implementando cinco hospitais emergenciais e 27 postos de atendimento à população em diferentes pontos do Rio de Janeiro (Gazeta de Notícias, 22 de outubro de 1918). Chagas e sua família adoeceram, mas todos sobreviveram.

 

 

Mas mesmo no auge da tragédia, o humor esteve presente na imprensa carioca.

 

 

Houve um aumento no preço dos alimentos, alguns escassearam e muitos estabelecimentos, dentre eles fábricas, teatros, escolas, restaurantes e bares fecharam suas portas. Atividades básicas foram praticamente suspensas e saques começaram a ocorrer pela cidade. A polícia passou então a garantir que em cada bairro houvesse uma farmácia e uma padaria aberta.

 

 

Em 19 de outubro foi decretado um feriado de três dias e o governo tomou providências como a abertura de novos postos de assistência e de pavilhões com leitos para receber doentes, a divisão da cidade em zonas com médicos autorizados a ordenar tudo quanto o doente precisar. Também determinou a publicação de “conselhos ao povo” e um apelo foi feito para que médicos, farmacêuticos e estudantes colaborassem com a Saúde Pública (Jornal do Brasil, 20 de outubro de 1918 e O Paiz, 20 de outubro de 1918).

 

 

Da cartilha Previna-se contra a gripe, distribuída pelas campanhas do Serviço Nacional de Educação Sanitária:

 

“Perdigotos – Que perigo!
Se estás resfriado amigo,
Não chegues perto de mim.
Sou fraco, digo o que penso.
Quando tossir use o lenço
E, também se der atchim.
Corrimãos, trincos, dinheiro
São de germes um viveiro
E o da gripe mais freqüente.
Não pegá-los, impossível.
Mas há remédio infalível,
Lave as mãos constantemente.
Se da gripe quer livrar-se
Arranje um jeito e disfarce,
Evite o aperto de mão.
Mas se vexado consente,
Lave as mãos freqüentemente.
Com bastante água e sabão.
Da gripe já está curado?
Bem, mas não queira, apressado,
Voltar à vida normal.
Consolide bem a cura,
Senão você, criatura,
Recai e propaga o mal”.

 

“O número de casos declinou drasticamente no final de outubro, retornando a cidade pouco a pouco às suas rotinas diárias, ficando no ar por muitos meses a pergunta se haveria uma volta da epidemia, o que afinal não ocorreu.” (1)

 

 

Estima-se que cerca de 65% da população brasileira tenha sido infectada pela Gripe Espanhola e por volta de 35.240 pessoas tenham morrido em São Paulo e no Rio de Janeiro e 300 mil em todo o Brasil. Esses números variam e diversas fontes os consideram abaixo das estatísticas reais.

 

 

Famílias inteiras foram dizimadas, principalmente as que viviam em condições mais vulneráveis. Os corpos acabavam sendo deixados na rua, onde permaneciam alguns dias até serem recolhidos, ampliando o cenário de devastação. Houve falta de serviço de transporte, alta dos preços e escassez de alimentos. Por volta de 19 de outubro, a doença já havia atingido metade da população do Rio, estimada em 700 mil pessoas, deixando a cidade vazia e silenciosa … este cenário crítico perdurou até o final do mês, quando houve um declínio drástico no número de casos e a cidade começou a retornar às suas rotinas diárias. Estima-se a epidemia tenha causado a morte de cerca de 15 mil pessoas no Rio.(2)

Além de Rodrigues Alves, outros brasileiros famosos foram vítimas da gripe, dentre eles a educadora Anália Franco (1853 – 1919) e, provavelmente, o poeta de literatura de cordel Leandro Gomes de Barros (1865 – 1918). Personalidades internacionais como os pintores austríacos Egon Schiele (1890 – 1918) e Gustav Klimt (1862 – 1918), os escritores franceses Edmond Rostand (1868 – 1918) e Guillaume Appolinaire (1880 – 1918), as crianças portuguesas Francisco (1908 – 1919) e Jacinta (1910 – 1920) do famoso Milagre de Fátima, os irmãos John (1864 – 1920) e Horace Dodge (1868 – 1920), empresários da indústria automobilística; o pianista Henry Hagas (1891 – 1919), da Original  Dixieland Jazz Band, o sociólogo alemão Max Weber (1864 – 1920) e Sophie (1893- 1920),  filha de Sigmund Freud, também foram vitimados pela doença.

Outros que foram infectados mas sobreviveram à gripe foram o pintor Edvard Munch (1863 – 1944), o então futuro presidente dos Estados Unidos, Franklin Delano Roosevelt (1882 – 1945);  o escritor Franz Kafka (1883 – 1924), a pintora Georgia O’Keeffe (1887 – 1986),  a escritora Katherine Anne Porter (1890 – 1980), as estrelas do cinema mudo Mary Pickford (1892 – 1979) e Lillian Gish (1893 – 1993); o cineasta Walt Disney (1901 – 1966), e além do então presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson (1856 – 1924).

Link para fotografias de aspectos da Gripe Espanhola no site Getty Images

A escritora inglesa Virginia Woolf (1882 – 1941), testemunha do impacto da Gripe Espanhola, registrou em seu diário em outubro de 1918: “Estamos … no meio de uma praga só comparável à Peste Negra“. Em seu ensaio “Doença: uma mina inexplorada“, de 1926, escreveu:

Se considerarmos o quão comum é a doença, quão terrível é a mudança espiritual que ela acarreta, quão medonhos, quando as luzes da saúde se apagam, são os países virgens que se descerram, as ruínas e desertos d’alma que um leve ataque da influenza traz à tona, os precipícios e relvas regadas de resplandecentes flores que um pequeno aumento de temperatura revela, os carvalhos antigos e obdurados que se nos desenraizam no ato da doença, como adentro o abismo da morte descemos e sentimos as águas da aniquilação bem acima de nossas cabeças e despertamos jurando nos encontrar na presença de anjos e querubins quando temos um dente extraído e, voltando à superfície da cadeira do dentista, confundimos o seu “Abra a boca – abra a boca” com as boas-vindas da Divindade a se inclinar do chão do Céu para nos acolher – quando pensamos nisto e numa infinidade mais, como tão frequentemente somos forçados a pensá-lo, parece deveras estranho que a doença não tenha, junto com o amor, a batalha, a inveja, tomado seu posto entre os temas primordiais da literatura. Romances, pensar-se-ia, teriam sido dedicados à Influenza; poemas épicos à Tifóide; odes à Pneumonia, Apendicites e Câncer; cânticos à Dor de Dente. Mas não: com algumas poucas exceções – de Quincey arriscou algo do tipo em Confissões de um comedor de ópio; deve haver um volume ou dois sobre doença espalhados pelas páginas de Proust – a literatura se esforça ao máximo para sustentar que sua preocupação é com o espírito; que o corpo é uma camada de vidro límpido através da qual a alma enxerga clara e distintamente e que, salvo uma ou duas paixões tais como o desejo e a cobiça, ele é nulo, insignificante e inexistente“.

Aqui no Brasil, o futuro escritor e médico Pedro Nava (1903 – 1984), então com 15 anos, testemunha da Gripe Espanhola no Rio de Janeiro escreveu muitas décadas depois:

“Era apavorante a rapidez com que ela ia da invasão ao apogeu, em poucas horas, levando a vítima às sufocações, às diarréias, às dores lancinantes, ao letargo, ao coma, à uremia, à síncope e à morte em algumas horas ou poucos dias. Aterravam a velocidade do contágio e o número de pessoas que estavam sendo acometidas. Nenhuma de nossas calamidades chegara aos pés da moléstia reinante: o terrível não era o número de casualidades mas não haver quem fabricasse caixões, quem os levasse ao cemitério, quem abrisse covas e enterrasse os mortos. O espantoso já não era a quantidade de doentes, mas o fato de estarem quase todos doentes, a impossibilidade de ajudar, tratar, transportar comida, vender gêneros, aviar receitas, exercer, em suma, os misteres indispensáveis à vida coletiva…”.

Últimas curiosidade envolvendo literatura e doença: o escritor e poeta florentino Giovanni Boccaccio (1313 – 1375) foi pessoalmente afetado pela pandemia que ficou conhecida como peste negra, que atingiu Florença em 1348. Seu pai e madrasta morreram e ele fugiu da cidade indo para a zona rural da Toscana. Foi durante esse período que escreveu  O Decamerão, 100 contos narrados por personagens que fugiam justamente da peste negra. Já no início do século XVII, em Londres, surtos de peste bubônica ocasionavam muitas mortes e quarentenas eram ordenadas pelas autoridades. O grande poeta e dramaturgo William Shakespeare (1564 – 1616) escreveu nesse período, entre 1605 e 1606, Rei Lear, Macbeth e Antônio e Cleópatra. Segundo James Shapiro, professor da Universidade Columbia e autor de O ano de Lear: Shakespeare em 1606, depois de 1603, Shakespeare não produziu mais comédias românticas e, sim, peças mais sombrias, que expressavam o desespero que tomava a população naqueles dias.

Voltando ao século XX: o mundo ainda sofreu com mais duas pandemias, a Gripe Asiática, em 1957; e a Gripe de Hong Kong, em 1968. No século XXI, foi identificado um novo vírus da influenza do tipo A pandêmico que desencadeou a Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional, decretada pela Organização Mundial da Saúde(OMS), em 2009. Cerca de 11 anos depois, em 11 de abril de 2020, a OMS declarou uma pandemia do novo coronavírus, chamado de Sars-Cov-2, causador da Covid-19, surgido na cidade de Wuhan, na China, em fins de 2019.

 

(1) A virologia no Estado do Rio de Janeiro: uma visão global.

(2) Pandemias de influenza e a estrutura sanitária brasileira: breve histórico e caracterização dos cenários. 

 

 

brasiliana fotográfica rodrigues alves

Foto oficial de Rodrigues Alves, presidente do Brasil entre 1902 e 1906.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Atlas Histórico do Brasil

BRITO, Nara Azevedo de. La dansarina: a gripe espanhola e o cotidiano na cidade do Rio de Janeiro. Hist. cienc. saude-Manguinhos [online]. 1997, vol.4, n.1, pp.11-30.

CABRAL, Maulori C.; SCHATZMAYR, Hermann G. A virologia no Estado do Rio de Janeiro: uma visão globalRio de Janeiro : Fiocruz, 2012

CASTRO, Ruy. Metrópole à beira-mar: o Rio moderno dos anos 20. São Paulo : Companhia das Letras, 2019.

CONY, Carlos Heitor. O Canaval da peste. Folha de São Paulo, 19 de fevereiro de 1996.

COSTA, Ligia Maria Cantarino da;MERCHAN-HAMANN, Edgar. Pandemias de influenza e a estrutura sanitária brasileira: breve histórico e caracterização dos cenários. Rev Pan-Amaz Saude v.7 n.1 Ananindeua, mar. 2016.

Folha de São Paulo

GOULART, Adriana da Costa. Revisitando a espanhola: a gripe pandêmica de 1918 no Rio de JaneiroHist. cienc. saude-Manguinhos v.12 n.1 Rio de Janeiro jan./abr. 2005

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Incrível História

KOLATA, Gina. Gripea história da pandemia de 1918. Rio de Janeiro : Record, 2002.

NAVA, Pedro. Chão de ferro. Memórias/3. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1976.

O Estado de São Paulo

O Globo

OUTKA, Elizabeth. Viral Modernism: The Influenza Pandemic and Interwar Literature. New York : Columbia University Press, 2020.

Rádio Senado

RODRIGUES, Nelson. A menina sem estrela. São Paulo : Companhia das Letras, 1993.

SANTANA, Rosemeire Siqueira de. Tecendo os fios da memória: um breve ensaio biográfico sobre as educadoras Anália Franco, Neide Mesquita e Laura Amazonas.

SANTOS, Ricardo Augusto dos. O Carnaval, a peste e a espanhola. Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.13 no.1 Rio de Janeiro Jan./Mar. 2006

SECCHIN, Antonio Carlos. Melancólico em livro de Bandeira, Carnaval em 1919 foi pura libertinagem. Folha de São Paulo, 22 de junho de 2019.

Site Casa de Rui Barbosa

Site CPDOC

Site Enciclopédia Britânica

Site Fiocruz

Site Gripenet

Site Hipercultura

Site WelcomeCollection

Site Standford University

Smithsonion Magazine

Suplemento Ofical do Diário Oficial do Estado de Pernambuco

WOOLF, Virginia. Illness: an unexploited mine. In: Forum, abril de 1926, pp.582-590.

Ressaca no Rio de Janeiro invade o porão da casa do fotógrafo Marc Ferrez, em 1913

Há muito tempo as águas de março castigam o Rio de Janeiro. Nas primeiras décadas do século XX, ocorreram várias ressacas na cidade e a Brasiliana Fotográfica destaca duas fotografias produzidas por Augusto Malta (1864 – 1957) e Carlos Bippus (18? – 19?), em 1913, quando, em março, aconteceu uma delas. Um dos bairros mais afetados foi o Flamengo e o porão da casa onde a família de Marc Ferrez (1843 – 1921) morava, na rua Dois de Dezembro – antiga rua Christovão Colombo -, foi inundado destruindo boa parte da tiragem do Álbum da Avenida Central*, um dos mais ambiciosos projetos da carreira do fotógrafo, monumental como a obra de engenharia que representava (O Paiz, 9 de março de 1913; Correio da Manhã, 9 de março de 1913). Cerca de um mês depois da enchente, Ferrez e sua mulher, a francesa Marie Lefebvre (c. 1849 – 1914), embarcaram para a Europa no paquete holandês Zeelandia (O Paiz, 17 de abril de 1913, na quarta coluna) e, no primeiro semestre de 1914, quando retornaram ao Rio de Janeiro, alugaram uma casa na rua Voluntários da Pátria 50, em Botafogo. Terá sido para fugir de possíveis novas ressacas?

 

 

Acessando o link para as fotografias de ressacas ocorridas no Rio de Janeiro no início do século XX disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

 

 *O Álbum da Avenida Central

 

capa1

 

Ferrez iniciou pouco antes da inauguração da avenida Central, em 15 de novembro de 1905 (Jornal do Brasil, 16 de novembro de 1905, última coluna), a produção do Álbum da Avenida Central importante registro da reforma da principal via da então capital federal, onde ele contrapôs reproduções das plantas às fotografias das fachadas de cada edifício documentado. Esse tipo de fotografia foi fundamental para a construção e para a difusão de uma nova imagem do Rio de Janeiro, uma imagem associada aos ideais de civilização e progressoEle havia sido contratado pela Comissão Construtora da Avenida Central, que era coordenada por Paulo de Frontin (1860 – 1933), presidente do Clube de Engenharia. O álbum original foi lançado em 1907. As fotos foram realizadas em negativos de grande formato. As dos projetos arquitetônicos foram impressas em zincografia e, as das fachadas de todos os edifícios, em colotipia.

Na época de sua inauguração, a avenida Central tinha 1.800 metros de extensão e 33 metros de largura. Cerca de 300 casas coloniais foram demolidas para a construção dos novos edifícios, cujas fachadas foram escolhidas por concurso. Alguns dos jurados foram o prefeito Pereira Passos (1836 – 1913), responsável pela significativa reforma urbana carioca – o “bota-abaixo” -, que contribuiu para o surgimento do Rio de Janeiro da Belle Époque; o engenheiro Paulo de Frontin (1860 – 1933), Lauro Muller (1863 – 1926), ministro da Viação e Obras Públicas; e Oswaldo Cruz (1872 – 1917), diretor-geral da Saúde Pública. Além de edifícios do governo, ergueram-se, na avenida, jornais, clubes, hotéis e sedes de empresas. O calçamento, em mosaico português, foi feito por artesãos vindos de Portugal. Passear pela avenida Central era passear pela espinha dorsal do mundo das compras e do lazer dos elegantes, dos negócios e da cultura. Alguns remanescentes da primeira geração de prédios da avenida são o Teatro Municipal, o Clube Naval, a Biblioteca Nacional, o Museu Nacional de Belas Artes e o Centro Cultural da Justiça Federal.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

BARROS, Mariana Gonçalves Monteiro de. Marc Ferrez e o Rio de Janeiro do seu tempo. Tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós-graduação em História Social da Cultura do Departamento de História da PUC-Rio, Rio de Janeiro, setembro de 2006.

CERON, Ileana Pradilla Ceron. Marc Ferrez – uma cronologia da vida e da obra. São Paulo : Instituto Moreira Salles, 2018.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

ERMAKOFF, George. Rio de Janeiro 1840 – 1900 Uma crônica fotográfica. Rio de Janeiro: G. Ermakoff Casa Editorial, 2006.

FERREZ, Gilberto. O Rio Antigo do fotógrafo Marc Ferrez: paisagens e tipos humanos do Rio de Janeiro, 1865-1918. Rio de Janeiro: João Fortes Engenharia/Editora Ex-Libris, 1984.

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002. 408 p., il. p&b.

Rio / Marc Ferrez – São Paulo : IMS; Göttingen: Steidl, 2015

TURAZZI, Maria Inez. Cronologia. In O Brasil de Marc Ferrez – São Paulo : Instituto Moreira Salles, 2005.

 

Publicações da Brasiliana Fotográfica em torno da obra do fotógrafo Marc Ferrez 

 

O Rio de Janeiro de Marc Ferrez, publicada em 30 de junho de 2015

Obras para o abastecimento no Rio de Janeiro por Marc Ferrez , publicada em 25 de janeiro de 2016

O brilhante cronista visual Marc Ferrez (7/12/1843 – 12/01/1923), publicada em 7 de dezembro de 2016

Do natural ao construído: O Rio de Janeiro na fotografia de Marc Ferrez, de Sérgio Burgi, publicada em 19 de dezembro de 2016

No primeiro dia da primavera, as cores de Marc Ferrez (1843 – 1923), publicada em 22 de setembro de 2017

Marc Ferrez , a Comissão Geológica do Império (1875 – 1878) e a Exposição Antropológica Brasileira no Museu Nacional (1882), publicada em 29 de junho de 2018

O quiosque Chopp Berrante no Passeio Público, Ferrez, Malta e Charles Dunlop, publicada em 20 de julho de 2018

Uma homenagem aos 175 anos de Marc Ferrez (7 de dezembro de 1843 – 12 de janeiro de 1923), publicada em 7 de dezembro de 2018 

Pereira Passos e Marc Ferrez: engenharia e fotografia para o desenvolvimento das ferrovias, publicado em 5 de abril de 2019

Fotografia e ciência: eclipse solar, Marc Ferrez e Albert Einstein, publicado em 

Uma homenagem da Casa Granado ao imperial sob as lentes de Marc Ferrez, publicada em 7 de fevereiro de 2020

Petrópolis, a Cidade Imperial, pelos fotógrafos Marc Ferrez e Revert Henrique Klumb, publicado em 16 de março de 2020.

A importância da digitalização para a pesquisa de acervos fotográficos

Inicialmente a fotografia Vagão ferroviário tombado chamou atenção por seu tema pouco usual em registros do século XIX e do início do século XX no Brasil: um acidente ferroviário. Mas uma observação mais atenta tornou a imagem uma excelente evidência da importância da digitalização para a pesquisa e também para a difusão e consequentemente para a própria preservação de acervos fotográficos. Na fotografia destacada, que integra a Coleção Pereira Passos, do Museu da República, uma das instituições parceiras do portal, seu autor foi identificado a partir da utilização da ferramenta de zoom, que deu à cena fotografada outra visibilidade, abrindo as possibilidades de situá-la historicamente. O leitor ou o pesquisador pode com esse recurso tecnológico magnificar a imagem e verificar “de perto” seus detalhes. Um desses detalhes, nesse caso, foi uma assinatura: A. Bastos. Há, embaixo dela, alguns números legíveis, 3 – 19, e outros ilegíveis. Possivelmente os números legíveis indicam a data de março de algum ano começando por 19.

 

 

O autor seria Antônio José Teixeira Bastos (18? – 1917)? Tudo indica que sim porque ele é o único fotógrafo – conhecido até hoje – com a inicial A e o sobrenome Bastos, de fins do século XIX. Caso seja ele mesmo o autor, a fotografia se situa no período entre 1900 e 1915,  já que Bastos atuou no Rio de Janeiro entre os anos 1880 e 1915 e os números legíveis indicam algum ano começando com 19. Infelizmente esses dados não foram suficientes para a localização do acidente.

Bastos começou sua carreira trabalhando para o ateliê de Carneiro & Tavares – que existiu entre 1883 e 1888 – e, em 1889, transferiu-se para o estabelecimento de Moreira & Roltgen (Jornal do Commercio, 6 de janeiro de 1889).

 

 

Cerca de dois anos depois, Bastos comprou de Manoel Garcia o ateliê fotográfico Casa Garcia, que passou a dirigir com o nome de a Photographia do Commercio, na rua Sete de Setembro, 74 (O Brazil, 5 de setembro de 1891).

 

 

Entre 1891 e 1893, foi associado a José Gonçalves Vasquez que, em 1893, foi trabalhar em Curitiba, onde inaugurou a Photographia Moderna (Jornal do Commercio, 6 de junho de 1893, sexta coluna). Em 1900, Vasquez foi para Santos e abriu a Fotografia Modelo, na rua Amador Bueno, 91.

 

 

Em 1916, quando foi anunciada pela última vez, a Photographia do Commercio, funcionava na rua da Assembleia, 98 (Correio da Manhã, 25 de dezembro de 2013, quarta coluna; Gazeta de Notícias, 8 de outubro de 1915, terceira coluna; Almanak Laemmert, 1916).

 

 

O conhecido fotógrafo Antônio José Teixeira Bastos, que morava na rua do Senado, 14, faleceu em 28 de julho de 1917 e foi enterrado no Cemitério da Ordem Terceira do Carmo. A missa de sétimo dia foi celebrada na Igreja de São Francisco de Paula (O Paiz, 29 de julho de 1917, quinta colunaJornal do Brasil, 29 de julho de 1917, primeira coluna; e Jornal do Brasil, 3 de agosto, segunda coluna). Eram seus filhos Júlio e João Durão Teixeira Bastos (Jornal do Commercio, 23 de novembro de 1917, quarta coluna).

 

cartão

Photographia do Commercio / Acervo IMS

 

 

Coleção Família Pereira Passos

A Coleção Família Pereira Passos, à qual pertence a fotografia destacada nesse artigo, é uma das mais importantes sob guarda do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República e é formada por cerca de 5.592 documentos textuais e 1.147 fotografias, produzidos entre 1806 e 1960. A coleção faz parte do acervo do Museu da República desde 1965, quando a primeira e maior leva de documentos foi doada pela família de Pereira Passos. Posteriormente foi acrescida: em 1966, através de novas doações de sua neta, Maria Passos de Castro (1888 – 1971), e, em 1980, pela transferência de fotos até então pertencentes ao Museu Histórico Nacional.

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

Jornal Eletrônico Novo Milênio

Site do Museu da República

A demolição do Morro do Castelo

O Morro do Castelo, um dos marcos da fundação da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, foi registrado pelo alagoano Augusto Malta (1864 – 1957), fotógrafo oficial da prefeitura da cidade entre 1903 e 1936 e o principal fotógrafo da transformação urbana carioca nas primeiras décadas do século XX, período de grandes mudanças na cidade, dentre elas uma importante intervenção na paisagem natural carioca: a demolição do Morro do Castelo. Foi determinada pelo prefeito Carlos Sampaio (1861 – 1930), em 1921, decisão baseada, segundo o governo, na necessidade de higienização e modernização da cidade. São essas imagens, além de registros realizados por Torres (18? – 19?) e por fotógrafos ainda não identificados, que a Brasiliana Fotográfica traz hoje para seus leitores. O Morro do Castelo tinha 63 metros de altura, ocupava uma área de cento e oitenta e quatro mil metros quadrados e seus limites eram as atuais avenida Rio Branco (antiga avenida Central), as ruas Santa Luzia, Misericórdia e São José.

 

Acessando o link para as fotografias da demolição do Morro do Castelo disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas. 

 

 

 

Em 1904, durante a gestão do prefeito Pereira Passos (1836 – 1913),  para a abertura da Avenida Central, a ladeira do Seminário e parte do Morro do Castelo foram destruídas, mas foi entre 1920 e 1922, na administração do engenheiro e prefeito Carlos Sampaio (1861 – 1930), que o morro, considerado um símbolo degradado do passado colonial português, foi demolido, por deliberação do decreto de 17 de agosto de 1920 (Jornal do Brasil, 18 de agosto de 1920, quinta coluna).

 

 

A decisão, baseada em um discurso de higienização e modernização da cidade, causou muita polêmica, tendo sido criticada por vários intelectuais como Monteiro Lobato (1882 – 1948) em seu texto Luvas!, de 1920:

“…Ouve sempre cochichos suspeitos nos quais um estribilho soa insistente: precisamos arrasar o Morro do Castelo! Sente-se condenado como a árvore secular que caiu nas unhas de um vendedor de lenha, preocupadíssimo com o cálculo das carradas prováveis. Percebe que virou negócio, que o verdadeiro tesouro oculto em suas entranhas não é a imagem de ouro maciço de Santo Inácio, e sim o panamá do arrasamento. Os homens de hoje são negocistas sem alma. Querem dinheiro. Para obtê-lo venderão tudo, venderiam até a alma se a tivessem. Como pode ele, pois, resistir a maré, se suas credenciais – velhice, beleza, pitoresco, historicidade – não são valores de cotação na bolsa?

Porém a iniciativa foi saudada por personalidades importantes como o sanitarista Belisário Pena (1868 – 1939) (Jornal do Brasil, 21 de agosto de 1920, terceira coluna), que parabenizou o prefeito. Os cerca de 4 mil moradores do Morro do Castelo eram trabalhadores e pobres e seriam instalados em inicialmente em barracos na Praça da Bandeira. Máquinas e empréstimos no valor de US$ 12 milhões foram contratados para o arrasamento do morro. Outras obras significativas de Sampaio foram o saneamento e aterro da área em torno da Lagoa Rodrigo de Freitas, a atual avenida Epitácio Pessoa; e a construção da avenida Maracanã.

 

 

Um pouco da história

A cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro foi fundada no Morro Cara de Cão em 1º de março de 1565 e, após a expulsão dos invasores franceses, dois anos depois, foi, por escolha do governador-geral do Brasil, Mem de Sá (1500 – 1572), reinstalada no Morro de São Januário, posteriormente denominado Descanso, Alto da Sé, Alto de São Sebastião e, finalmente, Morro do Castelo. A escolha do ponto, da onde se via a Baía de Guanabara, sua porta de entrada, foi estratégico para a defesa da cidade em caso de possíveis futuros ataques. Murado e fortificado, o Rio de Janeiro no Morro do Castelo passou a abrigar a Casa do Governador, a Casa da Câmara, a Cadeia, o Colégio dos Jesuítas, armazéns e igrejas. Foi lá fundada a primeira Sé Catedral, para onde foi levada o marco de pedra de fundação da cidade, anteriormente no sopé do Morro Cara de Cão, e também os restos mortais do militar português Estácio de Sá (1520 – 1567), fundador do Rio de Janeiro.

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

BARROS, Paulo Cezar de. Onde nasceu a cidade do Rio de Janeiro? ( um pouco da história do Morro do Castelo)Revista geo-paisagem (online ) Vol. 1, número 2, julho/dezembro de 2002

Blog do Jornal do Brasil, 9 de março de 2011

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

LOBATO, Monteiro. Onda Verde. São Paulo: Monteiro Lobato e C., 1921.

MENEZ, Alexssandro. Civilização versus barbárie: a destruição do Morro do Castelo no Rio de Janeiro (1905-1922). Revista Historiador Número 06. Ano 06. Janeiro de 2014.

MOTTA, Marly Silva da. A nação faz cem anos: a questão nacional no centenário da independência. Rio de Janeiro: Editora FGV: CPDOC, 1992.

NONATO, José Antônio Era uma vez o Morro do Castelo. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2000.

PAIXÃO, Cláudia Míriam Quelhas. O Rio de Janeiro e o morro do Castelo: populares, estratégias de vida e hierarquias sociais (1904-1922). Dissertação de mestrado. Niterói: UFF, 2008.

Site do Diário do Rio

Site do CPDOC

 

Pereira Passos e Marc Ferrez: engenharia e fotografia para o desenvolvimento das ferrovias

Francisco Pereira Passos (1836-1913), que foi prefeito do Rio de Janeiro entre 1902 e 1906, quando liderou uma série de obras de reurbanização da cidade, teve uma atuação profissional importante como engenheiro, principalmente no que se refere ao trabalho de construção de ferrovias, no final do século XIX. Na ocasião, a fotografia passou a ser amplamente utilizada pelos engenheiros como recurso para estudos de projetos e execuções das obras ferroviárias e Marc Ferrez (1843 – 1923) foi um dos principais fotógrafos contratados para o registro das construções de ferrovias. A Brasiliana Fotográfica traz para seus leitores um artigo sobre o assunto, de autoria da historiadora Maria de Fatima Morado, do Museu da República, uma das instituições parceiras do portal,  com a publicação de imagens produzidas por Ferrez, uma colagem de fotos do alemão Alberto Henschel (1827 – 1882), e registros de fotógrafos ainda não conhecidos.

A aliança entre engenharia e fotografia para o desenvolvimento das ferrovias

Maria de Fatima Morado*

Francisco Pereira Passos (1836–1913) é, usualmente, identificado como o prefeito do “bota-abaixo”, pois sob sua polêmica gestão (1902-1906) a cidade do Rio de Janeiro passou por obras de modernização que implicaram na remoção dos habitantes pertencentes às camadas populares da região central para áreas mais afastadas e sem recursos. A sua atuação profissional, enquanto engenheiro, apesar de pouco conhecida não é menos relevante, principalmente no que se refere ao trabalho de construção de ferrovias, no final do século XIX.

 

 

Pereira Passos formou-se engenheiro pela Escola Militar da Corte, em 1856, “e, no ano seguinte, foi nomeado adido à legação brasileira em Paris, ocasião em que teve a oportunidade de frequentar os cursos da École de Ponts et Chaussées e de se dedicar a estudos sobre hidráulica, construção de portos, canais e estradas de ferro”. (MOTTA, 2015). De volta ao Brasil, atuou num dos ramos mais promissores da engenharia, a construção de estradas de ferro, demanda requerida pelo auge da produção cafeeira e seu necessário escoamento, que deveria ser feito de forma mais eficiente.

Acessando o link para as fotografias de ferrovias do acervo do Museu da República disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Em 1881, com a fundação do Clube de Engenharia, que teve Pereira Passos como um dos membros mais influentes, os engenheiros passaram a exercer um poder estratégico em relação às obras públicas de infraestrutura e conforme o artigo 1º de seu Estatuto ficou definido que “a sociedade – Club de Engenharia – tem por objecto promover e estreitar relações entre as classes de engenharia e as dos vários ramos industriais, no que diz respeito aos interesses recíprocos das suas profissões” (Decreto nº 8253 de 10/09/1881). Em 1882, o Clube patrocinou o I Congresso de Estradas de Ferro e, em 1887, realizou a I Exposição das Estradas de Ferro no Brasil.

 

 

A fotografia passou a ser amplamente utilizada pelos engenheiros como recurso para estudos de projetos e execuções das obras, não excluindo a função social para a difusão e propaganda dessas modernizações, por exemplo, através da confecção de cartões-postais. Marc Ferrez (1843 – 1923) foi um dos principais fotógrafos contratados para o registro das construções de ferrovias. “A engenharia ferroviária demandava imagens detalhadas da evolução das obras de engenharia (edifícios de passageiros, túneis, pontes, aterros, cortes)” (OLIVEIRA, 2018). A fotografia também servia como recurso no incentivo entre os acionistas para investimentos no empreendimento ferroviário. Para a divulgação desse processo modernizador foram comercializados álbuns fotográficos e realizadas exposições de fotos de engenharia em salões nacionais e internacionais.

A Coleção Família Passos, do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República, além de extensa documentação textual, dispõe de uma série de fotos sobre a construção de ferrovias, bem como estações e locomotivas. Além das fotografias produzidas por Marc Ferrez, existe uma colagem de fotos de Alberto Henschel (1827 – 1982), importante fotógrafo alemão que atuou no Brasil, nesse mesmo período.

 

 

 

Cronologia da carreira de Pereira Passos no setor ferroviário

1862 - Atuou em comissões de estudos de prolongamento e acompanhamento de obras da Estrada de Ferro Dom Pedro II.

1864 – 1867 - Foi  engenheiro-fiscal da construção da linha que ligou Santos a Jundiaí. Na condição de funcionário do governo imperial, fiscalizou a obra da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí, inaugurada em 1867 como São Paulo Railway.

1868 – 1869 - Substituiu J. Whitaker na comissão encarregada dos estudos e exploração do traçado de prolongamento da Estrada de Ferro D. Pedro II até o Rio São Francisco.

1870 a 1873Foi consultor técnico do Ministério da Agricultura e Obras Públicas, em Londres. Publicou um livro intitulado Caderneta de Campo, trabalho utilizado pelos engenheiros brasileiros dedicados à construção de ferrovias.

1876 – 1880 – Atuou como engenheiro-presidente na Estrada de Ferro Dom Pedro II. Conduziu a ampliação da estação da Corte e as construções do ramal ferroviário e da estação marítima, na Gamboa. Este complexo foi inaugurado em junho de 1880.

1881 – 1884 – Elaborou o projeto de engenharia da Estrada de Ferro Curitiba-Paranaguá; o prolongamento da Estrada de Ferro Petrópolis, no trecho da Raiz da Serra do Mar até Petrópolis; e a Estrada de Ferro Corcovado. Para as duas últimas introduziu o uso do sistema com trilho central dotado de encaixes, nos quais uma roda dentada se apoia para impulsionar o trem, conhecido como cremalheira. A Estrada de Ferro do Corcovado foi construída em conjunto com Marcelino Roma e Lopes Ribeiro e é a primeira via de turismo criada na Corte.

 

 

 

*Maria de Fátima Morado é Historiadora do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República

 

 

 

Fontes:
LAMARÃO, Sérgio; URBINATI, Inoã Carvalho. Clube de Engenharia. In: Dicionário histórico-biográfico da Primeira República – 1889-1930. Coordenação: Alzira Alves de Abreu. FGV, 2015.

MOTTA, Marly. Pereira Passos. In: Dicionário histórico-biográfico da Primeira República – 1889-1930. Coordenação: Alzira Alves de Abreu. FGV, 2015.

OLIVEIRA, Eduardo Romero. Vistas fotográficas das ferrovias: a produção de registros de obra pública no Brasil do século XIX. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v.25, n.3, jul-set 2018, p.695-723.

PINHEIRO, Manoel Carlos; FIALHO JR, Renato. Pereira Passos: vida e obra. Instituto Pereira Passos-Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, ago 2006.

RODRIGUES, Antônio Edmilson Martins; AZEVEDO, André Nunes de. Pereira Passos por ele mesmo. Revista Rio de Janeiro, n. 10 , maio-ago 2003.

TURAZZI, Maria Inez. Paisagem construída fotografia e memória dos melhoramentos urbanos na cidade do Rio de Janeiro. Varia História, Belo Horizonte, vol. 22, nº 35: p. 64-78, jan-jun 2006.

 

Pequena cronologia da carreira de Marc Ferrez como fotógrafo no setor ferroviário

Andrea C.T. Wanderley**

 

1880 – Entre 1880 e 1890,  fotografou as construções ferroviárias no Brasil, quando produziu um grande panorama da paisagem brasileira de sua época.

1882 – Fotografou as obras da ferrovia Dom Pedro II, em São Paulo e em Minas Gerais, tendo registrado a presença do imperador Pedro II e de sua comitiva na entrada do túnel da Serra da Mantiqueira (Gazeta de Notícias, 27 de junho de 1882, na quarta coluna).

 

1883 – O Club de Engenharia ofereceu uma recepção ao engenheiro hidráulico holandês J. Dirks, o grande especialista da época em portos e canais, que estava de passagem pelo Rio de Janeiro e seguiria para Valparaíso, no Chile. Na ocasião, foi realizada uma exposição de fotografias das estradas de ferro, de autoria de Marc Ferrez (Revista de Engenharia, 14 de abril de 1883).

1884 – Fotografou as obras da ferrovia do Paraná (Paranaguá – Curitiba com a presença de dom Pedro II. O gerente da firma Société Anonyme des Travaux Dyle et Bacalan, empreiteira belga encarregada pelas obras, o futuro prefeito do Rio de Janeiro, o engenheiro Francisco Pereira Passos (1836 – 1913), presenteou dom Pedro II com 14 fotografias e um álbum de autoria de Ferrez.

Exposição de fotografias da estrada de ferro Teresa Cristina, na A la Glacê Elegante (Gazeta da Tarde, 11 de novembro de 1884, na quinta coluna).

1885 – Ferrez participou da inauguração da ferrovia do Paraná (19 de Dezembro, 4 de fevereiro de 1885, na terceira coluna).

1886 – Em uma reunião da Sociedade Central de Immigração, da qual faziam parte, entre outros, o astrônomo belga Louis Ferdinand Cruls (1848 – 1908), o pintor italiano Nicolau Facchinetti (1824 – 1900), o alemão Franz Keller-Leuzinger (1835 – 1890), que era casado com uma das filhas de George Leuzinger e dirigia o setor de fotografia de seu estabelecimento, e o político Alfredo d´Escragnolle Taunay (1843 – 1899), foram apresentadas por esse último, presidente da associação, fotografias da ferrovia do Paraná, de autoria de Ferrez (A Immigração, agosto de 1886).

O Club de Engenharia aprovou a proposta de Marc Ferrez e de E. de Mascheuk para a execução de “diversos trabalhos concernentes à exposição dos caminhos de ferro” (Revista de Engenharia, 14 de dezembro de 1886, na primeira coluna).

Ferrez fotografou a ferrovia Dom Pedro II, em Juiz de Fora.

1887 - Entre 2 de julho e 2 de agosto, nos salões do Liceu de Artes e Ofícios, por uma iniciativa do Club de Engenharia, realizou-se a Exposição dos Caminhos de Ferro Brasileiros, com a exibição de fotografias de Ferrez (Revista de Engenharia, 14 de agosto de 1887). Estiveram presentes no encerramento da exposição, no dia 2 de agosto, a princesa Isabel e o conde d´Eu, além de outras autoridades. O ministro da Agricultura, o conselheiro Sinimbu (1810 – 1906), leu o relatório do juri da exposição, presidido pelo visconde de Mauá (1813 – 1889). Ferrez foi contemplado com uma menção honrosa pelas “magníficas fotografias de importantes trechos de nossas vias férreas, com que concorreu não só para abrilhantar a Exposição como até para suprir algumas lacunas sensíveis de estradas que se não fizeram representar” (Jornal do Commercio, 3 de agosto de 1887, na terceira coluna e Revista de Estradas de Ferro, 31 de agosto de 1887, na primeira coluna).

1888 – Em 25 de novembro, foi inaugurado o tráfego entre as estações de Alcântara e Rio do Ouro da estrada de ferro de Maricá. Marc Ferrez fotografou “instantaneamente ” um grupo de convidados da diretoria das estradas na estação Santa Izabel (Revista de Engenharia, 28 de dezembro de 1888, na primeira coluna).

1890 – Em setembro, Ferrez integrou a comitiva convidada para a  inauguração das obras da ferrovia Benevente-Minas, de Carangola a Benevente, atual Anchieta, no Espírito Santo (Diário de Notícias, 28 de setembro de 1890, quinta coluna).

1891 – Na Revista de Engenharia, 28 de dezembro de 1890, foi publicado um anúncio: “Marc Ferrez – Fotógrafo da Marinha Nacional. Especialista de vistas de estradas de ferro e em geral das grandes obras públicas. Reprodução de plantas com traços pretos sobre fundo branco. Rua São José 8″. O mesmo anúncio voltou a ser veiculado na edição de 14 de agosto de 1891.

1892 – Foi determinado que nas estradas de ferro subvencionadas pelo governo federal fossem liberados passes de ida e volta para Marc Ferrez e um ajudante para que pudessem “levantar fotografias em diversas localidades para o serviço da Exposição Universal Colombiana de Chicago”, que aconteceu entre 1º de maio e 30 de outubro de 1893 para celebrar os 400 anos da chegada do navegador genovês Cristóvão Colombo (1451 – 1506) ao Novo Mundo, em 1492 (Jornal do Brasil, 21 de agosto de 1892, na quinta coluna).

1895 – Em novembro, Ferrez fotografou, em Búzios, os convidados e a comissão responsável pela construção da Estrada de Ferro Rio de Janeiro-Minas, que uniria o povoado de Búzios a Paquequer, no estado de Minas Gerais (A Notícia, 11 de novembro de 1895, segunda coluna).

1900 – Revista da Semana de 21 de outubro de 1900, publicou uma litogravura da Estação Central da Estrada de Ferro da Central do Brasil baseada em uma fotografia de autoria de Marc Ferrez. A Revista da Semana havia sido lançada em 20 de maio por Álvaro de Tefé (1898-?).

 

 

1904 - Exposição de fotografias da estrada de ferro Central do Brasil de autoria de Ferrez, no Club de Engenharia (O Commentario, março de 1904).

1908 – A Casa Marc Ferrez produziu filmes sobre obras em estradas de ferro do Brasil.

 

**Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Publicações da Brasiliana Fotográfica em torno da obra do fotógrafo Marc Ferrez 

O Rio de Janeiro de Marc Ferrez, publicada em 30 de junho de 2015

Obras para o abastecimento no Rio de Janeiro por Marc Ferrez , publicada em 25 de janeiro de 2016

O brilhante cronista visual Marc Ferrez (7/12/1843 – 12/01/1923), publicada em 7 de dezembro de 2016

Do natural ao construído: O Rio de Janeiro na fotografia de Marc Ferrez, de Sérgio Burgi, publicada em 19 de dezembro de 2016

No primeiro dia da primavera, as cores de Marc Ferrez (1843 – 1923), publicada em 22 de setembro de 2017

Marc Ferrez , a Comissão Geológica do Império (1875 – 1878) e a Exposição Antropológica Brasileira no Museu Nacional (1882), publicada em 29 de junho de 2018

O quiosque Chopp Berrante no Passeio Público, Ferrez, Malta e Charles Dunlop, publicada em 20 de julho de 2018

Uma homenagem aos 175 anos de Marc Ferrez (7 de dezembro de 1843 – 12 de janeiro de 1923), publicada em 7 de dezembro de 2018 

Fotografia e ciência: eclipse solar, Marc Ferrez e Albert Einstein, publicada em 24 de junho de 2019

Celebrando o fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923), publicado em 4 de dezembro de 2019 

Uma homenagem da Casa Granado ao imperial sob as lentes de Marc Ferrez, publicada em 7 de fevereiro de 2020

Ressaca no Rio de Janeiro invade o porão da casa do fotógrafo Marc Ferrez, em 1913, publicado 6 de março de 2020.

Petrópolis, a Cidade Imperial, pelos fotógrafos Marc Ferrez e Revert Henrique Klumb, publicado em 16 de março de 2020.

O quiosque Chopp Berrante no Passeio Público, Ferrez, Malta e Charles Dunlop

Antigamente no passeio público a esquerda de quem entrava pelo portão da rua do Passeio, existia um bar ao ar livre, dos apelidados pelo público de “Chopp Berrante”. Nesse bar havia um teatrinho, onde aos domingos acorria a garotada e todas as noites se exibiam cançonetistas acompanhados ao piano. A consumação obrigatória pagava o espetáculo. O bar era arrendado pela prefeitura ao senhor Arnaldo Gomes de Souza’.

Assim Charles Julius Dunlop (1908–1987), escritor e entusiasta do Rio Antigo, começava seu texto intitulado O Chopp Berrante do Passeio Público, publicado na Revista G.E., em 1956. Dunlop trabalhou entre 1927 e 1976 no departamento jurídico da Light, empresa onde conheceu, em meados da década de 30, o fotógrafo Augusto Malta (1864 – 1957), que trabalhava na Prefeitura do Rio de Janeiro, e havia sido designado para cobrir a inauguração de uma usina de força da empresa. Esse encontro foi decisivo no interesse de Dunlop por fotografias e histórias cariocas. Entre 1952 e 1955, ele publicou a coluna “Rio Antigo”, no jornal Correio da Manhã, muitas vezes ilustrada por fotos de Malta (Correio de Manhã, 30 de maio de 1952).

 

 

Acessando o link para as fotografias de autoria de Augusto Malta disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Um pouco da história do quiosque Chopp Berrante e da parceria entre Arnaldo Gomes e Marc Ferrez – os primórdios do cinema no Brasil

Localizava-se no Passeio Público, concorrido ponto de encontro da população carioca nos séculos XVIII e XIX e primeiro parque ajardinado do Brasil. Já no século XX, entre 1902 e 1906, na gestão do prefeito Francisco Pereira Passos (1836 – 1913), o Passeio Público recebeu diversos melhoramentos e foi inaugurado o primeiro aquário de água salgada da América do Sul, em 18 de setembro de 1904 (Gazeta de Notícias, 19 de setembro de 1904, na última coluna sob o título “O Aquarium”). Possivelmente, o Chopp Berrante no Passeio Público foi inaugurado em 1900, quando esse tipo de estabelecimento era um dos locais do universo de entretenimento da belle époque. Acredita-se que Catulo da Paixão Cearense (1866 – 1946) tenha sido um dos muitos músicos que se apresentaram no Chopp Berrante no Passeio Público.

 

 

O dono do Chopp Berrante no Passeio Público, Arnaldo Gomes de Souza, é o senhor de calça branca retratado na imagem acima. O fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923) vendia aí seus filmes para que Arnaldo os exibisse em lençóis estendidos entre as árvores, no jardim do parque. No final de 1905, a Casa Marc Ferrez & Filhos passou a ser a fornecedora exclusiva do cinematógrafo ao ar livre Passeio Público, que existiu entre em 28 de outubro de 1905 e 2 de novembro de 1906. Apesar de ter um repertório pouco variado, o cinematógrafo do Passeio Público aumentou a concorrência do quiosque que, segundo Dunlop, passou a ser ponto obrigatório dos primeiros fãs de cinema da cidade.

Em sociedade com Arnaldo, Ferrez arrendou os prédios de número 145 e 149 da Avenida Central e inaugurou, em 18 de setembro de 1907, o Cinema Pathé, o terceiro da cidade (Gazeta de Notícias, 18 de setembro de 1907, nas sexta e sétima colunas). O primeiro, Chic, foi inaugurado em 1º de agosto de 1907; o segundo, Parisiense, foi aberto em 9 de agosto do mesmo ano.

A firma de Arnaldo e Ferrez chamava-se Arnaldo & Cia, omitindo a participação de Ferrez porque Charles Pathé (1863 – 1957), um dos proprietários da Pathé Frères, proibia que seus distribuidores e representantes possuíssem cinematógrafos. Em 1908, a sociedade de Ferrez com Arnaldo Gomes de Souza foi denunciada pelo concorrente de Ferrez, Jácomo Rosário Staffa, proprietário do cinema Parisiense. Ainda nesse ano, Ferrez e Arnaldo Gomes de Souza produziram o filme, Nhô Anastácio chegou de viagem, dirigido por Julio Ferrez. É considerada a primeira comédia cinematográfica brasileira e foi estrelada por Antônio Cataldi, José Gonçalves Leonardo e Ismênia Matteo. Em 1911, a sociedade de Marc Ferrez com Arnaldo Gomes de Souza foi desfeita.

 

 

Acessando o link para as fotografias de autoria de Mar Ferrez disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

A revista O Cruzeiro publicou ao longo de 1951 uma série de matérias intituladas Fotografias do Rio Antigo sobre a obra de Marc Ferrez na segunda metade do século XIX. As compilações e a legendas das imagens assim como os textos das matérias foram feitos pelo neto do fotógrafo, Gilberto Ferrez (1908 – 2000), o primeiro historiador da fotografia no Brasil. Muitas imagens reproduzidas nessas matérias estão no acervo da Brasiliana Fotográfica.

Seguem os links para as matérias:

O Cruzeiro, 9 de junho de 1951 

O Cruzeiro, 16 de junho de 1951 

O Cruzeiro, 30 de junho de 1951 

O Cruzeiro, 14 de julho de 1951 

O Cruzeiro, 28 de julho de 1951 

O Cruzeiro, 11 de agosto de 1951 

O Cruzeiro, 25 de agosto de 1951

O Cruzeiro, 22 de setembro de 1951 

O Cruzeiro, 13 de outubro de 1951

 

Publicações da Brasiliana Fotográfica em torno da obra do fotógrafo Marc Ferrez 

O Rio de Janeiro de Marc Ferrez, publicada em 30 de junho de 2015

Obras para o abastecimento no Rio de Janeiro por Marc Ferrez , publicada em 25 de janeiro de 2016

O brilhante cronista visual Marc Ferrez (7/12/1843 – 12/01/1923), publicada em 7 de dezembro de 2016

Do natural ao construído: O Rio de Janeiro na fotografia de Marc Ferrez, de Sérgio Burgi, publicada em 19 de dezembro de 2016

No primeiro dia da primavera, as cores de Marc Ferrez (1843 – 1923), publicada em 22 de setembro de 2017

Marc Ferrez , a Comissão Geológica do Império (1875 – 1878) e a Exposição Antropológica Brasileira no Museu Nacional (1882), publicada em 29 de junho de 2018

Uma homenagem aos 175 anos de Marc Ferrez (7 de dezembro de 1843 – 12 de janeiro de 1923), publicada em 7 de dezembro de 2018 

Pereira Passos e Marc Ferrez: engenharia e fotografia para o desenvolvimento das ferrovias, publicado em 5 de abril de 2019

Fotografia e ciência: eclipse solar, Marc Ferrez e Albert Einstein, publicada em 24 de junho de 2019

Celebrando o fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923), publicado em 4 de dezembro de 2019 

Uma homenagem da Casa Granado ao imperial sob as lentes de Marc Ferrez, publicada em 7 de fevereiro de 2020

Ressaca no Rio de Janeiro invade o porão da casa do fotógrafo Marc Ferrez, em 1913, publicado 6 de março de 2020.

Petrópolis, a Cidade Imperial, pelos fotógrafos Marc Ferrez e Revert Henrique Klumb, publicado em 16 de março de 2020.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

DUNLOP, Charles. Apontamentos históricos – O Chopp Berrante do Passeio Público in Revista G.E., outubro, novembro e dezembro de 1956

FERLIM, Uliana dias Campos. A polifonia das modinhas: diversidades e tensões musicais no Rio de Janeiro na passagem do século XIX ao XX, 2006. Campinas: Unicamp

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

SAMPAIO, Lilian Alves. Vaidade e ressentimento dos músicos populares e o universo musical do Rio de Janeiro no início do século XX, 2011. São Paulo: USP

Site da Editora Rio Antigo

 

A Exposição Nacional de 1908 na Coleção Família Passos

Há cerca de 110 anos, em 11 de agosto de 1908, era inaugurada a Exposição Nacional de 1908, na região da Urca, no Rio de Janeiro, em comemoração ao centenário da Abertura dos Portos às Nações Amigas, decretada em 28 de janeiro de 1808, pelo então príncipe regente de Portugal, dom João de Bragança, futuro dom João VI (1767 – 1926)(O Paiz, 11 de agosto de 1908). A exposição exibiu um “inventário” do Brasil através de seus produtos industriais, agrícolas, pastoris e artísticos. Promovida pelo governo federal, apresentou a cidade do Rio de Janeiro, recém urbanizada e saneada pelo então prefeito Francisco Pereira Passos (1936 – 1913) e  pelo cientista Oswaldo Cruz (1872 – 1917), respectivamente. O evento foi encerrado em 15 de novembro de 1908 (O Paiz, 16 de novembro de 1908, sexta coluna). A Brasiliana Fotográfica lembra a iniciativa publicando um texto da historiadora Carla Costa, do Museu da República, uma das instituições parceiras do portal, ilustrado com fotografias de Augusto Malta (1864 – 1957), que pertencem à Coleção Família Passos.

 

A Exposição Nacional de 1908 na Coleção Família Passos

Carla Costa*

 

Na coleção Família Passos do Museu da República destacam-se as imagens realizadas por Augusto Malta (1864 – 1957), fotógrafo oficial da Prefeitura do Rio de Janeiro, entre elas as fotografias sobre a Exposição Nacional de 1908 – Agrícola, Industrial, Pastoril e de Artes Liberais – comemorativa ao Centenário de Abertura dos Portos às Nações Amigas, localizada na Praia Vermelha, na região da Urca.

Nessa coleção temos as fotografias de construções imponentes da Exposição de 1908, em muitos estilos arquitetônicos, em particular o ecletismo, com destaque para a Porta Monumental, o Palácio da Indústria, o Pavilhão do Distrito Federal, o Pavilhão de São Paulo, o Pavilhão de Minas Gerais, o Anexo das Belas Artes, e o Pavilhão da Fábrica Bangu, além de panoramas e vistas de toda a área da Exposição com os morros e praias da região.

Acessando o link para as imagens da Exposição Nacional de 1908 pertencentes à Coleção Família Passos disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

A cidade do Rio de Janeiro depois da reforma urbana realizada na gestão do prefeito Francisco Pereira Passos (1936 – 1913), entre 1903 e 1906, passou a ser considerada a capital que encarnava a civilização dentro do Brasil, portanto lugar ideal para sediar uma exposição que mostrasse o progresso, a ciência e a técnica alcançados pela agricultura, pecuária, indústria e artes do país diante dos brasileiros e de outras nações.

A Exposição Nacional de 1908 foi o grande evento final do programa de reforma urbana e sanitária que transformou o Rio de Janeiro no sentido da modernidade cosmopolita: a construção do novo porto; a construção de avenidas retilíneas e largas – como Francisco Bicalho, Rodrigues Alves, Avenida Central e Beira-Mar; o aterramento de enseadas e praias; o desmonte do morro do Senado e parte do morro do Castelo; a abertura e embelezamento de praças e jardins – Praça Quinze, Tiradentes, Passeio Público e Campo de Santana; a derrubada de milhares de casas e habitações coletivas e a campanha de saneamento.

A abertura dos portos ao livre comércio (1808) e mais tarde a declaração de independência (1822) romperam o pacto colonial Brasil-Portugal e inseriram o país na rede das economias capitalistas globais contemporâneas.

 

Imagem do original

Imagem do original do Decreto de Abertura dos Portos às Nações Amigas

 

Os governos republicanos perceberam que realizar exposições universais em comemoração ao centenário de datas nacionais históricas conquistava corações e mentes para a integração de brasileiros dentro de um ideário de país moderno que começava o novo século XX, livre do atraso da monarquia e da escravidão.

A Exposição Nacional de 1908 foi uma celebração do comércio e desenvolvimento industrial que exibiu um “inventário” do Brasil através dos produtos industriais, agrícolas, pastoris e artísticos montados no Palácio da Indústria, no Palácio dos Estados, no Pavilhão do Distrito Federal e nos pavilhões de São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Santa Catarina. E também mostrou a modernização dos novos serviços públicos municipais e federais entre eles  o Pavilhão do Corpo de Bombeiros, o Pavilhão dos Telégrafos e Correios, o Jardim Botânico, o Pavilhão do Café e Cacau, a Inspetoria de Matas e Jardins. Após o encerramento da Exposição, todos os prédios foram demolidos com exceção do Palácio dos Estados e do Pavilhão das Máquinas.

O único país estrangeiro participante foi Portugal, que construiu o Palácio Manuelino e um segundo pavilhão menor chamado Anexo Belas Artes.

 

 

Margareth Silva Pereira (2010) argumentou que durante o século XIX diversos modos de olhar foram se desenvolvendo e educando visualmente as populações das cidades. Entre eles estão os panoramas, os álbuns pitorescos, as exposições universais, as fotografias, os postais e o cinematógrafo.

Essas exposições universais eram os grandes espaços educativos onde as massas urbanas aprenderam a olhar, comparar e julgar países e culturas baseados em construções efêmeras com estilos neogótico, neomourisco, neo greco-romano – pavilhões e palácios – e também no desenvolvimento técnico dos produtos. Ao flanar pelos espaços, o visitante construía uma hierarquia de avaliação do progresso e civilidade das atividades humanas de diferentes regiões numa perspectiva evolucionista e eurocêntrica.

Em 1851, em Londres, a indústria privada organizou a primeira Exposição Universal como uma grande feira com pavilhões e milhares de estandes que mostraram atividades manufatureiras, industriais e comerciais de vários países em quatro seções – matéria prima, máquinas, manufaturas e belas artes. O ineditismo da mostra e a monumentalidade do prédio temporário feito de ferro, madeira e vidro, que ficou conhecido como Palácio de Cristal, – espaço e símbolo de um sistema industrial – atraiu milhões de visitantes.

Em Paris, em 1855, a Exposição Universal teve dimensões novas: foi organizada pelo Estado e, além do Palácio da Indústria e da Galeria das Máquinas, foi construído um pavilhão especializado para abrigar um Salão de Belas Artes com parte das obras vindas do Museu do Louvre.  O Salão influenciou a abertura de várias escolas de desenho com o intuito de desenvolver a capacidade técnica dos artesãos e artistas para ampliar a oferta de objetos artesanais e manufaturados.

Os visitantes passeavam pelos pavilhões e galerias comparando naturalmente culturas remotas, mundos urbanos e costumes rurais de todos os continentes que eram exibidos lado a lado, conforme a descrição de Margareth Pereira (2010): o rito do chá no Japão, o uso dos narguilés de Istambul, o modo de vida dos marajás, da África aos Bálcãs, de Liverpool a Viena.

Essa comparação das culturas e povos baseada numa visualidade de objetos e edifícios consolidou novas ações: exibir, admirar e consumir. Os países exibiam produtos manuais, industriais, artísticos e invenções locais e exóticas que atraíam admiradores/consumidores e possibilitavam contatos entre técnicos, artistas e cientistas, consolidando um liberalismo que valorizava o comércio, a racionalidade e a tecnologia.

 

 

Os países ou estados ou regiões apresentavam na exposição o conjunto de trabalhos manuais, mecânicos e artísticos – a indústria – que eram divididos em classes, gêneros e tipos de atividades com uma organização hierárquica que ao fim e ao cabo privilegiava o progresso versus o atraso; a civilização versus a barbárie.

Durante todo século XIX, o Brasil participou com pavilhões nacionais das Exposições Universais na Europa e nos Estados Unidos.  Essas exposições universais são estimuladas inicialmente pelo avanço do transporte marítimo, do sistema ferroviário, dos telégrafos e serviços postais e depois pela eletricidade, telefonia e automóvel que desenvolveram redes de intercâmbios econômicos e culturais.

No Brasil, a Exposição de 1908, que comemorava a abertura dos portos, foi uma celebração das redes internacionais de comércio e do modo de vida capitalista e industrial que se consolidou no século XX.  Ela representou um inventário de todo o país que possibilitou uma reflexão interna sobre os problemas e questões para o estabelecimento de políticas públicas tendo em vista suas potencialidades.

Na presidência de Afonso Pena (1847 – 1909), o ministro da Indústria, Comércio, Viação e Obras Públicas Miguel Calmon (1879 – 1935), o prefeito Marcelino de Souza Aguiar (1855 – 1935) e uma Comissão Construtora chefiada pelo engenheiro José Sampaio Corrêa (1875 – 1942) escolheram na Urca, na zona sul da cidade, numa região entre a Praia da Saudade (atual Avenida Pasteur) e a Praia Vermelha, um grande terreno entre o morro da Urca e o morro da Babilônia para sediar a Exposição Nacional de 1908. O terreno tinha 182.000 m², sendo que 140.000 m² foram destinados para os palácios e pavilhões temporários entre a Porta Monumental e o Palácio da Indústria; e 42.000 m², entre o Palácio da Indústria e a Praia Vermelha, foram escolhidos para o setor de diversões do evento.

Entre o mar e a montanha, a área da Exposição de 1908 foi valorizada pelas belas paisagens e pelo plano de urbanização de Sampaio Correa (1875 – 1942), que realizou grandes aterros hidráulicos com valorização dos terrenos da orla da Urca. A fim de facilitar o acesso dos visitantes, a Inspeção de Obras Públicas construiu a Estação Marítima, no cais da Urca, que recebia as barcas da Cantareira, e uma Estação da Companhia Ferro-Carril Jardim Botânico para os bondes elétricos da Light.

 

 

Na região existiam, na Praia da Saudade, apenas duas instituições construídas em prédios neoclássicos, no século XIX, em pleno funcionamento: o Hospício de Alienados D. Pedro II (atualmente abriga o Fórum de Ciência e Cultura e quatro unidades acadêmicas da UFRJ) e o Instituto Benjamin Constant, que prestava assistência a deficientes visuais.

Mas existiam dois edifícios federais vazios que podiam ser aproveitados para sediar os dois palácios mais importantes da Exposição de 1908 – o Palácio das Indústrias e o Palácio dos Estados. Um era o prédio da antiga Escola Militar construído em 1864, na Praia Vermelha, e o outro, na Praia da Saudade, era uma construção que fora projetada pelo engenheiro Antônio de Paula Freitas (1843 – 1906) para ser uma universidade, com pedra fundamental lançada na presença de dom Pedro II (1825 – 1891), em 1881, mas cujas obras foram interrompidas por falta de recursos.

O arquiteto René Barba (18? -19?) projetou o Palácio das Indústrias reconstruindo o prédio da antiga Escola Militar com redução do corpo principal e desenhando jardins no lugar dos corpos demolidos. O projeto deu ao edifício uma aparência exuberante com novas fachadas, cúpula central e uma fonte com chafarizes em forma de castelo de águas. O Palácio das Indústria foi um dos prédios demolidos após o encerramento da Exposição de 1908.

O engenheiro Sampaio Correa (1875 – 1942) dirigiu as obras do Palácio dos Estados que ocupou o antigo edifício universitário abandonado de 1881 e, com a participação do arquiteto Francisco Isidro Monteiro (18?-19?), redesenhou as plantas de Paula Freitas (1843 – 1906). O novo prédio adquiriu um corpo central com três pavimentos, corpos recuados com dois andares e uma escadaria de granito na fachada principal com degraus ladeados por pedestais com dois leões no lado externo e duas águias em cimento na parte interna.

O Palácio dos Estados tinha uma dupla função e caráter: espaços monumentais de exposição com estandes com produtos de todos os estados da Federação exibidos nos dois pavimentos e espaços de luxo nos salões de festas e recepções da elite política brasileira. Com estilo neoclássico e ornamentos e composição de características greco-romanas, foi mantido após o encerramento da Exposição de 1908 e atualmente abriga a CPRM – Comissão de Pesquisa de Recursos Minerais, empresa vinculada ao Ministério das Minas e Energia.

A Porta Monumental era um arco do triunfo simbólico, que tinha o caráter da suntuosidade e a função de entrada com roletas separadas do público e de autoridades, localizando-se próxima ao muro do Instituto Benjamin Constant e ao início do cais da Urca.  Ela fazia o fechamento da principal avenida da exposição, a Avenida dos Estados (atual Avenida Pasteur) que se estendia por 560 m até o Palácio da Indústria, com os pavilhões e palácios às suas margens e com pequenas ruas e avenidas transversais, que foram nomeadas com datas históricas republicanas.

O Distrito Federal e os estados de São Paulo, Minas Gerais, Bahia e Santa Catarina edificaram pavilhões individuais; a indústria têxtil estava representada pela  fábrica Bangu e, as atividades agrícolas, pela Sociedade Nacional de Agricultura.

As imagens produzidas pelo fotógrafo da prefeitura do Rio de Janeiro, Augusto Malta, exibem construções majestosas de diferentes estilos arquitetônicos erguidas em madeira, estuque ou concreto, idealizadas pelos arquitetos e engenheiros Raphael Rebecchi (1?-1922), René Barba (18? – 19?) e Francisco Oliveira Passos (1878 – 1958), que participaram da construção dos prédios da Avenida Central (atual Avenida Rio Branco) ou concorreram no concurso de fachadas.

Para realizar seu trabalho, Malta utilizava câmaras que usavam grande formato de negativo (24×30 cm, 18x24cm ou 13x18cm), em chapas de vidro à base de gelatina, onde escrevia com nanquim o local, a data e o número e, eventualmente, legendas-comentários sobre o tema da foto, além de sua assinatura.

O conjunto dos pavilhões e palácios da Exposição formou um cenário de encantamento que atraiu um grande público fascinado pelo exotismo e extravagância da arquitetura e pela queima de fogos de artifício; festas e bailes; batalhas de flores; espetáculos de teatro e música realçados pela novidade da iluminação feérica dos espaços. Durante os três meses de duração, a exposição foi visitada por um público de cerca de um milhão de pessoas seduzidas pelos espaços de lazer e entretenimento: cinematógrafo, teatros, ringue de patinação, restaurantes, quiosques e coretos.

Para Gustavo Rocha-Peixoto (2000), marcadas pela arquitetura do Ecletismo, as edificações efêmeras da Exposição associaram estilos de diferentes origens e tempos históricos, possibilitando que os visitantes realizassem uma viagem romântica sonhadora e fantasista.

O belo ensaio de Renato Gomes (2008) sobre o Rio de Janeiro nos leva a refletir sobre como as fotos de Augusto Malta legitimaram e difundiram simbolicamente o sonho da cidade moderna, cosmopolita, higiênica, feérica feito pelos donos do poder representando os tempos modernos e encenando a oposição civilização/barbárie que se desdobra em progresso/atraso, novo/velho, sublime/grotesco, alto/baixo.

No centro da cena, ficou a cidade ideal da Exposição de 1908 e sua cenografia que era um modelo da elegância, civilização, um novo modo de vida e uma nova sociabilidade urbana: prédios com estilos arquitetônicos ecléticos; postes de iluminação que facilitavam o divertimento noturno; restaurantes elegantes, jardins, coretos e quiosques, e uma avenida pavimentada e larga para o footing.

 

Porta Monumental 

 

 

Ruth Levy (2008) analisou em profundidade a arquitetura dos palácios e pavilhões da Exposição de 1908 afirmando que o arquiteto René Barba construiu a Porta Monumental da Exposição de 1908 em madeira, com inspiração na Porta da Exposição de Paris, de 1889. Na chegada, os visitantes eram impactados pela imponência e suntuosidade da composição – um arco central de 16 m de altura com apoio em dois pilares de cada lado e, nas extremidades, outros dois grandes pilares que eram encimados por dois torreões com flechas alongadas. Em cima do arco, as armas da República eram valorizadas por um grupo de lâmpadas elétricas que compunham, à noite, a iluminação feérica da Porta.

A Avenida dos Estados (atual parte da Avenida Pasteur), com 30 m de largura e 560 m de extensão, partia da Porta Monumental e conduzia os visitantes aos diversos pavilhões dos estados e à praça em frente ao castelo de águas do Palácio da Indústria. 

 

Palácio da Indústria

 

 

O arquiteto René Barba criou novas fachadas e conservou o pavimento térreo como base para o novo Palácio da Indústria. Na cúpula principal, havia a alegoria da Fama e, no centro da fachada principal, via-se um elemento emblemático das exposições universais: uma fonte luminosa com chafarizes formando um castelo de águas sinuoso, com seis bacias em planos sucessivos com repuxos. Antes de 1908, esse edifício foi uma fortaleza do século XVIII e mais tarde, em 1864, o prédio abrigou as instalações da Escola Militar. No momento da Exposição de 1908, ele estava disponível e foi reconstruído para sediar o Palácio da Indústria quando sofreu uma redução do corpo principal – área de 200 m de comprimento e 12 m de largura – que possuía dois lados, uma face voltada para a Praia da Saudade (atual Avenida Pasteur) e outra voltada para a Praia Vermelha. Quatro esculturas de sereias ornamentavam as bacias e, nas laterais, duas escadarias que conduziam à entrada mostravam esculturas de alegorias do Trabalho e do Progresso, com assinatura da artista Nicolina de Assis (1874 – 1941). Esse Palácio foi decorado com ornamentos típicos do ecletismo e não tinha vínculos com avanços da indústria brasileira no ramo da construção, ao contrário dos similares estrangeiros edificados em exposições universais de Londres e Paris.

 

Pavilhão do Distrito Federal 

 

 

O Pavilhão do Distrito Federal foi construído na praça que ficava no centro do terreno da Exposição de 1908, com área de 1.100 m², pelo engenheiro Francisco Oliveira Passos, também responsável pelo projeto do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. O edifício possuía ampla rotunda com uma cúpula em vidro transparente com uma flecha encimada pela bandeira do Distrito Federal; sua decoração era sóbria e os ornamentos eram as armas municipais e a alegoria da República, representada por uma cabeça feminina.

Os dois pavimentos do edifício possuíam salas de exposição que exibiam as realizações dos gestores municipais nos setores da saúde, educação primária e profissional e obras urbanas, além de um salão central, salas do Prefeito e do Comissário do Distrito Federal e outras destinadas às autoridades.

 

Pavilhão de Minas Gerais e Pavilhão de São Paulo

 

 

O edifício do Pavilhão de Minas Gerais foi considerado sem estilo definido, mas com uma ornamentação marcada pela riqueza e elegância, composta de escadaria, torre, estatuária e fontes. Com área de 650 m², foi projetado pelo arquiteto Raphael Rebecchi com um torreão de 62 metros encimado por um intenso foco luminoso. A construção possuía um corpo central e dois laterais com fontes debaixo dos arcos das galerias internas que ligavam os salões; e dois pavimentos: o primeiro foi destinado à exposição de produtos e, no segundo, ficavam os salões de recepção e festa.  Nos corpos laterais destacavam-se duas figuras femininas que dominavam cavalos no espaço.

O Pavilhão de São Paulo foi premiado no Concurso de Pavilhões promovido pelo Jornal do Comércio junto ao público. Era o maior e mais luxuoso pavilhão com 1.500 m² de área e foi projetado por Ramos de Azevedo e Ricardo Severo e executado pelo arquiteto Domiziano Rossi. Maior que o Pavilhão do Distrito Federal, ele possuía uma base octogonal com duas entradas principais e, no centro, existia uma grande cúpula de 35 m de altura encimada por um holofote que iluminava os vidros opalinos da construção. Exibia uma decoração opulenta com esculturas, relevos e doze cúpulas. Apresentava salas destinadas às festas, conferências, recepção às autoridades e exposições de produtos e também uma sala que exibia outro modo de olhar: um grande panorama da cidade de São Paulo feito pelo fotógrafo Valério Vieira (1862 – 1941), com onze metros de extensão.

Os produtos de São Paulo eram tão amplos e diversificados que foram usadas alas em dois andares do Palácio dos Estados, com estandes e quiosques que exibiram, além da produção agrícola, tecidos, maquinário, couro, cerâmica e desenhos arquitetônicos.

 

Teatro João Caetano

 

 

Com projeto de Francisco Isidro Monteiro, o Teatro João Caetano foi construído em madeira revestida de estuque ocupando uma área de 870 m² com capacidade para 800 espectadores. Vários espetáculos do dramaturgo Arthur Azevedo (1855 – 1908) foram montados num espaço confortável organizado em platéia, galeria e camarotes. A decoração interna em tons de verde e com capitéis dourados foi realizada por Raul Pederneiras (1874 – 1953) e equipe.

 

Pavilhão da Fábrica Bangu

 

 

O Pavilhão da Fábrica Bangu foi construído pelos operários e mestres da fábrica de tecidos como uma pequena mesquita mourisca com quatro cúpulas. O diretor técnico da empresa José Villas Boas idealizou o projeto e Martinho Dumiense – formado pela Escola de Belas Artes – encarregou-se da decoração do prédio. Os produtos foram exibidos em vitrines confeccionadas pelos artesão da fábrica dentro de um salão com paredes e teto de revestidos de tecido.

 

Pavilhões das Máquinas

 

 

O Pavilhão das Máquinas estava localizado atrás do Palácio dos Estados e o edifício possuía uma planta retangular que formava um grande salão medindo 30m x 50 m.  O conjunto dos maquinismos era formado por máquinas americanas e máquinas de beneficiamento de arroz e café.  Ao contrário dos pavilhões das máquinas de exposições internacionais que demonstravam pujança industrial e prédios de arquitetura arrojada e grandiosa, o pavilhão da Exposição de 1908 é muito modesto e convencional.  O prédio foi mantido e embora esteja muito descaracterizado, atualmente ele abriga a Escola de Teatro da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio).

 

Anexo Belas Artes

 

 

O Pavilhão de Portugal chamado Palácio Manuelino abrigou os produtos da indústria portuguesa mas foi considerado insuficiente para mostrar também as obras de arte que foram alocadas num novo pavilhão menor: o Anexo Belas Artes. Os quadros e esculturas compuseram a decoração rica e magnificente do anexo, assinada por Jorge Colaço.

 

Panoramas e vistas 

 

Grande apreciador da linguagem dos panoramas − paisagens em grande perspectiva vistas à distância − Augusto Malta registrou com uma câmara especial de lenta velocidade a Porta Monumental, o Palácio dos Estados, o Palácio da Indústria, o Pavilhão do Distrito Federal, o Pavilhão de São Paulo, o Pavilhão de Minas Gerais, o Pavilhão da Bahia, o Anexo Belas Artes, o Pavilhão da Fábrica Bangu e a exposição do Jardim Botânico. Além de panoramas e vistas que mostram o morro da Urca, o morro da Babilônia, o morro do Pão de Açúcar, a Baía de Guanabara, a praia Vermelha e a praia da Saudade (atual Avenida Pasteur). Ao longo do tempo, essas imagens dotadas de forte aura foram sendo divulgadas em postais e livros sobre a história do Rio de Janeiro.

 

 

 

 

 

 

 

*Carla Costa é historiadora do Museu da República

 

Fontes: 

GOMES, Renato Cordeiro.  Todas as cidades, a cidade: literatura e experiência urbana. Rio de Janeiro: Rocco, 2008.

LEVY, Ruth.  Entre palácios e pavilhões: a arquitetura efêmera da Exposição Nacional de 1908.  Rio de Janeiro: EBA/UFRJ, 2008.

PEREIRA, Margareth da Silva. A exposição de 1908 ou o Brasil visto por dentro. In: ARQTEXTO 16. 2010. Acesso em 14/03/2018.

ROCHA-PEIXOTO, Gustavo. O ecletismo e seus contemporâneos na arquitetura do Rio de Janeiro. In: CZAJKOWSKI, Jorge (org.). Guia da arquitetura eclética no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Centro de Arquitetura e Urbanismo, 2000.

 

Acesse pela Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional O Álbum de Exposição 1908.

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A Praça XV na coleção Família Passos

A Brasiliana Fotográfica destaca, a partir de um texto do pesquisador Paulo Celso Corrêa, do Museu da República, uma das instituições parceiras do portal, uma série de imagens pertencentes à coleção Família Passos/Museu da República retratando a Praça XV de Novembro. São registros de autoria do alagoano Augusto Malta (1864 – 1957), fotógrafo da prefeitura do Rio de Janeiro entre 1903 e 1936. As imagens foram reproduzidas em cartões postais que, no início do século XX, eram um meio popular de circulação e difusão em massa da fotografia.

A Praça XV na coleção Família Passos

Paulo Celso Corrêa*

Esta série de imagens pertencentes à coleção Família Passos/Museu da República retrata a Praça XV de Novembro, no Rio de Janeiro, que acabara de receber alterações urbanísticas promovidas pela administração do prefeito Pereira Passos (1902-1906). De autoria de Augusto Malta(1864 – 1957), as fotos foram reproduzidas em cartões postais, três dos quais foram enviados por Passos a suas netas Maria e Ernestina. No início do século XX, os postais eram um meio popular de circulação e difusão em massa da fotografia, numa época em que jornais e revistas ainda não dispunham de meios técnicos para reprodução de imagens em grande quantidade. Os postais mostravam cenas da paisagem urbana e do cotidiano de seus habitantes, servindo como lembrança de viagens e fonte de informações e entretenimento.

Acessando o link para as fotografias da Praça Quinze de autoria de Augusto Malta pertencentes  à coleção Família Passos/Museu da República disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

A circulação de imagens do Rio de Janeiro nesse formato servia também como propaganda das grandes obras promovidas na cidade pelo governo do presidente Rodrigues Alves e pela prefeitura do Distrito Federal, a cargo de Pereira Passos. Os postais representavam o Rio de Janeiro como uma capital moderna, urbanizada, integrada cultural e economicamente na ordem internacional capitalista, a despeito de o Brasil continuar a ser economicamente agroexportador, de população ainda majoritariamente rural e analfabeta. O caráter oficioso das imagens é reforçado pelo olhar de Augusto Malta sobre a cidade, como fotógrafo oficial da prefeitura. Nos postais aqui apresentados, Malta retratou uma região tradicional da cidade do Rio de Janeiro, que na administração Pereira Passos recebeu tratamento urbanístico com o plantio de árvores, instalação de postes de iluminação, a inauguração de um coreto e o início da construção da nova estação das barcas Rio-Niterói e de um Mercado Municipal, ambos em 1904.

A região do centro do Rio de Janeiro conhecida como Praça XV de Novembro surgiu ainda no século XVII, a partir da expansão da ocupação do Morro do Castelo rumo às áreas pantanosas adjacentes. Primeiramente, foi chamada Terreiro do Ó, devido à ermida de Nossa Senhora do Ó, de 1585; depois, Terreiro da Polé, já que ali havia um pelourinho para açoite de escravos. O nome posterior de Largo (ou praça) do Carmo surgiu no século XVII devido à presença do convento e das igrejas da Ordem Terceira do Carmo, incluindo aquela que em 1770 se tornou a primeira Sé do Rio de Janeiro. Mais tarde, a região passou a se chamar Largo do Paço pois ali se encontrava o edifício que foi residência dos Governadores Gerais (1743), dos Vice-Reis (1763), da Corte Real portuguesa (1808) e do Império (1822). O nome atual, Praça XV de Novembro, foi oficializado em 21 de fevereiro de 1890 para homenagear a data da proclamação da República e, do ponto de vista simbólico, reafirmar o novo regime em um espaço que havia sido o centro dos poderes econômico, religioso e administrativo da colônia e do Império.

Uma dos elementos mais característicos da região é o Chafariz da Pirâmide, de autoria do Mestre Valentim, construído nos anos 1750 para abastecer de água os trabalhadores e as embarcações que ancoravam próximo ao cais, quando o mar ainda chegava até ali. Esse cais, por sua vez, foi o primeiro da cidade do Rio de Janeiro e, por ali, chegavam e partiam navios de todos os tipos, transportando mercadorias, viajantes e escravos. Posteriormente, passou a ser conhecido como Cais do Pharoux por causa do luxuoso Hotel Pharoux, ali instalado na primeira metade do século XIX por um imigrante francês que deu seu sobrenome ao estabelecimento. Na área do cais, de um lado, estava a praia do Peixe, onde existia o Mercado Municipal da Candelária (1841), ao qual se refere o nome da atual Rua do Mercado; e, do outro lado, a praia de Dom Manuel. Já o Arco do Teles, que liga a Praça XV à Rua do Ouvidor, data do século XVIII, quando o juíz português Antônio Telles Barreto de Menezes ali construiu um conjunto de casas destinadas ao aluguel do comércio e da gente de alta sociedade.

 

Descrição das fotos

1

 

O fotógrafo está posicionado no cais, olhando em direção à Igreja da Candelária, cuja cúpula e torres aparecem ao fundo da foto. Em primeiro plano aparece o chafariz monumental em ferro fundido de Louis Sauvageau, comprado em Viena em 1878 por D. Pedro II, depois transferido para a Praça da Bandeira devido à construção do viaduto da Perimetral e, finalmente, para a praça que antes abrigava o Palácio Monroe na Cinelândia, onde se encontra atualmente. Logo atrás, se vê o chafariz do Mestre Valentim. Alguns transeuntes aparecem na cena, dois deles com um carro de cargas, um outro com um feixe de feno nas costas; provavelmente são trabalhadores nas obras da estação das barcas. Nota-se que várias árvores jovens foram plantadas ao redor da praça. Ao fundo, à esquerda, se vê a entrada do Arco do Teles. Em meio aos telhados, é possível ver a torre da Igreja da Boa Lapa dos Mercadores e a cruz da Igreja de Santa Cruz dos Militares.

Carimbo no verso com a data 30/04/1904.

Indicação de fabricação pela Societé Lumiére – Lyon, França, de propriedade da família de mesmo nome, especializada em cinema e fotografia.

 

2

 

 

Um aspecto do Cais Pharoux remodelado, com árvores ainda jovens e postes de iluminação. Algumas pessoas estão paradas na murada à beira-mar. No fundo, é possível ver a Ilha das Cobras. Data manuscrita no postal: 08/01/1904.

 

3

 

 

Foto tirada em direção ao mar, mostrando o estágio inicial de construção da estação Cais do Pharoux das barcas Rio-Niterói, obra que só seria concluída em 1912. No mar, ao fundo, se veem várias embarcações e a Ilha Fiscal.

Carimbo no verso com a data 30/04/1904.

Indicação de fabricação pela Societé Lumiére – Lyon.

 

4

 

 

 

Foto tirada a partir da rua Primeiro de Março provavelmente da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, primeira Sé do Rio de Janeiro em 1770. Em primeiro plano, aparece a praça onde ao centro está o monumento ao General Osório, de autoria de Rodolfo Bernardelli e inaugurado em 12 de novembro de 1894. Alega-se que este foi o primeiro monumento público inaugurado após a proclamação da República; ironicamente, homenageia um herói militar do Império, no largo que sediava o poder imperial.

À esquerda, se vê parte do telhado do Hotel de France, na esquina com a rua Primeiro de Março, onde vários carros de aluguel puxados a cavalo aguardam passageiros. Do lado direito desta primeira praça, ao fundo, aparece o Paço Imperial, que nessa época abrigava a Repartição Central dos Correios e Telégrafos. Em segundo plano, há uma praça menor ao redor do chafariz do Mestre Valentim e, ao lado, o coreto inaugurado em 1903. A presença de um coreto era a marca de uma nova idéia de ocupação do espaço público, voltada para hábitos cívicos, culturais e artísticos. Ao lado do coreto, no mesmo plano, se vê o prédio da Secretaria de Indústria, Viação e Obras Públicas.

Em direção ao mar, se vê o chafariz de Sauvageau e o cais Pharoux, ao fundo. Ainda não é possível ver as torres do Mercado Municipal, que começou a ser construído em 1904 mas só seria concluído em 1907. O postal tem uma legenda com o nome da praça e do fotógrafo Augusto Malta.

Não há destinatário ou selo no verso deste postal.

Na coleção do Instituto Moreira Salles no acervo da Brasiliana Fotográfica há uma foto de 12 de novembro de 1907, tirada do mesmo ângulo e lugar que esta, onde é possível observar algumas diferenças, como as árvores que já estão crescidas e as torres do Mercado Municipal que já aparecem ao fundo.

 

 

 

*Paulo Celso Corrêa é pesquisador do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República/IBRAM